Sábado, 30 de Janeiro de 2016

Memórias de um andarilho :- Linha do Corgo - Curalha-Vidago

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS

Linha (de Caminho de Ferro) do Corgo
(Curalha - Vidago)

21.- AZS_0518.jpg

Como afirmávamos no último post «Memórias de um andarilho - Caminhadas nas vias férreas abandonadas», a 8 de dezembro de 2008, juntamente com os meus habituais amigos de caminhadas, quer no Alto Tâmega, quer nos Caminhos de Santiago, na Galiza, efetuámos este percurso desde a estação de caminho-de-ferro do Tâmega/Curalha até à estação da CP de Vidago.

 

Antes de darmos conta do percurso e de tecermos algumas considerações sobre o mesmo, e com ele conexo, queríamos abrir aqui um parêntesis para falar sobre os meus dois amigos habituais das caminhadas.

 

Quer com o Rui, quer com o Tó Quim, durante, aproximadamente, 7 anos, calcorreamos os principais trilhos e caminhos ancestrais do Alto Tâmega, da Veiga (de Chaves e de Verin) e percorremos todos os Caminhos de Santiago, na Galiza.

 

Foram muitos quilómetros que os nossos pés fizeram.

 

Foi muita contemplação de uma natureza-mãe que nos viu nascer e nos acolhe.

 

Foi o fascínio das suas diferentes paisagens.

 

Foi, ora com um maior esforço, neste ou naquele percurso; ora, com mais tranquilidade e descontração, noutros. Que nos levou a, cada vez mais, admirar a natureza, a compreendê-la, a imbuirmo-nos do seu espírito, a embrenharmo-nos na vida dos diferentes seres que a habitam e, essencialmente, a partilharmos experiências, sentimentos, gostos, num cimentar cada vez mais forte de uma amizade que nos marcou, indelevelmente, na vida, nas nossas vidas.

 

Por isso, daqui vai o meu muito obrigado, público, a estes dois grandes amigos, reiterando, como já em outras ocasiões o fiz, que não há nada que apague tudo o que foi a vida que, ao longo de horas, muitas vezes com esforço, percorrendo a natureza, partilhámos.

 

Tudo na vida se muda, se transforma. Há caminhos que, por imperativo próprio da vida de cada um, temos de seguir; outros, por opção. Temos consciência da precaridade e fragilidade das relações humanas. Assim como sabemos que a vida de cada um, no cômputo do tempo cósmico, é apenas um simples instante. Contudo, a experiência de vida que partilhámos, muitas vezes estando exaustos, cansados e com os pés em bolhas, foi, no âmbito geral da existência de cada um, uma verdadeira eternidade.

 

Há coisas que jamais se esquecem. Por isso, aqui fica aos amigos Rui e Tó Quim todo o meu obrigado pela sua amizade e companheirismo. Bem hajam!

 

Continuando com as nossas Memórias de andarilho.

 

Dia 8 de dezembro de 2008, uma segunda-feira, feriado católico dedicado à Padroeira do Reino de Portugal, iniciámos o nosso percurso nas imediações da Estação do Tâmega/Curalha.

 

Esteve uma noite e madrugada chuvosa. E estava frio. Quando iniciámos a caminhada, o tempo aliviou, mas, a cada passo, a chuva ameaçava.

 

O percurso deste dia era de sensivelmente 13 Km., ou seja, de acordo com a indicação que fomos retirar à Wikipédia, desde a estação do Tâmega e até Vidago, a distância é de 12. 954 metros.

00.- Legenda da Linha de Caminho de Ferro do Corgo

Da linha de caminho-de-ferro já nada resta, a não ser o seu trilho (e com uma ou outra falha, infelizmente!). Ora nuns sítios mais estreito,

01.- Hpim1642.jpg

 (C.c. António J. Leonardo)

ora noutros mais largo,

02.- Hpim1590.jpg

  (C.c. António J. Leonardo)

conforme a própria orografia do terreno.

 

O percurso, quase na sua totalidade, foi calmo e agradável. Do nosso lado direito, o sempre rio Tâmega,

03.- Hpim1648.jpg

 (C.c. António J. Leonardo) 

tendo, perto da sua margem escarpada, ruínas de construções,

04.- AZS_8412.jpg

outrora porventura habitadas por gente que se dedicava à profissão de moleiro - e almocreve - dada a proximidade de alguns moinhos por estas margens. Do lado esquerdo, a mata de carvalho e arbustos autóctones que, cada vez mais, se vai tornando já residual no nosso território.

 

Enquanto efetuávamos o percurso, de vez em quando, parávamos para dar uma olhadela pelo nosso entorno. Do outro lado do rio Tâmega, um pinheiro manso despertou-nos a curiosodade.

