Quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 4ª etapa - Palas de Rei-Arzúa

 

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

4ª etapa:- Palas de Rei-Arzúa, com passagem por Melide

 

20. Dezembro. 2008

 

 

Apesar de não ser indicada no Liber Sancti Iacobi,

Melide foi uma importante estação no Caminho de Santiago,

como demonstram tanto as suas duas igrejas românicas,

como os seus monumentos.

O seu topónimo vem do nome Melitus ou Melito,

nome do seu primeiro possuidor na época visigótica

ou altomedieval, o que denota certa modéstia nas suas origens.

Sem dúvida que as peregrinações e a sua posição privilegiada

no Caminho, conferiram a Melide a sua posterior importância:

 efetivamente, nela se reincorporaram ao Caminho Francês

 tanto os peregrinos que tinham evitado o Cebreiro, d

desviando-se até Lugo, por exemplo, Kuning von Vach,

no século XV,como os numerosíssimos que,

em Leão, tomaram a decisão de visitar São Salvador,

em Oviedo.

 

(Tradução livre do El Camino de Santiago - Guía prática del peregrino,

de José María Anguita Jaén, Editorail Everest, Coruña, 2004)

 

 

 

Às 6:30 horas, ao toque do despertador, acordei com menos vivacidade do que me é habitual. Levantei-me com todas as calmas; fui à casa de banho; vesti-me lentamente; arrumei a mochila com o maior ripanço; bebi um iogurte que tinha ficado de véspera e desci para o andar inferior, com todas as calmas. Parecia que estava anestesiado. E ali fiquei um bom bocado à espera dos meus companheiros de jornada - Mónica e António.

 

Os nossos amigos espanhóis foram descendo e, passado um pedaço, eu, a Mónica e o António abandonámos o albergue. Pouco passava das 7:00 horas. Cá fora estava escuro como breu.

 

A lanterna pregou-me a partida

 

Como nos dias anteriores estava muito frio e havia gelo sobre o piso, era preciso andar com todas as cautelas.

 

Saímos pelo Campo dos Romeiros. A minha lanterna de testa não estava a funcionar bem. O mais provável era que as pilhas estivessem já quase esgotadas. A luz que emitia era tão fraca que decidi guardá-la na mochila.

 

A Mónica e o António iam à minha frente, cavaqueando e rindo. Eu tive que acelerar um pouco mais para não perder a ligação e conseguir ver onde punha os pés, guiado pelas luzes deles.

 

 

Saímos da estrada, logo após passarmos o rio Róxan, seguimos por Alto e, logo após a aldeia de San Xulian do Camiño, o primeiro trilho estava coberto de água, obrigando-me a andar em constante equilíbrio sobre uma vereda de pedras. Ainda não havia luz natural suficiente. Era ainda demasiado cedo e, como estávamos dentro dum bosque,

 

 

a luminosidade era ainda menor.

 

Começámos então a ouvir vozes à nossa frente. Eram os nossos amigos espanhóis que circulavam num ritmo mais lento. Rapidamente os alcançámos.

 

À nossa passagem, o Adrian – filho da Maria José – decidiu acompanhar-me.

 

 

Nos dias anteriores foi muito tímido e pouco comunicativo. Talvez estivesse a estudar o comportamento de cada um de nós. A partir daquela altura, nunca mais me largou até à chegada a Santiago de Compostela. É um jovem muito interessante e, durante todo o tempo, foi falando do seu passado, da sua família e dos seus sonhos. Sonhos esses que ficaram só entre nós.

 

O Caminho seguia um interessante trilho florestal de árvores de folha caduca pertencentes ao vale do rio Pambre. Estava muito frio e fazia muita humidade. Com o meu amigo Adrian, entrámos num bom ritmo e galgámos os primeiros quilómetros com facilidade. As nossas conversas foram-se sucedendo aso mesmo ritmo que iam passando as aldeias e, com isso, ganhámos uma empatia que penso não se ter partido.

