Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português (Valença do Minho)

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 13. Junho. 2008 -

 

VALENÇA DO MINHO

 

- ÚLTIMO «POSTO AVANÇADO» DO CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS EM TERRAS LUSAS -

(Ou como de uma Introdução ao Caminho nos «perdemos» pelos «campos» das cidades)

 

 

PÁTRIA

 

Soube a definição na minha infância.

Mas o tempo apagou

As linhas que no mapa da memória

A mestra palmatória

Desenhou.

 

Hoje

Sei apenas gostar

Duma nesga de terra

Debruada de mar

 

Portugal, Miguel Torga

 

 I

 

Foi a primeira vez que me aventurei numa «empreitada» desta natureza sem os meus companheiros habituais das caminhadas - Fábio, e seu filho, Mitok.

 

Meu sobrinho Tino, também amante das caminhadas, aceitou o desafio que lhe fiz e acompanhou-me em toda esta aventura.

 

A «logística» para chegar a Tui - local de início que tínhamos escolhido para fazermos este Caminho - esteve assente na «boleia» que minha irmã Jeka nos deu. Minha Ni acompanhou-nos também de Chaves até Tui.

 

Todavia, quando pretendíamos pernoitar no albergue de peregrinos de Tui, e depois de andarmos bastante tempo à procura da albergueira, passado quase hora e meia, lá apareceu ela. E com olhar de poucos amigos, nada simpática, recusou-nos a estadia. Dizia que o albergue era para aqueles que «já vinham de Caminho»! É certo que fomos sinceros quando lhe dissemos que era ali (em Tui) que iríamos iniciar o Caminho. Mas, dada a hora do dia (dezoito e trinta minutos) também era bem verdade que poucos (ou mesmo nenhum peregrino ou peregrina), neste dia, se «encontrava em trânsito». Sinceramente que me apeteceu «dirigir-lhes alguns mimos» mas, como levávamos senhoras connosco, deixámos a dita entregue à sua pacatez do «dolce far niente», deixando «pela lama» o bom nome que deu do albergue deste Caminho.

 

Estugado o passo em Tui, percorrendo uma ou outra rua e observado alguns trechos urbanos,

 

 

depois de uma visita à Catedral, - um templo com aparência de fortaleza e cuja construção começou em 1120, durante o reinado de D. Afonso IX, e que, pese embora as ampliações e reformas posteriores, mantém a sua traça românica,

 

(Vista do Largo dos «Paços do Concelho» e do Museu Diocesano)

 

 (Vista do interior do claustro)

 

quer no interior quer no exterior,

 

(A Virgem Maria alimentando o Menino - no interior da Catedral)

 

e, na sua fachada principal, apresenta um pórtico gótico,

 

(Fachada principal vista da Torre da Catedral)

 

 (Pormenor da fachada principal)

 

 (Porta da fachada principal)

 

uma das primeiras obras neste estilo que em Espanha se fizeram - regressámos às terras lusas de Valença do Minho.

 

Não deixámos Tui sem, do alto da torre da Catedral, darmos uma vista de olhos a Valença do Minho que nos fica em frente.

 

 

Chegadosa Valença, ainda demos uma espreitadela ao albergue de São Teotónio, na Avenidados Bombeiros Voluntários,

 

 

mas depressa desistimos de aqui pernoitar.

 

Valença, como terra fronteiriça que é, tem uma atividade comercial assinalável, particularmente nas ruas do seu centro histórico, dentro das suas muralhas do Forte. Não demorou muito, assim, que, da boca de uma das senhoras, provavelmente aquiescendo com a vontade da outra, viesse a sugestão: e se ficássemos aqui hoje e fossemos para Chaves amanhã?

 

E, meu dito, meu feito. Fomos ao encontro de um modesto hotel nas imediações do Forte para ali os quatro pernoitarmos e, de seguida, fomos dar uma volta pelo centro histórico de Valença do Minho.

