Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 4ª etapa - Briallos (Portas)-Padrón

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 17. Junho. 2008 -

 

4ª etapa:- Briallos (Portas) - Padrón

 

 

 

1.- PELO MELHOR DA NATUREZA GALEGA AO ENCONTRO DO LUGAR EMBLEMÁTICO DA MITOLOGIA JACOBEIA

 

Esta é a penúltima etapa antes da nossa chegada a Santiago de Compostela. E Padrón, onde pernoitámos, no albergue junto ao Convento del Carmen, é a antessala, segundo o nosso Guia, do Pórtico da Glória, final do nosso Caminho.

 

A jornada de hoje, embora sendo 23, 4 Km, foi tranquila, sem dificuldades de maior, a não ser aquela pequena subida a Gurgollón, da paróquia de Carracedo, com uma cota de 147 metros. E, não fora as minhas duas «bolhas», que me atormentaram o percurso todo, a ponto de ser obrigado a tomar um comprimido para as dores, a caminhada do dia de hoje, depois de deixarmos Caldas de Reis - um importante centro termal galego -, desenvolveu-se por dois belos e agradáveis traçados, envoltos em bosques. Lindas «corredoiras», como dizem os nossos amigos galegos, desde A Lavandeira e até a O Campo (lugar da paróquia de Carracedo) e depois de As Cernadas e até São Miguel de Valga, ou seja, ao longo das bacias dos rios Bermaña e Valga. Particularmente o primeiro, concordamos com o Guia do Caminho Central Português - Lisboa/Santiago, da «Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago», quando, a páginas 57, diz ser “um bosque digno da lenda do Rei Artur”.

 

Em Pontecesures, na confluência dos rios Ulla e Sar, ultrapassada a sua ponte, deixámos a província de Pontevedra para, dirigindo-nos para Padrón, entrarmos na província de A Coruña. Padrón tem o seu topónimo ligado à emblemática mitologia jacobeia, como mais tarde referiremos.

 

2.- TRAÇADO DA ETAPA

 

 

 

3.- DESNÍVEIS DA ETAPA

 

 

 

4.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA

 

 

4.1.- De Briallos (Portas) a Caldas de Reis

 

Levantámo-nos às horas do costume - 6 horas da manhã. Feita a higiene matinal, e tomado um primeiro pequeno-almoço frugal, quase sempre à base de um iogurte e uma peça de fruta - guardando as barras de cereais ou frutos secos (amêndoa e noz) para o meio do percurso, onde procedíamos a um segundo pequeno-almoço, mais substancial - mochila às costas e cajado na mão, saímos do albergue.

 

Alguns caminhantes/peregrinos foram mais madrugadores mas, a grande maioria, ainda ficou um pouco mais na «sorna». Nestas coisas do caminhar, cada um, para além da sua «devoção» (objetivo), tem o seu próprio ritmo. No fundo, o espírito geral que se tem, quando nos «botamos» a caminho, é a sensação de completa liberdade. E, obviamente, o sempre reconfortante contacto com a mãe-natureza, o vibrar quotidiano dos seres vivos: uns, vivendo em efetiva e total liberdade; outros, desenvolvendo suas vidas ao ritmo da cultura e tradições que cada lugar impõem...

 

Saídos da pequena povoação de Briallos, em pouco tempo, fomos encontrar a nossa sempre companheira N-550. Quer esta estrada quer a via romana XIX são, neste Caminho, os nossos pontos de referência fundamentais, guiando-nos até ao objetivo final almejado - Santiago de Compostela.

 

Num abrir e fechar de olhos, eis a capela ou ermida de Santa Lucía (Luzia).

 

 

E, seguindo por um caminho de terra, em paralelo à célebre «reta das Caldas» - um traçado retilíneo de quase 5 quilómetros - estávamos em Caldas de Reis.

 

Entretanto, iam-se sucedendo as pequenas aldeias de Couceiro, Valsordo, Ameal e Tivo (ou Tibo). Aqui uma ligeira pausa para umas fotos, porque, a sua fonte e o seu cruzeiro, bem as merecem.

