Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

Por terras da Ibéria:- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca (Ida e volta) - II Parte

 

 

POR TERRAS DA IBÉRIA


CAMINHADA - DO PORTO DE SANABROA A PEÑA TREVINCA (IDA E VOLTA)


II PARTE

AO ENCONTRO DA NASCENTE DO RIO XARES, POR ENTRE OS “MONTES MEL”


“O céu a flutuar e o rio a correr, o mato a eriçar-se e a terra também!
Tudo lindo, tudo misterioso e mágico!”

(Herman Hesse, «Liddartha»)


“Y siempre recuerdo, cuando hago esta maravillosa subida a Peña Trevinca,
las palavras de un amigo médico cazador, ya falecido,
que adorava los montes de Porto y repetía que solo allí puedes disfrutar de las tres esses:
el sol, la soledad e el silencio”.

(Blog «Reflexiones de un médico - Subida a Peña Trevinca»,
de 19.julho.2013, do clínico González Moure)

 

00.- Peña Trevica 2ª parte (1)

 (Foto de Jose Antonio Pascual)


1.- Introdução

 

Atravessada a Calle Cancela, em aproximadamente 8 Km, e chegados à Vega de Valdetiendas, começa verdadeiramente a nossa subida até ao cume de Peña Trevinca, atravessando parte do maciço que lhe leva o mesmo nome.

 

Antes, porém de entrarmos na reportagem deste percurso, gostaríamos de falar um pouco sobre o Maciço de Peña Trevinca.

 

Por uma feliz coincidência, fomos encontrar, no dia 23 de agosto passado, no sítio da internet - https://slideshare.net/monadela/trevinca - uma apresentação, com data de novembro de 2016, da autoria de Adela Leiro e Mondaporta, que, numa leitura atenta, ficámos a gostar.

 

Extraímos todos os «slides» da apresentação e montámos, no Pinnacle Studio 15, com música do album «Camiños da fin da terra», do LUAR NA LUBRE.

O trabalho encontra-se dividido em 10 partes, a saber:


orografia e orogenia do Maciço (de Peña Trevinca)

- Serras:
* Eixe,
* Mina,
* Cabreira,
* Calva,
* Segundeira;
- Glaciarismo deu origem a zonas húmidas a mais de 1 600 metros de altitude:
* Lago de Sanabria,
* Lagoa dos Peixes,
* Lagoa das ´Rguas ou de Murias,
* Lagoas dos Currais,
* Lagoa de Serpe,
* Lagoa de Ocelo,
* Lagoa de Laceira,
* Lagoa do Penedo,
* Lagoa da Moza,
* Lagoa do Burrico,
* Lagoa Longa,
* Lagoa a Baña;

Bacia Hidrográfica:
* rio Bibei,
* rio Xares,
* rio da Canda,
* rio Casaio ou Casoio,
* rio Cabrera,
* rio Tera;
Clima;
Habitats;
Flora;
Fauna:
* aves,
* répteis,
* anfíbios,
* peixes,
* invertebrados;
Atividades;
História - Património Cultural
Espaços Protegidos
Problemas e, finalmente
Pontos de interesse.

O Maciço de Peña Trevinca abrange os seguintes concelhos:
- Na província de Ourense:
* Carballeda de Valdeorras,
* A Veiga,
* Viana do Bolo;
- Na província de León:
* Encinedo,
* Benuza,
* Truchas;
- Na província de Zamora:
* Porto,
* Pías,
* Lubián,
* Hermisende,
* Trefacio,
* Requejo,
* Galende,
* Cobreros,
* San Justo,
* Rosinos de la Requejada.

Apresentamo-lo, de seguida, pois vale a pena “perder” vinte e tal minutos a visioná-lo e ficarmos a conhecer um dos lugares mais espetaculares das província de Ourense (Galiza) e de Zamora e León (León).

 

O MACIÇO DE TREVINCA

 

 


2.- Percurso

Não cabe aqui um relato completo do que foram mais de cinco horas e meia que levámos desde o Porto de Sanabria até ao cume de Peña Trevinca.

 

É, contudo, de inteira justiça, aqui dar uma agradecimento não só ao nosso guia "oficial" - Urkito Peña Trevinca (Urko Díaz) - e, de um modo particular, ao Alfonso Granja Bruña. O primeiro orientou-nos, seguro, no caminho até "à cumbre" de Peña Trevinca; o segundo, Alfonso, profundo conhecedor destes lugares, foi para nós um livro aberto, propiciando-nos uma verdadeira aula de geografia, de fauna e flora, em plena natureza.

 

Mas, o que particularmente mais nos sensibilizou foram as histórias de vida que Alfonso nos contou destas gentes rijas da alta montanha sanabresa.

 

Saídos do Porto de Sanabria pela Calle Cancela, por um caminho, ora de cimento, ora de terra batida, ao longo do vale e do leito do rio Bibei, chegámos aovale ou Vega de Valedetiendas e, ultrapassado, definitivamente, o rio Bibei, na ponte Moncoubo, na serra Calva, em Puerto de la Cruz, começámos, agora sim, a bem subir, por entre pastagens, mato e giestal denso, rodeando Montouto, à esquerda, e passando por El Pelgo, do lado esquerdo, e La Fregina e Las Infantas, do lado direito, atravessando o Regato de Surbia.


Enquanto rodeávamos Montauto, deparámo-nos, mais ao cimo, uma pequena manada de cavalos selvagens.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (133)

E a nossa subida continuou, passando pela base da serra Segundeira.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (134)

Feita uma pausa técnica para descansar um pouco e abastecermo-nos de água, num dos regatos que vai desaguar no Bibei, mais abaixo, continuámos a nossa ascenção.

 

A determinada altura, Alfonso chama-nos a atenção para uma pequena cabana, do nosso lado direito, na serra Segundeira.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (135)

Uma pequena pausa, seguida de uma verdadeira aula sobre o que, nas primeiras décadas do século passado, era a vida transumante.

 

Seu pai, nas "agostadas", nos meses de verão, ano sim, ano não, passava ali longos meses, sem descer ao povo de Porto, simplesmente acompanhado com um único companheiro e com o gado (que era de toda a povoação do povo do Porto), junatmente com as cadelas e os cães lobeiros. Vida dura aquela!... Quando Alfonso nasceu, diz, seu pai só o conheceu 3 meses depois... Encontrava-se por estas paragens, dialogando praticamente a sós com esta natureza solitária e as crias que o acompanhavam. Quando os estremenhos vinham para aqui, pela "Cañada Real del Oeste", com o seu gado, ao outro ano, já ninguém mais os via ou enxergava, tal era o medo que eles tinham, não tanto pelas agruras do clima, mas pelos lobos!

