Quarta-feira, 6 de Novembro de 2013

Gallaecia - Pelos Caminhos de Santiago na Galiza:- Caminho do Norte - 1ª etapa



 

 

CAMINHO  DO  NORTE  DE  SANTIAGO  NA  GALIZA

 

15 de Dezembro de 2007:- Viagem de Chaves até Ribadeo (Galiza)

 

Saímos de Chaves em direcção a Vigo.

 

Em Vigo tomámos autocarro para Coruña e, daqui, para Ribadeo.

 

Era já noite quando chegámos ao albergue, situado mesmo junto da ria de Ribadeo, onde o rio Eo desagua.

 

 

 

O trio de sempre – eu, Fábio e seu filho Mito(k) – estavam bem dispostos, apesar do frio. Era tempo de sol radiante durante o dia. Só que, logo que se metia, era um frio de tiritar. De pronto se formava um manto espesso de geada. Uma por cima de outra em certos locais.

 


Ainda tivemos que esperar à porta do albergue até que o albergueiro aparecesse. Perto de uma hora. Nesta altura passam por aqui poucos peregrinos. Só três “loucos” flavienses em que se metem numa aventura destas nesta altura!

 

Depois de alguns telefonemas, lá conseguimos localizar o albergueiro para nos vir dar a chave do albergue.

 

Na ria de Eo, a Ponte do Santo.

 


E lá apareceu, finalmente! Era simpático. E, conversa puxa conversa, constatámos que, afinal de contas, ainda tinha uma “costelita” de portuga.

 

Deitámo-nos bem agasalhados e, de manhã cedo, por volta das seis, lá começámos a nossa jornada do primeiro dia. Estava uma geada daquelas!...

 

Duas palavras, entretanto, sobre este Caminho que, na Galiza, se inicia Ribadeo.

 

O Caminho do Norte de Santiago, também antigamente chamado de “Rota Cantábrica”, entra na Península Ibérica por Hendaya.

 

Há quem diga que este é o Caminho mais antigo em virtude de se situar mais a norte, ao abrigo, e evitando, assim, que os peregrinos, nos primórdios, se encontrassem com os mouros que, na altura, dominavam a Península Ibérica, e se encontravam mais a sul, no tempo da chamada Reconquista.

 

Contudo, não é a este que chamam o Caminho Primitivo, mas sim a um outro que transcorre um pouco mais a sul.

 

Este Caminho é, sem dúvida, uma das mais interessantes rotas que convergem a Santiago de Compostela. É rico em monumentos medievais, com florestas magníficas e muitas paisagens verdejantes, que encantam e deliciam o caminhante que o percorre.

 

Apesar de não oferecer tanta densidade cultural e religiosa como o Caminho Francês, mesmo assim, e apenas falando dos lugares por onde passámos, aquele ambiente está presente nas seguintes localidades:

 

  • na Igreja de Vila Nova de Lourenzá, que serviu como modelo para a construção da fachada da catedral de Santiago de Compostela, nomeadamente a frente que dá para a Praça do Obradoiro;
  • no centro histórico de Mondoñedo, que foi uma das sete capitais administrativas da Galiza, com a sua magnífica catedral de estilo românico do século XIII e
  • no imponente Mosteiro Cisterciense de Sobrado dos Monxes, com a igreja de estilo barroco.

 

O Caminho do Norte de Santiago reflecte, em muitos dos seus troços, a autenticidade e os traços da sua primitividade, ao contrário do Francês, já bastante saturado e “banalizado”, excessivamente percorrido (massificado) por toda a índole de caminhantes e peregrinos.

 

É, assim, um Caminho fresco num duplo sentido: face à sua pouca frequência por peregrinos e pela frescura mesma do seu clima. Com paisagens exuberantes que nos extasiam e o tornam inesquecível.

 

A Ribadeo, antigamente, chegavam peregrinos em barca, desde Figueiras, Castropol e outros portos fluviais e, daqui, partiam diversos caminhos em direcção à cidade de Mondoñedo.

 

Mais recentemente, a Junta da Galiza, como forma de evitar confusões, traçou um único roteiro. Infelizmente, este novo traçado, contempla muitos troços novos, desprezando uma boa parte dos traçados históricos, que hoje estão completamente destruídos e/ou cobertos pelo asfalto.

