Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016

Ao acaso... Perdido pelo Fragão da Pitorca

 

 

AO ACASO...

 

PERDIDO PELO FRAGÃO DA PITORCA

 


Quando, aqui há dias, Fernando DC Ribeiro nos convidou para o acompanharmos até ao Fragão da Pitorca (ou Pitorga) para ilustrar com fotografia(s) a rubrica do seu blogue (CHAVES) - Chá de urze com flores de torga - ficámos com uma pulga na orelha quanto ao nome, porquanto não nos parecia estranho de todo.

 

Acompanhámos Fernando DC Ribeiro com muito gosto. Enquanto conversávamos, dirigindo-nos para o local, nossas sinapses neuronais trouxeram-nos à lembrança a «nossa história» sobre o Fragão da Pitorca.

 

Parece incrível, mas foi, com Fernando DC Ribeiro, que fizemos, pela primeira vez, a incursão ao local. As razões o(a) leitor(a), quando mais tarde voltarmos a este assunto, compreenderá!...

 

Era já em fim de tarde quando chegámos ao lugar, com o sol a decair sobre o horizonte.

 

Fizemos a reportagem fotográfica possível e saímos do lugar dirigindo-nos para Chaves, por Vila Frade.

 

Intimamente sabíamos que, muito brevemente, tínhamos que lá voltar: há coisas que não se explicam, apenas se sentem.

 

E assim aconteceu.

 

Antes, porém, quisemo-nos informar mais e melhor sobre o sítio.

 

João Batista Martins, no jornal Notícias de Chaves, de 26 de junho de 1981, sob o título «A Fraga da Pitorca de Curral de Vacas», diz:
Fraga da Pitorca ou Fragão da Moura [é assim] como lhe chamam respetivamente os moradores de Curral de Vacas e os de Vila Frade. Os rochedos estão compreendidos nos limites das duas aldeias que parecem reclamar cada uma a sua posse. A Fraga da Pitorca, palavra composta onde entra o termo «orca», tão ligado à arqueologia, é um enorme aglomerado de penhascos de granito, com muitas grutas naturais e com diversos corredores entre elas. O ambiente que a cerca é constituído por castanheiras bravas e outras árvores e arbustos da mais diversificada qualidade que emprestam ao lugar uma imagem a que não estamos habituados, e que no verão formam um titio ameno, repousante, da natureza pura e virginal.”.

 

Continuemos com a citação do texto de J. Batista Martins. Mais à frente, diz:
Pela terceira vez já fomos em passeio de trabalho até aquela zona. E não foi com facilidade que o fizemos, e na última vez, com vinte e tal pessoas, conseguimos maravilhas ao desbravar as grutas da Fraga.”.

 

E prossegue:
Antes já tínhamos apanhado para o Museu da Região Flaviense parte de moinho que vai e vem, ou seja, em forma de sela. Doutra vez, mais dois pedaços de cerâmica, um pedaço de moinho também em forma de sela e uma bola de seixo, mas nitidamente alisada em uma face por ação do homem, possivelmente, do neolítico.
Na terceira vez, foram achados mais uns pedaços de cerâmica e a parte de uma mão de pilão, polida de um lado.
Presentemente é quase impossível descobrir mais alguma coisa, porque o mato e a folhagem tudo encobrem.”.

 

Na década de oitenta do século passado, é este o estado da arte, quanto a este sítio, pela pena do responsável do Pelouro da Cultura da autarquia flaviense, liderada por Branco Teixeira, João Batista Martins (o de Sanjurge, não o de Vila da Ponte, Montalegre), muito dado às questões do passado.

 

Carlos Félix, um competente técnico do Museu da Região Flaviense, em conversa havida há poucos dias, confirmou-nos ter sido um dos acompanhantes de J. Batista Martins naqueles seus «passeios de pesquisa», confirmando-nos do teor, naquela altura, dos achados acima referidos.

 

No texto de J. Batista Martins o que mais nos intrigou, num homem que «via» a real valia arqueológica daquele sítio, foi o destino que lhe propunha, quando escrevia:
Sem dúvida que a Fraga da Pitorca e a sua zona envolvente, seriam dignos de boa sorte, de aproveitamento turístico, se houvesse possibilidades económicas para tal fim. Um estradão condigno a partir da estrada Curral de Vacas - Mairos, com corredores por entre a mata e os acessos às diversas grutas da Fraga, com mesas e bancos de pedra, e eis um lugar paradisíaco para repouso das agruras da vida.”.

 

Vejamos, agora, o que nos diz o Portal do Arqueólogo - Património Cultural - Direção-Geral do Património Cultural:
O «Fragão da Pitorca» consiste num aglomerado de formações graníticas que conferem ao local uma posição destacada na paisagem. O conjunto dos rochedos gera um promontório que descai em forma de penedia sobre o seu sector ocidental, encontrando-se atualmente completamente absorvido por formações vegetais arbustivas que dão origem a um maquis florestal que começa já a dificultar o acesso aos rochedos. Na zona envolvente prolifera um mato constituído por silvas, pinheiros, giestas, estevas e alguns castanheiros bravos, ainda de pequeno porte, que ajudam a coartar o acesso ao sítio arqueológico (...)” (http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/?sid=sitios.resultados&subsid=48372).

 

Anteontem voltámos ao mesmo local onde tínhamos estado com Fernando DC Ribeiro.

 

Era princípio de tarde. Depois da borrasca dos dias anteriores, embora sentíssemos um pouco de frio, o sol erradiava.

 

Olhávamos para todos os lados e só se viam penedos,

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 (Penedo I)

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(Penedo II)

rodeados de vegetação,

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ora engalfinhando-se nela

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ora no meio de vinhas.