 

São, como diz o amigo Emídio Almeida, que por aqui passou em Março deste mesmo ano, o "ex-libris» da terra”.

 

A partir da aldeia de Souto, o Caminho passa para asfalto. E é pelo asfalto que chegámos a Caldas de Reis.

 

Não vamos adiantar muito mais sobre Caldas de Reis. Quanto a esta, embora pequena, bonita e aprazível, cidade e estância termal, com pergaminhos firmados na sua antiguidade e na História, o que tínhamos a dizer, já o fizemos no Destaque, ou último post deste blog, a propósito da etapa anterior.

 

Referiremos apenas (porque não o fizemos, de propósito, naquele Destaque por ser um lugar de passagem desta nossa 4ª etapa) a sua Igreja de Santa Maria,

 

 

de origem românica [que, ao longo dos anos, sofreu alterações e acrescentos, nomeadamente nos séculos XVII e XVIII, com a junção das capelas de San Diego e del Carmen] e darmos especial relevo ao tímpano da sua fachada principal, virada a oeste, onde se encontra representado (esculpido) um Agnus Dei (Cordeiro de Deus); a Rua Real, cheia de edifícios históricos e, no seu términus, a célebre ponte medieval sobre o rio Bernesga

 

 

- um vau muito jacobeu, com um cruzeiro (apresentando-se o pormenor cimeiro) num dos seus talha-mares,

 

 

com três arcos de meio ponto e dois assentos de pedra, tendo ao lado uma fonte de três canos. [Este conjunto é, manifestamente, um dos melhores recantos das Caldas de Reis].

 

 

4.2.- De Caldas de Reis a O Campo (paróquia de Carracedo)

 

Deixámos Aquae Celenis ou Aquae Celenae (aqui, tal como em Chaves, não há quem se entenda no autêntico ou exato nome que os romanos deram à localidade) seguindo pela rua de São Roque, passando pela capela do Santo Caminheiro

 

 

e pela fonte

 

 

que leva o mesmo nome.

 

Uns duzentos metros mais à frente, depois de passarmos debaixo do viaduto da linha do AVE

 

 

(comboio de alta velocidade espanhol), e ultrapassada A Lavandeira, embrenhámo-nos no vale do rio Bremaña - um bonito e bucólico bosque de vegetação ribeirinha - e

 

 

de uma das coisas mais bonitas, para os amantes da natureza, deste Caminho. De facto, de lenda!

 

 

Entretanto minhas «bolhas» não me davam sossego, pese embora a beleza do traçado.

 

E, nisto de caminhar, também há «necessidades» que, aparecendo inopinadamente, têm de ser satisfeitas, a ponto de se largar, à pressa, a mochila a um canto da berma do caminho!

 

 

Neste ínterim, resolvida a «emergência», Tino encanta-se por uma vara bem direita de um carvalho e, vai daí, toca a fazer dela um digno cajado de peregrino, passando a encartar o seu moderno na mochila, passando ae a não largar mais o feito de improviso.

 

 

Nesta pausa falámos que poderíamos ter feito um pequeno desvio para irmos visitar a igreja românica de Santa Mariña de Bemil, antes de A Lavandeira. Apresenta-se, contudo, uma foto de arquivo para aquilatar da sua beleza.

 

 

Mas foi pena. É que tínhamos passado o desvio, sem nos apercebermos!...

 

Enquanto fazíamos esta pausa, aproveitámos também para comer uma barra de cereais. E, prestes a arrancar, eis que, em passada forte, aparece-nos, numa curva ao fundo do trilho, o nosso companheiro de jornada, André, de calções - pois hoje estava o céu limpo e bonito - todo fresco, sorrindo para nós e, sem parar, deixa-nos meia dúzia de palavras, despedindo-se com a célebre frase - buen camiño.

 

Pouco tempo depois, uma peregrina sul-americana, ultrapassa-nos com um «speed» dos diabos. Hoje, decididamente, o dia não estava para correrias: as «bolhas» e a paisagem «metiam» respeito e mais calma na passada.

