Sábado, 26 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 5ª etapa - Arzúa-Monte do Gozo

   

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

5ª etapa:- Arzúa-Monte do Gozo

 

21. Dezembro. 2008 

 

 

O último obstáculo para cumprir a peregrinação

é o Monte do Gozo, de cuja vertente ocidental se pode ver,

pela primeira vez, a cidade do Apóstolo. Seu nome,

testemunhado já no guia do Liber Sancti Iacobi («Mons Gaudium),

explica-se pela alegria sentida pelos peregrinos ao verem,

pela primeira vez, as torres da Catedral de Santiago de Compostela.

Nenhum outro descreveu, como Domenico Laffi,

a emoção indiscritível que devia invadir os peregrinos neste lugar:

 

Coronamos la cima de una colina llamada Monte del Gozo,

desde donde contemplamos el tan anhelado Santiago,

a media legua de distancia. Cuando lo vimos, caímos de rodillas

y empezamos a llorar de alegría y a cantar el

«Te Deum», pero no pudimos recitar más de dos o

tres versos, pues la gran cantidad de lágrimas vertidas por

nuestros ojos no nos dejaban articular palabra. La emoción

que estremecía nuestros corazones y los continuos sollozos

nos obligaban a interrumpir el canto, hasta que, por fin,

desahogados por el llanto, que poco a poco iba cediendo,

volvimos a entonar el comenzad «Te Deum» y de este

modo, cantando, hicimos el descenso hasta el burgo”.

 

(Tradução do El Camino de Santiago - Guía prática del peregrino,

de José María Anguita Jaén, Editorail Everest, Coruña, 2004)

 

Será que tive uma insónia?

 

Acordei muito cedo e bastante cansado.

 

Pelas janelas entravam raios fortes da lua que iluminavam alguns beliches e deixavam rastos de sombras pelas paredes. Ali fiquei algum tempo a passear os meus olhos pelo silêncio. Não liguei aos suspiros fortes, ao remexer dos corpos nas camas, ao inexorável tempo a passar lento e ensonado. Fiquei a ouvir-me por dentro e sentir o quanto eu estava feliz por estar ali. O Caminho é mágico e estava a deixar marcas fortes. A camarata do albergue é uma sala ampla com tetos muito baixos. Ao fundo existem umas grandes portas que dão para uma varanda onde se encontrava um grupo de cadeiras, aguçando o apetite para as ocupar em fins de tarde de Inverno, saboreando os últimos raios de sol ou a contemplar um dia de Verão, a descansar, e com a brisa a refrescar o corpo cansado e afogueado. A toda a volta das paredes existem camas individuais e, ao centro, um conjunto de beliches de dois andares em duas fileiras no sentido do comprimento. Tudo estava calmo e bem arrumado. Só que à entrada temos que descer para um traiçoeiro degrau mal iluminado, deficientemente assinalado, e com um desnível muito alto, onde quase todos os peregrinos foram caindo, mesmo sabendo do grande perigo que ali está. Durante a noite foram várias pessoas - inclusive eu por duas vezes – que, não contanto com o fatídico degrau, caíram, indo embater no beliche em frente. O que valia era o beliche em frente que nos amparava milagrosamente de uma queda certa. E assim fiquei sem dar pelo tempo a passar. Quando o meu telemóvel despertou – era ele sempre o galo da capoeira – as pessoas começaram a agitar-se vagarosamente das camas para fora. Nesse compasso de tempo, deu para ir fazer a minha higiene e vestir-me mais rápido do que é habitual.

 

O dia prometia ser difícil

 

O dia anterior tinha sido particularmente cansativo devido à ajuda que demos a trazer a carga da Verónica e, muito especialmente, devido ao ritmo da nossa passada ter baixado para um frequência que não era a nossa. Quando se abdica do seu próprio ritmo, para se condicionar ao ritmo dos outros, é o desastre total, em termos de esforço; por isso, decidimos que, naquele dia, eu, a Mónica e o António tomaríamos o nosso ritmo, enquanto os no os amigos espanhóis tomariam o deles. É evidente que pararíamos durante o trajeto sempre que alguma ajuda fosse necessária. Decidido isso entre nós os três, pusemos os pés ao Caminho rapidamente.

 

À saída do albergue, virámos para o jardim central, onde estava um café aberto, e tomámos um rápido pequeno- almoço, sempre composto de café e torradas. Logo após saímos e entrámos nas ruas velhas que seguem o Caminho de Santiago. Entretanto, não se viam os nossos amigos espanhóis. 

 

A viagem dentro de mim era ainda noite cerrada. À frente, e a bom ritmo, seguiam a Mónica e o António, conversando alegremente. O silêncio era total. Só as  palavras deles, da conversa que entabulavam, é que se perdiam no bosque. Após o rio Barrosas, passámos a povoação do mesmo nome, seguimos por Laberco, onde observámos um nascer do sol maravilhoso,

 

 

com os raios a rasgarem o horizonte em caprichosos tons de laranja, como se subissem num vórtex até ao infinito.

