Terça-feira, 27 de Agosto de 2013

Por terras da Gallaecia - Caminhada ao alto das Estivadas (Galiza)


 

CAMINHADA AO ALTO DAS ESTIVADAS - «O CARROSSEL»

 

13. Agosto. 2013

 

 

Deixem passar quem vai na sua estrada.

Deixem passar

Quem vai cheio de noite e de luar.

Deixem passar e não lhe digam nada.

 

Miguel Torga, Diário I, 5ª edição, Coimbra, 1967, pág. 9

 

 

Eu gosto da paisagem. Mas amo-a duma maneira casta, comovida, sem poder macular a sua intimidade em descrições a vintém por palavra. Chego a uma terra e não resisto: tenho de me meter pelos campos fora, pelas serras, pelos montes, saber das culturas, beber o vinho e provar o pão.

 

Miguel Torga, Diário II, 3ª edição, Coimbra, 1960, pág. 49

 

 

Sou na verdade um geógrafo insaciável […]. Devoro planícies como se engolisse bolachas de água e sal, e atiro-me às serranias como à broa da infância. É fisiológico, isto. Comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele.

 

Miguel Torga, Diário VIII, 2ª edição, Coimbra, 1960, pág. 149

 

(Matin, Nadir Afonso)
 

1.- Mapa do itinerário da caminhada

 

 

2.- Considerações à volta do caminhar

 

Hoje a nossa caminhada por terras de Monterrei e Verín teve uma partida diferente de todas as que temos vindo a fazer nesta área.

 

Chegados a Verín, continuámos pela EN-525 e fomos até Gumarei para, num verdadeiro carrossel, de sobe e desce, atingirmos o alto das Estivadas para, depois, descermos até à veiga de Monterrei e Verín, em Albarellos, e voltarmos a subir até Gumarei, onde deixámos o carro.

 

Fábio e seu filho Mitok começaram, logo no início, cada vez mais, a distanciarem-se de mim. E, neste sobe e desce, pelas cercanias e alto das Estivadas, nos intervalos de um clique de uma ou outra foto que ia tirando, as palavras, acima citadas, do nosso Miguel Torga, não me saiam da cabeça.

 

O que me leva a levantar às 5 e 6 horas da manhã para, embrenhando-me ora nas planuras ora nos cerros e altos dos montes, passar uma manhã inteira «dando ao pé»?

 

Na verdade, humildemente reconheço que, já desde a minha infância as paisagens e a natureza me fascinavam. E sempre gostei de geografia. Talvez na tentativa de compreender o humus no qual nasci e me é dado viver.

 

No caminhar, que mais não representa senão uma simples passagem pela vida, que se desenrola pela(s) terra(s) que, umas, simplesmente atravessamos, e outras, que nos é dado viver, nem sempre o meu pensamento e a minha atitude é coerente. É que ora prefiro o profundo silêncio na passagem pelos caminhos, veredas, planícies, montes ou serras, e estar simplesmente só comigo mesmo, ora necessito do contacto com o outro, num gesto de não essencialmente tentar compreendê-lo, mas sim de me entender a mim melhor.

 

Qual das duas posturas vence?

 

Diria que nenhuma. Mas talvez as palavras de Torga digam tudo: «comer terra é uma prática velha do homem. Antes que ela o mastigue, vai-a mastigando ele». E, destas feita, ficamos «quites»!

 

É que, ao contrário do Mestre Nadir, já há muito, deixei de encontrar o π (o pi) como símbolo da perfeição! Finitude e incompletude é a nossa própria condição humana.

 

Foi cogitando nestas coisas, que é o mesmo que dizer, na vida,

 

 

3.- Resumo sucinto da caminhada

 

que fomos atravessando Gumarei. Uma terriola cujo seu casario,
 

 

(Casa nº 1)

 

(Casa nº 2)
 

nada se distingue do nosso, a não ser a sua igreja com uma arquitetura um pouco fora do comum.

 
 

E, em passo estugado, dirigimo-nos para Lamas.

 

Aqui o mesmo modo de cultivo. As mesmas hortas. O cultivo das mesmas couves.
 
 
A mesma religiosidade.
 
 

E, uma vez mais, a mesma tipologia do casario.

 
 
Dirigindo-nos depois para Santa Baia do Monte o panorama não se altera. Campos de alimento para os animais no inverno a aguardarem a respetiva recolha.
 
 
As velhas cabines de transformação de energia da empresa FENOSA.
 
 

Os mesmos campos de cultivo com as abóboras e «botelhas» para alimento das gentes e de, com sua licença, o porco.

