Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 4ª etapa - Briallos (Portas)-Padrón

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 17. Junho. 2008 -

 

4ª etapa:- Briallos (Portas) - Padrón

 

 

 

1.- PELO MELHOR DA NATUREZA GALEGA AO ENCONTRO DO LUGAR EMBLEMÁTICO DA MITOLOGIA JACOBEIA

 

Esta é a penúltima etapa antes da nossa chegada a Santiago de Compostela. E Padrón, onde pernoitámos, no albergue junto ao Convento del Carmen, é a antessala, segundo o nosso Guia, do Pórtico da Glória, final do nosso Caminho.

 

A jornada de hoje, embora sendo 23, 4 Km, foi tranquila, sem dificuldades de maior, a não ser aquela pequena subida a Gurgollón, da paróquia de Carracedo, com uma cota de 147 metros. E, não fora as minhas duas «bolhas», que me atormentaram o percurso todo, a ponto de ser obrigado a tomar um comprimido para as dores, a caminhada do dia de hoje, depois de deixarmos Caldas de Reis - um importante centro termal galego -, desenvolveu-se por dois belos e agradáveis traçados, envoltos em bosques. Lindas «corredoiras», como dizem os nossos amigos galegos, desde A Lavandeira e até a O Campo (lugar da paróquia de Carracedo) e depois de As Cernadas e até São Miguel de Valga, ou seja, ao longo das bacias dos rios Bermaña e Valga. Particularmente o primeiro, concordamos com o Guia do Caminho Central Português - Lisboa/Santiago, da «Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago», quando, a páginas 57, diz ser “um bosque digno da lenda do Rei Artur”.

 

Em Pontecesures, na confluência dos rios Ulla e Sar, ultrapassada a sua ponte, deixámos a província de Pontevedra para, dirigindo-nos para Padrón, entrarmos na província de A Coruña. Padrón tem o seu topónimo ligado à emblemática mitologia jacobeia, como mais tarde referiremos.

 

2.- TRAÇADO DA ETAPA

 

 

 

3.- DESNÍVEIS DA ETAPA

 

 

 

4.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA

 

 

4.1.- De Briallos (Portas) a Caldas de Reis

 

Levantámo-nos às horas do costume - 6 horas da manhã. Feita a higiene matinal, e tomado um primeiro pequeno-almoço frugal, quase sempre à base de um iogurte e uma peça de fruta - guardando as barras de cereais ou frutos secos (amêndoa e noz) para o meio do percurso, onde procedíamos a um segundo pequeno-almoço, mais substancial - mochila às costas e cajado na mão, saímos do albergue.

 

Alguns caminhantes/peregrinos foram mais madrugadores mas, a grande maioria, ainda ficou um pouco mais na «sorna». Nestas coisas do caminhar, cada um, para além da sua «devoção» (objetivo), tem o seu próprio ritmo. No fundo, o espírito geral que se tem, quando nos «botamos» a caminho, é a sensação de completa liberdade. E, obviamente, o sempre reconfortante contacto com a mãe-natureza, o vibrar quotidiano dos seres vivos: uns, vivendo em efetiva e total liberdade; outros, desenvolvendo suas vidas ao ritmo da cultura e tradições que cada lugar impõem...

 

Saídos da pequena povoação de Briallos, em pouco tempo, fomos encontrar a nossa sempre companheira N-550. Quer esta estrada quer a via romana XIX são, neste Caminho, os nossos pontos de referência fundamentais, guiando-nos até ao objetivo final almejado - Santiago de Compostela.

 

Num abrir e fechar de olhos, eis a capela ou ermida de Santa Lucía (Luzia).

 

 

E, seguindo por um caminho de terra, em paralelo à célebre «reta das Caldas» - um traçado retilíneo de quase 5 quilómetros - estávamos em Caldas de Reis.

 

Entretanto, iam-se sucedendo as pequenas aldeias de Couceiro, Valsordo, Ameal e Tivo (ou Tibo). Aqui uma ligeira pausa para umas fotos, porque, a sua fonte e o seu cruzeiro, bem as merecem.

 

São, como diz o amigo Emídio Almeida, que por aqui passou em Março deste mesmo ano, o "ex-libris» da terra”.

 

A partir da aldeia de Souto, o Caminho passa para asfalto. E é pelo asfalto que chegámos a Caldas de Reis.

 

Não vamos adiantar muito mais sobre Caldas de Reis. Quanto a esta, embora pequena, bonita e aprazível, cidade e estância termal, com pergaminhos firmados na sua antiguidade e na História, o que tínhamos a dizer, já o fizemos no Destaque, ou último post deste blog, a propósito da etapa anterior.

 

Referiremos apenas (porque não o fizemos, de propósito, naquele Destaque por ser um lugar de passagem desta nossa 4ª etapa) a sua Igreja de Santa Maria,

 

 

de origem românica [que, ao longo dos anos, sofreu alterações e acrescentos, nomeadamente nos séculos XVII e XVIII, com a junção das capelas de San Diego e del Carmen] e darmos especial relevo ao tímpano da sua fachada principal, virada a oeste, onde se encontra representado (esculpido) um Agnus Dei (Cordeiro de Deus); a Rua Real, cheia de edifícios históricos e, no seu términus, a célebre ponte medieval sobre o rio Bernesga

 

 

- um vau muito jacobeu, com um cruzeiro (apresentando-se o pormenor cimeiro) num dos seus talha-mares,

 

 

com três arcos de meio ponto e dois assentos de pedra, tendo ao lado uma fonte de três canos. [Este conjunto é, manifestamente, um dos melhores recantos das Caldas de Reis].

 

 

4.2.- De Caldas de Reis a O Campo (paróquia de Carracedo)

 

Deixámos Aquae Celenis ou Aquae Celenae (aqui, tal como em Chaves, não há quem se entenda no autêntico ou exato nome que os romanos deram à localidade) seguindo pela rua de São Roque, passando pela capela do Santo Caminheiro

 

 

e pela fonte

 

 

que leva o mesmo nome.

 

Uns duzentos metros mais à frente, depois de passarmos debaixo do viaduto da linha do AVE

 

 

(comboio de alta velocidade espanhol), e ultrapassada A Lavandeira, embrenhámo-nos no vale do rio Bremaña - um bonito e bucólico bosque de vegetação ribeirinha - e

 

 

de uma das coisas mais bonitas, para os amantes da natureza, deste Caminho. De facto, de lenda!

 

 

Entretanto minhas «bolhas» não me davam sossego, pese embora a beleza do traçado.

 

E, nisto de caminhar, também há «necessidades» que, aparecendo inopinadamente, têm de ser satisfeitas, a ponto de se largar, à pressa, a mochila a um canto da berma do caminho!

 

 

Neste ínterim, resolvida a «emergência», Tino encanta-se por uma vara bem direita de um carvalho e, vai daí, toca a fazer dela um digno cajado de peregrino, passando a encartar o seu moderno na mochila, passando ae a não largar mais o feito de improviso.

 

 

Nesta pausa falámos que poderíamos ter feito um pequeno desvio para irmos visitar a igreja românica de Santa Mariña de Bemil, antes de A Lavandeira. Apresenta-se, contudo, uma foto de arquivo para aquilatar da sua beleza.

 

 

Mas foi pena. É que tínhamos passado o desvio, sem nos apercebermos!...

 

Enquanto fazíamos esta pausa, aproveitámos também para comer uma barra de cereais. E, prestes a arrancar, eis que, em passada forte, aparece-nos, numa curva ao fundo do trilho, o nosso companheiro de jornada, André, de calções - pois hoje estava o céu limpo e bonito - todo fresco, sorrindo para nós e, sem parar, deixa-nos meia dúzia de palavras, despedindo-se com a célebre frase - buen camiño.

 

Pouco tempo depois, uma peregrina sul-americana, ultrapassa-nos com um «speed» dos diabos. Hoje, decididamente, o dia não estava para correrias: as «bolhas» e a paisagem «metiam» respeito e mais calma na passada.

 

O meu caro amigo Emídio Almeida, no seu «diário» deste Caminho, refere, nestas bandas, ter passado pelo que lhe chamou de «leguário da estrada do arcebispo Malvar», nas proximidades de Outeiro/O Cruceiro. Também o Guia do Caminho Central Português, da Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago, que já atrás referimos, diz-nos que se trata de um relógio de sol, a indicar-nos o local onde devemos cruzar a N-550. Sinceramente, se passámos por lá - e estou em crer que sim - tão preocupado vinha com as dores, que nem sequer me apercebi. E nem o Tino, tão pouco!

 

Ultrapassado o passeio agradável pelas veigas do rio Bermaña, entre bosques e hortas, chegámos a terras da paróquia de Carracedo.

 

No lugar de O Campo, da paróquia de Carracedo, parámos para descansar e tomar um segundo pequeno-almoço reforçado, numa pequena área de descanso, com bancos de pedra e um tanque,

 

 

mesmo ao lado deste belíssimo e esbelto exemplar de igreja ruralgalega,

 

 

com uma torre campanário barroca,

 

 

rematada por um jogo de bolas - a Igreja paroquial de Santa Mariña de Carracedo.

 

Mas, do que mais gostei, foi deste bonito cruzeiro, na parte traseira da igreja.

 

 

Mais reconfortados, depois de comido o segundo pequeno-almoço, voltámos a pôr pé a caminho.

 

 

4.3.- De O Campo (paróquia de Carracedo) a São Miguel de Valga

 

E fomos ao encontro, outra vez, passando por As Cortiñas e O Gorgullón, da N-550, já na proximidade das terras de Casalderrique.

 

Aqui um marco indica-nos que estamos a 34, 584 Km de Santiago de Compostela.

 

 

E, por estas bandas, deixámos o concello de Caldas de Reis para entrarmos no de Valga.

 

Neste ponto o Caminho avança paralelo à AP-9, e depois de passarmos As Cernadas e pela capela da Virgem da Saúde, começámos a percorrer uma outra linda «corredoira», pelo vale do rio Valga, em verdadeiro carrossel, de sobe e desce: ora parando um bocadinho para refrescar a boca;

 

 

ora encantando-nos com o traçado e a sua vegetação;

 

 

ora apreciando os seus regatos;

 

 

ou os seus velhos moinhos;

 

 

ora vendo correr água límpida por linhas de água, cobertas de lindos carvalhos, recentemente desbrochados, e com pedras ainda cobertas de musgo verde.

 

 

E, ao longe, avistando São Miguel de Valga.

 

 

Tudo isto enquanto passávamos por Casal de Eirigo, O Pino, o monte Albor, que molda o vale do rio Valga, indo ao encontro da Igreja de São Miguel de Valga.

 

 

A Igreja de São Miguel de Valga é de traça barroca,

 

 

embora haja quem a classifique de neoclássica (1750). Aqui parámos o tempo suficiente para tirar três ou quatro fotografias e continuámos o nosso Caminho.

 

 

4.4.- De São Miguel de Valga a Padrón

 

A partir de São Miguel de Valga, o Caminho faz-se percorrendo pequenas aldeias rurais

 

 

como Pedreira, Cimodevila, Fontenlo, baixando por um caminho empedrado até ao Caminho do Regadío, percorrendo uma rua até ao bairro de Candide, já no concello de Pontecesures.

 

Seguem-se depois Infesta e A Estrada. Até que chegámos a São Julião de Requeixo, onde, antes de cruzarmos a ponte de Pontecesures, podemos observar a bonita igreja românica de São Julião,

 

 

mandada levantar pelo célebre arcebispo Diego Gelmírez, no século XII, mas reformada em 1918, tendo ao lado um cruzeiro do século XIV.

 

 

A 100 metros da Igreja de São Julião, há um desvio para o convento de Santo António de Herbón, que se encontra a 2,5 Km.

 

Embora a vontade fosse grande para passar por lá, o cansaço provocado pelas dores das «bolhas», pese embora o comprimido que tomei, não aconselhava esta «veleidade» de quase uma hora a mais no Caminho. Hoje em dia, segundo consta, o convento franciscano já não tem nenhum monge. Embora classificadfo o imóvel, possui agora uma dependência para albergue de peregrinos, gerida pela Associação Galega dos Amigos do Caminho e que, parece, não está aberto todo o ano. A este mosteiro voltaremos quando falarmos dos «pimentos de Padrón».

