Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2016

Palavras soltas... Travassos do Rio (e o Barroso) pela pena de Miguel Torga

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

TRAVASSOS DO RIO (E O BARROSO) PELA PENA DE MIGUEL TORGA

 

01.- NOC9137


De regresso a Chaves, vindos de Braga, pela Nacional 103, demo-nos conta que A. Tâmara Júnior se encontrava por terras de Montalegre.

 

Combinámos um encontro, ou em Sezelhe ou em Travassos do Rio, onde, juntamente com um seu amigo fotógrafo, andavam captando o que resta da «alma» barrosã.

 

Porque, nesta altura, os dias são pequenos, a visita a Sezelhe foi rápida.

 

Ficámo-nos de encontrar, assim, em Travassos do Rio, última aldeia a visitarem nesse dia.

 

Já não nos lembrávamos de ter estado nesta terra. É rica em lameiros,

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a julgar pelo gado bovino que vimos.

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Todavia, o que nos chamou mais a atenção, à entrada da aldeia, foi uma tabuleta indicando «Torre do Boi».

 

Dirigimo-nos ao Largo do Cruzeiro, onde, no Cruzeiro, impera um singelo relógio de sol.

04.- NOC9132

 
De pronto, demos de caras com esta torre.

05.- NOC9139


Na sua base, uma placa com a citação da parte do diário de Miguel Torga, escrita a 29 de Agosto de 1991, no seu último Diário.

 

Transcrevemos as palavras do nosso poeta maior transmontano:


Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991 - Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça dum toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.
Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.
Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe Coca-Cola, deixou de comer o pão centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado”.

 

Lidas estas palavras, podem-nos parecer uma espécie de insulto ao barrosão de hoje.

 

Não cremos, sinceramente, que tenha sido este o intento do nosso poeta maior, transmontano (alto-duriense). São palavras que fazem apelo à nossa consciência crítica quanto ao tipo de desenvolvimento que implementámos nos dias que correm.

 

Obviamente que não queremos voltar à extrema pobreza que nos arrancou dos braços da nossa querida terra barrosã, a mourejar pelos países da diáspora portuguesa, à procura de melhor qualidade de vida.

 

Não é a vida pobre e miserável, que este velho moinho simboliza, que devemos preservar. Mas ele faz parte da nossa história, da nossa memória. Devemos mantê-lo para nos lembrar donde viemos. A luta que tivemos de travar para aqui chegar.

06.- OC9174


Não é a substituição do colmo pelas telhas nas casas que servem de nosso ninho; nem, tão pouco, na nova e renovada igreja,

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que hoje, a nossos olhos, se apresenta bem vestida e de cara lavada, que nos indica que mudámos, e no sentido do progresso.

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Não. Não é nada disto que contestamos e pretendemos, e, a exemplo de Miguel Torga, por em crise.

 

O que constrange e entristece Miguel Torga, e a nós também, é a total perda de identidade da nossa qualidade de ser barrosão.

 

O termos sido - e alguns infelizmente ainda o são - pobres não deve ser motivo de nos levar a rejeitar os valores fundamentais das nossas próprias raízes, como os nosso modestos casebres.

09.- NOC9154-2

 
O que nos entristece é, positivamente, deixarmo-nos totalmente acultural pelos modos de vida dos novos senhores do Mundo - dos que, é certo, nos deram a vida a ganhar - deixando, contudo, para trás, com uma espécie de vergonha, aquilo que mais nos distinguia como portugueses e, especificadamente, barrosões.

 

Adotámos do «outro» o trivial da sociedade de consumo, desprezando, ou esquecendo, aquilo que outrora nos distinguia, que era motivo do nosso orgulho, que tornava nobre as nossas gentes.

 

Eramos pobres (e ainda alguns são), sim, mas, na essência, eramos, mulheres e homens, de um só costado, solidários, genuinamente comunitários, sabendo construir, com as agruras e a rudeza de um território, uma alma nobre, altiva, orgulhosa do seu terrunho, dos usos e tradições das suas gentes.

 

Hoje o Barroso é um completo contraste e uma verdadeira sombra do que era, pese, repete-se, embora certo «progresso» que patenteamos.

 

A raça, a força, a valentia e a galhardia, personificada no boi do povo de cada terra, verdadeiramente, já não existe mais.

 

Supomos que, quando Torga diz que somos «um nédio boi capado», outra coisa não quer significar senão a nossa total impotência para revertermos a situação em que nos encontramos e dotar o Barroso das qualidades que o distinguiam de todos os outros genuínos territórios portugueses.

 

E é pena!

 

Fica-nos esta memória, este símbolo - a Torre do Boi - para nos lembrar que, algures, em território português, existiu um povo que, para além de muitos outros valores e qualidades, tinha uma que as distinguia de todas as demais - a valentia do «antes quebrar que torcer», do seu modo de vida genuíno, diferente, que, constantemente, lhe persegue a consciência!!!...


nona


publicado por andanhos às 22:53
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