Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Introdução)


 

Algumas considerações sobre a Gallaecia e a Amizade

Galiza, Minho, Douro e Trás-os-Montes são hoje territórios que, na antiguidade romana, integravam a denominada Gallaecia ou Callaecia, uma província de Hispânia, a noroeste da Península Ibérica.

 

Gallaecia, até ao séc. III d. C. fazia parte da Hispânia Tarraconense, e tinha, como divisão a sul, a Lusitânia.

Os Galaicos estavam distribuídos em três tribos principais:

  • Os ártabros (artabri) (Galiza);
  • Os gróvios (grovii), (Norte de Portugal);
  • Os ástures (asturi), (Astúrias).

A Gallaecia, no tempo de Diocleciano (Gaius Aurelius Valerius Diocletianus Augustus),  dividia-se administrativamente em três conventi:

  • Convento asturiense, capital Asturica Augusta;
  • Convento lucense, capital Lucus Augusti;
  • Convento bracarense, capital Bracara Augusta.

 

De que Gallaecia aqui vamos tentar falar?


Da Gallaecia de hoje, terra-mãe, de celtas, da cultura castreja, e depois dos suevos e visigodos; da Gallaecia cadinho e berço dos heróis da Reconquista; da Gallaecia que, ao longo da história, jamais se deixou vencer pelo poderio dos dois estados que, durante séculos, a subjugaram; da Gallaecia que, na Europa dos séculos XX e XXI, se apresenta orgulhosamente como uma região ciosa da sua história, amante da sua língua e brigante da sua própria cultura; enfim, da sua história, do seu rico património, do seu contributo também para a construção europeia, ao longo de mais de mil anos, de que se vai aqui falar. Nomeadamente da importância dos Caminhos de Santiago; do românico, arte que está associada à Reconquista (e patente nas igrejas e conventos que conseguiram chegar até nós) e ao nascer dos dois estados peninsulares, dos quais Gallaecia faz parte; das suas paisagens; das suas aldeias, vilas e cidades… enfim, das suas gentes.


Não nos move qualquer intuito independentista, seja de que sinal seja. Apenas nos move o orgulho de sermos quem somos; da identidade que possuímos; do passado que nos moldou, para uns, como galegos; para outros, como gentes do Norte (minhotos, durienses ou transmontanos). Reivindicando, como povo que somos, uma quota parte – porventura bem significativa – na construção da gesta dos estados que somos hoje, numa Península Ibérica que desejaríamos integrada numa Europa das nações, com toda a sua riqueza e diversidade.


Enquanto fazia zapping, na internet, sob a entrada Gallaecia e/ou Galicia, no Youtbe, deparei-me com um conjunto de pequenos vídeos subordinados ao tema "Histórias de Galícia" (nomeadamente com as seguintes temáticas: as causas das cousas, a História de ser mulher, Sempre em Galiza, No nome de Deus, Onde a razom nom chega, Os caminhos do país, O som das armas, Onde o mundo se chama Galiza, A industrializaçom da Galiza, Nacion de Breogán, Filhos da terra, Língua do pobo, O valor das letras, Língua de reis, língua do povo, entre outros); pela banda de Portugal, é também interessante, no Youtbe, a entrada, sobre a designação “História Essencial Portugal”, de José Hermano Saraiva; ou ainda, para se aquilatar da origem celta dos galegos, ver o sítio http://www.philipthewise.blogspot.com/2008/01/galiza-celtic-country.html, e que recomendava, vivamente, a sua visualização, por forma a tentar explicar ao leitor aquilo que um simples texto não consegue fazer e, assim, ficar-se a conhecer um pouco destas terras e destas gentes que habitam e habitaram a Gallaecia.

 

Neste bloco, assim, sob a designação de Gallaecia, vão fazer parte as seguintes rubricas:

  • Pelos Caminhos de Santiago – Na Galiza;
  • Por Terras da Gallaecia;
  • O Douro dos Meus Encantos.

 

Neste  post vamos dar início à rubrica “Pelos Caminhos de Santiago – Na Galiza”.