 

 

Ficámos a gozar este deslumbramento fantástico durante muito tempo. Os laranjas passaram a amarelos e, por fim, rebentou tudo em luz com a chegada do sol, vendo-se, nitidamente, os «rastos» do trajeto do tráfego aéreo.

 

 

Saímos do sonho e voltámos a entrar no Caminho. Seguiu-se a passagem de Raido, com o rio do mesmo nome. Aí decidi, imprimindo um passo mais estugado, deixar para trás os meus amigos. Foi o meu momento. Era nesta altura que tinha de fazer a minha grande viagem introspetiva. Iam-se sucedendo aldeias, trilhos lamacentos, vacarias, caminhos cravados de bosta e cheiro no ar, galinhas a fugirem à minha frente, regatos de água... e eu sempre virado sobre mim mesmo! Uma ou outra vez ou outra parava, aguardando pelos meus amigões e, quando chegavam ao pé de mim, voltava a seguir a minha marcha.

 

Neste troço, as aldeias são muito sui generis - colocadas em fila indiana, ligadas por ruelas estreitas, onde só passam pessoas ou juntas de bois. Aqui e ali vê-se um carro ou alguma pessoa a «fugir» furtivamente do frio que ainda fazia naquela manhã. Compreendia-se, porque era domingo, dia de descanso e da família. Das chaminés saia um fumo caprichoso que subia na vertical até se dissolver no azul.

 

As aldeias sucediam como contas de um rosário

 

Entre bosques frondosos de eucaliptos e carvalhos e zonas fortemente rurais

 

 

de aldeias pequeniníssimas,

 

 

foram-se sucedendo Fondevila, Cortobe, Pereiriña, que desce até ao rio Ladrón. Fiz mais um compasso de espera pela Mónica e pelo António. Após nos reagruparmos, continuei a minha marcha por Tabernavella, Calzada, Ferreiros, Calle até ao rio Langüello, onde fiquei a espera dos meus dois companheiros de novo. O tempo começou a aquecer e a unha do dedo grande do meu pé direito começou a magoar-me. Tive de parar.

 

 

Sentia-me cansado, mas particularmente feliz. Num banco, feito à minha medida, sentei-me, descalcei-me e pus os pés ao léu. Novamente a Mónica e o António usaram os seus dotes natos e trataram-me do pé, fazendo um trabalho de mestre. Lá nos metemos a Caminho, agora todos juntos. Seguiu-se Boavista e Alto até Salceda, onde se encontra o monumento ao peregrino morto durante a peregrinação a Santiago.

 

O dia das homenagens

 

Fizemos em conjunto uma oração interior em homenagem a sua pessoa e ao descanso da sua alma. Estávamos num bosque de eucaliptos. Voltámos ao Caminho. Seguiram-se as aldeias de Xen, Ras, Brea, (a 23 Km de Santiago de Compostela), Rabiña, Empalme e Santa Irene. Aqui abrandámos um pouco. O lugar, pela Santa, tem a ver com Portugal e a sua Santa Irene. Não resistimos a fotografar a sua fonte

 

 

e a singela capela,

 

 

numa espécie de homenagem a uma outra portuguesa que nos acompanhava,

 

 

com um sorriso nos lábios, sempre.

 

 

 E, finalmente, entrámos em A Rua (a 19 Km de Santiago de Compostela). Aqui alguns algum património já em ruína. Restam apenas os «pergaminhos», esculpidos neste escudo.

 

 

A fome estava a apertar imenso. Decidimos mimar-nos com um excelente almoço no restaurante Acivro pertencente a um empreendimento turístico de habitação. Foi o corolário do esforço deste dia. Comemos crepes de marisco, vitela estufada, um vinho excecional, que nos deu alento suplementar, e rematámos com um doce excelente, seguido de um «café solo».

 

Enquanto estávamos no lauto almoço, vimos passar, um a um, os holandeses e os nossos amigos espanhóis. Ficámos à conversa durante um bocado e, lentamente, saímos para uma foto de circunstância, tirada pelo dono do restaurante.

 

 

A distância entre nós e os dois grupos da frente era enorme.

 

Novamente metemo-nos a Caminho e esperávamo-nos o pedaço mais áspero da jornada até ao Monte do Gozo. Começámos em bom ritmo. Passámos Burgo e, no bosque, à chegada de Arca do Pino, reagrupámo-nos com os nossos amigos espanhóis. Manifestavam muito cansaço. Susana, a mulher do Vicky estava à espera, junto do complexo polidesportivo, para almoçarem, todos em conjunto, uma «comidinha» trazida por ela. E nós continuámos a nossa marcha, passando por San Antón e Amenal, atravessando o regato com o mesmo nome, Alvite e Cimadevila.

