Quinta-feira, 28 de Setembro de 2017

Por terras da Ibéria - Trihos 6 e 5, de montanha, no Parque Natural do Lago de Sanábria e Arredores

 

POR TERRAS DA IBÉRIA


 
PARQUE NATURAL DO LAGO DE SANÁBRIA E ARREDORES

 
- CAMINHADA NOS PERCURSOS DE MONTANHA nº 6 e 5 -

(Sotillo de Sanabria-Cascata e Lagoa de Sotillo-Sotillo de Sanabria)
 

 

Uma paisagem nunca vista é uma grande felicidade,  

e em cada volta há sempre algo novo. 

Bastam duas ou três horas de caminhada 

para me encontrar em regiões desconhecidas que nunca esperaria ver (…)

Ao passo que todos os homens 

sentem uma atração por algo que os impele para a sociedade, 

poucos se sentem atraídos pela Natureza. 

Na sua relação com a Natureza, 

os homens parecem-me geralmente, 

não obstante as suas artes, de condição inferior aos animais. 

Não é geralmente uma relação bonita, como é a dos animais. 

Quão pouca consideração temos pela beleza da paisagem!
 
Henry David Thoreau, Caminhada 
 

00.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (146)

Na presente fase, nosso estado de espírito vai ao encontro do pensamento de Henry David Thoreau na sua obra Caminhada.

 

Na verdade, ao caminharmos, em plena Natureza, pouco explorada, diríamos pouco devassada, em que a mão do Homem a não tolheu, sentimo-nos num outro Mundo, usufruindo de um total espírito de liberdade, num meio em que o silêncio impera ou, então, os sons próprios da mãe Natureza, convidando-nos ao deleite dos seus seres livres e à meditação sobre a nossa condição humana.
 
Enfim, sentimo-nos em comunhão plena com a Natureza, usufruindo da pura beleza das suas paisagens em que a mão do Homem é muito ténue.
 
Não sabemos que o boom a que se está a assistir em fazer caminhadas tem a ver com o espírito a que nos referimos. Porventura não passará de uma moda, como muitas, que a sociedade em que vivemos tenta explorar, nomeadamente para fins económico-turísticos, tornando-nos verdadeiros comedores e não apreciadores de paisagens.
 
No Mundo em que vivemos, há lugar e liberdade para tudo. Pela nossa parte, privilegiamos a contemplação pura da Natureza, de preferência no seu estilo natural ou selvagem, embora saibamos que a mão do Homem está e se faz sentir por toda a parte.
 
E quão certeiras, embora tão distantes, as palavras de Thoreau quando, mais de dois séculos antes, escrevia os pensamentos com que iniciamos este post!...
 
Porventura algum leitor mais atento, ou crítico, perguntar-nos-á porque, nas nossas últimas caminhadas, nos temos virado, e privilegiado, as que decorrem nos trilhos e percursos do Parque Natural do Lago da Sanábria e Arredores, na Galiza e Castela e Leão, quando, em Portugal, temos trilhos ou percursos que, em nada, ficam a dever a estes.
 
Responderemos que não é só a proximidade, mas também o partilhar e percorrer o território, que não tem fronteiras, juntamente com o nosso irmão que mora ao nosso lado, que nos incita a, como português, sairmos da norma e nos misturar com o diferente que, no final de contas, é o mesmo ou igual.
 
Mas não são apenas aqueles dois fatores, ou aspetos, que nos motivam a dar um salto de fronteira e percorrer caminhos e veredas de um território que, no fundo, em pouco ou quase nada, se distingue do nosso. Estamos na mesma Península. A continuidade do território e de paisagens é uma realidade indesmentível, em que as culturas, criadas pela História, embora apresentem diferenças, todavia, as pessoas que as suportam são portadoras dos mesmos sentimentos e estados de alma que as liga à mesma terra comum – a Ibéria.
 
Mas, ainda mais do que tudo que vimos dizendo, caminhar pelos trilhos e veredas do Parque Natural do Lago de Sanábria e Arredores desperta-nos a curiosidade para, no silêncio do nosso caminhar, observando a natureza destas paisagens e deste território, refletirmos sobre o ninho onde nascemos, como se formou e evoluiu, fornecendo-nos matéria para nos ajudar a ter mais consciência e respeito por um Planeta que, a toda a hora e momento, é sujeito a "tratos de polé" por um dos seus habitantes, pondo em perigo a sobrevivência de todas as espécies que nele coabitam.
 
Bem bastam as próprias convulsões internas a que a Terra é sujeita pela sua própria natureza! E, como tal circunstância, já não fosse suficiente, o que se intitula Rei de tudo isto, tudo faz, infelizmente, para provocar e acelerar o monstro adormecido nas suas entranhas!
 
Por tudo quanto acabámos de referir, não resistimos ao apelo, uma vez mais, do amigo Pablo para nos embrenhar num dos territórios peninsulares mais profundos e genuínos – o Parque Natural do Lago de Sanábria e Arredores.

 

Os trilhos escolhidos para caminharmos foram os «senderos» nº 6 e nº 5, de montanha,– Cascata e Lagoa de Sotillo de Sanabria.
 
É voz unânime, de todos aqueles que fizeram estes trilhos, principalmente o da Cascata de Sotillo, tratar-se de um dos mais famosos, mais belo e espetacular do Parque Natural do Lago de Sanabria e Arredores, que se pode efetuar e disfrutar em qualquer altura do ano. 
 
Segundo o autor do blogue «La Garafa», este percurso pode-se realizar em qualquer época do ano, pois cada estação tem um aliciante diferente, como seja, as cores do outono, o gelo e a neve de inverno e a água torrencial na primavera, sendo a estação menos recomendável o verão, não só por via do calor, como também pela massificação do percurso da cascata, principalmente em alguns dias festivos.
 
Apresentamos aos leitores o mapa do Parque

PARQUE NATURAL DEL LAGO DE SANABRIA Y ALREDEDORES

que cobre os territórios municipais do Porto, Galende, Trefacio e Cobreros.

SANABRIA definitivo.qxd

Mostremos, no Google Earth, traçado a vermelho, qual foi o nosso percurso,

03.- Cascada e Laguna de Sotillo - Mapa

bem assim o mesmo percurso no mapa dos competentes serviços do Estado espanhol.

04.- Mapa do Trilhos 6 e 5 de Sotillo de Sannabria

Como se pode verificar, a caminhada inclui dois trilhos: o trilho («sendero») nº 6, que vai até à Cascata de Sotillo e o trilho («sendero») nº 5, que vai desde as proximidades da Cascata de Sotillo até à Lagoa de Sotillo.

 
Depois de irmos até à Lagoa, voltamos pelo mesmo caminho até à Cascata e, na Cascata, seguindo pelas proximidades das margens do rio de las Truchas, voltamos a Sotillo de Sanabria. Ou seja, deixamos a meio o percurso circular do «sendero» nº 6 (Cascata de Sotillo) para, depois, irmos para a Lagoa de Sotillo sendero» nº 5), voltando pelo mesmo caminho até à Cascata, completando depois o percurso circular do «sendero» nº 6 (da Cascata).
 
Foi esta a proposta que Pablo nos apresentou e com a qual concordámos, evitando, assim, na volta, o percurso do «sendero» nº 5 que decorre, a meia encosta, pelo Alto de los Fitos e pela Fraga de Valmalo, lugares completamente desprotegidos do sol, sem sombras, face ao dia de intenso calor como se nos apresentou o dia 13 de setembro passado. O percurso da Cascata e, daqui, até à Lagoa apresenta-se com muitas sombras, com um bosque impressionante e espetacular, como teremos oportunidade de referir. 
 
Não seguimos, por isso, o percurso feito pelo autor do blogue «La Garafa», mais próprio para um tempo menos solarengo.
 
Estacionámos o carro, vindos da Puente de Sanabria, num pequeno recinto nas proximidades da igreja paroquial de Sotillo de Sanabria, que tem como padroeiro, ou orago, São Lourenço.

05.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (2)

Esta caminhada teve dois representantes de duas gerações: os “velhotes”, Pablo e António; os jovens/adolescentes, Xosé e Hugo.

 
Do recinto da igreja, atravessando a pequena aldeia, a pé, 

06.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (13)

dirigimo-nos até à Área Recreativa do ribeiro (arroyo) de las Truchas, local onde oficialmente começa o «sendero» nº 6 – Cascata de Sotillo.

07.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (21)

Há quem diga, principalmente os amantes da fauna e da flora, que fazer este percurso na primavera, quando a Natureza começa a despertar da letargia do inverno, é um regalo para todos os sentidos, de um modo especial para a vista, com todos os tons e cores, predominantemente verdes, e para os ouvidos, pelo cachoar das águas e a sinfonia das aves. Que nos incita a melhor observar e conhecer a Natureza.

 

A partir da Área Recreativa do ribeiro/rio (arroyo) de las Truchas, virando à direita, começámos a subir por um caminho pedregoso

08.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (32)

que, na estação do inverno, e no princípio da primavera, deve consistir num verdadeiro regato de água, que vai desaguar ao Truchas.

 

Conforme vamos subindo, assim vamos ficando rodeados por um autêntico bosque, onde imperam os jovens carvalhos pirenaica ou carvalhos galaico-portugueses, também conhecidos por carvalhos negrais (Quercus pyrenaicae), que vieram substituir os vetustos carvalhos, não atingindo, a maioria deles, mais de 30 ou 40 anos. 

09.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (63)

Pablo – um homem amante e habituado a conviver com a floresta -, ao passar por esta zona, sentia-se um verdadeiro Príncipe da Natureza.

