Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - 3ª etapa - Portomarín-Palas de Rei

  

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

3ª etapa:- Portomarín-Palas de Rei

 

19. Dezembro. 2008

 

 

 

Palas de Rei deve o seu nome ao Palácio do Rei Visigodo Witiza,

                que teria reinado entre os anos 702 e 710.

                Foi aqui que este rei visigodo matou Favila,

 Duque da Galiza e pai de Pelayo.

Contudo, a história de Palas de Rei começa muito antes.

Existem numerosas evidências de antigos assentamentos,

cujos restos perduraram até aos nossos dias,

mostrando-nos peças de enorme valor,

como o «torques» de prata de San Xusto.

Os romanos atravessaram este território

com uma das suas mais importantes vias,

que unia Lugo a Iria Flavia, deixando uma amostra

da sua afamada arquitetura na Ponte Ferreira.

                                Mas, foi graças ao Caminho de Santiago, na Idade Média, já referido no Liber Sancti Iacobi,

 que Palas de Rei alcançou a prosperidade e adveio o seu nome, pela via francesa. 

Dessa época é o magnífico Mosteiro de S. Salvador,

de Vilar de Donas, na rota jacobeia do Caminho.

 

(Tradução adaptada do Facebook:- Galicia pueblo a pueblo- 2014)

 

 

 

Prontos para um novo dia

 

Nesta noite dormi duma forma um pouco sobressaltada. Ao primeiro toque do despertador, ergui-me de imediato: eram 6:30 horas. Toda a gente dormia profundamente e alguns ainda ressonavam forte. Como para mim o sono é um bem sagrado, peguei nos meus artigos de higiene, na toalha e, pé ante pé, desci as escadas para o andar inferior, onde ficam os balneários.

 

Quando voltei à camarata, chamei o António e a Mónica. E começou a breve agitação que acabou lentamente por acordar todo o grupo que se encontrava naquela sala: nós os três e os recém-chegados espanhóis que tínhamos contactado no dia anterior. Para não fazer muito barulho, trouxe o resto da minha roupa para fora da camarata, onde acabei por me vestir. Quando voltei lá dentro, para buscar o restante material e guardá-lo na mochila, já toda a gente estava de pé nos preparativos para arrancar.

 

Pelas janelas verifiquei que o dia ainda não tinha nascido: só se viam os raios azulados da lua. Apurei melhor a vista e reparei que não haviam nuvens no céu, nem sequer vento a vergar as árvores. No entanto, prometia muito frio porque, o pouco que via das ervas, estava atapetado de branco.

 

Avisei os restantes companheiros do estado do tempo e de alguns cuidados a ter com o frio.

Vesti-me a rigor, em função da experiência dos dias anteriores.

 

Quando o António e a Mónica acabaram de se trajar a rigor, despedimo-nos dos outros:

 

- Bueno Camino!

 

E saímos.

 

Ganhamos novos amigos

 

Na praça principal, em frente ao Ayuntamíento, nas arcadas que envolvem os edifícios do topo sul da praça, estava o único café aberto. Entrámos para tomarmos o pequeno-almoço. Passado poucos minutos, entraram os nossos recentes amigos para fazerem o mesmo. Durante o tempo de espera, batemos umas fotos e trocámos endereços eletrónicos.

 

 

Iniciava-se, ali mesmo, uma salutar amizade entre todos. E, como se dará conta mais adiante, perduraria até ao fim do Caminho.

Ficámo-nos a conhecer melhor:

 

De Portugal

  • António de Souza e Silva, residente em Chaves;
  • Mónica Botelho, residente em Matosinhos/Porto;
  • Emídio Almeida, residente em Lisboa.

De Espanha

  • Juan Ruibal (Vicky), residente em Caldas de Reis;
  • Alba Ruibal (Alba), residente em Caldas de Reis;
  • Maria José Tronchoni (Maria José), residente em Valência;
  • Adrian Tronchoni (Adrian), residente em Valência.

Da Venezuela

  • Verónica Avilés, residente em Madrid.

 

Após tomarmos o pequeno-almoço, os dois grupos despediram-se e partiram separados.

 

De novo pés ao Caminho

 

O nosso grupo foi o primeiro a pôr-se em marcha. Tínhamos consciência que esta etapa representava algumas dificuldades, dado que cerca de 20 Km eram a subir.

 

Descemos a estrada que nos levava às pontes que servem de passagem sobre a albufeira da barragem. Pessoalmente, optei pela rodoviária, enquanto a Mónica e o António seguiram pela pedonal. À saída das pontes, entrámos num bosque de eucaliptos, onde começa a primeira subida do dia, com forte pendente, até apanharmos a estrada LU-633, que nos vem perseguindo já desde O Cebreiro. As subidas são o meu calvário e aí a minha velocidade baixa de forma gritante. O António e a Mónica, sempre generosos, quando chegavam ao cimo, esperavam por mim, dando-me alento. Em boa verdade, reconheço que o peso dos meus 57 anos fazem-se sentir efetivamente nas subidas.

