Sábado, 30 de Maio de 2015

REINO MARAVILHOSO - DOURO - Murça (II)

 

 

ATIVAMENTE, EXERCENDO O DIREITO À NOSSA PREGUIÇA (II)

 

- VIA ROMANA DE MURÇA -

(22.maio.2015)

 

Falta dizer às(aos) nossas(os) leitoras(es) que, antes de regressarmos para assistirmos a parte do Painel II do Congresso, subordinado ao tema «Animação Sociocultural na Terceira Idade: Cidadania e Participação», e, principalmente, à Conferência do Padre Fontes - «A medicina popular e o envelhecimento ativo», ultrapassado o edifício da Escola Profissional de Murça, enfiámo-nos, em jeito de caminhada, pela tineira do calor, pela Via Romana de Murça, cujo placard que a anuncia, logo no início, contém os seguintes dizeres:

01.- Via romana de Murça.jpg

Neste placard, sucintamente, tem tudo o que é necessário saber sobre a história desta via. Mas, nós, quisemos aprofundar um pouco mais o nosso saber sobre as estradas romanas por esta zona. E, assim, fomos consultar na internet o sítio - http://viasromanas.planetaclix.pt/ - «Itinerário das vias romanas em Portugal».

 

Da sua leitura e análise, damo-nos conta que a Via Romana de Murça, de acordo com o Itinerário Antonino ou Itinerarium Antonini Augusti, originalmente escrito no século III, não fazia parte de nenhum itinerário principal. Trata-se de um itinerário secundário, a norte do rio Douro, e que, vulgarmente, juntamente com outros, são designados por «Viae Aquilonem Fluminis Durius».

 

Diz-se, a dada altura, neste sítio:

 

Viação romana secundária a norte do Rio Douro

A rede viária secundária a norte do rio Douro continua ainda por desvendar dada a complexidade de caminhos antigos existentes num terreno muito acidentado e ao escasso número de miliários encontrados até agora. Muitas serão rotas pré-romanas ligando os imensos castros e povoados da região, renovadas e ampliadas durante a era romana como Viae Vicinales e muitos outros serão já medievais, constituindo um imenso património de pontes e calçadas a exigir urgente preservação. É provável que existisse pelo menos uma via romana Este-Oeste ligando Braga a Zamora e Salamanca, passando em Terras de Panóias, hoje a região de Vila Real, continuando por Murça, Mirandela e Miranda do Douro para Zamora (OCELO DURUM), ou por Carlão, Vila Flor, Vale da Vilariça, Torre de Moncorvo rumo a Salamanca (SALMANTICA). Também é provável uma via N-S que cruzava com estes trajetos no Alto do Pópulo e em Carlão rumo às civitates da margem sul do Douro como Freixo de Numão. Os possíveis miliários de Vila Marim e Constantim, ambos próximos de Vila Real, parecem estar alinhados com a direção da via e marcariam a sua passagem na região de Vila Real, mas na ausência de outros miliários, também é possível que estes miliários pertencessem a vias no sentido N-S, o miliário de Constantim inserido na Rota Chaves - Aguiar - Rio Douro e o miliário de Vila Marim (tombado junto à capela da Nossa Senhora da Paz) que poderia ser integrado numa via também entre Chaves e o rio Douro, mas que passava a leste de Vila Real, seguindo em direção a Cidadelhe (Mesão Frio), onde também se achou um miliário. Na ausência de dados mais precisos, tenta-se equacionar um conjunto de ligações entre os principais focos de desenvolvimento, integrando os vestígios existentes num corpo mais ou menos coerente de itinerários. Sem novos dados é difícil esclarecer as rotas com precisão”.

 

E quanto à nossa Via Romana de Murça, diz:

 

Vila Real - Murça - Mirandela

Itinerário medieval de Vila Real a Mirandela com possível origem romana que atravessa o rio Corgo na Ponte de Piscais e segue por Mouçós, Lagares, Justes e Vila Verde rumo ao Alto do Pópulo, continuando depois na direção de Murça, onde fazia a travessia do rio Tinhela; apesar das principais pontes deste itinerário não evidenciarem sinais de romanidade (Ponte de Piscais no rio Corgo e Ponte de Murça no rio Tinhela), é muito provável que este itinerário já existisse em época romana, atendendo à intensa romanização dos povoados castrejos ao longo do seu trajeto, como Santa Cabeça (Mouçós), Murada (Lagares), Cerca (Vila Verde) e Castelo dos Mouros (Murça); equacionam-se também possíveis variantes rumo ao Rio Douro.

(...)