 

E, assim, virando à direita, cruzando a linha de caminho-de-ferro, por uma passagem inferior, entrámos na N-550 para darmos com esta bonita escultura de Santiago sobre uma coluna.

 

 

Atravessámos a ponte de Pontecesures sobre o rio Ulla e, desta feita, entrámos em terras da província de A Coruña.

 

Pontecesures é um antiquíssimo lugar de passagem sobre o rio Ulla,

 

 

que facilita a travessia da ria de Arousa. Sabe-se, desde a Idade Média, que o mestre Mateo, o célebre autor do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago, trabalhou nos melhoramentos da primitiva ponte de pedra, romana. A ponte que hoje vemos é resultante das alterações feitas após 1790 e os melhoramentos de 1911 e 1956.

 

Do outro lado da ponte, pela esquerda, acedemos a uma praça que nos encaminha pela vereda do rio Sar. Logo à direita, em paralelo com o mesmo rio, seguimos aproximadamente 2 Km por uma estrada local que nos conduz até Padrón.

 

 

4.5.- Entrada em Padrón e albergue

 

Entra-se em Padrón pelo mercado abastecedor e segue-se direito pelo Campo da Feira e pelo Passeio do Espolón até se chegar à Igreja de Santiago. Virámos à esquerda, cruzámos a ponte sobre o rio Sar,

 

 

passámos pela Fonte del Carmen e pelo Convento que leva o mesmo nome (do século XVIII) e subimos até ao albergue.

 

 

Apresenta-se aqui uma vista da envolvente do alçado posterior do albergue, a partir de uma das suas janelas.

 

 

Bem avisavam os amigos Emídio Almeida e Fábio que o albergue de Padrón é muito movimentado (pois fica na confluência do Caminho Português com o Caminho ou Rota Jacobeia da ria Arousa). E que só tem dois duches, ficando a água quente rapidamente fria por o aquecimento ser de caldeira.

 

E como de facto assim era!...

 

Avisados como estávamos, lá tivemos a paciência suficiente para esperar pela nossa vez e tomar duche em água morna.

 

Quanto à sua afluência, não contávamos era com a «canalhada» de uma escola portuguesa, que aqui pernoitou!

 

Não fora o facto de, após tomado banho, tratadas as bolhas, descansarmos um bocadinho, e sairmos para dar uma volta pela cidade, com certeza não sossegaríamos muito mais, tal a «algazarra» que aqueles «putos» faziam!

 

Só depois de darmos uma volta pela cidade, com uma bonita tarde de sol e céu limpo, sem ameaça de chuva, e depois de jantarmos, é que regressámos ao albergue.

 

A confusão e o barullho continuavam mas, mal me deitei, cansado como estava, mais por causa das dores que as bolhas me provocaram - e agora, após tratamento, um pouco mais aliviado - nem barulho, nem qual quê, me incomodaram!

 

Segundo diz o meu companheiro de Caminho, Tino, que não «pregou olho» toda a noite, não só pela «algazarra» até tarde mas, principalmente, pela enorme «roncaria» que na ampla camarata ecoava por todos os cantos, eu fui um dos que mais «ajudei à festa».

 

Pois... e eu que pensava que «roncos» não eram comigo!

 

 

Iniciávamos esta reportagem da 4ª etapa com a apresentação de um poema de Rosalia de Castro da sua obra «Cancioneiro Gallego». Antes de apresentarmos o post/Destaque sobre Padrón, deixamos aqui o belo poema de Rosalía cantado por Amancio Prada:

 

[Nota:- Para ouvir o clip, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog e a vê-lo diretamente no Youtube].

 

 

publicado por andanhos às 17:49
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Sábado, 22 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 3ª etapa - Pontevedra-Briallos (Portas) - Destaque

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 16. Junho. 2008 -

 

3ª etapa:- Pontevedra - Briallos (Portas)

 

 

Destaque:- Incursão a Caldas de Reis

 

Caldas de Reis deve o seu topónimo, essecialmente, a três fatores: aqui nasceu Afonso VII de Leão e Castela, filho de D. Urraca e de Raimundo da Borgonha, conde da Galiza [o pupilo de Diego Gelmírez]; aqui nasceu a Casa de Borgonha, e, passando por aqui, segundo o Itinerário Antonino, no seu mapa rodoviário do Império Romano, do século III, a via XIX, [também conhecida como «Loca Marítima», pelo seu traçado se fazer pela costa] os romanos instalarem uma mansion, por possuir águas termais, tão apreciadas por eles, passando, assim, a chamar-se a este lugar Aqua Celenae, nome derivado não só em razão das suas águas, mas também por os habitantes da antiga Gallaecia, que aqui habitavam, se chamarem Cilenos ou Celenos.

 

Desde o Império Romano e até à Idade Média, Caldas de Reis foi centro administrativo e religioso importante, com sede episcopal na Espanha visigótica, até que o seu bispado se mudou para Iria Flavia.

 

Na época medieval, nobres e arcebispos ou viviam aqui ou aqui passavam longas temporadas, aproveitando as suas águas termais.

 

D. Urraca era uma das suas assíduas frequentadoras. Por isso, seu filho, futuro Afonso VII, nasceu aqui. Num paço/fortaleza.

 

Caldas de Reis foi declarada «vila reguenga» por Filipe II (1556-1598).

 

E situa-se na confluência dos rios Umia e Bermaña.

 

Apeámo-nos do táxi, nas redondezas da Igreja Paroquial de São Tomás da Cantuária (Canterbury), arcebispo-mártir inglês que, antes do seu assassinato em 1170, peregrinou até Santiago de Compostela.

 

 

Diz-se que a Igreja foi dedicada a este santo por o mesmo por aqui ter passado, e pernoitado, quando fazia o seu Caminho.

 

E, nos anais da história, também se diz-se que o paço/fortaleza, onde nasceu Afonso VII, foi derrubado, e que as suas pedras foram usadas na construção desta Igreja da São Tomás.

 

Aqui fica uma «foto de arquivo» da torre do dito paço/fortaleza.

 

 

Entrámos, eu e o Tino, dentro da Igreja.

 

(O crucifixo do seu interior)
Como não podia deixar de ser, fomos até à fonte das «Burgas», de águas termais, construída nos finais do século XIX.

 

e, aqui «mui cerquiña», o Tino entrou numa farmácia para comprar uma pomada para os pés.

 

Hoje em dia apenas se mantêm dois balneários abertos: Acuña, edifício dos princípios do século XX, e Dávila, rodeados de grandes jardins.

 

Como a fome já apertasse, um bar/taverna, mesmo junto da ponte debaixo da qual passa o rio Umia, despertou-nos a atenção.

 

 

Entrámos. Aqui comemos umas «tapas», acompanhadas de um bom pão

 

 

e bebemos. Cerveja, pois claro! Vinho, na nossa boca, só entra o do «nosso Douro». E poucos outros mais. Mas só em dias especiais, devidamente justificados! Mas o que mais me deliciou foi o pão e as «xoubas» (em português, petingas). E os pimentos de Padrón, que dizem, «uns picam e outros non». E, por sinal, nenhum «picou» aos dois.

 

Foi um bocado de tarde ali bem passado, na companhia de alguns galegos, «copofónicos», em amena cavaqueira, tendo como pano de fundo a ponte

 

 

e o som da cascata que o rio Umia ali faz. Só a música é que nada tinha a ver com o ambiente. Cá para os nossos botões, seria mais adequada uma música tradicional galega ou de raiz celta. «Andaluziadas» como aquelas, na nossa modesta opinião, estava fora de contexto. Enfim, contradições dos tempos pelos quais passamos!

 

Saímos da «Taberna O Moíño» e fomos dar uma volta pela Carballeira e Parque (Jardim) das Caldas. Muito bonito, mesmo. Trata-se de um parque botânico centenário, na margem do rio Umia, com uma grande variadade de espécies, destacando-se quatro árvores centenárias e uma coleção de exemplares de camélias.

 

Saídos da Carballeira e Parque das Caldas, fomos até à zona da Biblioteca Pública Municipal P. Martínez Ferro.

 

 

Tudo muito pertinho.

 

No esterior da Biblioteca, a escultura de um livro com sábias palavras:

 

 

Aqui se mostram duas das estátuas que, por estes sítios, mais nos ficaram nos olhos:

 

 (Escultura da «Escuela de Canteros»)

  

 (Pererigmo, de Domato, no Parque do Jardim)

 

Depois penetrámos no centro urbano com as suas casas típicas, características, de arcadas.

 

Numa casa, já velha, à beira da estrada, um graffiti que cobre todo um pano da mesma.

 

Fazendo-se já tarde, voltámos a apanhar um táxi e dirigimo-nos, de volta, para o albergue de Briallos.

 

No retorno ainda nos lembrámos que deixámos para trás por ver a Casa de Dona Urraca, a Casa dos Campaneiros (indústria artesanal de sinos, bem como irmos até «Fervenza» de Segade lugares, também emblemáticos de Caldas de Reis para, assim, a visita ter sido completa. Pela Ponte Romana de Bermaña passaríamos por ela no dia seguinte. Paciência! Haverá outras oportunidades, pensávamos enquanto o taxista nos levava para Briallos.

 

O tempo tinha aliviado um pouco, mas mostrava-se um pouco instável.

 

Dormimos bem, apesar das duas «bolhas» que começavam a «apertar» connosco demais.

 

Mas lá conseguimos dormir - apesar da «cacofonia» estrondosa de «roncos», das mais diversas tonalidades e sainetes, espalhados pela camarata -, de uma assentada, até ao outro dia de manhã cedo.

 

Deixamos agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta 3ª etapa e da «incursão» a Caldas de Reis.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].

 

 


publicado por andanhos às 03:42
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Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 3ª etapa - Pontevedra-Briallos (Portas)

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 16. Junho. 2008 -

 

3ª etapa:- Pontevedra - Briallos (Portas)

 

 

 

1.- POR UMA CIDADE COM HISTÓRIA, POR ENTRE BOSQUES REFRESCANTES E ACOLHEDORAS LATADAS DE VIDEIRAS, AO ENCONTRO DA PACATEZ RURAL GALEGA

 

Segundo o nosso «Diário», reproduzindo as palavras do meu companheiro de jornada, Tino, “choveu muito de noite”. Não admira! Apesar da etapa da véspera não ser muito longa, contudo, a força da chuva, aquelas duas subidas, as «bolhas», que começavam já a dar sinais de entrada nos meus pés - já que as do Tino se haviam declarado com antecedência - e aquele compasso de espera para nos acomodarmos no albergue, «maçou-nos» um pouco. Não admira, assim, que, logo que caído à cama, e «embalado» pela chuva, tenha dormido a noite inteira, de uma assentada. Razão pela qual nos levantámos mais tarde hoje: eram aproximadamente 6 horas da manhã.

 

Tomado o pequeno-almoço, espartano - dois iogurtes e uma pequena embalagem de cola-cao -, mochila às costas com os nossos pertences, devidamente arrumados e enxutos, cajado na mão, toca a iniciar o Caminho de hoje que nos levaria até Briallos, concello de Portas, a escassos quilómetros de Caldas de Reis.

 

Poderíamos resumir a etapa de hoje da seguinte forma: atravessando uma cidade monumental (e acolhedora), penetrando em bosques refrescantes, com muita água, caminhando por debaixo de latadas de videiras de «alvariño», ora cruzando-nos com igrejas, ermidas e cruzeiros, ora, à mistura, observando, contemplando e captando a natureza verde e florida, fomos ao encontro de um pacato ambiente rural, com uma incursão numa cidade-vila que nos remete para a história da antiga Gallaecia (romana), num dia de verão chuvoso que, aqui e ali, nos sorria com um bonito céu limpo e azul, com algumas abertas de sol radiante.