 

Fomos conversando e descobrindo-nos uns aos outros cada vez mais. Falámos abertamente da vida, das vitórias e das derrotas que cada um carrega no seu fardo. Todos demonstrámos a maior atenção e compreensão pelos problemas de cada um.

 

Durante largo tempo tivemos que circular pela berma desta estrada enquanto outras vezes o Caminho seguia um trilho paralelo durante muitos quilómetros. E, assim, fomos atravessando as povoações de Cerâmica, Cortapezas e Toxibo, todas com fortes subidas.

 

A LU-633 não nos larga

 

A partir de Gonzar, e logo a seguir ao regato de Balacedo, circulámos alternadamente entre estradas de aldeia e a LU-633, passando por Castromaior (a 81 Km de Santiago de Compostela) até Hospital da Cruz, onde outrora existia um hospital para peregrinos. Embora estando muito frio, estávamos a suar e parámos para bebermos uma boa cerveja para arrefecer o corpo e consolar a alma. Como a fome apertava, decidimos comer uns «bocadillos». Rematámos com nova cerveja, seguida de um café.

 

 

Mais reconfortados, voltamos ao Caminho.

 

Cada um tentou adaptar-se ao ritmo próprio de modo a tornar menos penosa a caminhada. Sinto-me, por vezes, confortável quando caminho sozinho com os meus pensamentos e as minhas energias.

 

Abandonámos então a LU-633 e entrámos na C-535. Aqui a estrada era toda nossa.

 

 

Passámos por aldeias sem fim, ao longo de todo o trajeto, que não trouxeram nada de novo ao que já conhecíamos de outras paragens em terras galegas. Seguimos por Ventas de Narón,

 

 

Prebisa e, ao quilómetro 13, subimos a desflorestada serra de Ligonde.

 

 

Seguimos por Lameiro, com destaque para o cruzeiro de Ligonde, com uma bela cruz medieval, Eirexe, onde se encontra o mosteiro de Vilar de Donas, do século XIII, (a 71 Km de Santiago de Compostela) pertencente à Ordem de Santiago, que é a mais importante igreja das vinte que se encontram no município de Palas de Rei, depois Portos, Lestedo,

 

 

com um pormenor da sua «rectoral»,

 

 

e Vilaxuán.

 

Água por favor

 

 

 

O dia estava particularmente bonito, com um azul forte, e a temperatura estava amena, desprendendo-se do sol brilhante. Despi o anorak e retirei o gorro, que troquei por chapéu de abas largas. A sede começou a apertar e, incrivelmente, ninguém já levava qualquer gota nos cantis: era urgente arranjar água para beber.

 

À entrada de Valos, há uma pequena fonte por onde passámos mas sem termos o impulso de encher os cantis, de tão absortos que íamos nos nossos pensamentos ou na conversa. Fiquei, no entanto, com o meu subconsciente a exigir-me água. Cem metros mais à frente, perguntei a uma senhora velha, que se cruzou comigo, onde haveria água para beber e encher o cantil. Aconselhou- e a prosseguir Caminho porque haveria de encontrar uma nascente com água de muito boa qualidade cerca e quinhentos metros mais à frente. Depois de muito andar, deparei-me com um lavadouro de roupa, com água suja de lavagens, impossível de beber.

 

Paramos os três a descansar à sombra duma árvore velha como os tempos.

 

O exemplo do Bom Peregrino

 

Ao longe aproximava-se um jovem com mochila às costas. Trazia o mínimo para sobrevivência numa caminhada: uma velha mochila já rota lateralmente, botas inapropriadas, tendo cordéis de sisal como atacadores; não trazia qualquer proteção para a chuva ou agasalho para temperaturas baixas; na mão só um pequeno recipiente para transportar água; e um grande sorriso nos lábios.

 

Ao cruzar-se connosco, perguntámos-lhes quem era. Ficámos espantados! Era equatoriano, viva em Espanha, e vinha de Finisterra a Caminho de Lourdes, com passagem por Santiago de Compostela. Todo ele irradiava felicidade e muita fé. Dissemos-lhe que n’O Cebreiro iria provavelmente apanhar muito mau tempo, com neve e temperaturas baixas. Sorriu dizendo que com fé não há obstáculos. E partiu feliz. Acenámos e desejamos-lhe:

- Bueno Camino!

 

Voltámos à nossa marcha. Seguiram-se os povoados de Mamurria, Brea,

 

 

Rosário (a 67,5 Km de Santiago de Compodstela) e, por fim, descemos para Palas de Rei, cujo nome advém do palácio que aqui possuía um rei godo de nome Witiza. Mónica chegando aos subúrbios da vila,

 

 

passando por um grande complexo desportivo - Os Chacotes,

 

 

que também serve de albergue no verão. Parámos para nos certificarmos se era ali que iríamos ficar, quando um carro, que seguia na estrada, se aproximou de nós e, simpaticamente, o seu condutor disse-nos que o albergue era mais à frente, no centro da vila.

