Quarta-feira, 26 de Março de 2014

Gallaecia - Pelas terras do Tâmega e Barroso - PR6:- Trilho de Tresminas

 

 

INSTANTÂNEOS DE UM PERCURSO PEDESTRE AO REVÉS

 

PR6 - TRILHO DE TRESMINAS (Vila Pouca de Aguiar) - 24. Março. 2014

 

 

Esta ideia de uma moda da natureza só surpreenderá

aqueles que se obstinam em acreditar que,

regida por leis estáveis, é ela mesma um objeto imutável,

quando a história e a etnologia nos mostram à evidência

que o olhar humano é o lugar e o intermediário de uma incessante metamorfose (...)”

 

Alain Roger - Natureza e cultura, in Filosofia da Paisagem - Uma Antologia

 

 

 

Tenho por norma não repetir os mesmos percursos pedestres. Porventura com a convicção de que estou pisando o mesmo solo pela segunda vez, não me trazendo, por isso, nada de novo.

 

Embora tenha esta ideia «encasquetada» na cabeça, a experiência retirada deste percurso provou, quiçá, porventura o contrário.

 

Fiz a grande maioria deste percurso em 2011 com o meu amigo Fábio e seu filho Mito(k). Comparei o registo fotográfico de ambas as reportagens: quanto aos aspetos da natureza propriamente dita, pouco ou nada se alterou, a não ser as consequências de um foco de incêndio que, naquela altura, era mais evidente; quanto aos aglomerados, dispersos ao longo do trilho, também pouco ou nada se alterou, a não ser ver cada vez menos pessoas, com a agravante de se tratar de um dia de domingo, forçosamente com a possibilidade de encontrarmos mais gente nos povoados. Agora, a experiência, essa foi, obviamente, muito diferente.

 

Estamos, desta feita, de acordo com o citado supra de Alain Roger quando sugere que não é a natureza ou o trilho que essencialmente nos surpreende mas o olhar humano. Isto, porque num percurso repetido a essência não está na natureza, ou nas coisas que ela contêm, mas na forma como, a partir do nosso olhar, a natureza passa a ganhar significado, metamorfoseando-se em nós mesmos.

 

Assim, a natureza não é imutável não apenas pelos designados fenómenos «naturais» que a transformam mas também, e fundamentalmente, pela forma como, em concreto, a observamos, contemplamos, vivenciamos.

 

Estamos, nesta conformidade, num mundo complexo de relações: natureza-natureza; natureza-homem; homem-homem-natureza. O que nos leva a deduzir que mesmo a natureza, por mera hipótese, se mantivesse imutável, ela se transformaria não sou em função dos olhos de quem a observa bem assim da relação que os diferentes olhares que a observam estabelecem entre si. Ou seja, e em conclusão, nunca o trilho que pisamos é o mesmo: não só em razão do nosso concreto «estado de alma» como dos diferentes «estados de alma» daqueles que, pisoteando-o, participam da nossa experiência de caminhar. Em definitivo, o que conta, na verdade, são os diferentes «diálogos» que, ao longo do caminho, seja ele qual for, se estabelecem.

 

Mas falemos concretamente da caminhada deste trilho.

 

Pelos vistos, já andava a ser preparada há alguns dias.

 

Para todos os efeitos, não passei de um «penetra» do grupo.

 

O causador de tudo isto foi este menino

 

 

- meu próximo companheiro do último Caminho de Santiago que me falta fazer - o Inglês - e que, no próximo dia 6 de Abril, vamos dar início, a partir de Ferrol.

 

Acedi ao convite que Tino me fez para esta caminhada porque, e em princípio, o que me estava mais na mente era um treino de preparação para quem está prestes a fazer cinco a seis dias de caminho, seguidos, por terras da Galiza.

 

Cheguei a Tresminas meia hora antes do combinado.

 

Sai do carro e fui dar uma «olhadela» pelo reduzido casario.

 

Para além do Centro de Interpretação do Trilho de Tresminas,

 

 

denominado nos percursos pedestres de pequena rota, de Vila Pouca de Aguiar, como de PR6, o que mais é digno de registo é a sua igreja românica,

 

 

os pormenores dos seus «cachorros»

 

 

e os materiais do seu casario.

 

 

Enquanto observava e tirava uma ou outra foto, apenas encontrei uma pessoa - Ti Chico - dono do único estabelecimento de restauração da aldeia,

 

 

mas que só serve - e bem, dizem os caçadores que por ali acoitam - por encomenda.

 

Após ligeira conversa com Ti Chico, lá deixei o amigo ir à sua vida: aproveita os fins-de-semana, horas vagas do seu emprego - e quando não caça também -, para tratar da sua lavoura. Hoje ia enxertar umas árvores.

 

Regressei ao carro para «bater uma pequena soneca» enquanto esperava pelos da vila.

 

Vá lá que chegaram às horas combinadas: eram dez horas e pouco mais.

 

Feitas as apresentações, pusemo-nos a caminho para irmos ao contacto com a natureza mais profunda e genuína e com a sua história e a História.

 

E disparámos, como uma seta, trilho acima.

 

Passados poucos minutos damo-nos conta que algo estava errado: em algures nos tínhamos enganado no percurso e estávamos fazendo o trilho exatamente ao contrário. Mas continuámos fazendo o trilho ao revés. No final, regressando ao ponto de partida, é que nos apercebemos que, logo à saída da povoação, nenhum dos ilustres caminheiros se apercebeu da sinalização que nos mandava rodar à direita e não seguir em frente!

 

Apresentemos, agora, o grupo da vila,

 

 

caminhando pela natureza

 

 

e por um casario rural já não muito genuíno,

 

 

onde o centenário castanheiro

 

 

teima em não morrer, irradiando sua sombra fresca em dias de forte estio, no meio de uma paisagem de um «outro mundo»,

 

 

quase em extinção, povoada apenas por gentes de faces mirradas pelo tempo, e tendo por companheiros residentes simples animais que, à nossa passagem, mostram uma enorme curiosidade e espanto por uns tantos «urbanos» lhes invadirem os seus domínios.

 

 

Domínios bem guardados com «artilharia» natural

 

 

apontada aos céus para que estes, quando zangados, não deem cabo dos seus encantos.

 

Inopinadamente, Zé Eduardo abre os braços como o Crucificado.