10.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (65)

Nas zonas mais ensoleiradas, predominam as giestas pioneiras (ou piornos), a que lhe chamam também retama, utilizadas para fazer vassouras.

 

A determinada altura, o nosso caminho desaparece, transformando-se em vereda, mas o percurso está muito bem sinalizado, com pequenos postes de sinalização castanha, cravados em fragas ou penedos.

 
A gente do blogue «Isla Muir», de 28 de junho de 2010, diz-nos que o percurso que nos leva à Cascata de Sotillo faz-se, ao fim e ao cabo, por entre um típico bosque caducifólio - um carvalhal. A “definição fitossociológica deste carvalhal pirenaico, supramediterrâneo, ourensano-sanabrês, seria, muito possivelmente, a denominada «Holco molis – Quercetum pyrenaicae»”.
 
Mas não é apenas o carvalho pirenaico ou carvalho negral que atapeta este lugar. Aqui e ali aparecem as avelaneiras (Corylus avellana), com as suas características folhas, um ou outro castanheiro (Castanea sativa), com o seu vetusto porte, tramazeiras (Sorbus aucuparia), ou, como lhe chama o amigo Pablo, «serbales de cazadores», azevinhos (Ilex aquifolium), bordos ou plátanos bastardos (Acer pseudoplatanus), o amieiro negro ou sanguinho bastardo (Frangula alnus), o mostajeiro branco (Sorbus aria) e bétulas brancas ou vidoeiro (Betula alba). E, naturalmente, também faias (Fagus).Tudo espécies que convivem muito bem umas com as outras.
 
E o amigo Pablo aproveita para nos informar que neste precioso bosque, na base das árvores, são muito abundantes os cogumelos, de diferentes espécies. Os aficionados desta atividade têm aqui campo para se dedicarem, com regras, à sua cata. Os principiantes têm de ter muito cuidado em colhê-los, pois não é seguro que todos sejam comestíveis.
 
Infelizmente não vimos nenhuma pisada de corço ou de javali. Nem tão pouco vimos um sequer!
 
De Sotillo de Sanabria, partimos de uma cota de 1 049 metros. Até à Cascata tínhamos que suplantar cerca de 400 metros de altura. Por isso, junto a um poste castanho, de sinalização do caminho, há que fazer uma pequena pausa para descansar e beber um pouco de água.

11.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (77)

Após uma ligeira pausa, continuámos a subir,

12.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (95)

chegando ao cimo do nosso percurso, que, descendo, nos levaria até à Cascata de Sotillo

 
Parámos aqui uns minutos para tirarmos uma foto, como sinal recompensador do nosso esforço.

13.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (105)

Mas não nos demos conta, uns metros antes, depois da subida, desta placa de sinalização,

14.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (97)

que nos indicava, caso quisemos ir para a Lagoa de Sotillo - como era o nosso caso -, que teríamos de continuar a subir. 

 

E fomos continuando descendo.
 

O esforço tinha sido significativo e, a meio da descida, em cima de uma fraga,

15.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (116)

antes de chegarmos à Cascata, sentámo-nos um bocadinho para contemplar, do outro lado do rio de las Truchas, e do desfiladeiro que ele crava, a paisagem da Fraga de Valmalo.

 
Bem nos apetecia aqui ficar por largo tempo, sentado nesta fraga, a meditar e pensar em coisas profundas sobre a Natureza e a Vida, rodeado de tanta beleza. Mas havia que continuar… enquanto o murmúrio, o som nítido da queda da água, na Cascata, nos apelava a ir ao seu encontro.
 
Só ali, naquela enorme fraga, onde nos sentámos a descansar, é que Pablo reconhece que, nos tínhamos enganado para ir à Lagoa de Sotillo, pois a mesma ficava mais para cima. E que, em qualquer lugar, muito perto do de onde estávamos, não demos conta do desvio…

 

Decidimos, então, ir ver a Cascata e, depois, voltar a subir para irmos ao encontro da Lagoa de Sotillo

 

Tínhamos percorrido já mais de três quilómetros.
 
Contudo, este engano custou-nos mais de meio quilómetro no nosso percurso.
 
Na volta, sendo assim, apenas passaríamos outra vez por aqui. Mas sem parar.
 
Xosé e Hugo, jovens e afoitos, depressa ultrapassaram o caminho íngreme, cheio de calhaus até à varanda da Cascata. Tivemos sorte que o tempo não estava de chuva e, assim, as possibilidades de resvalarmos não eram muitas. Mas havia que ter muito cuidado, principalmente os “velhotes” para, pisando aquelas pedras tão irregulares e tão a pique, não fazermos nenhuma entorse.
 
Os dois jovens depressa se posicionarem na varanda de madeira

16.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (124)

para observarem a Cascata.

17.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (133)

Demorámo-nos aqui uns minutos a apreciar

18.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (144)

e a fotografar

19.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (158)

a Cascata de Sotillo.

 
Dado que este ano tem corrido muito seco, a Cascata não leva muita água. 

20.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (161)

Segundo dizem, no tempo de chuvas, forma uma linda cortina sobre as rochas.

 
Para além da beleza desta queda de água do ribeiro Pingón, que vem da Lagoa de Sotillo, e que aqui se junta com o rio de las Truchas, projetando-se a mais de 20 metros para a ravina do desfiladeiro do rio de las Truchas

21.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (168)

o mais espetacular desta Cascata é a sua localização – tão afastada está de tudo que, aqui, sentese verdadeiramente que o silêncio é o único que reina, no meio de uma Natureza virgem.

22.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (169)

Foi necessário Pablo arrancar-nos deste lugar. Havia ainda caminho a andar… e continuar a subir até chegarmos ao encontro do glaciar onde se encontra a Lagoa de Sotillo.

 
Antes, porém, não deixámos este lugar sem tirar uma foto aos jovens Xosé e Hugo, de costas para a Fraga de Valmalo.

23.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (166)

Eis Pablo subindo da Cascata e pedalando sobre as rochas…

24.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (173)

Trepando monte acima, ao nível da Cascata, a certa altura, apresenta-se-nos, em primeiro plano, o desfiladeiro de rio de las Truchas e, ao longe, os montes de Leão.

25.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (179)

O sol já ia a pique, apertando a calor. Havia que fazer uma pequena pausa para nos refrescar.

 
Foi aqui, nesta pequena lagoa e queda do riacho Pingón

26.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (215)

que aproveitamos para, à sombra das árvores, descansarmos um pouco, abastecermo-nos de água e contemplarmos este bonito rincão.

27.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (219)

E continuamos a subir progressivamente, deixando para trás um pouco Xosé que, sentado num dos fraguedos, contemplava todo aquele espetacular entorno.

28.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (234)

Chegados a um dos cumes do nosso percurso, olhando à nossa direita, deparamos, ao longe, com os montes de Leão, separado por um grande contrafogo, à direita e, à esquerda, Peña Trevinca e o seu maciço. Como tudo nos parecia tão distante mas simultaneamente tão próximo!

29.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (246)

Começamos agora a dar os primeiros passos no vale glaciar da Lagoa de Sotillo

 

Mas, primeiro, há que atravessar o ribeiro Pingón, que vem da Lagoa.

30.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (272)

É nítida a felicidade de Pablo neste troço do percurso, quando passa por cima da pequena ponte construída com toros de bétula branca!

31.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (269)

 A sensação com que, nesta altura ficámos é que estávamos mesmo no topo do céu, sob o olhar atento da lua em quarto minguante.

32.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (276)

 Em poucos mais de cem metros, eis uma ponta do glaciar em que a Lagoa de Sotillo se inscreve.

33.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (290)

Pablo, embora hesitante, recomenda-nos ir de volta, afirmando que, num ano tão seco como este, a Lagoa estava seca. E dizia-nos que a água que há é apenas esta – a de um pequeno riacho.

34.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (293)

Não totalmente convencido, fomos andando. Mas não víamos nenhum sinal de Lagoa. Apenas uma paisagem fazendo-nos sentir que havíamos chegado ao céu, mas num ambiente sem gota de água que se visse!

35.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (302)

 Com um percurso parco de árvores, ora subindo, ora descendo por entre prados e giestais, a dada altura, encontramos estas placas sinalizadores. 

36.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (308)

Afinal a Lagoa de Sotillo ainda estava mais para diante. E, aqui, para quem quer fazer o trilho da Lagoa de Sotillo, não voltando para trás, vira à direita, por um caminho onde, a poucos metros se encontra um refúgio de montanha, e seguindo, a meia encosta, (e nesta altura debaixo de intenso sol), percorrendo o Alto de los Fitos e a Fraga de Valmalo até chegar a Sotillo de Sanabria (o tal percurso sugerido pelo autor do blogue «La Garafa», acima referido).

 
Daqui, em pouco mais de 300 metros, deparamos com um dique em cimento: era a presa da Lagoa de Sotillo.  

37.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (313)

Estávamos na cota dos 1592 metros de altitude, ou seja, de Sotillo de Sanabria até aqui tivemos de ultrapassar um desnível de aproximadamente 600 metros que, segundo algumas reportagens dizem ser de precisamente 543 metros, o que, de acordo com o nosso app SHealth, não anda muito longe dessas contas, mais metro, menos metro.

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 Ao nos aproximarmos da Lagoa, detetámos um espaço que bem podia ser utilizado para se fazer praia neste dia.

38.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (320)

 Percorremos a Lagoa de uma ponta a outra, tirando-lhe fotos.

 
Aqui fica, pois, uma do lado oposto ao do pequeno dique em cimento.

