Quarta-feira, 26 de Março de 2014

Gallaecia - Pelas terras do Tâmega e Barroso - PR6:- Trilho de Tresminas

 

 

INSTANTÂNEOS DE UM PERCURSO PEDESTRE AO REVÉS

 

PR6 - TRILHO DE TRESMINAS (Vila Pouca de Aguiar) - 24. Março. 2014

 

 

Esta ideia de uma moda da natureza só surpreenderá

aqueles que se obstinam em acreditar que,

regida por leis estáveis, é ela mesma um objeto imutável,

quando a história e a etnologia nos mostram à evidência

que o olhar humano é o lugar e o intermediário de uma incessante metamorfose (...)”

 

Alain Roger - Natureza e cultura, in Filosofia da Paisagem - Uma Antologia

 

 

 

Tenho por norma não repetir os mesmos percursos pedestres. Porventura com a convicção de que estou pisando o mesmo solo pela segunda vez, não me trazendo, por isso, nada de novo.

 

Embora tenha esta ideia «encasquetada» na cabeça, a experiência retirada deste percurso provou, quiçá, porventura o contrário.

 

Fiz a grande maioria deste percurso em 2011 com o meu amigo Fábio e seu filho Mito(k). Comparei o registo fotográfico de ambas as reportagens: quanto aos aspetos da natureza propriamente dita, pouco ou nada se alterou, a não ser as consequências de um foco de incêndio que, naquela altura, era mais evidente; quanto aos aglomerados, dispersos ao longo do trilho, também pouco ou nada se alterou, a não ser ver cada vez menos pessoas, com a agravante de se tratar de um dia de domingo, forçosamente com a possibilidade de encontrarmos mais gente nos povoados. Agora, a experiência, essa foi, obviamente, muito diferente.

 

Estamos, desta feita, de acordo com o citado supra de Alain Roger quando sugere que não é a natureza ou o trilho que essencialmente nos surpreende mas o olhar humano. Isto, porque num percurso repetido a essência não está na natureza, ou nas coisas que ela contêm, mas na forma como, a partir do nosso olhar, a natureza passa a ganhar significado, metamorfoseando-se em nós mesmos.

 

Assim, a natureza não é imutável não apenas pelos designados fenómenos «naturais» que a transformam mas também, e fundamentalmente, pela forma como, em concreto, a observamos, contemplamos, vivenciamos.

 

Estamos, nesta conformidade, num mundo complexo de relações: natureza-natureza; natureza-homem; homem-homem-natureza. O que nos leva a deduzir que mesmo a natureza, por mera hipótese, se mantivesse imutável, ela se transformaria não sou em função dos olhos de quem a observa bem assim da relação que os diferentes olhares que a observam estabelecem entre si. Ou seja, e em conclusão, nunca o trilho que pisamos é o mesmo: não só em razão do nosso concreto «estado de alma» como dos diferentes «estados de alma» daqueles que, pisoteando-o, participam da nossa experiência de caminhar. Em definitivo, o que conta, na verdade, são os diferentes «diálogos» que, ao longo do caminho, seja ele qual for, se estabelecem.

 

Mas falemos concretamente da caminhada deste trilho.

 

Pelos vistos, já andava a ser preparada há alguns dias.

 

Para todos os efeitos, não passei de um «penetra» do grupo.

 

O causador de tudo isto foi este menino

 

 

- meu próximo companheiro do último Caminho de Santiago que me falta fazer - o Inglês - e que, no próximo dia 6 de Abril, vamos dar início, a partir de Ferrol.

 

Acedi ao convite que Tino me fez para esta caminhada porque, e em princípio, o que me estava mais na mente era um treino de preparação para quem está prestes a fazer cinco a seis dias de caminho, seguidos, por terras da Galiza.

 

Cheguei a Tresminas meia hora antes do combinado.

 

Sai do carro e fui dar uma «olhadela» pelo reduzido casario.

 

Para além do Centro de Interpretação do Trilho de Tresminas,

 

 

denominado nos percursos pedestres de pequena rota, de Vila Pouca de Aguiar, como de PR6, o que mais é digno de registo é a sua igreja românica,

 

 

os pormenores dos seus «cachorros»

 

 

e os materiais do seu casario.