 

Estas paragens foram também coito ou refúgio dos "fugidos" (vermelhos) da Guerra Civil espanhola.

 

Entretanto, Pablo aproveita, nestas terras cobertas de erva curta - que o clima não deixa crescer mais - e muita urze, para tirar fotos ao entorno e ao seu neto Xosé Fernández.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (137)

Mas não se pode demorar muito: há ainda muito que andar!

 

A certa altura, mais uma pequena paragem para trocarmos impressões com três companheiros do Porto de Sanabria, um pouco mais madrugadores que nós, que, uma vez chegados ao cume de Peña Trevinca, faziam o percurso de volta.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (141)

A natureza, pouco a pouco, começa a engalanar-se de cor e cheiro, sob a "sombra protetora" dos montes da serra Segundeira, à direita, e a serra Calva, à nossoa esquerda.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (143)

Alfonso, pegando no seu cajado, mostra-nos uma aranha típica destes lugares.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (144)

E, mais uma vez, a nossa ascenção continua,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (147)

até que, perto de um giestal piorneiro, da serra Calva, nos contrafortes de Montouto, em El Plego, mais uma manada de vacas, em plena pastagem.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (152)

Do nosso lado direito, nas alturas de Las Infantas, da serra Segundeira, ao longe, um "Falco tinunnculus", "cernícalo vulgar" ou, como por cá se diz, peneireiro, explica-nos o expert na matéria, Pablo Serrano.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (155)

Ultrapassada a manada de vacas a pastar, sempre em ascenção, Pablo para para nos chamar a atenção para a enorme resistência deste "Vaccinium corymbosum", a que os galegos chamam "arandano azul" (e em Portugal, mirtilo selvagem), para sobreviver entre fragas!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (157)

E, um pouco mais adiante, Alfonso chama-nos a atenção para um tipo de feto, entre giestas e fragas, que apenas se dá por estes lugares. Pablo aproveita para lhe tirar uma foto.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (158)

Nestas imediações, o grupo espalha-se para ir à cata do fruto dos mirtilos selvagens.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (159)

Eis, aqui, o "guloso" Pablo comendo e saboreando estes frutos selvagens!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (159a)

Após esta ligeira refeição de frutos selvagens, continuámos a nossa caminhada, rodeados pelos contrafortes da serra Calva, à nossa esquerda, e da Segundeira, à nossa direita, num solo apenas pejado de erva curta, giesta piorneira, baixa, e muita urze florida, formando um conjunto de montes a que acabámos por lhes chamar os "Montes Mel", tal o odor a mel que exalam e deixam no ar, ao ponto de termos a sensação de que estamos imersos num enorme boião de mel!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (164)

No cimo de mais um cocuruto, olhando para trás, e à nossa direita, eis a visão da manada que, minutos antes, tínhamos ultrapassado.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (167)

Uns metros mais acima, à nossa direita, um aspeto da serra Segundeira.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (171)

Aqui parámos uns breves minutos para observar este lugar.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (178)

Magnífica serra, com o seu Alto Moncalvo!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (180)

Urko aproveitou esta paragem para nos dizer que, no sopé daquele Alto, é a nascente do rio Bibei.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (181)

Continuámos a nossa caminhada pelos "Montes Mel",

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (185)

por entre Portilla de Pelgo, à direita, e, infletindo, por entre espesso giestal denso, entremeado por pastagens de montanha, para noroeste,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (190)

em direção ao Alto de Turrieiro e até às proximidades de Chozos do Escavadoiro, visto numa perspetiva

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (192)

e noutra,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (195)

com Caneiros da Presa, à direita, ao encontro do curso alto do rio Xares,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (198)

sempre por entre giestal e muitas urzes.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (201)

Junto a um pequeno cocuruto, atravessámos o rio Xares e, aqui, perto de uma pequena queda de água ("fervenza"), fizemos uma pausa mais demorada para descansarmos e almoçarmos.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (203)

Urko e Alfonso aproveitaram a ocasião para, descalçando-se, obedecerem a um velho ritual na ultrapassagem dest pequeno riacho - molharem os pés nesta água fresca e límpida.


O rio Xares, variante da palavra Sales, quer dizer rio que corre entre prados. Xares desagua no rio Bibei, no Larouco galego.


Aqui fica um aspeto do seu curso alto quando nos aproximamos dos picos mais altos do Maciço de Trevinca, ainda com água.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (204)

Comidos e deitados ao sol do meio dia, sem sombra alguma, porque o lugar, e tudo à volta, desprovido de arbustos, nossos olhos contemplam, admirados, os "Montes Mel" que nos rodeiam.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (211)

Como dissemos na primeira parte desta reportagem, aqui, o Antonio, o sanabrês, por compromissos assumidos para aquele fim de tarde e noite, tomou o caminho de volta.

 

Agora, seguindo o curso do aqui pequeno rio Xares, Alfonso chamou-nos atenção para as inúmeras turfeiras que por aqui se encontram.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (224)

Do lado dos montes da serra Calva, à nossa esquerda, grandes extensões de "santillanas", cuja raiz tem efeitos medicinais e que substituem as industriais aspiranas para a dor de cabeça.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (212)

E nossos olhos se enchem de alegria quando, ao longe, com certa nitidez, vislumbramos os dois grandes picos do Maciço de Trevinca - Peña Negra, à esquerda, e Peña Trevinca, à direita.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (225)

Agora já não havia pressas. Era mais tempo para contemplação. Ao lado do rio Xares, e ao pé de mais uma turfeira, era tempo para fazer mais uma pausa e abastecermo-nos de água, olhando para trás, observando a paisagem por que tínhamos passado.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (228)

(Pablo e Alfonso)

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (229)

(Urko Díaz e Xosé Fernádez)


E, cada vez mais, nos estávamos aproximando do nosso objetivo.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (231)

Num pequeno charco de água do rio Xares, Alfonso, mais uma vez, nos chama a atenção para uma pequena rã, animal cuja espécie é endémica destes lugares, e que não cresce mais do que o tamanho que se vê.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (233)

Trini aproveita para a espantar e, mais uma vez, das dezenas que fez ao longo da nossa caminhada, tomar a sua "banhoca". Trini é uma legítima descendente daquelas cadelas "de carea", que tão sabiamente conduziam os rebanhos. uma cadela ativa, ágil, incansável, disciplinada e obediente, sempre atenta e à espera das ordens do seu dono.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (234)

Vale a pena acessar este link Nómadas - da autoria de Marcos Antón - um pequeno texto que nos dá uma panorâmica precisa da transumância destes lugares e dos seus cães pastores.