 

Tal como diz o Guia «El Camiño de Santiago Portugués», de El País/Aguilar: “Valença do Minho é uma cidade amuralhada e uma das mais interessantes do Norte de Portugal”. As suas fortificações são uma relíquia dos séculos XVII e XVIII, que conservam intacta a cidade antiga intramuros e todas as muralhas da cidadela. Ainda segundo aquele Guia, a fundação da cidade, localizada no topo de dois outeiros, deve-se, possivelmente, às ordens do general/pretor Décio Juno Bruto, o Galaico, que aqui alojou os soldados eméritos (reformados) das várias legiões que lutaram contra os galaicos e os lusitanos.

 

Os reis portugueses, D. Sancho I e D. Afonso II, repovoaram esta localidade e amuralharam-na.

 

Valença do Minho naquele tempo chamava-se Contrasta, nome que lhe advinha do facto de se opor, na linha do rio Minho, à outra que lhe estava em frente - Tui.

 

As lutas entre castelhanos-leoneses e portugueses reduziram-na a escombros em 1212, ano em que Afonso IX, o leonês, a tomou como sua.

 

Só 172 anos depois daquela data é que voltou a mãos portuguesas, graças ao ataque das tropas do primeiro rei da nossa segunda dinastia - D. João I. A cidadela ou Fortaleza de Valença do Minho, conforme planta e foto aérea que se mostram:

 

(Planta da Fortaleza de Valença do Minho)

 

(Foto aérea com a designação dos baluartes e revelins)

 

é formada por dois polígonos - a Praça, ou Recinto Magistral, e a Obra Coroa, ou Coroada - separados por um fosso. Possui dez baluartes e dois meios baluartes (ou revelins). Os dois recintos estão ligados pelas Portas do Meio, com ponte fixa.

 

Continuando «na peugada» do Guia que vimos referindo, desde o Largo da Trapicheira pode-se subir à cidadela e entrar pelas Portas do Sol, as mesmas por onde entraram as tropas napoleónicas no assalto de 1807, depois de a destruírem com dinamite.

 

A cidadela de Valença tem mais três portas: a Coroada ou principal; a de Gabiarra e a da Fonte da Vila.

 

A porta é um túnel abobadado que atravessa a muralha e que, neste ponto, tem 20 metros de espessura e entre 12 a 15 de altura, permitindo-se, aqui, apreciar a solidez desta soberba estrutura defensiva formada por dois polígonos irregulares de muros com muitos ângulos.

 

Um fosso, de trinta passos, rodeia a fortaleza.

 

A Porta do Sol comunica com a Praça da República, o principal centro urbano da cidade velha, à esquerda estão as Portas do Meio,

 

 

que separam ambos os recintos amuralhados.

 

Contudo, nós entramos ma Fortaleza pela Porta da Coroada.

 

No interior das suas muralhas, podemos contemplar a Igreja de Santo Estêvão,

 

que tem em frente um miliário pertencente à via romana de Bracara a Tui, e que passava por este então castro.

 

Neste centro histórico amuralhado podemos ver algumas casas brasonadas, 

 

(A fonte do centro do polígono «A Praça» ou «Recinto Magistral»)

 

(A Casa Azul)
dos séculos XVI e XVII, e edifícios com fachadas de azulejos. Muitas dessas casas podemos vê-las na Rua Direita, a rua principal, cheia de lojas de comércio

 

- fundamentalmente tecidos e roupa - para os turistas e «nuestros hermanos».

 

(Aspeto de uma das lojas)

 

Não nos podemos esquecer do edifício-sede do poder local de Valença

 

 

e do respetivo pormenor da cimeira da sua fachada principal.

 

 

No extremo noroeste, em frente ao rio Minho, o Baluarte do Socorro, com a Pousada de São Teotónio,

 

um interessante estabelecimento da rede de «Pousadas de Portugal».

(Pousada de São Teotónio à noite)

 

 (Um pormenor do interior da Pousada)

 

 (Logo da Pousada de São Teotónio)

 

Perto da Pousada (de São Teotónio) - que leva o nome do primeiro santo português, estando sua estátua logo no início da artéria principal do polígono da Coroada,

 

 

onde, à sua traseira, se encontra uma igreja

 

 

com uns bonitos retábulos.

 

(Vista geral dos retábulos do altar-mor)

(Pormenor)

 

A Pousada tem vistas para o rio Minho e para a Ponte Internacional de ferro.

