Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

Gallaecia - Pelo Alto Tâmega e Barroso:- O «Teacher» e a "Memória do Mosteirinho da Granjinha"

 

O «TEACHER» E A “MEMÓRIA DO MOSTEIRINHO DA GRANJINHA” 

21. Setembro. 2013 

 

 
 

1.- Introdução

 

«Teacher». Era assim que os seus alunos o tratavam quando António Sampaio, ainda padre, dava aulas de Inglês, já nos idos anos 60.

 

Se com o «Teacher» aprendi pouco inglês, sobrou o gosto que me incutiu pela História e pela Arte de Viajar.

 

António Sampaio era um autêntico mestre, na verdadeira aceção da palavra. A sua área disciplinar estava, contudo, na minha modesta opinião, deslocada.

 

No pouco que, com ele, aprendi inglês, repito, sobrou, por via de uma erudição profunda, em primeiro lugar, o conhecimento da história inglesa; em segundo, da história universal; em terceiro, das lições a tirar dela e, por último, o gosto pelo viajar e pela cultura.

 

António Sampaio, o nosso «Teacher» era verdadeiramente um Mestre.

 

Já não faz parte do mundo dos vivos, por via de um estúpido acidente, na sua terra natal - Sanfins do Douro -, terra do Padre Manuel da Nóbrega, o fundador da cidade de São Paulo, no Brasil.

 

Aqui, ao «Teacher», deixo-lhe o meu preito de estima, admiração e amizade, público, por um homem que, como mestre, me ensinou a «crescer».

 

No passado dia 21 de Setembro, fui com a minha Ni à Granjinha, uma pequena povoação de Vale de Anta, revisitar a sua pequena e histórica capelinha.

 

Para meu espanto, enquanto estacionava o carro, na rua estreita da principal artéria da povoação, dou de caras com Dona Nídia. Seu marido, a que todos os utentes da Conservatória do Registo Civil de Chaves, quando estava no ativo, lhe chamavam «o Senhor Cruz», retirou-se, tal como no século IX os frades beneditinos, para o recanto da Granjinha, vivendo paredes-meias com aquele que deveria ter sido um pequenino mosteiro.

 

Dona Nídia, de início, mal me conheceu, mas, tal como quando era funcionária da Conservatória do Registo Civil de Chaves, mostrou que não tinha perdido as qualidades e a simpatia evidenciada quando atendia os utentes. E, mal soube que nosso interesse era conhecer a «capelinha» da sua «terriola», embora estando a preparar-se para se dirigir para Chaves, tudo deixou e esqueceu para nos abrir a porta e servir de «cicerone».

 

Com o decorrer da conversa, prestes me reconheceu, reafirmando por mim e meu irmão aquilo que, em tempos, quer ela quer seu marido, nos prestavam: uma enorme estima, consideração e carinho que, aqui, publicamente, lhes agradeço.

 

O Senhor Cruz, já um pouco debilitado, em função dos seus achaques, ficou no terreiro da sua casa a descansar.

 

Dona Nídia acompanhou-nos.

 

Enquanto tirava fotografias àquele antigo e nobre monumento, Dona Nídia não se cansava de conversar com a minha Ni, explicando-lhe tudo quanto lhe mostrava.

 

Já quase no fim da visita, recusámos amavelmente o seu convite para lancharmos em sua casa, por já se ir fazendo muito tarde. Ofereceu-me um pequeno opúsculo com o seguinte título “Memória do Mosteirinho da Granjinha”.

 

Ao pegar nele, saltou-me à vista o seu autor, reconhecendo, de imediato, que, aquele António Sampaio, era o meu «Teacher».

 

O opúsculo é uma 2ª edição do ano de 2000. A primeira saiu do prelo em 1995.

 

E são pertinentes as palavras nele contidas quando, a determinada altura, diz que tratando-se de um monumento que, na sua opinião, parece datar do século IX, «bem merecia maior atenção, interesse e investigação por parte das gentes da Cultura Local que do monumento nem sequer o fazem constar das rotas do Turismo».

