Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Francês - 1ª etapa - O Cebreiro-Samos

 

 

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

1ª etapa:- O Cebreiro - Samos

 

17. Dezembro. 2008

 

 

 

 

O ANXO E A CAMPÁ

 

 En vivencia parlante e transcendente,

da elevada misión que cumpre oufana,

baixo un anxo de pedra, está pendente,

no cruzamento dos claustros, a campá.

 

 Día tras noite, da leal amiga

as badaladas graves e sonoras,

con ledicia e dozura de cantiga,

marcan e miden o correr das horas.

 

 Servidora da Regra, voz do Abade,

sempre atenta ao mandado, sempre alerta,

en tributo á claustral Comunidade,

labouras, clases e oracións concerta.

 

 

O anxo de pedra, orante silencioso

en inmóbil actitude estatuaria,

é o monástico emblema  relixioso

da paz, da soidade e da pregaria.

 

 Cando pasan os monxes ao seu lado

lles rinden con fervor unha sorrisa,

que ven neles o símbolo prezado

da máis amada monacal divisa.

 

 Do anxo as mans xuntas dinlles: Ora!

Da campá o tanguido di: Labora!

 

Ramón Cabanillas

 

 

 

 

O dia prometia ser muito difícil

 

Tal como tínhamos combinado de véspera, às 6:30 horas da manhã, o meu telemóvel tocou o alarme. Eu já estava semiacordado e desliguei-o de imediato. Como é hábito em mim, pus-me de pé imediatamente e fui para os lavabos. De regresso à camarata, na ante câmara, perscrutei o exterior, ainda negro e sem luz, pelas vidraças das janelas. O nevoeiro era intenso, o vento assobiava forte, a humidade era tanta que parecia chover uma chuva de bagas grossas ou, eventualmente, seriam pedaços de neve e gelo a voar. Tudo o que se podia distinguir, no meio daquela escuridão, era qualquer coisa branca que se esborrachava contra as vidraças. Devia estar muitíssimo frio. No interior, os vidros estavam permanentemente embaciados, tal a diferença de temperatura.

 

Voltei à camarata e tencionava não fazer barulho para não acordar os restantes elementos que dormiam no dormitório mas, quando abri a porta, já todo o mundo estava de pé em preparativos para o início da jornada.

 

Aconselhei a rapaziada do nosso grupo que se vestisse da maneira mais eficaz para suportar o clima do exterior - gorro de lã grossa, luvas quentes e impermeáveis, botas impermeáveis, com dois pares de meias quentes e grossas, cachecol, blusão impermeável, para suportar temperaturas negativas, poncho, para proteger os corpos e as mochilas da chuva, e roupa interior quente.

 

Com o que nos restava do dia anterior, tomámos um rápido pequeno-almoço. Eu, por mim, limitei-me a comer duas maçãs. Abri a porta para tomar o pulso ao tempo. Estava efetivamente húmido e muito frio. E era provável mesmo que as temperaturas estivessem bem abaixo de zero, embora não houvesse registo para confirmar.

 

Discutimos a possibilidade de arrancarmos mais tarde, de modo a que pudéssemos ver a aldeia à luz do dia em todo o seu esplendor. Mas a distância que nos separava de Samos era tamanha, e o tempo estava tão mau, que decidimos, de imediato, por os pés a Caminho. Foi com muita mágoa, e bastante relutância, que parti sem visitar a aldeia.

 

Despedimo-nos dos nossos companheiros peregrinos e saímos.

 

Cá fora a neve estava transformada em gelo pelo vento e, a única luz que havia, vinha das nossas lanternas, a debitar uma magra luminosidade. À saída da porta existia uma longa escada de dois vãos, feita de madeira atapetada por gelo escorregadio. Em equilíbrio instável, fomos descendo com mil cuidados, degrau a degrau, lentamente, com os bastões bem vincados no solo.

 

A partir da base da escada, tivemos de percorrer um curto, mas difícil trilho, com a neve acima dos nossos joelhos, até alcançarmos a estrada LU-633.

Metemo-nos ao Caminho num silêncio sepulcral apenas perturbado pelo barulho das nossas botas sobre o asfalto e sobre a neve; pelo barulho dos joelhos a roçarem-se entre si por dentro das calças e pelo vento a assobiar, torturando-nos os narizes. Percorremos, assim, vários quilómetros cabisbaixos. Os meus óculos estavam completamente encharcados e as bagas de água e gelo impediam-me que visse o que se passava à minha frente. Por várias vezes tirei-os para os limpar, de tal maneira que se me acabaram os lenços de papel. Por fim, tomei a decisão de os tirar definitivamente e fazer o resto da caminhada até Triacastela sem os pôr.

 

Por outro lado, os «apetrechos» de fotografar e filmar, começaram a ressentirem-se do frio e da humidade, ou seja, não funcionavam.

 

 

Parecíamos fantasmas caminhando em silêncio, vigiados por vultos gigantes: do lado norte, os montes Chao do Teso e do Fedo; do lado sul, o monte do Bieiro.

 

As coisas começaram a complicar-se

 

Nenhum ser vivo aparecia no horizonte. Quando começou o dia a clarear, começámos a maravilhar-nos com a paisagem. À nossa direita, de uma forma ainda bastante difusa, afundava-se, encosta abaixo, toda a serra dos Ancares e, do lado esquerdo, surgiam os enevoados vales da serra do Courel, tendo ao fundo algumas casas perdidas no espaço branco, com os telhados em ardósia cinzenta, como se fossem flores esquecidas à espera duma mão estendida para apanhá-las.

 

O vento tinha parado e tudo à nossa volta era silêncio e branco. Ninguém passava. A manhã estava gélida e tudo estava envolto numa névoa espessa e humidade que entranhava por todos os poros. Nas zonas mais altas do vale, que debrua a estrada, viam-se as coroas das árvores pertencentes a um bosque frondoso, escarpa acima. Sucediam-se subidas e descidas que nos acompanharam durante a primeira parte do percurso até Liñares - antigo local de plantação do linho - e Alto de San Roque, onde parámos, junto ao monumento em bronze, para uma foto de circunstância.

 

 

À nossa esquerda, o vulto do monte Lebrafo, com os seus 1480 m, intimidava-nos.

 

À chegada ao Hospital da Condesa  - fundado no século IX pela condessa D. Egilo - começou uma forte chuva miudinha, que entrava até aos ossos, e que nos acompanhou até San Juan de Padornelo. E, na íngreme subida até Alto do Poio, foram quinhentos metros de grande dureza. Foi aí que escolhemos o momento de parar para tomar o pequeno-almoço no único bar aberto em tantos quilómetros.

 

D. Maria dos Remédios

 

Até que chegámos ao ponto mais alto - o Alto do Poio - à cota de 1337 m. Aí, no cimo, saímos da estrada, rodámos ligeiramente à esquerda, por um aparente trilho circundado de neve que tinha mais de um metro de altura, e entrámos, um a um, num café/bar. D. Maria dos Remédios, a sua proprietária, quando nos viu, recebeu-nos de lágrimas nos olhos e de braços abertos.

 

Aguardava-nos uma lareira de fogo intenso, ali colocada à nossa espera. Despimo-nos sem cerimónia e secámo-nos. Foi mais de meia hora a destilar vapor de água que se desprendia das nossas roupas – ponchos, anorak's, luvas, mochilas e botas. À medida que falávamos entre nós, o vapor saia aos golfões das nossas bocas.

 

Como a tempestade se tinha instalado nas montanhas fazia tantas semanas, a solidão era tal que a nossa chegada foi como se um raio de luz entrasse na casa daquela senhora. O desejo de D. Maria dos Remédios de ver alguém e conversar era tanto que, num momento de sã e pura franqueza, acabou por nos contar toda a sua história de vida. De cada vez que ia à cozinha buscar uma torradas, ou um café quente ou um leite com chocolate a ferver, trazia sempre consigo um Santiago ou uma Nossa Senhora de Fátima. E, neste vai e vem, havia sempre  mais um pedaço da sua vida para contar.

 

D. Maria dos Remédios enviuvara há muito tempo e, naquele momento, vivia unicamente com um filho que trabalhava como carpinteiro em Samos. Uma doçura de pessoa...

 

À partida tirámos fotos com ela, como sinal da enorme gratidão pelo acolhimento que nos prestou. Despedimo-nos, beijando-a, e - quem sabe! - com a promessa de um dia ali voltarmos.

 

 

- Peregrino (a), se alguma vez passares no Alto do Poio, num dia de chuva, de nevoeiro ou de neve intensa, entra no bar da D. Maria dos Remédios e diz-lhe que aqueles que ali estiveram na tempestade de Dezembro de 2008 lhe mandam beijos, com muita ternura, e um abraço, com muita saudade.

 

A partir dali, o Caminho apresenta um perfil sinuoso, de altos e baixos, numa verdadeira montanha russa. Ao longo da estrada, e nos vales profundos, mal distinguíamos as várias aldeias esquecidas no nevoeiro, com os telhados de xisto reluzente. Passamos perto de Fonfría do Camiño e começámos a avistar, saindo do meio do nevoeiro, alguém com uma mochila às costas e um bastão a marcar o ritmo. À medida que se foi aproximando, deparámos com um velho peregrino que seguia no sentido inverso ao nosso, em direção a’O Cebreiro. Andava com a lentidão dos solitários, mochila singela às costas e bastão. Nada mais! Quando se cruzou connosco, reparamos que seguia completamente encharcado, sem qualquer impermeável vestido. Aparentava ser do centro da Europa, pela cor da pele e pela maneira arrastada com que nos brindou:

 

- Buenuu Caminuu!

 

Sorrimos. E, admirados por aquele ser único, saído da imensidade daquela bruma, do nada, completamente só, e ainda por cima também a sorrir, retorquimos:

 

- Bueno Camino!

 

E lá continuou a marcha sem parar. Andei uns quantos passos para a frente e voltei-me para trás. Vi-o a ser engolido pelo novelo de algodão do nevoeiro e, com o mesmo ritmo, seguiu em frente até desaparecer por completo. A partir de Fonfría do Camiño, com a serra do Rañadoiro à direita, durante cerca de sete quilómetros, a estrada começa a descer com uma pendente superior a 7%, passando ao largo de Biduedo, Villar, Filloval e Pasantes. O monte Airibio, com 1442 m, controla os vales que ficavam à nossa esquerda. Subiam nuvens de nevoeiro como se viessem dum poço profundo, tal era a imensidão de branco resultante da respiração dos regatos Paniscos, Muin Vello e Ribeira. As árvores vergavam-se com o peso da neve. A descida tornou-se cada vez mais íngreme e, durante quilómetros, só o barulho das botas dos cinco se fazia sentir naquela imensidão do espaço! Pouco depois de Ramil, passámos pelos nossos companheiros holandeses. Estavam parados porque, um deles, estava a deitar sangue pelo nariz. Oferecemos os nossos préstimos, mas disseram não necessitar. E continuámos. O ritmo era bom, embora a descida fosse muito acentuada e o asfalto começava a fazer-se sentir nas pernas e nos pés. A Ana Isabel começou a acusar esse esforço e, à chegada a Triacastela, estava exausta.

 

O abandono da Ana

 

A vila de Triacastela, onde vivem cerca de 1000 habitantes, é assim chamada, por alusão a três castelos que figuram na torre da sua igreja, dos quais não há qualquer vestígio. Foi fundada no século IX pelo conde Gáton del Bierzo. Atualmente, dedica-se à indústria do cimento, o que lhe confere um aspeto acinzentado e pouco atrativo.

 

Sentámo-nos num bar para beber uma cerveja e descansar um pouco. Ali mesmo a Ana Isabel decidiu abandonar o Caminho e o grupo, para mágoa de todos nós. Seguiu de táxi com o pai até ao Mosteiro de Samos, onde a vieram mais tarde buscar.

 

Eu, o Rui e o Tóquim almoçámos num pequeno restaurante um razoável repasto «Menu do Peregrino». Descansámos um bom bocado. Conversámos, bebemos e, por fim, lentamente, metemo-nos à estrada com o ritmo das pernas totalmente adulterado. O arranque foi difícil, ainda mais porque todos os trilhos do Caminho de Santiago continuavam cortados, tanto os que seguiam por Furela como os que iam até Samos.

 

A partir de Triacastela, o tempo começou a melhorar ligeiramente. Já não chovia, embora o céu apresentasse um tom cinzento acobreado e muito frio e húmido, devido ao forte degelo que se tinha iniciado. O percurso seguiu pela estrada LU-634, através dum trecho magnífico, ladeado por vertentes xistosas no longo vale de Samos, que se prolongava ao lado da estrada. Escorria água por todos as vertentes e fendas, que rolava sobre penedos e árvores, rasgando arbustos, e indo, por fim, desaguar à estrada, caindo, com um barulho ensurdecedor, no rio Sarria, que é alimentado pelos regatos Santana, Abreival e Nande. Durante nove quilómetros, fomos circulando o vale, passando por San Cristobal do Real, Lusio, Renche, Lastres, Freituxe, San Martin do Real e, por fim, Samos.

