Domingo, 27 de Outubro de 2013

Gallaecia - Por terras da Gallaecia:-- Reflexões à volta da arte urbana de Bragança

 

REFLEXÕES SUSCITADAS À VOLTA DA ARTE URBANA EM BRAGANÇA

 

 

"onde estiver um transmontano está qualquer coisa de específico, de irredutível.

E porquê? porque, mesmo transplantado, ele ressuma a seiva de onde brotou.

Corre lhe nas veias a força que recebeu dos penhascos, hemoglobina que nunca se descora."

 

Miguel Torga

 

 

(Nadir Afonso - As cidades e os seres)

 

No passado mês de Setembro estive três dias em Bragança. Já há muito tempo que era meu propósito dar um salto ao Museu Abade Baçal - pois lá nunca tinha ido - e, na volta, aproveitar e dar uma vista de olhos à exposição de Graça Morais - «Uma Antologia - Da Terra ao Mar, pintura e desenho (1990-2013)», no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais.

 

Fiquei deveras impressionado com a cidade. Alargou-se. Cresceu. E, embora para lá dos confins, nota-se que tem uma certa vitalidade e dinamismo. Fundamentalmente em quatro áreas fundamentais para uma cidade que se quer posicionar na vanguarda das cidades médias modernas, acolhedoras e com atratividade:

 

  • No cuidar do seu Centro Histórico, tratando das suas infraestruturas, fachadas e recuperação do seu património histórico, pondo-o ao serviço das funções mais nobres de uma cidade como seja a área da cultura;
  • No alargamento do perímetro urbano, saber incentivar os proprietários e investidores para a necessidade de uma cuidada arquitetura dos edifícios a construir, contribuindo não só para a boa qualidade da habitação como para a criação de uma cidade bela, agradável à vista, apelando a nela viver;
  • No criar e ampliar os espaços verdes da cidade, transformando o espaço público verde, urbano, num verdadeiro jardim, dotado de infraestruturas capazes de os transformarem em espaços de convívio e lazer comunitários, verdadeiras praças públicas, «agoras», incentivadoras da realização e partilha de atividades próprias de cada bairro, contribuindo para a construção de uma nova identidade da cidade;
  • Os centros, histórico e residenciais, e zonas verdes, devem ser palco da presença viva da história, dos costumes e tradições do território onde a cidade se insere. Uma cidade é viva quando sabe honrar o seu passado nas figuras dos seus antepassados, quer sejam pessoas ilustres, quer gente anónima que, ao longo das gerações, moldaram, deram vida, e mantiveram de pé, com o seu trabalho, as atividades necessárias para uma localidade ou cidade perdurar e persistir. É com essa história e tradições que as cidades e as comunidades encontram a sua própria identidade e, por isso mesmo, ali vão encontrar as forças e o lenitivo para a construção do futuro. Porque, sem essa memória, não se (re) constrói cidade, não se constroem comunidades. Sem essa memória, que deve estar ativa, e sempre renovada, as cidades não evidenciam personalidade própria.

 

Foi, por isso, com algum agrado, pese embora o mau tempo que esteve, que me dei conta das diferentes atividades que em Bragança estavam a ser levadas a cabo, nos respetivos equipamentos que se construíram e reconstruiram ou remodelaram para o efeito.

 

O seu centro histórico, mesmo a sua cidadela, não se encontra em agonia. Vê-se que «mexe». Mas o que mais me encantou não foi apenas o seu centro histórico bem arranjado e o dinamismo das suas instituições. Foi a nova cidade que, ao longo destes últimos anos, tem vindo a ser construída.

 

É certo que nem tudo é um mar de rosas. Contudo, aquilo que vi, agradou-me.

 

Em especial o tratamento do espaço público. Nele se pode certificar que houve suficiente sensibilidade de com ele se tecer cidade e fazer história, pondo nele a História a falar.

 

Vou, muito sucintamente, apresentar alguns exemplos consubstanciados naquilo a que lhe chamaria «arte pública urbana»:

 

1.- ROTUNDA DO LAVRADOR

 

Numa das extremidades da Avenida das Forças Armadas surge-nos uma rotunda. Nela se pode ver um conjunto de elementos escultóricos, realizados, ou inaugurados em 2001, obra da autoria de Rui Anahory, e cuja finalidade é homenagear o lavrador transmontano.

 

(Perspetiva geral)

 

(Pormenor nº 1)

 

(Pormenor nº 2)

 

2.- ROTUNDA EM HOMENAGEM À POPULAÇÃO RURAL DO CONCELHO

 

Sobre meio arco, numa rotunda, na Avenida de Zamora, pode-se observar um conjunto escultórico, da autoria de Barata Feyo, inaugurado em 2005. Há quem lhe chame também a Rotunda do Sabor, dedicada aos agricultores do concelho.

