Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Palavras Soltas ... No Dia Mundial da Fotografia

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

NO DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA

00.- Nevada 1970 - Senhora da Saúde.jpg

 (A nossa primeira foto: Nevada de 1970, Senhora da Saúde, S. Pedro de Agostém/Chaves)


Citemos, neste Dia Mundial da Fotografia, pequenos excertos de três autores, de áreas bem diferenciadas, que nos falam sobre a fotografia, a modos de «palavras soltas...»:

 

“Diz-se muitas vezes que foram os pintores que inventaram a Fotografia (transmitindo-lhe o enquadramento, a perspetiva albertiana e a ótica da camara escura. E eu digo: não, foram os químicos. Porque o noema «Isto foi» só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade à luz dos sais de prata) permitiu captar e imprimir diretamente os raios luminosos emitidos por um objeto diferentemente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real que estava lá, partiram radiações que vêm tocar-me, a mim, que estou aqui. Pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem tocar-me como os raios emitidos por uma estrela. uma espécie de ligação umbilical liga o corpo da coisa fotografada ao meu olhar; a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que eu partilho com aquele ou aquela que foi fotografado” (Roland Barthes, 2006: A Câmara Clara. Notas sobre a fotografia, Edições 70, pág.s 90 e 91).

 

“No fundo - ou em última instância -, para se ver bem uma foto, o melhor é erguer a cabeça ou fechar os olhos. «A condição prévia da imagem é a vista», dizia Janouch a Kafka. E Kafka sorria e respondia: «As pessoas fotografam coisas para as afastar do espírito. As minhas histórias são um modo de fechar os olhos». A fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, dessas não gosto): não se trata de uma questão de «descrição», mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida num estado, um esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer falar a imagem no silêncio). A foto toca-me quando a retiro do seu «bla-bla» vulgar: «Técnica», «Realidade», «Reportagem», «Arte», etc.: nada dizer, fechar os olhos, deixar que o pormenor suba sozinho à consciência afetiva” (Roland Barthes, idem, pág. 64).

 

“O pintor constrói, o fotógrafo revela” (Susan Sontag, 2012, Ensaios sobre fotografia, Quetzal Editores, pág. 94).

 

“Sejam quais forem os argumentos morais a favor da fotografia, o seu principal efeito é converter o mundo num grande armazém ou museu sem paredes, em que todos os temas são reduzidos a artigos de consumo, promovidos a objetos de apreciação estética. Através da câmara, as pessoas tornam-se consumidoras ou turistas da realidade - ou Réalités, como sugere o título da revista francesa -, uma vez que a realidade é entendida como plural, fascinante e pronta a ser capturada. Ao aproximar o exótico das pessoas, ao tornar o exótico o que é familiar e doméstico, as fotografias possibilitam um olhar apreciativo sobre o nosso mundo inteiro” (Susan Sontag, idem, pág. 111).

 

“Em fotografia, mostrar qualquer coisa é mostrar o que está oculto” [...] Tal como os fotógrafos o descrevem, o ato de fotografar é tanto uma técnica ilimitada de apropriação do mundo objetivo como uma expressão inevitavelmente solipsista do eu singular” Susan Sontag, idem, pág. 121).

 

“A fotografia entrou em cena como uma atividade arrogante, que parecia usurpar e diminuir uma arte com créditos firmados: a pintura. Para Baudelaire, a fotografia era o «inimigo mortal» da pintura; mas, com o tempo, negociaram-se tréguas e a fotografia foi considerada como a libertadora da pintura [...] Na verdade, a ideia mais persistente nas histórias e na crítica da fotografia é este pacto mítico entre pintura e fotografia, que lhes permite prosseguirem as suas tarefas separadas mas igualmente válidas, enquanto se influenciam de forma criativa” (Susan Sontag, ibidem, pág.s 143 e 144).

 

Embora a fotografia tenha «nascido» há 177 anos, foi, contudo, durante o século XX, que atingiu o seu apogeu, a sua plena maturidade.

 

Por isso, vale a pena dar uma breve passagem, dando uma vista de olhos, fazendo uma breve leitura sobre a obra Fotografia do século XX Museum Ludwig de Colónia, publicada em 2001 pela Tascher.

 

Na Introdução a esta obra, Reinhold Miβelbeck, reiterando as palavras acima citadas de Susan Sontag, a determinada altura, escreve: “A invenção da fotografia, como dizem as pessoas vulgarmente, libertou a pintura da necessidade de reproduzir a realidade. Ao fazê-lo, herdou géneros como o retrato e a pintura histórica e contribuiu para o desenvolvimento do Modernismo. O facto deste processo ter tido lugar, pela primeira vez alguns 70 anos após a invenção da fotografia, depois da pintura ter ultrapassado as tendências naturalistas e realistas, passando pelo Impressionismo, não contradiz de modo algum esta opinião. Demonstra, aliás, que teve lugar a um diálogo moroso e que foram precisamente as experiências que a pintura adquiriu com o Naturalismo e o Impressionismo que tornaram evidentes que a fotografia estava mais bem equipada para representar a realidade com exatidão e para captar disposições e momentos e, a certa altura dos desenvolvimentos, tornou-se claro para todos que o sdois meios tinham agendas bastantes diferentes”.