 

 

2.- ATRAVESSANDO A CIDADE DE PONTEVEDRA

 

2.1.- Breve e sucinta história do nome e da cidade de Pontevedra

 

Peguemos, uma vez mais, no Guia que levávamos e reproduzamos o que diz quando se refere à cidade de Pontevedra:

 

“Pontevedra é filha da planificação romana do território e do Caminho de Santiago. Os engenheiros imperiais que desenharam o traçado da principal via de comunicação entre os três centros urbanos de caráter administrativo da recente Gallaecia (Braga, Lugo e Astorga), a calçada nº XIX segundo o Itinerário de Antonino, previram nas margens do rio Lérez uma mansion (núcleo de povoação junto à calçada) a que lhe chamaram Turoqua. Pouco depois construiu-se também uma primeira ponte de pedra sobre o caudal do Lérez, a Pontus Veteri, da qual sabemos, por crónicas do século XII, que nessa época existia mas já em total ruína. Em 1988 encontrou-se numa das margens do rio Lérez, junto à ponte, um marco miliário dedicado ao imperador Adriano e com a data de 138 que confirmaria, assim, a passagem da calçada por este lugar. O miliário encontrado está no Museu de Pontevedra, mas há uma réplica num lugar ajardinado à entrada da ponte. Quando o rei D. Fernando II outorgou carta de foral à cidade, em 1169, deu ordens também para que se iniciasse a construção de uma nova passagem, base da ponte que atualmente vemos. Os restos da cidade e da ponte, romanos, desapareceram, apenas ficando o seu nome”.

 

A história (antiga) da cidade de Pontevedra encontra-se hoje esculpida no seu centro histórico: um emaranhado de “deliciosas ruas talhadas em granito” nas quais a «patine» verde da chuva e humidade as cobre. “Viver na cidade de Pontevedra é um exercício pausado da melhor cidadania que consiste em passear pela Alameda num dia ensoleirado de inverno debaixo dos olhos do Monumento aos Heróis da Ponte Sampaio; tomar o pequeno-almoço nas arcadas da Praça da Ferrería, ou ler Valle-Inclán, pontevedrino universal, na Praça Teucro (...) Pontevedra tem séculos vendo passar peregrinos em direção a Compostela. Todos aqui param para render homenagem à Peregrina, a Virgem mais jacobeia, patrona da província de Pontevedra e do Caminho Português, cuja igreja barroca, com planta em forma de vieira, contruída a partir de 1778, preside à Praça com o mesmo nome, tendo à sua frente a Porta do Caminho (ou Porta de Trabancos), antiga porta da cidade amuralhada pela qual entravam os romeiros vindos de Redondela. Para conhecer e entender Pontevedra há que percorrer a pé as suas praças: da Lenha, com um cruzeiro do século XV; das Cinco Ruas, onde viveu o autor de “El ruedo ibérico”; do Teucro, escoltada por uma fachada contínua de casarões nobres e brasonados do século XVII; de Curros Enríquez, onde esteve o antigo hospital de peregrinos. No Museu de Pontevedra, instalado num dos muitos paços do emaranhado urbano, pode-se fazer um percurso virtual por toda a intensa vida desta capital galega tão vinculada às vias jacobeias” É, assim, que nos fal de Pontevedra, a páginas 176 a 178, o nosso Guia).

 

 

2.2.- Atravessando Pontevedra

 

Mostremos agora, sumariamente em mapa, o que foi o nosso percurso na travessia da cidade de Pontevedra:

 

 

Como bons e aplicados alunos, atravessámos a cidade de Pontevedra seguindo as indicações que o mapa supra, tirado do nosso Guia, apresenta a páginas 181.

 

Deixámos o albergue em direção à estação RENFE (e de autocarros). Na rotunda de acesso, em vez de seguirmos em frente pela avenida Eduardo Pondal, tomámos uma mais modesta que nasce à esquerda desta na mesma rotunda - a rua Gorgullón. A rua Gurgollón acaba na avenida Eduardo Pondal, que a cruzámos, para prosseguirmos pela rua da Virgem do Caminho. No final desta rua, virámos à esquerda e, em seguida, outra vez à direita, para irmos diretos à rua da Peregrina, uma das ruas mais concorridas de Pontevedra onde, na praça ao lado, fica a célebre Igreja da Peregrina,

 

patrona, como já se disse, deste Caminho.

 

(Monumento a Loro Ravachol, praça A Peregrina)

 

Daqui, pelo passeio António Odirozola, contíguo à Praça da Ferrería, onde fica a Igreja e Convento de São Francisco, do século XV, em estilo gótico mendicante, girámos à esquerda, e passando pela rua Suportales, chegámos à Praça Curros Enríquez. Daqui, e pela rua Real, tendo a Praça do Teucro à nossa esquerda, chegámos a uma pequena praça (ou praceta), designada de Celso García de la Riega, e, à esquerda, vamos direitos à rua da Ponte donde, daqui, saímos para a Ponte do Burgo,

 

 

a tal ponte histórica sobre o rio Lérez, sucessora da romana, agora de raiz mais medieval, embora já muito restaurada, e que deu o nome à cidade.

 

No jardim de acesso à ponte lá está a réplica do já citado marco miliário dedicado a Adriano.

 

 

Ultrapassada a Ponte do Burgo, seguimos em frente pela avenida de A Coruña. Mais à frente, é à esquerda, tomámos a rua de la Santiña que nos retira da cidade para nos dirigirmos para os seus arredores.

 

 

3.- TRAÇADO DA ETAPA

 

 

 

4.- DESNÍVEIS DA ETAPA

 

 

 

 

5.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA

 

 

5.1.- Da saída de Pontevedra até Alba (São Caetano)

 

E, até aqui, desde o albergue, percorremos sensivelmente 3 quilómetros.

 

Passámos pelo bairro ou aldeia de A Gándara, por Devesas, e por este bonito cruzeiro com um anjo,

 

 

pelo «marisma» de Alba

 

 

até que, percorridos que estavam 4,6 Km, entrámos em Pontecabras, com o rio que leva o mesmo nome, já na paróquia de Santa Maria de Alba.

 

Passámos pela Igreja de Santa Maria de Alba,

 

 

onde, nas suas proximidades, encontrámos um dos símbolos jacobeus, a cabaça,

 

 

detivemo-nos no pormenor do seu cruzeiro com o Santiago no fuste,

 

 

bem assim a fachada principal da residência paroquial (ou reitoral - um autêntico palácio) em ruínas.

 

 

E, um pouco mais à frente, Goxilde.

 

E agora parámos um pouco em Goxilde. Não no percurso, que continuámos sem grandes paragens, mas no relato que estamos a fazer. Para introduzirmos um «inciso» histórico. A Igreja de Santa Maria de Alba, agora uma típica construção galega em pedra de granito comida pelo musgo e com um típico campanário igual a muitas outras igrejas galegas, tem como data de construção o ano de 1595 e é da autoria ou direção de Mateo López; contudo, anteriormente, aqui existiu uma outra, do século XII, consagrada pelo célebre arcebispo Diego Gelmírez.

 

Procurámos saber da importância deste lugar de Goxilde e da razão por que tal celebridade (tão controversa, para uns, e um herói, para outros) - o arcebispo Diego Gelmírez - consagrou nestes lugares da paróquia de Alba uma igreja (a de Santa Maria de Alba). Ou seja, qual a razão de tão grande afeição por este lugar.

 

Procuremos, então, sumaríssimamente, contar o porquê de tanta «devoção» pelo lugar ao ponto de levar o célebre arcebispo a consagrar-lhe uma igreja.

 

Enquadremos este facto na sua época, sem o qual não existe não só compreensão como tão pouco «perdão» para determinados atos.

 

Estamos no período da Reconquista. Urgia afastar das terras ibéricas, a norte principalmente, a religião dos «sarracenos». Há, pois, que enquadrar e ter como pano de fundo este objetivo - a expansão da cristandade nas terras ibéricas. Mas não podemos também esquecer que estamos em plena Idade Média. Onde o poder político (dos nobres, cristãos, senhores feudais e terra tenentes) luta ferozmente, em lutas intestinas, pela cada vez mais posse de terras para a sua posse e domínio, num xadrez profunda e profusamente imbricado com o poder religioso. Assim, é não só a luta de nobres, senhores da terra, de reinados e condados, uns contra os outros, na obtenção de mais terras e, consequentemente, de mais poderio, mas também de senhores religiosos, grande parte deles provenientes de famílias nobres, na conquista e alargamento das suas fronteiras diocesanas (e metropolitanas). É, neste período em concreto, e nesta conjuntura, feita neste «caldo» que se deve entender a luta de um clérigo - Diego Gelmírez, bispo de Santiago de Compostela - num intrincado jogo religioso e político para, por via das peregrinações a Santiago obter o mesmo (e se possível, maior) estatuto que as dioceses metropolitanas (e históricas), como as de Braga e Toledo, tinham.

 

No tempo em que viveu, as coisas - embora arriscando-se bem - estavam-lhe, manifestamente, de feição. No intuito de consolidar Santiago de Compostela com o estatuto de metropolitana (e ser, por isso, eleito como arcebispo), teve a seu favor a circunstância de ser o protetor do filho de D. Urraca, D. Afonso VII, futuro rei de Leão e Castela (bem como do reinado da Galiza), como também ter como tio mais novo de Afonso VII nada mais, nada menos do que o Papa Calistino II, o do célebre Codex Calistinus (que num dos posts do Caminho Sanabrês de Santiago, variante da Via de la Plata, já referimos (veja-se, neste blog - Andarilho de Andanhos - o sítio da internet: http://andanhos.blogs.sapo.pt/6544.html).

 

O grande objetivo de Diego Gelmírez era a grandeza da sua diocese, que a queria metropolitana, mas que se encontrava obscurecida pelas duas restantes na ibéria cristã de então - Braga e Toledo. Particularmente Braga, mais perto de Santiago.

 

Naquele tempo, as relíquias dos santos era a razão que levava multidões de romeiros e peregrinos aos lugares onde elas se encontravam para as venerar.

 

Santiago de Compostela tinha as suas - as de Santiago -, mas Braga tinha muitas mais!

 

Então o que este «génio» engendrou? Aquilo que na história, (relatado na História Compostelana), é conhecido como o «Pio Latrocínio».

 

 El Cultural (http://www.elcultural.es/noticias/LETRAS/336/La_verdadera_historia_de_Diego_Gelmirez)-, edição de 19. 02. 2014, a propósito de uma exposição em Paris, de Março a Maio de 2010, com a designação de “Compostela y Europa”, a certa altura, a jornalista María Elena Cruz Varela, diz:

 

Diego Gelmírez (1070?-1140), primer Arzobispo de Compostela es, sin lugar a dudas, el gran gestor de un hecho que va más allá de toda duda o elucubración: Santiago de Compostela es, hoy por hoy, uno de los tres lugares de peregrinación más importantes del mundo, dignidad que comparte por igual con Roma y Jerusalén.

 Adelantado, pleno de sombras y de luces, este hombre a quien le achacan más vocación política que devociones religiosas, recorrió por tres veces, arduo empeño para los de su época, los más importantes centros culturales de Europa, empujado por la inquebrantable decisión de convertir a su ciudad en un punto de referencia obligatorio en cuanto a los cánones místicos establecidos. No vaciló en cometer "Pío Latrocinio" - robo de reliquias - en la Catedral de Braga, de donde hizo sustraer los santos cuerpos de san Fructuoso, san Cucufate, san Silvestre y santa Susana, con el propósito de restarle valores a esta plaza, colocándola en desventaja para la competencia”.

 

Diego Gelmírez, não reza a história, mas dizemos nós, feito o pio roubo, [oh pernas para que te quero!; pernas dele, com certeza, bem assim as patas das cavalgaduras - que deveriam ser de puro sangue (estou em querer que árabe) -, possuidoras dos mais potentes «motores» da época], só descansou quando se sentiu em solo seguro e com as cavalgaduras extenuadas, prestes a «gripar». E foi aqui, nestas paragens de Goxilde, que descansou (e mais a sua cúmplice comitiva) da «santa» correria que fez depois de perpetrado o «abençoado roubo». Estávamos no ano santo de 1124.

 

Naturalmente que tal façanha, de acordo com os «cânones» de hoje, classificaríamos tal ato como de criminoso e, seu autor, outra sorte não teria senão uma triste e sombria cela de um qualquer calabouço! Mas estamos noutra época e noutros tempos. E, por isso mesmo, temos de analisar este facto «à luz do seu tempo».

 

Não queríamos deixar passar a oportunidade para recomendarmos a leitura de duas interessantes obras (passando a publicidade às editoras) para um melhor enquadramento da época e de certos factos:

  • Os Reis da Reconquista Portuguesa, de Stephen Lay, 2011, da Editora, Grupo Leya. Para quem goste de saber como «nasceu» Portugal este livro é deveras interessante. E, naturalmente, o nosso personagem Diego Gelmírez é um dos protagonistas referidos na obra;
  • O Segredo de Compostela, de Alberto S. Santos, 2013, Porto Editora. Trata-se de um romance histórico que se questiona sobre a autenticidade do túmulo de Santiago o Maior. A não perder...