 

O troço entre Palas de Rei e Arzúa é conhecido pela água dos ribeiros e dos quebra-pernas. Durante o nosso trajeto, atravessámos oito veios de água – rio Pambre, rio Porto, rio Seco, rio Furelos, rio Lázaro, rio Barreros, rio Boente e rio Iso. E estávamos conscientes de que seria um troço muito complicado, em termos de subidas e descidas, pelos montes da Galiza.

 

 No meio da conversa foram sucedendo-se os povoados de Aldea de Riba, Gailoa de Riba, San Xulain e Pontecampaña.

 

Entretanto, eu e a Mónica fomos para a frente do grupo e, no cruzamento de Graña, com várias setas alternativas, enganámo-nos: seguimos a seta errada que estava desenhada, por malvadez, no chão, apontada para o lado esquerdo, em tamanho gigante. Custou-nos perdermos cerca de meia hora, entre o ir e vir, até irmos dar ao cruzamento.

 

Quando chegámos, todo o grupo nos esperava, junto da Casa de Turismo Rural de los Somoza.

 

 

Perto da casa, este bonito «cabazo»

 

 

e o «lettering» da Casa Rural.

 

 

Adrian estava à nossa espera sentado num tronco cortado de uma árvore, em bela pose fotográfica.

 

 

 

Dei uma ajuda à Verónica

 

Pusemo-nos novamente em marcha.

 

Reparei que a Verónica seguia em grande sofrimento.

 

 

As botas que calçava eram inapropriadas para uma caminhada daquelas. Eram-lhe apertadas e, tanto a sola como o revestimento, eram de materiais muito rijos. Se não fosse a sua grande perseverança, decerto teria desistido. Contudo, a sua força interna inabalável e um compromisso superior deu-lhe alento para continuar até ao limite.

 

Embora Verónica se opusesse, logo a seguir a Casanova, peguei-lhe na mochila e coloquei-a nos meus braços, virada para a minha frente. Emprestei-lhe os meus bastões e, assim, caminhámos, lado a lado, conversando.

 

Com o ritmo mais lento do que o desejado, passámos Porto do Bois, Campanilla e seguimos por um bosque de eucaliptos até alcançar Coto.

 

O peso adicional e a dificuldade em respirar – a mochila tapava-me frequentemente a boca – não me permitiu continuar para além do rio Seco, depois de atravessarmos uma ponte medieval, de um só arco,

 

 

a seguir a Leboreiro (Campus leoparius) – terra rica pela abundância de lebres.

 

António, na sua tarefa de repórter do grupo, não perdeu a oportunidade de tirar uma foto à igreja românica de Santa Maria, do século XIII,

 

 

e a este precioso pormenor do tímpano da fachada principal,

 

 

onde está esculpida a bela figura da Virgem com o menino.

 

Mas a solidariedade entre todos é um dos traços mais nobres e mais bonitos das caminhadas. Desde logo, o António e a Mónica decidiram passar um bastão por dentro das alças da mochila e carregaram-na até próximo de Melide. A Verónica, para não perder a ligação, arrastava-se junto de nós.

 

Após passarmos o Polígono Industrial da Gándara e a aldeia de Piñer, descemos bosques cerrados, passando por Disicabo, que nos levou à ponte medieval de quatro arcos, por onde passa o rio Furelos,

 

 

afluente do rio Ulla, e à aldeia do mesmo nome.

 

Aí parámos a descansar e a aliviar as roupas. O suor escorria pelo corpo. Aqui, ainda tivemos oportunidade de observar um bocadinho a «desmancha» de, «com sua licença», o porco,

 

 

feita também à boa moda transmontana. Os costumes são idênticos. Razão pela qual o António tanto gosta de, a estas terras do Norte de Portugal e Galiza, lhes chamar «Gallaecia», a que veio da cultura castreja e dos romanos.

 

Pusemo-nos novamente em marcha, por entre casas baixas e ruas estreitas. Dois quilómetros à frente apareceram-nos as primeiras casas da vila de Melide e o marco jacobeu, a indicar-nos que ainda nos faltam 51 Km para chegarmos a Santiago de Compostela.