 

No final da sua Introdução, Reinhold Miβelbeck conclui: “A relação íntima entre imagem e realidade, tão própria da fotografia, encorajou acima de tudo os artistas a utilizarem-na para as suas visões imaginárias. Ao mesmo tempo, os artistas não estavam apenas interessados em estabelecer os limites da capacidade da fotografia em conseguir dar uma reprodução fiel da realidade, mas também em explorar o meio e os limites em si. Em todas estas correntes, a fotografia é usada de um modo concetual. Não só cumpre o que é tecnicamente capaz de fazer - espelhar a realidade -, mas simultaneamente reflete o que está a fazer.


A fotografia está de momento a viver uma grande transformação. Está a mudar de um meio que tradicionalmente trilhava o seu próprio caminho, longe da história da arte, para um ramo das belas -artes. E é de notar que os jovens artistas já têm medo de se aproximar das fontes históricas da fotografia e destruí-las pela sua arte”.

 

Neste Dia Mundial da Fotografia vamos destacar, de entre muitas outras «celebridades», três fotógrafos, do século passado, em que as suas obras se debruçam sobre a realidade da sociedade em que viveram.

 

O primeiro - Jean Dieuzaide. A sua carreira começou no dia 19 de agosto de 1944 quando tirou fotografias da libertação de Toulouse, a sua terra natal, tornando-se um fotojornalista de renome.

 

Deixamos aqui uma foto, da sua autoria, do célebre, e grande, surrealista Dalí, Dalí na água, Cadaquès, tirada em 1953, durante uma viagem a Espanha.

01.- ali.jpg

 (Impressão a gelatina e brometo de prata, 31x24,5 cm, ML/F 1984/31 - Doação Gruber)

 

Por se tratar de uma foto tirada por Jean Dieuzaide em Portugal a uma bonita mulher portuguesa, em 1954, na Nazaré, deixamos aqui, deste autor, o registo da «sua» Tiulinda.

02.- Tiulinda, Nazaré, 1954 - (BM Lyon) .jpg

 A nossa segunda «celebridade» é a americana Dorothea Lange. A sua obra constitui uma das mais importantes contribuições para «documentários sociais de fotografia de maior compromisso no século XX».

 

Chocada com o número de desalojados à procura de emprego durante a Grande Depressão, Dorothea Lange decidiu tirar fotografias de pessoas na rua para chamar a atenção para as situações que retratava.

 

A foto que abaixo reproduzimos, com o título Mãe Migrante, Califórnia, 1936, é uma das suas mais famosas.

03.- giov123.png

(Impressão a gelatina e brometo de prata, 32x26,1 cm, ML/F 1977/442 - Coleção Gruber)

 

É o retrato de uma trabalhadora que migrou da Califórnia com os seus três filhos. Segundo Reinhold Miβelbeck, “esta imagem extremamente concentrada e rigorosamente composta fez de Dorothea Lange um ícone da fotografia socialmente comprometida”.

 

O terceiro trata-se de A. Kertész. Reproduzimos duas fotos, cada uma com o seu comentário, retirado da obra citada acima de Roland Barthes, A Câmara Clara.

04.- Piet-Mondrian-by-Andre-Kertesz-176_001.jpeg.j

(Piet Mondrian no seu atelier, Paris, 1926)


Como é possível ter-se um ar inteligente sem se pensar em nada de inteligente?

05.- 291b5db87bfd52c440610a1fe707309e.jpg

(O cãozinho, Paris, 1928)


Ele não olha nada; retém dentro de si o seu amor e o seu medo: é isso olhar”.

 

Diz-se frequentemente que uma imagem vale mais que mil palavras.

 

E que dizer destas duas imagens, que aqui vos deixamos, ao espelharem e refletirem o drama atual dos refugiados sírios, numa guerra sangrenta e desumana, da qual todos nós, cidadãos do mundo, somos cúmplices, e cujas maiores vítimas são as crianças representadas nestas fotos?

06.- menino sírio afogado.jpg

(O menino sírio afogado - Fonte:- https://noticias.terra.com.br/mundo/asia/a-historia-por-tras-da-foto-do-menino-sirio-que-chocou-o-mundo,a491948f737fabaedc2b65294952c1d8zbulRCRD.html)

07.- A foto do menino de Aleppo que retrata a trag

(O menino de Aleppo e a tragédia na Síria - Fonte: http://observador.pt/2016/08/18/a-foto-do-menino-de-aleppo-que-retrata-a-tragedia-na-siria/-)


Nona


publicado por andanhos às 16:00
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