04a.- AZS_8426.jpg

Depressa nos apercebemos que, sob a sua proteção, aquele amontoado de pedras que se via ao longe, era o castro de Curalha.

 

Entre uma conversa sobre tudo e nada, considerações sobre o destino desta linha e a paisagem, quase sem nos darmos conta, chegávamos à estação de Vilela do Tâmega.

05.- AZS_8569.jpg

Convém esclarecer que esta estação, embora leve o nome de Vilela do Tâmega, não está situada na povoação de Vilela do Tâmega, outrossim na povoação de Moure, povoação anexa da freguesia de Vilela do Tâmega.

 

Meteu-nos pena o estado deplorável em que este edifício se encontra. Património pago por todos nós está «ao deus dará», em completa ruína e sem que alguém dele cuide e lhe dê um destino digno da sua história!

 

A sua arquitetura é de molde a que, para além da estação, fosse também casa de habitação do respetivo chefe da estação.

06.- AZS_8562.jpg

Ultrapassada esta estação, em Moure,

07.- Hpim1603.jpg

  (C.c. António J. Leonardo)

cruzámo-nos com um pastor que apascentava o seu rebanho de cabras.

08.- Hpim1616.jpg

  (C.c. António J. Leonardo)

E, logo, a seguir, a cerca de uma centena de metros da estação, aparece-nos a povoação de Moure.

 

De Moure até à estação de Vilarinho das Paranheiras, o mesmo agradável percurso, feito em amena cavaqueira.

 

Um ligeiro desvio levou-nos até à pequena central da Peneda, ainda em funcionamento, na área da freguesia de Vilela do Tâmega.

08a.- Hpim1591.jpg

  (C.c. António J. Leonardo)

Chegados à estação de Vilarinho das Paranheiras,

09.- AZS_0470.jpg

com uma tipologia idêntica à de Vilela do Tâmega,

10.- AZS_0474.jpg

o mesmo abandono e a mesma desolação. Uma espreitadela ao seu interior bem atesta este nosso sentimento!

11.- AZS_0479.jpg

Contudo, do seu interior, e de uma das suas janelas, cuja madeira vai apodrecendo e ficando sem vidros, vemos paisagens bonitas do termo de Paranheiras.

12.- AZS_0487.jpg

Pouco depois de ultrapassarmos Vilarinho das Paranheiras, começou a nossa lamentação e o nosso pequeno «calvário». A páginas tantas, o troço da linha desaparece. As estradas e autoestradas que «mataram» o comboio também, aqui, destruíram o seu traçado! Parece que ninguém cuidou de a preservar ou de encontrar, aqui, uma alternativa para o percurso destruído por via da dita «modernidade» das novas vias!

13.- Hpim1654.jpg

(C.c. António J. Leonardo)

Tivemos que encontrar um percurso alternativo, subindo e descendo um morro até encontrarmos o velho traçado.

 

Do alto do morro, a vista sobre a A24,

14.- Hpim1583.jpg

(C.c. António J. Leonardo)

sinal de progresso para um Portugal em pleno século XXI, mas que mais tem servido não para que enriquecêssemos, mas ficássemos mais pobres e sem gente, mercê de políticas que olham mais para o betão e o asfalto, esquecendo-se das pessoas e dos seus territórios de origem.

 

Nas proximidades de Vidago, «encarreiramos» com o traçado da nossa linha e fomos direitos até à sua estação.

 

Entretanto, começou a chover.

 

Demos uma olhadela à volta da estação.

 

Do local onde embarcaram, em 1915 e 1917, em sucessivos comboios em direção a Lisboa, com transbordo na Régua, os homens do Regimento de Infantaria 19 (RI 19), de Chaves, para o Sul de Angola e a Flandres francesa, respetivamente, apenas restava a sua velha estação

15.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

e estes dois artefactos,

16.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

 (Artefacto I) 

17.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

  (Artefacto II)

a lembrar-nos que, por aqui, passava a linha do Corgo.

 

Chamada, à última hora, a Ana para nos vir buscar, fomos indo, sob chuva miudinha, pela EN nº 2, no sentido de Chaves, até ao cruzamento para Boticas, esperando depois por ela, abrigados na paragem de autocarros que ali ainda existe.

 

Contentes por termos cumprido com o nosso objetivo, embora incomodados com a chuva que nos ia caindo no pelo, fomos dando largas ao nosso descontentamento quanto à negligência, desleixo e incúria que nós portugueses temos quanto ao património, que é de todos nós!

 

Falando agora, em 2016, na antiga estação da CP de Vidago.