 

 

Tudo fica estupefacto e em silêncio. A explicação sai célere: aqui, em tempos, tive o meu «calvário». Fui salvo! Hoje, com alegria, festejo. Afinal de contas não morri; estou aqui convosco. Sempre há Salvador(es)!

 

Na descida - por um caminho mais de cabras que humano, que não está no percurso oficial - um relvado refrescante, onde uns, praticaram dança; outros, cantaram «ora ponha aqui, ora ponha aqui o seu pezinho...», sob o olhar atento do fotógrafo oficial do grupo.

 

 

Desviando-nos da rota, pensando «fintar» o percurso (puro engano!), passámos por Cevivas, aproveitando, debaixo de um castanheiro, para «meter uma bucha» no estômago.

 

«Encarrilhados» definitivamente no caminho certo (ao revés), após ajustada certificação, lá fomos em direção a Ribeirinha, ao lado de um modesto riacho

 

 

que, ora aqui, ora ali, nos oferecia, à contemplação, o que de mais de belo a natureza tem:

 

 

as suas humildes quedas de água, quais rolos de algodão doce, aguçando-nos ainda mais o apetite, que já se ia fazendo sentir, pese embora o ligeiro repasto de Cevivas.

 

De um momento para o outro, antes da Ribeirinha, o caminho transforma-se num pequeno regato. E, cada um, ultrapassava-o como pode.

 

 

Olhando para trás, contemplo esta cena:

 

 

«suas excelências», os cavalheiros, deliciados pela expectativa do eminente mergulho da única senhora do grupo em pleno regueiro! Contudo, a valente lá conseguiu ultrapassar o obstáculo, desfeiteando a facécia dos cujos. Não com a ajuda divina mas de um humano que se mostrou mais sensível ou cavalheiro,

 

 

dispensando-se aqui a publicidade do nome.

 

Trepando monte acima, mais uma vez por entre vetustos castanheiros, guardiões centenários da terra,

 

 

eis-nos chegados a Ribeirinha. Do alto da povoação, nas suas proximidades, a muralha natural que a protege

 

 

e, por entre as fragas, o milagre!...

 

 

Dentro da povoação, este singelo cruzeiro

 

 

e a cúpula sineira da sua modesta capelinha,

 

 

encimada por um antigo e bonito relógio de sol.

 

 

Gente, nem vê-la! Minto: apenas uma senhora, com a giga à cabeça, trazendo a roupa suja da semana já lavada e enxuta. E um letreiro, que já em 2011 ali se encontrava, a avisar-nos: Cuidado com as galinhas! À primeira ainda pensei que fosse engano mas, pensando bem, a coisa está certa: um bom arroz de cabidela, feito com algum gado de bico, que por ali se encontrava a debicar, até dava jeito, depois desta caminhada. E a gente do povo, que nestas coisas é bem entendida, vai daí a avisar...

 

Mas há que continuar. Afinal somos civilizados, respeitadores do alheio...

 

Enquanto trepávamos monte acima, uma «fábrica viva», de mel e cera,

 

 

que se perde na bruma dos tempos, e toda a sua envolvente.

 

Até que chegámos às terras de um outro mundo, repleta de antigos contrastes - as cortas e os túneis de passagem das explorações auríferas

 

 

que fizeram a opulência, o fausto e a riqueza do antigo Império Romano, enquanto seres humanos, escravizados, escavavam continuamente crateras, enormes e autênticos «poços da morte»,

 

 

que também lhes serviam de sepultura.

 

Mas, tal como esta árvore,

 

 

agarravam-se desesperadamente à precária vida que as condições de existência que lhes eram impostas lhes podiam dar!...

 

Terras mesmo do outro mundo! Que fizeram prosperar Aquae Flaviae, dando origem ao aparecimento do seu «ex-libris».

 

 

Era assim que explicava o companheiro de jornada, Zé Eduardo, do alto do «poço da morte» (Buraco Seco)

 

 

que lhes ficava em frente (bem como, ao longo do caminho, se falou sobre o estado da educação no nosso país; da desertificação do nosso interior; dos nossos jovens; da política e da cidadania; dos nossos novelistas durienses, etc.).

 

E, finalmente, regressámos ao sítio da nossa partida, ia alta a tarde. Ao chegarmos, a barriga já vinha a dar horas, ressentindo-se do esforço. Bem medidos, com os instrumentos de navegação moderna, sempre foram 16 Km! Mais três do que o trilho oficial, que aqui se apresenta:

 

 

Valeu-nos o Restaurante Regional «Casa Chico».

 

 

Não tendo feito encomenda antecipada - erro da organização! - serviu-nos do que havia... Os tempos não estão para aprovisionamento de clientela incerta.

 

Mas só a espectativa de um «peguilho» que fosse, fez com que o companheiro Alcides arrancasse ao silêncio o acordeão do dono da Casa,

 

 

dedilhando uns razoáveis acordes, afinados, enquanto a esposa se «entretinha» no fogão.

 

Entretanto, músicos, professores, «filósofos» e outras artes que tais, da varanda rústica do restaurante,

 

 

mergulhando no mais banal e comezinho da vida, contemplavam, sob um sol em fim de dia, a água que correia de uma represa

 

 

e as árvores floridas,

 

 

lembrando-lhes, porventura, o dia em que levaram de branco suas respetivas até ao altar, prometendo-lhes amor e harmonia para sempre!

 

E, este vosso humilde relator, pensando cá para os seus botões, «recucava»: amor e harmonia para sempre, só a mãe-natureza é capaz de propiciar! Porque é dela que vimos e é para ela que, finalmente em paz, regressaremos, descansando num sono eterno, no seu materno regaço!...

 

Não queria concluir a reportagem deste percurso pedestre sem contar um episódio que deveras me sensibilizou. Tratou-se, enquanto comíamos, do erguer dos copos à saúde, e ao restabelecimento rápido de um velho amigo de caminhadas para alguns de nós, que se encontra nos Cuidados Intensivos do Hospital.

 

Aqui fica para memória uma foto tirada na companhia do Tino quando, com eles os dois, em 2009, fizemos o percurso pedestre das «Lamas do rio Olo»

 

 

bem assim o pequeno diaporama que, naquela ocasião, fiz.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

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Segunda-feira, 24 de Março de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 5ª e última etapa - Destaque

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

 - 18 e 19 de Junho de 2008 -

 

Destaque:- Retalhos de um deambular por Santiago de Compostela

 

 

 

Santiago de Compostela fez-se à volta dos sinos, dizia Torrente Ballester. Os sinos inundam a cidade de tons de bronze e a pedra das igrejas, conventos e palácios, animados por este tinir interminável, destila humidade e a nostalgia de uma cidade submersa em nevoeiro.