Alto do Pópulo (nó viário e provável mutatio no cruzamento com a via N-S entre Chaves e o rio Douro; sai da EN15 pelo Alto da Bobela/rua Fontelas) Cadaval, Fiolhoso (a via continua pelo caminho que passa na Fonte do Linhar e junto do cabeço da Seixigueira, descendo daqui à ponte sobre o rio Tinhela, passando assim a sul do Castro romanizado do Castelo dos Mouros, onde há um troço de calçada de acesso ao castro) Murça (atravessa o rio Tinhela na Ponte Romana?-Filipina sobre o rio Tinhela e sobe por calçada à povoação, cruza a EN15 e segue pela rua Marquês de Valle Flôr) Murça a Mirandela, seguindo por Palheiros (castro; rua da Estrada Velha), Franco, Lamas de Orelhão (provável nó viário atendendo à fortificação romana junto do cemitério e à inscrição HEINC LETERAM, possível marco territorial, achado na igreja), continuando por Passos e Golfeiras até Mirandela (vestígios nos povoados do Castelo Velho/Monte de S. Martinho e junto da ribeira de Mourel que corre no seu sopé, hoje a Qta. da Raposeira; Ponte Romana? de S. Sebastião sobre a ribeira de Carvalhais, junto ao campo de futebol).

Possível diverticulum para o território Baniense, derivando em Palheiros e seguindo para sudeste por Montefebres, indo atravessar o Rio Tua na Ponte do Abreiro, 100 m a montante da ponte atual (Castro romanizado na capela de Sta. Catarina e povoado em Poço dos Mouros) continuando depois por Vieiro (habitat em S. Domingos) em direção a Vila Flor e daqui ao Vale da Vilariça (Torre de Moncorvo), território da civitas Baniensis”.

 

Intrigados ainda quanto à designação deste itinerário secundário com o nome de «via» e não de «calçada», ainda no mesmo sítio, obtivemos a seguinte resposta:

  • Via - é todo o caminho na rota da antiga via romana, seja em terra batida, calçada em pedra ou por estrada moderna (sublinhado nosso);
  • Calçada - é todo o caminho com possível origem romana ainda com vestígios de pavimento antigo.

Segundo esta definição, o caminho que percorremos, naquela tarde de sol, no dia 22 de maio passado, é uma via, porquanto não estamos em presença de um caminho com origem romana e ainda com vestígios de pavimento antigo (calçada), que está na rota de uma antiga via romana. O que percorremos, sob o itinerário romano, é um caminho que foi romano, medieval, reconstruído no século XVII, com Filipe II de Espanha (Flipe I, de Portugal) e, sucessivamente reconstruído e melhorado até aos nossos dias.

Começando a percorrer esta Via, logo de início, deparámos com este sobreiro, trespassado pelos raios do sol, nas imediações do casario.

02.- Via romana de Murça.jpg

E, à margem da Via, que aqui começa em forte declive,

03.- Via romana de Murça.jpg

esta figura, em granito,

04.- Via romana de Murça.jpg

assente num plinto quadrado, também de granito, sob uma rocha.

05.- Via romana de Murça.jpg

Quanto a esta figura, não encontrámos lugar algum que dela fale. Mas tudo leva a crer que seja recente, feita por mãos habilidosas, de um «escultor» popular.

 

Enquanto descíamos a Via, à nossa frente e direita, monte;

06.- Via romana de Murça.jpg

à nossa esquerda, pequenos socalcos de vinha e horta, descendo para o rio.

07.- Via romana de Murça.jpg

Enquanto nos entretínhamos a olhar para as flores que cresceram «ao deus dará», pela berma da Via, a páginas tantas, a Via apresenta-se-nos com este aspeto.

08.- Via romana de Murça.jpg

Estávamos nas proximidades da ponte sobre o rio Tinhela, que vai desaguar ao rio Tua. Atravessámo-la.

09.- Via romana de Murça.jpg

Mas, antes, parámos, junto de um penedo, para vermos, mais de perto, o que estava «esculpido» a seu lado.

10.- Via romana de Murça.jpg

Observámo-lo ao pormenor. Naturalmente, trata-se de um escudo. Dizem-nos que do tempo de Filipe II, de Espanha (Filipe I, de Portugal).

 

De Francisco Ribeiro da Silva, numa História de Portugal, a páginas 245, começa a ser reproduzido um seu texto publicado como introdução ao livro Filipe II de Espanha, Rei de Portugal (Coletânea de documentos filipinos guardados em Arquivos Portugueses), 2 volumes, Zamora, Fundação Rei Afonso Henriques, 2000, e que, a certa altura, diz da ação deste monarca quanto ao fomento económico, quando procede ao “lançamento e melhoria das infraestruturas: construção e reconstrução de pontes”, entre elas, a Ponte de Coimbra cujo pagamento levantou muita polémica; a reconstrução da ponte de Canaveses, na Comarca de Guimarães; a ponte do Prado, no Arcebispado de Braga; a ponte de Mirandela e a da Guarda, estas de maior envergadura, para não falar na reconstrução de outras mais pequenas como esta, na Via Romana de Murça, sobre o rio Tinhela.

 

Assim, e em boa verdade, estamos em presença de uma ponte que não é romana, nem tão pouco medieval. Construída no século XVII, sobre uma ponte provavelmente medieval, que tinha já sido romana, encontra-se no alinhamento da rota romana.

11.- Via romana de Murça.jpg

Sobre esta ponte, o sítio da internet - http://www.guiadacidade.pt/ptpoi-via-romana-de-murca-20875 - «Guia da cidade», refere que “mesmo na atualidade, há cerca de duas décadas, era por ali que as povoações do Vale do Cunho, Pópulo e sobretudo Cadaval, nomeadamente para irem à feira, ou aquando da apanha da azeitona [passavam]”.

 

Ultrapassada a ponte, continuámos o nosso percurso, subindo esta bem conservada calçada.

12.- Via romana de Murça.jpg

Ao cimo da calçada, numa ampla curva, em noventa graus,

13.- Via romana de Murça.jpg

aparece-nos este marco que, segundo supomos, deve ser da mesma época filipina.

14.- Via romana de Murça.jpg

Percorrida a Via até ao casebre que se vê na figura anterior - e porque começava a fazer-se horas para assistir à Conferência do Padre Fontes, iniciámos o retorno a Murça, ao Auditório Municipal.

15.- Via romana de Murça.jpg

Mas, intrigados com aquele escudo, tentámos perceber a razão da sua «mutilação», ao ter aposto uma cruz de ferro. Mais tarde, já no Auditório, um técnico da Câmara Municipal de Murça, a solicitação do Presidente da edilidade, informou que aquela «mutilação» tinha a ver com a oposição a tudo quanto fosse filipino, durante o período da Restauração. Contudo, ficou por explicar a razão da «mutilação» do escudo ser feita com uma cruz de ferro.

16.- Via romana de Murça.jpg

Um pescador furtivo, queixando-se da pouca sorte da «apanha», nessa tarde, no rio, indicou-nos o melhor sítio para tirarmos uma foto à ponte da sua margem direita; da margem esquerda, à vinda, foi mais fácil - tratou-se, apenas, de seguir um caminho pedregoso, ao lado do penedo, e que acompanha, em poucos metros a margem esquerda. Aqui fica a foto, com menos visibilidade desta margem, em virtude das árvores que lhe estão próximas.

17.- Via romana de Murça.jpg

Saídos da ponte sobre o Tinhela, na Via Romana, e confessemos, com um pouco de esforço, dado o calor que fazia, encetámos a íngreme subida até à vila de Murça. Antes de chegarmos ao casario que ladeia o cimo da Via, à entrada para a vila, cortámos à esquerda e seguimos, por um caminho empedrado (de paralelos) até à estrada das «Curvas de Murça». No alto da estrada, junto de uma fonte, protegida por dois grossos e vetustos eucaliptos, observámos duas pontes: a antiga, da Via Romana, à nossa direita;

18.- Via romana de Murça.jpg

a nova, da que faz a ligação à A4, à nossa esquerda.

19.- Via romana de Murça.jpg

Quando chegámos ao Auditório Municipal de Murça, Marichu Jesús Calvo de Mora González ainda estava a fazer a sua apresentação.

2015 - Murça (Via Romana)+Vistas Douro S.ta Marin

Assistimos ao debate do Painel e, naturalmente, à Conferência do amigo Padre Lourenço Fontes.

 

À noite houve fados, a cuidado do grupo «Os Transmontanos», espetáculo aberto à comunidade e a outras vozes da plateia.

 

A colega Susana brilhou. E ficámos com a certeza, se, nos tempos difíceis por que correm os profissionais da Animação Sociocultural, não tiver grande futuro, sempre a sua voz fadista lhe dará uma «mãozinha». Mas, pelo que vimos - e ouvimos - na plateia havia mais.

 

Somos o país do fado e, infelizmente, de muitos outros «fados»!...

 

A nossa participação neste Congresso limitou-se a coordenar um Painel. Tivemos pena em não permanecermos até ao dia do seu encerramento, domingo. Afazeres inadiáveis impediram a nossa permanência nele e na linda vila duriense de Murça, de Trás-os-Montes!


publicado por andanhos às 17:30
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