Domingo, 27 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 6ª e última etapa - Monte do Gozo-Santiago de Compostela

 

 

CAMINHO FRANCÊS

 

6ª e última etapa:- Monte do Gozo-Santiago de Compostela

 

22. Dezembro. 2008

 

 

 

 

 

O grande dia

 

Acordamos todos como se fossemos uma mola gigante. Contámos sonhos, gargalhámos numa indisciplina total. Era mais tarde do que o costume, mas parece-me que todos já estavam previamente acordados antes do toque do meu telemóvel. Contrariamente aos dias anteriores, neste não havia preguiça. Corri para os balneários a cantar e, todos rapidamente, seguiram-me em galhofa interminável.

 

Tinha chegado o grande dia.

 

Com a indisciplina destas ocasiões, rapidamente colocámos as coisas dentro das mochilas, sem nos preocuparmos de sairmos fora da camarata por causa do «fru-fru» barulhento do plástico. Eu próprio fui lesto no meu atavio.

 

Lá fora, os cristais do gelo formavam uma camada escorregadia. Verónica, Alba e Vicky tinham os pés em muito mau estado. Era impossível caminharem naquela manhã de outra maneira que não fosse de havaianas nos pés. Os pés estavam muito inchados e as unhas do dedo grande de Verónica queriam teimosamente saltar fora.

 O grupo decidiu não se separar até à Catedral de Santiago de Compostela.

 

O assalto final

 

Tínhamos combinado no dia anterior sair mais tarde que o habitual. Como estávamos a cerca de 4,5 km do nosso Apóstolo, e a missa do peregrino era às 12 horas, decidimos sair perto das 9:30 horas. Teríamos tempo suficiente para o pequeno-almoço, para a caminhada, para colocar o último carimbo na Credencial do Peregrino, para levantar as «Compostelas», plastificá-las, e, ainda, dar uma volta pelas lojas à cata de «recuerdos» bem assim dar uma lenta visita à parte velha da cidade, apreciando a sua arte e a sua história.

 

Em alegre cavaqueira, dirigimo-nos à cafetaria do Albergue para o repasto.

 

 

A Verónica, em prova de agradecimento, ofereceu-nos o pequeno-almoço, composto por pão torrado, café com leite, doces, geleias, iogurtes e um sem número de iguarias para um saudável alvorecer. Embora não quiséssemos que ela o fizesse, devido à sua insistência e decisão inabalável, acabámos todos por aceitar. Explicou que era a única maneira de nos agradecer todo o acompanhamento e apoio que lhe tínhamos dado pelo Caminho. Não fora o nosso apoio, disse, não conseguiria chegar a Santiago de Compostela. Foi um gesto muito bonito.

 

Verónica, naquele dia, parecia-me a pessoa mais feliz do grupo. Tinha cumprido uma missão – a sua missão!

 

Naquela esplêndida manhã, com o sol já alto a brilhar num amarelo muito vivo e brilhante, embora ainda sem aquecimento central ligado, o tempo não contava. Era como se os relógios tivessem os ponteiros numa indolência perturbadora, verdadeiramente pasmados.

 

E vamos lá iniciar a última caminhada

 

Cá fora o dia estava particularmente frio e os pés da Verónica era disso uma prova: estavam a ficar arroxeados. À saída da cafetaria,

 

 

tomámos logo a estrada de San Marcos, que começa logo com uma razoável pendente. Junto de uma casa-museu, no seu logradouro, esta sugestiva escultura.

 

 

Devido à sombra das árvores nesta época do ano, todo o gelo acumulado fica vitrificado e muito escorregadio. Tivemos que ir alternando entre os pés no asfalto, os pés nas ervas das bermas; ora duma lado da estrada ora do outro, num misto de habilidade e sobrevivência.

 

Cruzámos sucessivas pontes: quer sobre a autopista AG-9; quer sobre a via do caminho-de-ferro, quer ainda a autovia da circunvalação A partir daqui, a caminhada foi um verdadeiro doce.

 

António adiantou-se e parou, perto do Monumento ao Peregrino,

 

 

à entrada da cidade de Santiago de Compostela, para nos tirar uma foto: ao Adrian,

 

 

a mim

 

 

e à Mónica e Verónica.

 

 

Fui para a frente ter com o Adrian e, tal como nos outros dias, não me largou, brincando comigo e contando algumas maroteiras.

 

Quer eu quer Adrian seguimos em ritmo lento, embora ganhando avanço sobre todos os outros.