 

Compostela, segundo o Guia que, ao longo deste Caminho vimos referindo, é única. É a pátria da contradição. A cidade velha, nascida de um caminho de peregrinação, na mais longínqua Idade Média, é a que faz «balir», ainda hoje, a nova Galiza. Uma mescla do mais novo e do arcaico. Como refere o galego Suso del Toro, «parece que lhe faltou o século XIX e parte do século XX».

 

Deixadas para trás as últimas paisagens do campo galego, o peregrino entra na cidade moderna - a do viver diário -, dos bairros como o Ensanche, Pelamios ou o corredor de Morón e a Alameda - pulmão verde compostelano. As novas edificações dão lugar a uma Santiago velha, a do bispo Xelmírez e a pedra gasta de tanta chuva e de tantas mãos pousadas no parteluz do Pórtico da Glória: é a Santiago eterna, que leva séculos pisando as ruas de Vilar e Francos,

 

 

a Praça das Praterías,

 

 

a Porta do Caminho - a principal das sete -, quando esta cidade estava muralhada. Por esta porta acediam os peregrinos do Caminho Francês, o mais transitado, o que levou Aymeric Picaud, monge francês que escreveu o primeiro Guia do Caminho, em 1139, a chamar-lhe «prius introitus» de Compostela. É a Santiago da Via Sacra, uma ruela empinada que ladeia o muro maciço do Convento de San Paio Antealtares e a Praça Quintana

 

 

que, na realidade, são dois espaços separados por uma escadaria: Quintana dos Vivos, por cima da escadaria; Quintana dos Mortos, por debaixo, em recordação de um cemitério que ocupou este lugar até que a picareta barroca, da última reforma urbana, mudou o perfil da praça. Ou a Porta Santa,

 

 

o portão catedralício que dá a esta praça e que se abre nos anos santos, com a sua cúpula

 

 

e, ao lado, a Torre do Relógio.

 

 

Consciente da sua condição de eixo da cristandade, o clero compostelano nunca escamoteou esforços nem influências para engrandecer a sua cidade. Primeiro foi o bispo Xelmírez (Gelmírez) quem, em 1100, impulsionou a construção de uma catedral românica

 

 

e a organização urbana de Santiago; séculos depois, a mão redentora do barroco caiu sobre Santiago para a transformar pela enésima vez numa urbe conservadora que, sem o querer, é vai para 10 séculos.

 

Construiu-se então a fachada barroca

 

 

que agora vemos e que tem na praça do Obradoiro a sua máxima expressão. O Obradoiro é o coração coperniciano de Compostela.

 

 

Um espaço desmedido, pensando mais para acolher o humilde peregrino e lhe mostrar as desmesuras do poder arcebispal do que intercomunicador de tráfego urbano.

 

De entre os edifícios que delimitam esta praça - a fachada do Hotel dos Reis Católicos

 

 

e um pormenor da fachada do antigo Colégio de São Jerónimo,

 

 

hoje dependências da Universidade de Santiago de Compostela.

 

Quando o nevoeiro pousa sobre a cidade e uma chuva mansa «borra» seus perfis, as suas medidas estendem-se até ao infinito. É o momento perfeito para que o peregrino, desprovido de toda a referência humana ante o celestial, deste espaço urbano, suba os 33 degraus da fachada principal,

 

 

passe por debaixo do Pórtico da Glória e renda ou preste, por fim, contas da sua longa viagem ante o Apóstolo.

 

 

Cumprido este deambular (peregrinação) e após obtida «a compostela», de imediato, nos dirigimos para o nosso alojamento, sito na Plaza Galicia.

 

 

Aí tomámos banhos; mudámos de roupa e descansámos um pouco.

 

 Muito perto fica a célebre e histórica cafetaria Derby. Um pormenor da sua vidraria:

 

 

Para ali fomos parar, bebendo uma «caña

 

 

antes de, mais cuidadamente, nos confrontarmos com a velha cidade que acabámos de fazer referência.

 

 

Tino, numa das ruas mais históricas de Compostela - Rua do Vilar -, sugeriu que entrássemos na loja «Coronel Tapioca».

 

 

E, daqui, passando por uma livraria, onde adquiri um livro de bolso sobre Santiago de Compostela, fomos outra vez para o hotel. Enquanto descansávamos na cama, e com «literatura» adquirida, na livraria Encontros, sobre Santiago, assim passámos o tempo até à hora do jantar.

 

Estava já caindo o dia quando saímos da Praça da Galiza

 

 

e atravessámos a animada Praça do Toural

 

 

para irmos jantar.

 

Deambulando ao acaso pela velha cidade, um contraluz da esquina da Catedral

 

 

e um pormenor da sua fachada barroca. 

 

 

O cansaço, de tantos dias de Caminho, não nos deu na «pachorra» para nos «engalfinharmos» na «movida» noturna de Santiago. Este epílogo noturno ficaria para uma outra ocasião!...

 

Pacatamente regressámos à Praça da Galiza, ao nosso quarto, para dormirmos uma noite tranquila e bem repousante.

 

Ao outro dia, não muito cedo, depois de tomado o pequeno-almoço, sem pressas, descemos até à estação de caminhos-de-ferro de Santiago de Compostela

 

 

para aí tomarmos o comboio que nos trouxe até Ourense, onde familiares nos esperavam para nos trazerem para as terras da «Galiza do sul».

 

 

 

«O neno das piñas»: obra para a Exposição de Arte Galega em Santiago (1926)

 

Alfonso Daniel Rodríguez Castelao (Rianxo, 30 de Janeiro de 1886 – Buenos Aires, 7 de Janeiro de 1950), é uma figura fundamental da cultura galega, que tanto prezo e que tanto fez pelo desenvolvimento de um ideário sociopolítico e económico, pensando por e para a Galiza. Face aqueles que procurem capitalizar o seu legado ideológico, cumpre dizer que ninguém - quer a título individual quer coletivo - possui o monopólio de o citar. Honra-se a sua obra, trazendo-a até ao presente.