 

E continuámos a subir, por entre os "Montes Mel", ao longo do curso do rio Xares, pelo "Vale de los tres Picos".

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (236)

E, perante esta magnífica "paisagem de mel", feita a muito custo, tal qual o laborioso e persistente trabalho das abelhas, Pablo Serrano faz mais uma pausa para observar e seu nariz inalar todo aquele cherinho a mel!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (237)

À nossa frente, na margem do rio Xares, aqui já praticamente seco, Urko, Xosé e Alfonso trepam.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (238)

Nós, os mais velhos, qual velhas raposas, não aguentando a passada dos dianteiros mais jovens, fizemos uma pequena pausa... para captarmos a paisagem, sempre idêntica e renovada, que deixávamos para trás.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (239)

Ao lado do leito, agora já conpletamente seco, do Xares, caminhamos agora, mais pausadamente, por entre os "Montes Mel" de O Gancianal, à nossa direita, apenas com o céu e as nuvens como única linha do horizonte.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (240)

Mas, numa curva do leito asgora seco do Xares, eis, cada vez mais perto de nós, os célebres picos do Maciço de Trevinca.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (242)

E, finalmente, chegámos à nascente do rio Xares, em plena serra do Eixe, na altitude aproximada de 2 038 metros. Do nosso lado esquerdo, no sentido da nossa caminhada, apresenta-se a A Valigota e o cume do Lomo Renán.

 

Aqui, como não podia deixar de ser, tirámos a fotografia da praxe.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (244)

Aqui fica aos leitores, traçado a linha vermelha no mapa, o nosso percurso, com o respetivo ponte de partida, em Vega de Valdetiendas; paragem, nas margem do rio Xares para almoço e nascente do Xares, com círculos em verde.

II Parte da Caminhada Porto-Peña Trvinca

[Mapa do Centro Nacional de Informação Geográfica espanhol (CNIG), Instituto Geográfico Nacional (IGN)]

- folha mtn25_epgs25829_0229-3.jpg -

47.- Peña Trevica 2ª parte (2)

(Foto de Jose Antonio Pascual)


publicado por andanhos às 19:27
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 19 de Agosto de 2017

Palavras soltas... Em dia Mundial da Fotografia

 

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

EM DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA

 

Susang Sontag, no seu livro «Ensaio sobre fotografia», escreveu:

De facto, as palavras falam mais alto que as imagens. As legendas tendem a sobrepor-se à evidência do nosso olhar; mas não há legenda que possa de modo permanente restringir ou fixar o significado de uma imagem”.

 

Aqui fica, pois, dentro do pensamento da autora que acabamos de citar, a imagem que, na nossa modesta opinião, fixa o significado do verão por que passamos.

 

2009 -  Geira Romana 022

 

nona


publicado por andanhos às 19:47
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

Ao Acaso... Com Torga, falar do espírito e alma barrosãs

 

 

AO ACASO...

 

COM TORGA, FALAR DO ESPÍRITO E ALMA BARROSÃS

 


Quando acabei de ler o último post de A. Souza e Silva, subordinado ao tema «Reino Maravilhoso-Barroso - Realidade e Utopia», pensando na azáfama de seu amigo Fernando DC Ribeiro em querer, com a sua objetiva, “encontrar” - ir à procura - do verdadeiro espírito barrosão, ao acaso, lembrei-me de Miguel Torga quando, passando por estas paragens, a 1 de setembro de 1991, em Alturas do Barroso,

2017.- Montalegre (237)

no seu Diário, vertia estas palavras:
Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro”.

 

Já são decorridos 26 anos, desde que estas palavras foram escritas. E pergunto-me, interrogando, através das “lonjuras”, o nosso maior: esse é (ou era), manifesta e genericamente, o espírito barrosão, o mesmo que dizer, o verdadeiro espírito transmontano, galego, e genuinamente português; mas, nos tempos que correm, será que haverá uma consciência barrosã que, alicerçada no passado, justifique um futuro, genuinamente barrosão, em que, empenhadamente, os barrosões “arregacem as mangas” para o construir?

 

Subindo, no passado dia 15 de agosto às alturas de 1 200 metros, do Minheu, à minha frente, na lonjura da linha do horizonte, em frente aos cumes do Gerês, esbatidos pela paisagem imensa a nossos pés, aparece-nos os “Cornos das Alturas do Barroso”.

 

DSC_3043

Do alto daquele posto de vigia do Minheu, contemplando aqueles “cornos” do Barroso, nas Alturas, veio-me à lembrança um quadro descrito e escrito, precisamente ali, nas Alturas do Barroso, pelo nosso escritor maior, Miguel Torga, quando, em 21 de setembro de 1969, em simples, mas comovente prosa poética, nos descreve, desta forma, no seu Diário, o espírito barrosão:
A paz destes barrosões, sentados no escombro de uma lameira a guardar a junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade”.

 

Quando acabava de fazer a citação que precede, remexendo, ao acaso, em ficheiros de imagens, meus olhos fixaram-se, como levados por um íman, nesta fotografia tirada há pouco tempo desde a barragem do Alto Rabagão/Pisões.

2017.- Montalegre (239)

Em perspetiva, e do ângulo donde foi tirada, não se me afigura dois cornos, mas duas tetas.

 

E lembrei-me do mito do nascimento de Roma.

 

Porventura, e aqui compreendemos Fernando DC Ribeiro, é no beber o “leite” destas paragens e paisagens que, estou certo, a cultura e o ser barrosão “ressuscitará”.

 

Mito ou realidade?

 

Que importa?!

 

A imaginação humana não tem limites...

 

Desde que atentemos a estas palavras, proferidas a 1 de setembro de 1990, pelo nosso grande humanista transmontano, que foi Torga, quando, na vila de Montalegre, foi abordado por uns jovens. Escrevia, nessa altura, no seu Diário:
Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo?
- Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar-comum”.