 

Por fim, Palas de Rei

 

Palas de Rei, a 66 Km de Santiago de Compostela, é uma vila com cerca de 800 habitantes que esteve desde sempre ligada ao Caminho de Santiago,

 

 

constando da décima terceira parte jornada do Codex Calixtinus.

 

Sempre a descer, passámos junto à bela igreja de San Tirso,

 

 

reparámos para a sua fachada principal,

 

 

atravessámos a estrada que passa ao lado do albergue, que se encontra numa esquina dum quarteirão. Como não está muito bem sinalizado, passámos à porta sem darmos por isso. Andámos às voltas e tivemos de pedir ajuda a um habitante para sabermos como chegar até lá. Entretanto, bem no centro, o edifício do Ayuntamiento, bem perto do albergue.

 

 

O albergue

 

 

é uma habitação limpa e arejada com a camarata no primeiro andar. No entanto, os balneários são mistos, sem qualquer privacidade entre homens e mulheres. Por isso, tivemos que nos dividir em dois turnos para evitar a promiscuidade: primeiro, tomei eu e o António; depois a Mónica. A água da caldeira começou com uma temperatura agradavelmente quente mas, após uns banhos, virou para tépida.

 

Como a fome apertava, após o banho e a mudança de toilette, saímos em busca do almoço ajantarado. Fizemos um repasto divinal. Passámos o resto da tarde os três sentados à mesa a comer, a beber e a conversar. Enquanto aguardávamos a refeição, fomos bebendo umas cervejolas frescas e comendo amendoins torrados. Depois veio a refeição propriamente dita que foi degustada lentamente.

 

Antes de voltarmos ao albergue, decidimos ir a um minimercado comprar fruta e iogurtes para aconchegar o estômago ao deitar. Demos então uma volta à zona central mas,

 

 

como o tempo começou rapidamente a arrefecer, voltámos ao albergue para descansar. À porta da entrada estavam os nossos amigos holandeses, deitados sobre as mochilas e sobre as pedras da calçada. Perguntámos se subiriam connosco. Responderam que iriam seguir em frente para ficarem no próximo albergue - San Xiao do Camiño. Despedimo-nos deles e subimos.

 

Novamente juntos

 

À entrada na camarata, deparámo-nos com os nossos cinco amigos espanhóis que tinham acabado de chegar. Tinham tido um esforço muito grande e muitas dificuldades. Em todos eles, os pés apresentavam grandes bolhas nas solas, arrancamento de pele nos calcanhares e dores nas pernas. Era a altura do António, a Mónica e eu tratarmos aqueles amigos.

 

Seguimos os cânones prescritos para situações daquela natureza, isto é, massajei-lhes os pés e as pernas a todos eles, enquanto o António e a Mónica tratavam-lhes os pés pelo método tradicional da linha e da desinfeção. Quem estava a sofrer mais era a Verónica e a Alba, que tinham os pés numa lástima.

 

Após o banho e o tratamento, saíram para a refeição, enquanto nós os três ficámos a camarata a conversar e a ler.

 

Desci ao rés-do-chão ao encontro dos sinais para complemento do meu dia. Sem nuvens no céu é tão difícil descobrir!.. Após algum tempo de espera, surgiu um conjunto de raios vermelhos.

 

Acabara de ser presenteado.

 

A noite aconteceu cedo. Rapidamente tudo ficou escuro lá fora. O frio apareceu novamente.

 

De volta à camarata, os nossos amigos mantiveram uma alegre conversa durante longo tempo, contando as histórias de vida de cada um e os acontecimentos do dia.

 

O António voltou a brindar-nos com o velho Vinho Fino do Douro ao deitar. Todos adoraram o sabor. Até o Adrian, um adolescente, bebeu um pouquito, ficando a lamber os lábios.

 

Como sempre, às 22:00 horas, apagámos a luz para o descanso. Só eu e o António ficámos acordados, a devorar o livro que levávamos de suporte.

 

Mal sabia o que me iria esperar aquela noite!

 

O efeito de Doppler no ressonar do António

 

 Foi a primeira vez que dormi ao lado do beliche do António. Ressonou durante toda a santa noite e, de tal modo, que tive várias vezes de o acordar, batendo-lhe com o bastão de modo a que ele se virasse na cama e acabasse com aquele roncar enfadonho. Na camarata todos iam dando pelo ruído ensurdecedor daquelas narinas a apitar forte como se fosse um comboio a vapor a passar a grande velocidade num túnel. Creio que cheguei mesmo a ouvir alguns silvos junto a uma passagem de nível sem guarda. E foi assim durante toda a noite... Quando recomeçava a pegar no sono, devido ao efeito de Doppler, lá se ouvia, ao longe, duma forma indistinta, o som do comboio a ganhar velocidade e, ao fim de pouco tempo, com as narinas a botar vapor, passava por mim que até o meu beliche parecia estremecer ao compasso de cada silvo. Era como se fosse desesperadamente em busca do tempo perdido.

 

 

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 3ª etapa de Portomarín até Palas de Rei para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

 

publicado por andanhos às 23:14
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