 

Morreu, exilado, na Argentina. Aqui se deixa um «pedaço» do amor pela sua pátria galega, representado na obra «O Neno das Piñas»:

 

«Chegando, procuras un pino e daslle por min unha aperta e un bico» dixéralle Castelao ao paisano que vixiaba a Terra. Ou «vale máis unha terra con árbores nos montes, que un Estado con ouro nos bancos», deixou dito tamén quen soñaba co idílico concepto de «cidade-xardín».

 

O mal que hoje está entranhado na sociedade que nos é dado viver é que olhámos demasiado para o futuro, esquecendo, tantas vezes, as lições que poderíamos, na construção desse futuro, tirar do passado. Porque... aprende-se até morrer... E os «nossos maiores» são uma fonte inesgotável de sabedoria para «beber»!

 


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Sexta-feira, 7 de Março de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 5ª e última etapa - Padrón - Santiago

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 18. Junho. 2008 -

 

5ª etapa:- Padrón - Santiago de Compostela

 

 

 

1.- ENFIM... COMPOSTELA!

 

O Caminho entre Padrón e Compostela foi sempre «Caminho de Peregrinação», de ida e volta, Caminho Português, Rota Rosaliana, enfim, e definitivamente, um itinerário profundamente sentido por todos que o percorrem e também pelos que o habitam (Guia «Caminho Central Português, Lisboa/Santiago», da Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago).

 

Farto de estar na cama sem «pregar olho», Tino levanta-se antes da 5 horas da manhã e começou a tratar da sua higiene matinal. Quando veio do rés-do-chão, abana comigo para me acordar.

 

Fomos dos primeiros a sair do albergue.

 

Esta última etapa pode dividir-se em duas metades: uma primeira, quase plana até às cercanias do albergue de Teo; uma segunda, mais cansativa, até Santiago e à sua Catedral.

 

Passámos por Padrón e Iria Flavia praticamente ainda de noite. As luzes de iluminação pública é que nos orientaram no traçado do percurso.

 

Estamos de acordo quanto ao que diz o nosso Guia na introdução a esta última etapa, quando afirma que, neste dia, nem «bolhas», nem tendinites, nem escoriações provocadas pela mochila, nem o intenso sol ou a copiosa chuva, nem o frio, nem a neve, nem o vento, nem os tombos que damos, nem as condições precárias nos albergues, nem os quilómetros percorridos no tedioso asfalto das estradas, nem o intimidatório ladrar dos cães que guardam as casas isoladas ao longo do Caminho por que passámos nos assustam ou importam.

 

Nesta última etapa, tudo se esquece. Pouco importa hoje se passamos por lugares emblemáticos da história jacobeia como Iria Flavia - terra de Camilo José Cela e onde está sediada a sua fundação ou onde esteve enterrada Rosalía de Castro - ou se deparamos com cruzeiros como o da Rua de Francos, um dos mais antigos da Galiza ou ainda recordar a odisseia que esta etapa representa quando nos evoca touros selvagens, montanhas e personagens como o bispo Teodomiro ou a rainha Lupa.

 

O itinerário desta etapa (segundo a história ou a lenda - que nunca se sabe ou saberá!) revive a arriscada viagem dos discípulos de Santiago, o Maior, com o seu corpo, desde o desembarque em Padrón até ao Campus Stellae.

 

Com a aproximação de Santiago de Compostela sucede-se uma grande densidade de pequenos núcleos populacionais. E, quando chegámos ao Monte Agro dos Monteiros - o equivalente ao Monte do Gozo no Caminho Francês - e olhamos para Santiago e as torres da Catedral, descomprimimos totalmente.

 

Enfim... Santiago de Compostela está à vista! Os quase cinco quilómetros que ainda nos faltam percorrer nada representam. E tudo o resto se esquece.

 

2.- TRAÇADO DA ETAPA

 

 

3.- DESNÍVEIS DA ETAPA

 

 

 

4.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA

 

4.1.- De Padrón a Iria Flavia

 

De Padrón a Iria Flavia é, sensivelmente, um quilómetro.

 

Saídos do albergue, ultrapassada a ponte sobre o rio Sar, passando pela Igreja de Santiago, seguindo pela rua Nova e virando à esquerda para a Praça Baltar, fomos direitos até à estação de autocarros. Daqui saímos para entrarmos na N-550 e, logo imediatamente, estávamos em Iria Flavia.

 

 (Tino passando pelo cemitério de Iria Flavia ou Adina)

 

Citemos, uma vez mais, o nosso Guia quanto a esta localidade:

 

“Este antiquíssimo enclave que primeiro foi celta e depois romano sobreviveu como a única diocese ativa durante os primeiros anos da conquista muçulmana da península ibérica. Foi no seu território que hoje designamos por Compostela que apareceu o suposto sepulcro do Apóstolo Santiago e foi o bispo de Iria Flavia, Teodomiro, o encarregado pelo rei astur Afonso II, o Casto, de confirmar a veracidade dos factos que deram origem a toda a história jacobeia e que são a razão, entre muitas outras coisas, do que nos fez estar aqui”.

 

Ou, como se diz ainda no Guia da Associação de Amigos do Caminho de Santiago, “foi daqui que saiu o bispo Teodomiro em busca de «unas luces que brillabam en el monte Libredón e que logo seria Compostela»”.

 

A colegiada de Iria Flavia,

 

(Silhueta da Igreja da Colegiada de Iria Flavia quando passávamos por ela de madrugada)

 

conhecida também por Santa Maria Adina, e seu cemitério anexo, cantado pela poetisa Rosalía de Castro, é, como ainda refere o nosso Guia:

 

 

“uma obra dos séculos XII e XIII, quando já Iria Flavia tinha cedido todo o seu protagonismo a Santiago de Compostela. Da época românica apenas se conserva uma fachada,

 

 

as torres e vários sarcófagos do cemitério. No século XVII o arcebispo Mouroi de Santiago reformou a igreja e ampliou-a até ao aspeto que hoje vemos. No seu interior conserva-se uma imagem românica da Virgem e o sepulcro dos primeiros 28 bispos desta sede episcopal e jacobeia.

 

Em frente, nas antigas instalações dos cónegos tem a sua sede a Fundação Camilo José Cela, que foi prémio Nobel da Literatura em 1989, nascido em Iria Flavia em 1916 (...) À sua morte a fundação adquiriu mais casas e estabeleceu aqui um museu, com toda a sua coleção de manuscritos (...) uma pinacoteca, um auditório e toda a sua biblioteca e hemeroteca”.

