Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

Palavras soltas... Laza, um dos vértices do triângulo mágico - o «Peliqueiro»

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

LAZA - UM DOS VÉRTICES DO TRIÂNGULO MÁGICO - «O PELIQUEIRO»

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1.- UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA SUCINTA

 

Antrudo, Entroido, Entrudo ou Carnaval, entre outras expressões, há-o por todo o canto deste mundo. Insere-se, desde tempos ancestrais, no ciclo de vida das diferentes comunidades humanas. Obviamente, com diferentes manifestações e matizes, conforme os respetivos lugares, geografias, costumes, enfim, as diferentes culturas dos povos. Mas tendo matrizes básicas, em que estas manifestações que o Entrudo representam e assentam.

 

Joan Prat i Carós, no seu estudo «El Carnaval y sus rituales: aigunas lecturas antropologicas» diz-nos que o Carnaval se inscreve no âmbito de quatro rituais, a saber:


• 1.- os de natureza cósmica, encarando-se o Carnaval como um período de Caos criador e gerador de vida, saído de uma complexa conceção do tempo primitivo, diretamente relacionado com o ciclo do mundo dos mortos e com o trânsito do inverno para a primavera, que, por sua vez, depende da ação fertilizadora e benéfica que os antepassados devem assumir para com os humanos. Em suma, e citando o estudo «Aragon e el Carnaval», de 1980, de Josefina Roma, Joan Carós diz que o “«Carnaval é a festa das festas (...) a sua importância está na batalha entre a morte e a vida. A necessidade de assegurar a fertilidade do mundo e o trânsito dos defuntos sobre a terra que devem ser enviados para o mundo superior e, desde aí, se associarem à tarefa fertilizante dos campos, animais e pessoas. Cuidar que este trânsito ou passagem de seres malévolos se transformem em seres fertilizantes; cuidar que a morte se converta em ressurreição, requer a totalidade das forças humanas e a concentração dos rituais maiores de todo o ano»”;

 

• 2.- os de fertilidade e fecundidade, diretamente relacionados com a natureza cósmica. Segunda este paradigma ou leitura, o Carnaval deve ser analisado como uma alegoria do espírito da abundância, ou melhor, da reprodução biológica capaz de assegurar a dita abundância. A terra e o mundo vegetal, assim como o mundo animal e humano, adormecidos pela letargia do inverno, necessitam de revitalizar-se mediante certos rituais específicos. Certos autores afirmam que, em Roma, as festas Lupercalia ou Lupercales protagonizavam e estavam relacionadas com a fecundidade das mulheres e do gado, assim como a preservação do gado contra animais selvagens. Um outro autor, Caro Baroja, na sua obra «El Carnaval. Análisis histórico-cultural», de 1979, argumenta sobre a extrema complexidade do Carnaval, dificilmente redutível a «superveniências» do passado. Contudo, no final da sua aludida obra, sempre nos vai dizendo que as festas romanas - Saturnalia, Lupercalia e Matronalia - tiveram uma enorme influência na fudamentação dos diversos estudos carnavalescos hispânicos. A determinada altura, o autor diz, citando-o em vernáculo: “Pero es, sobre todo, la misma figura de los lupercos - esos jóvenes embriagados que corrían semidesnudos por las calles, azotanto a las mujeres deseosas de descendencia com látigos confeccionados a base de piel de macho cabrío - lo que ha dado pie a la comparación con numrosas mascaradas carnavalescas españolas, cuyos protagonistas muestran un sorprendente parecido com aquéllas”. Por sua vez, González Reboredo e Mariño Ferro, na obra comum sobre o Entrudo, sintetizavam, deste modo as características gerais das mascaradas galegas - a) trazem frequentemente uma pele de animal; b) vestem de modo «irregular» e, por vezes, de modo que nos lembra a indumentária feminina, ainda que sejam varões os que as vestem; c) da sua vestimenta, e normalmente do seu cinto, pendem «chocas», «cencerros» ou campainhas próprias de animais domésticos; d) o seu comportamento é especialmente anormal, «golpeando» as pessoas com chicote ou varapaus rematados com bexigas. Em síntese, a exegese de todos estes personagens, cujas máscaras se assemelham aos seus protagonistas, como o lobo, o cabrito macho e o urso (animais que, segundo parece, estiveram relacionados tradicionalmente com a fecundidade, purificação ou proteção dos rebanhos em contextos de economia pastoril) remete-nos para rituais de clara significação agrária e protagonizados por animais domésticos, encarados como alegorias ou símbolos do «espírito de abundância». António Pinelo Tiza, na sua obra «Máscaras e Danças Rituais - Ritos Ibéricos do solstício de inverno», a certa altura, diz que “(...) a presença da máscara e outros elementos afins e complementares é uma constante em todas as culturas e civilizações. Desde o teatro grego (e, a partir do Renascimento, com a Commedia Dell’Arte), passando pelas celebrações festivas celtas e romanas, pelos rituais dos antigos povos europeus, africanos ou índios até aos atuais corsos carnavalescos, sempre a máscara desempenhou primordial função, em momentos especiais, solenes ou críticos, formalmente instituídos na vida de uma comunidade (...) Solstício de Inverno, entrada do Ano Novo, Epifania, Carnaval ou passagem para a nova estação da Primavera, são momentos cíclicos de festa ou de crise na sociedade ou na natureza. É então que o mascarado, gozando do seu estatuto de personagem mítica e superior, dotada de uma força e liberdade sem paralelo, entra no desempenho das suas funções de propiciar pelo ressurgimento benfazejo do sol, no momento em que ele parece extinguir-se, e dos seus favores de fertilidade para a Mãe-Natureza; de expurgar a terra e as culturas de toda a sorte de pragas e maleitas; de purificar a comunidade das enfermidades passadas, preparando-a para uma nova vida que começa (...)”.

