Domingo, 12 de Junho de 2016

Reino Maravilhoso - Alto Tâmega e Barrroso - Da água (termal) ao vinho - Quinta do Calvário (Vilarinho de Paranheiras)

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO

 

DA ÁGUA (TERMAL) AO VINHO

 

- QUINTA DO CALVÁRIO -
(Vilarinho das Paranheiras)

02.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (2)

Enquanto, no dia 10 passado, andávamos pelo Trás-os-Montes profundo, o Barroso, inaugurava-se em Vidago o «Balneário Pedagógico de Investigação e Desenvolvimento de Práticas Termais de Vidago».

 

Se a estratégia integrada de desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso) aposta num recurso endógeno - a água, e concretamente no Município de Chaves, a água termal - como recurso fundamental para o seu desenvolvimento, naturalmente que teremos de aplaudir esta iniciativa e este investimento que agora se materializou.

 

Temos já fundadas dúvidas quanto ao facto deste investimento, só por si, seja gerador do emprego de que tanto se apregoa.

 

Falámos nos nossos «discursos», na rubrica «Discursos sobre a cidade», no blogue «CHAVES», a propósito da Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega, documento mandado elaborar pela CIM - AT (Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega).

 

Mostrámos as nossas apreensões quanto ao tão apregoado desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso), plasmado naquele documento, e quanto à eficácia da sua implementação no que concerne ao envolvimento dos atores (todos) locais/regionais.

 

Há uma outra vertente que não foi suficientemente abordada e que urge ser referida. Trata-se da palavra “integrado” aposta naquele documento - Estratégia integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega. Quando se fala em integrado quere-se dizer que tudo se faça tem a ver e está em relação, quer a montante, quer a jusante, com um determinado projeto, ação ou atividade que se considera, em princípio, fundamental (ou estruturante). Ou seja, e para sermos práticos, um balneário como aquele que se acaba de ser inaugurado em Vidago pressupõe que, ao mesmo tempo que é implementado e realizado, um outro conjunto de iniciativas e ações que, simultaneamente, devem ser levadas a cabo para que a sua eficácia seja plena (ou tenda para a sua plenitude).

 

Por isso, pergunta-se: o que foi feito, tendo em conta o que se prescreve, a páginas 83, quando se afirma, no documento Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega, quanto à “preocupação com a necessidade de funcionamento de todos os atores em articulação, interagindo num contexto de rede que ultrapasse uma lógica mais individualista e favoreça uma abordagem holística e integrada capaz de gerar benefícios para todos as partes”?

 

Se olharmos para o entorno do Balneário Pedagógico de Vidago o que vemos é, sob o ponto de vista paisagístico, uma preocupante desolação! Onde se vê o tão apregoado empreendorismo, iniciativa individual e criatividade dos particulares na reativação das suas velhas pensões, residenciais e hotéis, capazes de atrair clientela, novos clientes, para Vidago? Onde estão as infraestruturas de animação termal e turística para o local, face aos novos perfis de aquistas? Que estratégia de comunicação se usou para que os vidaguenses sintam esta obra como sua e se mobilizem, todos, revisitando a sua prestigiada história termal, e, qual Fénix renascida, contribuam para criar uma nova idade de ouro em Vidago, com desenvolvimento, emprego, qualidade de vida e justiça social?

 

Ouvimos dizer em Minas da Borralha - a quem viu a reportagem da inauguração -, por onde passámos, naquele dia 10 de junho passado, que o Presidente da edilidade flaviense depois de falar da água (termal) passou para o vinho. E elogiou a iniciativas de alguns empresários vitivinícolas da parte sul do concelho pelo seu empreendorismo e capacidade exportadora dos seus produtos. Obviamente, ficou-lhe bem aquelas palavras de apreço.

 

Mas não podemos ficar indiferentes e calados quanto ao que vemos, naquele mesmo território, em termos de gestão, ordenamento do território e preservação e valorização do nosso património agrícola.

 

Se o desenvolvimento deve ser integrado, onde pára a magistratura de influência dos nossos políticos locais, a mobilização doa atores em rede para incentivar e dinamizar a iniciativa privada na valorização do território e de um rico património, quer agrícola, quer urbano, que está a ficar em ruínas?

 

De um arquiteto paisagista exige-se a sensibilidade para entender que não é apenas uma obra termal ou uma vinha bem tratada, e de qualidade, que, depois, fala pelo todo. Positivamente, tudo tem de ser visto numa perspetiva holística!

 

Vejamos o que, de Chaves, descendo para Vidago, em Vilarinho das Paranheiras, um dia, nossos olhos foram encontrar:

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Parámos o carro e atrevemo-nos a ir ao local.

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Pensávamos ser uma casa, mais uma entre muitas outras, que deveria ter alguns “pergaminhos”, os seus tempos áureos e, agora, possivelmente, expectante no mercado imobiliário. Tudo à sua volta está inculto e ao abandono. Não sabemos quem seja o seu proprietário (ou proprietários). Mas, pelo estado total de abandono, já não lhes preocupa o imóvel. Provavelmente apenas o local, naquele que outrora foi uma rica propriedade agrícola (vinha) e agora, espartilhada pela EN nº 2 e pela A24.

 

Nossa curiosidade foi tanta que não resistimos entrar. Aliás, as suas portas estão completamente abertas de par em par...

 

E ficámos de boca aberta quando, a nível do rés-do-chão, damos com isto:

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 Quatro grandes lagares feitos em boa pedra trabalhada de granito. E tudo ao completo abandono!

 

Demos a volta à casa. Sua arquitetura do século passado não seria para preservar?

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 Do lado oposto, e ainda a nível do rés-do-chão, mais espantados ficámos quando vimos isto:

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 Reparámos numa porta,

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 e entrámos para uma outra dependência. O espetáculo ainda era mais desanimador!

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 E, intimamente, interrogávamo-nos: como isto é possível?

 

De patamar em patamar, nossa curiosidade ia aumentado. Subimos as escadas rumo ao 1º andar.

 

Do terraço maior da casa, eis a paisagem que se vislumbra:

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 E, noutro ângulo, do mesmo:

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 De resto, tudo quanto à volta da casa se vê e dentro dela é só abandono, ruínas e desolação.

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 Vejamos apenas um "quadro" - até dos menos deprimentes - da mesma e digam se não é uma “dor de alma”!...

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 E, mais uma vez nos interrogávamos: como isto é possível?

 

Contudo, no meio deste total abandono, eis esta janela, mostrando o seu entorno. Será que funcionará como uma “janela de oportunidades” para este espetáculo tão deprimente?

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 Saímos do interior da casa e regressámos ao exterior.

 

Nossos olhos dirigiram-se para este canto de um terraço.

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 Vejamos, agora, o pormenor do telhado.

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 Tristes, saímos deste local fantasma, que já teve o seu período de esplendor, olhando, uma vez mais para o vulto que deixávamos para trás.

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 E, por uma terceira e última vez, nos interrogávamos: como isto é possível?

 

No mundo do futebol há “olheiros” para, observando, detetarem as novas promessas, capazes de dar glórias, muitas alegrias aos adeptos e dinheiro para os clubes.