 

Ainda não vai muito tempo, perguntávamos na rubrica do blog CHAVES - «Chá de urze com flores de Torga», a propósito da obra «A Criação do Mundo», de Miguel Torga, se existe alguma diferença entre memória e invenção. (Veja-se em sítio da internet: http://chaves.blogs.sapo.pt/cha-de-urze-com-flores-de-torga-22-1029159).

 

Deixo uma vez mais agora, e aqui, a pergunta para que os meus (minhas) caros (as) leitores (as), debruçando-se sobre determinados feitos (ou factos) históricos, também se interroguem.

 

Continuemos com a reportagem da nossa etapa.

 

Quinhentos metros mais à frente de Goxilde estamos em São Caetano (de Alba).

 

Aqui a capela com o mesmo nome, do século XVIII,

 

com um pormenor da fachada.

 

5.2.- De Alba (São Caetano) até Santo Amaro (Barro)

 

Depois de passarmos pela capela de São Caetano desembocamos na estrada, cheia de trânsito e perigosa, e virámos à direita em direção à fábrica avícola de Doux.

 

Entrámos na paróquia de Cerponzons, passando pelas aldeias ou bairros de Leborei e o Castrado.

 

A partir daqui inicia-se um dos troços mais bonitos desta etapa e, porventura, um dos dois deste Caminho - a passagem por um labirinto verde de «corredoiras», pista florestal e bosque, cobertas por um túnel húmido de carvalhos (robles), cobertos de musgo e heras, que corre sempre paralelo à linha de caminho-de-ferro e ao rio Gándara - é o bosque de Reiriz e o Lombo da Maceira,

 

 

com várias fontes

 

 

que emanam de ambos os lado do Caminho,

 

 

repleto de árvores que cruzam o itinerário e nos convidam a refrescar. E, pese embora o tempo de chuva, foi o que fizemos, face ao ambiente quente e aos pés maçados, já a pedirem uma refrescadela, nas «poldras» por onde passa o regato designado por Pozo Negro.

 

 

Em ligeira subida, passado Reiriz, entrámos no Lombo da Maceira.

 

Atravessados estes dois lindos e refrescantes troços, ora com a chuva a cair-nos em cima do «pêlo» - mas não tão intensa como no dia anterior - ora com algumas (boas) «abertas», fomos ter a uma passagem de nível sem guarda que nos levou até à aldeia de Santo Amaro (San Mauro), pertencente à paróquia de São Mamede da Portela, concelho de Barro.

 

Era aqui que, no passado, se efetuavam as mudas de cavalos. Tínhamos percorrido, sensivelmente, 10 quilómetros.

 

Deparámos com uma modesta capela e,

 

a poucos metros mais, o bar «Mesón Don Pulpo»,

 

onde parámos para descansar um bocadinho e tomar um segundo pequeno-almoço (quente).

 

5.3.- De Santo Amaro (Barro) até Briallos (Portas)

 

Como tínhamos parado no bar «Mesón Don Pulpo», ao passar na área de descanso de Santo Amaro, com mesas e bancos, praticamente não parámos. Apenas o tempo suficiente para bebermos um pouco de água da sua fonte

 

 

e apreciarmos o pormenor do fuste do seu cruzeiro.

 

 

Percorridos 11,4 Km, estávamos em Cancela.

 

Mais um cruzeiro com o Tino

 

 

e um seu pormenor,

 

 

antes do cruzamento ou desvio para o albergue de Barro.

 

Continuando no asfalto, entrámos na paróquia de Agudelo, concretamente no lugar de Valbón. Nestas paragens encontrámos os cruzeiros mais conhecidos pelo nome de Amonisa por um deles se situar junto à casa que leva o mesmo nome. A particularidade deste é que tem o Santiago no fuste olhando para o norte - a sua cidade. Aqui fica, assim, o pormenor da escultura do santo esculpido no fuste do cruzeiro.

 

 

Saímos de Valbón percorridos que foram 13 Km, aproximadamente, para, numa boa aberta de sol, nos deliciarmos com o verde dos campos e a natureza florida.

 

 

Tino não parava de tirar fotografias aos mais singelos pormenores de uma natureza em plena «exuberância».

 

 

Eu ia-me entretendo a tirar fotos

 

às mais variadas flores silvestres que via.

 

Foi um bom momento de «descompressão», enquanto, por cima de nós, o viaduto nos indicava que, por estas bandas, não é só natureza recheada de latadas com as célebres videiras que dão o «alvariño»!

 

 

Faltava-nos 51 Km para chegar a Santiago, assim indicava no marco jacobeu por onde passámos.

 

Cruzámos o ribeiro do Areal e, saindo do asfalto (estrada provincial EP-9407), ao Km 50 de Santiago - 14,9 Km desta etapa - estávamos perto do núcleo de A Seca e dirigimo-nos para a já nossa conhecida estrada E-550.

 

Contudo, ao nos aproximarmos desta aldeia, o São Pedro «revoltou-se» e fez cair uma enorme chuvada que nos ia pondo os dois num verdadeiro «molho» não fora a aba protetora dos ramos de um velho carvalho,  ao lado de uma bonita magnólia perene, para nos proteger.

 

Pousámos as mochilas e os cajados

 

e, enquanto aguardávamos que a chuva passasse, aproveitámos para comer o pão com frutas que tínhamos comprado na véspera da estação de autocarros de Pontevedra, acompanhado de manteiga e de coca-cola que, quando parámos no bar de Santo Amaro, tínhamos comprado. Desalentados por não vislumbrarmos uma «abertinha» mais, quando a chuva diminuiu de intensidade, pusemos as mochilas às costas e com os cajados nas mãos, «bota» Caminho.

 

Entrámos em A Seca quando já tínhamos percorridos mais de 16 Km da etapa de hoje. E, continuando no asfalto (E-550), e com a chuva por companhia, atravessando o rio Agra, fomos ao encontro do concello de Portas.

 

 

Deixámos a estrada e, por um caminho à esquerda, que passa no minúsculo núcleo de Barosa, regressámos outra vez à nacional E-550 para, num instante, entrarmos em Briallos

 

 

por entre latadas de videiras.

 

 

Em Briallos para irmos para o albergue, desviámo-nos 400 metros.

 

 

O albergue de Briallos é uma adaptação de uma escola primária.

 

 

Boas instalações, diga-se de passagem.

 

Conforme crónica do nosso «Diário», ao chegar ao albergue, a camarata com as suas camas, parecia-me um palácio, tal o estado em que vinham por causa das duas «bolhas» que trazia nos pés e o cansaço, mais provocado pela chuva.

 

Parecia que não iríamos ter muita companhia mas, tomado banho, em água fria (pois não sei bem o que se passava com a quente, que falhou), tratadas as «bolhas» com a perícia cirúrgica do Tino, trocado de roupa, comidas uma maçã e um pêssego, e depois de «esteirados» uma boa hora na cama a descansar, eis que, quando já estávamos prestes a «passar pelas brasas», chegam três peregrinos: 2 rapazes e uma senhora, os três italianos.

 

E foram chegando mais e mais. Quase encheu o albergue.

 

Despertos com tanto barulho e pelo vento que zunia nas janelas, acabei por ficar na camarata a escrevermos umas notas no «Diário» e depois a acabar de ler as últimas páginas dos «Bichos», de Torga.

 

Coscuvilhando no «Diário» sobre a jornada de hoje vejo nele escrito, a determinada altura: “16.20 horas locais - Acaba de chegar um madrileno. Em conversa com ele, foi-nos dizendo que o seu intuito em fazer o Caminho não era outro senão o depois escrever um livro sobre a paisagem humana do Caminho. Aguardemos, então, a chegada dessa paisagem”.

 

Eram por volta das 16 horas e 30 minutos locais quando eu e o Tino fomos dar uma volta pelo aglomerado de Briallos. Fomos ver o que havia em termos de «tiendas». Muito pouco, por sinal. Se queríamos comer a jeito, teríamos de ir a outro lado. E, assim, logo após darmos uma espreitadela à Igreja local de São Cristóvão

 

 

e ao seu cemitério,

 

tomámos um táxi e fomos até Caldas de Reis.

 


publicado por andanhos às 03:40
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Sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 2ª etapa - Redondela - Pontevedra

 

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

2ª etapa:- Redondela - Pontevedra

 

- 15. Junho.2008 -

 

 

1.- AO ENCONTRO DAS RIAS BAIXAS ATÉ À CAPITAL DO CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS NA GALIZA - PONTEVEDRA - NUM DIA DE VERÃO CHUVOSO

 

Segundo o Guia que na Introdução deste Caminho referimos, e que sempre nos acompanhou, as Rias Baixas “antepõem-se como um poderoso obstáculo no avanço do peregrino pela costa galega. Os diferentes caminhos que partem de Portugal deviam ultrapassar estes estuários à procura de pontes para os cruzar, ou barcas, que prestavam serviço entre as suas margens, dado que a tecnologia medieval não permitia a construção de pontes tão soberbas como a ponte de Rande, que hoje ultrapassa a ria de Vigo”.

 

 

Desde Redondela, o Caminho (Central) Português bordeia a ria de Vigo ao encontro da Ponte Sampaio sobre o rio Verdugo para, daqui, se cruzar o braço de terreno que separa a ria de Vigo da de Pontevedra.

 

Comparada a etapa de hoje com a de ontem, esta foi como se de um simples passeio se tratasse.

 

Mas vamos ao nosso «Diário» quanto a este dia e a esta jornada:

 

“Acordei eram 4,30 horas da manhã. Não era apenas o correr das águas do ribeiro que corre paralelo ao albergue. O seu mais intenso barulho tinha uma explicação: ao levantar-me - e olhando pela janela - chovia torrencialmente. A coisa estava preta para fazermos o percurso do Caminho que hoje nos levaria até Pontevedra. Desliguei o despertador do relógio. Com este tempo assim, e como na véspera tinha combinado com o Tino, não partiríamos às 6 horas da manhã. Nem parecia um dia de verão, de tão escuro estava o céu e com tanta chuva! Voltei-me a deitar para tentar dormir mais um pouco até que o tempo aliviasse mais. Um atraso de duas ou três horas - dado o estado do tempo - não seria muito crítico: a etapa de hoje era curta - apenas 18,5 Km - comparada com a de ontem. Estávamos no verão. Logo não fazia muita diferença chegarmos mais tarde porquanto os dias são mais longos. Congeminava cá para mim estas coisas, preparando-me para passar um bocado mais «pelas brasas», enlevando-me no sono, quando eis que o meu companheiro de Caminho, por volta das 5.15 horas, se levanta, olha para a janela e, abeirando-se da minha cama, abana-me para me levantar! Debalde o meu protesto de que o tempo não estava famoso, que estava mau e muito chuvoso! Que não - dizia-me ele - respondendo-me otimista: já estive a ver, o céu já esta completamente aliviado e não chove! Que fazer? Se assim era, perante a sua insistência, há que levantar, comer um iogurte e uma peça de fruta e, depois de tomarmos um café, mochila às costas, cajado nas mãos e partir...”.

 

Acabámos, no fundo, por sair quase à mesma hora do dia anterior.

 

 

2.- TRAÇADO DA ETAPA

 

 

 

3.- DESNÍVEIS DA ETAPA

 

 

 

4.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA

 

 

4.1.- De Redondela ao Alto da Lomba

 

Saímos do albergue sem chuva, embora com o céu muito nublado.

 

Atravessámos a Praça Alfondiga onde, a poucos metros, temos a emblemática Igreja de Santiago,

 

(Relógio da torre - Pormenor)

 

(Santiago Cavaleiro na fachada principal da Igreja)

 

passámos pelas ruas do Cruzeiro, do Loureiro e da Picota, com os seus espigueiros,

 

 

por debaixo do viaduto de Pontevedra,

 

 

inaugurado em 1884, e por onde, todos os dias, passam os comboios que circulam entre Vigo e Pontevedra. Nesta localidade ainda existe um outro, mais antigo, também com a mesma finalidade - o de Madrid; por isso, a Redondela lhe chamam a «vila dos viadutos», e que, por sinal, estão classificados, como imóveis de interesse cultural desde 1978. A partir daqui, descendo, fomos ao encontro da estrada nacional N-550, cruzando-a junto da fachada da capela barroca de Santa Mariña, também conhecida por capela das Angústias.