39.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (314)

 Ali, naquele espaço, onde os pedregulhos em primeiro plano, são mais frequentes,

40.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (333)

vê-se, nas suas margens, uma manada de vacas a pastar. Num lugar onde reina o silêncio e a tranquilidade e onde a presença humana é escassa.

 

Desde Sotillo de Sanabria até aqui não nos cruzamos com vivalma!

 
Tentámos com a nossa objetiva captar a Lagoa na sua totalidade. Não trazíamos lentes para esse efeito. Apenas ficou este registo:

41.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (315)

Hugo, um adolescente de 13 anos, embora o corpanzil que bota não o diga, apesar de estudante de um Colégio Militar espanhol, chegou aqui à Lagoa todo roto, não podendo dar mais uma passada.

 
A todo o custo queria, com Xosé, descer até à Lagoa, ali naquele areal descansar um pouco e refrescar os pés. 
 
Não é que o acesso fosse difícil. O sol é que estava abrasador e o tempo começava a escassear…
 
Despedimo-nos da Lagoa de Sotillo com uma derradeira perspetiva tirada à sua parte central.

42.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (339)

E tomámos o caminho de volta.

 
Hugo, queixando-se cada vez mais dos pés, que não podia aguentar mais, obrigou-nos a uma pequena pausa, junto ao regato por onde há minutos tínhamos passado.
 
Os dois “velhotes”, enquanto os mais jovens refrescavam os pés, deitaram-se no colchão do lameiro ribeirinho, bebendo água e trocando impressões sobre o percurso feito até aqui.

43.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (354)

 E continuámos o nosso percurso de volta, passando, uma vez mais, pela ponte feita de toros de bétula branca sobre o ribeiro Pingón,

44.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (357)

iniciando a descida por meio de uma vereda, embrenhando-nos, outra vez, no bosque, até à Cascata,

45.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (369)

ouvindo, constantemente, o murmúrio das águas do ribeiro que nos acompanhava, correndo por entre fraguedos e penedos, que ia ultrapassando.

 
A dada altura, parámos junto de uma pequenina lagoa, com uma pequena cascata.

46.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (390)

Hugo vinha-se queixando dos pés. Estava positivamente estoirado. Havia que lhe dar um pouco de descanso, apoio e alento para acabar o percurso. Enquanto isso, Xosé, já habituado a estas andanças, mostrando sinais de verdadeira frescura, pega nas nossas garrafas e cantis e, ali mesmo na lagoazinha, enche-as de água para o resto do caminho.

47.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (391)

Até que chegámos ao cruzamento que nos leva à Cascata. Podíamos ir em frente, pelo mesmo caminho por onde viemos. Pablo sugeriu que completássemos o percurso circular do sendero nº 6 da Cascata de Sotillo.

 
E lá tivemos de, com cuidado, voltar a descer até à varanda da Cascata e, depois, descer por aquela encosta norte, pelo desfiladeiro, até ao vale do rio de las Truchas. Uma descida contendo uma terrível pendente, ultrapassando fraguedos e calhaus, nunca se sabendo onde e quando tropeçaríamos ou torceríamos um pé!
 
E não fora as proteções em arame de aço, correndo em postes de madeira colocados firmemente no solo, onde constantemente nos agarrávamos, muito facilmente poderíamos ir bater com os costados no fundo do desfiladeiro. Impróprio para cardíacos e, muito menos, para quem sofre de vertigens!

48.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (395)

 No entanto, o bosque de caducifólias, do outro lado do desfiladeiro, era um verdadeiro deleite para os nossos olhos!

 
Enquanto rolávamos pedras abaixo pelo desfiladeiro de las Truchas, tês jovens caminheiros, que faziam apenas o trilho nº 6 (da Cascata de Sotillo), nesta descida, vão metendo conversa com Pablo.
 
Atravessámos o rio de las Truchas para a outra banda por uma ponte tosca de madeira.

49.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (404)

Xosé, que vinha à nossa frente, aproveita para, esperando por nós, descansar um "ratito" naquilo que supomos ser um pequeno vau de passagem, quando, por aqui, as águas são abundantes. Ou será um banco para descanso dos guerreiros que tiveram o arrojo de encetarem aquela descida?...

50.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (398)

 No vale do rio de las Truchas, aproveitámos para tirar uma fotografia com os três jovens que estavam a fazer o trilho da Cascata de Sotillo

51.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (409)

E, cada um, a seu ritmo, acabou por fazer o resto do percurso por entre carvalhos jovens e vetustos castanheiros.

 

Nós, com o Hugo, ficámos um pouco para trás. O jovem já não podia mais. Insuflámos-lhe um pouco de ânimo, capaz de ir buscar as suas réstias de forças para poder acabar o caminho. Levámos um pouco mais de tempo a chegar. Ora parando aqui um bocadinho, ora animando-o ali, até que já estávamos mesmo perto da povoação.

 

Cruzámo-nos com um residente que, com os seus cães, provavelmente, ia para as suas propriedades.

52.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (419)

 Aqui o jovem Hugo acreditou que estávamos falando verdade. 

 

Até que, ao cimo, vimos o velho castanheiro, à entrada do povo.

53.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (425)

Estávamos no cimo do povo! 

 
Ao lado deste velho castanheiro, do nosso lado esquerdo, estava o início do trilho nº 5 que leva o caminheiro até à Lagoa de Sotillo.
 
Atravessámos o povo todo até ao lugar onde tínhamos aparcado o automóvel.
 
Enquanto percorríamos a aldeia, íamos observando o seu casario típico.

54.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (431)

Chegados ao carro, mudámos a roupa e o calçado e, sentados num pequeno parapeito, ao lado da igreja paroquial, comemos do farnel que levávamos.

 
Hugo pouco comeu. Mudou-se apressadamente e meteu-se no carro, a descansar.
 
Consultado o nosso app SHealth, percorremos a distância de 17 Km e 550 metros, em 5 horas e 32 minutos, de acordo com o traçado que a figura abaixo, do lado direito, mostra.

55.- app SHealth Sotillo de Sanabria

Entrámos no automóvel do Pablo em direção a San Martín de Castañeda para tomarmos um café no El Chiviteiro de Tornaltoloco, de Jesus Fernandez Fernandez, deixando para trás Sotillo de Sanabria, do município de Cobreros, e esta singela capela.

56.- 2017.- Caminhada - Sotillo de Sanábria-Cascata e Laguna de Sotillo-Sotillo (433)

O sítio do bar/café El Chiviteiro de Tornaltoloco tem uma localização interessante. Encontra-se virado para o Lago de Sanábria e muito perto do Convento de San Martín de Castañeda, onde, numa das dependências do Convento, se encontro o Centro de Interpretação do Parque Natural do Lago de Sanábria e Arredores. Jesus Fernandez, o proprietário do café/bar é uma pessoa simpática e conversadora. Apenas pedimos café e uma cerveja. Quando menos esperávamos, apresenta-se-nos com umas tapas deliciosas. Quando fomos a pagar, apenas nos aceitou o dinheiro das bebidas. As tapas, que não tinham sido pedidas, eram oferta da casa.

 
Trocámos contactos uns com os outros, prometendo em breve ali regressar.
 
Fazendo-se tarde, fizemo-nos a caminho de Verín.
 
Positivamente um dia bem passado no contacto com a Natureza mais virgem e com os nossos amigos galegos, que apenas um traçado de fronteira nos divide!
 
Deixamos agora aos nossos leitores dois pequenos vídeos:
 
• O primeiro 

 

– LAS MELLORES RUTAS POR SANABRIA – CASCADA DE SOTILLO II –

realizado em 2014;

 
• O segundo

 


– CASCADA Y LAGUNA DE SOTILLO – 

 realizado em 2011, em pleno outono, no qual não só se pode confirmar o essencial da nossa reportagem bem assim se destaca o aparecimento, neste bosque, dos célebres cogumelos («Setas»).


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Domingo, 24 de Setembro de 2017

Por terras da Ibéria:- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca (Ida e volta) - III Parte

 

 

POR TERRAS DA IBÉRIA


CAMINHADA - DO PORTO DE SANÁBRIA A PEÑA TREVINCA (IDA E VOLTA)


III PARTE


EPÍLOGO

 

 


Há um lugar, lá onde o mundo acaba,
Muito próximo do céu.
Um espelho de sol e solidão onde,
quanto te sentes e olhas dentro de ti,
quando deixas que o silêncio se apodere do mundo,
começas a ouvir uma melodia.
Se a escutares,
entre aquelas paredes e agulhas que parecem sair do mais obscuro pesadelo,
começam-se a desenhar os caminhos,
os trilhos da imaginação estendem-te uma mão que te convida a entrar,
a entrar nesse mundo de magia onde nada,
realmente nada é impossível.


El sentimento de la montaña
Eduardo Martínez de Pisón
Sebastián Álvaro


Quanto maior é a dificuldade,
maior é a glória.


Marco Túlio Cícero

00.- Nómadas - Transumância-2

(Foto de Jose Antonio Pascual)

A partir da nascente do rio Xares, o cume de Peña Trevinca já não se nos apresenta como uma miragem. Ele está mesmo ali ao nosso alcance!

01.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (247)

Bastava um pouco mais de esforço e tínhamo-lo a nossos pés!

02.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (256)

Pablo deixa-se ficar para trás, esperando por nós. E nós cogitávamos, trazendo à lembrança leituras feitas sobre estas paragens.