 

 

A ponte é da autoria do engenheiro espanhol Pelayo Mancebo y Águeda. 

 

(Um aspeto da ponte internacional de ferro) 

 

Perto da Pousada podemos, ali perto, ver a Igreja Matriz de Santa Maria dos Anjos,

 

 

o templo mais antigo da cidade que tem, no tímpano da sua fachada, a data de 1276.

 

Diz-nos ainda o Guia «El Camiño de Santiago Portugués» - e não vale a pena contestar - que Valença do Minho viveu esquecida nesta esquina do Norte de Portugal, até que, em 1886, se inaugurou a Ponte Internacional sobre o rio Minho, com uma dupla finalidade - para o transporte rodoviário e ferroviário.

 

II

 

Valença do Minho, juntamente com Tui, constituem o que hoje, sob o patrocínio da União Europeia, uma eurocidade, com, aproximadamente, 40 mil habitantes. A sua constituição, pelo que julgo, é recente, mais ainda que uma outra no Norte de Portugal, cá para as nossas bandas - Chaves - Verín.

 

Não tenho nada contra estas iniciativas, gizadas e ditadas pelos tecnocratas de Bruxelas, no intuito de pretenderem ver desenvolvidas certas zonas fronteiriças.

 

Sei do empenho dos políticos locais no sentido de, a partir destas iniciativas, concitarem meios financeiros para levar a cabo programas e projetos para a realização de obras e consecução de ações de que as suas localidades carecem.

 

Pelo meio temos uma Comunidade de Trabalho, designada de Galiza e Norte de Portugal, que «giza», acompanha e coordena os diferentes programas e recursos financeiros postos aos dispor das diferentes comunidades.

 

Creio estarem representadas nesta Comunidade de Trabalho os elementos/responsáveis dos diferentes setores de atividade económica, social e cultural destas cidades (e concelhos).

 

Sabe-se muito pouco, pela Comunicação Social, do que se passa nessa Comunidade de Trabalho Galiza - Norte de Portugal.

 

E, salvo melhor opinião, ainda menos se sabe do diálogo que os respetivos representantes institucionais têm com os seus representados nas diferentes «agremiações»! Dá a sensação que tudo se passa como de instituições secretas se tratassem. Mas, talvez, esteja equivocado. É que a nossa Comunicação Social dá tanto interesse às notícias sensacionalistas, com escândalos e catástrofes à cabeça, que não lhes sobra tempo para aquilo que interessa ao dia-à-dia das pessoas e das suas terras. Tristes tempos estes por que passamos! E é pena!

 

Na verdade, não basta apenas fazer obras e levar a cabo ações, materiais e imateriais, de que se necessita para a regeneração, conservação e revitalização urbana dos nossos respetivos aglomerados. Não nos podemos esquecer que têm (devem) ser desejadas e partilhadas. Para que todos, e cada um dos seus residentes, vejam que elas têm algum significado e, por conseguinte, fazem algum sentido!

 

A qualidade de vida de um determinado espaço/território não está apenas nas obras que nele se façam, mas na «vida» que os mesmos, concreta e desejadamente, tragam para os seus residentes. Daí, tal como ainda dizíamos numa outra local da blogosfera flaviense, mais do que «ter coisas» na nossa terra, o mais importante é o significado que essas mesmas coisas têm para nós e o que nós (residentes e população que desejamos que nos visitem) fazemos com elas.

Sendo Valença - Tui e Chaves - Verín dois espaços transfronteiriços por excelência, não vejo, pelo menos no que toca a este último, dinamismo suficiente, de uma significativa fatia da sua população urbana - os seus comerciantes - capaz de catapultar a cidade a um nível e patamar de qualidade, quer em termos económicos, quer urbanos, quer sociais, quer culturais e turísticos, digno de outras «eras»!

 

(Um outro pormenor da Pousada de São Teotónio)

 

É bem certo - e aqui estamos de acordo - das dificuldades e do «estrago» que as grandes superfícies, produto acabado de uma sociedade em que o neoliberalismo e o monopolismo, sob a enorme proteção dos governos estatais, imperam, de uma forma desenfreada, vieram trazer ao dito «comércio tradicional». Mas... o que fez ou tem feito o comércio flaviense?