 

 

Enquanto observava e tirava uma ou outra foto, apenas encontrei uma pessoa - Ti Chico - dono do único estabelecimento de restauração da aldeia,

 

 

mas que só serve - e bem, dizem os caçadores que por ali acoitam - por encomenda.

 

Após ligeira conversa com Ti Chico, lá deixei o amigo ir à sua vida: aproveita os fins-de-semana, horas vagas do seu emprego - e quando não caça também -, para tratar da sua lavoura. Hoje ia enxertar umas árvores.

 

Regressei ao carro para «bater uma pequena soneca» enquanto esperava pelos da vila.

 

Vá lá que chegaram às horas combinadas: eram dez horas e pouco mais.

 

Feitas as apresentações, pusemo-nos a caminho para irmos ao contacto com a natureza mais profunda e genuína e com a sua história e a História.

 

E disparámos, como uma seta, trilho acima.

 

Passados poucos minutos damo-nos conta que algo estava errado: em algures nos tínhamos enganado no percurso e estávamos fazendo o trilho exatamente ao contrário. Mas continuámos fazendo o trilho ao revés. No final, regressando ao ponto de partida, é que nos apercebemos que, logo à saída da povoação, nenhum dos ilustres caminheiros se apercebeu da sinalização que nos mandava rodar à direita e não seguir em frente!

 

Apresentemos, agora, o grupo da vila,

 

 

caminhando pela natureza

 

 

e por um casario rural já não muito genuíno,

 

 

onde o centenário castanheiro

 

 

teima em não morrer, irradiando sua sombra fresca em dias de forte estio, no meio de uma paisagem de um «outro mundo»,

 

 

quase em extinção, povoada apenas por gentes de faces mirradas pelo tempo, e tendo por companheiros residentes simples animais que, à nossa passagem, mostram uma enorme curiosidade e espanto por uns tantos «urbanos» lhes invadirem os seus domínios.

 

 

Domínios bem guardados com «artilharia» natural

 

 

apontada aos céus para que estes, quando zangados, não deem cabo dos seus encantos.

 

Inopinadamente, Zé Eduardo abre os braços como o Crucificado.

 

 

Tudo fica estupefacto e em silêncio. A explicação sai célere: aqui, em tempos, tive o meu «calvário». Fui salvo! Hoje, com alegria, festejo. Afinal de contas não morri; estou aqui convosco. Sempre há Salvador(es)!

 

Na descida - por um caminho mais de cabras que humano, que não está no percurso oficial - um relvado refrescante, onde uns, praticaram dança; outros, cantaram «ora ponha aqui, ora ponha aqui o seu pezinho...», sob o olhar atento do fotógrafo oficial do grupo.

 

 

Desviando-nos da rota, pensando «fintar» o percurso (puro engano!), passámos por Cevivas, aproveitando, debaixo de um castanheiro, para «meter uma bucha» no estômago.

 

«Encarrilhados» definitivamente no caminho certo (ao revés), após ajustada certificação, lá fomos em direção a Ribeirinha, ao lado de um modesto riacho

 

 

que, ora aqui, ora ali, nos oferecia, à contemplação, o que de mais de belo a natureza tem:

 

 

as suas humildes quedas de água, quais rolos de algodão doce, aguçando-nos ainda mais o apetite, que já se ia fazendo sentir, pese embora o ligeiro repasto de Cevivas.

 

De um momento para o outro, antes da Ribeirinha, o caminho transforma-se num pequeno regato. E, cada um, ultrapassava-o como pode.

 

 

Olhando para trás, contemplo esta cena:

 

 

«suas excelências», os cavalheiros, deliciados pela expectativa do eminente mergulho da única senhora do grupo em pleno regueiro! Contudo, a valente lá conseguiu ultrapassar o obstáculo, desfeiteando a facécia dos cujos. Não com a ajuda divina mas de um humano que se mostrou mais sensível ou cavalheiro,

 

 

dispensando-se aqui a publicidade do nome.

 

Trepando monte acima, mais uma vez por entre vetustos castanheiros, guardiões centenários da terra,

 

 

eis-nos chegados a Ribeirinha. Do alto da povoação, nas suas proximidades, a muralha natural que a protege

 

 

e, por entre as fragas, o milagre!...