Aqui, em Peña Trevinca, e no seu cume, confluem 5 serras: Eixe, Mina, Cabreira, Calva e Segundeira, formando um maciço montanhoso que ultrapassa os 2 000 metros (o maciço galaico-leonês). O cume de Peña Trevinca está situado a sudeste da província de Ourense, localizado na comarca de Valdeorras, nos limites municipais de A Veiga e Carballeda.
Este local constitui o limite provincial de Ourense (Galiza) e de Zamora (Castela e Leão).


Segundo o Instituto Geográfico Nacional espanhol, o cume de Peña Trevinca tem a altitude de 2 127 metros, sendo, assim, considerado o pico (na serra do Eixe, outras dizem que na Segundeira) com maior altitude na Galiza e da província de Zamora.

03.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (260)

E recordávamos a leitura de um Boletim da Província de Zamora. Lia-se naquele opúsculo com a designação «Nómadas – Transhumantes de Aliste», de 1 de julho de 2016:
Uma província como a de Zamora, conhecida pelo seu caráter pecuário, e uma das primeiras produtoras nacionais de gado ovino, tem de reconhecer, de uma forma especial, o trabalho de quem tornou possível, ao longo dos séculos, a atividade pastorícia – os pastores” (Tradução livre do autor).


Num texto, na mesma local, Marcos Antón, escrevia:
A origem ancestral da transumância na serra sanabresa tem a sua origem nas tribos celtas que habitavam esta comarca da província de Zamora. Povos que essencialmente se dedicavam à pastorícia fizeram da serra de Sanábria um lugar de passagem e de pasto na rota que unia o noroeste da península, desde a serra do Porto, fronteira natural entre Ourense e Zamora (…) Com a romanização da Península, e o aproveitamento dos caminhos celtibéricos, a periódica e bianual viagem levou à criação de vias pastoris que estão na base, em muitas ocasiões e locais, no estabelecimento das calçadas romanas.
Na era visigótica, o caráter transumante e pastorício continuou a desenvolver-se. Na Idade Média, e mais concretamente no reinado de Afonso X, com o estabelecimento do «Concello da Meseta», os caminhos de pastoreio transumante da ovelha merina de erva branca ficaram finalmente fixados (e legislados).
Os primitivos caminhos de pastorícia sanabreses foram incluídos com o nome de «Caña Real del Oeste», que decorre de norte a sul da Península (…) Um ofício milenar que hoje está votado ao desaparecimento, com a modernização do campo. Contudo, uns poucos pastores continuam a “resgatar”, em cada verão, esta ancestral prática (…)” (Tradução livre do autor).


Fizemos questão de, aqui, e neste fim de reportagem da caminhada, referir o caráter transumante e pastoril destas paragens. Porque, precisamente neste local,

04.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (258)

enquanto fazíamos uma curta paragem antes de atacarmos os últimos metros que nos levariam

05.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (271)

ao mais alto pico do Maciço de Trevinca (Peña Trevinca), Alfonso, um homem alto, possante, de olhos azuis, um verdadeiro e lídimo descendente e representante das tribos celtas de antanho, que por aqui andaram, orgulhoso, fez questão de nos acabar por contar a história de vida de seu pai, enquanto pastor transumante.


Exatamente neste lugar, antes do último folgo para atingir o cume,

06.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (265)

o senhor Martín Granja, seu pai, de Porto de Sanábria, há seis anos, com 80 anos, juntamente com o filho e mais uns amigos do Porto, fizeram o caminho da subida a Trevinca. Alfonso pensava que seu pai, com 80 anos, não aguentaria a caminhada, mas, devagarinho, chegaram aqui.


Naquele dia, conta Alfonso, havia um grande número de caminheiros-gaiteiros, que vinham da Galiza, mais propriamente de Viana do Bolo e do Barco de Valdeorras.


Entabulou-se conversas entre estes intervenientes e o grupo que vinha do Porto de Sanábria.


Seu pai, Martín, contou-lhes coisas da sua vida por aquelas serras quando era pastor. Gerou-se um clima forte de empatia entre os gaiteiros-galegos e o senhor Martín.


De uma forma totalmente casual e espontânea, e inesperada, os gaiteiros começaram a tocar umas canções, dedicando-as ao senhor Martín.


Martín, pai de Alfonso ficou vivamente emocionado. Foi a melhor homenagem que as gentes do povo irmão galego faziam ao último pastor transumante do Porto de Sanábria.


Estão em dívida as entidades oficiais de Zamora (de Castela e Leão) para, devidamente, homenagearem os antigos pastores transumantes destas terras, que estão vivos! Homenagem bem merecida a homens que tanto amaram e amam estas serras, embora nelas tenham tido uma dura vida.


Quisemos saber mais sobre este personagem singular, o senhor Martín Granja, hoje com 86 anos.


Alfonso, seu filho, teve a amabilidade de nos enviar a sua foto recente,

06a.- Martín 05

bem assim uma outra, na sua residência, em a A Veiga,

06b.- Martín 06

tendo, à sua direita, Agustina, sua mulher; de pé, Inês, e sentada, Prudência, boas amigas da família.


Eis o senhor Martín Granja, nascido a 23 de julho de 1931, quando, em 1952, era militar de artilharia, no quartel de Valladolid.

06c.- Martín 01

Deixamos aqui uma foto de Martín com seus amigos, nos anos 50, antes de ir para a tropa, na feira de Zafra. Apesar de não se encontrar em bom estado, é digna de ser publicada, porquanto faz parte da vida deste bravo pastor transumante das serras do Maciço de Peña Trevinca.

06e.- Martíin 02

(Martín Granja, primeiro à direita, seguido de José, o “Capitán” e o Manel, o “Mato”)


E, finalmente, o senhor Martín, em 1950, na feira de Zafra, com um dos seus cães “mastines”.

06d.- Martín 03

E começámos a subir os últimos metros que nos faltava para atingir a “cumbre” de Peña Trevinca.


Enquanto subíamos os últimos e íngremes metros, eis o vale glaciar onde nasce o rio Tera, já na província de Zamora, que, daqui, vai até ao Lago de Sanábria e, depois do Lago, se lance nos braços do Esla, afluente do rio Douro.

07.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (261)

Enquanto, arfando, subíamos, mais um lançar de olhos para descobrir e apreciar este profundo vale glaciar.

08.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (264)

Urko, desafiando Alfonso, trepa, correndo os últimos metros, no intuito de, sendo o nosso guia “oficial”, ser o primeiro a chegar ao cimo.

09.- 017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (276)

A meio da íngreme subida, olhámos para trás e, à nossa frente, o segundo pico mais alto do Maciço – Peña Negra.

10.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (278)

Alfonso - e mais uma vez este personagem tão intrincado e comprometido com a sua terra natal – conta-nos que era daquele pico que, antigamente, os habitantes de Porto (de Sanábria) extraíam as lousas para as diferentes construções na povoação: primeiro, eram os cavalos que arrastavam os enormes blocos de lousa até ao apertado vale encaixado entre Penã Trevinca e Peña Negra; depois, eram os carros de bois que as transportavam, vale abaixo, até à povoação.


Até que, finalmente, chegámos ao cume!

11.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (297)

Agora era tempo de contemplação, quer para o enorme vale do Tera,

12.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (281)

Quer para Peña Negra e o 3º pico maior do Maciço, que lhe fica à direita – Peña Surbia -,

13.- Vista-desde-Peña-Trevinca-1024x500

(Foto cedida por Urko Díaz)


Quer para oeste, deslumbrados das lonjuras das serras da terra Galega.

14.- PISAKAMPAS- TRAVESIA POR TIERRAS SANABRESAS. ASCENSION A PEÑA T-8 (Do blogue)

(Foto do Blog «PISAKAMPAS- TRAVESIA POR TIERRAS SANABRESAS. ASCENSION A PEÑA)

 

Cada um, a seu jeito, ia descansando e refletindo sobre a imensidão dos horizontes em que nossos olhos repousavam,

15.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (283)

Contemplando,

16.- FB_IMG_1504341458276 (Pablo)

(Foto cedida por Urko Díaz)


Seguiram-se as fotos da praxe: a do Alfonso, vitorioso por mais uma subida à “sua Peña”;

17.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (296)

A de Xosé Fernández, a descansar, de costas para o poderoso vale do Tera,

18.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (295)

E a dos dois “compinchas” – Xosé Fernández e Urko Díaz.

19.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (302)

Aproximando-se a hora da partida, pois já se fazia tarde, e tínhamos 18 quilómetros a percorrer pela frente, era o momento de se tirar a fotografia do grupo.


Urko prepara o tripé e a máquina.

20.- 017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (288)

E, ali, junto a uma tosca cruz de cimento, cuja natureza se encarregou de a derrubar,

21.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (282)

Urko tirou a fotografia do grupo que subiu com ele ao pico de Peña Trevinca.

22.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (290)

(Foto cedida por Urko Díaz)

E agora com ele.

22a.- received_1842634022419968 (Urko Díaz)

(Foto cedida por Urko Dí­az)


Na despedida, deixámos num “peto

23.- 135

o nosso nome. Para que conste que fomos um dos “escaladores” do pico mais alto da pátria galega, terra dos nossos irmãos hispânicos!


E se a subir ao cume de Peña Trevinca demorámos um pouco mais de 5 horas e meia, mais precisamente 5 horas e 37 minutos, conforme nosso app SHealth (Samsung Health) marcou,

23a.- SHealth_19_40_44_506 (002)

 apontando velocidade e elevação, embora o nosso GPS não estivesse aferido pelos instrumentos do Instituto Geográfico Nacional espanhol quanto a altura,

23b.- SHealth_19_40_08_654 (002)

 na volta,

24.- B_IMG_1504341658878 (Pablo)

(Foto cedida por Urko Dí­az)

 

porque a descer todos os santos ajudam, por entre as mesmas serras e palmilhando os mesmos vales por onde subíramos,

25.- FB_IMG_1504341744467 (Pablo)

(Foto cedida por Pablo Serrano)

apenas demorámos 4 horas a chegar ao local de partida – a Praça de Laguazais – já ao lusco-fusco.