 

Tendo sido responsável pela área da Cultura, na altura da primeira edição daquele opúsculo, aqui fica o meu «mea culpa».

 

2.- Contexto Geográfico e Histórico do Mosteirinho da Granjinha

 

Vamos seguir, citando, nas partes que considero mais pertinentes, o que António Sampaio nos diz quanto a este item:

 

A uns escassos 3 Km de Chaves na estrada de Soutelo, num ramal bem assinalado, fica a Granjinha, lugar da freguesia de Vale d’Anta.

 

Trata-se dum lugar duns 15 fogos muito bem situado, voltado a Nascente e Sul, com um pequeno mas fértil valezinho aos pés.

 

As casas, de cantaria, vestidas de veludo verde do musgo, com varandas e pequenas janelas de madeira donde espreitam umas sardinheiras floridas para a única rua da aldeia, por onde numa convivência pacífica e ecológica se passeiam vizinhos e animais formando tudo um conjunto muito harmonioso.

 

 

Pela sua posição, pertinho da cidade, com uma paisagem linda e donde se divisa um vasto horizonte, aninhada em anfiteatro à volta da sua capelinha, afastada dos encontrões e do «indefinido mais impessoal» da Cidade, presta-se ao recolhimento do silêncio e da contemplação, motivos de sobejo para a escolha deste local pelos monges beneditinos, que durante séculos daqui irradiaram para a Sua Obra “Ora et Labora”.

 

Situada ao lado da Via Romana que de Bracara Augusta se deslocava até Legio e Asturica, a Granjinha era uma das muitas “Vilas Romanas” da região.

 

O espólio abundante de valiosos achados romanos tais como: mosaicos, aras, estatuetas, moedas, cerâmica diversificada e outros, dispersos pelos museus de Belém, local e na capela, são prova evidentes da permanente ocupação romana.

 

Aqui mesmo ao lado, a velha e nobre Aquae Flaviae, orgulhosa da sua Torre Românica da Matriz e do ex-libris da Ponte, os lagares e túmulos antropomórficos de Vale de Anta, as inscrições enigmáticas de Outeiro Machado, os Castros de Curalha, Mairos e Sanfins da Castanheira, o cemitério de S. Caetano (com a sua capelinha onde se adivinham restos do Donatismo e Priscilianismo), o monte de Wamba a marcar a “Divisio Wambae”, são monumentos que nos falam bem da Antiguidade Cultural da Região”.

 

(...) É neste contexto geográfico e histórico e à luz desta cultura que nos surge o “MOSTEIRINHO” da “VILLIOLA” da Granjinha.

 

Na ausência de documentos escritos, apenas um pouco de luz lançada por uma escritura do Livro Antigo do Cabido da Sé de Braga, na ausência total de tradições, apenas uma que outra fugidia sem importância e já recente, só raciocinando sobre este contexto cultural e interrogando aquelas “pedras vivas” se pode tentar construir a sua história.

 

É a investigação possível.

 

Vimos uma vez monges beneditinos franceses a filmar o monumento e à procura de raízes históricas desta capelinha.

Disseram-nos que de momento não conheciam qualquer bibliografia a não ser que lhes tinham falado duma tese dum historiador alemão mas que desconheciam”.

 

(...) A Granjinha continua desconhecida mesmo localmente, ofuscada pelo Orgulho da Ponte e da Matriz.

 

Património duma Cultura com raízes na Alta Idade Média faz parte dum Legado Cultural ao lado dos mais antigos monumentos visigóticos do País: a Real de Montélios, Balsemão, S. Geão, Santo Amaro de Beja, Lourosa e Idanha-a-Velha.

 

Dado que dos monumentos visigóticos apenas nos restam ossaturas duma que outra pedra perdida aproveitadas na reconstrução de outros monumentos enquadrados dentro do românico que só mais muito mais tarde, fins do séc. XIII, chega a Trás-os-Montes, só com muita dificuldade se pode determinar da antiguidade deste tipo.