 

(Perspetiva geral)

 

(Pormenor nº 1) 

 

(Pormenor nº 2) 

 

 

3.- ROTUNDA DO CÃO DE GADO E PASTOR TRANSMONTANO

 

Trata-se de um conjunto escultórico inaugurado em 2008, numa rotunda, da autoria de Manuel Barroco, sito na Avenida Abade de Baçal, e destina-se a homenagear a raça de cão de gado transmontano e o pastor.

 

(Perspetiva geral nº 1)

 

(Perspetiva geral nº 2) 

 

(Pormenor nº 1) 

 

(Pormenor nº 2) 

 

(Pormenor nº 3)
 

 

4.- ROTUNDA DO CAÇADOR

 

Conjunto escultórico, também numa rotunda, inaugurado em 10 de Junho de 2011, por Edson Luís de Oliveira, Presidente do Município de Bragança do Pará, Brasil. O autor do projeto é Hélder de Carvalho.

  

(Perspetiva geral)

 

(Pormenor nº 1)
 
 
(Pormenor nº 2)
 
 
(Pormenor nº 3)
 

 

5.- ROTUNDA DAS CANTARIAS

 

Elemento escultórico, sito numa rotunda, inaugurado em 2000. É da autoria de António Nobre. Está situado na Avenida das Cantarias.

 

 

 

6.- HOMENAGEM AO COMÉRCIO TRADICIONAL

 

Elemento escultórico da autoria de Teixeira de Sousa. Foi inaugurado em 2004. Está situado na Praça de Camões.

 

 

 

7.- HOMENAGEM À INDÚSTRIA DA SEDA

 

Escultura da autoria de José Rodrigues, inaugurada em 2004. Está situada no Largo Lucien Guerch.


 

 

 

8.- HOMENAGEM AO AZEITE

 

Trata-se de um engenho, pertencente a uma antiga azenha. Não pude precisar a sua correta localização.

 

 

 

9.- ROTUNDA DOS CARETOS (OU DOS MASCARADOS)

 

Conjunto escultórico sito na Praça que faz confluência com a Avenida da Cidade de Leon e a das Forças Armadas. Foi inaugurado em 2009. A autoria do projeto é de Manuel Barroso.

 

(Perspetiva parcial)

 

(Pormenor nº 1)
 
 
(Pormenor nº 2)
 

 

10.- HOMENAGEM AO 25 DE ABRIL

 

Elemento escultórico sito numa rotunda da Avenida das Forças Armadas. Foi inaugurado em 2005. O seu autor é José Rodrigues.

 

 

(Perspetiva nº 1)

 

 

(Perspetiva nº 2)

 

 

11.- BUSTO DE HUMBERTO DELGADO

 

Situado no final da Avenida Humberto Delgado, foi inaugurado em 2004. É da autoria de Hélder Rodrigues.

 

 

 

12.- HOMENAGEM A PAULO QUINTELA

 

Elemento escultórico inaugurado em 2005 por ocasião do centenário do nascimento do Professor Paulo Quintela. É da autoria de Hélder de Carvalho e está instalado na Escola Básica 2,3 - Paulo Quintela.

 

 

 

13.- BUSTO DO PROFESSOR GONÇALVES RODRIGUES

 

Elemento escultórico em homenagem ao Professor Gonçalves Rodrigues. É da autoria de António Nobre. Foi inaugurado em 2001. Está situado na rotunda em frente ao Instituto Superior de Línguas e Administração.

 

 

 

 

14.- HOMENAGEM AO CÓNEGO ADELINO PAES

 

Elemento escultórico situado no Centro Social e Paroquial de Santo Condestável, junto à igreja com o mesmo nome, em homenagem ao Cónego Adelino Paes. Foi inaugurado em 2004. O projeto é da autoria de António Nobre.

 

 

 

 

15.- HOMENAGEM AO BOMBEIRO

 

Desconheço a sua localização, data de inauguração e seu autor.

 

 

 

 

16.- ESCULTURA AO URBANISMO E PLANEAMENTO

 

Elemento escultórico situado em frente do edifício da Câmara Municipal de Bragança, na Avenida Afonso V. Foi inaugurado em 1999. É da autoria de António Nobre.

 

 

 

17.- HOMENAGEM AO CARTEIRO

 

Conjunto escultórico da autoria de Hélder Carvalho, inaugurado em 25 de Abril de 2002. Fica em frente ao edifício dos CTT, no Largo dos Correios.