26.- 2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (335)

Chegados a Porto de Sanábria, era tempo de retemperar forças com umas boas tapas.

 

Depois de bem comidos e bebidos, por entre conversas trocadas com as gentes da terra, que, num bar da terra, aqui se apinhavam a comer e beber e conversar, havia que regressar a “penates”.


Mas, como nos tinha acontecido de manhã cedo, tínhamos antes pela frente que percorrer e ultrapassar uma estrada sinuosa e com péssimo piso.


Bem andam os habitantes de Porto que não se cansam em reivindicar melhor acessos aos seus lares!


Já bem basta os constrangimentos – apesar das poucas compensações que, quando vêm são parcas e tardias – impostos a estas terras, porque inseridas num território classificado como Parque Natural de Sanábria, quanto mais usarem uma estrada – e com outros meios de comunicação fracos – que os faz sentir que estão mesmo no fim do mundo, dando-lhes uma enorme sensação de lonjura e abandono!


Em jeito de despedida, aqui deixamos “unha grande aperta” aos nossos queridos companheiros de jornada: Pablo Serrano; Alfonso Granja Braña; Urko Díaz; Xosé Fernández e Antonio.


Bem hajam pela companhia no dia 5 de agosto, dia do “montanheiro”!

27.- Nómadas - Transumância-1(Foto de Jose Antonio Pascual)

 

 


publicado por andanhos às 13:46
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

Por terras de Portugal - O Convento refúgio do artista José Rodrigues

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL


O CONVENTO REFÚGIO DO ESCULTOR JOSÉ RODRIGUES


- VILA NOVA DE CERVEIRA –

00.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (180)

Em primeiro lugar, uma confidência que aqui queríamos deixar: os longes e os altos sempre nos fascinaram. Em novo, vivendo numa espécie de clausura e preocupado depois com outras coisas mais comezinhas e afazeres do dia-a-dia, poucas vezes a tentação do inacessível nos levou até às paragens onde, perscrutando o profundo silêncio, nos encontramos com o mais fundo e íntimo de nós mesmos.


Hoje o fascínio é o mesmo. Porventura até mais intenso. Há menos constrangimentos e a disponibilidade até é maior. Mas… as pernas e a genica já não são as mesmas; não ajudam tanto.


Contudo, sempre que podemos, lá vamos…


Quando passamos em Vila Nova de Cerveira, ao olharmos para o cimo da sua colina, denominada de Alto do Crasto, aquela figura, quase real, do “Cervo”, ou “Rei Veado”, escultura do falecido José Rodrigues, exerce sobre nós um apelo para, de perto, lhe tocarmos.

01.- 2013 - V.N. de Cerveira (173cma)

Neste verão, numa breve estadia no Alto Minho, decidimos alcançar aquela “cumbre” – como dizem os nossos irmãos galegos, que vivem do outro lado do rio Minho -.

02.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (216)

e, aproximando-nos,

03.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (223)

para apreciar de perto não só aquela obra

04.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (211a)

como todo o panorama que, daquele alto, paira em frente daquela célebre figura do “Rei Veado” (Cervo)

05.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (215)

e que o município cerveirense, a todo o custo, quer que seja classificado como de interesse nacional.


Depois de uns longos minutos explorando e apreciando os diferentes ângulos da visão que daqui se observa, partimos, monte dentro, explorando os seus recônditos lugares.

 

O rio Minho, com a sua “Ilha dos Amores” e a sua foz, ao longe, entre o Monte de Santo Antão, do lado português, e o de Santa Tecla (Castro Santa Tegra), do galego, é sempre um fascínio de contemplação!

05a.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (222)

A determinada altura, parámos.

06.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (139)

Porque não foi só o rio Minho que, destas bandas, nos prenderam a atenção: foi uma construção, no meio do nada.

07.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (140)

Decidimos explorá-la, indo ao seu encontro.


Lentamente, às curvas e contracurvas, fomo-nos aproximando.

08.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (208)

De frente, deparámos com um edifício em reconstrução.

09.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (135)

Mais de perto, não ficámos com nenhuma dúvida: era uma igreja (capela) de um antigo convento.

10.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (196)

Dirigimo-nos ao que supúnhamos ser o encarregado responsável pela obra de reconstrução. Homem transmontano, da cidade de Vila Real, sabendo sermos também transmontano, não descansou enquanto não nos deu uma explicação pormenorizada e cabal da história daquele edifício, hoje transformado em Museu e Turismo de Habitação, propriedade da Associação Cultural Convento de S. Paio.


Embora não pudéssemos entrar nas áreas do Turismo de Habitação, o responsável daquela reconstrução e do edifício, acompanhou-nos numa visita ao Museu, dando-nos um panfleto que fala da história deste edifício e do espólio nele contido.


Respiguemos alguns trechos do texto.


Transcrevamos um pouco da sua história.
O Convento de S. Paio foi fundado em 1392 por Frei Gonçalo Marinho, que veio da Galiza para implantar comunidades de franciscanos observantes em território obediente ao papa de Roma. Vivia-se uma profunda crise na Igreja: falta de unidade, com dois papas (o de Roma e o de Avinhão) e em breve 3 a reclamarem-se da de S. Pedro e supremo magistério sobre a Igreja; e amolecimento moral, em que até os mendicantes preferiam a comodidade dos claustros, junto às cidades mais ricas, à pobreza e vocação missionária dos franciscanos.
O êxito da ação de Frei Gonçalo foi tal, que, com este espírito, fundou 4 comunidades: em Mosteiró (Cerdal), S. Francisco do Monte (Viana), Ínsua (Caminha) e aqui, na serra cerveirense, onde a devoção popular tinha erigido uma ermida em honra do milagroso S. Paio.
Mas as asperezas da mortificação e isolamento cedo deixaram de ser convidativos, o convento foi abandonado progressivamente e caía em ruínas no fim do século XVII. Foi a piedade barroca que o reergueu, com um belo claustro de arcos em asa de cesto mas sóbrio de decoração (ao gosto da arquitetura “pain”),

12.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (121)

uma capela com profunda capela-mor

13.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (64)

para coro dos frades e sepultura de benfeitores e um enfiamento de modestas celas onde só havia espaço para uma curta oração antes de adormecer.


Em meados do século XIX o Convento de S. Paio foi novamente abandonado, desta vez por imposição política. Os respetivos bens foram vendidos em hasta pública, a biblioteca e o recheio artístico-devocional pilhado. As feras eram as únicas criaturas de Deus que ainda lhe frequentavam o sítio”.


Falemos agora da ação neste edifício – ou melhor, edifício-ruínas – do escultor José Rodrigues, o grande responsável pelas Bienais de Cerveira.


Peguemos, mais uma vez, no panfleto.
Até que um artista se apaixonou por ele. (Os artistas são a forma mais humana da presença de Deus no mundo). Habitou-o para meditar e, com um grupo de companheiros, fundou uma associação destinada a repor no convento de Frei Gonçalo as divinas atividades do espírito: a meditação sobre a natureza e a vida (que Deus criou) e a arte (dom que Deus concedeu aos homens para criarem). Aqui se instalou uma galeria de desenhos que poderá ajudar a entender o Desenho em Portugal. Com Vieira da Silva, Almada, Dordio, Augusto Gomes, Poussinj, Soares dos Reis… e esculturas, muitas esculturas de José Rodrigues, de várias feições, temáticas, mensagens, materiais e desmaterializações”.


Vejamos, na primeira pessoa, o que José Rodrigues, quanto a este lugar e edifício, nos diz:
Estávamos nos finais dos anos 60. Com dois amigos, lá partimos para as terras do sol nascente. Andávamos à procura de uma “coisa” e não sabíamos que nome lhe haveríamos de dar. Sentíamos que a vida que levávamos não tinha sentido. Sem mapa, lá partimos. Passado pouco tempo fiquei sozinho: um de nós, por doença, teve de voltar: ao outro era a família que o chamava. Por lá andei uns tempos, visitando Katmandu, o Butão, Japão e Paquistão. Intrigas da guerra não me permitiram entrar na Índia, mas fui à China e a Macau.
Já cansado, mal podendo com as botas e sem saber como nem porquê, encontrei um sítio lá no alto que dá pelo nome de Monte da Pena. Pedras e mais pedras, que mais parecia uma pedreira – tal era o estado em que se encontrava este velho convento franciscano. Só os pastores sabiam da sua existência. À volta reinava um silêncio imenso.
Tinha encontrado o local onde arrumar as minhas “coisas” – as minhas imbambas, como dizia a minha avó que era negra.
Até aos dias de hoje, com a minha tribo, apaixonadamente, começamos a recolocar pedra sobre pedra até que finalmente, o fumo saiu pela chaminé.
Aqui, ouvia-se o silêncio e foi por isso o lugar que escolhi para começar este caderno, que pode levar como título “Memórias de uma viagem onde o silêncio ainda tem sentido”. O que aqui se mostra são mapas desta viagem.
Hoje, quando desenho, sinto que, por cima dos meus ombros, S. Francisco

14.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (33)

e S. Buda

15.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (28)

trocam olhares de cumplicidade.

E, se um dia conseguir desenhar este silêncio, esse desenho será para ti”.