 

O meu caro amigo Emídio Almeida, no seu «diário» deste Caminho, refere, nestas bandas, ter passado pelo que lhe chamou de «leguário da estrada do arcebispo Malvar», nas proximidades de Outeiro/O Cruceiro. Também o Guia do Caminho Central Português, da Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago, que já atrás referimos, diz-nos que se trata de um relógio de sol, a indicar-nos o local onde devemos cruzar a N-550. Sinceramente, se passámos por lá - e estou em crer que sim - tão preocupado vinha com as dores, que nem sequer me apercebi. E nem o Tino, tão pouco!

 

Ultrapassado o passeio agradável pelas veigas do rio Bermaña, entre bosques e hortas, chegámos a terras da paróquia de Carracedo.

 

No lugar de O Campo, da paróquia de Carracedo, parámos para descansar e tomar um segundo pequeno-almoço reforçado, numa pequena área de descanso, com bancos de pedra e um tanque,

 

 

mesmo ao lado deste belíssimo e esbelto exemplar de igreja ruralgalega,

 

 

com uma torre campanário barroca,

 

 

rematada por um jogo de bolas - a Igreja paroquial de Santa Mariña de Carracedo.

 

Mas, do que mais gostei, foi deste bonito cruzeiro, na parte traseira da igreja.

 

 

Mais reconfortados, depois de comido o segundo pequeno-almoço, voltámos a pôr pé a caminho.

 

 

4.3.- De O Campo (paróquia de Carracedo) a São Miguel de Valga

 

E fomos ao encontro, outra vez, passando por As Cortiñas e O Gorgullón, da N-550, já na proximidade das terras de Casalderrique.

 

Aqui um marco indica-nos que estamos a 34, 584 Km de Santiago de Compostela.

 

 

E, por estas bandas, deixámos o concello de Caldas de Reis para entrarmos no de Valga.

 

Neste ponto o Caminho avança paralelo à AP-9, e depois de passarmos As Cernadas e pela capela da Virgem da Saúde, começámos a percorrer uma outra linda «corredoira», pelo vale do rio Valga, em verdadeiro carrossel, de sobe e desce: ora parando um bocadinho para refrescar a boca;

 

 

ora encantando-nos com o traçado e a sua vegetação;

 

 

ora apreciando os seus regatos;

 

 

ou os seus velhos moinhos;

 

 

ora vendo correr água límpida por linhas de água, cobertas de lindos carvalhos, recentemente desbrochados, e com pedras ainda cobertas de musgo verde.

 

 

E, ao longe, avistando São Miguel de Valga.

 

 

Tudo isto enquanto passávamos por Casal de Eirigo, O Pino, o monte Albor, que molda o vale do rio Valga, indo ao encontro da Igreja de São Miguel de Valga.

 

 

A Igreja de São Miguel de Valga é de traça barroca,

 

 

embora haja quem a classifique de neoclássica (1750). Aqui parámos o tempo suficiente para tirar três ou quatro fotografias e continuámos o nosso Caminho.

 

 

4.4.- De São Miguel de Valga a Padrón

 

A partir de São Miguel de Valga, o Caminho faz-se percorrendo pequenas aldeias rurais

 

 

como Pedreira, Cimodevila, Fontenlo, baixando por um caminho empedrado até ao Caminho do Regadío, percorrendo uma rua até ao bairro de Candide, já no concello de Pontecesures.

 

Seguem-se depois Infesta e A Estrada. Até que chegámos a São Julião de Requeixo, onde, antes de cruzarmos a ponte de Pontecesures, podemos observar a bonita igreja românica de São Julião,

 

 

mandada levantar pelo célebre arcebispo Diego Gelmírez, no século XII, mas reformada em 1918, tendo ao lado um cruzeiro do século XIV.

 

 

A 100 metros da Igreja de São Julião, há um desvio para o convento de Santo António de Herbón, que se encontra a 2,5 Km.

 

Embora a vontade fosse grande para passar por lá, o cansaço provocado pelas dores das «bolhas», pese embora o comprimido que tomei, não aconselhava esta «veleidade» de quase uma hora a mais no Caminho. Hoje em dia, segundo consta, o convento franciscano já não tem nenhum monge. Embora classificadfo o imóvel, possui agora uma dependência para albergue de peregrinos, gerida pela Associação Galega dos Amigos do Caminho e que, parece, não está aberto todo o ano. A este mosteiro voltaremos quando falarmos dos «pimentos de Padrón».