 


nona


publicado por andanhos às 18:34
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

Reino Maravilhoso - Barroso - Realidade e utopia

 

 

REINO MARAVILHOSO - BARROSO

 

00.- 2017.- Montalegre (236)

(Fafião) 

 

REALIDADE E A UTOPIA

 

Temos vindo a acompanhar, juntamente com mais um ou dois amigos, o Fernando DC Ribeiro, no seu afã de fazer a cobertura de todas as aldeias do Barroso, da parte de Montalegre.

 

Admiramos este seu entusiasmo - e enlevo - na recolha daquilo que, na sua ótica, considera o mais genuíno do Barroso.

 

Já há um tempo atrás fez idêntico trabalho em relação ao concelho onde nasceu e passou a residir, constituindo família e aqui desenvolvendo a sua vida - Chaves.

 

Muitas vezes damos connosco a perguntarmo-nos o que nos leva a seguir um aficionado pela fotografia quando pretende fazer o levantamento daquilo que considera o mais genuinamente barrosão.

 

A resposta vem fácil e está relacionada com uma sua costela barrosã, que herdou de sua mãe.

 

Como o compreendemos tão bem!

 

Vivendo há mais de 50 anos em Chaves, nunca perdemos a ligação com o terrunho que nos viu nascer. E, recorrentemente, descemos até ao Douro. Para matar saudades. Carregar baterias. Numa peregrinação, não de fé, mas de amor e carinho por aqueles horizontes que sempre nos ficaram cravados na memória desde a nossa meninice. A saudade. Termo tão próprio do ser português e do Homem Transmontano!

 

No passado dia 14 do corrente mês, levantámo-nos cedo para acabar de cobrir uma ou outra aldeia, cujo levantamento estava incompleto, e de completar mais umas 3 ou 4 que ainda restavam. Na verdade, em cada aldeia, não há cantinho que não seja “coscuvilhado”!

 

Neste post, nosso intuito não é fazer a reportagem das aldeias por que passámos e visitámos. Esse desiderato pertence a Fernando DC Ribeiro, no seu Blogue “CHAVES”.

 

Hoje queremos apenas aqui deixar uma ou outra reflexão sobre as nossas deslocações até às terras barrosãs.

 

Quem já foi lendo e vendo os posts que Fernando DC Ribeiro publicou no seu blogue sobre algumas aldeias barrosãs (da parte de Montalegre, pois Boticas, creio, virá a seguir), à parte as informações que, da sua lavra, nos vai dando, e dos autores em que se apoia cita, as suas imagens, tecnicamente bem tratadas, não nos deixam indiferentes pela sua beleza cénica.

 

Contudo, depois de observarmos e analisarmos cada post, no final, fica-nos um misto de tristeza e de melancolia.

 

Fernando DC Ribeiro não “capta” já o Barroso genuíno

 

1.- 2017.- Montalegre (36)

(Codeçoso, de Padornelos)

- pois hoje tal lhe é impossível - mas tão só a sua miragem.

 

2.- 2017.- Montalegre (48)

(Codeçoso, de Padornelos - Reflexo num lavadouro público)

Miragem na qual abundam a falta de gentes, o abandono das terras para cultivo e os tratos de polé a que a sua arquitetura tradicional foi votada.

3.- 2017.- Montalegre (41)

(Codeçoso, de Padornelos - Forno do povo)

Diz Fernando DC Ribeiro, entre um clique de uma fotografia e o enquadramento de outra, que o que lhe interessa é “captar” a essência barrosã.

Compreendemos o que ele pretende. Mas, na verdade, essa essência, positivamente, já não existe.

 

Desapareceu.

4.- 2017.- Montalegre (71)

(Mourilhe - Espigueiro em ruínas)

Porque desapareceu, está desaparecendo aceleradamente, quem dava vida ao Barroso, que tão nostalgicamente recorda da sua infância - as pessoas.

5.- 2017.- Montalegre (63)

(Gorda - Uma das poucas casas habitadas, em tempo de férias de emigrantes)

Restam algumas histórias de vida, que autores barrosões tão magistralmente nos souberam transmitir, como Bento da Cruz,

6.- 2017.- Montalegre (80)

(Peirezes - Casa que foi de Bento da Cruz)

uma ou outra construção recuperada, com os confortos modernos, mantendo a traça tradicional.

 

Tudo o resto é ruína e desolação,

7.- 2017.- Montalegre (7)

embora os esforços feitos em sede da dinamização dos diferentes núcleos do Ecomuseu do Barroso...

8.- 2017.- Montalegre (217)

(Fafião)

adotando - e servindo-se - de gente jovem.

9.- 2017.- Montalegre (212)

(Fafião - Ecomuseu do Barroso - a Mariana)

É uma realidade dura a que o Barroso, a exemplo de outras terras interiores do nosso país, a que já nos acostumamos a aceitar, sem que surja um grito de revolta consistente que inverta este estado de coisas, que está matando, e fazendo desaparecer, a parte mais genuína e mais significativa da identidade e da realidade do ser português!

10.- 2017.- Montalegre (207)

(Fafião - Ecomuseu de Barroso - Vezeira e Serra)

Obviamente que não estamos a fazer a apologia do regresso ao passado. Um passado duro, de pobreza, fome e miséria, que lançou tantos barrosões (como, aliás, tantos portugueses) na emigração, na diáspora de braços jovens que construíram outros países, enquanto o nosso marcava passo e definhava.

 

O barrosão precisa, assim como o nosso país, é de uma outra visão do futuro.

 

Essencialmente no interior, o que os nossos autarcas fazem e executam - grande parte deles muito bem - é dos que cá restam...

 

Mas isso só não basta!

 

O barrosão de hoje, a exemplo dos meados do século passado, precisa de uma nova “colonização”, de um novo repovoamento. Com outros emigrantes. Com os seus emigrantes. E outros imigrantes que para aqui queiram vir, imbuindo-se do verdadeiro "espírito do lugar". E que apostem nos ricos recursos destas terras e num novo modelo de desenvolvimento. Respeitador das suas tradições; 

11.- 2017.- Montalegre (216)

(Fafião - Ecomuseu do Barroso - Roda do moinho e "mariola")

orgulhoso da(s) sua(s) história(s) de vida; reconstruindo a arquitetura tradicional adaptada aos confortos dos tempos modernos.

 

Desenvolver este território e estas aldeias, em suma, este mundo rural,

000.- 2017.- Montalegre (180)

(Fafião - Proximidades do rio Toco)

tão rico, embora selvagem e inóspito,

001.- 2017.- Montalegre (187)

 (Rio Toco)

é, repetimos, adotar uma outra postura, apostando num outro modelo de desenvolvimento, respeitador da história,

13.- 2017.- Montalegre (154)

(Cabril - A ponte velha [romana])

das culturas locais,

14.- 2017.- Montalegre (147)

(Cabril - Igreja Matriz e envolvente)

e mais compaginável com a proteção da natureza ( e que rica natureza nós temos!),

14.- 2017.- Montalegre (141)

 e no respeito pelas diferentes diferenças e identidades e pela genuidade do modo de vida do ser barrosão, que é o mesmo que dizer, português.

 

Será que, perante esta realidade que, a nossos olhos, se nos apresenta tão deprimente, estamos a pugnar simplesmente por uma utopia?

 

Possivelmente para a maioria dos leitores que nos lê, assim será.

 

Mas, verdadeiramente, sem sonho, que seria da vida?

15.- 2017.- Montalegre (211)

E que futuro preparamos para as gerasções futuras?...

 


publicado por andanhos às 18:07
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 12 de Agosto de 2017

Por terras da Ibéria:- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca (Ida e volta) - I Parte

 

 

POR TERRAS DA IBÉRIA

 

 

CAMINHADA - DO PORTO DE SANÁBRIA A PEÑA TREVINCA (IDA E VOLTA)

 

I PARTE

 

AO LONGO DO VALE DO RIO BIBEI

 


As montanhas
são templos de encontro do homem consigo mesmo
e com a natureza mais orgulhosa.

 

Sebástián Álvaro


1.- Introdução

 

O nosso amigo Pablo Serrano Moreno sabia, há muito, do nosso interesse em atingirmos, a pé - pois doutra maneira não é possível - o teto da Galiza: o cume de Peña Trevinca.

 

A 31 de julho passado, recebo um “convocatória” de Pablo para caminharmos até Peña Trevinca, desde o Porto de Sanábria. Rezava, assim, a sua “convocatória”:
António, continuas interessado com o desejo de subires a Peña Trevinca? No sábado, 5 de agosto, vai haver uma caminhada com um grupito de amigos. Caminhada com calma. Do Porto de Sanábria a Peña Trevinca, 24 Km (ida e volta)”.

 

Ficámos-lhe com vontade. Mas, naquela altura, não lhe pudemos dar uma resposta definitiva: em primeiro lugar, tínhamos assuntos pendentes, com data, para resolvermos, e não sabíamos se os íamos cumprir; em segundo, depois do Caminho Sanabrês de Santiago, que fizemos em maio, desde Chaves até Santiago de Compostela, apenas tínhamos feito uma caminhada - e que caminhada! -, em férias, na ilha de Santo Antão, Cabo Verde.

 

De junho para cá estivemos praticamente parados. Sem treino e, pior ainda, engordámos um pouco.

 

A 1 de agosto, Pablo, completa a sua “convocatória”, esclarecendo:
Vai ser todo o dia, com 8 pessoas, mas com calma”.

 

Para quem gosta de caminhar com o máximo de 3, 4 pessoas, 8 parecíamo-nos uma multidão! É que, ao caminhar, gostamos de apreciar a paisagem, tirar fotografias e, em silêncio, meditar. Não está no nosso caminhar simplesmente “papar” quilómetros. Em suma, é um ritmo diferente, muito pouco compaginável com 8 (oito) pessoas...

 

A 2 de agosto, Pablo comunica:
No sábado, temos que sair de Verín às 7. 30 horas locais”. Ou seja, obrigava-nos a termos de nos levantar entre as 5 e as 5. 30 horas nossas, 6. 30 horas espanholas.

 

Dado o interesse do Pablo em o acompanhar - e resolvidos os assuntos que tínhamos pendentes -, decidimos encetar a caminhada e começámos a tratar das questões logísticas, perguntando ao amigo Pablo o que era preciso levar.

 

Eis a sua pronta e sucinta resposta:
Comida e Câmara. Palo para andar. E “ganas” de caminhar. E já está! Vai ser um passeio de amigos. às 19 da tarde estaremos em Verín”.

 

Dia 5 de agosto levantámo-nos às 5 da manhã. Ainda não eram bem 7. 30 horas e já estávamos sentados num dos bancos em frente à Casa do Concello, em Verín.

 

Pablo foi de uma pontualidade britânica. Às 7. 30 horas apareceu no local com o seu neto Xosé, um adolescente entusiasta das caminhadas e amante da música. A relação entre avô e neto é verdadeiramente ternurenta!


De Verín, tomámos a autovia A52 em direção a Benavente/Madrid até Villanueva.

 

Falamos de incêndios em Portugal. Ao longo da A52, por onde passámos, em grande troço, o ambiente é de idêntica desolação como em Portugal nesta época do ano!

 

Saídos da A52, tomámos a estrada ZA-102/OU-124. Isto porque, ao longo desta estreita estrada, em mau piso, com curvas e contracurvas constantes, ora estamos em território galego ora em Leonês (zamorano). A explicação que nos ia dando Pablo tinha a ver com a História e com os antigos senhores destas terras - os de Monterrei e Benavente - na conquista de terras para lenha, para se aquecerem nos invernos longo, e de caça, para se alimentarem.

 

A dada altura, um corso atravessa calmamente a estrada, penetrando no bosque contíguo à estrada. Também foi o único que, neste dia, vimos!

 

Aproximando-se as 9 horas locais, uma chamada de Urko Diaz, o organizador/guia da nossa caminhada. Xosé atendeu e respondeu que estávamos já “mui cerca” de Porto de Sanábria.

 

Passavam uns 4 ou 5 minutos das 9 horas - hora combinada para a partida da nossa caminhada ao teto da Galiza - quando chegámos à praça Laguazais, ponto de partida da nossa caminhada.

 

Vamos abrir aqui um parêntesis para explicar que não é apenas do Porto de Sanábria que se atinge Peña Trevinca. Existem duas opções e, cada uma delas, têm dois itinerários. Expliquemos sumariamente. Pela vertente galega, ou ourensana, o acesso mais cómodo é o que parte da localidade de Sobradelo; daqui, vai-se pela estrada provincial OU-122 a Casaio e, uma vez ultrapassada esta localidade, a estrada sobe até ao Porto de Fonte da Cova, a 1 800 metros, no limite entre a Galiza e Leão (Aqui, antigamente, existia uma estação de ski, hoje abandonada; em seu lugar existe um hotel de montanha) e, daqui, ora por uma pista mineira, ora a pé, em 10 Km, alcançamos o cimo de Peña Trvinca. Ainda pela vertente ourensana, existe uma segunda opção de acesso, que vai desde o vale do Xares, no município de A Veiga; chegados a A Ponte (1 100 metros), começa a subida para Peña Trevinca.