Quase 700 anos depois de ter sido escolhido por frades franciscanos para a contemplação, o panfleto que encontrámos num sítio da internet, convida-nos a descobrir, “nas caminhadas na mata, nas leituras no claustro e na capela, ou ao sol nos jardins com vista sobre a “Ilha dos Amores” e a foz do rio Minho o seu local ideal para se desligar do mundo e recuperar energia”.


Confiramemos o texto com a realidade.


Dirijamo-nos a um dos jardins

16.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (164)

 – o de cima -, até ao seu extremo,

17.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (158)

“engalanado” de obras de arte,

18.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (168)

salpicado de pombas, céu e corpos esculpidos, numa harmonia contrastante, mas perfeita, com a natureza circundante.

19.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (161)

Desçamos para um outro patamar de jardim - o dos espelhos.

20.- 2017.- Vila Nova de Cerveira (189)

Não fora a forte canícula do tempo, no meio daqueles reflexos e daquelas luzes, em profundo e imenso silêncio, ficaríamos ali a tarde toda, em meditação…
Mas havia que procurar um lugar mais fresco.


Entrámos, assim, no Museu, acompanhado do nosso amigo transmontano, onde se exibe a coleção particular e a obra de José Rodrigues.

21.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (125)

Começou por nos fazer entrar na Sala do Oriente.

22 - 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (17)

Deixamos aqui uma panorâmica parcial da sala

23 - 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (16)

bem assim de algumas das peças nela exibidas. Tudo peças que, ao longo dos anos, José Rodrigues colecionou.

24 - 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (14)

De seguida, entrámos na igreja (capela), onde se exibe arte religiosa, com a perspetiva da disposição das peças de arte e o coro alto

25.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (37)

bem assim a capela-mor,

26.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (45)

Com estes dois pormenores

27.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (40)

(Pormenor I)

28.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (41)

(Pormenor II)


Das inúmeras imagens, deixamos aqui exibidas algumas que nos pareceram mais impressivas:

29.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (34)

(Imagem I)

30.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (20)

(Imagem II – Pietà, século XVII)

31.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (31)

(Imagem II – Santo António)

32.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (21)

(Imagem IV – Shiva-Índia)

33.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (38)

(Imagem V – Santo Bispo, século XV)


Saindo da igreja (capela), observamos nos corredores do claustro térreo, quer obras de coleção do artista José Rodrigues, quer obras suas. Aleatoriamente, exibimos algumas delas.


Começamos pelas máscaras,

34.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (68)

 (Imagem VI)

35.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (69)

(Imagem VII)

36.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (72)

 (Imagem VIII)

 

por peças da sua coleção,

37.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (104)

 (Imagem IX)

38.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (102)

 (Imagem X)

 

e acabamos pelas suas obras, quer nos corredores do claustro térreo, quer no superior.

39.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (126)

 (Imagem XI)

40.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (49)

 (Imagem XII)

41.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (108)

 (Imagem XIII)

42.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (124)

 (Imagem XIV)

43.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (110)

 (Imagem XV)

44.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (50)

 (Imagem XVI – Guardador de Estrelas II)

 

Em algumas destas obras de José Rodrigues, do início dos anos 60 do século passado, é bem patente, segundo nos diz Maria Leonor Barbosa Soares, (pág. 420 e 421, Revista da Faculdade de Letras do Porto, «Ciências e Técnicas do Património», Porto 2008-2009, I Série, Volume VII-VIII), o contexto da guerra colonial, que inspirava imagens de devastação: “rostos e corpos montados a partir de materiais áridos e agressivos, em processos paradoxais de construção, numa organização de texturas (areias, tecidos, arames, fios papéis amarrotados e colas…) em ambientes de matéria e cor agrestes”.


Subimos ao corredor do claustro superior.

45.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (51)

Aqui se exibem as obras de José Rodrigues em barro e os seus desenhos.


Mostremos algumas obras de barro

46.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (53)

 (Imagem XVII)

47.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (90)

 (Imagem XVIII)

48.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (86)

 (Imagem XIX)

49.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (82)

 (Imagem XX)

50.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (78)

 (Imagem XXI)

51.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (92)

 (Imagem XXII)

52.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (89)

 (Imagem XXIII)

53.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (91)

 (Imagem XXIV)

54.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (54)

 (Imagem XXV)

 

e cinco dos seus desenhos.

55.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (56)

 (Imagem XXVI)

56.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (57)

 (Imagem XXVII)

57.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (60)

 (Imagem XXVIII)

58.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (97)

 (Imagem XIX)

59.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (98)

 (Imagem XXX)

 

Saímos dos corredores do claustro superior olhando para o centro do claustro deste cenóbio franciscano.

60.- 2017.- Mosteiro-Museu de S. Paio (Vila Nova de Cerveira) (87)

 Pelos diferentes espaços deste mosteiro, na contemplação destas obras de arte, fomos perdendo a noção do tempo. Já era tarde. Havia que sair deste espaço e dirigirmo-nos para os nossos aposentos, na certeza, porém, que, quando quisermos um espaço para usufruirmos de uma viagem “onde o silêncio ainda tem sentido”, este é um espaço ideal para o efeito.

 

E, na despedida, deixamos o leitor com as palavras de José Rodrigues, falecido o ano passado:
Para tornar possível este projeto tive a ajuda de um irmão amigo, Aníbal Belo, que juntamente com outros irmãos, se propôs criar esta Associação.


Finalmente este convento volta a cumprir o seu destino como lugar de meditação e lugar de encontro, para partilharmos com os outros a nossa diferença.


Aqui plantei testemunhos que fui colecionando ao longo dos anos. Aqui plantei também trabalhos meus, pegadas dum percurso de 60 anos dedicados à arte (escultura, desenho, pintura).


Gostaria que este espaço voltasse a ser, como nos tempos dos frades observantes que o fundaram, um lugar para reencontro de cada um consigo mesmo, um retomar do ideal comunitário, onde o diálogo entre Homem-Natureza fosse harmonioso”.

61.- CSP nombre

Deixamos ao visionamento do nosso leitor um vídeo de um galego – Xoan Arco da Vella - que nos dá um “cheirinho” deste espaço.


MOSTEIRO DE S.PAIO – VILA NOVA DE CERVEIRA

 


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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Por terras de Portugal - Arte no espaço público da Vila das Artes

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL


ARTE NO ESPAÇO PÚBLICO DA VILA DAS ARTES

 

- VILA NOVA DE CERVEIRA - 

 

2017.- Vila Nova de Cerveira (53)

Numa curta estadia de oito dias em Vilar de Mouros, não deixámos de visitar a bonita e agradável Vila Nova de Cerveira, vila do Alto Minho.


Não foi a primeira vez que aqui passámos e até pernoitámos. Mas foi, seguramente, a primeira vez que tentámos descobrir os seus encantos, quer na vila, quer nos seus arredores.


Sabemos do carinho que o falecido escultor José Rodrigues tinha por esta terra.


Pelas suas ruas, largos e rotundas são bem visíveis o impacto das célebres Bienais de Cerveira.

 

Vila Nova de Cerveira é a terra da Bienal mais antiga da Península Ibérica.


Se bem que vejamos aqui a mão e obra de artistas, é também verdade que aqui é bem patente a sensibilidade cultural dos autarcas desta terra. promovendo-a através de manifestações culturais.

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(Mural Comemorativo dos 25 anos da Bienal de Cerveira - Fonte:- cm-vncerveira.pt/pages/207)

 É detentora de um valioso património vocacionado para o turismo cultural.

 

Não é por acaso que é conhecida e reconhecida, nacional e internacionalmente, como a "Vila das Artes". Uma marca verdadeiramente distintiva!

 

Em período de campanha para eleições autárquicas, deixo aqui o testemunho de uma terra, e dos seus sucessivos decisores políticos, para quem a promoção da sua terra está indissoluvelmente ligada à natureza e às manifestações culturais.


Um exemplo de boas práticas que, infelizmente pelo nosso burgo, está tão arredadas de quem, até agora, nos tem governado.


Aqui fica, pois, alguns exemplares do "Roteiro das Artes" que o Município cerveirense nos propõe:

 

2017.- Vila Nova de Cerveira (59)

(O falecido escultor José Rodrigues num dos alçados de um edifício público)

2017.- Vila Nova de Cerveira (60)

(ADCJC- Remo Cerveira [Barco: 2x (Double Scull)]

Pintura de Acácio Carvalho, 1990

XVIII Bienal de Cerveira)

2017.- Vila Nova de Cerveira (30)

(Evolution and Tehory, 1996, doação do artista Zadoc Ben-David)

2013 - V.N. de Cerveira (18)

(Navegações, 1989, doação do artista José Rodrigues)

2013 - V.N. de Cerveira (65)

(Por cada árvore interrompida o crescimento de uma floresta, 1998, doação do aretista Carlos Marques)

2013 - V.N. de Cerveira (134)

Granito-Ritmo, I Bienal Internacional de Arte, 1978, artista Clara Meneres)

2013 - V.N. de Cerveira (403)

(Cervo no pátio de uma esplanada de um restaurante, autor desconhecido)

2013 - V.N. de Cerveira (29a)

(Planeta perdido, do artista Henrique Silva)

2013 - V.N. de Cerveira (415)

(Objeto Cerveira I e II [conjunto], do artista Rui Anahory, agosto de1996, Simpósio de Escultura

«Encontro com o granito»)

2013 - V.N. de Cerveira (420)

(Objeto Cerveira I, do artista Rui Anahory, idem supra)

2013 - V.N. de Cerveira (422)