 

• 3.- os de inversão da vida ordinária, que nos transportam ao «paraíso perdido», à «idade de ouro» e abundância. Citemos, no vernáculo, uma vez mais Joan Carós quando nos diz que o Carnaval “se traduce además de algunos aspetos ya señalados, en las grandes comilonas de carne grasienta de cerdo tipica de estos días, en la bebida copiosa y en una ridistribuición generalizada de alimentos conseguidos mediante colectas que posteriormente serán consumidas en festines colectivos o comunitários no es, ni ha sido precisamente la situación «normal» entre las capas bajas de población de sociedades fuertemente estratificads e jerárquicas. Y es en esta dirección que nos aparece un tercer núcleo de rituales específicos del Carnaval: los rituales de inversión de la vida ordinaria”, presentes também nas Saturnalia e nas Matronalia bem assim nas chamadas festas de «loucos medievais», com o culminar de excessos e irreverências, em clima de plena liberdade e paródia, onde as hierarquias não existiam, nas quais superava, essencialmente, o carácter profano e laico. Segundo a tese de Bakhtine, a catarse coletiva carnavalesca, com o seu desfoque de sentimentos e comportamentos, funcionou, normalmente, como uma canalização e um mecanismo de controlo de comportamentos potencialmente desestabilizadores e perigosos, porquanto a função ritual não quebra a ordem estabelecida, pelo contrário, reforça-a;

 

4.- • os de ostentação. Dos «loucos medievais», e seus posteriores desenvolvimentos, progressivamente, cresceram organizações em número e complexidade que, lentamente, deixaram de ser protagonizados por miúdos ou crianças e jovens para passarem a integrar grupos de adultos que, para além do mais, e com certa frequência, estavam bem inseridos na vida citadina. Assim, burgueses e nobres, aristocratas, começaram a organizar as suas próprias diversões e cerimónias burlescas que, em certos casos, se opunham às «loucuras» dos clérigos e, noutras, as completavam. Estes novos grupos «laicos» retinham alguns temas clássicos e típicos das festas dos «loucos», como a exaltação da infância e a loucura, mas também incorporaram, a nível formal sobretudo, outros temas novos. Grupos de cidadãos notáveis, mascarados e disfarçados, cantavam todo o tipo de canções burlescas e irreverentes e proclamavam sátiras contra o poder civil, eclesiástico e contra todos os seus inimigos declarados. Diz Joan Carós que, como consequência da própria composição social das cidades, os bairros, os grupos profissionais (herdeiros dos antigos grémios) e as próprias classes sociais criaram as suas próprias companhias, confrarias e comparsas carnavalescos que competiam e rivalizavam entre si, o que, por sua vez, implicava a realização de grandes gastos!

 

Apresentámos aqui, na ótica de Joan Carós, quatro distintos rituais ou paradigmas que suportam as diferentes interpretações sobre o Carnaval e as suas distintas manifestações.

 

Com cada um destes rituais não queremos infirmar que cada um defenda uma linha e, consequentemente, um modus operandi de um Carnaval específico que, nos tempos atuais, se pratica.

 

A questão é mais complexa, ou melhor, o Carnaval de hoje é mais de natureza híbrida. É uma mescla, muitas vezes entre si contraditória, das quatro linhas paradigmáticas ou rituais que enfatizámos acima.

 

Contudo, na nossa modesta opinião, são as três primeiras linhas, ou rituais, que mais têm a ver com o Carnaval «vivido» no triângulo mágico da província de Ourense, Galiza, mais precisamente, em Xinzo de Limia, Verín e Laza (para além do «Merdeiro», de Vigo; os «Xenerais», da Ulla; os «Irrios», de Castro Caldelas; os «Boteiros», de Valariño de Conso; o «Loro Ravachol», em Pontevedra; os «Felos», em Maceda; os «Troteiros», de Bande, entre outros, e, porque não aqui também referi-lo, nos dois principais «enclaves» transmontanos - os «caretos» de Podence e Lazarim?...).

 

2.- O «PELIQUEIRO» DE LAZA

 

Para nós, dos três Carnavais galegos acima referidos (entre muitos outros), o Carnaval que se nos apresenta no seu estado mais «genuíno», na sua manifestação popular, tendo em linha de conta os três paradigmas acima referidos, é o de Laza.