 

Os nossos (pseudo) neoliberais, que governam os destinos desta nossa terra, não têm “olheiros” para verem isto e irem à procura de quem se interesse por este património, incentivando os privados na rentabilização deste “valor”?

 

Afinal de contas onde anda a "magistratura de influência", a inovação e o empreendorismo dos políticos de turno da praça que nos governa? Elegemo-los para promoverem o desenvolvimento do nosso território, quer público, quer privado, ou apenas para “governarem”, a seu bel-prazer, com os impostos de todos nós, apenas fazendo obras, que, no final, não passam de fachada?

 

Falamos hoje muito do bom vinho que no sul do concelho se produz. O do que ficou do vinho que se produziu nesta Quinta do Calvário, em Paranheiras?

Livro da Quinta

 É desta forma que promovemos uma estratégia integrada de desenvolvimento para o concelho e para a região?

 

Passo agora a palavra ao leiotr (a)...


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Sábado, 11 de Junho de 2016

Palavras soltas... No Barroso, no Dia de Portugal

 

PALAVRAS SOLTAS...

 


NO BARROSO, NO DIA DE PORTUGAL

 


Ontem, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, saí do Portugal “real” que todos os dias nos entra pela casa dentro pelos media e fui, com três amigos, fazer uma “imersão” no Portugal profundo para o qual, todos os dias, é dia de Portugal, que é o mesmo que dizer, de labuta, de trabalho, de canseira e do constante cuidar da vida.

 

Um pedaço de Portugal profundo e esquecido, que, infelizmente, há muito por esse Portugal fora. Mas o Barroso, de uma forma muito particular.

 

No périplo que ontem fizemos pelas aldeias de Salto, em alguns lugares, os seus habitantes, chamam-lhes terras esquecidas; outros, desterradas e, ainda outros, de condenadas.

 

O nosso poeta maior Torga chamou-lhe de Reino Maravilhoso. Porventura teria razão. Mas ontem fiquei com outra impressão: na essência, o reino das pessoas simples, solidárias e acolhedoras, ele aí ainda está. Feito quase só de velhos e de raros “renovos”. E, salvo um ou outro “oásis”, que alguns mais resistentes ou saudosos da sua infância pobre, mas feliz ali vivida, tentam preservar e edificar, tudo o resto é ruína e abandono...

 

Fez-me bem ir ontem até ao sopé da serra da Cabreira.

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Quando chegámos a Paredes, José, com o seu filho Pedro, estavam a deitar as vacas para o monte.

 

Pobre das coitadas! De tão pouco estarem habituadas à presença de outros humanos, assustaram-se e, estacando, não queriam andar.

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O petiz Pedro avança. E daí começa:


- Anda Cabana!...


E a Cabana lá veio.

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Mas, ao aproximar-se de nós, dá uma corrida pelo pedrado da calçada abaixo.

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As outras não queriam vir.

 

E outra vez o Pedrito,

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com uma paciência e experiência adquirida na convivência com este mundo, que ele já tão bem domina, recomeça:

 

- Anda Formosa... Pinta... Bonita... Concha... Vermelha... Morada... Nogueira... Minhota.... vamos!... E o rol de nomes não parou até à trintena!

 

A certa altura, oiço-lhe um nome masculino:


- E tu, Gancho, anda!

 

E o Gancho lá foi para a coorte, sabendo que hoje não ia passar a noite no monte com as suas “meninas”.

 

No final, aparece o pai José.

 

Começámos a meter conversa com ele, falando da sua aldeia quase deserta; da sua vida; dos seus petizes.

 

Enquanto meus camaradas iam ouvindo-lhe as suas histórias, eu “espalhei-me” pela aldeia, tentando captar esta dura e desértica realidade.

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A certa altura, um meu amigo, dirigindo-se ao senhor José, com os olhos postos na serra da Cabreira em frente, afirma:

 

- Isto aqui é praticamente Cabeceiras, Minho.

 

Palavra que dissesse! De pronto, e com um orgulho emocionado, José riposta-lhe:

 

- Não senhor, isto aqui é Barroso!

 

Sorrateiramente, a mãe e avó Maria Rosa, aproxima-se do grupo para se inteirar do que se passava.

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Sabendo que a sua “cria” estava entre gente amiga, encostada à parede das ruínas de uma casa de habitação, olhava embevecida para o grupo, em amena cavaqueira, num quase final de tarde.

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Da vida da mãe e avó Maria Rosa, e de seu marido, vivida grande parte nas Minas da Borralha, viemos a saber mais tarde, quando chegados às Minas.

 

Sem darmos por ela, aparece-nos um prato com presunto e pão; copos e um garrafão de vinho.

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Era para nós. Tínhamos de comer. E, embora satisfeitos com a “janta” em Salto, ainda encontrámos um lugarzinho no estômago para agradar a tão amável gente.

 

No final, em terras profundas do Barroso, brindámos ao Barroso, à amizade e a Portugal.

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(Pedro com o meu copo, brindando)

Eram horas de partir. O programa do nosso périplo pelas aldeias ou lugares da freguesia de Salto estava quase feito. Faltava Minas da Borralha e mais duas aldeias, mais à frente.

 

E lá fomos.

 

Para trás ficaram estes olhos, lembrando-me a minha infância passada no “meuDouro.

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Não entrei a fundo na discussão dos meus amigos quando uns, achando-se verdadeiros barrosões e/ou transmontanos, me chamaram simplesmente duriense, esquecendo-se dos 50 anos de vida passada em terras mais a norte do Alto Douro!

 

Onde está a verdadeira “gema” transmontana ou barrosã destes inveterados citadinos que, de vez em quando, a modos de matar (supostas) saudades, trazem para casa algumas centenas de fotos de um “mundo” no qual - se, porventura, num pequeno instante das suas vidas ali viveram -, há muito que já lhes passa ao lado?

 

Pela minha parte não pretendo exibir qualquer “fidalguia” que me superiorize aos demais.

 

Se nasci no Douro - do qual muito me orgulho -, meu desiderato é, tão só, nas respetivas diferenças, encontrar não aquilo que nos separa, outrossim, aquilo que nos faz verdadeiramente portugueses.

 

Ontem, no Barroso, como noutra altura qualquer, e noutro sítio deste nosso pequeno e rico recanto português, ou da diáspora, em fui “respirar” uma pura e dura realidade que é ser português, borrifando-me em quem é mais autêntico e genuíno, ou quem melhor retrata Trás-os-Montes, e particularmente Barroso, se Torga ou Bento da Cruz, ou outro transmontano e alto duriense qualquer!

 

Mais do que o berço, o que mais me interessa é a alma, com as suas diferentes matizes, no seu verdadeiro e genuíno sentir, cantar e descrever, cada um a seu jeito, as nossas terras e as suas gentes... independentemente do que cada um, individualmente, seja!...

Nona

 

12.- 2016 - Barroso (Salto II) (622).jpg


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Quinta-feira, 9 de Junho de 2016

Memórias de um andarilho - Caminhada na Linha do Corgo - Samardã -Vila Real

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS

 

01.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO CORGO


(Samardã - Vila Real)

- 7.novembro. 2010 -

02.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

(Em Vilarinho da Samardã)

 

Se Camilo o diz, porque o havíamos de negar?