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 (Cenário I)

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 (Cenário II)

Aqui

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e ali pequenos arbustos, alguns já sem vida, enfeitando as «suas pedras».

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Sentámo-nos neste penedo.

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Ao longe, mais para nordeste, um sobreiro.

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Para noroeste, um outro, com a povoação de Vila Frade a seus pés,

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rodeada pelas terras férteis da Veiga Chaves-Verín.

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Levávamos connosco o Diário XVI, de Miguel Torga. Abrimo-lo na entrada de 4 de setembro de 1991. Miguel Torga, referindo-se à Pedra da Pitorga, e à visita penosa que, naquele dia, lhe fez, diz ter sido “um abrigo pré-histórico gigantesco que deu segurança através dos tempos a sucessivas aflições. A ele acolhiam os primitivos habitantes da região, assediados por ursos, lobos, javalis e outros inimigos. Nele se refugiaram foragidos da Inquisição e da senha miguelista e liberal, e perseguidos da Guerra Civil espanhola, que a raia não defendia da raiva nacionalista. Labirinto granítico oculto num matagal de giestas e carvalhas, nele me apeteceu resguardar também a dignidade de poeta neste tempo sem poesia que me coube [viver]. Mas o homem já não sabe identificar-se no seio da natureza (...)”.

 

Da(s) história(s) relacionada(s) com estas pedras não podemos aferir da sua verdadeira autenticidade, embora desconfiemos que algum fundo de verdade tenha...

 

Continuámos ali sentados por uma bem longa meia hora.

 

Se fizesse parte das nossas habilidades artísticas o versejar, quanta fonte de inspiração este local nos suscita!...

 

Apenas nos ficámos na nua e pura contemplação da natureza e cogitando como teria sido a gesta do sapiens por estas paragens ao longo de séculos, porventura milénios...

 

Descemos do penedo e, por entre penedos,

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fomo-nos embrenhando pelos recantos do lugar.

 

Aqui, um penedo transformado em armazém de utensílios e/ou refúgio;

 

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ali, um ou outro, protegendo uma tosca casota que apoia o granjeio da vinha que lhe está ao redor.

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Ao longe, uma perspetiva da serra cheia de neve.

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E, continuando a descer, mais uma outra vista da mesma serra.

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Até que, sem darmos nem por burro, nem por albarda, nos perdemos completamente sem sabermos como sairmos do «buraco» onde nos tínhamos metido!

 

Mais de meia hora se passou sem que encontrássemos o «norte». Nem GPS nos valeu ou tão pouco o mapa da Google Earth que levávamos!

 

«Hélas», perdidos no meio de tanta fraga e mato, alhures em terreno desconhecido!...

 

Depois de tantas voltas dadas, e sentindo-nos verdadeiramente encurralados, «eureka!».

 

Não que encontrassemos o caminho certo. Foi um «anjo salvador» que nos apareceu - o senhor Augusto, prestes a largar a sua lida do dia para se dirigir, de trator, para a sua casa, em Santo António de Monforte.

 

Tirou-nos do lugar donde não conseguiamos sair e, depois, ainda andou connosco, mostrando-nos mais recantos que nem sequer sonhávamos existir.

 

Como esta gente é solidária, franca e humana, quando veem numa hora destas um ser humano em aflição!

 

O senhor Augusto fez questão de nos mostrar este penedo.

 

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Reparemos neste portal de entrada.

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Depois de passarmos a soleira daquele portal, ficámos deslumbrados com o que vimos:

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(Ângulo I)

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(Ângulo II)

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(Ângulo III)

Hoje, este lugar, deve ser refúgio/coito de muitas «pandegas», pensamos nós; outrora, para o senhor Augusto, dono de terrenos por estas bandas, e bem conhecedor do assunto por sua antiga profissão, foi um dos lugares constantes da rota do contrabando: aqui se acomodavam dezenas de cabeça de gado para, pela calada da noite, em horas de segurança, passar «calmamente» para a «outra banda».

 

O nosso «salvador», transformado agora em «cicerone», fez questão de nos levar até às proximidades da tão afamada Fraga da Pitorga,

21.- AZS_0443.jpg

 (Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

como dizem os de Curral de Vacas (melhor dizendo, perdão, Santo António de Monforte) e Miguel Torga, mas cuja designação arqueológica é Fraga da Pitorca.

 

Foi aqui, nesta enorme fraga,

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 (Fraga vista de um ângulo)

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(Fraga vista de um outro ângulo)

que, na década de 90 do século passado, foram encontrados dois achados que Fernando DC Ribeiro nos mostra no seu blogue (CHAVES), na rubrica Chá de urze com flores de torga, nº 116, de 3 de fevereiro passado.

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 (C. c. Fernando DC Ribeiro)

Naquela local dedicada a Torga, Fernando DC Ribeiro lança-nos um certo chiste quanto à questão de uma outra história e sua veracidade. Bem assim a desta. Mas esse assunto será questão a abordar num próximo post.

 

Por hoje ficamos por aqui e pela aventura que um caminhar ao acaso nos propiciou.

 

O senhor Augusto Pereira foi para a sua vida. Nós também fomos à nossa. Com um largo aperto de mão.

 

Antes, porém, de nos despedirmos deste lugar, voltámos ao nosso conhecido penedo onde, duas horas antes, nos entretivemos na leitura de Torga e em cogitações históricas, contemplando aquela natureza já não tão pura e virginal, como dizia J. Batista Martins no seu artigo, mas semisselvagem.

 

Para nos despedirmos. E nos deleitarmos com este por do sol!...

25.- AZS_0389.jpg


publicado por andanhos às 17:13
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