 

 

Dentro da povoação, este singelo cruzeiro

 

 

e a cúpula sineira da sua modesta capelinha,

 

 

encimada por um antigo e bonito relógio de sol.

 

 

Gente, nem vê-la! Minto: apenas uma senhora, com a giga à cabeça, trazendo a roupa suja da semana já lavada e enxuta. E um letreiro, que já em 2011 ali se encontrava, a avisar-nos: Cuidado com as galinhas! À primeira ainda pensei que fosse engano mas, pensando bem, a coisa está certa: um bom arroz de cabidela, feito com algum gado de bico, que por ali se encontrava a debicar, até dava jeito, depois desta caminhada. E a gente do povo, que nestas coisas é bem entendida, vai daí a avisar...

 

Mas há que continuar. Afinal somos civilizados, respeitadores do alheio...

 

Enquanto trepávamos monte acima, uma «fábrica viva», de mel e cera,

 

 

que se perde na bruma dos tempos, e toda a sua envolvente.

 

Até que chegámos às terras de um outro mundo, repleta de antigos contrastes - as cortas e os túneis de passagem das explorações auríferas

 

 

que fizeram a opulência, o fausto e a riqueza do antigo Império Romano, enquanto seres humanos, escravizados, escavavam continuamente crateras, enormes e autênticos «poços da morte»,

 

 

que também lhes serviam de sepultura.

 

Mas, tal como esta árvore,

 

 

agarravam-se desesperadamente à precária vida que as condições de existência que lhes eram impostas lhes podiam dar!...

 

Terras mesmo do outro mundo! Que fizeram prosperar Aquae Flaviae, dando origem ao aparecimento do seu «ex-libris».

 

 

Era assim que explicava o companheiro de jornada, Zé Eduardo, do alto do «poço da morte» (Buraco Seco)

 

 

que lhes ficava em frente (bem como, ao longo do caminho, se falou sobre o estado da educação no nosso país; da desertificação do nosso interior; dos nossos jovens; da política e da cidadania; dos nossos novelistas durienses, etc.).

 

E, finalmente, regressámos ao sítio da nossa partida, ia alta a tarde. Ao chegarmos, a barriga já vinha a dar horas, ressentindo-se do esforço. Bem medidos, com os instrumentos de navegação moderna, sempre foram 16 Km! Mais três do que o trilho oficial, que aqui se apresenta:

 

 

Valeu-nos o Restaurante Regional «Casa Chico».

 

 

Não tendo feito encomenda antecipada - erro da organização! - serviu-nos do que havia... Os tempos não estão para aprovisionamento de clientela incerta.

 

Mas só a espectativa de um «peguilho» que fosse, fez com que o companheiro Alcides arrancasse ao silêncio o acordeão do dono da Casa,

 

 

dedilhando uns razoáveis acordes, afinados, enquanto a esposa se «entretinha» no fogão.

 

Entretanto, músicos, professores, «filósofos» e outras artes que tais, da varanda rústica do restaurante,

 

 

mergulhando no mais banal e comezinho da vida, contemplavam, sob um sol em fim de dia, a água que correia de uma represa

 

 

e as árvores floridas,

 

 

lembrando-lhes, porventura, o dia em que levaram de branco suas respetivas até ao altar, prometendo-lhes amor e harmonia para sempre!

 

E, este vosso humilde relator, pensando cá para os seus botões, «recucava»: amor e harmonia para sempre, só a mãe-natureza é capaz de propiciar! Porque é dela que vimos e é para ela que, finalmente em paz, regressaremos, descansando num sono eterno, no seu materno regaço!...

 

Não queria concluir a reportagem deste percurso pedestre sem contar um episódio que deveras me sensibilizou. Tratou-se, enquanto comíamos, do erguer dos copos à saúde, e ao restabelecimento rápido de um velho amigo de caminhadas para alguns de nós, que se encontra nos Cuidados Intensivos do Hospital.

 

Aqui fica para memória uma foto tirada na companhia do Tino quando, com eles os dois, em 2009, fizemos o percurso pedestre das «Lamas do rio Olo»

 

 

bem assim o pequeno diaporama que, naquela ocasião, fiz.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

publicado por andanhos às 10:38
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