 

Pela vertente zamorana, a referência mais conhecida é a localidade de Puebla de Sanábria, tomando a autovia A52 e depois a estrada provincial ZA-104, em direção ao parque natural do Lago de Sanábria; percorridos 15 quilómetros pela ZA-103, chega-se a San Martín de Castañeda, para, ainda por estrada, se alcançar o aparcamento da Lagoa dos Peixes, onde se inicia a subida.

 

O nosso acesso por Porto de Sanábria a Peña Trevinca é um outro acesso zamorano, porquanto Porto de Sanábria pertence à província de Zamora. Mas, aqui, por estas bandas, não vimos grandes diferenças entre galegos e castelhanos!


2.- O Percurso

 

Depois de perguntarmos a um residente do Porto de Sanábria onde ficava a praça Laguazais e estacionado ali o carro, fomos ao encontro dos nossos companheiros de caminhada. Afinal, connosco os três, eram mais dois - Urko Diaz e Alfonso Granja Bruña; passados uns minutos aparece um terceiro - Antonio -, que apenas cumpriu, sensivelmente metade da caminhada, abandonando-nos na hora do almoço, pois, por afazeres pessoais, tinha compromissos para o fim da tarde e princípio da noite.

 

Eram sensivelmente 9. 30 horas locais quando saímos da praça da terra, junto ao tanque,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (3)

para darmos início à nossa caminhada.

 

O sol já estava bem desperto e, à nossa frente, por uma estrada de cimento, ia o amigo Pablo com o seu neto Xosé.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (7)

Saídos da aldeia, e já um pouco ao longe, a silhueta do casario de Porto de Sanábria.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (12)

À nossa frente, agora, ia, do lado direito, Urko, o organizador/guia da caminhada, de Porto de Sanábria, a seguir, Antonio, um residente destas paragens sanabresas, e depois, Alfonso Bruña, um natural também do Porto de Sanábria, mas há mais de 30 anos radicado em Madrid. Quanto a este nosso companheiro/caminheiro vamos ter oportunidade, mais para a frente, e demoradamente, falar dele. Por agora basta a apresentação do seu nome.

 

Mais atrás, o jovem Xosé, neto de Pablo e, na cauda, os dois velhotes - Pablo e o segundo António.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (19)

Perdoem-me os leitores: falta mais uma personagem - a “perrita" (cadela) de Alfonso -, a Trini(dad), que nos acompanhou desde o princípio ao fim, sempre irrequieta e animada, ora indo à frente, ora aproximando-se do seu dono, e, sempre que via um pequeno curso de água ou um charco, tomava sempre um banho, quer fosse água límpida ou barrenta. Ei-la, minúscula, à nossa frente, ao encontro de Pablo,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (21)

que, uns metros mais à frente se junta a seu neto e começa a entabular conversa sobre estas terras e estas suas gentes,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (26)

enquanto, à nossa direita, por entre terreno rochoso, o rio Bibei irrompe, fazendo a sua travessia que o irá lançar nos braços do rio Sil, afluente do Minho.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (27)

Percorridos sensivelmente 3,3 Km, acercamo-nos da Casa da Cacheta.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (35)

A Casa da Cacheta outra coisa não é que um estábulo para recolha do gado.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (38)

Ao longo deste pequeno vale do rio Bibei encontram-se muitas destas construções, que lhes chamam “cabanas”. Neste vale do Bibei, com vegetação baixa e poucas árvores, as gentes da terra dedica-se à pecuária e ao cultivo de cereais.

 

Atravessado o rio Bibei, de água límpida, rodeado de árvores ripícolas,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (40)

aos 3,6 Km vamos encontrar um bosque de azevinho - o Acerbal de Grañeiro.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (49)

Ao Km 4,3, mais um outro bosque de azevinho - o Acerbal de (Her)meadas.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (52)

O azevinho (ilex aquifolium), tal como em Portugal, aqui é uma espécie, árvore de pequeno porte, protegida.

 

Uma travessia do Bibei e, mais uma vez, a Trini aproveita para dar um outro mergulho na água.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (54)

Mais uma outra “cabana” abandonada, rodeada de carvalhos (robles).

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (60)

Caminhando ao lado do rio Bibei, vamos em direção a Valdetendas.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (66)

O Bibei, com as suas águas límpidas, prende-nos constantemente a nossa atenção.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (71)

Este pequeno vale, por onde transcorremos, é refúgio de animais como o corço e o javali, protegendo-se das inclemências do inverno, ao mesmo tempo que, no verão, é o seu lugar fresco.

 

Ao Km 5,6, estamos a passar numa outra “cabana” - A Casa do Castelo.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (73)

Continuando com a nossa jornada, a dada altura, Pablo para junto destas duas pequenas árvores, uma junto à outra.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (75)

Ele, um “especialista” florestal, elucida-nos, identificando-as: a do lado esquerdo, o nosso célebre azevinho; a maior, do lado direito, é a tramazeira ou cornogodinho (sorbus aucuparia). O nosso amigo Pablo e os galegos dão-lhe o nome vulgar de “cancereixo” ou “serval de los cazadores”.

 

Uns metros mais à frente, aparece-nos o salgueiro, a quem lhe também lhe dão o nome de borrazeira, cinzeiro ou vimieiro preto (salix atrocinera).

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (76)

Cada vez mais nos aproximamos da verdadeira subida a Peña Trevinca.

 

E continuam a proliferar as pastagens rasteiras,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (85)

(Uma perspetiva)

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (86)

(Outra perspetiva)


com “cabanas”.

 

E pouco tardou para que passávamos por mais duas delas, instaladas nesta paisagem, chamando-nos Alfonso a nossa atenção para o "Penedo Niegro", lá ao cimo, no lado direito. 

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (89)

Entretanto, ultrapassávamos a penúltima passagem sobre o rio Bibei.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (90)

Na nossa linha do horizonte, curta, a visão do início da montanha encheu-nos os olhos.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (93)

(Uma perspetiva)

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (97)

(Outra perspetiva)

 

Percorridos 7, 1 Km e, na veiga de Valdetendas, deixámos o bem cómodo e bem compactado caminho da nossa rota e começámos a penetrar nos contrafortes do pico Moncalvo.