 

Simples, humilde e esquecida no silêncio desta aldeia mas nem por isso perde nada da sua graça e beleza, do seu interesse e importância”.

 

3.- A Capela

 

Citando, uma vez mais, António Sampaio:

 

A sua estrutura é simples: uma só nave com a riqueza da Fachada.

 

(Fachada Principal - Perspetiva de um ângulo)

 

(Fachada Principal - Perspetiva de outro ângulo)
 
 
(Fachada Principal - Sino)
 

O Arco Principal, autêntica lição de “banda desenhada” a explicar o popular episódio dos capítulos VI e XIV de Daniel: Daniel na Cova dos Leões.

 

 

 

No Arco Principal da Fachada, nove leões em atitude de quietação e humildade perante a figura estilizada de Daniel no centro.

 

(Arco Principal da Fachada - Perspetiva geral)

 

(Arco Principal da Fachada - Pormenor do Arco Superior)
 
(Arco Principal da Fachada - Pormenor dos leões  do Arco Superior)
 
No Arco Inferior e na parte superior o banquete dos sacerdotes de Baal a comer coelhos e outros animais. 

 

Na parte inferior deste Arco as pegadas dos sacerdotes e crianças marcadas na cinza do chão, ardil de que o Profeta se servira para demonstrar a falsidade dos sacerdotes que diziam que era o deus Baal quem comia as oferendas.

 
(Perspetiva nº 1)
 
 
(Perspetiva nº 2)
 

No capitel da esquerda pode ver-se o rosto triste e inconformado dum sacerdote de Baal a ser comido por um braço por um leão raivoso.

 
(Perspetiva geral do capitel)
 
(Pormenor do capitel)
 
Os outros capitéis com motivos geométricos
 
 
e outros vegetais de palmeiras. 
 
 
 

Ao lado, a figura misteriosa e severa de Nabucodonosor (?), Dario (?), Ciro (?), a mandar Daniel primeiro e depois os sacerdotes de Baal para a Cova dos Leões, convencido pelo ardil de Daniel e pela mansidão dos leões da inocência do Profeta que falava a Verdade e era protegido pelo Deus de Daniel - o único verdadeiro.

 
 
 

Figuras simples de arcaísmo muito popular a traduzir a fé simples do Povo; figuras comparadas no seu arcaísmo às do Paleocristão do Museu de Lateranense, à iluminuras do beato de Liébana das Bibliotecas de Amiens, Paris e Brescia.

 

Tão simples que com elas se metia medo às crianças que também se riam e comparavam as orelhas de Nabucodonosor à carranca dos avós.

 

Pedagogia a explicar com clareza ao Povo simples este episódio muito do gosto do Povo quer ouvia e recontava de boca em boca o “formoso milagre” do profeta Habacuc levado pelos cabelos pelos ares com uma cesta nas mãos para levar a comer da Judeia a Daniel na Cova dos Leões em Babilónia”.

 

(...) “No interior pode ver-se uma pia baptismal que pode ser servida para baptismos de imersão em voga nos séculos VIII e IX.

 
 
 
Ainda ao lado pode ver-se uma “PEDRA FORMOSA” por cima duma pia de água benta
 
 
 

e no altar-mor uma outra pedra saliente que bem pode ter pertencido ao primitivo templo visigótico.

 
 
 
Por detrás do altar-mor, uma ara romana de difícil leitura.
 
 
(O altar tendo como pé a ara)
 
 
(A ara)
 

Disseram-me que por baixo da cal, antes da reconstrução, haveria uns frescos que representariam um Cristo em Majestade.

 

A ara estava escondida e entaipada na parede, sendo posta à luz depois da reconstrução.