 

A razão de ser desta rubrica tem a ver com a essência mesma deste blogue. Com efeito, o autor iniciou-se nestas lides de andarilho precisamente começando por palmilhar os Caminhos de Santiago.

 

E tudo começou mercê do entusiasmo de um grande amigo seu – Fabios.

 

Embora Fabios fosse uma pessoa já conhecida do autor há alguns anos, contudo, mercê de vicissitudes várias da vida, a oportunidade do encontro que propiciasse o aprofundamento de uma relação e, consequentemente, de uma amizade, não tinha sido possível.

 

Daí que, no verão de 2007, Fabios e seu filho Mitó(k), juntamente comigo, iniciámos os preparativos que me levariam a percorrer, pela primeira vez, o Caminho de Santiago - a Via da Prata -, em finais de Setembro.

 

Durante aquele verão de 2007, todos os fins de semana, particularmente aos domingos de manhã, levantávamo-nos cedinho para irmos percorrendo alguns quilómetros, por montes e vales do concelho de Chaves, por forma a adquirirmos a “endurance” suficiente para percorrer, de uma assentada, em 5 ou 6 dias, 163 quilómetros que nos levaria de Laza a Santiago de Compostela.

 

Com o aproximar da data do percurso do Caminho, sobreviveram outras preocupações: que equipamento levar connosco; quantas etapas; onde pernoitar; como adquirir a Credencial do Peregrino para pernoitar nos albergues; quais os meios de transporte a utilizar para nos levar ao início e nos trazer do fim do Caminho bem como uma especial atenção quanto aos problemas nos pés. E também, face ao peso de cada caminhante/peregrino, a mochila não poderia ter o peso superior a 10% do peso da pessoa, pois, se o ultrapassasse, haveria que fazer opções, por forma a aliviar a carga, sob pena de criar sequelas em termos dos pés, tendinites ou outros problemas em termos de saúde.

 

Daí foi um redopiar à volta da internet, particularmente nos sítios Mundicamiño – Los Caminos de Santiago (www.Mundicamino.com) e Caminho de Santiago – O Portal do Peregrino [Preparação do Peregrino a pé, por Walter Jorge] (www.caminhodesantiago.com/wj.htm).

 

Naqueles dias que antecederam o início do Caminho, parecíamos três verdadeiros adolescentes, de tão entusiasmados que andávamos.

Foram dias de encontros e convívio, que me marcaram profundamente.

 

Não sei para onde esta amizade entre mim e Fabios nos levarão. Pelo caminho percorrido até aqui, gostaria de realçar a importância desta relação de amizade, no meu relacionamento interpessoal e no desenvolvimento e enriquecimento da minha pessoa.

 

Foram muitas horas calcorreando serras, montes e vales, aldeias, vilas e cidades, partilhando experiências e a vida. Que jamais se esquecerão. Que fazem parte plena do meu percurso existencial.

 

Que me levam a ser um outro homem e a melhorar e reflectir sobre a vida e as relações pessoais e de amizade.

 

O mundo moderno em que vivemos, segundo Gilles Lipovetski e Jean Serroy, in A Cultura-Mundo, construído na base do hipercapitalismo, da hipertecnicização, do hiperindividualismo e do hiperconsumo, em que mercado, tecnociência e indivíduo estão entregues a si mesmos, como organizadores dominantes, e sem precedentes na história, gerando um novo “mal estar na civilização”, faz com que, no dizer de Tocqueville, o homem se sinta “perdido na multidão”, órfão de pontos de referência da sua identidade. Daí a importância de se recentrar o papel da cultura na sociedade e de fazer vir ao de cima determinados temas para análise, discussão e reflexão.

 

Por tudo isto, não resisto a deixar aqui reproduzido um texto que assinei num blogue de um outro amigo, precisamente discorrendo e reflectindo sobre a problemática da amizade, a sua importância e o seu valor.