Depois de feita a última travessia do rio Bibei, começa aqui a nossa verdadeira subida até à “cumbre” de Peña Trevinca,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (98)

indo ao encontro desta manada de bovinos.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (105)

Trini sentia-se feliz, não parando de andar de um lado para o outro, com a aproximação das vacas e de um ou dois bois. Ela deve ser, com certeza, uma descendente dos antigos cães da transumância destas paragens.

 

Segundo nos foi explicado por Pablo e Alfonso, nestas manadas podemos encontrar as seguintes raças:
* a “vaca del país” ou sanabresa, que está em perigo de extinção, e que apenas existem 1 500 exemplares;
* da província de Zamora, a alistana sanabresa e a sayaguesa;
* da província de Ourense, a cachena, a de límia, a de caldelas, a frieiresa e a vianesa (de Viana do Bolo);

* do norte de Portugal, uma ou outra mirandesa e barrosã
* e, finalmente, em muito menor quantidade, a maronesa (do Alvão).


Uma diversidade significativa de exemplares.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (111)

Enquanto começávamos a subir e, do alto, obtinhamos uma melhor perspetiva da “nossa” manada,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (118)

Alfonso foi-nos dando indicação de ser um perfeito conhecedor não só do “seu” território como da vida das suas gentes. Homem, como dissemos, radicado há 30 anos em Madrid, mas natural de Porto de Sanábria, todos os anos não passa sem vir à sua terra natal durante, pelo menos, 15 dias. Nesses 15 dias que aqui permanece faz este percurso uma ou mais vezes. É um verdadeiro exemplar do enorme amor ao terrunho que o viu nascer, em tempos difíceis, quando estávamos vivendo, tanto lá, quanto cá, em tempos de “vacas magras”.

 

Ei-lo, à nossa frente, pisando firme as terras que lhe são tão conhecidas, e que lhe trazem tantas recordações da sua meninice e que, por isso, tanto ama!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (122)

Mais à frente explicaremos porque, na nossa ótica, Alfonso tanto ama e gosta de percorrer estes “horizontes”.

 

Agora é tempo de fazermos uma pausa, ou “paragem técnica”, para comer, beber água e descansar um bocadinho,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (125)

nas proximidades de um pequeno regato de água límpida, onde nos abastecemos,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (128)

enquanto apreciávamos uma planta - uma framboesa selvagem.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (127)

Deixamos aqui aos nossos leitores um vídeo produzido pelo nosso organizador/guia desta caminhada - Urko Díaz - sobre a sua terra natal - Porto de Sanábria.

 

PORTO DE SANÁBRIA - POR URKO DÍAZ

 


publicado por andanhos às 20:53
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 11 de Agosto de 2017

Versejando com imagem - Lá vai meu pobre espírito ansioso (Teixeira de Pascoaes)

 

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

Lá vai meu pobre espírito ansioso

 


Lá vai meu pobre espirito ansioso,
Através dos espaços confundidos,
De estrelas hesitantes, brancas nuvens
E nocturnos desertos esquecidos...

Ando em procura de mim próprio; eu ando
Ao longo da infinita solidão
E de forças ocultas, que se cruzam
Num sítio, que é meu triste coração!
Eis que me perco, em grande labirinto!
E, perturbado e doido, apenas vejo
Onda fatal de comovido instinto,
Que me impele, violento, para um negro,
Misterioso abismo...

Como a espuma,
Foilha das águas, com as águas vai,
Na cerração fantástica da bruma,
Enlouquecido, vou levado, à tona
Dum alteroso mar de sentimento!
Qual o destino meu? Quem me responde?
Que diz a noite às lástimas do vento?
Que dizes tu, meu coração aflito?
E lá vais, e lá vais, arrebatado
No dorso dum dilúvio! E fico, a sós
Comigo, esse misérrimo punhado
De arrefecida cinza e vã tristeza!

Desconheço, meu corpo, a tua essência
Sombra animada de íntimo luar.
És feito de invisíveis elementos,
Embora te descubra o nosso olhar...
Miraculoso peso, assim composto
De imponderáveis cousas! Forma viva,
Contendo a indefinida morte escura,
A vaga Identidade primitiva...

Alma e corpo, que sois? E quem és tu,
Ó voz que os interrogas? Quem sou eu?
Sombra da terra, fala! Ó tu, que és feita
Talvez de toda a luz que tem o céu!»

Estas palavras, loucas, sem sentido,
Que os seus lábios proféticos disseram,
De eco em eco, arrastadas pelos vales,
Numa poeira de som se desfizeram...
Poeira que sobe, e é névoa de silêncio;
Névoa que arrepiada e fria aragem,
Perpassando, condensa, e é humano canto,
Doce marulho de água ou de folhagem.

 

(excerto do poema V Chegada de Marânus à Montanha, de Marânus)

20170709_054411

 (Imagem de Eduardo Santos Leite)


publicado por andanhos às 20:36
link do post | comentar | favorito
|

Versejando com imagem - As sombras (Teixeira de Pascoaes)

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

As Sombras

 


Olha, contempla o espírito soturno
E original; contempla a
Sombra enorme
Que, de alto a baixo, se rasgou, tal como
Os negros véus do templo.

E dessa informe,
Estranha sombra cósmica saiu
Claridade espectral, quase invisível;
Um desmaio que, pouco a pouco, abriu
Seus olhos num olhar de Nebulosa.
E logo a etérea Névoa desejou
Ser uma estrela a desfazer-se em luz.
E a estrela ardente quis ser mundo gélido,
Regado com o sangue de Jesus...

Então, a clara estrela arrefecida,
Sob os beijos da aurora que a fecundam,
Mudou-se em tenra planta enverdecida,
Que depois se tornou, por um milagre,
Criadora também...

E as aves voam
No céu; e pelas selvas, que estremecem,
Sinistros animais, ainda indecisos
E grandes como sombras, aparecem...
O sol, em fúria e raiva, neles arde...
São deuses monstruosos, sanguinários,
Que vão criar o homem que, mais tarde,
Será Buda e Jesus...

Estes dois Santos
Deram, por sua vez, divina origem
A Deus, o Ser perfeito e sempiterno;
A Vida Espiritual, mais alta e virgem,
Que todos nós sonhamos, sobre a terra.