 

Terá sido capelinha primitiva destruída aquando do Ermamento de Afonso I (753) ou III (878) ou mesmo aquando da invasão de Almançor em 999? Ou será mesmo anterior dada a instabilidade permanente da zona?

 

Perguntas a que se não pode responder por falta de documentação. Teremos de nos contentar com hipóteses. A velha Aquae Flaviae ao lado, só ruinas e desabitada, já muito longe, de há séculos, das glórias de município latino 73 (?) e das suas leis e privilégios. Só a Ponte estaria de pé e viva, pois os cristãos regressados de Lugo tinham optado por um reagrupamento à volta do seu padroeiro, S. Estêvão, na actual freguesia de S. Estêvão”.

 

4.- A Cruz

 

Trata-se de uma singular Cruz «Gaélica»,

 

de uma beleza extraordinária e que, na minha humilde maneira de ver, bem pode ser a assinatura a autenticar a construção da Capela.

É uma Cruz “Gaélica”, celta, ligada à expansão dos monges beneditinos pela Europa.

 

 

 
 

Com efeito S. Columbano, monge irlandês ao estabelecer-se em Luxeil na Borgonha onde morreu em 615, espalhou pela Europa a Ordem Beneditina e implantou nos mosteiros esta Cruz irlandesa.

 

É a estes monges com S. Bento, o Pai da Europa; Lanfranc e S. Beda, S. Patrício, S. Bonifácio que devemos a Europa de hoje.

 

Estes monges espalharam pela Europa o culto de S. Comba, Virgem da Borgonha e que entre nós se encontra tão ligado aos cultos de S. Senhorinha, S. Rosendo e S. Xiraldo”.

 

(...) “ Esta capelinha devia ser destinada a uma pequena comunidade de dois ou três monges de S. Bento que aí se dedicavam a catequizar e a ensinar a cultivar os campos.

 

É possível que aquando do Ermamento de Afonso I (753) e Afonso III (878) com o êxodo dos cristãos de Aquae Flaviae para Lugo continuasse aqui uma pequena comunidade que se recusava a ir para Lugo e que refugiada das ruinas de Aquae Flaviae aqui se mantivesse e com ela alguns monges a manter a tradição do culto de S. Comba e a cultivar o pequeno vale contíguo à capela e dele fizessem uma Granjinha Modelo.

 

Posteriormente, a partir do século XI, já reconstruída na sua estrutura actual, à beira do Caminho de S. Tiago daria apoio aos peregrinos de S. Tiago e seria ponto de peregrinação de S. Comba, factores que seriam um ponto de atracção dos cristãos de S. Estêvão e com a Ponte contribuisse para a reconstrução de Aquae Flaviae”.

 

(...) “No Livro Antigo das Escrituras do Cabido da Sé de Braga diz-se que no reinado de Froila, o rei que restaurou a disciplina de Elvira liberalizada por Witiza, se construíram muitos mosteirinhos na região onde os monges serviam as pequenas povoações que começavam a aparecer. A capelinha da Granjinha seria um desses mosteirinhos.

 

A Granjinha será uma peça fundamental para o estudo dos problemas do Ermamento e Reconquista de Chaves Medieval”.

 

(...) “A Granjinha poderá ser hoje como ontem um lugar de refúgio, do silêncio e do equilíbrio ecológico”.

 

Lugar de refúgio, silêncio e de equilíbrio ecológico, pelo menos, está sendo para os amigos Dona Nídia e seu marido, deixando sua casa em Chaves para, sob a proteção desta Capela, se acolherem.

 

 

 

 

 

5.- O retábulo do altar-mor

 

Ao fundo da capelinha, do lado esquerdo de quem entra, encontra-se um retábulo que, com certeza, estaria no altar-mor.

 

Com um adequado restauro poderia regressar ao seu lugar original, atestando mais um período áureo da arte religiosa barroca neste bonito e histórico monumento.

 
 
(Retábulo)
 
 
(Retábulo - Um pormenor)
 
 

publicado por andanhos às 11:55
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