 

Lá que ele teve uma vida conturbada, isso é verdade. E que o campo, o mundo rural, com todo o seu ambiente natural e humano, torna-se, por vezes, para aqueles que vivem uma vida agitada nas cidades, um elemento de paz e tranquilidade, um lenitivo para a alma, estamos de acordo. Tanto mais quando dito por um escritor considerado um dos expoentes máximos da literatura romântica portuguesa.

 

03.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Só que, nos tempos que correm, quem liga e cuida deste mundo quase em extinção, onde tudo quanto foi construído pelo homem, e considerando progresso, está a ser “comido”, não só pela vegetação “selvagem”, como pelo abandono, sendo “pasto” para destruição e desolação a que a falta do cuidar o transforma?

04.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Pagámos, como país - que é, como dizer, todos nós, passados e presentes -, uma fortuna de dinheiro na compra e expropriação de terrenos para os diferentes trajetos das linhas férreas; instalações e equipamentos que, salvo melhor opinião, quase um século levámos a saldá-los!

05.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Entretanto, novos hábitos de viajar aparecem, cedendo o ferro lugar ao betão e ao asfalto.

06.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-
(Viaduto sobre o rio Felgueiras)

 

E perguntámo-nos: o que fizemos aquilo que é de todos nós e nos custou tão caro? Soubemos-lhe dar outros destinos e outras valências, compatíveis com as novas necessidades dos tempos que correm?

 

Quanto ao trajeto desta linha, apenas o Município de Vila Pouca de Aguiar teve a “coragem” de o transformar numa ciclovia. Segundo supomos, havia um compromisso dos Municípios de Chaves e Vila Real para também fazerem o mesmo. Como relatámos e mostrámos no post anterior quanto da rubrica «Memórias de um Andarilho», na etapa que fizemos entre Vila Pouca de Aguiar e (Vilarinho de) Samardã, não foi isso que aconteceu. Quais as razões? Se os responsáveis que superintendem diretamente sobre este território não gostam de ciclovias, não há outros destinos para estes “canais” que, no século XIX, foram abertos e que fazem parte não só do nosso património mas também da nossa história comum como povo e como região?

 

Aquilo que aqui se mostra,

07.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 
não se trata, manifestamente, de uma negligência criminosa, deixando que este património, repete-se, pago por todos nós, se delapide?

08.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 
Será que paisagens como esta é uma vergonha de ser mostrada?

09.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Há que abrir “novos caminhos” para estas infraestruturas em ruínas, portadoras de futuro - e que no passado tiveram sentido -, para estas terras e para outras gentes.

 

Transitáveis não apenas por um solitário caçador, com os bolsos repletos de cartuchos cheios e o cinturão cheio de nada,

11.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

mas por gente nova, amante do seu terrunho e que, dele, goste e tenha prazer em “colher frutos”.

12.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

Gente ciosa das suas aldeias e do seu património, quer natural, quer cultural. Da natureza, com as suas serras emblemáticas, entre elas, a Padrela, o Alvão e o Marão; da cultura, desde os usos, costumes e tradições das suas gentes, já infelizmente pouca, que habitam as nossas aldeias, e das construções que, ao longo dos séculos, ergueram.

13.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 


Até aqui,

14.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 
atrás do grupo dos nossos três companheiros de jornada, em outra coisa não pensávamos senão nesta triste realidade. Um solilóquio connosco próprio, para não tirar a alegria a quem ia à nossa frente, entretendo-se contando histórias das suas vidas, passadas já muito longe destas paragens do nosso Reino Maravilhoso, cantado pelo nosso poeta maior, Torga.

 

Depois de Abambres, olhámos para o novo casario da cidade de Vila Real, ora numa perspetiva, num troço,

15.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


ora noutra, e noutro troço, sempre com o Marão de guardião.

16.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

Ao fundo, e noutro troço - entre o campo outonal e o novo casario da expansão urbana da vila -, paira uma outra serra protetora - o Alvão -, em que, nos seus cumes, outros deuses a habitam, os das ditas energias renováveis (ou limpas...), marcando, indelevelmente, a sua presença na paisagem, “marcando-a”, definitivamente.

17.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Até que, aproximando-nos, cada vez mais, da estação de Vila Real, começámos a ver os carris da Linha do Corgo,

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em que já não se distingue o que é público e o que é privado.

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Atravessando uma zona francamente urbana, em que a cobiça ou a avidez alheia ainda não teve coragem de arrancar os carris do troço da Linha,

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chegámos, finalmente, à Estação de Vila Real.

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Esta imagem,

22.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


bem como esta,

23.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


são memórias que ainda aqui estão. Até quando?...

 

E este edifício da Estação, pelos seus dizeres (logotipo), ainda pertence à REFER, empresa que “explora” a defunta Linha. Para que vai servir, uma vez que o trajeto entre Vila Real e Régua também lhe foi passado o atestado de óbito?

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Fomos para o Largo da Estação, onde a nossa Ni nos esperava para nos levar de volta a Chaves.

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Percorremos, neste dia - 7 de novembro de 2010 -, entre (Vilarinho de) Samardã e Vila Real, 13 814 metros.

Caminhada Linha CP Samardã-Vila Real  (Wikipédia

 

Ficou combinado que o troço entre Via Real-Povoação e Povoação-Régua seria efetuado nos dias 20 e 21 de novembro de 2010, e com outra logística.


publicado por andanhos às 14:43
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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Caminho de São Salvador - Cabanillas-La Robla

 

 

DE LA PULCHRA LEONINA A LA SANCTA OVETENSIS

 

CAMINHO DE SÃO SALVADOR

 

01.- la--conrobla_472671.jpg

 

2ª etapa:- Cabanillas-La Robla
(29.abril.2016)


O Caminho desde Cabanillas até La Seca decorre, mais ou menos, em meia encosta, num sobe e desce constante, embora não muito acentuado, como foi o troço da 1ª etapa, depois da aldeia fantasma de Villabura.

02.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


A vegetação continua a seu marcada pelo seu caráter mediterrâneo, em que o carvalho, mas mais agora a azinheira, que aqui tem o seu terreno de eleição.

 

Nas proximidades de La Seca, situada do outro lado do rio Bernesga, o nosso sempre presente companheiro, à esquerda, chega-se junto de nós, por entre azinheiras, terreno cascalhento, cor de barro.

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Como La Seca fica na outra margem, fora do traçado do nosso Caminho, estávamos para ir em frente. Mas, ao aproximarmo-nos da povoação, e da ponte que liga La Seca da nossa margem, Florens vê um reclame a chamar-lhe a atenção para o «Bar Marisa». Como vinha com os ouvidos cheios, de seu amigo Filipe, que uma tal Marisa do Caminho era uma senhora simpática e extraordinária, “botou” pé sobre a ponte com a intenção de ir ao bar tomar um café e “avaliar” da simpatia da dita cuja.