 

 

Abandonámos Redondela pela rua do Campo de Futebol para, logo de seguida, penetrarmos nos terrenos da paróquia de Cesantes. Por estas bandas, ao longe, via-se o Castelo de Sotomaior, que, mais adiante, faremos uma breve referência. E começamos a subir. Passámos por uma pequena ponte sobre o rio Raxeiro e sobre a linha de caminho-de-ferro em Cesantes e, depois de voltarmos a atravessar a E-550, a páginas tantas, e sempre a subir em elevação moderada, ultrapassámos um bonito mas breve bosque, no Caminho Real de Cesantes, que desemboca no Caminho de Abreavella, para voltarmos a reencontrarmo-nos com a E-550. Aqui há intenso tráfego, por isso, há que ter muito cuidado. E, depois de um cruzamento, entrámos na paróquia de O Viso, mais em concreto, no lugar de Tuimil. Passámos por uma fonte de pedra e um parque (de merendas) e, continuando a subir, alcançámos o cume - Alto da Lomba, com a altitude de 181 m -, (também conhecido por Alto do Viso?). À nossa esquerda, podemos ver as ruínas da Casa da Mina ou antiga «Casa de Postas» (estação de Malaposta) - lugar que antigamente era utilizado para descanso, aprovisionamento e mudança de cavalgaduras.

 

As minhas pesquisas, até ao momento, foram infrutíferas no sentido de saber exatamente onde fica o lugar que tem a designação de «Eido da Raíña» e se o «Eido da Moura» ou o Alto do Viso se se referem os três nomes à mesma realidade (ou lugar).

 

Compulsei as «Memórias dos meus Caminhos a Santiago - via Compostela», aliás um relato muito completo do Caminho Central Português, desde Valença do Minho, que o meu querido amigo, e companheiro do Caminho Francês, Emídio Almeida, um grande aficionado da história dos Caminhos de Santiago, fez naquele ano de 2008, entre os dias 15 a 19 de Março e que, para o efeito, os(as) caros(as) leitores(as) poderão consultar no seguinte  sítio da internet - http://www.caminhodesantiago.com.br/members/livros/memo_cam_santiago_emidio.pdf, mas não encontrei resposta!...

 

Em contacto, via correio eletrónico, com um amigo dos amigos do meu amigo Emídio Almeida, Luís Freixo,  eis a resposta que obtive:

 

“(...) Referente ós topónimos “Eido da Moura” e “Eido da Rainha”, localicei o primeiro déles na Parroquia de Soutoxuste no Alto da Lomba, entre Cesantes e Arcade; nao asim o segundo, mesmo que acredito que debe ser em lugar diferente, mesmo que muito próssimo do primeiro. O Arqueólogo Municipal acha mais ben relacionados con nomes frquentes na fantasía popular, nas redondezas dos asentamentos castrejos prerromanos”. E que vinha acompanhada de dois mapas que aqui deixamos e do sítio da internet onde obteve a respetiva informação - http://redondelaarqueologica.blogspot.com.es/2008/11/notas-sobre-arqueologa-de-redondela-iii.html e que , para o efeito, reproduzimos um dos mapas:

 

 

Mas, em concreto, onde fica o «Eido da Raíña», positivamente ficámos sem saber!

 

 

4.2.- A rainha Santa Isabel no Caminho

 

Embora o Guia do Caminho Central Português - Lisboa/Santiago, da Associación Galega Amigos do Camiño de Santiago, a páginas 53, fale no «Eido dos Mouro» e, por outro lado, o nosso Guia, já atrás referido, falar em «Eido da Raíña», o certo é que o nome «Eido da Raíña» é uma nítida alusão à peregrinação que, por duas vezes, a nossa Rainha Santa

 

(Busto da estátua da Rainha Santa no largo do Mosteiro de Santa Clara a Velha)

 

fez a Santiago de Compostela: a primeira - feita a pé só nos últimos quilómetros antes de Santiago - logo após a morte de seu marido, o rei D. Dinis, em 1325, ainda com o título de «rainha», embora nessa altura já reinasse D. Afonso IV; a segunda, e segundo reza a Crónica Del’Rei D. Afonso o Quarto, um ano antes da sua morte, em 1335 “para ganhar o jubileo”.

 

Aqui fica uma pequena relíquia - o báculo e o bordão de peregrina -

 

 

que na primeira peregrinação lhe foi oferecido pelo arcebispo de Santiago de altura à Rainha Santa e que, em 1612, aquando da abertura do túmulo da Rainha Santa, com o objetivo de proceder à recolha de provas para a sua canonização, se encontrava junto dos seus restos mortais, e a seu pedido. O túmulo é uma peça funerária gótica, ricamente trabalhada, que está no Mosteiro de Santa Clara a Velha, em Coimbra.

 

(Túmulo da Rainha Santa no Mosteiro de Santa Calara a Velha, Coimbra)

 

(Pormenor da cabeça da estátua jacente no túmulo)

 

Por outro lado, Vitor Manuel Adrião, na sua obra Santiago de Compostela - Mistérios da Rota Portuguesa, 2011, da Dinapress, diz-nos que, a páginas 127 do primeiro tomo de Las Peregrinaciones a Santiago de Compostela, consta o seguinte texto: “Havia bordões de diferentes classes e alguns luxuosos como o que ofereceu o arcebispo de Santiago à Rainha Santa Isabel de Portugal, quando esteve em Compostela, e com ele foi enterrada mais tarde”.

 

E já que estamos a falar do Caminho Central Português de Santiago, e da obra de Vitor Manuel Adrião, não gostaríamos de deixar passar em branco esta oportunidade para referir uma passagem do texto que a agência noticiosa Lusa publicou aquando da apresentação daquela obra deste autor, a 5 de Maio de 2011: “Os caminhos da peregrinação a Santiago de Compostela foram a base principal da evolução social europeia pela inter-relação espiritual, cultural e política das multivariadas culturas que nele encontravam e acordavam peregrinar para o fim comum: o abraço da devoção ao Apóstolo de Cristo sobre o túmulo na capital da Galiza, acalentada pelas estrelas da estrada de Santiago”. Vitor Adrião ainda refere que, de todos, o mais antigo é o Caminho Português. Contudo, o Caminho Francês é o itinerário mais famoso, por absorver a maioria dos caminhos europeus que se dirigiam à cidade de Santiago, atravessando o Nordeste de Espanha. Por isso, em 1987 foi reconhecido pelo Conselho da Europa como «o primeiro itinerário cultural europeu», cuja fama de tolerância e aceitação universal já corria pela Europa e o mundo no século XIII.

 

 

4.3.- Do Alto da Lomba a Arcade

 

Conforme gráfico de desníveis reproduzido acima, nesta etapa temos duas subidas com alguma dificuldade: a primeira - do Alto da Lomba; a segunda - do Alto de Canicouva.

 

A subida pelos lugares da paróquia do Viso, percorrendo Fonte Outeiro de Penas leva-nos até ao Alto da Lomba. Contudo, apesar da sua dificuldade, foi acompanhada por uma espetacular vista sobre a imensa ria de Vigo, com a ponte de Rande ao longe, a ligar as duas margens entre Cabanas e Domayo, a foz do rio Alvedosa-Maceiras, quando se junta à ria e à sua bela ilha de San Simón (São Simão).

 

 

Depois de Tuimil começou a chover copiosamente. E daqui até Pontevedra a chuva nunca mais nos largou. Chegámos a Pontevedra completamente encharcados.

 

A partir do Eido da Raíña (e/ou Eido da Moura?), de “Soutoxuste e «Castriño», todos eles na parroquia do Viso”, inicia-se a descida para Setefontes na companhia de pinheiros e eucaliptos, que são os «reis e senhores» deste espaço, passando pelo Alto da Cabaleira, por Casteira e Xesteira. Nestas bandas a vista é também muito bonita, com uma esplêndida panorâmica sobre a ria de Vigo, à esquerda, salpicada de casas espalhadas pela encosta da montanha que bordeja a ria.

 

 

Contudo, o espetáculo acaba quando, finda a descida, vamos mais uma outra vez à E-550 e abeiramo-nos do asfalto que nos leva a Arcade.

 

 

Arcade, pertencente ao concello de Soutomaior, é uma localidade grande. Atravessámo-la pelas ruas dos Lameiriños e de Rosalía de Castro.

 

Neste percurso urbano aparecem-nos humildes e singelos motivos jacobeus como este:

 

 

Do património de Arcade consta a Igreja de São Salvador, templo barroco, do século XVIII, e a Igreja de Santiago de Arcade, uma referência jacobeia, de traça românica, do século XII, embora muito alterada por obras e reformas posteriores. Chovia bastante, e porque não estavam no nosso itinerário, não as visitámos. A 4 Km de Arcade pode-se visitar o Castelo de Soutomaior,

 

 

um paço/fortaleza dos mais ilustres da Galiza, herdeiro de uma torre defensiva do século XI. Teve seu esplendor no século XV com Pedro Álvarez de Soutomaior, poderoso senhor feudal que se destacou na repressão da revolta dos «irmandiños».

 

 (Um aspeto dos jardins do castelo/fortaleza)

 

Embora não tenhamos passado por ali, pelo seu interesse histórico e arquitetónico, deixa-se, porém, duas fotos tiradas noutra ocasião quando, andando por aquelas bandas, o fomos visitar.

 

 

4.4.- Pontesampaio

 

Atravessada a localidade de Arcade - terra famosa pelas melhores ostras da Galiza - e, descendo, vamos ao encontro da Ponte Sampaio.

 

(Tino dando início à travessia da ponte protegido conta a chuva) 

 

Voltamos, outra vez, ao nosso Guia, que sempre, como já dissemos, nos acompanhou durante o Caminho:

 

 

“É uma das mais famosas e bonitas pontes do Caminho Português, inaugurada em 1795 para se passar da ria de Vigo, na foz do rio Verdugo. Tem dez arcos de pedra com talha-mares de ambos os lados.

 

 (Ponte de Sampaio com o aglomerado de Pontesampaio em frente)

 

 (Ponte de Sampaio com os seus talhamares)

 

Em 1809 foi cenário de uma importante batalha na qual o povo armado travou as tropas napoleónicas comandadas pelo marechal/general Ney, durante a Guerra da Independência. As tropas de Ney chegaram à ponte vindas de Pontevedra a 6 de Junho com a intenção de reconquistar Vigo. Contudo, do outro lado, deram com um regimento popular formado por vizinhos de Cotobade, Ponte Caldelas e Caldevergazo e dirigido por alguns oficiais, clérigos e fidalgos que lhes fizeram frente. A 7 de Junho a artilharia francesa abriu potente fogo e a cavalaria procurou, por três vezes, ultrapassar o rio. Foram, porém, barrados os franceses em todas as três tentativas pelos fortins e trincheiras abertas pelos espanhóis do outro lado. O general/marechal Ney procurou então atravessar o rio em Ponte Caldelas, mas também aqui fracassou. No dia 9 de Junho retirou com todo o seu exército e a ocupação napoleónica na Galiza começo a declinar. Segundo o Presidente da Associação Provincial dos Heróis da Guerra da Independência 1809 - Pontevedra, este feito, na Ponte Sampaio, «é o episódio mais parecido com Waterloo na história de Espanha». Várias placas à entrada da ponte

 

 

 recordam este feito”.

 

 

Dois ou três quilómetros após a saída de Redondela, André, um peregrino solitário, acompanha-nos até Pontesampaio. A partir daqui, perdemo-lo de vista. Pessoa muito circunspeta e reservada. E de trato simples.

 

 

4.5.- De Pontesampaio ao Alto de Canicouva

 

A partir de Pontesampaio inicia-se a nossa segunda subida «de peso» que nos levará ao Alto de Canicouva.

 

O povoado ou bairro de Pontesampaio fica do outro lado da ponte, já pertencente ao «ayuntamiento» de Pontevedra.

