Domingo, 24 de Setembro de 2017

Por terras da Ibéria:- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca (Ida e volta) - III Parte

 

 

POR TERRAS DA IBÉRIA


CAMINHADA - DO PORTO DE SANÁBRIA A PEÑA TREVINCA (IDA E VOLTA)


III PARTE


EPÍLOGO

 

 


Há um lugar, lá onde o mundo acaba,
Muito próximo do céu.
Um espelho de sol e solidão onde,
quanto te sentes e olhas dentro de ti,
quando deixas que o silêncio se apodere do mundo,
começas a ouvir uma melodia.
Se a escutares,
entre aquelas paredes e agulhas que parecem sair do mais obscuro pesadelo,
começam-se a desenhar os caminhos,
os trilhos da imaginação estendem-te uma mão que te convida a entrar,
a entrar nesse mundo de magia onde nada,
realmente nada é impossível.


El sentimento de la montaña
Eduardo Martínez de Pisón
Sebastián Álvaro


Quanto maior é a dificuldade,
maior é a glória.


Marco Túlio Cícero

00.- Nómadas - Transumância-2

(Foto de Jose Antonio Pascual)

A partir da nascente do rio Xares, o cume de Peña Trevinca já não se nos apresenta como uma miragem. Ele está mesmo ali ao nosso alcance!

01.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (247)

Bastava um pouco mais de esforço e tínhamo-lo a nossos pés!

02.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (256)

Pablo deixa-se ficar para trás, esperando por nós. E nós cogitávamos, trazendo à lembrança leituras feitas sobre estas paragens.


Aqui, em Peña Trevinca, e no seu cume, confluem 5 serras: Eixe, Mina, Cabreira, Calva e Segundeira, formando um maciço montanhoso que ultrapassa os 2 000 metros (o maciço galaico-leonês). O cume de Peña Trevinca está situado a sudeste da província de Ourense, localizado na comarca de Valdeorras, nos limites municipais de A Veiga e Carballeda.
Este local constitui o limite provincial de Ourense (Galiza) e de Zamora (Castela e Leão).


Segundo o Instituto Geográfico Nacional espanhol, o cume de Peña Trevinca tem a altitude de 2 127 metros, sendo, assim, considerado o pico (na serra do Eixe, outras dizem que na Segundeira) com maior altitude na Galiza e da província de Zamora.

03.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (260)

E recordávamos a leitura de um Boletim da Província de Zamora. Lia-se naquele opúsculo com a designação «Nómadas – Transhumantes de Aliste», de 1 de julho de 2016:
Uma província como a de Zamora, conhecida pelo seu caráter pecuário, e uma das primeiras produtoras nacionais de gado ovino, tem de reconhecer, de uma forma especial, o trabalho de quem tornou possível, ao longo dos séculos, a atividade pastorícia – os pastores” (Tradução livre do autor).


Num texto, na mesma local, Marcos Antón, escrevia:
A origem ancestral da transumância na serra sanabresa tem a sua origem nas tribos celtas que habitavam esta comarca da província de Zamora. Povos que essencialmente se dedicavam à pastorícia fizeram da serra de Sanábria um lugar de passagem e de pasto na rota que unia o noroeste da península, desde a serra do Porto, fronteira natural entre Ourense e Zamora (…) Com a romanização da Península, e o aproveitamento dos caminhos celtibéricos, a periódica e bianual viagem levou à criação de vias pastoris que estão na base, em muitas ocasiões e locais, no estabelecimento das calçadas romanas.
Na era visigótica, o caráter transumante e pastorício continuou a desenvolver-se. Na Idade Média, e mais concretamente no reinado de Afonso X, com o estabelecimento do «Concello da Meseta», os caminhos de pastoreio transumante da ovelha merina de erva branca ficaram finalmente fixados (e legislados).
Os primitivos caminhos de pastorícia sanabreses foram incluídos com o nome de «Caña Real del Oeste», que decorre de norte a sul da Península (…) Um ofício milenar que hoje está votado ao desaparecimento, com a modernização do campo. Contudo, uns poucos pastores continuam a “resgatar”, em cada verão, esta ancestral prática (…)” (Tradução livre do autor).