(Objeto Cerveira II, do artista Rui Anahory, idem supra)

2013 - V.N. de Cerveira (451)

(Seara Mecânica, [vista de um ângulo], Simpósio de Escultura «Encontro com o granito»,

doação do artista Carlos Barreira)

2013 - V.N. de Cerveira (455)

(Seara Mecânica, [vista de um outro ângulo], Simpósio de Escultura «Encontro do granito»,

doação do artista Carlos Barreira)

2017.- Vila Nova de Cerveira (62)

(Esforço, 1983, doação do artista José Rodrigues)

2013 - V.N. de Cerveira (477)

(Enamorados, 1996, Simpósio de Escultura «Encontro com o granito», doação da artista Maria josé Camarez)

2017.- Vila Nova de Cerveira (106)

(Catedral, simboliza a Flor que se abre à vida contendo os quatro elementos da natureza

- Terra, Água, Ar e Fogo, 1999, doação dos artistas Isabel Cabral e Rodrigo Cabral)

2017.- Vila Nova de Cerveira (123)

(Homenagem orgânica, 1996, Simpósio de Escultura «Encontro com o granito», doação do artista João Antero)

2017.- Vila Nova de Cerveira (148a)

(Volok, no monte Espírito Santo, Percurso Lusitano, do artista Robert Schad)

2013 - V.N. de Cerveira (514)

(Ponte da cultura, do artista Arcádio Blascos)

2013 - V.N. de Cerveira (437)

(Cervo, desconhecido ano e autor)

Escultura-HAN-Robert-Schad-2-peq

(Han, Parque de Lazer do Castelinho, do artista Robert Schad)

2017.- Vila Nova de Cerveira (211a)

(Cervo, "Rei Veado", do artista José Rodrigues)

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(S. Sebastião, do artista Manuel Rosa. Fonte:- cm-vncerveira.pt/pages/207)

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(Novo Memorial aos cerveirenses falecidos na guerra colonial, do artista Manuel Sousa Pereira.

Fonte:- cm-vncerveira.pt/pages/207)

RIO_AGUA_E_SANGUE_1_1280_720

(Rio, Água e Sangue,do artista Silvestre Pestana. Fonte:- cm-vncerveira.pt/pages/207)

2013 - V.N. de Cerveira (375)

(Coronel Gonçalo Coelho de Araújo [1732-1815]. Governador de Vila Nova de Cerveira. Comandou as forças que se copuseram à entrada por esta vila das tropas do Marechal Soult, aquando da II Invasão Francesa)

2013 - V.N. de Cerveira (491)

(Busto de Manuel José Lebrão, 2001, artista desconhecido)

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Positivamente, Vila Nova de Cerveira uma tela de cores e emoções!

 

 


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Sábado, 16 de Setembro de 2017

Por terras de Portugal - A pesca em Espinho - Xávega, a Arte Grande

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL


A PESCA EM ESPINHO – XÁVEGA, A ARTE GRANDE


UMA VISITA AO MUSEU MUNICIPAL DE ESPINHO
- FORUM DE ARTE E CULTURA DE ESPINHO -

 

0000AA.- 7284207

No já longínquo ano de 2013, a 27 de fevereiro, depois de vários anos fazendo longas temporadas em Espinho, onde nos ligam laços com amigos antigos, e sem nunca termos assistido, para os lados do bairro dos pescadores, a nenhuma cena de pesca, decidimos, finalmente, fazer uma visita ao Museu Municipal de Espinho|Forum de Arte e Cultura de Espinho,

000A.- 2013 - Espinho 014

sediado nas antigas instalações da Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & Cª.

000B.- 01.- 2013 - Espinho 005

No recinto ou logradouro do Museu, estas espécies museológicas – os barcos «Vicking», numa

000C.- 02.- 2013 - Espinho 001

e noutra perspetiva

000D.- 03.- 2013 - Espinho 003

e o «Mar Salomão», também numa

000E.- 04.- 2013 - Espinho 004

e noutra perspetiva.

000F.- 05.- 2013 - Espinho 002

Entrámos.

000G.- 2013 - Espinho 008

No blog oficial do Museu, podemo-nos inteirar que, na conceção museográfica esteve presente a preocupação de se patentearem três exposições permanentes: a) a Fábrica de Conservas; b) a Arte Xávega e c) o Bairro Piscatório/Operário. Constatámos também que a funcionalidade do Museu Municipal passa também por uma Galeria de Exposições Temporárias; pelo Centro de Documentação e Investigação em História local e por um Serviço Educativo aberto às escolas e restante população.


Recordamo-nos que tínhamos, naquela altura, um interessante livro de cabeceira, de Miguel Unamuno - «Por Terras de Portugal e Espanha» -, o atribulado Reitor da Universidade de Salamanca, persona non grata da ditadura franquista, um grande homem de letras e da cultura Ibérica, e grande amigo de Portugal, a cujo nome (como também ao do Cervantes), o nosso poeta maior, de nome de batismo Adolfo Rocha, foi buscar um dos elementos da sua identidade literária – Miguel -, passando-se a chamar Miguel Torga.


Das três exposições permanentes, no fundo, apenas prestámos mais atenção à da «Arte Xávega».


Estávamos influenciado pela leitura que havíamos feito do referido livro de Unamuno quando, em agosto de 1908, estando em Espinho nos relata, sob a designação do capítulo «A Pesca em Espinho», a Arte Grande ou a Arte Xávega em Espinho.


Deste escrito já lá vai mais de 100 anos. E, em 100 anos muito muda. A pesca em Espinho, nessa altura, era um verdadeiro e quase exclusivo modo de vida daquelas gentes, que, com a sua atividade, deram origem à cidade que é hoje. Transformou-se, depois com os anos, numa verdadeira atração turística.


Hoje, e conforme se pode ler no opúsculo «A Arte da Xávega em Espinho», da Fundação Navegar, Centro Multimeios de Espinho, 2003, 2ª edição, de 2007, da pena do então Presidente da Câmara, José Mota, “A Arte da Xávega deixou de ser uma atração turística para quem vinha assistir à chegada dos barcos, para constituir um sofrimento permanente para quem dela retira os magríssimos proventos com que preenche uma vida de provações e de sacrifícios, sujeitando-se sempre aos humores de um mar cada vez menos prenhe do pescado que é o sustento de quem ainda persiste, teimosamente, em acreditar que é possível. Que a esperança não morra!...


A esperança se não morreu, pelo menos está gravemente enferma e, face aos tempos modernos, às tradições e cultura de um povo outra coisa não lhe resta senão, uma vez por outra, “para inglês ver”, proceder-se a uma ou outra “pobre” encenação da atividade ou, então, procurar conhecê-la através da musealização de alguns dos seus elementos ou cenários, que, obviamente, não nos trazem a “vida” que aquela atividade representava para aquela comunidade piscatória.


Xávega é um termo que deriva da palavra árabe «Xabaka», que define não só o aparelho de arrasto demensal mas também todas as questões ligadas às “sociabilidades” deste grupo especial, constituído nas denominadas «Companhas».


Diz-nos Liliana Ribeiro, do Politécnico do Porto/Escola de Educação do Porto, naquele mesmo opúsculo da Fundação Navegar, em 2003, que “Atualmente a principal causa de angústia da classe piscatória é sem dúvida a falta de trabalho. Pelo contacto que foi permitido estabelecer com os arrais das duas companhas ainda em atividade na praia de Espinho – Companha Nelson e Sérgio e Companha Vamos Andando -, facilmente se chegou à conclusão de que os homens do mar continuam a viver no extremo da pobreza. Pode mesmo afirmar-se que as condições materiais de há cem anos atrás não sofreram alterações significativas, na medida em que o pescador só recebe o salário quando a embarcação sai para o mar; está dependente quer das condições climatéricas, como também da existência e quantidade de pescado; é quase sempre o único rendimento de uma família que podemos considerar numerosa em face do salário que aufere; para subsistir das ajudas dos patrões e de trabalhos esporádicos”.


Neste momento não sabemos qual o futuro da arte da pesca em Espinho, ou da Xávega, e que se pratica(va) também em muitas praias da nossa extensa costa. Com certeza o seu futuro não deve ser muito promissor. Porventura estará já moribunda, quiçá “fossilizada” nas quatro paredes do Museu…


Ao procurarmos, pela pena de Unamuno, e com as imagens, quer por nós tiradas no Museu de Espinho, quer as que encontrámos na internet, nos seus diferentes sítios, darmos a conhecer a “Arte da Xávega” (apenas a arte, deixando de lado a organização das Companhas), outra coisa não pretendemos senão trazer ao de cima, a partir de uma atividade, uma parte da alma de uma comunidade, de um povo, e que constitui uma das matrizes da pátria de hoje somos.


Ao entrarmos no Museu, nossos olhos viraram-se, uma vez mais, para estas típicas embarcações, em exposição:

000H.- 2013 - Espinho 010

E, de dentro para fora, esta perspetiva:

000I.- 2013 - Espinho 031

Não nos escapou a fotografia desta linda vareira, a “Rosa «Ceguinha»”,

000J.- 2013 - Espinho 058

bem assim estes dois lindos modelos, em trajes típicos

000K.- 2013 - Espinho 064

(Modelo I)

 

000L.- 2013 - Espinho 070

(Modelo II)


Mas demos a palavra ao Mestre Unamuno: à forma como ele nos descreve a arte xávega e às suas considerações/reflexões.


Nesta zona costeira portuguesa, o pescador vive junto do lavrador. Este semeia o linho e faz as cordas das redes com que aquele pesca,

00a1.- xavega-sesimbra1

(Fonte desconhecida)

 

fornecendo-lhe a madeira para as suas embarcações.