 

 

Camilo José Cela, encontra-se sepultado aqui, no cemitério Adina ou de Iria Flavia, ao lado do Caminho,

 

 

e debaixo de uma velha oliveira.

 

Passámos ainda pela antiga estação de caminho-de-ferro e pelo Museu do caminho-de -ferro, com a primeira locomotiva que circulou na Galiza,

 

 

sito na antiga Casa dos Cela-Trulock, bisavô de Camilo José Cela.

 

4.2.- De Iria Flavia ao Santuário de Esclavitude

 

Como já salientámos, saímos de Padrón e entrámos em Iria Flavia ainda quase de noite. As luzes da iluminação pública ainda estavam acesas.

 

 

Razão pela qual algumas fotos deste troço, acima apresentadas, e referentes a Iria, são de arquivo, e não tiradas enquanto fazíamos o Caminho; por isso mesmo, não levam a nossa «linha d’água» ou autoria.

 

Ultrapassado o casario de Iria Flavia, saímos da estrada nacional N-550 e, ultrapassada a passagem de nível do caminho-de-ferro, seguimos pelo asfalto até Pazos, com o dia a começar a raiar.

 

 

No início da povoação de Pazos, deixámos a estrada N-550 e, pela esquerda, iniciámos uma prolongada travessia por casarios, aproveitando os caminhos rurais bem sinalizados, onde não faltam as latadas do célebre «alvariño» e os famosos «hórreos», atravessando “silenciosas aldeias nas quais não parece viver alma”, mas de um extraordinário valor etnográfico, como Romarís, Rua, Rueiro, Cambelas, Anteportas, Tarrio, Vilar...

 

(Um dos aspetos da paisagem neste troço)

 

para entrarmos outra vez no asfalto da N-550

 

(Pormenor de uma casa neste lugar de Esclavitude)

 

e irmos ao encontro de um outro espaço sagrado - Esclavitude,

 

 

com a sua fonte milagrosa a seus pés

 

 

e o esplêndido exemplar do barroco que é o Santuário da Esclavitude, dos séculos XVII e XVIII.

 

 (Pormenor da fachada barroca do Santuário)

 

A lenda assegura (sempre a lenda!) que a sua construção foi incentivada pela doação de um agricultor que ia a Santiago e que, ao parar neste local e beber a água da sua fonte, ficou curado da sua enfermidade, «libertando-o», assim, da sua «esclavitude». Razão, pois, do nome dado ao Santuário.

A fonte fica aos pés do Igreja/Santuário. O lugar, desta feita, transformou-se num centro de devoção.

 

Segundo Gronze.com - com o qual concordamos - hoje em dia o primeiro milagre que devemos pedir é que não nos atropele nenhum camião quando pretendemos aceder à fonte, atravessando a estrada, de tão perto que se encontra da mesma N-550.

 

O nosso Guia, quanto a este Santuário/Igreja, adianta que é um edifício barroco tardio e que demorou quase três séculos a ser construído. As obras terminaram em 1886. No seu interior conserva-se um órgão de 1779 e as duas torres gémeas, barrocas, evocam-nos, na sua humildade, as da Catedral compostelana.

 

4.3.- Do Santuário da Esclavitude à Rua de Francos

 

Pela estrada nacional fomos ao encontro da Igreja de Santa Maria de Cruces,

 

 

deixando a aldeia de Cruces à nossa direita e, mais adiante, seguindo um caminho florestal, ultrapassámos a linha de caminho-de-ferro para, desta feita, estarmos em Anguería de Suso.

 

A partir de Anguería de Suso, caminhámos por debaixo de latadas de vinha em direção a Areal.

 

 

Na saída de Areal,

 

(Gatos tomando o sol da manhã)

 

primeiro, por asfalto; depois, por um caminho de terra, desembocámos, mais uma outra vez, na N-550, passando por Picaraña.

 

Em poucos metros estávamos em Teo no desvio para o Pazo de O Faramello, onde os italianos Piombino e Gambino montaram uma fábrica de papel em 1710.

 

Alcançámos a Rua de Francos, por uma moderada subida, tendo a calçada romana oculta no bosque à nossa esquerda.

 

Na Rua de Francos encontra-se um bonito carvalhal

 

 

e a ermida de São Martinho

 

 

e, segundo os entendidos, aqui está um dos mais belos e antigos cruzeiros de toda a Galiza: é um Cristo crucificado, gótico, do século XIV ou XV, que parece sair das entranhas da pedra.

 

(Pormenor cimeiro do célebre cruzeiro)

 

Tem inscrições que nos indicam ser este um lugar que, outrora, enterravam as crianças que não tinham sido batizadas.

 

E aqui, nas proximidades deste lugar, estamos perto e perante um outro mito do Caminho Português e de todos os Caminhos: o Castro Lupario que, segundo o Guia do «Caminho Central Português - Lisboa/Santiago», já citado acima, está entregue ao abandono e dono das ervas daninhas. São aproximadamente 2,5 Km para lá chegar desde a Rua de Francos. Seria daqui deste lugar (Castro Lupario) que a «malvada» rainha Lupa, da lenda «atendeu» os atribulados discípulos de Santiago, ao pedirem permissão à rainha céltico-pagã para passarem por suas terras e, nas mesmas, enterrarem o cadáver do Apóstolo.

 

 (Quadro que representa a cena dos toiros selvagens)

 

Na disputa das diferentes crenças, com um cristianismo, em terras da ibéria peninsular, em ascensão, a rainha Lupa «afrontou» os discípulos, «ajudando-os», na cedência de dois toiros (bravos) para o transporte do cadáver do Apóstolo. Reza a lenda jacobeia (mais uma vez a lenda!) que, quando os dois toiros selvagens, logo que se deixaram jungir, puxaram mansamente o carro onde iam depositados os restos mortais do Apóstolo. Perante tal feito, a dita rainha «dobrou-se» à proeza, convertendo-se ao cristianismo.

 

4.4.- da Rua de Francos ao Milladoiro

 

A partir deste troço, as aldeias antigas da Galiza dão lugar às modernas vivendas unifamiliares, sinal, mais que evidente, que nos aproximamos da cidade de Santiago e que, portanto, estamos, a passos largos, prestes a atingir, a nossa almejada meta.

 

Logo a seguir à Rua de Francos, o aglomerado mais significativo que se segue é Oseve, da paróquia de San Juan de Calo.