 

A exemplo do que fizemos já no Caminho de Santiago (Sanabrês) da Via da Prata, não é nossa intenção aqui descrever cada etapa, troço a troço. Já há muitos peregrinos que o fazem, pelo que, uma simples pesquisa na internet, poderá satisfazer este seu interesse.

 

A nós apenas nos preocupou aqui destacar um ou outro pormenor da paisagem ou uma ou outra peripécia passada ao longo de cada etapa.

 

Assim:

 

16 de Dezembro de 2007:- 1ª etapa Ribadeo-Vila Nova de Lourenzá ( 29 Km)


 


 

Versos de Rábade Paredes a Del Riego

 

Voz in Lontano

 

En Lourenzá, no val de Vilanova,

un vento azul de brétema e salitre

chegou un día xermolando soños

nun meniño espilido...

É loiro aínda e case centenario.

 

Viña coa terra escrita nos lumes da mirada

As saudades acesas

foron de plenitude nos tempos de Vallibria,

nos outeiros eternos do meigo de Miranda,

nas chairas verdegadas da frauta de Aquilino

e sobre o mapamundi do señor de Trasalba.

 

En Compostela medraron moito os días

e houbo unha sazón leda de gaitas e

                                           [alboradas.

 

(Nin as sombras talares,

ou trepidar sinistro de botas e tricornios,

rabenaron as alas, o bico do cantor,

que aprendera  a voar a leguas de ave)

 

Coro de voz timbrada, universal e nova,

veu falar nel a música, as escumas

do Cántabro salobre,

e o ritmo sorprendido das paisaxes inéditas,

e a cerva misteriosa da manciña de prata,

e a abidueira posta cabo dun poldro branco,

e o merlo, a pomba, o xílgaro,

e a longuísima estirpe dos avós que nos

                                                [fundan

no vello campesiño neolítico.

 

E calquera outro día,

debuxou no horizonte a primavera,

para que naza e permaneza o outono

ata as rosas que veñen,

e que a voz in lontano dos outeiros eternos

nos devolva a canción de cada día.

 

Xesús Rábade Paredes

 

LUME ACESO-Francisco Fernández del Riego. Xosé López González

e Manuel Román Ramos.Edit. Xunta de Galicia e Concello de Lourenzá, 2011


 


1.- TRAÇADO DO PERCURSO

 


2.- PERFIL DO PERCURSO




3.- EM RIBADEO O CAMINHO DO NORTE DE SANTIAGO DEIXA DE SER O  CAMINHO DA COSTA


Nesta localidade o Caminho deixa definitivamente o mar penetrando no mais profundo das terras lucenses, ou seja, entramos na Galiza. Uma Galiza mais desconhecida e peculiar.

 

É um território intensamente povoado, com prados, bosques, paróquias e aldeias, onde não se sabe onde acaba uma e começa outra.



O silêncio e a solidão dão ensejo a que o caminhante/peregrino se vire mais para o interior de si mesmo, em profunda reflexão - sobre a vida, as gentes, as diferentes terras e a paisagem.

 

Pese embora o ter de se ultrapassar quatro colinas, contudo, a etapa não ofereceu demasiada dificuldade.

 

Apesar do frio e da enorme geada que estava à nossa chegada a Vila Nova de Lourenzá, fomos, contudo surpreendidos com um casal de peregrinos, fazendo de Jesus e Maria, dando a volta à vila.

 

No intuito de lhes ir no encalce, acabámos por fazer uma visita ao seu mosteiro, obra do conde Osório Gutiérez, o Conde Santo, homem de armas que um dia deixou a espada pelo crucifixo.

 


4.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA (DESTAQUES)

 

4.1.- De Ribadeo a Vilela

 

Como dissemos, saímos bem cedinho do albergue, que fica numa das pontas da cidade. Estava bastante frio e muita geada.

 

Atravessámos, desta feita, toda a cidade de Ribadeo, bem como o seu perímetro urbano.

 

À saída da cidade um marco (ou “mojón”, como para ali se diz), em granito, indicava a distância que teríamos de percorrer até Santiago de Compostela.

 

Sete quilómetros percorridos, e já em Vilela, um outro marco nos indicava 188, 247 metros até Santiago.

 


4.2.- De Vilela a Ponte de Arante

 

Passámos por Celeiros, Vilar, San Vicente e em A Ponte de Arante.

 

A manhã estava gelada como dissemos já, conforme se pode ver nos pastos cobertos de geada.



O Caminho ora subia ora descia, qual carrossel.

 

Aqui e ali os caraterísticos espigueiros lucenses.

  

(Espigueiros caraterísticos da província de Lugo)

 


A meio da manhã o sol começa a brilhar e a paisagem apresenta-se-nos verdejante.


 

4.3.- De Ponte de Arante a Villamartín

 

Entrámos nos aprazíveis pastos e paisagens verdejantes do concello de Barreiros pelas aldeias de Villamartin Pequeno e Villamartin Grande.

 

(Terras de pastagens Cenário 1)

 

(Terras de pastagens Cenário 2)

 

(O touro de «de serviço»)


4.4.- Gondán

 

Em Gondán, no alto de uma elevação, fica um modesto e acolhedor albergue, aberto todo o ano. Aqui fizemos uma pequena paragem.

(O «Rejuxio» de Gondán)

 

(O «Refuxio» de Bondán - um pormenor do seu interior)


4.5.- San Xusto

 

Voltámos a descer, passando por San Xusto e pelo bar “A Curva”, onde fizemos uma outra paragem, agora para nos municiarmos de alguma comida para o “papo”.


(Bar «A Curva)

 


Depois do Bar «A Curva», a Igreja de San Xurxo de Cabarcos.

 


Voltámos outra vez a subir e, desta feita, a paisagem começa a mudar para um outro tom verde, dos eucaliptos, com o seu intenso verde e forte odor emanado das folhas desta mirtácea.

 

Depois de uma jornada de razoável amplitude, de sobe e desce, percorrida com bastante piso de asfalto, com excepção dos trechos entre a A Ponte de Arante e Villamartin Pequeno bem como San Xusto, no final de uma grande recta, e assim que o bosque terminou, entrámos na zona urbana de Vila Nova de Lourenzá, nossa meta deste dia, percorridos que foram 29 quilómetros.

 


4.6.- Vila Nova de Lourenzá

 

A geada ainda não tinha abandonado aquelas paragens, a meio da tarde.

 

Tivemos pena não ter fotografado ou filmado aquele casal de peregrinos que, montados no burro, e fazendo de Maria e São José, percorreram aquela cidade, para espanto não só dos restantes peregrinos como dos locais.

 

Fica aqui apenas o pobre burro, que ficou do lado de fora do albergue toda a noite, coberto de geada no cerro.



Ao entrarmos no albergue, um conjunto de peregrinos estrangeiros, estava confraternizando, comendo e bebendo e… fumando «erva».

 

Convidaram-nos para entrarmos na sua camarata, partilhando do seu “banquete”. Declinámos, agradecendo, e fomos tomar banho e descansar.

 


Lourenzá ostenta uma forte tradição peregrina. Por isso, é paragem obrigatória de peregrinos e turistas.

 

O que tem de mais interessante para visitar é a Igreja e o Mosteiro Beneditino de São Salvador ou de Santa Maria.

 

(Mosteiro e Igreja de São Salvador de Lourenzá)

 

(A torre da igreja)


Trata-se de uma grande construção barroca.

 

(Igreja - a fachada barroca)


A sua construção remonta ao ano 969, segundo documento existente que relata ter o Conde Osório Gutierrez feito doação de 30 camas ao Convento, na condição de se reservarem 12 para atender aos pobres. É, assim, uma construção anterior à chegada dos peregrinos.

 

A sua fachada, datada de 1732, aparenta-se muito com a da Catedral de Santiago de Compostela, que fica defronte à Praça do Obradoiro.

 

(Pormenor da fachada da igreja)


É obra de Fernando Casas e Novoa, o mesmo arquitecto que terminou a de Santiago de Compostela.

 

(Um dos aspetos do mosteiro)


No seu interior pode-se ver um riquíssimo altar-mor.

 


Parte da Igreja do Mosteiro abriga um interessante museu de arte sacra.

 

Aqui se mostra uma peça mais peculiar do seu acervo.

 


E, como não podia deixar de ser, o bonito mausoléu, em mármore, do Conde Santo - Osório Gutierrez.

 


Deixo agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta etapa.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].


 

 


(Desenho da Igreja e Mosteiro de Lourenzá - Fonte:- Euroski Consumer)

publicado por andanhos às 18:45
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