Sábado, 11 de Junho de 2016

Palavras soltas... No Barroso, no Dia de Portugal

 

PALAVRAS SOLTAS...

 


NO BARROSO, NO DIA DE PORTUGAL

 


Ontem, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, saí do Portugal “real” que todos os dias nos entra pela casa dentro pelos media e fui, com três amigos, fazer uma “imersão” no Portugal profundo para o qual, todos os dias, é dia de Portugal, que é o mesmo que dizer, de labuta, de trabalho, de canseira e do constante cuidar da vida.

 

Um pedaço de Portugal profundo e esquecido, que, infelizmente, há muito por esse Portugal fora. Mas o Barroso, de uma forma muito particular.

 

No périplo que ontem fizemos pelas aldeias de Salto, em alguns lugares, os seus habitantes, chamam-lhes terras esquecidas; outros, desterradas e, ainda outros, de condenadas.

 

O nosso poeta maior Torga chamou-lhe de Reino Maravilhoso. Porventura teria razão. Mas ontem fiquei com outra impressão: na essência, o reino das pessoas simples, solidárias e acolhedoras, ele aí ainda está. Feito quase só de velhos e de raros “renovos”. E, salvo um ou outro “oásis”, que alguns mais resistentes ou saudosos da sua infância pobre, mas feliz ali vivida, tentam preservar e edificar, tudo o resto é ruína e abandono...

 

Fez-me bem ir ontem até ao sopé da serra da Cabreira.

01.- 2016 - Barroso (Salto II) (594).jpg

Quando chegámos a Paredes, José, com o seu filho Pedro, estavam a deitar as vacas para o monte.

 

Pobre das coitadas! De tão pouco estarem habituadas à presença de outros humanos, assustaram-se e, estacando, não queriam andar.

02.- 2016 - Barroso (Salto II) (540).jpg

O petiz Pedro avança. E daí começa:


- Anda Cabana!...


E a Cabana lá veio.

03.- 2016 - Barroso (Salto II) (524).jpg

Mas, ao aproximar-se de nós, dá uma corrida pelo pedrado da calçada abaixo.

04.- 2016 - Barroso (Salto II) (595).jpg

 
As outras não queriam vir.

 

E outra vez o Pedrito,

05.- 2016 - Barroso (Salto II) (544).jpg

com uma paciência e experiência adquirida na convivência com este mundo, que ele já tão bem domina, recomeça:

 

- Anda Formosa... Pinta... Bonita... Concha... Vermelha... Morada... Nogueira... Minhota.... vamos!... E o rol de nomes não parou até à trintena!

 

A certa altura, oiço-lhe um nome masculino:


- E tu, Gancho, anda!

 

E o Gancho lá foi para a coorte, sabendo que hoje não ia passar a noite no monte com as suas “meninas”.

 

No final, aparece o pai José.

 

Começámos a meter conversa com ele, falando da sua aldeia quase deserta; da sua vida; dos seus petizes.

 

Enquanto meus camaradas iam ouvindo-lhe as suas histórias, eu “espalhei-me” pela aldeia, tentando captar esta dura e desértica realidade.

06.- 2016 - Barroso (Salto II) (552).jpg

A certa altura, um meu amigo, dirigindo-se ao senhor José, com os olhos postos na serra da Cabreira em frente, afirma:

 

- Isto aqui é praticamente Cabeceiras, Minho.

 

Palavra que dissesse! De pronto, e com um orgulho emocionado, José riposta-lhe:

 

- Não senhor, isto aqui é Barroso!

 

Sorrateiramente, a mãe e avó Maria Rosa, aproxima-se do grupo para se inteirar do que se passava.

07.- 2016 - Barroso (Salto II) (564).jpg

Sabendo que a sua “cria” estava entre gente amiga, encostada à parede das ruínas de uma casa de habitação, olhava embevecida para o grupo, em amena cavaqueira, num quase final de tarde.

08.- 2016 - Barroso (Salto II) (572).jpg

Da vida da mãe e avó Maria Rosa, e de seu marido, vivida grande parte nas Minas da Borralha, viemos a saber mais tarde, quando chegados às Minas.

 

Sem darmos por ela, aparece-nos um prato com presunto e pão; copos e um garrafão de vinho.

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Era para nós. Tínhamos de comer. E, embora satisfeitos com a “janta” em Salto, ainda encontrámos um lugarzinho no estômago para agradar a tão amável gente.

 

No final, em terras profundas do Barroso, brindámos ao Barroso, à amizade e a Portugal.

10.- 2016 - Barroso (Salto II) (587).jpg

(Pedro com o meu copo, brindando)

Eram horas de partir. O programa do nosso périplo pelas aldeias ou lugares da freguesia de Salto estava quase feito. Faltava Minas da Borralha e mais duas aldeias, mais à frente.

 

E lá fomos.

 

Para trás ficaram estes olhos, lembrando-me a minha infância passada no “meuDouro.

11.- 2016 - Barroso (Salto II) (580).jpg

Não entrei a fundo na discussão dos meus amigos quando uns, achando-se verdadeiros barrosões e/ou transmontanos, me chamaram simplesmente duriense, esquecendo-se dos 50 anos de vida passada em terras mais a norte do Alto Douro!

 

Onde está a verdadeira “gema” transmontana ou barrosã destes inveterados citadinos que, de vez em quando, a modos de matar (supostas) saudades, trazem para casa algumas centenas de fotos de um “mundo” no qual - se, porventura, num pequeno instante das suas vidas ali viveram -, há muito que já lhes passa ao lado?

 

Pela minha parte não pretendo exibir qualquer “fidalguia” que me superiorize aos demais.

 

Se nasci no Douro - do qual muito me orgulho -, meu desiderato é, tão só, nas respetivas diferenças, encontrar não aquilo que nos separa, outrossim, aquilo que nos faz verdadeiramente portugueses.

 

Ontem, no Barroso, como noutra altura qualquer, e noutro sítio deste nosso pequeno e rico recanto português, ou da diáspora, em fui “respirar” uma pura e dura realidade que é ser português, borrifando-me em quem é mais autêntico e genuíno, ou quem melhor retrata Trás-os-Montes, e particularmente Barroso, se Torga ou Bento da Cruz, ou outro transmontano e alto duriense qualquer!

 

Mais do que o berço, o que mais me interessa é a alma, com as suas diferentes matizes, no seu verdadeiro e genuíno sentir, cantar e descrever, cada um a seu jeito, as nossas terras e as suas gentes... independentemente do que cada um, individualmente, seja!...

Nona

 

12.- 2016 - Barroso (Salto II) (622).jpg


publicado por andanhos às 20:15
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