 

Na minha modesta opinião, durante muito tempo andámos com o «credo na boca» e com o discurso do coitadinho! E não se cuidou de criar «massa crítica» suficiente para fazer face aos novos desafios e levar por diante ações prementes, e inovadoras, que tanto nos faziam falta para que hoje tivéssemos uma cidade viva, fazendo, também com o setor comercial (interno e transfronteiriço), uma aposta grande e decisiva na dinamização urbana e cultural. Pela moderna organização do jeito de fazer negócio; pelo arranjo interior das lojas e montras; pelo aspeto das suas fachadas; pela criação de novos produtos e inovação dos existentes e tradicionais; pela sua «pertença» à rua onde se localiza o negócio; pela efetiva partilha e dinamização do espaço público ao serviço dos residentes, visitantes e turistas; enfim, pela assunção do espaço urbano como uma coisa pública, de todos e de cada um de nós. Pondo artistas das mais diferentes proveniências - desde artes gráficas (e design), artes plásticas, arquitetura (de edifícios e paisagem) - connosco, a «lutar» pela (re)criação de um espaço de vida, de qualidade de vida para todos quanto nele habitam e nos visitam.

 

Se aos políticos que temos - certamente habilitados em tantas áreas - lhes falta a sensibilidade para o diálogo contínuo e profícuo com o comum dos flavienses, em particular os seus comerciantes - ao estabelecerem estruturas de audição permanente e monitorização com este importante setor da cidade, sem «jugo» algum e com verdadeira e autêntica independência de ambas as partes - compete então a este setor «acordar» e organizar-se de uma forma autenticamente autónoma e encontrar o(s) caminho(s) e as estratégias (inovadoras) que ponham de novo Chaves no mapa de Portugal. Para que não haja espetáculos tão deprimentes como aquele que ainda recentemente foi projetado pelo país fora ao pé de uma estrutura tão emblemática da nossa cidade!

 

Nos tempos que correm, em Valença do Minho, fala-se da promoção da sua Fortaleza a Património da Humanidade pela UNESCO. Aqui e ali, de vez em quando, «ouvem-se vozes», de alguns flavienses, em quererem promover a sua cidade, ou alguns dos seus «trechos», a esse património.

 

Da vontade, deste querer, nada temos a opor. Desde que não seja, uma vez mais, com a sua propositura e eventual classificação, apenas um ensejo para ir buscar verbas para obras de que carecemos - e que, em boa verdade - tanto nos fazem falta.

 

Só que nunca nos podemos esquecer que um património para ser considerando Património da Humanidade, independentemente da propositura e dos requisitos específicos, tem de possuir um significado e valor extraordinário. Que lhe advém da sua valia estética - artística e patrimonial - e de ser e representar uma cultura viva, própria, específica de um povo que o assume e nele se revê «orgulhosamente» como muito seu.

 

Que o orgulho que temos pela nossa terra (e pela nossa história) nos leve a bem saber amá-la. Passando das palavras aos atos. Arregaçando mangas. E com todos «implicados neste trabalho» - a (re)construção da nossa polis face aos desafios que o século XXI nos coloca.

 

 

 


publicado por andanhos às 12:48
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Emídio Rosa de Almeida a 15 de Fevereiro de 2014 às 21:39
Trabalho de excelência! Estás de parabéns!
Emídio


De tamara_junior a 22 de Fevereiro de 2014 às 16:03
Obrigado amigo, companheiro e peregrino!
Vou-me entretendo. E andando. Pouco!
Em Abril, talvez a partir do dia 7, vou fazer o último Caminho que me falta - O Inglês.
Um abração,
António de Sousa e Silva


Comentar post

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Janeiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
16
18
19
20

21
22
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. Reino Maravilhoso - Barro...

. Versejando com imagem - S...

. Por terras da Gallaecia -...

. Ao Acaso - Caminhar...

. Palavras Soltas... Maria ...

. Versejando com imagem - F...

. Versejando com imagem - F...

. Palavras Soltas... O mund...

. Reino Maravilhoso - Douro...

. Versejando com imagem - A...

.arquivos

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo