Segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho Francês - Prólogo

  

 

CAMINHO FRANCÊS DE SANTIAGO

 

16 a 22 de Dezembro de 2008

 

 

 

PRÓLOGO

 

No preciso momento em que dou início ao relato/reportagem do Caminho Francês de Santiago na Galiza, acabo de efetuar o último Caminho, dos sete oficiais, a Santiago - O Caminho Inglês.

 

Os sete Caminhos efetuados foram: Caminho (Sanabrês) da Via de la Plata; Caminho do Norte; Caminho (Central) Português; Epílogo - Santiago-Muxia-Fisterra; Caminho Primitivo e Caminho Inglês.

 

Em Junho de 2007, com o amigo Fábio e seu filho Mitok, fiz o Caminho Sanabrês da Via de la Plata; em Dezembro do mesmo ano, com os mesmos companheiros, fiz o Caminho do Norte; em Junho de 2008, com o meu sobrinho Florens, fiz o Caminho Português; em Setembro de 2008, com o amigo Fábio e os seus dois filhos, fiz o Epílogo - Santiago - Muxia (interrompido em Muxia por uma enorme «borrasca»; em Março de 2013, com o amigo Fábio e os seus dois filhos, completámos o Epílogo de Muxia a Fisterra; em Dezembro de 2012, com o amigo Fábio, fiz o Caminho Primitivo nas Astúrias - de Oviedo a Pola de Allende; em Abril de 2013, com o meu sobrinho Florens, fiz o Caminho Primitivo de Pola de Allende a Santiago de Compostela (Caminho Primitvo na Galiza) e, de 5 a 10 de Abril passado, também com meu sobrinho Florens, fiz o Caminho Inglês. Ou seja, três Caminhos - Sanabrês da Via de la Plata; do Norte e Epílogo (Santiago-Muxia-Fisterra) - fi-los com o amigo Fábio e com um ou os dois dos seus filhos; os outros três - Português; Primitivo e Inglês - fi-los com o meu sobrinho Florens.

 

Para além das vivências especificas de cada Caminho e, em cada um deles, cada etapa, plasmadas por cada troço e por quem nele nos cruzamos, quer sejam os habitantes de cada lugar por que passamos, quer os (as) companheiros (as)/peregrinos (as) com quem nos cruzamos, o que mais dita em profundidade a experiência é o grupo ou pessoa (s) com quem nos comprometemos a efetuar o Caminho. Essa é a dinâmica básica. Tudo o que vem é acrescento e enriquecimento do nosso caminhar, no nosso percurso de andarilho (s).

 

É por esta razão que aqui, e nesta altura, deixo uma saudação e um agradecimento muito especial quer ao Fábio, quer a seus dois filhos, pelo companheirismo e amizade. E pela felicidade em ter, com eles, calcorreado quilómetros de veredas dos Caminhos a pé. Com eles, cresci como ser humano, caminhando ao lado deles, no partilhar dos mesmos troços e com o relato da experiência das nossas vidas, aprendendo a sentir e a viver, profundamente, o verdadeiro sentido da amizade. Em todos os sentidos... Por isso, bem hajam!

 

Com o meu sobrinho Florens, cimentei os laços não só da amizade mas também aqueles que nos ligam pelo sangue - os da família - tão importantes e fundamentais na sociedade tão individualista em que, hoje em dia, vivemos. Para o meu sobrinho Florens aqui fica também um forte abraço - e porque não dizê-lo - pleno de um franco amor familiar.

 

 

Já o Caminho Francês foi todo ele diferente!

 

Por muito fátua ou passageira que a experiência tenha sido, representou para mim um novo nascer, consubstanciando-se no florescer de uma grande, pura, significativa e sentida amizade.

 

Mas vamos aos factos essenciais que transformaram este Caminho numa experiência diferente e única.

 

Em Junho de 2008, enquanto com seu filho Mitok, Fábio fazia o Caminho (Central) Português, creio que no albergue de Briallos/Porta, conheceu um grupo de portugueses (essencialmente «alfacinhas») que também, nessa altura, faziam o mesmo Caminho. Entre um dos elementos do grupo alfacinha, nasce uma amizade entre Fábio e seu filho Mitok que os leva a programarem a realização do Caminho Francês para o mês de Dezembro desse mesmo ano.

 

Meu desejo era também efetuar o mesmo Caminho. E ficou acordado que nas férias do Natal de Mitok - naquela altura ainda estudante do ensino secundário - realizaríamos o Caminho.

 

Fábio disse-me na altura que iria também connosco um amigo lisboeta que tinha conhecido no Caminho Português em Junho desse ano.

 

Minha filha também se quis incorporar no grupo, apesar das advertências que lhe fiz quanto às agruras do Caminho, face à época do ano, e a fraca preparação física que tinha efetuado, fazendo-lhe ainda sentir que andar meia dúzia de quilómetros era uma coisa e andar mais de uma centena deles, em dias seguidos, era outra. Já para não falar na mochila que teria de andar com ela às costas, com apenas o essencial de um caminheiro, e de não se ter adaptado às botas que levaria para o Caminho.

 

Debalde os meus conselhos! Mas, se por um lado, estava preocupado; por outro, fiquei até feliz por minha filha me querer acompanhar. Contudo, quando partiu de Chaves, teve a preocupação de alertar um amigo para, caso lhe sucedesse alguma coisa, a fosse buscar onde estivesse, levando o seu carro.

 

Assim, no dia 16 de Dezembro de 2008, partiu de Chaves, vias Verin, Benavente, Ponferrada e até Pedrafita d’O Cebreiro, o seguinte grupo: Bófia; seu filho Mitok; o amigo de Lisboa - Emídio, de seu nome -; a minha filha, Ana Isabel, e eu.

 

Do percurso de Chaves até Pedrafita d’O Cebreiro, de autocarro, e de Pedrafita d’O Cebreiro até a O Cebreiro, a pé, relataremos no próximo post.

 

É necessário, contudo, antecipar certos acontecimentos para que o enquadramento do relato, etapa a etapa, fique mais claro.

 

De Chaves até a O Cebreiro foi tudo muito bem e alegre, como mais à frente se dará conta. Uma maravilha!

 

O pior veio a seguir. A primeira etapa, de quase 30 Km, foi duríssima, porque sob intenso frio e neve, ao ponto de não podermos seguir o Caminho por se encontrarem os respetivos marcos jacobeus completamente soterrados na neve. O mais cauteloso era seguirmos sobre o piso duro do asfalto da estrada. Tudo era branco à nossa roda, monotonamente branco...

 

Ana Isabel, ao chegar poucos quilómetros depois de Triacastela, não resistiu. Tive de vir uns escassos cinco quilómetros com ela, de taxi, até Samos. Doíam-lhe muito as costas, provavelmente por excesso de peso da mochila, face ao seu peso corporal, e começou a ficar com falta de ar. As botas pesavam-lhe toneladas, dizia...

 

Chegados ao albergue do Mosteiro de Samos, tomou um banho, vestiu roupa lavada e enxuta, telefonou para o amigo a vir buscar e descansou um pouco.

 

Entretanto os restantes caminheiros chegaram. Ana Isabel estava triste por partir. E triste se despediu de nós todos.

 

Não era hora para recriminações. A etapa foi mesmo dura e Ana Isabel, com esta experiência, enriqueceu-se, estou certo.

 

Vi-a partir com muita tristeza mas, por outro lado, fiquei menos preocupado. Anda-se, caminha-se para, na medida do possível, termos saúde e nos sentirmos bem; o contrário, tal como as enormes e imensamente sofridas peregrinações que se fazem a pé, mesmo que o único objetivo seja a fé, é pura estupidez. Com certeza, o Deus desses crentes não lhes deve exigir tamanho sacrifício e tanta provação!... Respeito, obviamente; mas não aprovo!