 
 

À nossa passagem, um emigrante galego mete conversa connosco. Palavras banais, comuns e habituais nestas ocasiões de passagem de estranhos. Para darmo-nos conta que a «porca da vida» quer a nós, quer a eles, lá nos foi empurrando para fora dos nossos lares de nascença, à procura de outras paragens que nos dessem outras condições de vida e bem-estar. E regressam, invariavelmente todos os anos, para matar saudades ou a sua «morriña».

 
 

Continuando a botar pés ao caminho, uma macieira, à borda de uma propriedade, deliciou os olhos de Mitok. Parecia mesmo apetitosa! E, vai dai… anda menina cá ter à minha mão! O teu dono não se deve importar. Tem muitas mais na árvore para se deliciar!

 

Na torneira de uma fonte, lavou-a e, com verdadeiro prazer, lá a foi trincando…

 
 

Passando pelo cemitério da terra, e pela sua capelinha, fomos descendo para a povoação de A Caridade.

 
 

No tanque público da terra, coberto, junto a uma nascente de água fresca, fizemos uma pausa para descansar e comer.

 
 

Enquanto Mitok se entretinha a tirar fotos a um ninho de andorinha, no telhado do tanque, fui saber de pão fresco. Pairava no ar um cheiro a pão cozido, sinal de que alguém estaria a cozê-lo ou no forno ou que havia então padaria. E, como nas nossas terras, é tudo muito pertinho, não foi difícil dar com a padaria.

 

E lá vim eu com um cacete do «pan del país», recentemente tirado do forno. Ainda nos queimava nas mãos.

 
 
Não resisti, com a Nikon, que nunca abandono, de tirar uma foto ao Cristo do Cruzeiro da terra.
 
 

E, na Praza do Sagrado, contemplar a sua bonita igreja com um campanário tipicamente de arquitetura galega.

 
 

Ao longo da nossa «marcha», crianças e jovens nem vê-los!

 

Em Salgueira, encontrámos alguns «maiores».  

 
 
Cuidando das suas courelas. Para seu sustento. E dos seus animais. E, quem sabe!, porventura, tal como cá, para ofertar aos seus filhos e parentes que, longe, nas cidades, periodicamente aparecem na terra levando as primícias, tratadas, com tanto carinho e suor, pelos seus «velhotes».É esta gente, tisnada pelo sol,
 
 

e com rostos enrugados pela vida, que ali fomos encontrar, trabalhando nos campos, cuidando das suas hortinhas.

 
 

A partir de A Salgueira, foi um constante sobe-sobe até ao alto das Estivadas.

 
 
À nossa direita o imponente Larouco,
 
 

outrora palco de devoção de míticos deuses e hoje coutada de tantos outros – os do Progresso. Com as suas hélices gigantescas, metendo tanto medo à sua passagem como aos de antanho.

 
 

E, num desce-desce abrupto, uma cena imprevista. Fábio deu conta de umas «ervinhas» viçosas. E, pensando nas crias lá de casa, não resistiu em se debruçar para as apanhar. Dizia que eram para os seus coelhinhos. Confrangedora atitude! Caminhante inveterado, que mais parece cavalgar, não deixou de pensar na sua outra «cria». O inesperado do gesto deixou-me de boca aberta! Mas, como digo, é esta a verdadeira condição humana.

 
 
Na descida para Albarellos, eis a panorâmica que se observa,
 
 
sempre com a veiga de Monterrei e Verín a nossos pés
 
 

e o Castelo/Fortaleza, inicialmente mandado construir pelo nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, de atalaia.

 
 
Em Albarellos, entrámos na N-525
 
 
e, até Guimarei, foi uma subida constante, sob um sol abrasador. Aqui e ali uma paisagem da veiga ia-nos destraindo.
 
 

Mas foi um autêntico suplício para chegar ao topo da aldeia, onde deixámos estacionado o carro.

 
 

Chegados ao lugar onde o carro estava estacionado, perto de um fontanário, refrescámo-nos um pouco e dirigimo-nos para Chaves.

 

Apesar do sol abrasador no final, a caminhada de hoje, que tão depressa nos punha no teto do céu como nas profundezas do vale, num verdadeiro carrossel, foi ensejo para muitas contemplações e reflexão. Em diálogo íntimo connosco mesmos e com os nossos maiores. Principalmente daquele que mais, e melhor, reflete a alma do verdadeiro transmontano (e alto duriense). Que é o mesmo que dizer o «espírito galaico».

 

Deixo agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta caminhada.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].


 

 


publicado por andanhos às 10:39
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