 

Florens atravessa a povoação com casas iguais a tantas outras que acabávamos por passar, feitas de seixos, adobe e tijolos (burros) vermelhos, e dirige-se, quase instintivamente, ao «Bar Marisa».

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Azar do Florens! Por estes pequenos povoados, quando têm algum pequeno bar, 8 horas da manhã, para esta gente, ainda é de madrugada.

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Voltando atrás, perninhas a bulir sobre a ponte,

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e toca a “encarreirar” pelo Caminho, ao lado do nosso Bernesga.

07.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Afastado um pouco o Caminho da margem do Bernesga, em ligeira subida, continuam as azinheiras, fazendo-nos companhia.

08.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


E, como na etapa de ontem, num ou noutro tronco de árvore já envelhecida ou comida pelo fogo, aparecem-nos imagens como esta - S. José e Nossa Senhora com o Salvador ao colo.

09.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Até que, cerca das 9 horas e 15 minutos, chegámos a Cascantes, atravessando a sua principal rua, que dá pelo nome de “Calle Real”.

10.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Depois de Cascantes, deixamos o município de Cuadros, banhado pelo Bernesga, repleto de hortas e de amieiros, principalmente do seu lado direito, e, do lado esquerdo, pelo caminho que trilhávamos, com carvalhos e azinheiras, fornecendo lenha, carvão e madeira Às populações da zona.

 

Cascantes apresenta um casario tradicional, igual ao que já havíamos visto em Cabanillas e La Seca, embora possuindo um outro “porte”, outra envergadura. Mas os materiais de construção são praticamente os mesmos, que os municípios da zona pretendem preservar.

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Quase no final da “Calle Real”, a Igreja de S. Pedro, no Largo com o mesmo nome, do século XVI, embora com várias reformas e restauros,

12.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-

 
como se pode ver, nomeadamente no seu campanário.

12a.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas

Cascantes é também uma terra com tradições jacobeias. Existem documentos (ano 918) que atestam que aqui existiu uma igreja dedicada a São Félix e Santa Maria, bem assim existiu um hospital de peregrinos, dedicado a Santa Luzia. Hoje já nada existe.

 

No largo contíguo à Igreja, damo-nos conta desta fonte com três bicas.

13.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Queríamos tomar um pequeno-almoço mais a geito, substancial, porquanto o que tomámos no albergue de Cabanillas não chegou para as necessidades do corpo.

 

Embora haja um bar nesta localidade, tivemos que esperar, num banco ao lado, até que soassem as dez da manhã para o bar abrir!

 

Às dez horas em ponto o bar abriu e tomámos o nosso reforço da manhã, servido pelo simpático proprietário.

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No espelho de um escaparate de bebidas, um reclame/letreiro chamou a atenção do nosso companheiro Florens.

15.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Rimo-nos com o dito. A princípio pensávamos que era um dístico que, nestes lugares, chama a atenção para o cliente para conviver, falar e partilhar uns com os outros nossos vizinhos, e não nos isolarmos, estando constantemente ausentes do lugar, dedilhando sobre os novos “gadgets”, que as novas tecnologias de informação e comunicação nos propiciaram, para pessoas a quilómetros de distância, perdendo-se o sentido da construção da comunidade de vizinhos. Aliás, em cafés e bares, é suposto que o convívio aconteça.

 

Ruminávamos sobre estes pensamentos quando, olhando para o fundo do dito cartaz, esboçámos um sorriso rasgado para o proprietário...


Saindo do café, ainda rindo-nos da facécia do cartaz, perguntávamo-nos donde viria o topónimo de Cascantes. Quanto a Cabanillhas, sabíamos que tinha a ver com pequenas cabanas, possivelmente de pastores. Cascantes não nos sugeria nada. Até que, lendo um dos Guias, nos adianta uma certa explicação, dizendo que o topónimo é um termo incerto, mas que, muito provavelmente, tem a ver com a expressão latina quasicare, relacionada com a pedra ou o golpear e trabalhar a pedra. É de referir que, pela “Calle Real” da povoação, passava uma calçada romana...

 

Em Cascantes, o troço mais rural e aprazível desta nossa etapa, decorrendo a meia encosta, ora num meio rural, entre bosques, ora na margem do Bernesga, por entre amieiros e choupos e hortas, acabou-se.

 

Daqui até ao município de La Robla, começa o reino do asfalto.

16.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Aqui, timidamente, um pequeno bosque de amieiros, acompanhando-nos, despede-se definitivamente de nós.

17.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Até que, a certa altura, andando pelo duro asfalto, envolta em ligeira neblina, ao longe, aparece-nos as chaminés da Central Térmica de La Robla.

18.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Continuando sempre no asfalto, com aquelas enormes torres de frente como atalaias dos tempos modernos, a determinada altura, saindo da estrada, embrenhámo-nos por um caminho delimitado por uma enorme sebe que divide o Caminho dos terenos da Central Térmica.

 

E, a dado passo, aparece-nos esta ermida,

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aperreada entre a Estrada Nacional, o Caminho de Ferro e a imponente mole, que é a Central Térmica de La Robla.

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Esta ermida, de Nossa Senhora da Celada, passa quase desapercebida nesta absorvente e avassaladora paisagem. Data, possivelmente, do século XIV, embora tenha acrescentos do século XVII e XVIII. Possui na sua frontaria os escudos da família Quiñones.

 

No século XIII, já se fazia referência em documentos à existência de uma aldeia chamada Celada. E julga-se ter havido nas imediações da ermida um hospital, porquanto o terreno, pouco, que hoje existe à sua volta, [por onde passámos e aí parámos para descansar um bocadinho, percorrido a esta hora da manhã (12 horas e 30 minutos) por estes três peregrinos, que vinham “cavalgando“ quilómetros desde Leão], se chama Campo do Hospital.

21.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Segundo um dos nossos Guias, a tradição popular, e algumas lendas, relacionam o nome desta ermida com a época da Reconquista, aquando das refregas constantes entre mouros e cristãos por estes vales. Numa delas, e estando os muçulmanos, da Andaluzia, em franca vantagem, os cristãos rogaram à Virgem Maria para, por sua intercessão, os ajudassem na batalha. Conseguindo a vitória, os cristãos “selaram” o seu pacto, em agradecimento, erguendo esta Igreja, aliás como noutros pontos da Espanha reconquistada o fizeram sob a advocação mariana.

 

Mas outra lenda refere que a possível origem do nome de Celada tem a ver com uma “cilada”, emboscada que os cristãos planearam e executaram contra os infiéis muçulmanos neste local, que os conduziu à vitória.

 

Finalmente, uma outra terceira versão quanto ao nome, tem a ver com o bosque muito “cerrado” de carvalhos que por aqui havia e que “celaba” ou impedia uma ampla visão a quem se aventurava por estes agrestes territórios situados a norte de Leão.

 

Qual das três versões é verdadeira? Quem sabe? Talvez ainda apareça ima outra!...

 

Embora a porta da ermida estivesse fechada e não pudéssemos entrar lá dentro, não poderíamos deixar de referir, não só o seu lindo retábulo, mas, fundamentalmente, a imagem de Nossa Senhora das Neves, padroeira de La Robla. É em estilo românico, policromada, e que todos reconhecem como Nossa Senhora de Celada.