00a2.- httpolhares.sapo.ptconstrucao-de-um-arte-xavega-vicking-foto3002596.html

(Fonte desconhecida)

 

Aqui, nas areias desta praia de Espinho, de proas voltadas para o mar, descansam as barcas dos pescadores.

18440691_hyEFn

(Fonte - http://altasensibilidade.blogs.sapo.pt/espinho-xavega-123489)

 

Recordam-me os barcos em que os Gregos chegaram a Tróia, os navios homéricos. São como exemplares sobreviventes de uma espécie já extinta noutras regiões.
Com efeito, possuem algo de primitivo estas embarcações sem quilha, de fundo chato como o das lanchas, com a proa erguida semelhante à das gôndolas, rematada por uma cruz. (…)

00a4.- 18440714_55Pw8

(Fonte - http://altasensibilidade.blogs.sapo.pt/espinho-xavega-123489)

 


Logo põem os barcos em movimento. Enchem-nos com as redes e, fazendo-os resvalar sobre rodas, empurram-nos na praia abaixo até às espumosas ondas.

00a5.- olhares_dsc_4766_marco_09

(Fonte - Olhares/Marco)

 

Encostam os dorsos tisnados aos flancos das embarcações.

00a6.- 10558235

Na areia, fica presa a ponta de uma das duas cordas da rede.

00a7.- ahcravo_jn_0bs-barco-86

Em cada barco, tomam lugar cerca de trinta tripulantes, meia dúzia para estender as redes e para as demais operações, e dez ou doze para cada um dos enormes remos. Cada barco tem dois remos, com duas barabatanas, com um grande alargamento central, que serve de estropo.

00a8.- _DSC0218

E assim vão vogando até ao alto mar, para lhe arrancar o sustento, de costas bronzeadas brilhando ao sol, agarrados ao remo, como os galeotas, meia dúzia de homens voltados para outra meia dúzia, em cada um dos dois remos.
Afastam-se um a dois quilómetros – no Inverno, mais, pois no Verão a sardinha aproxima-se da costa – e, antes de lançarem as redes, todos rezam piedosamente. Noutros tempos, os tripulantes das diversas embarcações batiam-se pelo sítio onde iam lançar as redes e, no regresso, alguns vinham escalavrados da refrega.
Regressam três horas depois de terem saído, trazendo a ponta da outra corda. E é um espetáculo emocionante, por vezes solene, ver os barcos de proa levantada, esperando de pescoço erguido as ondas favoráveis e logo investir para a praia, entre cascatas de espuma e a gritaria dos que os esperam.

00a9.- 2013 - Espinho 073

De seguida, puxam as duas cordas da rede para as recolher. Puxam-nas da praia, com juntas de bois.

00a10.- 078_Espinho

Puxar as redes com juntas de bois é característico da pesca em Espinho, assemelhando-se esta tarefa a uma tarefa agrícola e dando asas à imaginação para a cotejar com a faina dos campos nesta região em que, como digo, o mar parece que se ruraliza. (…)

00a11.- 274086

(Fonte desconhecida)

Durante cerca de duas horas, dez juntas de boizinhos ruivos,

00a12a.- 2013 - Espinho 072

 [Veja-se uma reconstituição, no Museu Municipal de Espinho]

00a12.- 2013 - Espinho 086

[Assim como um pormenor dessa reconstituição, no mesmo Museu]

00a12aa.- 2013 - Espinho 089

de larga e aberta cornadura, puxam, pois, cada uma das duas cordas de cada rede, puxando oito juntas ao mesmo tempo e duas para se revezarem. Podemos vê-los caminhando pausadamente pela fina areia,

00a13.- ahcravo_dsc_3816

que se lhes afunda debaixo dos cascos fendidos, mansos e sofridos, aguilhoados pelas mulheres descalças,

00a14.- 2013 - Espinho 104

com o xaile apertado por cima da barriga e o chapeuzinho de lavradora, uma rodilha.

00a15.- 5810344

(Fonte desconhecida)

O xaile, uma faixa que colocam por cima da barriga, abaixo da cintura, é típico das mulheres de Aveiro; serve-lhes de apoio nos seus esforços. E a rodilha, uma espécie de almofadinha circular, justifica-se perlo hábito de transportar cargas à cabeça.
E lá vão os bois, lavrando o mar – é assim que se diz: lavrar o mar

00a16.- 25

jungidos com os curiosos jugos do norte e centro de Portugal. Não puxam com a fronte, como em Castela, mas com o pescoço e com a cruz das espáduas, sobre as quais se inclina o jugo, uma peça quadrangular, de madeira de sobreiro, cheia de desenhos e de entalhes decorativos,

00a17.- 2013 - Espinho 075

em cujo centro se destacam frequentemente as armas de Portugal, pesando sobre os animais.

00a18.- IMG_7427

(Fonte desconhecida)

Esses jugos são das coisas mais curiosas que por aqui se podem ver. Os motivos ornamentais, quase sempre de traçado geométrico, variam (…).
E, entretanto, os boizinhos ruivos, cabisbaixos ao peso dos seus ornamentados jugos, suportando as armas de Portugal, seguem praia acima, pisando a areia e puxando as cordas da rede.

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Quando esta aparece à vista e os flutuadores afloram à tona da água, começa um vozear rítmico e vão-se juntando homens e mulheres. O vozear, semelhante ao que fazem quando lançam os barcos ao mar, tem algo de rítmico, com efeito. Ao ouvi-lo, e sobretudo ao ouvir o canto com que acompanham os remos, cheguei a suspeitar se o fado, esse melancólico e lamuriento cantar português, que parece um pedido de esmola ao Todo-Poderoso, não terá nascido ao compasso do golpe dos remos nas ondas do saudoso mar.
Por fim, a rede é arrastada para cima da areia, amontoam-se à sua volta; e ao abri-la, a massa prateada lança chispas ao sol, palpitante mais de agonia do que de vida.

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(Fonte desconhecida)

É um espetáculo trágico aquele montão de vidas a expirar, agitando-se ao sol. Junto às ondas donde saíram, ao ruido do eterno fado do mar. Trazem sustento de vida para homens; e uma vez mais esse oceano, onde talvez tenha começado a vida e em cujo seio ela palpita poderosa, nos
aparece como um vasto cemitério. E na sua maioria não serão estas areias, agora leito de morte, restos de carapaças de seres outrora vivos?
Não será a própria areia um vasto cemitério? Não é o mar?
E, como todo o homem que lê, queira ou não, tem dentro de si um pedante, recordava as teorias de Quintón sobre o berço da vida e de como do mar saímos. Será que ao mar voltaremos? (…)
Feita a selecção do peixe, logo se procede ao leilão ali mesmo, na praia;

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 (Fonte desconhecida)


e no momento do leilão, aparece o homem fatídico de uniforme, o odiado funcionário do Estado, o implacável representante do fisco. Quanto não custa ser uma nação e uma nação pobre!
Numa conversa que tive com um pescador, as duas palavras que mais lhe saíram da boca foram contribuições e fome. Por toda a parte os persegue o fisco, a forma mais concreta que para eles o Estado assume.
Parte da pescaria vai para a fábrica de conservas: ali mesmo podemos ver limparem a cabeça e as tripas às sardinhas; os sangrentos despojos ficam na areia destinados às gaivotas; parte segue para a venda a retalho e a outra parte ainda maior vai em carroças celtas para servir de adubo aos campos. Os caranguejos têm idêntico destino. E os mesmos boizinhos ruivos, de larga e aberta cornadura, que puxaram a rede levam agora para os campos o adubo arrancado ao mar, em carroças de tipo muito antigo, carroças celtas, de rodas maciças, fazendo uma só peça como o eixo, com duas aberturas para lhe aliviar o peso.

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Assim a morte volta a dar vida e assim devolve o mar à terra algo do muito, muitíssimo, que dela os rios levam para o seu seio. E assim podemos ver campos, junto a um milheiral ou junto a um campo de linho donde saem as redes, montes de caranguejos ou de espadilhas, apodrecendo ao sol para enriquecer a terra. (…)
Que tristeza se apodera de nós, quando, depois de percorrermos na memória a esplêndida história das glórias marítimas de Portugal, pátria dos maiores navegadores, contemplamos estes pobres e mansos boizinhos ruivos puxando praia acima as cordas das redes, baixando as testas poderosas sob o peso dos ornamentados jugos, em cujo centro brilha o brasão de Portugal, outrora resplandecente de glória!

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Espinho, Agosto de 1908

Miguel de Unamuno

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publicado por andanhos às 15:20
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Quarta-feira, 6 de Setembro de 2017

Versejando com imagem - A Máscara (Teixeira de Pascoaes)

 

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

 

A MÁSCARA

 

103_1-2

 

Esta luz animada e desprendida
Duma longínqua estrela misteriosa
Que, vindo reflectir-se em nosso rosto,
Acende nele estranha claridade;
Esta lâmpada oculta, em nossa máscara
Tornada transparente e radiante
De alegria, de dor ou desespero
E de outros sentimentos emanados
Do coração dum anjo ou dum demónio;
Este retrato ideal e verdadeiro,
Composto de alma e corpo e de que somos
A trágica moldura, errando à sorte,
E ela, é ela, a nossa aparição,
Feita de estrelas, sombras, ventanias
E séculos sem fim, surgindo, enfim,
Cá fora, sobre a Terra, à luz do Sol.

 

 

Teixeira de Pascoaes
Cânticos (1925)
In Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987


publicado por andanhos às 10:31
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