 

 

Abandonámos Pontesampaio, por entre as íngremes ruelas da povoação, até que chegámos a Ponte Nova, por entre veigas e prados do lânguido rio Ulló.

 

Contudo nós não passámos pela Ponte Nova, seguimos um desvio. A razão é simples: a 22 de Outubro de 2006, uma cheia («riada» para os espanhóis) derrubou por completo o já frágil arco com uma passarola de madeira em escadas.

 

 

Estava, nesta data, a ponte ainda a ser reconstruída.

 

Reproduzimos aqui um texto da época, da La Voz de Galicia, no qual se relata o evento:

 

En la avenida de agua de aquel otoño se vieron afectados puentes como el de Pozo Negro, medieval, unido a la Casa da Muiñeira; el de Ponte Nova, que forma parte del Camino de Santiago Portugués; o el puente de O Río en Vilar. Sucumbieron también a la avenida de agua 18 molinos tradicionales que se distribuían por el cauce del Ulló, y de los que sólo cuatro quedaron en pie”.

 

Na imprensa regional da época, os autarcas e associações de vizinhos ao longo do rio Ulló não se cansaram de apelar às autoridades, quer a nível provincial (Pontevedra) quer do governo central, para os ajudarem a recuperar este valiosíssimo património cultural (arquitetónico e etnográfico) de grande valia. Eis, aqui, no que à Ponte Nova se refere, o que resultou da sua proposta de reconstrução e que foi objeto, inclusive, de uma  referência na conceituada revista espanhola do Colégio de Engenheiros de Caminhos, Canais e Portos, nº 92, 2011,pág. 38, (http://www.ciccp.es/revistait/portada/img_portada/issue_578/pdf/IT92%20Total.pdf , sítio da internet onde podemos acessar).

 

 (Ponte depois da cheia de 2006 e proposta de reposição do Caminho)

 

e o que foi executado:

 

(Uma perspetiva da atual ponte, já reconstruída)

 

 (Uma outra perspetiva da atual ponte, já reconstruída)

 

O Caminho, a partir daqui, e ao longo de Brea Vella de Canicouva e atá ao Cacheiro (cota de 215 m), pelo estado do seu trilho, e composição do mesmo, denuncia antiguidade.

 

 

E não estaremos muito longe da verdade ao considerarmos que o Caminho, neste troço, integrava a via romana XIX que de Braga ia até Astorga. A eventualmente confirmar-se, como tudo indica, o nosso ponto de vista, está a descoberta de dois miliários: um, em Arcade, dedicado a Caracala (ano 214); outro, no vale de Ulló, em memória de Adriano (ano 134). Durante a longa, íngreme e prolongada, mas aprazível subida, porque ladeada de carvalhos e pinheiros, encontrámos vestígios da calçada romana: nas pedras usadas não só no lajedo do Caminho que seguíamos como nos muros das «quintas» e propriedades confinantes com o troço do Caminho.

 

 

Não nos restam muitas dúvidas que as pedras dos muros foram obtidas pela calçada, ao longo dos tempos, pelos proprietários dos terrenos para as dividir de uma forma mais acessível e menos dispendiosa.

 

 

4.6.- Do Alto de Canicouca a Pontevedra

 

Transposto o Alto de Canicouva, e ao entrarmos em terrenos da paróquia de Figeirido, o Caminho dá lugar a campos de cultivo, pomares e vinhas, até aos arrabaldes de Pontevedra.

 

Percorridos sensivelmente 11, 12 quilómetros, e depois de ultrapassadas as povoações de Bergunde, Boullosa, Alcouce e Santa Comba de Bértola, passámos pela capela de Santa Marta,

 

 

uma singela ermida rural com um cruzeiro na porta, que data de 1617.

 

Estávamos já muito próximos de Pontevedra, a uns escassos três quilómetros e, pelo asfalto, passámos pelo lugar de O Pobo, Casal do Rio, Alcouce, Lusquiños e Marco para, logo de seguida, à nossa direita, darmos com o albergue de peregrinos de Pontevedra, designado «A Virgem Peregrina», logo à entrada da cidade.

 

 

4.7.- Pontevedra

 

De Redondela a Pontevedra demorámos quase quatro horas e meia, fazendo uma média de 4Km/hora.

 

Encharcados pela chuva abundante que caía,

 

 

dirigimo-nos, de imediato, ao albergue mas, àquela hora - sensivelmente meio-dia e meia - estava fechado! Só às 3 horas da tarde é que abria. Ficámos dececionados!

 

Não tivemos outro remédio senão, dirigindo-nos à «Taverna da Avoa» (Taverna da Avó), estabelecimento do outro lado da estrada, em frente ao albergue, propriedade de uma conterrânea transmontana, de Bragança, e, na casa de banho, exígua, procedermos à mudança de roupa!

 

Enxutos no corpo, mas vazios de estomago, aqui consolámo-nos com duas doses soberbas de «pulpo a la feria» e de uma boa dose de queijo de Arzua, acompanhadas de muita garrafa de cerveja.

 

 

O célebre vinho Alvariño ficou para o jantar...

 

No intervalo de uma aberta saímos da «Taverna da Avoa» para dar uma volta pelas redondezas. Aliás, aqui bem perto, numa pequena  praça onde se situa o Centro de Arte Jaime Trigo, num lugar bonito e muito aprazível,

 

 

demos com estas estas esculturas ao ar livre, do qual lhes deixámos aqui duas fotos:

 

(«Cabeza Amistosa», de Ramón Conde, 1999)

 

 

Com medo de mais uma «molha», ficámo-nos por aqui e pela estação de autocarros que fica à beira do albergue.

 

 

No edifício dos autocarros fica a loja «Coronel Tapioca». Entrámos nela para ver o que havia. O Tino comprou um impermeável e uma faca; eu comprei duas «toalhas de viagem» para caminheiros: uma, de banho e a outra, de rosto.

 

E tanto queríamos dar uma volta pela cidade!... O tempo de chuva «mandou-nos» de volta à «Taverna da Avoa» até que o albergue abrisse.

 

Logo que se aproximou a hora, dirigimo-nos para o albergue - aliás umas instalações bonitas e com ótimo aspeto - e,

 

 

como o tempo não estava propício a «aventuras», não saímos do albergue senão para jantar.

 

(Escultura em bronze com um tema bem jacobeu)

 

Tomado banho, posta a roupa a secar e cuidando das «burras» dos pés,

 

 

deitámo-nos um pouco a descansar, ouvindo a chuva a cair.

 

Pelas 19.45 horas, assistimos, no albergue, pela televisão, ao jogo de futebol entre Portugal e a Suiça (Euro 2008).

 

Depois do jantar viemos logo para o albergue e, até por volta das 23 horas, fiquei a ler umas páginas mais dos «Bichos», de Torga e a ouvir música ... celta, «por supuesto»! Até que a pouca chuva que entretanto ia caindo me ajudou a «enlevar» no sono, de uma assentada até ao outro dia...

 

 

Deixo agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta etapa.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].


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Segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português:- 1ª etapa - Valença do Minho-Redondela

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

1ª etapa:- Valença do Minho (Portugal) - Redondela (Galiza)

 

- 14. Junho.2008 -

 

 

 

1.- MAPA GERAL DO TRAÇADO DO CAMINHO

 

 

 

2.- TRAÇADO DA ETAPA

 

 

 

3.- DESNÍVEIS DA ETAPA

 

 

 

4.- DESCRIÇÃO SUCINTA DA ETAPA

 

4.1.- Saída de Valença do Minho e Tui

 

O pessoal do hotel onde ficámos alojados em Valença foi muito simpático: sabendo que, dali, iriamos, muito cedo, iniciar o Caminho, quando nos levantámos - às 5.45 horas da manhã - tinham-nos posto, àquela hora, a mesa do pequeno-almoço para não sairmos daquele estabelecimento com o estômago vazio.

 

Saídos do hotel e, entrando no exterior do perímetro da Fortaleza de Valença, eis o panorama que se abrange de Tui e do seu centro histórico:

 

 

Descendo em direção à Ponte Internacional rodo e ferroviária, deixámos a Fortaleza,

 

 

com o seu casario no meio, nomeadamente a Pousada de São Teotónico, que se avista deste lugar, para entrarmos na célebre e antiga Ponte de ferro que liga Valença do Minho a Tui.

 

 

O sol, nesta hora do dia, começava a despontar. Eram 6.10 horas da manhã quando atravessámos a Ponte e demos com o primeiro marco jacobeu que nos indicava a distância a percorrer, daquele lugar, até Santiago de Compostela - 115, 454 Km.

 

 

Pelo menos é assim que no «Diário», que pela primeira vez fiz ao longo dos Caminhos de Santiago, reza e que, nas partes que a esta reportagem interessam relatar, procurarei acompanhar.

 

Subimos ao cimo de Tui - e do seu centro histórico - com a altaneira Torre Sineira da Catedral.

 

 

Tui tem trechos antigos, típicos,

 

 

e medievais, bem assim monumentos que valem a pena ser visitados e fotografados: é a Praça do Concello; o Convento das Clarissas; a rua Tide; a rua Antero Rubín; O Seminário Conciliar e o Convento de Santo Domingo,

 

 

entre muitos outros.

 

Já quase à saída da cidade, esta fonte e lavadouro público

 

 

e o nicho com a imagem de São Telmo, padroeiro de Tui.

 

 

Não podemos deixar aqui de referir, pela sua importância arquitetónica e pela sua antiguidade, a Igreja e Convento de São Bartolomeu.

 

(Imagem de São Bartolomeu na fachada frontal da Igreja)

 

 

(Torre Sineira da Igreja de São Bartolomeu)

 

(Cruzeiro no Largo da Igreja)

  

(Traseira da Igreja de São Bartolomeu, em estilo românico)

 

4.2.- De Tui até ao Porriño

 

Deixámos a cidade de Tui com estas «singelas» alminhas» e,

 

 

logo de seguida, por um marco, somos informados que pisamos num troço que, no passado, foi a calçada romana que ligava Braga a Astorga (a via XIX, segundo o Itinerário Antonino),

 

 

passando por Santiago de Compostela.

 

Agora, depois de passado o velho burgo, e seguindo troços da antiga via romana XIX, a paisagem é tipicamente rural e de bonitos bosques. Em pouco tempo fomos ao encontro da Ponte da Veiga sobre o rio Louro,

 

 

de origem medieval; contudo, não a atravessámos, seguimos, pelo lado esquerdo, em frente, continuando por um bonito troço rodeado de carvalhos.

 

Percorrendo bosques, atravessando o casario de A Telleiras e Paredes, e partes da via romana XIX, fomos desembocar à capela (ou ermida) da Virgem do Caminho.

 

 

A partir daqui o asfalto marca mais a sua presença, com percursos e atravessamentos da estrada provincial (PO-342) e da autoestrada (AP-6) até que chegámos a um dos mais típicos e históricos lugares deste Caminho - a Ponte das Febres,

 

 

de apenas um arco singelo e com uma plataforma de madeira.

 

Qual a importância deste lugar? Segundo reza a história, foi aqui que São Telmo, patrono de Tui, foi atacado pela(s) febre(s) e ficou doente quando, em 1251, fazia o seu Caminho (peregrinação) até Santiago de Compostela. Levaram-no de regresso à cidade de Tui e ali faleceu. Neste local estão um marco, com dedicatória, e um cruzeiro a atestar o facto histórico que se acaba de relatar.

 

 

Aqui, eu e o meu companheiro Tino, fizemos uma pequena pausa não só para ler

 

(Dedicatória do marco alusivo a São Telmo)

 

como para «digerir» e assimilar a importância histórica deste lugar como para tirarmos umas fotos, comer uma barra de cereais e descansar um pouco à sombra das árvores que, aqui, ainda mais abrilhantam o lugar. Havia que aproveitar esta pausa pois muito asfalto estava à nossa espera.

 

Passámos pela aldeia de Magdalena e, seguindo por uma estrada sinuosa, desembocámos no Calvário da Madalena,

 

 

com cinco cruzeiros, até que chegámos a Ribadelouro, com a sua Igreja e o seu Centro Cultural.

 

Tino, um aficionado da natureza e da botânica, e de tudo quanto à ruralidade diga respeito, não se cansava de tirar fotografias aos mais pequenos pormenores e particularidades da mãe-natureza. Eu, um pouco mais urbano que ele, fiquei-me pelas formas (flores)

 

 

que mais me encheram os olhos, como esta bela «datura».