 

E, assim, virando à direita, cruzando a linha de caminho-de-ferro, por uma passagem inferior, entrámos na N-550 para darmos com esta bonita escultura de Santiago sobre uma coluna.

 

 

Atravessámos a ponte de Pontecesures sobre o rio Ulla e, desta feita, entrámos em terras da província de A Coruña.

 

Pontecesures é um antiquíssimo lugar de passagem sobre o rio Ulla,

 

 

que facilita a travessia da ria de Arousa. Sabe-se, desde a Idade Média, que o mestre Mateo, o célebre autor do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago, trabalhou nos melhoramentos da primitiva ponte de pedra, romana. A ponte que hoje vemos é resultante das alterações feitas após 1790 e os melhoramentos de 1911 e 1956.

 

Do outro lado da ponte, pela esquerda, acedemos a uma praça que nos encaminha pela vereda do rio Sar. Logo à direita, em paralelo com o mesmo rio, seguimos aproximadamente 2 Km por uma estrada local que nos conduz até Padrón.

 

 

4.5.- Entrada em Padrón e albergue

 

Entra-se em Padrón pelo mercado abastecedor e segue-se direito pelo Campo da Feira e pelo Passeio do Espolón até se chegar à Igreja de Santiago. Virámos à esquerda, cruzámos a ponte sobre o rio Sar,

 

 

passámos pela Fonte del Carmen e pelo Convento que leva o mesmo nome (do século XVIII) e subimos até ao albergue.

 

 

Apresenta-se aqui uma vista da envolvente do alçado posterior do albergue, a partir de uma das suas janelas.

 

 

Bem avisavam os amigos Emídio Almeida e Fábio que o albergue de Padrón é muito movimentado (pois fica na confluência do Caminho Português com o Caminho ou Rota Jacobeia da ria Arousa). E que só tem dois duches, ficando a água quente rapidamente fria por o aquecimento ser de caldeira.

 

E como de facto assim era!...

 

Avisados como estávamos, lá tivemos a paciência suficiente para esperar pela nossa vez e tomar duche em água morna.

 

Quanto à sua afluência, não contávamos era com a «canalhada» de uma escola portuguesa, que aqui pernoitou!

 

Não fora o facto de, após tomado banho, tratadas as bolhas, descansarmos um bocadinho, e sairmos para dar uma volta pela cidade, com certeza não sossegaríamos muito mais, tal a «algazarra» que aqueles «putos» faziam!

 

Só depois de darmos uma volta pela cidade, com uma bonita tarde de sol e céu limpo, sem ameaça de chuva, e depois de jantarmos, é que regressámos ao albergue.

 

A confusão e o barullho continuavam mas, mal me deitei, cansado como estava, mais por causa das dores que as bolhas me provocaram - e agora, após tratamento, um pouco mais aliviado - nem barulho, nem qual quê, me incomodaram!

 

Segundo diz o meu companheiro de Caminho, Tino, que não «pregou olho» toda a noite, não só pela «algazarra» até tarde mas, principalmente, pela enorme «roncaria» que na ampla camarata ecoava por todos os cantos, eu fui um dos que mais «ajudei à festa».

 

Pois... e eu que pensava que «roncos» não eram comigo!

 

 

Iniciávamos esta reportagem da 4ª etapa com a apresentação de um poema de Rosalia de Castro da sua obra «Cancioneiro Gallego». Antes de apresentarmos o post/Destaque sobre Padrón, deixamos aqui o belo poema de Rosalía cantado por Amancio Prada:

 

[Nota:- Para ouvir o clip, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog e a vê-lo diretamente no Youtube].

 

 

publicado por andanhos às 17:49
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Novembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10

13
14
15
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.posts recentes

. Ao Acaso... Lago de Sanáb...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras da Ibéria - Ri...

. Versejando com imagem - L...

. Palavras soltas... em Dia...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras de Portugal - ...

. Versejando com imagem - E...

. Por terras da Ibéria - Tr...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

.arquivos

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo