Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

Gallaecia - O Douro dos meus encantos:- Fui ao Douro à vindima

 
 

FUI AO DOURO ÀS VINDIMAS

  

14, 15 e 16 de Outubro de 2013

 

 

FUI AO DOURO ÀS VINDIMAS

 

Fui ao Douro as vindimas

 Não achei que vindimar

 Vindimaram-me as costelas

 Foi o que lá fui ganhar

 

Não cortes os cachos verdes

 Da videira cereal

 Não contes os teus segredos

 A quem ti não for leal

 

Nossa Senhora da Veiga

 Ela vai do Douro acima

 Com a cestinha no braço

 Fazer a sua vindima

 

O mundo é uma vindima

 Cada cepa um cristão

 Vem a morte faz vindima

 Não procura geração

 

Não se me dá da vindima

 Nem tão pouco vindimar

 Dá-se-me das tristes noites

 Que eu passei no lagar

 

Fui ao Douro as vindimas

 Não achei que vindimar

 Vindimaram-me as costelas

 Foi o que lá fui ganhar.

 


 

 

(Painel da Estação da CP do Pinhão)
 

 

António Barreto na «Antologia de textos durienses contemporâneos - Palavras que o Douro tece», no seu texto retirado de «Douro», 1995, a páginas tantas diz:

 

O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho (...) chamem-lhe fino ou licoroso, generoso ou de feitoria, de embarque ou de carregação, ou simplesmente, como em todo o mundo, vinho do Porto, será esse o seu bilhete de identidade”.

E, mais à frente, «o que o rio começou, o homem completou: ambos trabalhando em conjunto, fizeram uma região».

 

Mas foram essencialmente as suas gentes que fizeram o vinho...

 

Galgaram montes, quebraram a rocha, fizeram a terra, levantaram muros, selecionaram castas, plantaram videiras. Sofreram o oídio e a filoxera, o míldio e a maromba, recomeçaram tudo várias vezes. Sofreram o paludismo, as sezões, a pneumónica e a tuberculose. E recomeçaram. Mandaram vir cepas americanas, enxertaram variedades rústicas, arranjaram remédios, o sulfato, o enxofre ou o bórax. Trataram das vides melhor do que das próprias vidas. Trataram das videiras como trataram os filhos, as adegas como se fossem as suas casas. Podaram, enxertaram, cavaram, escavaram, redraram e nunca um desses trabalhos foi simples ou fácil. Encosta acima, foi sempre um calvário. Vindimaram a cantar, para esquecer o cansaço e o calor dos quarenta graus. Levaram as uvas às costas, em cestos de quatro ou cinco arrobas, em sítios aonde não vão carros de bois, onde se desce para o precipício e se sobe para o inferno. À noite, pisaram uvas, cortaram lagaradas, horas a fio, num dos mais violentos trabalhos de toda a agricultura, que os álbuns de turismo ou os citadinos filhos de proprietários acham tão pitoresco, mas que só se aguenta porque é preciso viver, porque uma posta de bacalhau cru e um caneco de aguardente aquecem o corpo e porque as mulheres, em frente aos lagares, aquecem as almas. Transportaram tudo à cabeça e às costas, almudes de água-pé, canecos de água, vasilhas de aguardente; pedras e terra; esteios de ardósia, rolos de arame; cepas, cestos de uvas. Carregaram carros de bois, desceram os montes, entraram no rio, carregaram barcos rabelos, desceram o rio, conduziram o barco, descarregaram o barco, carregaram os vapores, voltaram ao rio, subiram o rio, levaram o rabelo à sirga, à corda, rio acima, no que deveriam ser as galeras do Douro. Foi este o homem do Douro. Foram os que morreram debaixo de rochas e de rodas, afogados no rio, abafados em tonéis, a tremer de febres e de paludismo, foram eles que acabaram o que a Natureza apenas tinha começado.

E fez-se vinho, o vinho fez os homens e os homens fizeram o Douro”.

 

O excerto do texto que acabámos de citar não é pura retórica: é pura, e simplesmente, a realidade!

 

Realidade que, enquanto menino e moço infante me esteve tão perto, me tocou, porque, todos os dias a presenciava.

 

É certo que não senti as agruras da vida de quem mourejava na terra. Em certo sentido, fui um privilegiado. Mas via-lhes, estampado no rosto, a luta diária, o sofrimento. E, com eles e elas, também sofria, de certo modo, numa espécie de solidariedade de almas. Porque feitos do mesmo barro. Nascidos na palha da mesma enxerga.

 

Na verdade o tempo era marcado pelo ritmo do ciclo da vinha.

 

Há mais de cinquenta anos que não descia ao Douro por alturas da vindima. Este ano, sabe-se lá porque impulso, fui «medir», sentir o ritmo daquela «safra». Certificar-me daquela mística que guardo no mais recôndito da minha memória de menino quando, com nove anos, fui arrancado, obrigado a sair daquele terrunho.

 

E, no contacto com a realidade da vindima de hoje, sou obrigado a dar razão a A. Barreto: «o relógio das adegas e das vinhas deixou de governar os dias do Douro. O calendário das vindimas já não dita a sua lei. Os trabalhos da vinha e do vinho já não são obsessivamente os únicos que interessam e preocupam os Durienses (...) Mas o reino do vinho, embora menos despótico, ainda existe”.

 

Lado a lado com o meu cunhado, durante estes três dias de vindima em Santa Isabel, fui procurar sentir a realidade mais autêntica, palpável, vertida nas palavras de Torga quando afirma que o «Douro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos». Mas, obviamente, tão distinta e diferente daquela que, quando infante, a vivi e presenciei. Na verdade, o Douro mudou. E muito!

 

Aqui vos deixo pedaços, mais de uma observação que de uma vivência, muito diferente e distante da realidade de antanho. A anos luz do tempo em que a vindima no Douro era mesmo a «vindima». E em que as batatas cozidas com bacalhau, regadas com azeite e vinagre, servidas no meio ou no fim de um bardo de videiras, e amassadas com um garfo feito de uma vide, na tijela, muita vezes encardida, sabia ao melhor manjar dos príncipes!...

 

Os vinhedos aqui estão.

 

 
 São a realidade mais visível e palpável desta terra.

 

 

Cercando-nos por todos os pontos cardeais, onde apenas admitem núcleos de casario para deles cuidar.

 

 
 A uva, hoje com castas mais apuradas, também aí estão.

 

 
 

Prenhes de sumo que se há-de transformar em licor fino, generoso, saído de um solo agreste e de um clima tantas vezes tórrido, no verão.

 

 
 A roga, pequena, invade os balados,

 

(A «roga»)
 
 pegando nas tesouras, cortando a eito os cachos

 

 (Cortando uvas - cena 1)

 

(Cortando uvas - cena 2) 
 
(Cortando uvas - cena 3)
 

que serão transportados aos ombros, já não em cestos vindimos, encosta acima para o lagar, mas para os contentores, assentes em camionetas que percorrem monte acima e abaixo os vinhedos, mercê da maquinaria moderna, que esventrando o monte, lhe rompeu novos, amplos e modernos caminhos, e que os hão-de levar para as novas adegas, usando a nova tecnologia de ponto na fabricação do precioso néctar com o conhecimento e perícia de uma nova classe - o enólogo.

 
(O Rogério - esperando...)
 
(Emília ajudando Rogério) 
 
 
(Rogério levando as uvas para o contentor)
 

Adeus à «pousa», adeus às «lagaradas». As que por aí se fazem e vêm não passam de simulacros. Para inglês, turista ver!

 

A gente é a mesma. Pelo menos provém da pura «cepa» de gerações de assalariados durienses. Ora com rostos alegres,

  

(A tia Maria Lurdes)
 
(A tia Lúcia)
 
(A tia Palmira) 
 
 
(A Emília)
 
 ora tristes, conforme o feitio e o jeito como a vida se lhes corre.
 
 
(A tia Deolinda)
 
 Há ainda caras jovens, alegres e trigueiras. Que são capazes de soltar um sorriso para a camara que lhe apontamos. A mesma «cepa» produzindo o que há de mais belo e bonito na casta de homens e mulheres durienses.
 
 
(A Emília e o Rui)
 

Mas, no bater de um clique «atrevido» da câmara fotográfica, aqueles belos rostos, amorenados por dias à torreira do sol, não escondem, no seu olhar, as preocupações do seu dia-a-dia.

 
 
 

Mas, para mim, hoje à vindima do Douro falta-lhe já aquele ritual que lhe emprestava a mística com que a vivíamos, ano a ano, dando um significado muito especial na vida de todos quantos se empenhavam nesta «safra».

 

É certo que no meio daquela gente, decididamente, eu já não era um deles. Manifestamente, viam-me como um estranho. Mas, apesar disso, há coisas que a gente sente. Que, ao longo deste longo caminho, se perderam...

 

Subindo os socalcos, vim ter a um pequeno souto, onde os ouriços, abrindo o «ventre», me ofereceram meia dúzia de castanhas, que vim a «rilhá-las» até casa, «ruminando» sobre todas estas coisas.

 
 
 
 À noite - à noite! - comeram-se as célebres batatas com bacalhau, bem regadas com azeite na tijela, num rito, ou tentativa, de ir ao encontro do espírito do passado.
 
 
 

Apanhar o espírito do passado?! Tarefa já impossível! Tudo se move. Tudo se transforma. Mesmo no Douro!...

 

Nos tempos modernos, o tempo deixou de ser cíclico. Mesmo, aqui no Douro, apesar do ingente apelo da terra!...

 

 
Para se aquilatar um pouco deste «mundo», deixo-vos uma canção que, nesta época, e noutros tempos, andava na boca a boca dos homens e mulheres da vindima. Foi, posteriormente, apropriada pelos respetivos ranchos folclóricos locais. Hoje, arrancada ao cancioneiro regional, os nossos artistas, usando a sua criatividade, partilham, com as novas correntes musicais, um mundo que eles cantam, mas que jamais lhe souberam o sabor amargo ou as alegrias do viver destas gentes!...
 
[Nota:- Para ouvir o clip, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].
 

publicado por andanhos às 19:58
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