 

Com fundos perdidos a 80%, vindos da União Europeia, a 20 de dezembro de 2013, foi lançada a 1ª pedra, pelo então Presidente da Câmara Municipal de Chaves, para a construção de uma obra com o pomposo nome «Balneário Pedagógico de Investigação e Desenvolvimento de Práticas Termais de Vidago».

 

Fundos perdidos? Não estaremos há muito a pagar uma pesada fatura destes pressupostos «fundos perdidos», a que, por proverbial e histórico «seja o que Deus quiser», acreditando no desenrascanço e na «boa sorte», nunca cuidámos a fundo do futuro, pondo-nos totalmente nas mãos do(s) agiota(s), sempre apostado(s) na esquina, à espera da sua gorda cobrança?...

 

O dito Balneário Pedagógico era, segundo constava, para ser feito num ano. O seu custo era de 2,8 milhões de euros. A UNICER, na altura «comandada» por António Pires de Lima, ministro da Economia do anterior governo neoliberal Frentista, de Passos Coelho e Paulo Portas, cederia a Água de Vidago para aquele Balneário.

 

A arquitetura é modernista.

18.- AZS_0540.jpg

A antiga estação,

19.- AZS_0552.jpg

que entretanto já fora local de uma biblioteca e extensão dos serviços camarários de Chaves, em Vidago, ficou razoavelmente inserida no conjunto, para alguns, discutível.

 

Mas vamos ao que importa.

 

Alguém nos sabe dizer quando esta obra vai estar concluída e o Balneário, dito Pedagógico, vai ser aberto? E, concretamente, para que vai servir?

 

Desculpem a ignorância!...

 

Quanta gente ou mão-de-obra esta obra trouxe ou vai trazer para Vidago?

 

Pretende-se - numa vila termal como Vidago - dinamizar o turismo e o termalismo. Mas o que vemos à volta desta obra? Edifícios, alguns de boa traça, como o do Hotel Avenida, que se mostra,

20.- AZS_0556.jpg

e que nos narram a história de uma Vidago, vila termal viva e dinâmica, em completo abandono, ficando em ruínas!...

 

É fácil gastar fundos, gastar dinheiro que não sai do nosso bolso, que não é nosso. Difícil é sabermos como nos dinamizar com vista a um desenvolvimento sustentável!

 

Perdoem-nos os leitores o desabafo. Mas quando falamos (escrevemos), as palavras são como as cerejas...


publicado por andanhos às 18:31
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1 comentário:
De Francisco Carita Mata a 31 de Janeiro de 2016 às 22:47
Os seus posts têm sempre excelentes fotografias. Qualquer dia, caso não tenha objeções, utilizarei uma ou outra, a documentar algum post meu. Obviamente, referenciando as fontes. Uma foto que estou a pensar usar reporta-se ao Pinhão. Quero divulgar um poema da XIII Antologia do CNAP que se refere a esta localidade.
Neste post sobre a antiga Linha do Corgo, essa característica, de excelência das fotos, mantem-se.
Ainda me lembro de, em 1974 ou por aí, ter viajado em comboio a vapor, na Linha do Corgo. Que foi a única vez em que viajei desse modo, apesar de, durante os anos setenta e oitenta, ter andado muito de comboio, por Portugal e Espanha.
Este trajeto que apresenta, agora desativado, revela-nos um Património natural e humanizado extraordinário. Pena o abandono a que foi sujeito.
Infelizmente, em Portugal, esse comportamento tem sido generalizado. É assunto sobre que já me tenho reportado no blogue. A recuperação do nosso Património edificado, dando-lhe utilidade, deveria ser um objetivo nacional, envolvendo todas as entidades, de todos os quadrantes e enquadramentos. Sem facciosismos de qualquer espécie! Paralelamente gastaram-se milhões em autoestradas, onde os carros rareiam; fazem-se obras de fachada, de arquitetura mais que duvidosa; inventam-se rotundas, onde se colocam mamarrachos; e deixam-se apodrecer edifícios belíssimos, como os que documenta e de que também já tenho apresentado exemplos em posts.
O Minho, o Douro Litoral,Trás- os – Montes e Alto – Douro e Galiza, foram alguns destinos de eleição, em viagens que efetuei, nos finais de setenta, a maioria de comboio.
Tomo a liberdade de lhe fazer uma sugestão, já que está em mudanças no blogue. Se calhar, um template diferente, em que o texto fosse estruturado de outro modo, com um outro fundo, talvez ficasse melhor. Peço desculpa, caso ache a sugestão despropositada, mas não é com má intenção.
Continue a documentar a beleza do nosso Património! E parabéns pelas fotos excepcionais!


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