20a.- Virgen_de_Celada.jpg


Conforme imagem acima reproduzida, a Senhora aparece sentada num trono e sustém, no seu joelho esquerdo, o Menino.

 

Saindo do recinto da ermida, atravessando um portão trabalhado com motivos jacobeus, e possuindo uma “mão de peregrino” numa das suas portadas, à esquerda, com um poema, entrámos em La Robla.

 

Para acedermos à sua rua principal. “Calle Ramón y Cajal”, quase no fim da qual se encontra o albergue de peregrinos, temos de passar sobre um viaduto

22.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


para ultrapassarmos três canais de vias de comunicação - rodoviários e ferroviários.

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Na descida do viaduto, para nos dirigirmos à “Calle Ramón y Cajal”, esta «Espiga de Ouro», de Jorge M. Aller Toscano, das Oficinas da Escola Profissional Virgem do Bom Sucesso, de La Robla.

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Na longa travessia da “Calle Ramón y Cajal”, fomos observando o seu casario típico,

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os seus recantos,

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bem assim os seus edifícios mais emblemáticos, como a Casa da Cultura,

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o Ayuntamiento de La Robla, com o seu largo em frente (Praça da Constituição), em dia de mercado (feira),

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e, já lá mais para o fim, as habitações coletivas em tijolo (burro) vermelho e um antigo depósito de água.

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Virando à esquerda, como dissemos, já quase no fim da “Calle Ramón y Cajal”, aparece-nos este simples edifício, onde, por um dia, iriamos descansar e pernoitar - o recente albergue de peregrinos de La Robla, mesmo ao lado do pequeno Parque «La Huverga».

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Não andámos hoje mais de 11 quilómetros. Foi uma autêntica etapa passeio. De manhã, com algum nevoeiro alto; mais para o meio-dia, começou o céu a limpar e o sol a raiar, embora com uma ou outra nuvem ameaçadora.


Chegados ao albergue, telefonámos para o telemóvel do albergueiro, que estava afixado na porta do albergue, e, em menos de meia hora, o funcionário do município de La Robla, apareceu.

 

Paga a estadia, selada a Credencial, conhecidos os cantos da pequena casa e recebidas as instruções de uso da habitação, perguntámos onde se poderia comer em La Robla. O amável funcionário aconselhou-nos dois restaurantes - La Bogadera e o Olimpia.

 

Depois de nos acomodarmos e tomarmos banho, descansámos um pouco.

 

Saímos do albergue e, percorrendo a “Calle Ramón y Cajal”, fomos almoçar à La Bogadera, no fundo da Praça da Constituição, com o edifício do Ayuntamiento em frente, em pleno terreiro da feira.

 

Entrámos em La Bogadera

31.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


e encostámo-nos ao balcão para beber um copo (nós, uma cerveja, sem álcool) e umas tapas.

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Entretanto, um “crónico” destes lugares, mete conversa connosco, sabendo-nos portugueses.

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Florens ficou admirado pelos conhecimentos que este simples “paisano” tinha da nossa história e dos nossos escritores, ao ponto de se comentar que “quem dera que a grande maioria dos nossos portugueses soubesse tanto da sua pátria como este comum leonês”!


Subindo depois ao primeiro andar do restaurante, fomos almoçar. Comemos bem, é certo, mas quantas saudades nós já tínhamos da nossas sopinhas e do nosso comer! Enfim...

 

Demos ainda uma pequena voltinha pela feira e depois dirigimo-nos para o albergue, voltando a percorrer a “Calle Ramón y Cajal”.

 

Entretanto chegam ao albergue mais duas peregrinas - duas irmãs, espanholas.

 

Só foi sob o efeito de um bonito sol, nas proximidades da montanha, e neste sossego do Parque "La Huverga”, sentados na primeira mesa que a imagem a seguir mostra que, durante mais de hora e meia, começámos a escrever o nosso “Diário” do Caminho de São Salvador, desde que saímos de Chaves e até aqui, La Robla.

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Já bem tarde, chega mais um outro peregrino - o alemão, Martin, de Bremen.

 

Saímos por volta das 17 horas e 30 minutos para o centro de La Robla.

 

Lanchámos numa pastelaria e fomos dar uma volta, fazendo umas pequeninas compritas e esperando pela hora do jantar (“cena”).

 

A páginas tantas, abate-se sobre uma forte trovoada.

 

Recolhemo-nos, era tanta a chuva, num recanto de um edifício bancário, na Praça da Constituição,

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mesmo pertinho do edifício do Ayuntamiento de La Robla.

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Aliviado o tempo, saímos do nosso refúgio para continuarmos o nosso périplo por La Robla.

 

La Robla é uma localidade muito mais recente que algumas das suas povoações vizinhas localizadas nos vales de Alba e Fenar. Adstrita ao histórico território e Alba, não conserva nenhum documento que a acredite como uma povoação medieval. Só na Idade Moderna é que aparece mencionada como uma povoação pertencente a Alcedo de Alba, vinculação que se manteve até à entrada do século XIX.

 

A origem da sua toponímia não é muito consensual.

 

Para uns autores, La Robla vem do facto de, nestas paragens, haver uma imensa quantidade de bosques de “robles” (carvalhos), dizimados pelas recentes intervenções relacionadas com as infraestruturas mineiras e consequente indústria; outros autores referem que o nome da localidade vem de uma prática ancestral, muito ligada Às tradições pastorícias da montanha leonesa, mais concretamente, aos contratos que celebravam os agricultores nas feiras e mercados. Não precisavam de contratos escritos. A simples palavra valia mais que qualquer documento. E “assinavam” seus contratos com um simples aperto de mão (“La conrobla”).

35.- la--conrobla_472666.jpg


La Robla, parece-nos, quis manter no seu historial atual estas duas versões, quanto às suas origens, nos seus espaços públicos e arranjos urbanísticos: por um lado, “embelezando" La Robla com esta escultura, simbolizando a “La conrobla”, sita no Parque del Labrador; por outro, assumindo-se território mineiro e industrial, “postando”, numa das suas saídas, esta «Maquinaria Industrial (vagón perfordor, Atlas Copco, modelo ROOC, 1969) - Cemento Tudela Veguín",

38.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


assumindo estas duas atividades como um valor histórico e cultural do município.

 

Depois de “cenados” no Restaurante Olimpia, regressámos ao albergue já noite.

 

Ao outro dia era a etapa que nos levaria a aproximarmo-nos da alta montanha central da Cordilheira Cantábrica.


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Quinta-feira, 2 de Junho de 2016

Memórias de um andarilho - Caminhada na Linha do Corgo - Vila Pouca de Aguiar-Samardã

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO CORGO
(Vila Pouca de Aguiar-Samardã)

 


Esta etapa fizemo-la no dia de Todos os Santos, no ano da graça de 2010.

 

Deixámos os quatro o núcleo urbano de Vila Pouca de Aguiar, onde já não se reconhece qualquer troço da passagem da linha do comboio, girámos à esquerda, na “Rotunda do Dólmen”, e embrenhámo-nos no troço da linha que começa a aparecer à frente dos nossos olhos.

 

Olhos que, virando-se para o alto, vêm este “mostrengo” de betão armado por onde passa a A24.

01.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Em poucos minutos deparámos com estas velhas instalações que,

02.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

noutros tempos, faziam parte do apeadeiro de Parada de Aguiar.

03.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

A primeira parte do nosso percurso de hoje decorreu ao longo da reta da veiga de Vila Pouca, com os seus lameiros, e

04.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

onde, aqui e ali, aparecia um ou outro transeunte, como este caro amigo, em cima da sua burra branca, sob o olhar atento da mesma

05.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

e a serra da Padrela como pano de fundo.

06.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Sensivelmente a meio da reta, aparece-nos este “nado-morto” parque industrial (hoje, pelos vistos, parcialmente recuperado), por entre arvoredo paralelo ao traçado da linha e guardado pelos contrafortes da Padrela.

07.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Até que nos aparece Zimão.

08.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Mais um apeadeiro em ruínas e ao abandono!

 

Aqui fica um “recorte” dos caminhos por estas paragens

09.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

e o ar atento e circunspeto desta vaca à nossa passagem.

10.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Continuámos caminhando pelo antigo traçado da linha - uma reta, tal como a EN nº 2 - paralela a esta, e em razoável estado de conservação,

11.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

olhando para a nossa esquerda, onde o fraguedo e a vegetação rasteira, e pouco mais que nada, medram por estas paragens da Padrela,

12.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

até chegarmos a Tourencinho.

13.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

As instalações da antiga linha em Tourencinho tiveram outra sorte - são sede da Associação da Terra.

 

Fizemos aqui uma paragem para descansar e para reforço do pequeno-almoço.

 

O ambiente entre os quatro era deveras jovial, propiciando, num ou noutro troço, algumas brincadeiras. Mas este ponto é assunto reservado do grupo que pouco interesse tem para o objetivo desta reportagem. Apenas fica entre os quatro “comediantes”.

 

À saída de Tourencinho, a meio da rua, por onde passava a linha, uma sua “lembrança”.

14.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

E, passado pouco tempo, deixámos os domínios do concelho de Vila Pouca de Aguiar com esta imagem que tão bem a caracteriza. Veiga

15.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

e povoado, sempre com a omnipotente e a presente Padrela!

16.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Ao nos despedirmos do troço da linha no concelho de Vila Pouca de Aguiar, olhámos para trás para a paisagem que acabávamos de passar,

17.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

entrando nos domínios do concelho de Vila Real.

18.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

E, aqui, começa a segunda parte da nossa etapa de hoje: um percurso de desolação e de total abandono!

20.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

O mato era de tal forma tão espesso e as silvas tão altas e abundantes que, nas imediações da estação de Samardã, cujo estado de ruína e total abandono a imagem ilustra,

21.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

que tivemos de descer até à margem do rio Corgo para ver se podíamos fazer o percurso mais comodamente.

23.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Mas não foi tarefa fácil.

 

A páginas tantas, dada a fragosidade das suas margens,

25.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

tivemos que fazer o percurso entrando dentro do rio, rentinhos à margem, encharcando-nos bem para cima dos joelhos.

 

O traçado da linha corre por uma margem do rio Corgo e a povoação de Vilarinho de Samardã fica na outra, bem assim a EN nº 2.

25a.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samard

Tivemos que passar por um pontão, encoberto pelo arvoredo, para irmos ter à outra margem.

26.-2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

O “cristo” do dia foi a Ana, arranhada pelas silvas e completamente molhada. Aqui a vemos acompanhada do seu “anjo da guarda” e seu "salvador"!

27.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Subindo um pouco, eis-nos perante a bucólica Samardã, protegida pela serra do Alvão e rodeada de pequenos e rendilhados pastos.

28.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

Passado o “suplício” do troço final, uma bela latada de videira nos recebe e acolhe.

29.- 2010 - Caminhada Linha CP Vila Pouca-Samardã

No centro da aldeia já estava a Ni, o nosso “taxi de serviço”, para nos levar até Chaves.

 

Ufa! Com este final é que não contávamos!...

 

E, assim, foram percorridos, na etapa de hoje, mais de 15 304 metros com estas andanças ao longo da margem do rio Corgo.

 

Apresenta-se abaixo os troços da linha já percorridos.

 

00.- Linha do Corgo – Wikipédia, a enciclopédi


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Caminho de São Salvador - León-Cabanillas

 

DE LA PULCHRA LEONINA A LA SANCTA OVETENSIS

 

CAMINHO DE SÃO SALVADOR

 

1ª etapa:- León-Cabanillas

 

 

1.- Sucinta história do Caminho de São Salvador

 

 

Quando pensávamos que, pela nossa parte, tínhamos dado por findos os Caminhos Jacobeus, eis que somos desafiados para “calcorrear” mais um - o Caminho de São Salvador.

 

Inicialmente ficámos um pouco relutantes. Tínhamos acabado de sair de uma operação e, pelas informações que íamos obtendo, tratava-se de um dos Caminhos Jacobeus mais duros, através da Montanha Central da Cordilheira Cantábrica.

 

Mas o apelo que nos foi dirigido, dada a pessoa em questão, não podíamos recusar, embora puséssemos algumas condições decorrentes da nossa saúde e condição física, como já noutro post fizemos referência.

 

Acordou-se que era um Caminho para “se ir fazendo”, sem pressas. Desta feita, as nossas últimas relutâncias acabaram por cair por terra.

 

O Caminho Jacobeu de São Salvador não acaba nem começa em Santiago de Compostela, como todos os outros. Talvez, por isso, se exija uma sucinta explicação sobre ele.

 

Fomos buscar informação ao opúsculo «El Camino de San Salvador - León-Oviedo por la provincia de León», de 2008, edição da G.A.L. CUATRO VALLES, que aqui brevemente resumimos na parte que mais nos interessa.

 

O culto das relíquias de santos e mártires, durante a Idade Média, atingiu proporções desmedidas. Iam-se até aos lugares mais recônditos do Mundo então conhecido para as venerar e erguiam-se, por isso, templos e mosteiros, disputando-se a sua posse e guarda, transformando-se, assim, os lugares onde as mesmas se encontravam depositadas, lugares de devoção e peregrinação e, consequentemente, trazendo a esses lugares benefícios económicos dados pelos fiéis, de todas as origens sociais.

 

A Câmara Santa da capital do incipiente reino asturiano não ficou isenta desta corrente. Beneficiada pelos próprios monarcas, os seus tesouros iam crescendo e, em pouco tempo, converteu-se num reconhecido foco de atração de peregrinos.

 

Afonso II, o Casto, e a Igreja asturiana, dirigem o reino, tanto nos aspetos políticos e económicos como religiosos. Era um reino em expansão, que procurava o seu horizonte não só ao longo da Cordilheira Cantábrica como também até ao sul da mesma. Como reino pequeno, era constantemente submetido a pressões por parte dos muçulmanos e, para prosseguir com a sua particular cruzada, com a Reconquista, precisava de apoio de outras potências cristãs, entre elas, o poderoso reino de Carlos Magno.

 

A “descoberta” do sepulcro do Santo Apóstolo atuou como um poderoso detonante. A difusão do culto a Santiago é promovida desde a própria corte asturiana.

 

Depois da peregrinação de Afonso II, percorrendo o que hoje apelidamos de Caminho Primitivo, consolidou Compostela como um caminho de peregrinações e, tanto o rei como a Igreja, dotaram a nova sede com todo o tipo de privilégios.

 

Apesar de Oviedo ser a capital do reino asturiano, os sucessivos monarcas promoveram o culto a Santiago sem, contudo, o desvincularem da visita a São Salvador, a Catedral ovetense, em cuja Câmara Santa se guardavam importantes relíquias.

 

Os incipientes caminhos jacobeus, que transitavam pelo norte da Cordilheira, chegavam até Oviedo pelo Caminho do Norte e, desde Oviedo, prosseguiam até Compostela, tanto por este, como pelo Caminho Primitivo.

 

Contudo, a mudança, em 910, da corte asturiana para León, significando um avanço de conquista de terrenos para sul - até ao Douro - aos muçulmanos, fez com que Oviedo perdesse um pouco da sua importância.

 

Por esta circunstância, um outro itinerário começa a ser percorrido e passa a ter grande importância - o Caminho Francês - e a ser divulgado, designadamente pelo Codex Calixtinus.

 

Mas a importância das relíquias ovetenses permitiu manter vivo o seu culto, de modo que, desde León, por onde passava (e ainda passa) o Caminho Francês, promoveu-se um itinerário - o Caminho de São Salvador - para visitar a Câmara Santa da Catedral de Oviedo, quer, ou na ida, ou no regresso de Compostela.

 

O Caminho de São Salvador seguia o traçado das antigas calçadas romanas e atuava como ligação entre o norte cristão e o sul muçulmano, sendo um eixo vertebrador dos novos territórios que entretanto era necessário repovoar.

 

Com o tempo, e apesar das grandes dificuldades e perigos que oferecia, o Caminho de São Salvador consolida-se como zona de passagem da Cordilheira Cantábrica e desenvolveu-se à volta de um eixo de comunicações e comércio entre o Cantábrico e a Meseta, perdurando até à Idade Moderna, altura em que se assiste a um declínio das peregrinações.

 

São numerosas as lendas que circulavam quanto a este Caminho na antiguidade. Os peregrinos referiam a sua dureza e perigosidade. E, à fragosidade do terreno, havia a acrescentar-se as escassas povoações e a abundância de animais selvagens - como os lobos e os ursos -, bem assim a frequência de salteadores.

 

Em 1539, o italiano Bartolomeu Fontana menciona as dificuldades deste Caminho agreste e montanhoso que é também citado na Nouvelle Guide, editado em Paris, em 1583, como um Caminho próprio, ainda que vinculado à peregrinação Jacobeia. Nesta obra aparece recolhida a célebre copla, popularizada pelos peregrinos franceses, que diz:


Quem vai a Santiago e não passa por São Salvador, visita o criado e deixa o Senhor”.

 

Tal copla funcionou também como razão bastante para nos acabar por convencer a percorrê-lo.

 

 

2.- Preparação para o Caminho - os Guias

 

 

Na sua preparação, demos especial atenção às seguintes publicações:

 

• De la Pulchra Leonina a la Sancta Ovetensis (Guía Camino de Salvador, de Jose Antonio Cuñarro Exposito - “Ender”)

 

Jose Antonio Cuñarro Exposito é, na atualidade, um dos grandes impulsionadores deste Caminho. E a publicação acima referida é de leitura obrigatória para quem deseje percorrer o Caminho de São Salvador. Não só nos dá uteis conselhos, como nos faz uma abordagem pormenorizada, quilómetro a quilómetro, de todo o seu itinerário, para além de elementos históricos e culturais a ele ligados.

 

Normalmente, todos os Guias apresentam-nos o Caminho a percorrer em 5 etapas. Jose Antonio Cuñarro, em função da condição física, interesses individuais e logística no terreno (albergues, pensões e hotéis e bares, restaurantes e comércios, em cada localidade), apresenta-nos soluções para 5, 6, 7 8 e 9 dias para o percorrer, desde León até Oviedo.

 

Camino de San Salvador - Guía del Camino de Santiago/Eroski Consumer

 

Essencialmente, com base na publicação de Jose Antonio Cuñarro Exposito, para além de outras obras, o Eroski Consumer, para nós, supera os conteúdos dos tradicionais Mundicamino e Gronze. Este foi um Guia que também fez parte dos textos, em formato pdf, que levámos no nosso telemóvel para frequentes consultas.

 

• El Camino de San Salvador - León-Oviedo por la provincia de León - Cuatro Valles

 

Esta publicação, já atrás citada, também nos acompanhou sempre, quando esteve em causa o conhecimento histórico e cultural dos lugares por onde passávamos.

 

Finalmente,

• Camino del Salvador León-Oviedo (Montaña Central-Camino de Santiago) - Ayuntamiento Pola de Gordon

 

Editado pelo “Consorcio para el Dessarollo de la Montaña Central de Astúrias”, e financiado por diversas entidades, representa a súmula dos três Guias acima referidos, que também nos acompanhou e foi, frequentemente, consultado.

 


A prestigiada associação “CUATRO VALLES” e o dinâmico J.A. Cuñarro, com a sua equipa, sinalizou o Caminho, com materiais próprios mandados fazer pela associação para serem afixados na província de León e com uma profusão de "setas amarelas". E esta sinalização está de tal forma que é difícil qualquer caminheiro se enganar, a menos que vá muito distraído. No Principado das Astúrias, a sinalização é a tradicional dos Caminhos Jacobeus, com a diferença de a vieira estar num sentido diferente da de todos os outros traçados em terras de Espanha e Portugal.

 

 

3.- Pequenos “apanhados” sobre a etapa

 

 

Não resistimos a reproduzir uma citação de José Saramago, que vem no final do Guia Camino del Salvador León-Oviedo (Montaña Central-Camino de Santiago) - Ayuntamiento de Pola de Gordon:

 

"El fin de un viaje es sólo el inicio de otro. Hay que ver lo que no se ha visto, ver otra vez lo que ya se vio, ver en primavera lo que se había visto en verano, ver de día lo que se vio de noche, con el sol lo que antes se vio bajo la lluvia, ver la siembra verdeante, el fruto maduro, la piedra que ha cambiado de lugar, la sombra que aquí no estaba. Hay que volver a los pasos ya dados, para repetirlos y para trazar caminos nuevos a su lado. Hay que comenzar de nuevo el viaje. Siempre. El viajero vuelve al camino".

 

E dizer que, afinal, e muito provavelmente, este não será o último Caminho...

 

***

 

Como dissemos, foi um Caminho feito sem pressas. Houve tempo para conversar; apreciar, pausadamente, as diferentes paisagens e terras por onde passávamos; conversar, conviver, interagir com os peregrinos - poucos -, que também faziam este Caminho, e com os habitantes das diversas localidades; muitas vezes, em silêncio, a meditar sobre a vida, o mundo e a sociedade, a natureza e, finalmente, captar imagens, muitas imagens, que acabaram por nos dificultar imenso uma seleção, necessariamente reduzida, mas exemplificativa, dos lugares por onde passávamos.

 

Não vamos descrever, passo a passo, o itinerário de cada etapa. Para isso, basta o (a) leitor (a) ler um dos quatro Guias.

 

Desta feita, apenas iremos apresentar pequenos “apanhados” que reputámos, de entre as centenas de fotografias que tirámos, mais representativos de cada etapa, fazendo alusão, por alto - e quando for caso disso -, aos aspetos históricos e culturais mais marcantes, referidos pelos quatro Guias, em cada uma das etapas.

 

Comecemos, pois.

 

Eis o local donde partimos, na Praça de São Marcos, Leão.

01.- 2016 - Camino del Salvador - León (363).jpg

Durante cerca de uma boa légua, o nosso percurso foi sempre em asfalto.

 

À partida, passando numa rotunda, alguém pensaria que iríamos nesta preciosa aeronave.

01.- 2016 - Camino del Salvador-1ª etapa (7).jpg

Mas não. Apenas está aqui para “enfeite”.

 

A periferia de Leão, com o seu bairro chique - Eras Renueva -, de condomínios privados, paralelo ao rio Bernesga, acompanha-nos.

 

A dada altura, um grandioso colégio (privado) católico. Ou será um seminário? Ficámos sem saber...

02.- 2016 - Camino del Salvador-1ª etapa (35).jpg

Entrando no município de Sariegos, antecâmara de Carbajal de la Legua, continuam as moradias com condomínios privados,

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protegidas, junto à estrada, por altos muros, e, por detrás, por densos bosques de carvalho.

 

Na parte mais antiga de Carbajal de la Legua, num pequeno mercado junto à Igreja de São Martinho,

04.- 2016 - Camino del Salvador-1ª etapa (78).jpg

fomo-nos abastecer de comida para o almoço, jantar e pequeno-almoço do dia seguinte, pois, em Cabanillas, município de Cuadros, não há qualquer bar, restaurante ou comércio.

 

Retomando o Caminho, a torre sineira da Igreja de São Martinho vista da estrada.

05.- 2016 - Camino del Salvador-1ª etapa (87).jpg

Vale a pena ler a história do Mosteiro de Santa Maria de Carbajal.

 

Segundo os nossos Guias, começou por estar sediado, na alta Idade Média, onde está hoje a Colegiada da Basílica de Santo Isidoro, em Leão. Depois, passou para Carbajal de la Legua. Mas hoje já nada aqui existe que nos faça lembrar o Mosteiro neste lugar. Apenas, dizem, algumas pedras (contrafortes) que fazem parte da Igreja de São Martinho da localidade. Daqui o Mosteiro acabou por voltar para Leão, junto da Praçadel Grano” ou de Santa Maria do Caminho, onde fomos buscar a Credencial do Caminho de São Salvador e onde, como já noutro lugar referimos, existe um albergue; uma pousada; uma igreja e, naturalmente, ainda funcionando como mosteiro feminino, como sempre foi.

 

Despedimo-nos do asfalto e de Carbajal de la Legua mais pesados, com o farnel do dia e do dia seguinte para o pequeno-almoço.

 

E Carbajal de la Legua despede-se também de nós com este monumento jacobeu, com nítidas influências dos vitrais da Catedral de Leão.

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A água do rio Bernesga murmurava à nossa esquerda, enquanto, por terra batida, em ligeira subida,

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íamos ao encontro, quer dos bosques de carvalho,

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quer de azinheira.

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Aqui e ali, encrustadas numa ou outra árvore, santos de devoção deixados por peregrinos.

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Numa pequena colina observa-se o vale do Bernesga, com a sua vegetação característica e, ao longe, a montanha à nossa espera.

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Até que, chegados a uma encruzilhada de caminhos,

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aparece-nos a aldeia fantasma de Villabura, que se pensa ter origem num castro romano e contendo uma guarnição para o controlo do caminho que comunicava Leão com o norte e seus abundantes pastos de Quadrum. E também o caminheiro Vicente, que vinha atrás de nós, “apanhando-nos”. Em Villabura parámos os três para irmos assinar o livro do “buzón” (“caixa de correio”), colocada naquele local, deixando a nossa mensagem de caminheiros do Caminho de São Salvador.

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Nossos olhos, perscrutando o caminho em frente, dava conta da subida que tínhamos de levar a cabo até à última azinheira que se vê na imagem acima.

 

Subida dura!...

 

Mas, a meio da mesma, uma cruz de ferro dá-nos um certo alento para acabarmos com aquela íngreme e esforçada subida até ao cimo do monte.

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No final, o esforço foi recompensado com este belo panorama!

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Relativamente perto de Cabanillas, município de Cuadros, com o sol já a pique, há que fazer uma pausa para descansar, beber e comer qualquer coisa, junto a uma fonte de água fresca, como esta de São Pelaio.

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Florens aproveitou para, na “caixa de correio” (buzón), ali existente, deixar a sua mensagem como caminheiro/peregrino.

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E continuámos, em ligeira descida,

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até Cabanillas, com o seu característico casario, de adobe, taipa, seixos e tijolos vermelhos, e as suas características portas carrais.

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Percorrida a rua principal da povoação, com nome de Real, no fim, torcendo à direita, dirigimo-nos até ao albergue.

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Chamámos por telefone o senhor António, o albergueiro, que prontamente nos veio abrir a porta. Instalámo-nos num lugar muito perto da Igreja Matriz do lugar, que dá pelo nome de São Salvador, do século XVII e XVIII.

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Devidamente acomodados, e posta a roupa, acabada de lavar, a secar ao sol, Florens entretinha-se, no parapeito do muro do albergue, a arranjar um pequeno cajado.

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Descansámos um pouco e fomos reconhecer a terra, indo ao encontro do rio Bernesga, que passa aqui pertinho, ao fundo do povo.

 

Gente? Pouca! E a que vimos - a tomar sol -, toda constituída por mulheres “maiores”, “inventando” conversas, ou relembrando o passado, para ajudar a passar a tarde...

 

Conversámos um pouco com estas quatro senhoras

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e, a determinada altura, perguntámos pela chave da capela, ali ao lado,

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pois tínhamos interesse em conhecer por dentro a Capela do Bendito Cristo que, em tempos idos, teve hospital de peregrinos anexo e com grande tradição jacobeia. Mas quem a tinha não morava ali, em Cabanillas!

 

Recolhemos ao albergue, que apenas conta com quatro camas.

 

Fomos os únicos residentes naquela noite, um pouco fria e sem aquecimento.

 

Andámos, nesta 1ª etapa, uns escassos 19 Km.

 

25.- 2016 - Camino del Salvador-1ª etapa (129).jp

(Flora - De entre muitas flores espalhadas pelo Caminho)

 


publicado por andanhos às 11:13
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