 

O rabo é o mais difícil de esfolar

 

Parei a descansar um pouco à sombra duma azenha antiga, junto a um regato. Mal sabia eu que me aguardava uma extensa e difícil subida até ao extremo da pista do aeroporto de Lavacolla. E assim foi, trilho acima por uma vereda quase sem vegetação, de solo coberto de pequenos «calhauzinhos» rolantes, com terra empobrecida pelos eucaliptos outrora plantados, e de muito forte pendente e de longuíssima extensão, que parecia nunca acabar!

 

Por várias vezes parei para refazer o ânimo. Lá à frente seguiam, em passo de juventude, a Mónica e o António.

 

E eu, gemendo e arfando, encosta acima, ia fazendo paragens de permeio. Por várias vezes os meus bons amigos voltaram atrás para me tentarem ajudar. Recusei. No cimo do planalto, ficámos no topo da pista de Lavacolla. Era o sítio ideal para pararmos e refazermos as nossas energias. E tirarmos fotos juntos deste belo marco jacobeu.

 

 

Logo a seguir, a descida leva-nos a San Paio, (com a sua igreja),

 

 

Mourentán e Lavacolla, onde parámos para tomar uma deliciosa “bejeca”.

 

Passado um pedaço, vimos passar o Vicky, sozinho. Saímos de imediato. Adiantei-me. Chamei-o para vir connosco.

 

Passámos o rio Lavacolla, onde, reza a história, os peregrinos se banhavam totalmente para chegarem limpos junto da imagem do Apóstolo. Mas só conseguimos apanhar o Vicky junto à N-634. A partir dali, acompanhou-nos até final. Mais atrás, os restantes seguiam em passo mais brando – a Maria José, o Adrian, a Alba e a Verónica.

 

O troço final, até ao Monte do Gozo, é particularmente desgastante: subidas e descidas e um final longo com uma estrada sem fim. Após Vilamaior, segue-se uma subida curta, mas muito inclinada, e depois as retas, por entre um caminho florestal que passa junto aos estúdios da Televisão da Galiza, onde eu pensava que era o albergue.

 

Contudo, o albergue está a mais 4 Km à nossa frente! Eu e o Vicky estávamos desesperados... mas não claudicámos. Continuámos a nossa marcha até que, ao entrarmos em San Marcos, vimos, lá ao fundo, o Monte do Gozo!

 

No topo, a modesta capela de São Marcos,

 

 

com o seu singelo campanário.

 

 

E mal reparava no monumento comemorativo da peregrinação o Papa João Paulo II a Santiago,

 

 

razão pela qual foi construído o enorme pavilhão-albergue onde iriamos pernoitar.

 

Entretanto,

 

 

o sol começa a pôr-se.

 

Por fim o Monte do Gozo

 

Do grupo, eu e o Vicky fomos os primeiros a chegar, logo seguidos, de imediato, da Mónica e do António. Um pouco mais distantes, a Maria José, a Alba e a Verónica – verdadeiras heroínas. Estávamos todos muito cansados e alagados em suor. Após as formalidades na receção, ofereceram-nos uma camarata só para o grupo. Era como se tivéssemos a missão cumprida. Demos asas à nossa grande alegria. Fomos para a casa de banho e, à brincadeira com o Adrian, ofereci-lhe espuma da barba e uma «gilette» nova para ele se escanhoar. Era a primeira vez que iria «fazer a barba»! Envergonhado, foi a brincadeira geral a que ele se prestou, alinhando alegremente.

     

Depois de nos vestirmos, seguimos para o restaurante daquele grande complexo para uma jantarada conjunta, entre muita galhofa e alegria, partilhada por todos.

 

Foi um fim de tarde magnífico, após um dia com uma estirada muito longa e particularmente difícil. A lembrança de todas aqueles «memoriais» daqueles peregrinos que, neste Caminho, deixaram as suas vidas, estava muito fixa no meu pensamento. No firmamento desciam longos raios azuis: estavam lá todos aqueles que já se foram e, com lágrimas nos olhos, despedi-me do dia.

 

Enquanto esperávamos, estava a dar futebol na televisão. Os espanhóis são particularmente «fanáticos» por esta modalidade, sem distinção de classes, géneros e idades. O que, aliás, diga-se de passagem, também se passa connosco, varrendo, transversalmente toda a sociedade.

 

Enquanto estavam todos distraídos a ver o jogo de futebol, mandámos vir umas cervejas para animar a festa. O Adrian, que estava perto de mim, bebeu um trago do meu copo. Depois outro e outro, sempre com o olho na mãe, por causa da censura. Estava radiante. Nascia ali um homenzinho!

Após o jantar, voltámos ao albergue, cavaqueando entre todos.

 

Já era tarde e estava exausto.

 

Após uma breve leitura do meu livro de cabeceira, apaguei a luz, virei a cara para o lado e, antes de adormecer, lembrei-me outra vez de todos aqueles peregrinos que faleceram pelo Caminho...

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 5ª etapa de Arzúa a Monte do Gozo para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

 


publicado por andanhos às 19:29
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