Fizemos questão de, aqui, e neste fim de reportagem da caminhada, referir o caráter transumante e pastoril destas paragens. Porque, precisamente neste local,

04.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (258)

enquanto fazíamos uma curta paragem antes de atacarmos os últimos metros que nos levariam

05.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (271)

ao mais alto pico do Maciço de Trevinca (Peña Trevinca), Alfonso, um homem alto, possante, de olhos azuis, um verdadeiro e lídimo descendente e representante das tribos celtas de antanho, que por aqui andaram, orgulhoso, fez questão de nos acabar por contar a história de vida de seu pai, enquanto pastor transumante.


Exatamente neste lugar, antes do último folgo para atingir o cume,

06.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (265)

o senhor Martín Granja, seu pai, de Porto de Sanábria, há seis anos, com 80 anos, juntamente com o filho e mais uns amigos do Porto, fizeram o caminho da subida a Trevinca. Alfonso pensava que seu pai, com 80 anos, não aguentaria a caminhada, mas, devagarinho, chegaram aqui.


Naquele dia, conta Alfonso, havia um grande número de caminheiros-gaiteiros, que vinham da Galiza, mais propriamente de Viana do Bolo e do Barco de Valdeorras.


Entabulou-se conversas entre estes intervenientes e o grupo que vinha do Porto de Sanábria.


Seu pai, Martín, contou-lhes coisas da sua vida por aquelas serras quando era pastor. Gerou-se um clima forte de empatia entre os gaiteiros-galegos e o senhor Martín.


De uma forma totalmente casual e espontânea, e inesperada, os gaiteiros começaram a tocar umas canções, dedicando-as ao senhor Martín.


Martín, pai de Alfonso ficou vivamente emocionado. Foi a melhor homenagem que as gentes do povo irmão galego faziam ao último pastor transumante do Porto de Sanábria.


Estão em dívida as entidades oficiais de Zamora (de Castela e Leão) para, devidamente, homenagearem os antigos pastores transumantes destas terras, que estão vivos! Homenagem bem merecida a homens que tanto amaram e amam estas serras, embora nelas tenham tido uma dura vida.


Quisemos saber mais sobre este personagem singular, o senhor Martín Granja, hoje com 86 anos.


Alfonso, seu filho, teve a amabilidade de nos enviar a sua foto recente,

06a.- Martín 05

bem assim uma outra, na sua residência, em a A Veiga,

06b.- Martín 06

tendo, à sua direita, Agustina, sua mulher; de pé, Inês, e sentada, Prudência, boas amigas da família.


Eis o senhor Martín Granja, nascido a 23 de julho de 1931, quando, em 1952, era militar de artilharia, no quartel de Valladolid.

06c.- Martín 01

Deixamos aqui uma foto de Martín com seus amigos, nos anos 50, antes de ir para a tropa, na feira de Zafra. Apesar de não se encontrar em bom estado, é digna de ser publicada, porquanto faz parte da vida deste bravo pastor transumante das serras do Maciço de Peña Trevinca.

06e.- Martíin 02

(Martín Granja, primeiro à direita, seguido de José, o “Capitán” e o Manel, o “Mato”)


E, finalmente, o senhor Martín, em 1950, na feira de Zafra, com um dos seus cães “mastines”.

06d.- Martín 03

E começámos a subir os últimos metros que nos faltava para atingir a “cumbre” de Peña Trevinca.


Enquanto subíamos os últimos e íngremes metros, eis o vale glaciar onde nasce o rio Tera, já na província de Zamora, que, daqui, vai até ao Lago de Sanábria e, depois do Lago, se lance nos braços do Esla, afluente do rio Douro.

07.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (261)

Enquanto, arfando, subíamos, mais um lançar de olhos para descobrir e apreciar este profundo vale glaciar.

08.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (264)

Urko, desafiando Alfonso, trepa, correndo os últimos metros, no intuito de, sendo o nosso guia “oficial”, ser o primeiro a chegar ao cimo.

09.- 017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (276)

A meio da íngreme subida, olhámos para trás e, à nossa frente, o segundo pico mais alto do Maciço – Peña Negra.

10.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (278)

Alfonso - e mais uma vez este personagem tão intrincado e comprometido com a sua terra natal – conta-nos que era daquele pico que, antigamente, os habitantes de Porto (de Sanábria) extraíam as lousas para as diferentes construções na povoação: primeiro, eram os cavalos que arrastavam os enormes blocos de lousa até ao apertado vale encaixado entre Penã Trevinca e Peña Negra; depois, eram os carros de bois que as transportavam, vale abaixo, até à povoação.


Até que, finalmente, chegámos ao cume!