 

À descida pela estrada, e subitamente após uma curva apertada e coberta de árvores de grosso porte, sem que esperássemos, demos com o belo Mosteiro de Samos, que confere a Samos uma panorâmica magnífica. Valeu bem o itinerário escolhido, ligando o trecho Triacastela a Samos, o que correspondeu a termos feito mais cinco quilómetros do que se fossemos por Furela.

 

O Mosteiro Beneditino de Samos

 

 

é dos mais antigos de Espanha. Funciona como símbolo cultural da Galiza e faz parte intrínseca da história do cristianismo deste país. Apresenta uma arquitetura impressionante, com volumetria equilibrada, onde se esconde o maior claustro de Espanha. É da época sueva, do século VI, e foi fundado por San Martiño de Dumio, em dedicação a São Julião e Santa Basilisa, mártires de Antioquia.

 

Tudo o que o envolvia estava branco de neve, sobre campos cobertos de verde. Estávamos no final da tarde e a temperatura começava a descer. Antes de entrarmos na porta do mosteiro parei a olhar o céu em busca dos meus sinais. Havia um tapete de nuvens uniforme sobre mim e, dentre umas delas, raios verdes saudaram-me. Fiquei reconfortado.

 

Entrámos no frigorífico

 

Lentamente fomos abrindo a grossa porta de entrada do albergue. Lá dentro estavam o António e a Ana Isabel que, quando nos viram, vieram até nós a dar-nos um forte abraço por aquele pedaço de tarde carregada de ausência. Já eram as saudades... Estávamos encharcados de suor e de água. O albergue é uma velhíssima casamata medieval, ricamente pintada com elementos alusivos à peregrinação, e composto por beliches duplos encostados ao longo das paredes.

 

 

Preenchemos as formalidades legais para ali ter acolhida.

 

 (Tó Quim preenchendo o livro de entrada)

 

 (A minha pose atestando o ato)

 

Ao fundo, estavam os balneários, limpíssimos. A água era pouco menos que tépida. Não havia qualquer tipo de aquecimento naquelas salas enormes. Fazia um frio de rachar. A temperatura dentro do albergue era menor ou igual à da rua. Dentro estava uma humidade a rondar os 100%. Apercebemo-nos logo que iria ser uma noite difícil de suportar.

 

Despimo-nos, colocamos as roupas a secar nos varões das armações das camas, e fomos para o balneário. Embora viesse muito quente da caminhada comecei logo a sentir muito frio. Caí na patetice de ir fazer a barba com a água gelada, que corria dos canos do lavatório. Arrefeci por completo.

 

Após um rapidíssimo banho de duche, a bater o queixo de frio, sequei-me, vesti-me e, de seguida, enrolei-me numa grossa pilha de mantas de lã já puídas pelo tempo e pelo uso. Foram tantas quanto era possível aguentar para fazer um rápido aquecimento. E deitei-me sobre o beliche a descansar um pouco, ainda a tiritar de frio.

 

Entretanto, Ana Isabel, depois de ter ido com o pai comer qualquer coisa a um bar/café, nas proximidades do Mosteiro, despede-se, triste, de todos nós.

 

 

Logo que a filha se foi embora, António decidiu visitar o interior da igreja,

 

 

apreciar as suas bonitas pinturas referentes à Paixão

 

 

e Ressurreição de Cristo

 

 

e o grande claustro do Mosteiro, mais conhecido por Claustro do Padre Feijóo, que, aqui, tomou hábito beneditino, em 1690. Quando regressou contou-nos maravilhas, espelhadas em algumas fotos que tirou das pinturas dos muros do claustro superior, que foram decorados, a partir de 1957, com cenas da vida de São Bento. São obras do corunhês Xosé Luís Rodríguez, realizadas de 1957 a 1960,

 

 

na lateral este do grande claustro, ligadas ao estilo novecentista e postcubismo, com técnica de emulsão de terra e gema de ovo, aplicados com espátula; do pintor madrileno Enrique Navarro

 

 

(ligado também ao cinema;

 

 

daí a inspiração de algumas das suas figuras),

 

 

nas laterais sul e oeste do grande claustro, realizadas entre 1963 e 1965;

 

 

da monfortina Celia Cortês,

 

 

na esquina lateral sul do grande claustro, realizada em 1963 e do catalão Juan Parés, realizadas no claustro das Nereidas

 

 

e no Signo. Para quem queira melhor aprofundar a arte neste mosteiro beneditino, aconselha-se a leitura da obra «Arte Benedictino en los Caminos de Santiago», a partir da página 285, e que poderão consultar no seguinte sítio da internet: http://iacobus.org/documentos/opus2.pdf.