 

 

Melide tem 4 800 habitantes. Fervilhava de transeuntes. Era sábado e, no jardim da praça principal, decorria uma demonstração dos bombeiros municipais, com um pequeno simulacro de incêndio. As crianças assistiam entusiasmadas a toda aquela ebulição. Estava um belo dia de primavera.

 

Melide está na vertente ocidental da serra de Careán. É ponto de confluência dos Caminhos Primitivo e Francês. E o centro geográfico da Galiza. 

 

Ainda faltam cerca de 15 km

 

À exceção do António e da Mónica, que se apresentavam com uma energia fantástica, todos os outros, eu inclusive, sentámo-nos nos bancos do jardim, de costas para o acontecimento, a fim de refazermos as forças para a restante caminhada que nos esperava: estávamos a 15,05 km do albergue de Arzúa.

 

Com um cansaço e uma preguiça imensa, pusemo-nos em marcha pelas ruas movimentadas àquela hora do dia.

 

Íamos seguindo as setas indicadoras do trajeto, por entre ruelas e becos, até que o António e a Mónica decidiram ir visitar a bela igreja de San Pedro,

 

 

que apresenta, na sua fachada, esta imagem de S. Francisco.

 

 

No seu interior estes dois bonitos retábulos: um, de um altar lateral;

 

 

o outro, do altar-mor.

 

 

O que resta das instalações do antigo mosteiro de S. Francisco está hoje ocupado pelo Museu das Terras de Melide. Na praça do Convento, onde se localiza a igreja de S. Pedro e o Museu, está a Casa do Concello.

 

 

Passámos pelo albergue de Melide, onde um «memorial» nos dá conta que, aqui, um peregrino acabou a sua «caminhada terrestre».

 

 

A Verónica parecia um pouco mais aliviada, embora com dificuldades. A Alba também apresentava dificuldades.

 

O pai (Vicky) teve que lhe dar uma ajuda, carregando a mochila também por algumas vezes.

 

Descemos Melide em direção a um bosque muito cerrado, passando por Santa Marta, Carballal, Raido.

 

Passámos o rio Parabispo; o rio Lázaro; o rio Barreros e o regato Valverde.

 

 

Daqui,

 

 

seguimos para Peroja e Boente, descendo em direção ao rio com o mesmo nome. Eram aldeias e lugarejos vazios de pessoas, que nos sucediam a bom ritmo.

 

 

 Ao fundo duma descida íngreme, num bosque de eucaliptos, parámos junto a uma fonte de água corrente. Estávamos todos exaustos da jornada. Aproveitámos para descalçar as botas e lavar os pés e a cara. Refrescámo-nos um pouco. E por ali ficámos uns bons minutos a ganhar alento.

 

O Adrian continuava a ser o meu companheiro de viagem. A partir desta fase, começaram a suceder-se ininterruptamente subidas e descidas. Para acompanharmos a Verónica e a Alba, abrandámos o ritmo. Esta passada mais lenta foi fatal! Foi-nos destruindo as energias e inutilizando as pernas. Parece que nunca mais chegávamos ao destino.  

 

Ficamos já aqui?

 

Os «sobe e desce» iam desesperando o grupo que, lentamente, galgava quilómetros.

 

Passámos com dificuldade as sinuosidades de Castañeda, Pomarino, Pedrido, o regato Liberal e dirigimo-nos a Ribadiso da Baixo.

 

Ribadiso da Baixo é um local paradisíaco, com a ponte sobre o rio Iso a correr bucolicamente junto ao albergue,

 

 

que outrora fora o hospital de San Antón de Ponte de Ribadiso (séc. XV) servindo de apoio a peregrinos.

 

 

O grupo começou a questionar-se se não seria melhor pernoitarmos ali. Parámos para tomar uma decisão.

 

Estávamos a 5,8 km de Arzúa. Parar ali faria que a etapa do dia a seguir, até Monte do Gozo, fosse de 43,3 km. Seria uma verdadeira loucura! Então, após um pequeno descanso, optámos pela decisão mais acertada - continuarmos.