 

(Teixeira de Pascoaes)

 

20170709_065225

 (Imagem de Eduardo Santos Leite)


publicado por andanhos às 15:41
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

Versejando com imagem - O Nascimento (Teixeira de Pascoaes)

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

 

O Nascimento

 

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Rompendo a sombra etérea do crepúsculo!
A paisagem tornou-se mais estranha,
Mais cheia de silêncio e de mistério!
Dormem ainda as árvores e os homens,
E dorme, em alto ramo, a cotovia…
E, se ergue já seu canto, é porque sonha
julga ver, sonhando, a luz do dia!

E, pelos negros píncaros, a estrela
É divino sorriso alumiante.
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
É lírio de oiro aberto! É rosa a arder!

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Tão virginal, tão nova, que parece
Sair das mãos de Deus, a vez primeira!

E como, sobre os montes, resplandece!

Persegue-a o sol amado... No oriente,
Alastra um nimbo anímico de luz.
E a antiga dor das trevas, suavemente,
Ondula, em transparência e palidez.

Aí vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela... E cá na terra
Há mágoas e penumbras, a fugir...

Como ela voa, cintilando e rindo
Aos penhascos agrestes e desnudos!

E os pastores, atentos, vão seguindo
A direcção etérea do seu voo...

E a quimérica estrela deslumbrante
Parou sobre a capela, onde a Saudade
Agasalhava o Deus recém-nascido,
Com seu manto de amor e claridade.
E, amparando-o nos braços, lhe estendia
Os seios maternais. A criancinha
Mamava. E a Saudade lhe sorria,
Num enlevo, num êxtase sagrado.

A primavera, errante no Marão,
Veio cobrir de lírios e de rosas
O berço do Menino. E veio o outono,
E vieram ermas sombras dolorosas.
Logo, o outono rezou a sua prece

De cinzas e de bruma. E o lindo sol,
Entrando pelos vidros, aparece,
Junto ao pequeno berço. E toda a luz
Do céu veio com ele! E veio a noite.
Vieram as avezinhas, que deixaram,
No recôndito ninho, abandonados,
Os filhos ainda implumes. E cantaram
Em louvor do Menino e da Saudade.

E Marânus sentia, mais alegre,
Tornar-se vida, amor, fecundidade,
A sua antiga e mística tristeza.

E, ao ver a própria alma da sua raça
Criar a Virgem Mãe dum novo Deus,
Eis que à flor dos seus lábios esvoaça
O sorriso supremo da vitória.

E a Saudade, num casto e luminoso
Gesto de amor, tomando, novamente,
O Menino nos braços, o embalava.
E sobre ele inclinava docemente
A fronte aureolada. E uma canção,
Que era feita de todas as cantigas,
Mais num murmúrio brando de oração

Que em voz alta, cantava. E o Deus menino,
Com os olhos abertos, num espanto,
Recebia do mundo a clara imagem
E o seu nubloso e misterioso encanto...

Também o bom pastor, a quem Marânus
Havia prometido o Nascimento,
Sentia em seu espírito surgir,
Envolto num astral deslumbramento,
Estranho e novo ser, que dissipava
O seu velho crepúsculo interior,
Onde um fantasma, trágico e nocturno,
Aparição do medo e do terror,
Furibundo, reinava, desde os séculos!

O Menino crescia, como a aurora
Que, sendo esparso vulto de mulher,
Na linha do horizonte, que descora,
Lembra a auréola dum Deus anunciado…

Em volta dele, as coisas se animavam
Dum sentido mais belo e verdadeiro;
E a sua alma oculta desvendavam,
Como na luz primeira da Existência.

Mundo transfigurado! Ó terra santa!
Ó terra já divina e toda erguida
Àquela altura ideal da Eternidade,
Mais uma vez, a morte foi vencida!

Alguns dias passaram. E Marânus
Disse que ia partir à sua Esposa,
E que se entregava ao casto amor, tão puro,
Desta leal paisagem montanhosa.
E, chorando, abraçava-a, e repetia
Que tinha de partir; mas, dentro em pouco,
Por uma clara noite, voltaria.

E a trágica Saudade, sufocada:

«Eu bem conheço a voz que te chamou!
Voz que ilumina as árvores e as nuvens,
E que meu ser antigo transformou
Neste meu ser anímico e perfeito.»

E, mais serena e resignada: «Vai!
Cumpre a sua vontade. É teu destino...»

E beijando-o nos lábios, e tomando
Em seus braços de imagem o Menino,
Subiu a um alto píncaro escarpado,
De onde ela, por mais tempo, contemplasse
O esposo e companheiro bem amado.

E, sozinha, de pé, sobre um rochedo,
Disse-lhe um longo adeus.
E, já distante,
Marânus, ansioso, para trás
Volvia a face triste, a cada instante.
E parava, cismando…
Mas, ao longe,

O corpo da Saudade, vago e incerto,
Perdia-se, no ar que se turbava...

Anoitecia. A serra era um deserto.
E Marânus seguia o seu caminho.

 

Teixeira de Pascoaes,  'Antologia Poética'

20170709_060811

(Imagem de Eduardo Santos Leite)

 


publicado por andanhos às 16:19
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017

Versajando com imagem - Marânus e a Pastora (Teixeira de Pascoaes)

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

Marânus e a Pastora

 

Já na serra fronteira, a deusa Aurora
erguia o facho aceso; e já, nas fontes,
os seus cabelos de oiro derramava,
e nas encostas íngremes dos montes,
quando a brisa, pousando etérea mão
no rosto de Marânus, o acordou.
E, animado de nova comoção.
Olhava as formas belas da Natura.

Que infinita alegria misteriosa
parecia baixar, na luz do sol,
e inundar a paisagem radiosa,
cravejada de lumes e de cores!

E Marânus sorria, num desejo
alado de voar! E, no seu corpo,
um vago, esparso, indefinido beijo
acendia-lhe o sangue alvoroçado.
Cantava, como as aves matutinas,
unicamente por sentir a vida,
por se sentir viver!


Teixeira de Pascoaes, Marânus

20170709_061052

(Imagem de Eduardo Santos Leite)

 


publicado por andanhos às 17:23
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 8 seguidores

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.posts recentes

. Versejando com imagem - S...

. Reino Maravilhoso - Douro...

. Versejando com imagem - T...

. Por terras de Portugal - ...

. Palavras soltas... Entre ...

. Ao Acaso... Lago de Sanáb...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras da Ibéria - Ri...

. Versejando com imagem - L...

. Palavras soltas... em Dia...

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo