Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

Por terras de Portugal - A Casa de Fresco do Bom Jesus do Monte (Braga)

 

POR TERRAS DE PORTUGAL

 

A CASA DE FRESCO NO BOM JESUS DE BRAGA

 

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O exemplar cuja imagem acima apresentamos já, por algumas vezes, quando deambulamos pelo parque do Bom Jesus do Monte, de Braga, nos chamou a atenção: o que estaria ali uma estrutura daquelas, num lugar tão fresco, a caminho do pequeno lago que lhe está acima, a fazer?

 

De vez em quando vamos a Braga por razões familiares. E, quando àquela cidade nos deslocamos, no intervalo das obrigações familiares, gostamos de conhecer, um pouco mais a fundo, a, porventura, mais antiga cidade portuguesa. Cidade de arcebispos e tendo o «selo» da cidade do barroco.

 

Numa altura passámos pela livraria do centro de Braga e um livro nos despertou a curiosidade. Seu título é «Segredos de Braga - Braga Top Secret», da autoria de Eduardo Pires de Oliveira (texto e coordenação) e de Libório Manuel silva (fotografia). São cinquenta e seis (56) segredos que apresenta. E o primeiro tem a ver com a imagem que, logo no início, apresentámos.

 

Chamam-lhe «Casa de fresco».

 

E como veio parar ao Bom Jesus do Monte de Braga?

 

Segundo o Diário do Minho, de 28 de dezembro de 1919, referido pelo autor da obra citada, esta «casa» “foi comprada pela confraria do Bom Jesus do Monte para ser levada e montada no parque do Bom Jesus do Monte”.

 

E, então, onde antes estava?

 

Segundo Eduardo Pires de Oliveira, D. José de Bragança, membro da realeza, foi arcebispo de Braga (1741-1756). Enquanto arcebispo, mandou fazer um palácio, por não querer habitar o palácio arquiepiscopal para, assim, usufruir de um edifício totalmente à sua vontade. A título informativo, esse palácio é hoje sede da Biblioteca Pública e do Arquivo Distrital de Braga.

 

O palácio, mandado construir por D. José de Bragança, tinha um grande jardim que, em 1919, foi destruído para dar lugar a duas ruas - as atuais Dr. Justino Cruz e Eça de Queirós. O jardim estendia-se desde as traseiras da Igreja dos Terceiros e das casas da rua do Castelo até à praça do Município.

 

Normalmente, a «Casa de fresco» era “um pequeno edifício, em geral feito em pedra, que existe no meio de um jardim e que serve para aquilo que o seu nome diz: proporcionar um local abrigado do sol para quem quiser estar no jardim do seu palácio num dia de sol quente”.

 

Ainda segundo Eduardo Pires de Oliveira esta «Casa de fresco» era do jardim do palácio de D. José de Bragança e encontrava-se no extremo nascente do referido jardim.

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A data da construção desta «Casa de fresco» anda associada ao ano de 1752 e, segundo o historiador de arte Reinaldo dos Santos, referido por Eduardo P. Oliveira, esta obra é “a mais trabalhada da arte portuguesa desde a famosa janela manuelina da Sala do Capítulo do Convento de Cristo, em Tomar”, sendo “de um lirismo floral, de um rococó intenso, sem par na arte portuguesa”.

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 (Pormenor)

Ainda segundo Eduardo Pires de Oliveira, o seu mais que possível autor, e que concebeu o palácio do arcebispo D. José de Bragança, Foi André Soares.

 

Mas, sobre a Braga barroca e o arquiteto amador André Soares falaremos mais para diante...


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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016

Palavras soltas... Os achados do Fragão da Pitorca e o ditirambo de Luís Fernandes

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

OS ACHADOS DO FRAGÃO DA PITORCA E O DITIRAMBO DE LUÍS FERNANDES

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I

 

A Pitorca de Curral de Vacas começou a dançar uma valsa com a Pitorga do Nando.
Apanhei-lhes a cadência e solfejei umas diatribes comentaristas.
Pitorga daqui, Pitorca d’acolá, lembrei-me da paixão assolapada que alguns pedantes intelectuais, uns tantos consagrados intelectuais e uns entusiasmados «curiosos» pelo conhecimento têm mostrado pelas «PEDRAS»”.

 

Era assim que praticamente começava Luís Fernandes, sob o compasso de seu comparsa, tal qual Zaratustra, zurzindo sobre os intelectuais das «pedras». Coro de sátiros, com certeza, não lhes falta. Nem, tão pouco, tambores, liras e flautas, pois, na questão de instrumentos, o escrevinhador é homem destes e de muitos mais instrumentos sonoros... Por isso, «pedantes intelectuais», acautelai-vos, porque estais em presença de um novo Nietzsche do século XXI, não vociferando contra o deus Dionísio ou qualquer outra entidade divina celestial, mas contra os presuntivos «pedantes» intelectuais das ditas «pedras».

 

Ora, nós que não temos qualquer pedra no sapato contra ninguém; que nem tão pouco temos a ousadia de sermos especialista de pedras, nem preciosas, nem banais, nem tão pouco com qualquer interesse arqueológico, e que, simplesmente, a «pedra» que temos é a de procuramos esclarecer, o melhor possível, tudo quanto a nossa terra tem (ou não tem) e no que à sua volta se passa, passemos, então ao «ataque» sobre a matéria constante no blogue CHAVES, de 3 de fevereiro passado, na rubrica «Chá de urze com flores de torga», nº 115.

 

II

 

Começa o articulista-mor, proprietário do blogue, por, a certa altura, proferir:
Isto da data do achado são coisas da História e de como ela é abordada e por quem. Todos os documentos a que tive acesso (de especialistas na matéria) apontam os achados para 1980, inícios dos anos 80, no entanto no Museu Municipal a data que consta é de 1990. A diferença destes 10 anos até nem tem importância para o caso e só vem dar razão àquilo que eu penso da História e da sua exatidão ou credibilidade, coisa sem importância neste caso que até eu, um leigo da História, facilmente poderei averiguar e chegar à data exata, mas é só um pequeno apontamento para demonstrar que quase sempre só temos acesso à História de quem a escreveu e não à verdadeira, que às vezes pode coincidir ou não.(...)”.

 

Ora, face ao vertido no parágrafo acima transcrito, de maneira alguma podemos estar de acordo com o autor. As coisas da História - como, nomeadamente, uma determinada data quanto a um acontecimento -, não podem estar ao saber e gosto do historiador. O historiador tem de respeitar «religiosamente» os factos e/ou os documentos e objetos que lhe são apresentados, depois de testada a sua verdadeira autenticidade. A interpretação que possa fazer quanto ao material (histórico e autêntico) que lhe é apresentado é que pode variar, conforme o universo cultural e a concreta mundivisão que o historiador tem.

 

Assim, os achados que foram encontrados na Fraga (ou Fragão) da Pitorca (ou Pitorga), nomeadamente o machado plano de cobre arsenical e a espiral cilíndrica de ouro de três voltas, são do Bronze Inicial - entre o último quartel do III milénio a. C. até cerca do século XVIII/XVII a. C..

 

Porque ali se encontravam e para que foram/eram usados?

 

Segundo uma das maiores especialistas na matéria, Ana M. S. Bettencourt, no seu artigo na Revista Aquae Flaviae nº 41, de 2009, discorrendo sobre o tema «Práticas funerárias na Idade do Bronze de Trás-os-Montes e da Galiza Oriental», a páginas tantas, afirma:
Para o Bronze Inicial conhecem-se reutilizações de monumentos megalíticos” para fins ou práticas sepulcrais bem assim "enterramentos em grutas e abrigos.".

 

E, adiante, acrescenta:
Também no Fragão da Pitorca, Chaves (Armbruster & Parreira 1993), associado a um eventual povoado, segundo apurámos recentemente (...), foram realizados enterramentos, provavelmente, desde o Calcolítico até ao Bronze Inicial. Aqui, a par de ossadas humanas, apareceram cerâmicas lisas e decoradas, assim como uma espiral em ouro e um machado plano, ainda com rebarbas de fundição (...)”.

 

E esta especialista, conclui, interpretando desta forma a natureza destes achados:
A esta escala de análise podemos afirmar que existem materialidades associadas à morte para todos os períodos da Idade do Bronze, à semelhança do que ocorre na fachada mais litoral de todo o Noroeste Peninsular (...). Do mesmo modo podemos concluir que há diversidade de contextos funerários, de soluções arquitetónicas, de ritos e de ações de âmbito mortuário, pelo menos durante o Bronze Inicial e Médio. Atestam-se, igualmente, desde os primórdios da Idade do Bronze as práticas da cremação e da inumação (...) Por último, gostaria de chamar a atenção para o facto de que as interpretações efetuadas apenas se poderão considerar fragmentos de uma construção complexa e multifacetada que urge continuar a questionar através de novos projetos de investigação que privilegiem uma perspetiva holística, pois o discurso da morte não representa o reflexo da totalidade da sociedade, mas é apenas um deles a relacionar com o estudo de outros discursos. Deste modo importa a sua inter-relação com os sítios residenciais, com os locais de depósitos metálicos, com os lugares de arte rupestre e com os contextos ou espaços naturais (tendo em conta fatores como a geomorfologia, a hidrologia, a geologia, os ciclos lunares e solares, etc.). Para tal será necessário mudarmos, igualmente, a escala de análise e apostarmos em estudos particulares que possibilitem leituras sobre as contingências regionais.”.

 

É este, pois, o estado da arte quanto aos achados do Fragão da Pitorca.

 

 

III

 

Cientes da época em que estes achados foram elaborados/fabricados e a interpretação para que eram usados, resta-nos agora saber da data dos seus achados.

 

Alexandra Vieira, com base no Portal do Arqueólogo (http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/?sid=sitios.resultados&subsid=48372), no seu artigo «Alguns dados para o estudo da Idade do Bronze do Norte de Portugal» diz, citando:
"O Fragão da Pitorca consiste num aglomerado de formações graníticas que conferem ao local uma posição destacada na paisagem. O conjunto dos rochedos gera um promontório que descai em forma de penedia sobre o seu sector ocidental, encontrando-se atualmente completamente absorvido por formações vegetais arbustivas que dão origem a um maquis florestal que começa já a dificultar o acesso aos rochedos. Na zona envolvente prolifera um mato constituído por silvas, pinheiros, giestas, estevas e alguns castanheiros bravos, ainda de pequeno porte, que ajudam a coartar o acesso ao sítio arqueológico. Apenas no sector voltado a sudoeste ainda é possível detetar a entrada de um dos abrigos descritos pelos habitantes de santo António de Monforte. Este abrigo é de média dimensão e permitiria albergar mais de meia dúzia de pessoas. Foi numa destas formações naturais que nos inícios dos anos oitenta do séc. XX um jovem habitante da aldeia então designada com o topónimo "Curral de Vacas" encontrou uma espiral em ouro. A par da espiral há referência à recolha de um machado de bronze, fragmentos de mó manual e fragmentos de cerâmica.” (in: Antrope - A idade do Bronze em Portugal: os dados e os problemas/ Série Monografia nº 1, 2014, Instituto Politécnico de Tomar).

 

Se fizermos uma leitura atenta ao Portal do Arqueólogo, o mesmo apresenta as seguintes fontes bibliográficas para o seu conteúdo:


• «A Fraga da Pitorca de Curral de Vacas”, da autoria de João Baptista Martins, in Notícias de Chaves, de 26 de junho de 1981;


• «Breves Notas sobre a região do Alto Tâmega», da autoria de João Baptista Martins, in Comissão Regional de Turismo do Alto Tâmega, Chaves, 1984;


• «Fragão da Pitorca (Santo António de Monforte) - Estação arqueológica em evidência», da autoria de João Baptista Martins, in Notícias de Chaves, de 16 de março de 1990. Consultados todos os Notícias de Chaves referentes ao ano de 1990, não existe nenhum jornal com edição nesta data e, consequentemente, o artigo não aparece;


• Finalmente, «Inventário de sítios arqueológicos com interesse arqueológico do concelho de Chaves», também, uma vez mais, da autoria de João Baptista Martins, de 1984. Tal inventário não existe no Catálogo de obras da Biblioteca Municipal de Chaves e, pelas indagações que fizemos, tratou-se apenas de apontamentos do autor, que os teria cedido, ou dado a conhecer a alguém interessado na matéria e cujo paradeiro nos é desconhecido. Daqui, não podemos inferir nada, a não ser o que o mesmo autor já tinha escrito no Notícias de Chaves, em 26 de junho de 1981.

 

Em conclusão, em nenhuma das fontes que servem de suporte ao texto supra citado do Portal do Arqueólogo - Património Cultural - Direção-Geral do Património Cultural -, se faz qualquer referência a que “nos inícios dos anos 80, (negrito nosso), do século passado, um jovem da aldeia então designada com o topónimo «Curral de Vacas» encontrou uma espiral em ouro [e que a] par da espiral há referência à recolha de um machado de bronze (...)”.

 

Nesta conformidade, a afirmação supra carecia, no mínimo, da «apresentação» de uma fonte para o seu vertido para não oferecer qualquer dúvida quanto à autenticidade da data do seu achado. Mesmo a própria expressão «nos inícios dos anos 80 do século passado», afigura-se-nos demasiado vaga!

 

Assim, e de acordo com as informações recolhidas junto do técnico camarário ligado ao Museu da Região Flaviense, só nos inícios de 1990 é que «oficialmente» se tomou conhecimento de que «alguém» havia encontrado, no Fragão da Pitorca, dois achados, sendo assim descritos nas suas respetivas Fichas:


a) Um machado plano de cobre arsenical, com dupla face, secção transversal retangular e bordo ligeiramente encurvado, datado do Bronze Inicial, III milénio a. C e 1ª metade do II milénio a. C.. Segundo Ficha do objeto constante no Museu da Região Flaviense, este tipo de objeto ocorre predominantemente em monumentos sepulcrais, como túmulos, podendo ser de ouro, prata ou cobre;


b) Uma espiral cilíndrica em ouro, de três voltas, constituída por um arame liso de secção sub-retangular muito regular. Apresenta as extremidades mais estreitas. É do Bronze Inicial, finais do III milénio a. C. e 1ª metade do II milénio a. C.. De acordo com a interpretação proposta por Eluère não se trataria de um anel, pois poderia ter constituído contas de colar, pendentes, ou podiam ainda ter servido para aplicação. Este tipo de objeto ocorre predominantemente em monumentos sepulcrais, como túmulos, podendo ser de ouro, prata e cobre. Este objeto, desde que «oficialmente» se teve conhecimento dele, em 1990, e até à sua aquisição pelo Município de Chaves, em 1993, esteve depositado numa caixa forte de uma entidade bancária da cidade de Chaves.

 

O técnico superior responsável pela aquisição destes dois objetos, para, de acordo com a vontade expressa dos responsáveis da Câmara Municipal da altura, fazer parte do acervo do Museu da Região Flaviense, foi o Dr. Rafael António Ezequiel Alfenim, do Quadro de Pessoal do Serviço Regional de Arqueologia da Zona Norte, devidamente acompanhado pelo técnico do Museu da Região Flaviense, Carlos Félix.

 

Ou seja, pelos dados e fontes a que tivemos acesso, estes dois achados (machado e espiral cilíndrica de ouro), porquanto os fragmentos cerâmicos já eram conhecidos, apenas foram do conhecimento público e das entidades públicas que superintendiam sobre esta matéria no ano de 1990. Se os achados têm uma data anterior, carece-se de provas para o comprovar.

 

Em 1993, é doado, pelo senhor Aníbal Santos, membro da Junta de Freguesia de Santo António de Monforte, ao Município de Chaves, para fazer parte do acervo do Museu da Região Flaviense, o machado plano de cobre arsenical e, na mesma ocasião, é adquirido, por compra, aos senhores José e Cândido dos Santos Alves, a espiral cilíndrica em ouro, de três voltas, também com a mesma finalidade de fazer parte do acervo do Museu da Região Flaviense. Quem procedeu à receção do machado de cobre, e ao pagamento e compra da espiral cilíndrica em ouro, em nome do Município de Chaves, foi o então vereador da Cultura e Vereador Substituto do Presidente da Câmara, em representação do senhor Presidente da Câmara Municipal de Chaves.

 

Com a reformulação do Museu da Região Flaviense, estas duas peças foram para uma vitrina da Secção da Pré-História do Museu.

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  (C. c. Fernando DC Ribeiro)

 

IV

 

Se, porventura, repararmos nos artigos escritos pelos mais importantes investigadores que se debruçaram sobre estes dois achados, não se encontra nenhum com data anterior a 1993, como sejam, os de Armbruster & Parreira, que escreveram em 1993; Ana M. S. Bettencourt, em 2009 e Alexandra Vieira, em 2014.

 

Causa-nos ainda uma certa impressão que Miguel Torga, que era tão «amante das pedras», embora não um intelectual das mesmas, no seu Diário XVI, quando, com a população à sua roda, se dirigiu ao Fragão da Pitorga, não tenha feito, em 1991, qualquer referência a tão importante achado. Se o seu «conhecimento» fosse de uma década anterior, é natural que, em 1991, já fosse de domínio público, e Miguel Torga lhe fizesse qualquer referência...

 

Em resumo, se os referidos objetos foram encontrados na década de 80 do século passado, só o próprio(s) achador(es) o sabia(m), sendo de todo desconhecidos, quer da comunidade científica, quer das entidades oficiais que, sobre a matéria, superintendiam estes assuntos.

 

O que se acaba de relatar são factos e, ao contrário do que Fernando DC Ribeiro diz, no seu post acima referido, de 3 de fevereiro passado, esta é história verdadeira, autêntica e não uma qualquer versão do autor deste despretensioso apontamento. Baseado em fontes, depoimentos, de quem esteve no processo. Aqui nada se inventa. Procurou-se a fidelidade das provas, com depoimentos verdadeiros e não forjados, porquanto aqui não há lugar à opinião.

 

Nona

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Domingo, 21 de Fevereiro de 2016

Reino Maravilhoso - Ruínas de uma antiga adega à espera que lhe deitem a mão

 

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO


RUÍNAS DE UMA ANTIGA ADEGA EM BÓBEDA À ESPERA QUE LHE DEITEM A MÃO
(Concelho de Chaves)

 

Em maio de 2002, no âmbito de um doutoramento em Geografia (Programa «Análise Territorial e Organização do Espaço»), pela Universidade de Santiago de Compostela, elaborámos um trabalho subordinado ao tema «Chaves - O dilema do desenvolvimento concelhio».

 

Na problemática ao tema e no seu enquadramento teórico, a certa altura, afirmávamos que “as regiões mais desfavorecidas [como a nossa] não possuem as pré-condições necessárias – uma densidade institucional que, articulada numa coesão interna e numa relação com o exterior, construa um processo de desenvolvimento baseado em quatro fatores chave - inovação; aprendizagem; redes e governância - o que as remete para um círculo vicioso de pobreza e desfasamento”.

 

Mais à frente, rematávamos ser “nossa convicção que nunca como na atualidade a competitividade territorial, e a do país em que vivemos, esteve tão ancorada na capacidade de intervenção das instituições de base territorial, públicas e privadas. A mobilização de todo o potencial de parcerias locais em ordem a obter sinergias que revertam na criação de fatores de competitividade é hoje um dos domínios privilegiados de convergência do interesse local com o interesse nacional”. E concluíamos com as palavras de Cerqueira Lopes quando desafiava: «Assim haja capacidade, por parte dos investigadores comprometidos com o desenvolvimento e por parte dos policy makers, para perspetivar estrategicamente os rumos específicos a trilhar pelo desenvolvimento regional/local»”.

 

Desenvolvimento que jamais poderá esquecer, numa criteriosa análise territorial, todos os seus recursos, quer materiais, quer de natureza imaterial, como sejam, nomeadamente, a memória daquilo que somos e fomos, as bases em que assentaram, no passado, o desenvolvimento de uma região ou de um território local em concreto.

 

Na análise territorial que fazíamos, ao abordarmos o setor agropecuário e florestal, a final, dizíamos: “Este sector tem vindo a perder importância como fonte de rendimento e local de crescimento de emprego, com reflexos negativos no consumo, prejudicando, por esta via, o consequente subsector comercial, não fomentando o aparecimento de serviços, ou seja, o sector agrícola já não faz crescer a economia da cidade.

Esta retração da atividade agrícola tem fomentado a saída de pessoas para o exterior, o que, de forma evidente, prejudica o aparecimento de novas estratégias de desenvolvimento do sector, já que são os mais novos que saem e, por outro lado, a cidade não possui alternativa em termos de oferta de emprego para absorver esta população.

Quanto mais o sector se retrai mais difícil é a instalação de empresas e particulares que prestem serviços de qualidade aos rurais.

Nestes termos, a agricultura no concelho não deixa de evidenciar sintomas de atraso.

Isto revela-se quando se consideram os rendimentos, o enquadramento tecnológico, a organização dos circuitos de escoamento dos produtos, e mesmo o grau de instrução da população agrícola.”.

 

A nossa região está assente, fundamentalmente, em termos do setor agropecuário e florestal, no minifúndio. Neste pressuposto, prosseguíamos:

“(...) Como resolver o problema do minifúndio? É nossa opinião que, derivando dessas mesmas explorações parte considerável da produção agrícola concelhia, temos de encarar com realismo a sua existência (que não mostra tendência para se atenuar), em vez de insistirmos em modelos de valorização e modernização que impliquem necessariamente o alargamento, mais ou menos considerável, das suas áreas.”.

 

E interrogávamo-nos:

“Qual o futuro para este sector do Concelho face a uma nova política europeia (e mesmo mundial) baseada num modelo de redução dos custos unitários por forma a se poder competir nos mercados mundiais? A produção em regime extensivo por forma a obter menos custos de exploração? A criação de serviços agrícolas à atividade agrícola, flexíveis, segundo um modelo de especialização no qual se concebe o agricultor – gestor, um administrador de compras e vendas?

Pensamos que este modelo não se ajusta à nossa realidade. O minifúndio do Concelho, ao se apresentar no mercado fundiário muito distorcido em relação ao modelo que a União Europeia pretende seguir, por apego grande à terra, resultante de valores culturais ancestrais e de uma certa hierarquia social reinante, levando a que o valor do solo não represente o efetivo valor da sua capacidade produtiva, ele tem em si mesmo, no contexto do Concelho, tendo em conta a sua envolvente, um valor que vai para além do fundiário. Há que o aproveitar para outras atividades, diferentes das tradicionais, mas que podem igualmente, com base nessa matriz, possuir outras tantas virtualidades ou potencialidades de rendimento.

E mesmo o sector fundiário em si mesmo pode ter saídas. Para além do aumento geral da qualidade de vida da população em geral que se tem vindo a verificar, urge capacitar cultural e tecnicamente o homem e mulher que vive no rural. Da sua melhor capacitação e abertura encontrará com os demais formas cooperativas e/ou associativas de fazerem valer render o seu tão acarinhado “torrão”. Os produtos e recursos que nos caracterizaram ao longo da nossa história milenar como flavienses eles ainda aí estão.”.


Apesar das nossas esperanças, catorze anos se passaram e, em Chaves, e no seu concelho, praticamente nada se modificou. Pelo contrário, tudo piorou! Debalde diagnósticos e planos das mais diferentes espécies e proveniências...

 

E não podemos lançar culpas a seja quem for. Há uma máxima que, há perto de três décadas que vimos enfatizando, quer em reuniões, quer em simpósios, quer em colóquios, quer em congressos sobre a problemática da animação e do desenvolvimento: «ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios!».

 

Nós, flavienses, obviamente uns mais responsáveis que outros - mas todos, em geral -, não fomos, não somos capaz de virar a página do profundo atraso a que nos remeteram!

 

Porque o que nos penaliza, e a nós nos entristece, não é só o não termos a capacidade de dar a volta a tudo isto, é o estarmos, pacificamente, confortados com esta nossa sorte, enquanto terrenos agrícolas, pastagens, florestas e património agrícola imobiliário fica ao abandono, entregue à sorte da natureza selvagem e à ruina, não cuidando de lhes dar, eficazmente, uma nova valia, uma outra utilidade!

 

E mete-nos pena o que vamos encontrando por este nosso concelho fora.

 

Vamos apresentar ao leitor(a) um comezinho exemplo, entre muitos. Falamos deste por nos estar muito perto da nossa área de residência.

 

Durante décadas, uma parte significativa da área agrícola da zona sul do nosso concelho, tinha aptidões e foi utilizada para o granjeio da vinha. A vinha é uma cultura exigente. Requer o uso de uma mão-de-obra muito intensiva. O processo migratório das nossas populações levou ao abandono de grande parte da nossa mão-de-obra agrícola para outras paragens à procura de melhor qualidade de vida. Necessário se tornava reconverter essas áreas para outras culturas que propiciassem mais rentabilidade, pois a vinha, nos moldes em que estava a ser explorada, não dava.

 

Para estes terrenos, a solução foi o pomar. Este que agora se mostra, veio substituir a cultura da vinha, fazendo desaparecer a videira.

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É, porventura, o maior pomar do concelho de Chaves.

 

Contudo, no seu terreno, ficou uma estrutura que serviu de suporte à produção de vinho.

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A propriedade onde esta estrutura se insere pertenceu a uma família de «pergaminhos» e que, noutros tempos, era muito influente no nosso meio local. As voltas da vida ditaram que fossem parar às mãos de um emigrante natural da nossa Montanha que, na diáspora, mourejou quanto baste para arrecadar um cobres e comprar esta propriedade que, com a sua esposa e familiares, dela cuidam tirando proventos para o sustento familiar.

 

No último dia do ano transato, dirigi-me a casa do senhor Fernando Pires para, pela segunda vez, ir visitar a «adega».

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O senhor Fernando, seu proprietário, amavelmente, acompanhou-nos.

 

Eis a entrada para o primeiro corpo da adega, provavelmente o lugar da carregação do vinho, acondicionado nos diferentes tonéis.

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Aberta a porta, e assomando à adega propriamente dita, veja-se este estado de desolação! Mas, ao mesmo tempo, a beleza do que seria este espaço, noutros tempos.

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Hoje está sem telhado, ruído pelos sucessivos temporais e pelas enormes árvores que à volta a «guardavam».

 

Ao fundo, as paredes do terceiro corpo da adega, onde se situa ainda a dorna em granito que distribuía o vinho, vindos dos lagares, pela bem trabalhada canalização em granito, para os diferentes tonéis.

 

Dos tonéis apenas restam alguns aros e ruínas de um ou dois.

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Bem assim as escadas carcomidas de acesso à canalização de distribuição.

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Enquanto conversavamos com o senhor Fernando Pires, vimos no seu rosto, por um lado, pena; por outro, resignação. Pena, porque não gostaria de ter este património que comprou neste estado deplorável; resignação, porque para reconstruir este património para outra valia, conservando a sua matriz, leva muito investimento e a produção da maçã não lhe dá dinheiro suficiente que lhe permita esta recuperação e um retorno minimamente razoável sem que fique «empenhado».

 

Saímos deste lugar de desolação, mas simultaneamente fascinante, e dirigimo-nos à zona dos lagares, na parte mais alta da adega.

 

É o que o(s) leitores(as) podem ver!

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Palavras para quê?...

 

Despedimo-nos do senhor Fernando, sua esposa e família desejando-lhe um Bom Ano Novo.

 

E vimos a «recocar» para connosco: será que a gente do concelho ligada ao património e ao desenvolvimento não têm conhecimento disto?

 

Já, porventura, foram ver esta bela peça do nosso património imobiliário concelhio agrícola?

 

Não lhe reconhecem real valia e, mais do que isso, potencial?

 

O Município de Chaves tem um Plano de Desenvolvimento Estratégico. Porventura esta reconstrução não entra como valia nas suas «contas»?

 

Já que a sensibilidade dos decisores políticos flavienses não dá para tanto, pergunta-se: afinal de contas, o que fazem as entidades do Conselho Estratégico, (os «crânios», ditos não políticos (partidários) da região, e que dão «conselhos») constante do Modelo de Gestão e Organização da «Estratégia Integrada de Desenvolvimento Territorial do Alto Tâmega»? Conhecem esta estrutura? Não «descobrem» fundos, em diálogo com o seu proprietário, capaz de o ajudar a recuperar este imóvel e encontrar-lhe outra valia, posta ao serviço do desenvolvimento, quer pessoal, do seu proprietário, quer da comunidade? Não «entra» em nenhum eixo, objetivo ou medida estratégica daquele documento de estratégia integrada de desenvolvimento?

 

Nomeadamente, não há nenhum fundo do PRODER ou do Leader que lhe deite mão, como a ADRAT, entre outros, fez em Boticas, na Granja, a um edifício que passou por várias «mãos», que também pertence a um particular, cujo nome não vem aqui ao caso, e que, segundo o que a placa colocada na obra reza, que ainda ontem vimos, se destina a um pomposo «Núcleo Museológico Cisterciense»?

 

Aqui deixamos aos(as) leitores(as), no «reino» das maças no concelho,

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esta bonita arquitetura de um passado agrícola próspero, em ruínas, prestes a se transformar em pó e cinza. E que agora é apenas frequentado, e é «pasto»,

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nesta época do ano, simplesmente de ovelhas!...

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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2016

Chaves através da imagem - O Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso

 

 

CHAVES ATRAVÉS DA IMAGEM

 

O MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA NADIR AFONSO

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Durante o ano transato, na nossa página pessoal do Facebook, por um certo período de tempo, sob a designação «Chaves: Um dia - uma foto», fomos publicando imagens de Chaves, incidindo, fundamentalmente, sobre aspetos particulares da arquitetura, pública e privada, (ou ruínas) do seu casario.

 

Com a abertura desta rubrica, «Chaves através da imagem», neste nosso blogue, nosso desiderato mudou um pouco.

 

Se bem que os aspetos estéticos particulares do casario e dos monumentos da nossa cidade continuem a ser a nossa preocupação, agora, nosso objetivo ou finalidade pretende ir um pouco mais além. Ou seja, se bem que certos aspetos do casario e dos monumentos persistam na nossa mente como ideia clássica do seu património cultural material, na promoção de monumentos e outros testemunhos de legitimação do passado, mesmo quando se mostram ruínas, nossa atenção vai virar-se, predominantemente, para a imagem da cidade como um todo, nas suas diferentes vertentes: desenho urbano, arquitetura, arte pública e participação cidadã, entre outras.

 

Desta forma, o espaço público flaviense é o nosso palco de eleição, em termos de observação e reflexão. No tipo de desenho que lhe demos e estamos dando; na arquitetura que o envolve; nos passeios, ruas, rotundas, jardins, estatuária ou escultura que o ocupa, enfim, na organização e ocupação que, ao longo do tempo, dele fazemos. É a imagem que temos da nossa cidade, e que a habitamos, como aquela que queremos deixar como legado aos nossos vindouros.

 

Nesta vertente imagiológica, que desejamos agora inaugurar, o que vamos, muitas vezes, questionar é o tipo de desenho urbano que temos e que desejamos (ou deveríamos desejar) para o espaço da nossa urbe, entendida como polis, numa relação dialética entre o espaço público e privado, onde os agiotas e os especuladores imobiliários (e seus «intermediários» das mais diversas proveniências) estejam arredados ou, quando muito, para eles, existam regras bem definidas.

 

E, nesta perspetiva, estamos com Pedro de Andrade quando, na Introdução à obra «Arte pública e cidadania - novas leituras da cidade criativa», afirma que “mais atenção deveria ser dada, por parte das instituições públicas, e igualmente organizações privadas e associações e movimentos de cidadãos, às novas formas do património cultural, como o chamado «património imaterial» (tradições populares, performances e outras imersões artísticas) ou a obras de arte propostas por artistas de vanguarda”.

 

Ao apresentarmos neste post uma imagem do edifício onde se vai instalar o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso - ele um pintor com formação básica em arquitetura - não o fazemos de um modo inocente.

 

Não sabemos o que os decisores políticos locais pretendem que função ou funções esta instituição venha a desempenhar. Contudo, temos para nós, que esta instituição - que de certa forma é semipública, porquanto as suas obras de arte e as suas diferentes ações culturais se vão desenvolver dentro das suas quatro paredes -, deve ser um espaço que deve desempenhar uma nova e inédita conceção ou função cultural: para além da exibição e dinamização do património e herança culturais, deverá propiciar debates sobre o desenho urbano e o espaço público da nossa cidade e inspirar políticas culturais mais consequentes, e cujo primeiro destinatário, mas também seu autor e ator, é o cidadão.

 

Tal conceção da função do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso implica e exige que esta instituição deixe de ser um «cárcere» da política cultural dos protagonistas político-partidários que, em dado momento, ocupam o poder da Praça de Camões, e que seja capaz de descer à rua, invadindo-a, dinamizando-a, movimentando-a, dando preferentemente a voz, a ação e o protagonismo ao cidadão que vive quotidianamente nos diferentes espaços da urbe flaviense.

 

Será que os nossos os nossos decisores políticos locais terão a humildade, a coragem, o entendimento e o jogo de cintura suficiente para entenderem que, nos tempos por que passamos, a democracia representativa cada vez mais deve dar o lugar à democracia participativa e, através da dinamização e animação sociocultural, transformemos o cidadão em verdadeiro ator e autor do seu próprio desenvolvimento, assumindo, aqueles que elegemos, o dever e a ação cívica de coadjuvarem quem os elegeu nesta tarefa?

 

É nesta dialética representativa e participativa que se vê a qualidade dos políticos que temos e a valia dos cidadãos que somos na construção de uma verdadeira polis.

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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2016

Ao acaso... Perdido pelo Fragão da Pitorca

 

 

AO ACASO...

 

PERDIDO PELO FRAGÃO DA PITORCA

 


Quando, aqui há dias, Fernando DC Ribeiro nos convidou para o acompanharmos até ao Fragão da Pitorca (ou Pitorga) para ilustrar com fotografia(s) a rubrica do seu blogue (CHAVES) - Chá de urze com flores de torga - ficámos com uma pulga na orelha quanto ao nome, porquanto não nos parecia estranho de todo.

 

Acompanhámos Fernando DC Ribeiro com muito gosto. Enquanto conversávamos, dirigindo-nos para o local, nossas sinapses neuronais trouxeram-nos à lembrança a «nossa história» sobre o Fragão da Pitorca.

 

Parece incrível, mas foi, com Fernando DC Ribeiro, que fizemos, pela primeira vez, a incursão ao local. As razões o(a) leitor(a), quando mais tarde voltarmos a este assunto, compreenderá!...

 

Era já em fim de tarde quando chegámos ao lugar, com o sol a decair sobre o horizonte.

 

Fizemos a reportagem fotográfica possível e saímos do lugar dirigindo-nos para Chaves, por Vila Frade.

 

Intimamente sabíamos que, muito brevemente, tínhamos que lá voltar: há coisas que não se explicam, apenas se sentem.

 

E assim aconteceu.

 

Antes, porém, quisemo-nos informar mais e melhor sobre o sítio.

 

João Batista Martins, no jornal Notícias de Chaves, de 26 de junho de 1981, sob o título «A Fraga da Pitorca de Curral de Vacas», diz:
Fraga da Pitorca ou Fragão da Moura [é assim] como lhe chamam respetivamente os moradores de Curral de Vacas e os de Vila Frade. Os rochedos estão compreendidos nos limites das duas aldeias que parecem reclamar cada uma a sua posse. A Fraga da Pitorca, palavra composta onde entra o termo «orca», tão ligado à arqueologia, é um enorme aglomerado de penhascos de granito, com muitas grutas naturais e com diversos corredores entre elas. O ambiente que a cerca é constituído por castanheiras bravas e outras árvores e arbustos da mais diversificada qualidade que emprestam ao lugar uma imagem a que não estamos habituados, e que no verão formam um titio ameno, repousante, da natureza pura e virginal.”.

 

Continuemos com a citação do texto de J. Batista Martins. Mais à frente, diz:
Pela terceira vez já fomos em passeio de trabalho até aquela zona. E não foi com facilidade que o fizemos, e na última vez, com vinte e tal pessoas, conseguimos maravilhas ao desbravar as grutas da Fraga.”.

 

E prossegue:
Antes já tínhamos apanhado para o Museu da Região Flaviense parte de moinho que vai e vem, ou seja, em forma de sela. Doutra vez, mais dois pedaços de cerâmica, um pedaço de moinho também em forma de sela e uma bola de seixo, mas nitidamente alisada em uma face por ação do homem, possivelmente, do neolítico.
Na terceira vez, foram achados mais uns pedaços de cerâmica e a parte de uma mão de pilão, polida de um lado.
Presentemente é quase impossível descobrir mais alguma coisa, porque o mato e a folhagem tudo encobrem.”.

 

Na década de oitenta do século passado, é este o estado da arte, quanto a este sítio, pela pena do responsável do Pelouro da Cultura da autarquia flaviense, liderada por Branco Teixeira, João Batista Martins (o de Sanjurge, não o de Vila da Ponte, Montalegre), muito dado às questões do passado.

 

Carlos Félix, um competente técnico do Museu da Região Flaviense, em conversa havida há poucos dias, confirmou-nos ter sido um dos acompanhantes de J. Batista Martins naqueles seus «passeios de pesquisa», confirmando-nos do teor, naquela altura, dos achados acima referidos.

 

No texto de J. Batista Martins o que mais nos intrigou, num homem que «via» a real valia arqueológica daquele sítio, foi o destino que lhe propunha, quando escrevia:
Sem dúvida que a Fraga da Pitorca e a sua zona envolvente, seriam dignos de boa sorte, de aproveitamento turístico, se houvesse possibilidades económicas para tal fim. Um estradão condigno a partir da estrada Curral de Vacas - Mairos, com corredores por entre a mata e os acessos às diversas grutas da Fraga, com mesas e bancos de pedra, e eis um lugar paradisíaco para repouso das agruras da vida.”.

 

Vejamos, agora, o que nos diz o Portal do Arqueólogo - Património Cultural - Direção-Geral do Património Cultural:
O «Fragão da Pitorca» consiste num aglomerado de formações graníticas que conferem ao local uma posição destacada na paisagem. O conjunto dos rochedos gera um promontório que descai em forma de penedia sobre o seu sector ocidental, encontrando-se atualmente completamente absorvido por formações vegetais arbustivas que dão origem a um maquis florestal que começa já a dificultar o acesso aos rochedos. Na zona envolvente prolifera um mato constituído por silvas, pinheiros, giestas, estevas e alguns castanheiros bravos, ainda de pequeno porte, que ajudam a coartar o acesso ao sítio arqueológico (...)” (http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/?sid=sitios.resultados&subsid=48372).

 

Anteontem voltámos ao mesmo local onde tínhamos estado com Fernando DC Ribeiro.

 

Era princípio de tarde. Depois da borrasca dos dias anteriores, embora sentíssemos um pouco de frio, o sol erradiava.

 

Olhávamos para todos os lados e só se viam penedos,

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 (Penedo I)

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(Penedo II)

rodeados de vegetação,

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ora engalfinhando-se nela

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ora no meio de vinhas.

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 (Cenário I)

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 (Cenário II)

Aqui

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e ali pequenos arbustos, alguns já sem vida, enfeitando as «suas pedras».

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Sentámo-nos neste penedo.

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Ao longe, mais para nordeste, um sobreiro.

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Para noroeste, um outro, com a povoação de Vila Frade a seus pés,

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rodeada pelas terras férteis da Veiga Chaves-Verín.

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Levávamos connosco o Diário XVI, de Miguel Torga. Abrimo-lo na entrada de 4 de setembro de 1991. Miguel Torga, referindo-se à Pedra da Pitorga, e à visita penosa que, naquele dia, lhe fez, diz ter sido “um abrigo pré-histórico gigantesco que deu segurança através dos tempos a sucessivas aflições. A ele acolhiam os primitivos habitantes da região, assediados por ursos, lobos, javalis e outros inimigos. Nele se refugiaram foragidos da Inquisição e da senha miguelista e liberal, e perseguidos da Guerra Civil espanhola, que a raia não defendia da raiva nacionalista. Labirinto granítico oculto num matagal de giestas e carvalhas, nele me apeteceu resguardar também a dignidade de poeta neste tempo sem poesia que me coube [viver]. Mas o homem já não sabe identificar-se no seio da natureza (...)”.

 

Da(s) história(s) relacionada(s) com estas pedras não podemos aferir da sua verdadeira autenticidade, embora desconfiemos que algum fundo de verdade tenha...

 

Continuámos ali sentados por uma bem longa meia hora.

 

Se fizesse parte das nossas habilidades artísticas o versejar, quanta fonte de inspiração este local nos suscita!...

 

Apenas nos ficámos na nua e pura contemplação da natureza e cogitando como teria sido a gesta do sapiens por estas paragens ao longo de séculos, porventura milénios...

 

Descemos do penedo e, por entre penedos,

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fomo-nos embrenhando pelos recantos do lugar.

 

Aqui, um penedo transformado em armazém de utensílios e/ou refúgio;

 

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ali, um ou outro, protegendo uma tosca casota que apoia o granjeio da vinha que lhe está ao redor.

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Ao longe, uma perspetiva da serra cheia de neve.

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E, continuando a descer, mais uma outra vista da mesma serra.

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Até que, sem darmos nem por burro, nem por albarda, nos perdemos completamente sem sabermos como sairmos do «buraco» onde nos tínhamos metido!

 

Mais de meia hora se passou sem que encontrássemos o «norte». Nem GPS nos valeu ou tão pouco o mapa da Google Earth que levávamos!

 

«Hélas», perdidos no meio de tanta fraga e mato, alhures em terreno desconhecido!...

 

Depois de tantas voltas dadas, e sentindo-nos verdadeiramente encurralados, «eureka!».

 

Não que encontrassemos o caminho certo. Foi um «anjo salvador» que nos apareceu - o senhor Augusto, prestes a largar a sua lida do dia para se dirigir, de trator, para a sua casa, em Santo António de Monforte.

 

Tirou-nos do lugar donde não conseguiamos sair e, depois, ainda andou connosco, mostrando-nos mais recantos que nem sequer sonhávamos existir.

 

Como esta gente é solidária, franca e humana, quando veem numa hora destas um ser humano em aflição!

 

O senhor Augusto fez questão de nos mostrar este penedo.

 

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Reparemos neste portal de entrada.

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Depois de passarmos a soleira daquele portal, ficámos deslumbrados com o que vimos:

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(Ângulo I)

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(Ângulo II)

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(Ângulo III)

Hoje, este lugar, deve ser refúgio/coito de muitas «pandegas», pensamos nós; outrora, para o senhor Augusto, dono de terrenos por estas bandas, e bem conhecedor do assunto por sua antiga profissão, foi um dos lugares constantes da rota do contrabando: aqui se acomodavam dezenas de cabeça de gado para, pela calada da noite, em horas de segurança, passar «calmamente» para a «outra banda».

 

O nosso «salvador», transformado agora em «cicerone», fez questão de nos levar até às proximidades da tão afamada Fraga da Pitorga,

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 (Perspetiva I)

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(Perspetiva II)

como dizem os de Curral de Vacas (melhor dizendo, perdão, Santo António de Monforte) e Miguel Torga, mas cuja designação arqueológica é Fraga da Pitorca.

 

Foi aqui, nesta enorme fraga,

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 (Fraga vista de um ângulo)

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(Fraga vista de um outro ângulo)

que, na década de 90 do século passado, foram encontrados dois achados que Fernando DC Ribeiro nos mostra no seu blogue (CHAVES), na rubrica Chá de urze com flores de torga, nº 116, de 3 de fevereiro passado.

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 (C. c. Fernando DC Ribeiro)

Naquela local dedicada a Torga, Fernando DC Ribeiro lança-nos um certo chiste quanto à questão de uma outra história e sua veracidade. Bem assim a desta. Mas esse assunto será questão a abordar num próximo post.

 

Por hoje ficamos por aqui e pela aventura que um caminhar ao acaso nos propiciou.

 

O senhor Augusto Pereira foi para a sua vida. Nós também fomos à nossa. Com um largo aperto de mão.

 

Antes, porém, de nos despedirmos deste lugar, voltámos ao nosso conhecido penedo onde, duas horas antes, nos entretivemos na leitura de Torga e em cogitações históricas, contemplando aquela natureza já não tão pura e virginal, como dizia J. Batista Martins no seu artigo, mas semisselvagem.

 

Para nos despedirmos. E nos deleitarmos com este por do sol!...

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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Versejando com imagem - A ligação de Sá de Miranda às Terras de Basto

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

A LIGAGÃO DE SÁ DE MIRANDA ÀS TERRAS DE BASTO

 


Estamos habituados a estudar aquilo que está distante,
que admiramos à distância,
e acredito que valha a pena olharmos para nós próprios
e estudarmos com um olhar humilde o nosso húmus...

Ana Paula Guimarães

 

No nosso penúltimo post, de 12 de fevereiro passado, quando falávamos do tema Por terras de Portugal - Reflexões sobre Casas Senhoriais para Turismo de Habitação, questionávamo-nos sobre o modelo de desenvolvimento territorial que, há longas décadas, senão séculos, temos seguido em Portugal.

 

No post Desencontro(s) - Cena 2:- Poemas Ibéricos versus Mensagem, de 9 de fevereiro de 2013, Augusto Santos Zassu dava-nos conta, no confronto com a obra de Fernando Pessoa (Mensagem) com a de Miguel Torga (Poemas Ibéricos) que, entre alguns dos nossos maiores das letras portuguesas, existe uma certa tensão e, porventura, desencanto, naquilo que se tornou a nossa gesta das Descobertas, ao ponto de, no último poema de Poemas Ibéricos, Miguel Torga verseja:


Venha o Sancho da lança e do arado,
E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,
O Senhor D. Quixote verdadeiro!

 

Augusto Santos Zassu arremata o seu artigo naquele post da seguinte forma:


Perdidos os impérios, e não aprendendo a lição da história, continuámos a pensar que a nossa integração na União Europeia acabaria por nos dar o ter que havíamos perdido nos longínquos mares…

 

Em Miguel Torga, bem assim em outros autores, há uma certa nostalgia quanto a um Portugal, anterior à Expansão, que, esquecendo-se do húmus donde provinha, se perdeu mo «mar»...

 

Também na febre do ouro dos brasis, perante uma Corte que vivia do fausto e dos proventos do Império, no despoletar constante da intriga, não produzindo nada de enriquecedor para o Portugal de então e para as suas gentes, Sá de Miranda, um dos iniciadores do movimento Renascentista em Portugal, queixando-se da atração de uma capital de «orgia» e fausto, esquecendo-se das suas origens, retira-se para a «província», para as Terras de Basto.

 

Reproduzamos, numa pequena súmula, o que o Jornal de Animação da Rede Portuguesa Leader + - Pessoas e Lugares -, II Série, nº 52, de 2008.

 

Na miragem do cravo e da canela de outras índias e no oiro dos brasis, que os euros que a Europa nos «cedia», e que, para nós representavam, fomo-nos esquecendo da lição dos dois grandes mestres da nossa portugalidade, de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo roubada» e desenvolvendo, todos, toda – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – numa nova gesta que nos faça, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.

 

Sá de Miranda, natural de Coimbra, onde nasce em 1481, doutor em Direito pela Universidade então estabelecida em Lisboa, frequentador e trovador da corte, a sua viagem por Itália e Espanha permitem-lhe conhecer as novas formas literárias do Renascimento que introduz em Portugal. Após o regresso, a sua desadequação com as intrigas da corte levam-no a abandoná-la e a retirar-se para o Minho. O seu casamento com uma fidalga minhota e a comenda de Duas Igrejas que o rei D. João III, seu amigo pessoal, lhe atribui conduzem o poeta até ao concelho de Amares onde fixará residência definitiva, primeiro em Duas Igrejas, junto ao Neiva, que caracteriza a fase mais produtiva e feliz do poeta, depois na Quinta da Tapada na fase final da sua vida.

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(in: http://www.cm-amares.pt/patrimonioconstruido/casadatapada)

A proximidade de Amares com Cabeceiras de Basto, a fidalguia cabeceirense, a importância do mosteiro de S. Miguel de Refojos e a história de D. Nuno Álvares Pereira terão cativado a proximidade com este concelho que culmina com o casamento de seu filho na Casa da Taipa, ainda por ele contratado e que se realiza já após a sua morte. Desta ligação ficou a “Carta a Dom António Pereira, Senhor de Basto”, e a écloga “Basto”, dedicada ao Condestável e cujo título provém, tudo indica, desta região.


A época em que viveu Sá de Miranda é uma época de alterações administrativas na região de Basto. No início do século existiam os concelhos de Pena (Ribeira de Pena), com foral de D. Afonso IV (1331), Mondim e Ermelo (1196), ambos com foral de D. Sancho I. Com a política dos forais novos de D. Manuel I, não só são renovados os forais de Mondim (1514) e Pena (1517), como são concedidos forais a Cabeceiras (1514), Cerva (1514), Atei (1514) e Celorico (1520) e a criação dos respetivos concelhos. É a época áurea da expansão portuguesa que leva muitos à aventura do ultramar em busca de riqueza, o que permite a construção de algumas capelas e casas brasonadas da região. É também provável, na primeira metade do século, a construção de uma ermida antecessora do Santuário de Nossa Sr.ª da Graça.

 

A ligação do poeta com Cabeceiras de Basto é visível em duas das suas obras. A primeira é a carta “A António Pereira Senhor de Basto, quando se partiu para a corte co’a casa toda” que começa da seguinte forma:


Como eu vi correr pardaus
Por Cabeceiras de Basto,
Crecerem cercas e o gasto,
Vi, por caminhos tão maus,
Tal trilha e tamanho rasto,
Logo os meus olhos ergui
À casa antiga e à torre,

E disse comigo assi:
Se Deus não vai mal aqui,

Perigoso imigo corre.
Não me temo de Castela,
Donde inda guerra não soa,
Mas temo-me de Lisboa
Que, ao cheiro desta canela,
O Reino nos despovoa.”

 

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publicado por andanhos às 11:49
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Sábado, 13 de Fevereiro de 2016

Memórias de um andarilho - Caminhada na linha do Corgo - Vidago-Sabroso

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS

 

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO CORGO
(Vidago-limite do concelho de Chaves)


Dizíamos no post de 21 de janeiro passado, nas «Memória de um andarilho» - Caminhadas nas vias férreas abandonadas - Linha (de Caminho de Ferro) do Corgo/Chaves-Curalha, que, juntamente com os meus companheiros de caminhadas (Rui e Tó Quim), tínhamos o projeto de «palmilhar» e conhecer as vias férreas portuguesas abandonadas, a começar pela linha do Corgo.

 

Entretanto, tendo assumido levarmos a cabo os Caminhos de Santiago, na Galiza, nomeadamente o Caminho Francês, o Português e o Epílogo (Santiago de Compostela-Muxia-Fisterra), uma vez que, em 2007, já tínhamos feito os do Norte e a Via de la Plata (Caminho Sanabrês), adiámos a nossa «empresa», apenas tendo feito, em 2008, o percurso do Tâmega/Curalha-Vidago.

 

Em 2009, compromissos docentes, levaram-nos para o sul do distrito, no Douro, e aí investimos, enquanto por lá andámos, noutros trilhos e noutras linhas, com outros companheiros de caminhada, e mesmo alunos, fazendo a Calçada de Alpajares, a rede de percursos pedestres do concelho de Lamego, o percurso de Lamas do rio Olo (Alvão), a linha de caminho-de-ferro do Douro, entre o Pocinho e Barca d’Alba e entre Barca d’Alba e Fregeneda (Salamanca/Espanha), e a linha do Tua, enquanto, no mês de Janeiro, com dois amigos lisboetas, fizemos as levadas da Madeira e, no mês de maio, nos deslocámos a S. Paulo/Brasil.

 

Ainda no ano de 2009, com familiares, levámos a cabo a Geira Romana e o percurso que nos leva até à Lagoa do Marinho, em pleno Parque Nacional Peneda-Gerês.

 

Cumpridos os compromissos assumidos a sul, até metade do ano de 2010, com um grave incidente de saúde de permeio, chegou a hora de darmos cumprimento ao nosso velho projeto que tínhamos iniciado em 2008 - o de percorrer, durante um ou dois dias de cada fim-se-semana, a linha do Corgo, de Chaves à Régua.

 

Em 2008, efetuámos o percurso Tâmega/Curalha-Vidago.

 

A 10 de outubro de 2010, num domingo, continuámos o percurso pelo antigo traçado da linha, efetuando o troço Vidago-proximidades de Sabroso, no termo do concelho de Chaves, com o início do de Vila pouca de Aguiar, numa distância, sensivelmente, de 11 Km, conforme quadro que abaixo se apresenta.

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Logo após a saída de Vidago, aproximamo-nos do apeadeiro Salus.

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Ao longo deste traçado, pilhas de madeiras, com travessas da linha, ou para vender, ou para queimar por alguns dos vizinhos, com casa nas proximidades do troço,

02.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

onde as abóboras não faltam, porventura para «cevar» o «requinho».

03.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

Quase sem nos darmos conta, estávamos na povoação de Oura, sede da freguesia com o mesmo nome. O traçado da linha aqui tinha um viaduto, por cima do qual passa a EN nº 2.

04.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

Íamos descontraídos.

 

Subimos até à povoação, até ao Largo, que, a partir da EN nº 2, lhe dá acesso.

 

No casario próximo do Largo, esta arbusto de roseira branca chamou-nos a atenção,

05.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

e contemplámos a alvura das suas flores,

06.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

bem assim um velho candeeiro de iluminação exterior de uma casa.

07.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

Regressando, de novo, ao traçado da linha, e ultrapassada a povoação de Oura, o troço da mesma, em vez de continuar na direção sul, inflete para nordeste, durante um bom pedaço, para, logo de seguida, voltar a rumar a sul.

 

Conforme mapa que se apresenta,

08.- LCF.jpg

não compreendemos muito bem da ou das razões de tal inflexão: se questões técnicas; económicas ou quaisquer influências políticas de proprietários que não queriam ver as suas propriedades retalhadas e invadidas pela linha. Vá-se lá saber!...

 

O certo é que o troço faz curvas e contracurvas para, depois, num cocuruto, em diagonal, torcer, definitivamente, para sul. Uma simples visita ao Google Earth, observando esta zona, de forma ampliada, e seguindo o trajeto que se mostra no mapa atrás apresentado, confirmar-se-á o que afirmamos...

 

Enquanto íamos subindo, ziguezagueando, o troço vai-se tornando quase irreconhecível, transformando-se em pasto de arbustos autóctones, onde o medronheiro, com os seus frutos não faltam.

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Do alto, a vista sobre a vacaria de Oura,

10.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

e o serpentear da EN nº 2, depois da saída de Oura.

11.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

Até que, envoltas em denso mato, as ruínas de uma construção

12.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

e o apeadeiro de Oura-Loivos.

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Daqui, mais uma bela vista sobre Vidago e o Campo de Golfe do Palace Hotel, em fase de conclusão.

14.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

E, quase sobre os nossos pés, a povoação de Oura,

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apresentando-se, por outro lado, o vale com o mesmo nome e a estrada Municipal que, de Vidago, dá acesso a Loivos.

16.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

Dirigindo-nos para Sabroso, o troço mostra este estado de completa desolação, porquanto, no passado verão, um incêndio devastou esta área, deixando as árvores e os rochedos da zona afetada no estado que podemos observar

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e, inclusive, tendo passado para o outro lado da EN nº 2.

20a.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

Num cruzamento do troço, no qual podemos ver esta placa de sinalização tisnada pelo calor,

21.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

decidimos dar por terminado o nosso percurso de hoje.

 

Abandonámos o troço da linha, donde se pode ver, junto à EN nº 2, um Centro de Armazenamento e Distribuição de gás da Galp

21a.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

e, nos montes contíguos, a implantação de eólicas,

21b.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

e dirigimo-nos, por um íngreme caminho, até à EN nº 2.

 

Neste local,

23.- 2010 - Caminhada Linha CP Vidago-Pedras [1º

fim do termo do concelho de Chaves e início do de Vila Pouca de Aguiar, sob a proteção de uma árvore e com a ajuda de uns bancos e umas mesas, aqui mudámos de roupa e tomámos o nosso 2º pequeno-almoço (reforçado).

 

E, pela EN nº 2, continuámos a pé até Vidago, onde um nosso familiar nos esperava para nos levar até Chaves.

 

Tratou-se de um verdadeiro passeio, este troço. Durante o percurso, a boa disposição, acompanhada de brincadeiras, reinou. Estávamos, manifestamente, bem-dispostos. E até o tempo ajudou: não houve muito frio, a temperatura era agradável, e até o sol brilhou!...


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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2016

Por terras de Portugal - Casas Senhoriais e Turismo de Habitação (Celorico de Basto)

 

POR TERRAS DE PORTUGAL

 

REFLEXÃO SOBRE CASAS SENHORIAIS PARA TURISMO DE HABITAÇÃO


Aproveitámos, num dos fins-de-semana de janeiro passado, por razões ligadas a um evento gastronómico nas Terras de Basto, mais propriamente na área do concelho de Celorico de Basto, para melhor conhecermos este concelho tão pouco por nós frequentado.

 

Normalmente, em qualquer deslocação que fazemos para fora, quando, como hoje se diz, «saímos da nossa zona de conforto», procuramos planear a saída para aproveitar ao máximo o conhecimento das nossas terras de Portugal. Trata-se de um velho hábito de professor habituado a planear as suas aulas. E, ainda, tanto mais quanto os seus centros de interesse e estudo se prendem (iam) com a área do turismo e do seu desenvolvimento.

 

Deambulando pelos diferentes sítios da internet, uma das primeiras impressões que retirámos quanto ao concelho de Celorico de Basto foi a sua riqueza patrimonial no que concerne à arquitetura, em especial as «Casas Antigas» e/ou Solares.

 

Aliás, quer as Terras de Basto, quer o Minho, em especial Ponte do Lima, são áreas ricas neste tipo de património e no seu consequente aproveitamento para Turismo em Espaço Rural (TER).

 

De entre as várias publicações encontradas, pegámos em duas dissertações de Mestrado: uma, de Sara Miriam Paúl da Silva, com o título «Ponte de Lima - Património Histórico e Turismo: As Casas Senhorias («Casas Antigas») como espaço de Turismo de Habitação», de 2012; outra, de Daniel da Mota Carvalho, com o título «Casas Senhoriais de Celorico de Basto - O entendimento para a estratégia de reabilitação de uma casa nobre», de 2013.

 

Ambos os autores, no enquadramento teórico, fazem um pouco da história da evolução da casa nobre portuguesa. Daniel da Mota Carvalho, porquanto a sua dissertação de mestrado é na área da arquitetura e na proposta de reabilitação de uma casa antiga para Turismo de Habitação, no seu enquadramento teórico acrescenta um capítulo relacionado com as questões ligadas à teoria do restauro, partindo do Renascimento, indo até à Convenção Nacional francesa, falando, depois, do restauro estilístico e romântico, e as teorias do restauro italiano para, a final, falar sobre a Carta de Atenas (1931); o Congresso de Veneza (1964); o ICOMOS; a Carta Europeia do Património Arquitetónico e a Declaração de Amesterdão (1975), numa linha em que o autor defende que a “ conservação seguir-se-ia a recomposição só depois a remoção de acrescentos ou desmontagem de partes não originais finalmente a contemplação e, num significativo último lugar a inovação.".

 

Porque não é nossa intenção, neste post, enveredarmos pelas questões relacionadas com a problemática do restauro, vamos apenas privilegiar um pouco a história da «Casas Antigas» e o seu aproveitamento para Turismo de Habitação.

 

Demos a palavra a Sara Miriam Paúl da Silva: “As Casas Antigas são caracterizadas pela sua arquitetura erudita, remontando, algumas aos séculos XVII e XVIII. Guardam nelas relíquias de família e grandes obras de arte. Estas casas são grandes e seculares, ostentando, algumas delas, uma pedra de armas, símbolo de linhagens. Passou a designar, na linguagem de hoje, a casa antiga, secular, grande, apalaçada, com qualidade estética, em zona rural ou em pequena povoação possuída durante várias gerações por uma família nobre, na grande maioria dos casos ostentando pedra de armas no exterior. As Quintas e Herdades são caracterizadas pelo acolhimento que decorre num ambiente mais rural, inserido num contexto agrícola. A arquitetura é clássica e tem um toque de rusticidade. Acrescem, ainda, as Casas Senhoriais e Solares. A casa senhorial portuguesa tem diversas definições, segundo o que é relatado no “Roteiro Casas Senhoriais Portuguesas”. Pode ser um palácio que foi a residência de Reis, ou um Paço que também seria uma habitação de Reis, Infantes ou Bispos, ou passaria a chamar-se assim, caso um Rei tivesse lá passado uma noite. A palavra solar deriva da palavra latina solum que significa chão e significa uma casa onde teve origem uma família nobre. Para que uma casa seja considerada solar, não é necessário que tenha torre, castelo ou casa forte, mas se as tiver, mais nobre é considerado o solar. No caso dos solares e casas apalaçadas as capelas são muito frequentes. Poderá também ser um solar, caso nessa casa tenha origem uma família ou uma quinta, caso existam terras que estejam cercadas por muros. Quando na origem da casa existia uma torre, esta é apelidada com este mesmo nome ou pode ainda ser chamada de casal, no caso de existirem terras limitadas por marcos e quando esta teve origem num emprazamento de bens. A casa senhorial portuguesa pode ainda ser chamada como tal, comparativamente a outras construções também notáveis existentes num determinado local, mas apenas se aí viveu ou vive uma família de origem nobre. Há ainda as casas do mosteiro, que no período de extinção das ordens monásticas (com o liberalismo ou a república) foram vendidas em hasta pública e se tornaram residência de uma determinada família [...] (...) Muitas Casas Antigas, plenas de espessura histórica (muitas ligadas à nobreza fundacional de Portugal) sobreviveram, desempenhando ao longo do tempo muitas funções. Começando por ser, muitas vezes casa de defesa e tornando-se mais tarde, vários séculos depois em casas senhoriais que se transformaram em casas para Turismo de Habitação.”.

 

Referindo-se existir uma maior concentração de Casas Antigas no Norte (particularmente entre o Douro e Minho), a autora escreve: “Os dados provam que existe uma maior concentração de casas de turismo de habitação na região Entre Douro e Minho. Talvez a explicação para este caso seja de natureza histórica dado ter sido uma zona senhorial, de forte densidade da nobreza portuguesa que esteve associada ao processo histórico de formação de Portugal. A este acrescenta-se uma grande rede de comunidades monásticas no Entre-Douro-e-Minho, que justifica a designação de «Norte Senhorial»”.

 

E, noutro local, diz: “A arquitetura setecentista do Norte do País é uma das mais originais contribuições portuguesas para o barroco europeu. (...) O Norte “salta” do gótico para o barroco, o que contrasta com o sul. O Renascimento tem uma arquitetura que se revela clara e estável, no barroco é mais dinâmica e inquietante, espírito dramático, e as fachadas (muito importantes no Norte) exploram o conjunto casa-natureza. Desenvolve-se na horizontal, e as casas possuem dois andares – o de cima é o andar nobre e as janelas neste piso são mais ricas. No piso inferior existem os celeiros e as adegas.”.

 

Os elementos que melhor definem a casa nobre setecentista, segundo Carlos Azevedo, na opinião desta autora são:


- A concentração do esforço arquitetónico e decorativo na fachada, principalmente na entrada nobre, e a tendência de acentuar a linha superior dos frontispícios pelo emprego de frontões ou ornatos;


- O desenvolvimento horizontal das fachadas, muitas vezes articuladas por pilastras, pouco salientes, que a dividem em três ou mais secções, com a existência, por vezes, de barras horizontais;


- A valorização da escadaria no exterior e no interior.

 

Depois a autora, falando do uso deste tipo de património para fins turísticos, afirma que o Turismo de Habitação, com a nova lei, criada em 2008, ficou enquadrado, do ponto de vista legal, no chamado Turismo no Espaço Rural, que engloba o Turismo de Habitação e o Turismo no Espaço Rural, consideradas diferentes práticas turísticas.

 

Sobre o papel da TURIHAB (Associação do Turismo de Habitação), afirma a autora que vimos citando que, esta entidade “criou uma imagem de marca, os Solares de Portugal, (negrito nosso) que classifica os diferentes tipos de casas existentes no país em três categorias «de acordo com a realidade de alojamentos existentes». Os solares de Portugal encontram-se divididos assim em três classes:


- «Casas Antigas» - caracterizadas por uma arquitetura erudita com incidência entre os séculos XVII e XVIII, podendo no entanto ser incluídas casas com valor patrimonial autêntico, marcando épocas e movimentos da história. Estas casas encontram-se recheadas de mobiliário da época e muitas delas guardam preciosas relíquias de família. Pode-se ficar alojado na própria casa ou em pequenos apartamentos usufruindo sempre do mesmo ambiente;


- “Quintas e Herdades” – caracterizadas pela existência de uma propriedade agrícola, onde o acolhimento apresenta uma componente marcadamente rural e cuja casa principal poderá enquadrar-se na arquitetura clássica erudita ou rústica;


- “Casas Rústicas” – caracterizam-se mais pelo valor etnográfico que o arquitetónico, utilizando materiais da sua região, de arquitetura simples e usualmente de pequenas dimensões, confortável e prático. Localizam-se em ambiente rural, oferecem momentos de calma e de sossego próprios da vida no campo.”.

 

E, mais à frente, adianta: “O turismo feito em espaço rural, é uma forma de preservação e valorização dos recursos ambientais e patrimoniais, conserva o meio ambiente e propicia o desenvolvimento cultural. Um património natural e cultural intacto e bem aproveitado é uma forma de promoção (...)”. Para, depois, rematar: “A gastronomia, a produção agrícola, as acessibilidades, a cultura e a tradição entre outros fatores são meios que permitem (facilitam, incentivam mesmo) a atracão por uma determinada região, promovendo, assim, o afluxo de turistas que vão em busca de algo diferente, que não têm nas suas vidas do dia-a-dia, procurando, tantas vezes, uma calma que não conseguem ter nas suas rotinas diárias.”.

 

Contudo, nem tudo quanto às Casas Antigas ou Senhoriais portuguesas, é um «mar de rosas», infelizmente!

 

Estamos com Sara Miriam quando afirma que “cada uma das casas mereceria uma monografia mais desenvolvida e uma pesquisa que as identificasse cabalmente”. Bem assim na postura de alguns dos seus proprietários, com o dever de facultarem o acesso à Casa, sua informação e potencialidades, tanto mais que, alguns deles, foram beneficiários de fundos para o seu restauro e utilização turística.

 

A autora, nas Conclusões da sua dissertação, afirma: “O que é certo, é que para os turistas, uma das maiores razões para se instalarem nestas casas é a de reviverem o passado, que remontam sempre ao antigo, ao passado, tendo sempre um certo toque de conforto e modernidade. De alguma forma é uma maneira de fugir à rotina, uma forma de sair da maneira de viver habitual. É, ainda, uma forma de conviver com culturas diferentes, não só típicas da região mas também próprias de outros turistas que frequentam a mesma casa no mesmo momento.


Este convívio é mesmo geracional, porque as pessoas que frequentam estas casas e que praticam este género de turismo, têm as mais variadas idades, dos mais jovens que se deslocam em grupo para se divertirem, usufruírem das diversas atividades oferecidas, da praia, piscina, entre outras, aos mais velhos que vão para descansar, aproveitar a calma e a tranquilidade que a natureza e o ar do campo oferecem. Este tipo de turismo oferece calma, a amabilidade das pessoas em receberem em suas casas e a troca de culturas. Quem pratica este tipo de turismo tem experiências diferentes, visto que há a interação com outros turistas, de diferentes nacionalidades, culturas e até estratos sociais. As pessoas que praticam este tipo de turismo são normalmente de um nível social superior e têm estudos. Maioritariamente são portugueses mas também estrangeiros que ficam por mais tempo. Se nos focamos nas Casas Antigas a verdade é que elas não são ilhas, integram-se e procuram integrar-se na envolvente (...)”.

 

Como dissemos, num dos fins-de-semana de janeiro passado, aproveitámos para visitar algumas das muitas Casas Antigas de Celorico de Basto. O seu Plano Diretor Municipal, Processo de Revisão, Volume III - Carta do Património Arquitetónico do Concelho de Celorico de Basto (novembro de 2013), identifica 85 Casas e 42 Solares. Na obra citada de Daniel da mota Carvalho os números não andam muito longe, embora não apresente a classificação entre Casas e Solares.

 

Apresentámos, num dos últimos posts, a Caca de Gandarela e o seu jardim em topiaria.

 

Vamos agora mostrar ao leitor (a) mais 5 Casas que visitámos (tudo só por fora!...)

 

• A Casa do Campo, em Molares,

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destacando-se a sua capela

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e os seus jardins em topiaria.

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Está a ser utilizada para Turismo de Habitação.

 

• A Casa da Boavista, freguesia de Veade,

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vista em panorâmica, e depois em «zoom»,

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pois não foi possível obter o acesso mais perto.

 

Segundo a informação de um taxista de Celorico, vai abrir, para fins turísticos, na próxima primavera ou verão.

 

• Ainda na freguesia de Veade, a Casa do Outeiro,

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com um jardim de topiaria em pleno abandono, destacando-se uma ou outra flor de camélia,

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e a precisar de um melhor arranjo e outro uso, também compatível com a sua «nobreza».

 

Quando nos dirigíamos para o Castelo de Arnoia, na freguesia de Arnoia, demos com duas Casas à espera também de restauro, ou melhoramentos, dando-lhes uma valência também compatível com a sua «nobreza»:

 

• A Casa de Toiande (?), em Bouça,

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Com a sua impressiva pedra de armas na fachada principal,

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em parcial abandono, começando a ser palco de pasto das heras.

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• A Casa de Telhô,

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com uma bonita escadaria e a pedra de armas ao lado da fachada principal.

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Aguardamos mais uma ida a Celorico de Basto para elencarmos mais património arquitetónico, principalmente desta natureza, que, no fundo, faz parte da História e da nossa memória coletiva.

 

Deixamos, para finalizar, aqui a inquietação/interrogação da nossa autora, no início ou Introdução do seu trabalho: “Por isso nos interrogamos acerca do significado deste modelo turístico na manutenção deste património, na sua perpetuação e sustentabilidade. E que tipo de sensações e ofertas são criadas junto do turista, no espaço doméstico e para fora dele nos prolongamentos com o ambiente rural.”.

Inquietação/interrogação que nos sugerem outras tantas:


• Será que este património (as «Casas Antigas») é um fator de atração turística, face ao abandono de muitas que vemos?

 

• Será que as iniciativas turísticas desta natureza contribuem para o desenvolvimento económico dos espaços rurais ou urbanos em que se situam?

 

• Será que o desenvolvimento desta atividade turística traz proventos, quer ao diretos proprietários, quer às comunidades em que se inserem?

 

• Será que o modelo de desenvolvimento que seguimos em Portugal é integral e harmónico, respeitador de todo o território nacional e atendendo às suas respetivas especificidades?

 

• Porque será que o interior está cada vez mais desertificado, sem pessoas e com um património natural e patrimonial ao abandono e em ruínas?

 

Neste campo, o do desenvolvimento territorial, não se trata de fatalidades.

 

Trata-se, sim, de opções!


publicado por andanhos às 20:23
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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

Palavras soltas... Laza, um dos vértices do triângulo mágico - o «Peliqueiro»

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

LAZA - UM DOS VÉRTICES DO TRIÂNGULO MÁGICO - «O PELIQUEIRO»

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1.- UMA ANÁLISE ANTROPOLÓGICA SUCINTA

 

Antrudo, Entroido, Entrudo ou Carnaval, entre outras expressões, há-o por todo o canto deste mundo. Insere-se, desde tempos ancestrais, no ciclo de vida das diferentes comunidades humanas. Obviamente, com diferentes manifestações e matizes, conforme os respetivos lugares, geografias, costumes, enfim, as diferentes culturas dos povos. Mas tendo matrizes básicas, em que estas manifestações que o Entrudo representam e assentam.

 

Joan Prat i Carós, no seu estudo «El Carnaval y sus rituales: aigunas lecturas antropologicas» diz-nos que o Carnaval se inscreve no âmbito de quatro rituais, a saber:


• 1.- os de natureza cósmica, encarando-se o Carnaval como um período de Caos criador e gerador de vida, saído de uma complexa conceção do tempo primitivo, diretamente relacionado com o ciclo do mundo dos mortos e com o trânsito do inverno para a primavera, que, por sua vez, depende da ação fertilizadora e benéfica que os antepassados devem assumir para com os humanos. Em suma, e citando o estudo «Aragon e el Carnaval», de 1980, de Josefina Roma, Joan Carós diz que o “«Carnaval é a festa das festas (...) a sua importância está na batalha entre a morte e a vida. A necessidade de assegurar a fertilidade do mundo e o trânsito dos defuntos sobre a terra que devem ser enviados para o mundo superior e, desde aí, se associarem à tarefa fertilizante dos campos, animais e pessoas. Cuidar que este trânsito ou passagem de seres malévolos se transformem em seres fertilizantes; cuidar que a morte se converta em ressurreição, requer a totalidade das forças humanas e a concentração dos rituais maiores de todo o ano»”;

 

• 2.- os de fertilidade e fecundidade, diretamente relacionados com a natureza cósmica. Segunda este paradigma ou leitura, o Carnaval deve ser analisado como uma alegoria do espírito da abundância, ou melhor, da reprodução biológica capaz de assegurar a dita abundância. A terra e o mundo vegetal, assim como o mundo animal e humano, adormecidos pela letargia do inverno, necessitam de revitalizar-se mediante certos rituais específicos. Certos autores afirmam que, em Roma, as festas Lupercalia ou Lupercales protagonizavam e estavam relacionadas com a fecundidade das mulheres e do gado, assim como a preservação do gado contra animais selvagens. Um outro autor, Caro Baroja, na sua obra «El Carnaval. Análisis histórico-cultural», de 1979, argumenta sobre a extrema complexidade do Carnaval, dificilmente redutível a «superveniências» do passado. Contudo, no final da sua aludida obra, sempre nos vai dizendo que as festas romanas - Saturnalia, Lupercalia e Matronalia - tiveram uma enorme influência na fudamentação dos diversos estudos carnavalescos hispânicos. A determinada altura, o autor diz, citando-o em vernáculo: “Pero es, sobre todo, la misma figura de los lupercos - esos jóvenes embriagados que corrían semidesnudos por las calles, azotanto a las mujeres deseosas de descendencia com látigos confeccionados a base de piel de macho cabrío - lo que ha dado pie a la comparación con numrosas mascaradas carnavalescas españolas, cuyos protagonistas muestran un sorprendente parecido com aquéllas”. Por sua vez, González Reboredo e Mariño Ferro, na obra comum sobre o Entrudo, sintetizavam, deste modo as características gerais das mascaradas galegas - a) trazem frequentemente uma pele de animal; b) vestem de modo «irregular» e, por vezes, de modo que nos lembra a indumentária feminina, ainda que sejam varões os que as vestem; c) da sua vestimenta, e normalmente do seu cinto, pendem «chocas», «cencerros» ou campainhas próprias de animais domésticos; d) o seu comportamento é especialmente anormal, «golpeando» as pessoas com chicote ou varapaus rematados com bexigas. Em síntese, a exegese de todos estes personagens, cujas máscaras se assemelham aos seus protagonistas, como o lobo, o cabrito macho e o urso (animais que, segundo parece, estiveram relacionados tradicionalmente com a fecundidade, purificação ou proteção dos rebanhos em contextos de economia pastoril) remete-nos para rituais de clara significação agrária e protagonizados por animais domésticos, encarados como alegorias ou símbolos do «espírito de abundância». António Pinelo Tiza, na sua obra «Máscaras e Danças Rituais - Ritos Ibéricos do solstício de inverno», a certa altura, diz que “(...) a presença da máscara e outros elementos afins e complementares é uma constante em todas as culturas e civilizações. Desde o teatro grego (e, a partir do Renascimento, com a Commedia Dell’Arte), passando pelas celebrações festivas celtas e romanas, pelos rituais dos antigos povos europeus, africanos ou índios até aos atuais corsos carnavalescos, sempre a máscara desempenhou primordial função, em momentos especiais, solenes ou críticos, formalmente instituídos na vida de uma comunidade (...) Solstício de Inverno, entrada do Ano Novo, Epifania, Carnaval ou passagem para a nova estação da Primavera, são momentos cíclicos de festa ou de crise na sociedade ou na natureza. É então que o mascarado, gozando do seu estatuto de personagem mítica e superior, dotada de uma força e liberdade sem paralelo, entra no desempenho das suas funções de propiciar pelo ressurgimento benfazejo do sol, no momento em que ele parece extinguir-se, e dos seus favores de fertilidade para a Mãe-Natureza; de expurgar a terra e as culturas de toda a sorte de pragas e maleitas; de purificar a comunidade das enfermidades passadas, preparando-a para uma nova vida que começa (...)”.

 

• 3.- os de inversão da vida ordinária, que nos transportam ao «paraíso perdido», à «idade de ouro» e abundância. Citemos, no vernáculo, uma vez mais Joan Carós quando nos diz que o Carnaval “se traduce además de algunos aspetos ya señalados, en las grandes comilonas de carne grasienta de cerdo tipica de estos días, en la bebida copiosa y en una ridistribuición generalizada de alimentos conseguidos mediante colectas que posteriormente serán consumidas en festines colectivos o comunitários no es, ni ha sido precisamente la situación «normal» entre las capas bajas de población de sociedades fuertemente estratificads e jerárquicas. Y es en esta dirección que nos aparece un tercer núcleo de rituales específicos del Carnaval: los rituales de inversión de la vida ordinaria”, presentes também nas Saturnalia e nas Matronalia bem assim nas chamadas festas de «loucos medievais», com o culminar de excessos e irreverências, em clima de plena liberdade e paródia, onde as hierarquias não existiam, nas quais superava, essencialmente, o carácter profano e laico. Segundo a tese de Bakhtine, a catarse coletiva carnavalesca, com o seu desfoque de sentimentos e comportamentos, funcionou, normalmente, como uma canalização e um mecanismo de controlo de comportamentos potencialmente desestabilizadores e perigosos, porquanto a função ritual não quebra a ordem estabelecida, pelo contrário, reforça-a;

 

4.- • os de ostentação. Dos «loucos medievais», e seus posteriores desenvolvimentos, progressivamente, cresceram organizações em número e complexidade que, lentamente, deixaram de ser protagonizados por miúdos ou crianças e jovens para passarem a integrar grupos de adultos que, para além do mais, e com certa frequência, estavam bem inseridos na vida citadina. Assim, burgueses e nobres, aristocratas, começaram a organizar as suas próprias diversões e cerimónias burlescas que, em certos casos, se opunham às «loucuras» dos clérigos e, noutras, as completavam. Estes novos grupos «laicos» retinham alguns temas clássicos e típicos das festas dos «loucos», como a exaltação da infância e a loucura, mas também incorporaram, a nível formal sobretudo, outros temas novos. Grupos de cidadãos notáveis, mascarados e disfarçados, cantavam todo o tipo de canções burlescas e irreverentes e proclamavam sátiras contra o poder civil, eclesiástico e contra todos os seus inimigos declarados. Diz Joan Carós que, como consequência da própria composição social das cidades, os bairros, os grupos profissionais (herdeiros dos antigos grémios) e as próprias classes sociais criaram as suas próprias companhias, confrarias e comparsas carnavalescos que competiam e rivalizavam entre si, o que, por sua vez, implicava a realização de grandes gastos!

 

Apresentámos aqui, na ótica de Joan Carós, quatro distintos rituais ou paradigmas que suportam as diferentes interpretações sobre o Carnaval e as suas distintas manifestações.

 

Com cada um destes rituais não queremos infirmar que cada um defenda uma linha e, consequentemente, um modus operandi de um Carnaval específico que, nos tempos atuais, se pratica.

 

A questão é mais complexa, ou melhor, o Carnaval de hoje é mais de natureza híbrida. É uma mescla, muitas vezes entre si contraditória, das quatro linhas paradigmáticas ou rituais que enfatizámos acima.

 

Contudo, na nossa modesta opinião, são as três primeiras linhas, ou rituais, que mais têm a ver com o Carnaval «vivido» no triângulo mágico da província de Ourense, Galiza, mais precisamente, em Xinzo de Limia, Verín e Laza (para além do «Merdeiro», de Vigo; os «Xenerais», da Ulla; os «Irrios», de Castro Caldelas; os «Boteiros», de Valariño de Conso; o «Loro Ravachol», em Pontevedra; os «Felos», em Maceda; os «Troteiros», de Bande, entre outros, e, porque não aqui também referi-lo, nos dois principais «enclaves» transmontanos - os «caretos» de Podence e Lazarim?...).

 

2.- O «PELIQUEIRO» DE LAZA

 

Para nós, dos três Carnavais galegos acima referidos (entre muitos outros), o Carnaval que se nos apresenta no seu estado mais «genuíno», na sua manifestação popular, tendo em linha de conta os três paradigmas acima referidos, é o de Laza.

 

Diz o sítio da internet - https://osbolechas.gal/o-entroido/entroido.pdf - «Os Bolechas» que o Carnaval de Laza é a festa mais pura da Galiza, que começa muito cedo com a chamada sexta-feira de «Folión». Os «folións» são comparsas que, para espantar os maus espíritos, percorrem as ruas durante a noite tocando diversos objetos. No domingo de Entrudo os «folións» dão o protagonismo aos «peliqueiros», os personagens típicos do Carnaval de Laza, que se reúnem num ato chamado «A estreia do peliqueiro» e convidam as pessoas a comer a «bica», um bolo típico de Laza, com muitas parecenças com o nosso pão-de-ló.

 

A sua figura mais simbólica é o «Peliqueiro», tal como o de Verín é o «Cigarrón» e o de Xinzo de Limia é a «Pantalla».

 

Os «Peliqueiros» são personagens «animalizadas»: não falam, transportam «chocas» (chocalhos) de ferro, como os animais, e levantam as saias às mulheres e «fustigam» as pessoas que não os respeitam ou se interpõem no seu caminho. O traje, similar aos «Cigarróns» é composto conforme figura que se mostra.

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(in:- http://museodeltraje.mcu.es/popups/04-2006%20pieza.pdf)

 

Tal como o domingo, outro dia grande em Laza é a segunda-feira de Entrudo, no qual se celebram diversos ritos como «A Farrapada», uma batalha campal na qual se usam trapos untados com barro; «A Xitanada», uma divertida procissão com um burro, ou «A baixada da Morena», uma espécie de sátiro com cabeça de vaca que persegue as mulheres, enquanto a sua comitiva lança sobre a multidão uma chuva de farinha e formigas vivas. Um costume ancestral no qual participa toda a gente. Não falta a boa comida com a Festa Gastronómica da cachucha (cabeça do porco), a «bica branca», «xastré» e licor de café.


Assistimos na passada sexta-feira, em Laza, ao «Gran Folión», anunciando a chegada do novo Entrudo (Entroido) em Laza e do seu protagonista maior - o «Peliqueiro», que faz a sua apresentação «oficial» com «A estreia do Peliqueiro» e pondo-se à saída da missa na igreja paroquial da terra, no domingo (7. de fevereiro.2016).

 

Deixamos aqui algumas cenas e personagens que vimos (e, porque não dizê-lo, vivemos) na passada sexta-feira (5.fevereiro.2016) no «Gran Folíón».

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 (Cena I)

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 (Cena II)

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 (Cena III)

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 (Personagem I)

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 (Personagem II)

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 (Cena V)

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 (Cena VI)

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 (Personagem III)

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 (Cena VII)

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 (Personagem IV)

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 (Cena VIII)

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 (Cena IX)

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 (Cena X)

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 (Personagem V)

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 (Personagem VI)

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 (Personagem VII)

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 (Personagem VIII)

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 ( A repórter da TV Galega entrando na « folia»)

 

E agora - e porque não podemos estar no passado domingo em Laza - eis as palavras de Tâmara Novoa Alonso e a fotografia de Pío García, de Galícia entera.com, em (http://www.galiciaenteira.com/triangulo-magico-pantallas-peliqueiros-y-cigarrons/:


Color y ‘troula’ invaden el macizo Ourensán


Son las seis de la madrugada y el sonar de los chocos comienza a brotar en la plaza de A Picota. Es domingo de Carnaval en Laza y los peliqueiros están de estrena. Por primera vez en lo que va de año pueden salir a mostrar sus trajes. Hoy es el día de los que debutan como peliqueiros, que nerviosos lucen con orgullo sus elaboradas vestimentas.

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El domingo es el día grande en Laza. La plaza de A Picota se queda pequeña para acoger a todos los lazanos que no faltan a su cita con el Entroido así como a gente llegada de toda España, que expectantes se acercan a contemplar el espectáculo. Por la mañana los peliqueiros se aproximan a las puertas de la iglesia para soltar alguna delicada zamarrada entre aquellos fieles que acuden a la misa en días de Entroido, después se dirigen a la plaza para el reparto de la bica blanca. Tras estos actos los peliqueiros se distribuyen en grupos y van de casa en casa visitando a los vecinos, porque el Entroido es una fiesta para disfrutar en vecindad. “Estas visitas hacen especial ilusión a los más mayores. Algunos ya no pueden salir a la calle y esta es su forma de vivir el Entroido”, explica un peliqueiro.

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Vestirse estos trajes requiere entrenamiento ya que cigarróns y peliqueiros pueden llevar entre 15 y 20 kilos de peso. Además sus miembros aseguran que la máscara, los chocos y los zapatos pueden resultar especialmente molestos. Pero eso no los detiene. Sostienen que para ellos es un sentimiento, una tradición que pasa de generación en generación y que llevan dentro".

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Nona

 

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publicado por andanhos às 15:28
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Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

Reino Maravilhoso - Património em ruínas:- Solar dos Montalvões/Outeiro Seco-Chaves

 

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO

 

PATRIMÓNIO EM RUÍNAS
O SOLAR DOS MONTALVÕES EM OUTEIRO SECO/CHAVES


Não está nos nossos intentos fazer aqui uma completa e intensa reportagem, quer sobre a origem deste solar, quer, pela passagem do tempo, do estado de degradação a que chegou.

 

Não pretendemos também lançar culpas a seja quem for, embora seja nossa convicção que - quanto ao estado a que chegou - haja pessoas e instituições mais responsáveis que outras.

 

Nosso desiderato - nas fotos que vamos apresentar - representa mais um «grito d’alma», mais um chamar de atenção para que - todos - nos consciencializemos para a importância da conservação e preservação do nosso património. Em suma, nossa atitude pretende ser mais pedagógica que acusatória.

 

Nestas questões do património e da sua ruína, não poderíamos estar mais de acordo com Vítor Serrão no Prefácio ao pequeno livro «Portugal em ruínas», de Gastão de Brito e Silva quando, a dado passo, afirma:


Estas arquiteturas destroçadas que a imagem regista e sintetiza com resíduos da sua vã glória passada deixam pressentir quase como uma recusa orgulhosa de partirem em paz, entre a longa indiferença geral, diluindo-se entre silêncios na profundeza da longa noite das des-memórias: porque em Portugal [...] «é preciso deixar que à memória coletiva mais recente caia a tinta, apodreça o teto, enferrujem as dobradiças e os carris, corroa a erva daninha, se partam com o vento as vidraças; Portugal [e, consequentemente, os flavienses] não quer[em] recordar nem quer[em] ver aquilo que foi [foram] ontem, ainda ontem, há bocadinho, e quando aceita[m] fazê-lo, esconde[m] com vergonha e o remorso debaixo da estatística [...]» . Foi assim e continua a ser assim: desdobra-se um rosário de misérias, de coisas mal conformadas com a sua triste sorte mas que enfrentam o desaparecimento, sem remédio, de ruínas que abrem uma amarga sensação de desleixo e de impotência - como estas imagens para o dizerem, na sua crueza [já] de cinzas”.

01.- AZS_7859.jpg

 (Um dos aspetos exteriores do Solar)

01a.- AZS_1672.jpg

(O velho e desolado forno)

02.- AZS_7898.jpg

(Um outro aspeto exterior do Solar)

02a.- AZS_1668.jpg

(O silvedo tomando conta do edifício)

03.- AZS_7896.jpg

(Os seus «pergaminhos» - o brasão)

04.- AZS_7863.jpg

(Entrando na capela - A desolação do seu interior, a começar pelo altar)

04a.- AZS_7886.jpg

(Bem assim a sua bonita traça, já praticamente inexistente)

05.- AZS_7866.jpg

(O teto da capela, foi-se...)

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(Tulhas do centeio, contíguas à capela, praticamente a céu aberto)

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(Ontem já não fomos encontrar esta passagem,)

07a.- AZS_1743.jpg

(Tudo, em menos de um mês, desabou!)

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(O recinto e a entrada principal do Solar estão neste estado)

08a.- AZS_1719.jpg

(Tudo o resto é destruição, onde já não se pode entrar, como na cozinha,)

08c.- AZS_1738.jpg

(Bem assim nesta)

08b.- AZS_1729.jpg

(E noutras outras dependências daquela que foi uma Casa)

09.- AZS_7891.jpg

(A imponente chaminé do Solar vista por um «janeluco» do alto muro do Solar)

10.- AZS_7907.jpg

(Uma triste desolação, um verdadeiro «calvário»)

 

O que acabámos de apresentar representa, sem sombra de dúvida, um crime de lesa-património, tão próprio e característico de um país que, genericamente, dá, constantemente, um exemplo triste e esclarecedor de uma senha descontrolada de anti-património.

 

E o exemplo que acabámos de ilustrar é tanto mais grave quanto, de mãos particulares passaram para a autarquia flaviense; da autarquia flaviense para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) (mais propriamente, de Vila Real) para, finalmente, por falta de cumprimento à palavra dada por banda da UTAD, em construir no Solar e Quinta anexa um verdadeiro Pólo da UTAD em Chaves (mas também com responsabilidades de certos governantes a nível central e outras cumplicidades ou outros interesses autárquicos), voltar, de novo, para as mãos do município flaviense.

 

Ontem fomos ao local fazer-lhe mais uma visita. E mais uma trave-mestra de uma dependência caiu, como acima reportamos, e fez ruir mais uma estrutura.

 

Mas, sinceramente, a par desta degradação, o que igualmente nos confrangeu foi o estado dos terrenos da ora «Quinta», integrante do Solar. Um Solar de «pergaminhos» com os seus terrenos postos à pressão de interesses vários, como se de um verdadeiro loteamento se tratasse, transformada agora numa verdadeira montureira. Um verdadeiro escândalo em termos ambientais!

 

E dizer-se que, tudo isto, sob o patrocínio e/ou responsabilidade da atual Câmara Municipal!

 

Quando acabamos com esta onda de descaracterização, de desleixo e de abandono do nosso património? E sabermos preservar como esta peça do «calvário» de Outeiro Seco?...

11.- AZS_7909.jpg


publicado por andanhos às 14:53
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