 

Os pés da Verónica estavam a dar-lhe muitos problemas

 

A muito custo, Verónica ia pondo um pé à frente do outro e seguia na cauda do grupo, embora sempre à distância dos nossos olhos.

 

À entrada da parte moderna da cidade, perguntei-lhe se precisava de ajuda. Disse que não precisava, porquanto, logo que chegasse perto da Catedral, entraria numa farmácia para cuidar dos seus pés.

 

Decidi então, com o Adrian, atravessar o espaço monumental da cidade com o passo estugado.

 

Era segunda-feira. A cidade fervilhava de pessoas em grande afã nas compras de Natal que era dali a três dias.

 

Rapidamente passámos Concheiros, a rua de San Pedro, a praça de Cervantes, a Acibecheria e praça da Imaculada,

 

 

a praça das Praterías, onda a Catedral mantém a sua fachada romântica,

 

 

tendo ao lado a torre do Relógio,

 

 

e, finalmente, a praça do Obradoiro

 

 

- o ponto 0 de todos os marcos jacobeus - em frente à Catedral de Santiago. Missão cumprida!

 

Aguardámos a chegada dos restantes amigos. Verónica entrou triunfante na praça. Os restantes elementos estavam atrasados porque pararam para beber um refresco ou tomar um café. Aguardámos ainda mais um pedaço de tempo e fomos aproveitando para tirar umas fotografias, aos mais diversos motivos e dos mais diferentes ângulos, tentando apanhar pormenores, quiçá, ainda não apanhados por outros.

 

Esgotada a paciência, e como os outros teimavam em demorar, eu, a Verónica e o Adrian seguimos lentamente para dentro da Catedral e fomo-nos sentar num banco corrido da entrada. Coloquei o meu telemóvel no perfil «silêncio» e reparei que a Verónica estava efetivamente muito mal tratada. Ajudei-a com uma massagem, utilizando o gel que tinha comprado, há poucos momentos, numa farmácia.

 

Verónica decidiu ficar então sentada. Pedi-lhe para que deitasse os olhos às nossas mochilas, enquanto eu e o Adrian fomos dar uma volta pelo interior da igreja, explicando ao nosso jovem adolescente todos os pormenores e analisando todos os recantos. Estava maravilhado com tudo o que via. Não se cansava de fazer perguntas. Pela minha parte, tentava dar-lhe uma simples e elucidativa explicação.

 

Adrian descobrindo a Catedral

 

Percorremos a basílica, que tem uma planta em cruz latina, de três naves e o transepto. Vimos o trifório.

 

 

Seguimos pelo interior da nave central

 

 

até à capela-mor,

 

 

observando os seus belos pormenores barrocos,

 

 

pela charola e vimos as cinco capelas radiais. Fomos até ao Pórtico da Glória,

 

 

onde lhe mostrei, entre outras figuras, o Cristo Pantocrator e o Apóstolo,

 

 

bem assim o Mestre Mateo.

 

 

Voltámos novamente ao interior da igreja. Subimos ao altar-mor, passando por detrás do Apóstolo, para o abraço fraterno.

 

 

De seguida, descemos à urna do Apóstolo

 

 

e ajoelhamo-nos numa oração particularmente sentida. Perguntou-me o que deveria fazer. Aconselhei-o a uma oração muito forte e sincera, comprometendo-se em ter uma atitude de grande amor e entrega para com os familiares, pais, avós e irmão, e de se aplicar, com esforço, para obter aproveitamento na escola.

 

De seguida, viemos para o exterior, onde lhe mostrei as praças do Obradoiro, das Pratarias, da Quintana e da Acibecheria.

 

Voltámos para junto da Verónica. Só nesta altura é que reparei que tinha várias chamadas telefónicas do António e da Mónica. Liguei-lhes de imediato e, num instante, encontrámo-nos todos dentro da Catedral.

 

Porque a hora estava adiantada, decidimos rapidamente ir colocar o último carimbo na «Credencial do Peregrino» e, finalmente, obter a tão desejada «Compostela». Devido ao estado de grande fragilidade, a Verónica ficou na Catedral. Levei-lhe a Credencial para ser carimbada. Os serviços da «Oficina do Peregrino» não aceitaram a situação. Tivemos de a ir chamar. Ficou, contudo, no rés-do-cão até que uma funcionária descesse para comprovar que, efetivamente, a «personagem» Verónica, tinha cumprido a «missão» e que, por isso mesmo, era uma justa vencedora, com direito à sua «Compostela».

 

A missa do Peregrino

 

Já nos restava pouco tempo para a missa do Peregrino. Por isso, abandonámos a «Oficina do Peregrino» e voltámos à Catedral. Éramos os únicos peregrinos presentes. Por isso, fomos saudados pelo celebrante como os peregrinos vindos de Espanha, de Valência e Caldas; da Venezuela e de Portugal, de Chaves, Porto e Lisboa.

 

Foi para mim um momento de particular emoção. Desfilaram pela minha mente o meu pai, a minha mãe, o meu tio, avós, sogros, mulher e amigos. Desajeitadamente, chorei lágrimas de profunda saudade. Esperei que dalgum vitral descesse, numa nuvem, alguém para me trazer notícias frescas daquelas pessoas de quem tenho tanto amor e que me deixaram tanta solidão.

 

No final da missa consegui estar refeito do choque emocional.

 

Saímos para a praça do Obradoiro e, após uma rápida reunião, decidiu-se ir dar uma volta pela parte velha da cidade. Cada um foi à sua vida. Ficámo-nos de encontrar, no restaurante Casa Manolo, na praça Cervantes, cerca das 12 horas.

 

Todos cumprimos escrupulosamente o combinado.

 

Naquele restaurante fizemos a nossa festa: fotos, troca de endereços, anedotas, gargalhadas, enfim, alegria.

 

O que estava em causa nem sequer era verdadeiramente o almoço. Tão-somente o estarmos ali, depois de uma «missão» cumprida, para alguns de sofrimento, no maior espírito de amizade.

 

Brindámos. Tirámos fotos. Entre muitas, ficam aqui quatro: Susana, (o anjo da guarda, tal como António a apelidou), abraçada à filha Alba,

 

 

sob o olhar embevecido do marido e pai (Vicky);

 

 

Maria José comigo

 

 

e, finalmente, a Mónica, com a máquina fotográfica, a certificar-se de que a sua reportagem estava completa.

 

 

O quarteirão ao fundo da sala era todo por nossa conta. Havia pouca gente no restaurante. Estávamos próximos do Natal. Só alguns estudantes, esquecidos, conversavam alegremente, duas mesas mais além. O almoço foi agradável. Contudo, a comida estava requentada, pois talvez fosse da véspera, não abonando muito o prestígio do Don Manolo. A minha fatídica decisão foi para umas pernas de «galo» estufado, de alguns dias antes, sem estar, literariamente, a exagerar. Os pobres e secos membros jaziam, laconicamente, no prato, envoltos num espesso molho de cebola e tomate - sem vontade de serem comidos - acompanhados por umas batatas fritas aos palitos e um arroz pré-cozinhado sem brilho nem gosto. Afinal a nossa «missão» de sofrimento só iria terminar após termos ingerido o almoço. A acompanhar, o António aconselhou-nos um muito agradável vinho tinto da região das Rias Bajas que selou soberbamente o desenxabido repasto.

 

Chegou o momento da despedida

 

Chegou o momento porque todos não queríamos passar – a despedida.

 

O tempo escasseava para aqueles que tinham de partir naquele dia.

 

Nós, os portugueses, tínhamos talvez a tarefa mais difícil. Particularmente eu que vinha para o centro sul de Portugal. Esperavam-me perto de 540 km entre Santiago de Compostela e Lisboa.

 

No entanto, a Mónica tinha levado o carro para Santiago de Compostela, o que facilitou imenso o regresso. O tormento de sair de Compostela às 15 horas e chegar no dia seguinte às 6 horas da madrugada não se punha desta vez.

 

Foram abraços, beijos e fotos. E um adeus sentido entre todos, com a promessa de um dia voltarmo-nos a encontrar.

 

À saída, nós os portugueses, dirigimo-nos até à zona velha da cidade, junto à Faculdade de História e Geografia, de modo a que nosso amigo António matasse saudades da sua antiga «Casa». Seguimos depois até à praça da Galiza, local onde a Mónica tinha o carro estacionado. Aqui foi o local escolhido para a separação do nosso amigão.

 

 – Venga unha forte aperta, António!, disse.

 

Foi um momento de grande emoção, com cada um de nós a digerir, à sua maneira, o adeus.

 

É verdadeiramente incrível como durante tão poucos dias se estabelecem laços tão fortes entre pessoas desconhecidas.

Tudo isto é, foi mágico!

 

  

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 4ª etapa de Palas de Rei a Arzúa para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 


publicado por andanhos às 23:19
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