 

Entretanto, quando já estávamos aquecidos minimamente, fomos secar todo o material, desde a roupa aos telemóveis, das máquinas fotográficas às botas. O Rui emprestou-me o secador de cabelo de viagem que, providencialmente, traz sempre consigo. Tinha sido um dia de humidade muito intensa.

Tentámos estabelecer ligação telefónica com a família, mas a localização do mosteiro é num «buraco» e não havia quase rede. Só o Rui conseguiu falar para casa e teve uma notícia pouco agradável – o pai tinha ido ao hospital. Aparentemente não era grave.

 

As vésperas

 

Cerca das 19:30 horas, o simpático e divertido frade hospitaleiro, António, veio convidar-nos para assistirmos às vésperas. Subimos com ele ao primeiro andar do mosteiro e deambulámos nos longos corredores que circundam todo o edifício. A luz era escassa e íamos em passo estugado mas, mesmo assim, permitia-nos ver os lindos frescos pintados na parede. O frio aumentava tanto que nos tolhia os movimentos das pernas e o vapor de água saia pela boca no esforço de cada passada.

 

A capela onde se realizou o serviço religioso era ampla e estava revestida a madeiras antigas. Ao cimo, um pequeno altar para a celebração da missa e, lateralmente, um conjunto de banquetas viradas para o centro, onde os restantes frades seguiam e participavam no serviço religioso. Cá atrás, e virados para o altar, ficavam os bancos onde os fiéis participavam na celebração. Junto à porta de saída, o organista «adocicava» musicalmente o serviço e dava as deixas para a entrada das várias fases do mesmo. Ao todo estariam na capela uns quinze frades, cinco acólitos e cinco fiéis.

 

Após a missa ter acabado, e atendendo ao muito frio que se fazia sentir, um dos acólitos desceu connosco para o rés-do-chão e levou-nos, através do claustro pequeno, até à carpintaria, onde um fogo forte alimentava o aquecimento de todo o mosteiro. Foi uma dádiva! A temperatura era tão elevada que o vapor saía aos novelos das nossas roupas. Mantivemo-nos ali o tempo necessário até que a roupa secou e, finalmente, aquecemo-nos. Agradecendo o gesto, saímos.

 

Logo em frente à porta do mosteiro, há um restaurante. E foi aí que decidimos ir jantar. Optámos pela famosa gastronomia galega: caldo galego (para aquecer as entranhas) e carne de vitela estufada (rija que nem chavelhos). Não tinha qualquer brilho culinário, mas deu para matar a fome. Eu e o António repetimos a sopa bem quente, mas não comemos a vitela, não se podia trincar, de tão rija que estava. O Rui e o Tóquim, esses, mandaram-se a ela, devorando-a. É que aqueles corpinhos não vão lá só com sopinhas.

 

A noite louca da insónia

 

De volta ao albergue, foi uma noite de loucura. Parecia que estávamos eletrizados ou com pilhas reforçadas. Estávamos sós. A camarata estava por nossa conta. Antes de nos deitarmos bebemos o Vinho Fino do Douro, que vinha religiosamente guardado e escondido no cantil do António. Bebemos e repetimos e, talvez por isso, o sono não pegava.

 

Cada um embrulhado no seu saco-cama, e com três mantas por cima, foi brincadeira pegada, com galhofa, risos, anedotas, piadas e tropelias até as 2:40 horas da manhã. De tão cansados, quer do dia, quer da galhofa, adormecemos vencidos pelo cansaço.

 

 

Texto - Emídio Almeida (adaptado)

Fotografia - António de Souza e Silva

 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo filme/diaporama desta 1ª etapa d’ O Cebreiro até Samos para visionamento dos (as) nossos (as) leitores (as).

 

[Nota:- Para ouvir o Filme/diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 


publicado por andanhos às 08:07
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