 

(Pormenor de um troço deste traçado)

 

Depois vem Casalonga e a estrada CP-0205 que seguimos pela direita. E logo de seguida voltámos à esquerda pelo caminho e ponte medieval de Rio Tinto. Estamos, nesta altura, a, sensivelmente, 10 Km de Santiago. Passando por um arroio, entrámos em Pedreira. Saímos de Pedreira por um agradável caminho envolto em carvalhos, que vai subindo ligeiramente, e deixando ao lado os pequenos aglomerados de Lamela e Areira, vem logo A Grela, do concello de Ames. Subindo um monte por um caminho de terra, fomos entrar em Milladoiro, tendo, à nossa direita, e já em pleno centro urbano, a capela de Maria Madalena (Magdalena)

 

 

e, logo de seguida, um polidesportivo e uma escola.

 

 (Crianças saindo da escola para passear com as educadoras)

 

E, em Milladoiro, seguimos sem parar.

 

4.5.- De Milladoiro a Santiago de Compostela

 

Saímos de Milladoiro pela rua do Esquío, cruzámos a avenida Muiño Vello e, mais adiante, junto a uma subestação elétrica, prólogo do Agro dos monteiros, por entre pinheiros, estamos em Monte Agro dos Monteiros, o ponto mais alto do Caminho Português na Galiza, a uma cota de 262 metros (outros dizem que é a 250 metros!), e donde se pode avistar, pela primeira vez Santiago e as torres da catedral.

 

 

Passámos por cima de um viaduto da autoestrada (autopista AG-56)

 

 

e descemos por uma alegre, mas caótica, pista em asfalto até Rocha Vella, da paróquia de Conxo, já pertencente ao concello de Santiago. Demos uma pequena volta para atravessar as vias do caminho-de-ferro e estamos em Ponte Vella, que atravessámos,

 

 

passando pela sua ponte romano-medieval, que atravessa o rio Sar.

 

Agora voltamos a subir de novo um pouco em direção à Choupana, e atravessámos para atravessa vários núcleos da paróquia de Conxo, como Torrente, Santomil e Amañecida.

 

Parámos numa rotunda, debaixo de uma autovia para descansar um pouco, enquanto um nosso companheiro, que entretanto se nos juntou, parava para fumar um cigarro e descansar um pouco. Estávamos já no Hospital Clínico Universitário de Santiago de Compostela (Hospital Gil Casares),

 

 

no Bairro e avenida da Choupana. Em Compostela, finalmente... Mas estávamos ainda a um pouco menos de 2,5 da Praça do Obradoiro!

 

4.5.- Atravessando Santiago até à Praça do Obradoiro

 

Aqui se mostra o mapa do trajeto seguido, até à Praça do Obradoiro, na cidade de Compostela:

 

 

Ultrapassado o Hospital, e depois de descansarmos um pouco, seguimos pela Travessa da Choupana, Escalera Ferreiro, rua de Santa Marta e rua de Santa Maria de Arriba para passarmos na Avenida Rosalía de Castro, Avenida Xoán Carlos I e na Alameda. Aqui uma pequena pausa para contemplar, nesta bonita antessala verde do centro histórico compostelano, três elementos fundamentais que representam, para nós, algumas das personagens mais genuínas da Galiza e de Santiago:

  • O Monumento a Castelao,

 

de seu nome completo Alfonso Daniel Rodríguez Castelao (1886-1950). Foi político, escritor, pintor e desenhador galego, considerado o representante máximo do nacionalismo galego, de raiz progressista. Acabamos esta reportagem postando no início uma sua caricatura, acompanhada da recolha de um poema popular «Lela» por si efetuada, magistralmente cantada por Dulce Ponte e acompanhada por Carlos Nuñes, também um ilustre artista, autor e executor musical, galego, e que integra a música da banda sonora do diaporama que no final deste post exibimos;

  • A estátua a Rosalía de Castro (Pormenor),

 

de que já falámos no post anterior. A poetisa e narradora nasceu em Santiago de Compostela. Deixou uma obra escrita em castelhano e galego que a situa entre as vozes mais destacadas da poesia espanhola de todos os tempos. Por tal facto, sendo enterrado em Iria Flavia, seu corpo foi transladado para o Panteão dos Ilustres Galegos: - o Mosteiro de Santo Domingo de Bonaval;

  • A estátua a Valle-Inclán,

 

escritor de também já falámos e lhe demos destaque na reportagem deste Caminho e, finalmente,

  • As Duas Marias.

 

Trata-se de duas figuras populares da cidade de Santiago, imortalizadas neste parque da Alameda por César Lombera, de que vale a pena saber a história...

 

Logo a seguir ao parque da Alameda, em frente, entrámos no centro histórico de Santiago pela Porta Faxeira: a porta de entrada do Caminho Português para os peregrinos que vêm a Santiago de Compostela e à sua Catedral.

 

 (Pormenor de uma varanda na Porta Faxeira)

 

Obviamente que aqui já não existe nenhuma porta! Mas seria por aqui que ficaria uma das sete portas da amuralhada cidade de Santiago. As outras seriam:

  • Porta do Caminho, também chamada Francígena ou de São Pedro, por nela desembocar o Caminho de Castela e de França e era a porta de entrada dos peregrinos do Caminho Francês. Por aqui entravam reis e príncipes e nela se celebrava uma parte da cerimónia da tomada de posse de cada novo arcebispo. Por isso, era considerada a porta principal;
  • Porta de Mazarelos. É a única porta que se conservou. Aqui desembocavam os caminhos que garantiam o abastecimento de vinho à cidade das comarcas de Ulla e Ribeiro, assim como os cerais de Castela. A Praça de Mazarelos era um importante centro comercial onde se vendiam estes produtos e vegetais;
  • Porta da Mámoa. Muito próxima da Praça da Galiza. Situa-se entre a mítica cafetaria Derbi. Tal como a Porta Faxeira suportava um notável tráfego de mercadorias e os peregrinos vindos dos Caminhos do sul. O topónimo mámoa deriva provavelmente da existência de um enterramento megalítico nesta zona;
  • Porta da Pena. Esta porta dava acesso aos peregrinos vindos de Inglaterra e Flandres. Estava situada a norte da cidade. A muralha, bem como a respetiva porta, aqui conservou-se até à Invasão Francesa, sendo posteriormente derrubada para alargamento da cidade;
  • Porta da Trindade. Também chamada do Santo Peregrino. Estaria situada onde termina a rua Carretas. Estava flanqueada por uma igreja, entretanto desaparecida. Era daqui que saía o Caminho para Fisterra e era a principal zona que abastecia os produtos hortícolas a toda a cidade. A prova disso é o nome da rua Huertas que atravessa a zona;
  • Porta de São Francisco. É uma das sete portas medievais que está menos documentadas e a que tem menos dados. Estaria situada na zona próxima da Faculdade de Medicina, em frente à Igreja de São Francisco, que dá acesso à Praça do Obradoiro.