 

Aguardava-nos o troço final – o rabo é sempre o mais difícil de esfolar – com fortes subidas.

 

Após Lena de Arriba, demos de caras com uma reta sem fim, à entrada da parte nova vila de Arzúa.

 

Estava muito cansado e apetecia-me desistir. Enquanto os outros avançavam penosamente, fiquei parado ali na meia encosta, com o suor a escorrer-me por todos os poros e a respiração ofegante. Para ganhar alento virei os meus olhos ao céu em busca de um incentivo. Passados breves instantes, dentre pequenos rolos de nuvens dispersos no horizonte, surgiu uma autoestrada de raios violetas. Eram os sinais que eu precisava para vencer, com ganas, a minha temporária derrota. Bebi um gole de água, cerrei os dentes e pus-me novamente a Caminho. Acelerei o passo e, passado pouco tempo, estava novamente ao lado dos últimos do meu grupo.

 

A meio da reta, junto à bomba da gasolina Repsol, estava a esposa do Vicky, e mãe da Alba, Susana, a perguntar-nos se o marido e a filha ainda vinham muito longe. Dissemos-lhe que não.

 

Ao chegarmos à primeira cervejaria de Arzúa, parámos para beber e reagrupar os restantes elementos.

 

Voltámos a meter pés ao Caminho à procura, numa estrada sem fim, de um albergue, escondido algures.

 

Por fim o albergue

 

Eu e o Adrian fomos acelerando o passo até ao limite, no desejo de rapidamente nos despirmos, tomarmos banho e pormos fim a jornada do dia. Estávamos, positivamente, rebentados.

 

Na parte velha, ao fundo da rua, eis, enfim, o albergue!

 

 

Começava a anoitecer. Eram perto das 18:30 horas. Foi a etapa mais sofrida de todo o trajeto.

 

Para aquilo que esperava, não estava assim tanta gente no albergue. Decerto alguns estariam bem mais atrasados. Provavelmente chegariam mais tarde.

 

Arzúa recebe todos os peregrinos que percorrem os Caminhos Francês, Primitivo e do Norte.

 

A vila tem 2 400 habitantes. Possui uma parte antiga interessante. O albergue fica num edifício muito antigo, mas com uma construção restaurada.

 

Após o banho, foi a hora de tratar os pés e as pernas dos nossos amigos espanhóis. Estavam uma lástima, em especial os da Verónica e os da Alba. Os pensos de Compeed faziam uma amálgama com a pele dos pés. Tivemos de nos socorrer dos nossos amigos holandeses, que eram enfermeiros que, imediatamente, se propuseram fazer o trabalho de recuperação. Foram excelentes. Após um breve descanso, decidimos ir todos jantar ao restaurante.

 

Perto do centro, encontra-se uma pensão já fechada, embora se visse gente lá dentro. Batemos e explicámos que pretendíamos jantar. Depois de um pequeno diálogo, e alguma hesitação, propuseram-se fazer-nos o jantar. Comemos muitíssimo bem, direi mesmo, aquele foi o local onde comi melhor em todo o Caminho. A vitela estufada estava tenra e saborosíssima. Todo o acompanhamento foi a primor. O preço... Bem, o preço, embora não escandalizasse, podia ter sido mais generoso!

 

Como já era tarde e fazia um ventinho de rachar, decidimos ir para o albergue descansar.

 

O albergue tinha a luz do teto com uma intensidade muito reduzida, o que convidava imediatamente a descansar. E assim fomos, lentamente, um a um, todos adormecendo. Em breve começou a sinfonia do ressonar, onde quase todos roncavam a compasso, numa orquestração de perfeito desassossego, embora pense que eu também tenha ensaiado com o grupo algumas notas da peça musical daquela noite.

 

Se contribui, não me recordo, acreditem!

 

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 4ª etapa de Palas de Rei a Arzúa para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].


publicado por andanhos às 21:19
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