 

E, assim, o nosso grupo, logo na primeira etapa, ficou desfalcado de um elemento.

 

Apesar da minha preocupação com o estado da Ana Isabel e da sua chegada a casa, a noite no restaurante e no albergue, com os quatro - os únicos ocupantes daquelas instalações no Mosteiro -, foi uma despegada gargalhada - de tanta galhofa e tolices ditas! Tarde conseguimos pregar olho para uma outra etapa do dia a seguir.

 

 

E, mal começámos a 2ª etapa, o imprevisível: um telefonema de Chaves, dando conta do estado de saúde, inesperado e grave, do pai do Bófia e avô do Mitok, arranca-nos estes dois amigos do seio do nosso grupo. Apressadamente dirigem-se para a localidade mais próxima a fim de apanharem um autocarro que os levasse até Chaves.

 

E, desta feita, do grupo inicial de 5 pessoas, apenas restaram duas: eu e o companheiro/peregrino Emídio Almeida.

 

Os dois ainda questionámos a possibilidade de acompanharmos, em ato de solidariedade, os amigos que nos deixavam, efetuando noutra altura o Caminho. Mas, prestes, Fábio fez-nos saber que deveríamos prosseguir sem ele e o filho pois o Caminho era para ser feito.

 

Eles partiram preocupados; nós prosseguimos tristes.

 

E é, a partir destas circunstâncias, que quer eu quer Emídio nos encontrámos sós no Caminho.

 

Costuma-se dizer que é na adversidade que mais e melhor se conhecem as pessoas. Pois connosco esse conhecimento não só se efetuou como, a partir desse dia, nasceu uma larga e profunda amizade.

 

Mais peripécias sucederam pelo Caminho até Santiago. Foram, contudo, as destas duas etapas que determinaram o sentido e a vivência de todo o Caminho. Rico em emoções, afetos, amizades e partilha que jamais esquecerei.

 

Realizado o Caminho, fiz uma extensa reportagem vídeo/diaporama, de cada uma das etapas, que entreguei a todos os protagonistas que comigo percorreram este Caminho. Dediquei cada etapa a uma ou duas pessoas que comigo se cruzaram e viveram o Caminho.

 

No final da reportagem de cada etapa/post, exibir-se-á o respetivo diaporama, resultante da divisão em seis partes, tantas quantas as etapas, do filme/vídeo naquela altura produzido.

 

Por seu lado, Emídio, com data de 22 de Dezembro de 2008 - fim do Caminho -, escreve o “Livro II - Memórias dos Meus Caminhos a Santiago via Compostela (Caminho Francês na Galiza)”.

 

Será o texto desse Livro II, com pouquíssimas e ligeiras alterações, que iremos utilizar, nos posts que a seguir apresentaremos, para relatarmos a nossa experiência, numa espécie de alter ego, e que os leitores poderão ter acesso, via internet, no seguinte sítio:

http://www.caminhodesantiago.com.br/members/livros/memo_cam_santiago_emidio.pdf.

 

Estou certo que o amigo Emídio não se importará que utilize, emprestadas, as palavras do seu texto para dar conta aos nossos (as) leitores (as) desta inolvidável experiência, tão rica e profunda, repitpo, em afetos humanos.

 

Daqui, pois, vai um abraço fraterno e um muito obrigado a um grande amigo, tão rico em humanidade que o Caminho Francês me deu - o Emílio Almeida.

 

Abraço e obrigado extensível a todos quantos, de uma forma pessoal e viva, comigo lidaram, conviveram e se relacionaram pela primeira vez, ao longo do Caminho, e de uma forma muito especial - Mónica; Maria José e seu filho Adrian; Vicky e sua filha Alba e Verónica.

 


publicado por andanhos às 20:19
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