O topónimo deriva do facto de aqui, exterior à antiga muralha, existir um grande bosque de faias (hayas em castelhano) e que em galego se chama «faxeira».

 

Entrados na Porta Faxeira, dirigimo-nos à Praça do Toural

 

(Vista parcial da Praça do Toural vista de uma das suas arcadas)

 

para, daqui, e observando o Atlas do Palácio de Bendañas, que alberga a Fundação e Museu Eugénio Granell, dedicado a atividades culturais e exposições,

 

 

seguirmos pela Rua do Vilar

 

 

até à Praça das Praterías.

 

 

De imediato, com o peregrino que nos acompanhou nesta última parte da etapa, fomos à Oficina do Peregrino obter a nossa Compostela; dirigimo-nos à Praça do Obradoiro para ver a imponência dos edifícios que a rodeiam;

 

(Pormenor da fachada barroca virada para a Praça do Obradoiro)

 

entrámos um bocadinho na Catedral e fomos diretos à Praça da Galiza onde, num modesto e acolhedor hotel já nosso conhecido, nos livrámos das roupas de peregrino e das mochilas, tomámos banho e descansámos um bocadinho, antes de sairmos para dar uma volta mais minuciosa ao centro da cidade. E ficámos em Santiago de Compostela de um dia para outro.

 

No próximo post apresentaremos «Retalhos de um deambular por Santiago» durante uma noite e uma manhã passada nesta cidade antes de partirmos para nossas casas.

 

Faremos uma reportagem mais a fundo sobre esta cidade, quando acabarmos a reportagem que iremos fazer sobre o Caminho Francês, abordando, essencialmente, a sua história, os seus personagens na história, os seus recantos e edifícios mais emblemáticos.

 

(Desenho do Pórtico da Glória da Catedral) 

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta 5ª e última etapa.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

De Castelao, Cego da romería (1913).

publicado por andanhos às 23:03
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Sábado, 1 de Março de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 4ª etapa - Briallos (Portas)-Padrón - Destaque

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 17. Junho. 2008 -

 

4ª etapa:- Briallos (Portas) - Padrón

 

Destaque:- Breve história e passeio pelo centro de Padrón

 

 

Reza, assim, o Guia que nos acompanhava:

 

“Segundo a lenda, depois de uma grande e perigosa viagem através do Mediterrâneo e da costa Atlântica peninsular, a barca em que os discípulos do Apóstolo transladaram o seu cadáver desde a Palestina [hoje Jaffa, Israel], onde foi decapitado, no ano 42, a mando de Heródes Agripina, entrou pela ria de Arousa,

 

 

subiu o rio Sar e deteve-se neste lugar. A barca foi amarrada a um pedrón - uma grande pedra cilíndrica - enterrada na beira do rio, perto do lugar onde hoje está a Igreja de Santiago. [Do templo românico apenas resta uma pedra. A Igreja atual é de meados do século XIX, que substituiu, por sua vez, uma outra em estilo gótico]. Uma vez desembarcado o sarcófago com o corpo incorrupto do Apóstolo, a comitiva dirigiu-se ao monte Libradón, atual Compostela, para lhe dar sepultura na terra onde em vida havia pregado.

 

O suposto pedrón (padrão) original, que dá origem ao topónimo da cidade encontra-se debaixo do altar-mor da Igreja de Santiago.

 

 

Tem uma inscrição romana, de tradução incerta, e um anagrama de Cristo gravado posteriormente. Segundo alguns autores, poderia tratar-se de um menir pré-romano ao qual se acrescentou uma confusa inscrição em latim “.

 

Mas, por outro lado, atentemo-nos no que diz O Caminho Portugués - Os Caminhos de Santiago na Galiza, de 2010, publicado pela Junta da Galiza por ocasião do Ano Jacobeu:

 

“A igreja de Santiago de Padrón, de austero neoclassicismo, guarda testemunhos dos templos precedentes, uma inscrição dos tempos de Gelmírez, patrocinador da igreja românica, e um púlpito gótico, com a imagem de Santiago Peregrino, pertencente à igreja do século XV que mandou construir o arcebispo Rodrigo de Luna en 1456. Estes templos medievais, vencidos pela passagem do tempo, já guardavam no seu presbitério a peça mais jacobeia da vila: o Pedrón, interpretada como ara romana dedicada a Neptuno e na qual, segundo a Tradição, se amarrou a Barca de Pedra que tinha transportado o corpo do Apóstolo e os seus dois discípulos Teodoro e Atanásio. Na Alta Idade Média usou-se o Pedrón como base da ara de altar da primitiva igreja dedicada a Santiago, levantada pelo bispo Teodomiro no século IX”.

 

Pontos de vista nem sempre totalmente coincidentes. Mas é assim: a história, a interpretação dos factos históricos, muitas das vezes, fazem-se por tentativas, hipóteses ou suposições, sujeitas a provas que a técnica vai apurando ao longo dos anos por forma a dar uma maior aproximação à realidade. Isto, no campo das ciências, porque, no da religião, é todo um outro mundo aberto à imaginação, criatividade e fé de quem vive as suas próprias crenças.

 

Mas continuemos com o nosso Guia:

 

“Padrón é uma localidade agradável de ruas empedradas. O seu protagonismo como capital da comarca é mais tardio já que a população primitiva tinha assento em Iria Flávia, onde esteve sede episcopal visigoda e onde confluíam as calçadas romanas.

 

Um delicioso ambiente urbano é formado pela Praça Maciás, com numerosos edifícios tradicionais galegos, de galerias de vidro nas suas fachadas.

 

 

A melhor vista de Padrón e dos seus arredores é a partir do átrio do Convento do Carmen,

 

 

na margem direita do Sar, ao pé do albergue.

 

O Convento é uma obra do século XVIII, contruído à custa das doações de Alonso de la Peña, bispo de Quito.