 

Diz o sítio da internet - https://osbolechas.gal/o-entroido/entroido.pdf - «Os Bolechas» que o Carnaval de Laza é a festa mais pura da Galiza, que começa muito cedo com a chamada sexta-feira de «Folión». Os «folións» são comparsas que, para espantar os maus espíritos, percorrem as ruas durante a noite tocando diversos objetos. No domingo de Entrudo os «folións» dão o protagonismo aos «peliqueiros», os personagens típicos do Carnaval de Laza, que se reúnem num ato chamado «A estreia do peliqueiro» e convidam as pessoas a comer a «bica», um bolo típico de Laza, com muitas parecenças com o nosso pão-de-ló.

 

A sua figura mais simbólica é o «Peliqueiro», tal como o de Verín é o «Cigarrón» e o de Xinzo de Limia é a «Pantalla».

 

Os «Peliqueiros» são personagens «animalizadas»: não falam, transportam «chocas» (chocalhos) de ferro, como os animais, e levantam as saias às mulheres e «fustigam» as pessoas que não os respeitam ou se interpõem no seu caminho. O traje, similar aos «Cigarróns» é composto conforme figura que se mostra.

Peliqueiro%20de%20Laza-12.png

(in:- http://museodeltraje.mcu.es/popups/04-2006%20pieza.pdf)

 

Tal como o domingo, outro dia grande em Laza é a segunda-feira de Entrudo, no qual se celebram diversos ritos como «A Farrapada», uma batalha campal na qual se usam trapos untados com barro; «A Xitanada», uma divertida procissão com um burro, ou «A baixada da Morena», uma espécie de sátiro com cabeça de vaca que persegue as mulheres, enquanto a sua comitiva lança sobre a multidão uma chuva de farinha e formigas vivas. Um costume ancestral no qual participa toda a gente. Não falta a boa comida com a Festa Gastronómica da cachucha (cabeça do porco), a «bica branca», «xastré» e licor de café.


Assistimos na passada sexta-feira, em Laza, ao «Gran Folión», anunciando a chegada do novo Entrudo (Entroido) em Laza e do seu protagonista maior - o «Peliqueiro», que faz a sua apresentação «oficial» com «A estreia do Peliqueiro» e pondo-se à saída da missa na igreja paroquial da terra, no domingo (7. de fevereiro.2016).

 

Deixamos aqui algumas cenas e personagens que vimos (e, porque não dizê-lo, vivemos) na passada sexta-feira (5.fevereiro.2016) no «Gran Folíón».

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 (Cena I)

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 (Cena II)

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 (Cena III)

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 (Personagem I)

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 (Personagem II)

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 (Cena V)

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 (Cena VI)

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 (Personagem III)

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 (Cena VII)

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 (Personagem IV)

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 (Cena VIII)

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 (Cena IX)

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 (Cena X)

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 (Personagem V)

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 (Personagem VI)

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 (Personagem VII)

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 (Personagem VIII)

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 ( A repórter da TV Galega entrando na « folia»)

 

E agora - e porque não podemos estar no passado domingo em Laza - eis as palavras de Tâmara Novoa Alonso e a fotografia de Pío García, de Galícia entera.com, em (http://www.galiciaenteira.com/triangulo-magico-pantallas-peliqueiros-y-cigarrons/:


Color y ‘troula’ invaden el macizo Ourensán


Son las seis de la madrugada y el sonar de los chocos comienza a brotar en la plaza de A Picota. Es domingo de Carnaval en Laza y los peliqueiros están de estrena. Por primera vez en lo que va de año pueden salir a mostrar sus trajes. Hoy es el día de los que debutan como peliqueiros, que nerviosos lucen con orgullo sus elaboradas vestimentas.

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El domingo es el día grande en Laza. La plaza de A Picota se queda pequeña para acoger a todos los lazanos que no faltan a su cita con el Entroido así como a gente llegada de toda España, que expectantes se acercan a contemplar el espectáculo. Por la mañana los peliqueiros se aproximan a las puertas de la iglesia para soltar alguna delicada zamarrada entre aquellos fieles que acuden a la misa en días de Entroido, después se dirigen a la plaza para el reparto de la bica blanca. Tras estos actos los peliqueiros se distribuyen en grupos y van de casa en casa visitando a los vecinos, porque el Entroido es una fiesta para disfrutar en vecindad. “Estas visitas hacen especial ilusión a los más mayores. Algunos ya no pueden salir a la calle y esta es su forma de vivir el Entroido”, explica un peliqueiro.

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Vestirse estos trajes requiere entrenamiento ya que cigarróns y peliqueiros pueden llevar entre 15 y 20 kilos de peso. Además sus miembros aseguran que la máscara, los chocos y los zapatos pueden resultar especialmente molestos. Pero eso no los detiene. Sostienen que para ellos es un sentimiento, una tradición que pasa de generación en generación y que llevan dentro".

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Nona

 

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publicado por andanhos às 15:28
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