11.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (297)

Agora era tempo de contemplação, quer para o enorme vale do Tera,

12.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (281)

Quer para Peña Negra e o 3º pico maior do Maciço, que lhe fica à direita – Peña Surbia -,

13.- Vista-desde-Peña-Trevinca-1024x500

(Foto cedida por Urko Díaz)


Quer para oeste, deslumbrados das lonjuras das serras da terra Galega.

14.- PISAKAMPAS- TRAVESIA POR TIERRAS SANABRESAS. ASCENSION A PEÑA T-8 (Do blogue)

(Foto do Blog «PISAKAMPAS- TRAVESIA POR TIERRAS SANABRESAS. ASCENSION A PEÑA)

 

Cada um, a seu jeito, ia descansando e refletindo sobre a imensidão dos horizontes em que nossos olhos repousavam,

15.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (283)

Contemplando,

16.- FB_IMG_1504341458276 (Pablo)

(Foto cedida por Urko Díaz)


Seguiram-se as fotos da praxe: a do Alfonso, vitorioso por mais uma subida à “sua Peña”;

17.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (296)

A de Xosé Fernández, a descansar, de costas para o poderoso vale do Tera,

18.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (295)

E a dos dois “compinchas” – Xosé Fernández e Urko Díaz.

19.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (302)

Aproximando-se a hora da partida, pois já se fazia tarde, e tínhamos 18 quilómetros a percorrer pela frente, era o momento de se tirar a fotografia do grupo.


Urko prepara o tripé e a máquina.

20.- 017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (288)

E, ali, junto a uma tosca cruz de cimento, cuja natureza se encarregou de a derrubar,

21.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (282)

Urko tirou a fotografia do grupo que subiu com ele ao pico de Peña Trevinca.

22.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (290)

(Foto cedida por Urko Díaz)

E agora com ele.

22a.- received_1842634022419968 (Urko Díaz)

(Foto cedida por Urko Dí­az)


Na despedida, deixámos num “peto

23.- 135

o nosso nome. Para que conste que fomos um dos “escaladores” do pico mais alto da pátria galega, terra dos nossos irmãos hispânicos!


E se a subir ao cume de Peña Trevinca demorámos um pouco mais de 5 horas e meia, mais precisamente 5 horas e 37 minutos, conforme nosso app SHealth (Samsung Health) marcou,

23a.- SHealth_19_40_44_506 (002)

 apontando velocidade e elevação, embora o nosso GPS não estivesse aferido pelos instrumentos do Instituto Geográfico Nacional espanhol quanto a altura,

23b.- SHealth_19_40_08_654 (002)

 na volta,

24.- B_IMG_1504341658878 (Pablo)

(Foto cedida por Urko Dí­az)

 

porque a descer todos os santos ajudam, por entre as mesmas serras e palmilhando os mesmos vales por onde subíramos,

25.- FB_IMG_1504341744467 (Pablo)

(Foto cedida por Pablo Serrano)

apenas demorámos 4 horas a chegar ao local de partida – a Praça de Laguazais – já ao lusco-fusco.

26.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (335)

Chegados a Porto de Sanábria, era tempo de retemperar forças com umas boas tapas.

 

Depois de bem comidos e bebidos, por entre conversas trocadas com as gentes da terra, que, num bar da terra, aqui se apinhavam a comer e beber e conversar, havia que regressar a “penates”.


Mas, como nos tinha acontecido de manhã cedo, tínhamos antes pela frente que percorrer e ultrapassar uma estrada sinuosa e com péssimo piso.


Bem andam os habitantes de Porto que não se cansam em reivindicar melhor acessos aos seus lares!


Já bem basta os constrangimentos – apesar das poucas compensações que, quando vêm são parcas e tardias – impostos a estas terras, porque inseridas num território classificado como Parque Natural de Sanábria, quanto mais usarem uma estrada – e com outros meios de comunicação fracos – que os faz sentir que estão mesmo no fim do mundo, dando-lhes uma enorme sensação de lonjura e abandono!


Em jeito de despedida, aqui deixamos “unha grande aperta” aos nossos queridos companheiros de jornada: Pablo Serrano; Alfonso Granja Braña; Urko Díaz; Xosé Fernández e Antonio.


Bem hajam pela companhia no dia 5 de agosto, dia do “montanheiro”!

27.- Nómadas - Transumância-1(Foto de Jose Antonio Pascual)

 

 


publicado por andanhos às 13:46
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