 

Perto do albergue encontra-se a Fonte do Carmen,

 

 

com numerosos motivos jacobeus (...)

 

(Pormenor nº 1 da Fonte do Carmen)
(Pormenor nº 2 da Fonte do Carmen)

 

Outro dos lugares de visita imprescindível em Padrón é a Casa-Museu de Rosalía de Castro,

 

 

a vivenda onde a genial poetisa [que nasceu em Santiago] passou largas temporadas da sua vida e na qual morreu de cancro, aos 48 anos de idade.

 

Uma estátua no Passeio do Espolón,

 

 

paga por padroneses do Uruguay, recorda a filha mais famosa do povo”.

 

 (Pormenor cimeiro da estátua)

 

Padrón, segundo Gronze.com, tem uma profunda vinculação ao mundo da literatura através não só de Rosalia de Castro como também de Camilo José Cela, nobel da literatura, que nasceu em Iria Flávia e aqui se encontra sepultado.

 

Apesar de Camilo José Cela ter «honras» quanto Rosalía de Castro, ao ponto de Cela também ter, no Passeio do Espolón,

 

 

uma estátua,

 

 

positivamente, minhas preferências vão para a poetisa. Há coisas do coração que a razão desconhece. Rosalía, e seu marido, nasceram galegos, viveram em galego e morreram galegos - é uma galeguista pura. Camilo Cela nasceu na Galiza e está enterrado na Galiza. Simplesmente. E não é por acaso que a cidade mais importante do Norte de Portugal, o Porto, deu o nome de Galiza a uma das suas praças e, no meio dela, está uma escultura,

 

 

de Barata Feyo, com a poetisa galega.

 

Aqui está, assim, caros (as) leitores (as), a razão pela qual abri o post/reportagem da 4ª etapa com um poema desta autora retirado da sua obra «Cantares Gallegos».

 

Padrón, no âmbito gastronómico, é famosa pelos seus pimentos.

 

Quanto a estes pimentos, um pouco da sua história que, naturalmente, nos remete para o Mosteiro ou Convento de Santo António de Herbón.

 

 

O Mosteiro Franciscano de Herbón foi fundado em 1396 por Gonzalo Mariño e Pedro De Nemancos graças aos donativos de Fernando Bermúdez de Castro e dos cónegos da Colegiata de Iria Flávia.

 

É de estilo austero e funcional e a sua arquitetura, igualmente majestoso como a de muitos outros, está encoberta pela enorme quantidade de árvores no fundo do vale. No exterior estão os resistentes e autóctones carvalhos ou robles, mudos testemunhos da celebração anual da «Festa do Pemento».

 

 

No interior encontramos árvores frutais de grande qualidade. Consta de vários edifícios rodeados por alto muro de pedra. A igreja é de meados do século XVIII, na qual se destaca o seu campanário. O resto do edifício sofreu vária reformas, que ainda continuam. O conjunto é rodeado por um muro com uma longitude de 825 metros. Sobressai o seu Claustro, a dependência do Arcebispo, a Fonte de São Bento, assim como o formoso retábulo, obra de Jacinto Barrios.

 

No interior da sua igreja destacam-se as talhas escultóricas de Gambino, que conserva o retábulo do altar-mor realizado por Benito Collazo.

 

Para chegar até ao mosteiro tem de se ir por uma larga e empinada rampa, de várias escadas, e, desta forma, vamos ao encontro da sua sóbria fachada com uma formosa torre campanário.

 

Ao longo dos tempos o mosteiro teve diferentes usos. Num primeiro momento, dedicou-se à observância franciscana; posteriormente, funcionou como colégio/seminário de missionários e também como prisão para os (monges) liberais.

 

Hoje em dia, e após várias vicissitudes, que não vêm para aqui contar o caso, todo o conjunto constituído pelo Convento foi declarado em 2013, pela Junta da Galiza, como Bem de Interesse Cultural (BIC), graças ao bom entendimento entre os representantes da Ordem Franciscana, do Seminário Galego de Educação para a Paz e a Associação Galega de Amigos do Caminho de Santiago, falando também em nome de uma outra instituição - Viravolta.

 

O Convento, numa das suas dependências, serviu em tempos, para hospital de peregrinos. E hoje tem um albergue gerido pela Associação Galega de Amigos do Caminho de Santiago. Quem passar pela Igreja de Pontecesures e antes de entrar na ponte, como já referimos no post anterior, há um desvio de 2, 5 ou 2,7 Km que nos leva até este Mosteiro.

 

Não resistimos em reproduzir aqui as impressões de um peregrino, de nome Milio, citado pelo Eroski Consumer, quando por lá passou:

  • Salud, para mi el albergue mas emblemático del Portugués, pasear por los claustros y jardines, beber de las fuentes, la bendición de los peregrinos por parte de los hermanos franciscanos y la acogida de los hospitaleros voluntarios de la Agacs, conforman una experiencia inolvidable. Milio”.

Os monges franciscanos não o reclamam, mas a história conta que foram eles quem trouxeram da América a planta dos pimentos, nos finais do século XV. Provavelmente do México ou do sudoeste dos Estados Unidos.

 

O Mosteiro de Herbón foi um dos primeiros lugares da Galiza a cultivar este pimento, tal como a batata para consumo doméstico.

 

Este pimento é pequeno, de forma alargada e sabor intenso. Pode ser muito ou pouco picante. Esta característica está na origem de um ditado popular galego: «Coma os pementos de Padrón: uns pican e outros non».

Atualmente são cultivados na bacia formada pelos rios Ulla e Sar, especialmente nas estufas de Herbón.

 

Apesar da fama destes pimentos, contudo, aqui em Padrón,  uma vez que os tínhamos provado em Caldas de Reis, não os comemos. As nossas preferências gastronómicas em Padrón, ao jantar, foram mais para os «frutos do mar».

 

Para finalizar a reportagem desta etapa, e neste Destaque, não queríamos terminar sem aludir aqui a três monumentos de significado vernáculo na cultura e tradição galega.

  • Para além da célebre «Pimenteira»;
  • O monumento ao «Carro de bois»;
  • O monumento à «Castanheira» e, na tradição jacobeia,
  • O monumento ao «Peregrino», localizados em artérias importantes do seu centro urbano.

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta 4ª etapa e do nosso passeio pela cidade de Padrón.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog].

 

publicado por andanhos às 15:29
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