 

 

Orbenlle estava já próxima, com a sua ponte,

 

 

ou do pouco que ainda lhe resta e o seu rio.

 

 

A partir daqui, em pouco tempo, estávamos a atravessar uma enorme, extensa reta de asfalto, de quase três quilómetros de comprimento: era a área do Polígono Industrial de «As Gándaras», de Porriño, que nos levaria até ao seu centro urbano.

 

 

O progresso aqui «matou» a história, ou melhor, fez outra história bem diferente: em vez dos artesãos de antanho para nos venderem (ou arranjarem) as sandálias e as alpergatas bem assim os ferreiros e correeiros para «recauchutarem» as patas dos cavalos e mudarem os arreios já gastos das bestas, outra coisa não vemos senão uma enorme «maré» de outras «cavalgaduras», com outros e potentes «cavalos», a lembrar-nos que estamos noutros tempos, que a Idade Média já passou há uns bons séculos! E eu, «ruminando» por dentro, falando «com os meus botões», intimamente respondia: “aquilo a que chamamos hoje em dia progresso não é tudo! Fez-se (e continua a fazer-se) à custa de muita paz, bem-estar, utopicamente prometidos para a grande maioria das pessoas, e pouca qualidade de vida para a humanidade! A atestá-lo estão os dois grandes conflitos mundiais; a guerra fria; os constantes conflitos regionais, prenhes de genocídios e etnocídios, que a todos, individual e coletivamente, nos devem envergonhar como seres humanos. É certo que muitas coisas foram melhorando, mas que Homem estamos construindo quando uma economia, capitalista, assente na maximização do lucro, e reduzindo a grande maioria da humanidade a um simples objeto de compra e venda, simples mercadoria, no império do dinheiro, (que tem mais valor que a pessoa), que significado construímos para a nossa existência neste planeta? E falando de planeta, o que estamos a fazer, com o dito progresso, à mãe-natureza donde provimos?”

 

Eram estas as lucubrações que, ao longo daquele longo e enfastioso asfalto fazia. E, pisando por ele, «aviltado» pelo «progresso», refletia sobre a necessidade de um novo regresso às origens, à procura do que fomos - e somos - feitos, ao encontro da humanidade que algures, em algum canto ou esquina, nos esquecemos de cuidar. Humanidade que só tem e faz sentido nos precisos termos em que entendamos o papel fundamental da Natureza para o ser humano e a saibamos respeitar. Porque, para o género humano ela é a mãe, matriz, nicho básico e fundamental donde provimos!

 

Mal acabava estas minhas divagações interiores, uma voz a meu lado: “Toninho, vamos descansar aqui um bocadinho junto àquela capelinha e na sombra daquela relva; estou «lixado» dos pés; o asfalto deu cabo de mim e estou com «bolhas» nos pés; por isso, tenho de as tratar!”.

 

Como que desperto de um sonho que me levou para outro tempo, respondi, instintivamente, a meu sobrinho: “pois, Tino, vamos descansar um bocadinho e tratar desses pés”. Estávamos à entrada de cidade de Porriño.

 

Sentados à sombra, na relva, que rodeava aquela singela capela da Virgem da Guia,

 

 

Tino, com a perícia que lhe vem do conhecimento e trato com as «artes» e cuidados da saúde, «aliviou» as suas «burras» (bolhas)

 

 

enquanto eu descansava um pouco.

 

Comida uma peça de fruta por cada um, mochila às costas, preparámo-nos para atravessar a cidade, indo ao encontro do Chao das Pipas, subindo até Rúa (Mos).

 

Tino, entretanto, e perante o meu «cúmplice» silêncio, entra na capelinha, cuja porta se encontrava aberta, olha demoradamente para a talha e imagens sobre o seu altar

 

 

e, a um canto, onde se encontrava um «porta-velas» com algumas acesas, pega numa e acende-a.

 

 

Naturalmente não lhe «procurei» da(s) sua(s) «intenção(ões») pois cada qual tem as suas «devoções» e há que simplesmente respeitar. Creio ter-mas revelado, contudo, tratando-se de coisas tão pessoais e íntimas, minha curiosidade não deu para a(s) fixar. O foro íntimo para mim é sagrado!

 

Atravessámos o centro urbano de Porríño e, dessa travessia, ficam aqui três apontamentos.

 

O primeiro, o edifício dos Paços do Concelho (Ayuntamiento).

 

 

É da autoria do arquiteto local Antonio Palacios, edificado entre 1921 e 1924; trata-se, como alguns autores dizem, de um «pastiche» eclético, com uma grande torre «defensiva», no qual se destaca não só o seu pórtico e varandas neo-românicas como também incorpora elementos neogóticos, apresentando, desta feita, como as catedrais-fortaleza medievais, como a de Tui, tiveram influência e inspiração neste arquiteto porrinhense.

 

O segundo apontamento - o monumento ao arquiteto Palacios,

 

 

em frente ao edifício por si concebido, na rua que leva o seu nome, feito por Gorzgorz Polak.

 

O terceiro e último apontamento - a «pose» do meu companheiro Tino

 

 

numa das arcadas características de Porriño.

 

4.3.- De Porriño a Redondela

 

A partir de Porriño, como já referido, começámos a subir para Chao das Pipas e Rúa (Mos). Eu comecei a estugar mais um bocadinho o passo. Tino, e as suas «bolhas» começaram a ressentirem-se. Desacelerei um pouco o passo, passando ele a marcar o ritmo.

 

Chegados a Rúa (Mos),

 

 

uma ligeira paragem para ver a sua Igreja Matriz, ou de Santa Eulália (ou Baia),

 

 

do século XVI, com traça barroca, o seu cruzeiro

 

 

e, muito perto da Igreja, o Palácio de Mos (ou Pazo dos Marqueses de Mos),

 

 

um bonito exemplar da arquitetura civil galega do século XVII.

 

Pensávamos que aqui acabava a subida mas ainda havia um pouco mais para trepar. Subimos até ao monte de Santiago de Antas, com uma ermida dedicada a Santiago Cavaleiro e, depois de passarmos pelo «singular» Cruzeiro dos Cavaleiros,

 

 

policromado, do século XVIII, deparamo-nos com um marco de pedra alusivo ao Caminho Português

 

 

bem assim à via romana XIX que por aqui passava. A nossa subida estava, aqui, praticamente realizada, mesmo junto à capela designada de Santiaguinho.

 

Mais à frente passámos por um miliário da via XIX, de Vilar-Guizán-Louredo (?).

 

 

A partir daqui entrámos no concelho de Redondela. E começámos a encetar uma entediosa descida até Redondela, por asfalto. Conforme «diz» o meu «Diário», a descida era muito acentuada e senti alguma dificuldade, tanto mais que sentia já ter feito uma ou duas «bolhas» nos pés e, por outro lado, o cajado que levava - que me foi dado por meu filhote Tópê no último Natal - fez-me duas «burras» nos dedos da mão esquerda.

 

Ao longe, na descida, avistava-se a Ria de Vigo.

 

 

Sensivelmente a um quilómetro de Redondela, comecei a sentir cansaço mas, com a perspetiva de Redondela já à nossa frente, esta sensação foi-se lentamente desvanecendo.

 

Entrámos em Redondela pelo Convento de Vilavella - antiga fundação de 1554,

 

 

no qual residiam freiras de São Lourenço Justiniano, mais conhecidas por «justinianas» -, passámos pela Casa do Concello

 

 

e pela rua Pai Crespo e, logo de seguida, tínhamos o albergue à nossa frente, um edifício mais conhecido pela Casa da Torre, na Praça da Torre.

 

 

Tratadas as questões burocráticas com a nossa estadia no albergue, fomos tomar banho e descansar um bocado nestas ótimas instalações.

 

 

Depois de um repouso de três quartos de hora, de uma etapa dura em comprimento, saímos do albergue para irmos dar uma volta pelo centro urbano.

 

Fomos desembocar na Praça José Figueiroa.

 

 

Bebemos umas «cañas», acompanhadas de umas «tapas» e, numa das esplanadas da Praça, estivemos a ver o jogo de futebol entre a Espanha e a Suécia (Euro 2008).

 

Depois do jogo de futebol, fomos fazer compras para comermos à noite no albergue.

 

Depois do jantar não saímos mais. Cada um escreveu as suas «notas» do dia e, antes de dormir, li umas poucas páginas dos «Bichos», de Miguel Torga, e ouvi um pouco de música do album «El Bosco», de Amistades Peligrosas.

 

A partir das 10 horas da noite não dei mais conta do tempo a passar até que, de madrugada, só acordado por um ruído maior no rio que passava ao lado do albergue e por uma chuva intensa que caía.

 

Deixo agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta etapa.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].

 

(A fada e o dragão, de Xaime Quesada)

[Monumento dedicado aos poetas, cantores e trovadores da Ria de Vigo, Martín Codax, Pero Meogo, Mendiño e Paio Gomes Xariño]

 


publicado por andanhos às 15:14
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Terça-feira, 4 de Fevereiro de 2014

Gallaecia:- Pelos Caminhos de Santiago na Galiza - Caminho (Central) Português (Valença do Minho)

 

 

CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS DE SANTIAGO

 

- 13. Junho. 2008 -

 

VALENÇA DO MINHO

 

- ÚLTIMO «POSTO AVANÇADO» DO CAMINHO (CENTRAL) PORTUGUÊS EM TERRAS LUSAS -

(Ou como de uma Introdução ao Caminho nos «perdemos» pelos «campos» das cidades)

 

 

PÁTRIA

 

Soube a definição na minha infância.

Mas o tempo apagou

As linhas que no mapa da memória

A mestra palmatória

Desenhou.

 

Hoje

Sei apenas gostar

Duma nesga de terra

Debruada de mar

 

Portugal, Miguel Torga

 

 I

 

Foi a primeira vez que me aventurei numa «empreitada» desta natureza sem os meus companheiros habituais das caminhadas - Fábio, e seu filho, Mitok.

 

Meu sobrinho Tino, também amante das caminhadas, aceitou o desafio que lhe fiz e acompanhou-me em toda esta aventura.

 

A «logística» para chegar a Tui - local de início que tínhamos escolhido para fazermos este Caminho - esteve assente na «boleia» que minha irmã Jeka nos deu. Minha Ni acompanhou-nos também de Chaves até Tui.

 

Todavia, quando pretendíamos pernoitar no albergue de peregrinos de Tui, e depois de andarmos bastante tempo à procura da albergueira, passado quase hora e meia, lá apareceu ela. E com olhar de poucos amigos, nada simpática, recusou-nos a estadia. Dizia que o albergue era para aqueles que «já vinham de Caminho»! É certo que fomos sinceros quando lhe dissemos que era ali (em Tui) que iríamos iniciar o Caminho. Mas, dada a hora do dia (dezoito e trinta minutos) também era bem verdade que poucos (ou mesmo nenhum peregrino ou peregrina), neste dia, se «encontrava em trânsito». Sinceramente que me apeteceu «dirigir-lhes alguns mimos» mas, como levávamos senhoras connosco, deixámos a dita entregue à sua pacatez do «dolce far niente», deixando «pela lama» o bom nome que deu do albergue deste Caminho.

 

Estugado o passo em Tui, percorrendo uma ou outra rua e observado alguns trechos urbanos,

 

 

depois de uma visita à Catedral, - um templo com aparência de fortaleza e cuja construção começou em 1120, durante o reinado de D. Afonso IX, e que, pese embora as ampliações e reformas posteriores, mantém a sua traça românica,

 

(Vista do Largo dos «Paços do Concelho» e do Museu Diocesano)

 

 (Vista do interior do claustro)

 

quer no interior quer no exterior,

 

(A Virgem Maria alimentando o Menino - no interior da Catedral)

 

e, na sua fachada principal, apresenta um pórtico gótico,

 

(Fachada principal vista da Torre da Catedral)

 

 (Pormenor da fachada principal)

 

 (Porta da fachada principal)

 

uma das primeiras obras neste estilo que em Espanha se fizeram - regressámos às terras lusas de Valença do Minho.

 

Não deixámos Tui sem, do alto da torre da Catedral, darmos uma vista de olhos a Valença do Minho que nos fica em frente.

 

 

Chegadosa Valença, ainda demos uma espreitadela ao albergue de São Teotónio, na Avenidados Bombeiros Voluntários,

 

 

mas depressa desistimos de aqui pernoitar.

 

Valença, como terra fronteiriça que é, tem uma atividade comercial assinalável, particularmente nas ruas do seu centro histórico, dentro das suas muralhas do Forte. Não demorou muito, assim, que, da boca de uma das senhoras, provavelmente aquiescendo com a vontade da outra, viesse a sugestão: e se ficássemos aqui hoje e fossemos para Chaves amanhã?

 

E, meu dito, meu feito. Fomos ao encontro de um modesto hotel nas imediações do Forte para ali os quatro pernoitarmos e, de seguida, fomos dar uma volta pelo centro histórico de Valença do Minho.

 

Tal como diz o Guia «El Camiño de Santiago Portugués», de El País/Aguilar: “Valença do Minho é uma cidade amuralhada e uma das mais interessantes do Norte de Portugal”. As suas fortificações são uma relíquia dos séculos XVII e XVIII, que conservam intacta a cidade antiga intramuros e todas as muralhas da cidadela. Ainda segundo aquele Guia, a fundação da cidade, localizada no topo de dois outeiros, deve-se, possivelmente, às ordens do general/pretor Décio Juno Bruto, o Galaico, que aqui alojou os soldados eméritos (reformados) das várias legiões que lutaram contra os galaicos e os lusitanos.

 

Os reis portugueses, D. Sancho I e D. Afonso II, repovoaram esta localidade e amuralharam-na.

 

Valença do Minho naquele tempo chamava-se Contrasta, nome que lhe advinha do facto de se opor, na linha do rio Minho, à outra que lhe estava em frente - Tui.

 

As lutas entre castelhanos-leoneses e portugueses reduziram-na a escombros em 1212, ano em que Afonso IX, o leonês, a tomou como sua.

 

Só 172 anos depois daquela data é que voltou a mãos portuguesas, graças ao ataque das tropas do primeiro rei da nossa segunda dinastia - D. João I. A cidadela ou Fortaleza de Valença do Minho, conforme planta e foto aérea que se mostram:

 

(Planta da Fortaleza de Valença do Minho)

 

(Foto aérea com a designação dos baluartes e revelins)

 

é formada por dois polígonos - a Praça, ou Recinto Magistral, e a Obra Coroa, ou Coroada - separados por um fosso. Possui dez baluartes e dois meios baluartes (ou revelins). Os dois recintos estão ligados pelas Portas do Meio, com ponte fixa.

 

Continuando «na peugada» do Guia que vimos referindo, desde o Largo da Trapicheira pode-se subir à cidadela e entrar pelas Portas do Sol, as mesmas por onde entraram as tropas napoleónicas no assalto de 1807, depois de a destruírem com dinamite.

 

A cidadela de Valença tem mais três portas: a Coroada ou principal; a de Gabiarra e a da Fonte da Vila.

 

A porta é um túnel abobadado que atravessa a muralha e que, neste ponto, tem 20 metros de espessura e entre 12 a 15 de altura, permitindo-se, aqui, apreciar a solidez desta soberba estrutura defensiva formada por dois polígonos irregulares de muros com muitos ângulos.

 

Um fosso, de trinta passos, rodeia a fortaleza.

 

A Porta do Sol comunica com a Praça da República, o principal centro urbano da cidade velha, à esquerda estão as Portas do Meio,

 

 

que separam ambos os recintos amuralhados.

 

Contudo, nós entramos ma Fortaleza pela Porta da Coroada.

 

No interior das suas muralhas, podemos contemplar a Igreja de Santo Estêvão,

 

que tem em frente um miliário pertencente à via romana de Bracara a Tui, e que passava por este então castro.

 

Neste centro histórico amuralhado podemos ver algumas casas brasonadas, 

 

(A fonte do centro do polígono «A Praça» ou «Recinto Magistral»)

 

(A Casa Azul)
dos séculos XVI e XVII, e edifícios com fachadas de azulejos. Muitas dessas casas podemos vê-las na Rua Direita, a rua principal, cheia de lojas de comércio

 

- fundamentalmente tecidos e roupa - para os turistas e «nuestros hermanos».

 

(Aspeto de uma das lojas)

 

Não nos podemos esquecer do edifício-sede do poder local de Valença

 

 

e do respetivo pormenor da cimeira da sua fachada principal.

 

 

No extremo noroeste, em frente ao rio Minho, o Baluarte do Socorro, com a Pousada de São Teotónio,

 

um interessante estabelecimento da rede de «Pousadas de Portugal».

(Pousada de São Teotónio à noite)

 

 (Um pormenor do interior da Pousada)

 

 (Logo da Pousada de São Teotónio)

 

Perto da Pousada (de São Teotónio) - que leva o nome do primeiro santo português, estando sua estátua logo no início da artéria principal do polígono da Coroada,

 

 

onde, à sua traseira, se encontra uma igreja

 

 

com uns bonitos retábulos.

 

(Vista geral dos retábulos do altar-mor)

(Pormenor)

 

A Pousada tem vistas para o rio Minho e para a Ponte Internacional de ferro.

 

 

A ponte é da autoria do engenheiro espanhol Pelayo Mancebo y Águeda. 

 

(Um aspeto da ponte internacional de ferro) 

 

Perto da Pousada podemos, ali perto, ver a Igreja Matriz de Santa Maria dos Anjos,

 

 

o templo mais antigo da cidade que tem, no tímpano da sua fachada, a data de 1276.

 

Diz-nos ainda o Guia «El Camiño de Santiago Portugués» - e não vale a pena contestar - que Valença do Minho viveu esquecida nesta esquina do Norte de Portugal, até que, em 1886, se inaugurou a Ponte Internacional sobre o rio Minho, com uma dupla finalidade - para o transporte rodoviário e ferroviário.

 

II

 

Valença do Minho, juntamente com Tui, constituem o que hoje, sob o patrocínio da União Europeia, uma eurocidade, com, aproximadamente, 40 mil habitantes. A sua constituição, pelo que julgo, é recente, mais ainda que uma outra no Norte de Portugal, cá para as nossas bandas - Chaves - Verín.

 

Não tenho nada contra estas iniciativas, gizadas e ditadas pelos tecnocratas de Bruxelas, no intuito de pretenderem ver desenvolvidas certas zonas fronteiriças.

 

Sei do empenho dos políticos locais no sentido de, a partir destas iniciativas, concitarem meios financeiros para levar a cabo programas e projetos para a realização de obras e consecução de ações de que as suas localidades carecem.

 

Pelo meio temos uma Comunidade de Trabalho, designada de Galiza e Norte de Portugal, que «giza», acompanha e coordena os diferentes programas e recursos financeiros postos aos dispor das diferentes comunidades.

 

Creio estarem representadas nesta Comunidade de Trabalho os elementos/responsáveis dos diferentes setores de atividade económica, social e cultural destas cidades (e concelhos).

 

Sabe-se muito pouco, pela Comunicação Social, do que se passa nessa Comunidade de Trabalho Galiza - Norte de Portugal.

 

E, salvo melhor opinião, ainda menos se sabe do diálogo que os respetivos representantes institucionais têm com os seus representados nas diferentes «agremiações»! Dá a sensação que tudo se passa como de instituições secretas se tratassem. Mas, talvez, esteja equivocado. É que a nossa Comunicação Social dá tanto interesse às notícias sensacionalistas, com escândalos e catástrofes à cabeça, que não lhes sobra tempo para aquilo que interessa ao dia-à-dia das pessoas e das suas terras. Tristes tempos estes por que passamos! E é pena!

 

Na verdade, não basta apenas fazer obras e levar a cabo ações, materiais e imateriais, de que se necessita para a regeneração, conservação e revitalização urbana dos nossos respetivos aglomerados. Não nos podemos esquecer que têm (devem) ser desejadas e partilhadas. Para que todos, e cada um dos seus residentes, vejam que elas têm algum significado e, por conseguinte, fazem algum sentido!

 

A qualidade de vida de um determinado espaço/território não está apenas nas obras que nele se façam, mas na «vida» que os mesmos, concreta e desejadamente, tragam para os seus residentes. Daí, tal como ainda dizíamos numa outra local da blogosfera flaviense, mais do que «ter coisas» na nossa terra, o mais importante é o significado que essas mesmas coisas têm para nós e o que nós (residentes e população que desejamos que nos visitem) fazemos com elas.

Sendo Valença - Tui e Chaves - Verín dois espaços transfronteiriços por excelência, não vejo, pelo menos no que toca a este último, dinamismo suficiente, de uma significativa fatia da sua população urbana - os seus comerciantes - capaz de catapultar a cidade a um nível e patamar de qualidade, quer em termos económicos, quer urbanos, quer sociais, quer culturais e turísticos, digno de outras «eras»!

 

(Um outro pormenor da Pousada de São Teotónio)

 

É bem certo - e aqui estamos de acordo - das dificuldades e do «estrago» que as grandes superfícies, produto acabado de uma sociedade em que o neoliberalismo e o monopolismo, sob a enorme proteção dos governos estatais, imperam, de uma forma desenfreada, vieram trazer ao dito «comércio tradicional». Mas... o que fez ou tem feito o comércio flaviense?

 

Na minha modesta opinião, durante muito tempo andámos com o «credo na boca» e com o discurso do coitadinho! E não se cuidou de criar «massa crítica» suficiente para fazer face aos novos desafios e levar por diante ações prementes, e inovadoras, que tanto nos faziam falta para que hoje tivéssemos uma cidade viva, fazendo, também com o setor comercial (interno e transfronteiriço), uma aposta grande e decisiva na dinamização urbana e cultural. Pela moderna organização do jeito de fazer negócio; pelo arranjo interior das lojas e montras; pelo aspeto das suas fachadas; pela criação de novos produtos e inovação dos existentes e tradicionais; pela sua «pertença» à rua onde se localiza o negócio; pela efetiva partilha e dinamização do espaço público ao serviço dos residentes, visitantes e turistas; enfim, pela assunção do espaço urbano como uma coisa pública, de todos e de cada um de nós. Pondo artistas das mais diferentes proveniências - desde artes gráficas (e design), artes plásticas, arquitetura (de edifícios e paisagem) - connosco, a «lutar» pela (re)criação de um espaço de vida, de qualidade de vida para todos quanto nele habitam e nos visitam.

 

Se aos políticos que temos - certamente habilitados em tantas áreas - lhes falta a sensibilidade para o diálogo contínuo e profícuo com o comum dos flavienses, em particular os seus comerciantes - ao estabelecerem estruturas de audição permanente e monitorização com este importante setor da cidade, sem «jugo» algum e com verdadeira e autêntica independência de ambas as partes - compete então a este setor «acordar» e organizar-se de uma forma autenticamente autónoma e encontrar o(s) caminho(s) e as estratégias (inovadoras) que ponham de novo Chaves no mapa de Portugal. Para que não haja espetáculos tão deprimentes como aquele que ainda recentemente foi projetado pelo país fora ao pé de uma estrutura tão emblemática da nossa cidade!

 

Nos tempos que correm, em Valença do Minho, fala-se da promoção da sua Fortaleza a Património da Humanidade pela UNESCO. Aqui e ali, de vez em quando, «ouvem-se vozes», de alguns flavienses, em quererem promover a sua cidade, ou alguns dos seus «trechos», a esse património.

 

Da vontade, deste querer, nada temos a opor. Desde que não seja, uma vez mais, com a sua propositura e eventual classificação, apenas um ensejo para ir buscar verbas para obras de que carecemos - e que, em boa verdade - tanto nos fazem falta.

 

Só que nunca nos podemos esquecer que um património para ser considerando Património da Humanidade, independentemente da propositura e dos requisitos específicos, tem de possuir um significado e valor extraordinário. Que lhe advém da sua valia estética - artística e patrimonial - e de ser e representar uma cultura viva, própria, específica de um povo que o assume e nele se revê «orgulhosamente» como muito seu.

 

Que o orgulho que temos pela nossa terra (e pela nossa história) nos leve a bem saber amá-la. Passando das palavras aos atos. Arregaçando mangas. E com todos «implicados neste trabalho» - a (re)construção da nossa polis face aos desafios que o século XXI nos coloca.

 

 

 


publicado por andanhos às 12:48
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