 

Ele, pois, aqui fica:

 

 

 

“… Não é nossa intenção aproximarmo-nos… a nossa meta não é transformam-nos um no outro, mas conhecermo-nos um ao outro, e aprender a ver e a respeitar no outro aquilo que ele é: o nosso oposto e o nosso complemento” .

Herman Hess, Narciso e Boccadoro.

 

 

Na linguagem corrente a palavra amizade tem numerosos significados. Serve para indicar o sócio, o conhecido, a pessoa simpática, o vizinho, o colega, todo aquele que se encontra próximo.

 

Há, porém, hoje, como no passado mais remoto, um outro significado, o de amigo pessoal a quem queremos bem e que nos quer bem.

 

É um momento em que sentimos uma forte simpatia, um interesse, sentimos uma afinidade em relação a uma outra pessoa. Se já a conhecíamos há algum tempo, é como se a víssemos de uma maneira diferente, pela primeira vez. Chamaremos «encontro» a esta experiência.

 

A amizade constitui-se através de uma sucessão destes «encontros», cada um dos quais continua o precedente. A amizade é uma filigrana de encontros. E cada encontro é uma prova.  Cada encontro é diferente, abre uma nova estrada, abre-nos novas perspectivas.

 

Os amigos encontram-se e renovam a sua amizade através dos encontros.

 

Se uma amizade é verdadeira, isto repetir-se-á inúmeras vezes.

 

A verdadeira amizade é aventura, exploração, busca.

 

E o encontro é em si mesmo um momento de felicidade, de grande intensidade vital. É um momento em que compreendemos algo de nós próprios e do mundo.

 

No encontro sentimos que a outra pessoa nos ajuda a caminhar na direcção correcta. Podemos senti-lo, mesmo que entre nós não haja identidade de opiniões, mesmo que sejamos diferentes, quer em termos de formação cultural quer mental.

 

 Pelo contrário, o outro deve ser um pouco diferente. Pois, no encontro, essa diversidade é preciosa, até porque dá uma nova perspectiva. Sozinhos não teríamos seguido naquela direcção. Uma nova perspectiva constitui até uma confirmação da correcção daquilo que tínhamos pensado. Cada amigo, portanto, ajuda o outro a descobrir aquilo que é para si essencial e a aproximar-se-lhe um pouco mais.

 

O encontro não é reconhecer uma identidade ou semelhança. É apercebermo-nos de que o outro nos completa e que nós o completamos.

 

O encontro é fazer um pedaço da estrada em conjunto em direcção à própria identidade, em direcção à descoberta daquilo que, para cada um, é a coisa mais importante. O outro está connosco não por interesse ou por cálculo, mas porque é essa a sua natureza, porque deve percorrer aquela estrada.

 

Do ponto de vista da amizade, são estes momentos de imensa intensidade vital que têm importância. Aquilo que acontece nos intervalos não conta.

 

Porque na amizade é tão importante o encontro?

 

Porque é o momento de autenticidade, porque é o aparecimento de um sentido. Embora seja um instante, e dure apenas um instante, abarca (o encontro) a diversidade caótica da nossa vida e dá-lhe ordem, confere-lhe significado.

 

Cada um de nós é um turbilhão de desejos, como um núcleo ardente no seu centro. No encontro tocamos, de qualquer forma, esse núcleo central de nós próprios. Damos uma resposta aquilo que interessa, que é, pois, a eterna questão: de onde vimos; onde estamos; e para onde devemos ir.

 

O amigo é aquele que nos faz sempre entrever a meta, e faz connosco uma parte do caminho.

 

Do encontro com o amigo espero sempre, portanto, uma revelação. O amigo abre-me a porta que eu queria abrir.

 

A experiência do amigo é interessante exactamente por ser diferente.

 

É confrontando-nos com esta experiência que me conheço. Conhecer quer dizer confrontar, comparar, distinguir.

 

Quando falamos com um amigo não somos o “public relations” de nós próprios. Somos sinceros. Apresentamo-nos tal qual somos.


O amigo, por outro lado, não nos engana, fala-nos a verdade. E nós acompanhamo-lo com imparcialidade, compreensivos e lúcidos. Desta maneira, os fantasmas, o faz de conta, tão comum nas relações sociais, o teatro, desvanecem-se.

 

Cada encontro é um risco, porque tem que resultar.

 

A amizade é o resultado de encontros bem sucedidos.

 

A amizade quer, em primeiro lugar, a liberdade do outro e, se faz mesmo o mais pequeno esforço para a constranger, deixa de ser amizade verdadeira.

 

A amizade é um estado aceite e desejado. Não lhe queremos fugir. Nunca nos vem à mente, nem por um instante, tornar um amigo escravo.


Não escolhemos como amigos as pessoas pelas quais não temos estima.

 

A amizade não pode coexistir sem essa estima, não pode existir sem um comportamento moral recíproco. Mas a amizade não é apenas estima, não é apenas admiração. É também afecto. A amizade é a forma específica de afecto/amor que tem, como objecto, uma pessoa que consideramos e que age de forma eticamente correcta, pelo menos para connosco.

 

O amigo é, portanto, aquele que «te faz justiça». Justiça num sentido profundo, vital. O amigo que aprecia uma tua qualidade que ninguém tinha valorizado, que te estima por algo que os outros desprezam, faz-te justiça nesse sentido profundo. O amigo está do teu lado, combate contigo e, se necessário, vinga-te.

 

O amigo é generoso. Vê aquilo que somos e ajuda-nos a sermos nós próprios. Os outros ficam indiferentes.

 

Amigo é aquele que intui e evoca a parte melhor de nós, a parte mais bondosa, mais humana, espontânea, sincera e mais gentil.

 

O facto de a amizade ter uma tão forte componente ética torna verdadeira a afirmação «diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és». Os amigos são o retrato objectivo da ética da pessoa.

 

A amizade é, na sua essência, uma relação entre dois indivíduos isolados, donos de si próprios. É um encontro entre iguais.


A amizade é uma virtude democrática, republicana.

 

Todos nós esperamos do amigo reciprocidade, afecto, afeição. Se o amigo não no-la dá, mostra, sem qualquer dúvida, o seu desinteresse, evidenciando que não se está a comportar como amigo. Um comportamento deste tipo põe em crise a amizade, não porque sejamos ciumentos, mas porque ele se comporta de uma forma inadmissível.

 

O ciúme é incompatível com a amizade, porque a amizade não suporta nem padrões nem prisões.

 

Incompatível com a amizade é também a necessidade de exclusividade. A amizade é aberta, livre, serena. Quando na amizade fazem o seu aparecimento estes sentimentos opressores, quer dizer que qualquer coisa não funciona e que, mais tarde ou mais cedo, aparecerá uma crise.


A amizade é a relação que menos suporta o exagero e a superficialidade.

 

Compreende-se agora porque a amizade parece tão frágil e porque há tanta gente que se diz desiludida da amizade.

 

A crise na amizade nasce sempre de uma desilusão e tende a tornar-se combate mortal. Por isso, se não somos compreendidos por um amigo, quer dizer que não é amigo, que não nos queria bem.

 

A crise da amizade não depende da vontade. Quando a amizade se quebra, podemos procurar salvá-la, conservar uma atitude amigável, fingir que nada aconteceu, mas é inútil.

 

A crise apenas pode ser resolvida num “encontro”. A este tipo de encontro entre amigos dá-se o nome de esclarecimento.

Superar uma crise significa melhorar-se a si próprio, fazer uma travessia difícil no próprio desenvolvimento pessoal.

 

A amizade tem uma substância moral. Uma vez perdida a confiança, perdeu-se para sempre. A crise da amizade, portanto, é um processo: o passado é reevocado para ser julgado; o futuro é invocado porque tem que ser determinado; e a decisão é sempre inapelável.”.

 

 

 

No próximo post falaremos sobre o meu primeiro Caminho de Santiago na Galiza – a Via da Prata - de Laza a Santiago de Compostela.

 

 

 

 

 


publicado por andanhos às 17:23
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