 

(Perspetiva geral)

 

 

(Pormenor)

  

 

18.- ELEMENTO ESCULTÓRICO NO PARQUE DO EIXO ATLÂNTICO

 

Elemento escultórico inaugurado em 2007. É da autoria de Eurico Pires. Está situado no Parque do Eixo Atlântico.

 

 

 

19.- IMAGENS REFLETIDAS

 

Elementos escultóricos sitos nos Jardim António José de Almeida. É da autoria de José Pedro Croft. Foi inaugurado em 2003.

 

 

 

 

 

19.- HOMENAGEM AO PILOTO AVIADOR POÇAS

 

Elemento escultório inaugurado em 2011. É da autoria de Hélder de Carvalho.

  

 

 

 

20.- HOMENAGEM AO CABO DE ARTILHARIA DA MARINHA - ANÍBAL JARDINO

 

Conjunto escultórico situado no Parque do Eixo Atlântico. Foi inaugurado em 2004. É da autoria de António Nobre.

 

(Perspetiva geral)

 

 

(Pormenor)

 

 

21.- ESCULTURA NA CICLOVIA DO (RIO) FERVENÇA

 

O conjunto escultórico, sito na ciclovia do Fervença, é acompanhado com os seguintes dizeres de C. G. Jacobi (1804-1851): “O fim último da ciência é a honra do espírito humano”.

 

Foi inaugurado a 24 de Junho de 2011 pelo Diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência, António Coutinho.

 

 

 

22.- PAINEIS DE AZULEJOS

    

 1.- Painel alusivo ao 25 de Abril (Arq. Manuel Ferreira - 2000)

                     

 Está situado na Avenida Abade de Baçal.

 

 

 

2.- Painéis alusivos ao tema - Homem-Terra-Animal (António Nobre - 2004)

                    

 Estão situados na Sala de Atos do Município, Teatro Municipal.

 

(Painel nº 1)

 

 

(Painel nº 2)

 

3.- Painel alusivo ao mundo vegetal e animal (Graça Morais - 2002)

                     

Está situado na Sala de Atos do Município, Teatro Municipal.

 

 

Com certeza que outros mais elementos de arte se encontrarão espalhados pela cidade de Bragança. Não foi minha pretensão ser exaustivo ou sequer completo. Resulta de uma amostra proveniente das minhas deambulações pela cidade.

 

Essa tarefa deve ser cumprida pelo respetivo Município, pondo ao dispor dos seus munícipes e visitantes ou turistas de um opúsculo referente aos elementos de arte urbana na cidade e, porventura também, no concelho.

 

Tudo isto me serviu de contraponto e reflexão. Porque, quando olho para a cidade, banhada pelo Tâmega, em que me é dado viver, em certo sentido, e de certa forma, um sentimento de tristeza - e, porque não dizê-lo, também de culpa - me invade.

 

Temos uma cidade linda. E, como venho já repetindo amiúdas vezes, cheia de História e rica de Património. Que infelizmente ainda não o soubemos devidamente valorizar.

 

Dá-me a sensação que continuamos apenas a viver com as velhas glórias do passado, ainda por cima pouco conhecidas pelas gerações mais novas. E pouco, ou muito pouco, temos feito para tornar esta rica cidade muito mais linda. E com vida. Que não apenas aquela que os jovens vivenciam até altas horas da noite, muitas vezes de forma alienante, em bares ou discotecas.

 

Falta-nos muito mais espaço público que, ao longo destes anos, não o soubemos adquirir e embelezar. Gastaram-se rios de dinheiro em parque(s) industrial (ais) à custa do erário público para quê? Muito possivelmente, não para concitar o aparecimento de indústrias, outrossim, para, uma vez mais, tal como aconteceu com uma das maiores reservas agrícolas nacionais, como a nossa Veiga, promover-se a especulação imobiliária, à custa dos nossos impostos.

 

Pese embora termos, durante doze anos, como um dos responsáveis cimeiros na vereação camarária, um arquiteto paisagista!...

 

Esperemos que nesta nova fase de exercício do poder, e com outras responsabilidades, não se esqueça do que aprendeu nos bancos da Universidade. E que seja capaz de propiciar o aparecimento de verdadeiros espaços verdes noutros locais que não só os que estão adjacentes ao Tâmega, que devem ser embelezados. E, com a ativa participação dos flavienses, que sejam capazes de contar as nossas histórias ou de nos relembrar a nossa História. História e histórias de muitos flavienses, ilustres e desconhecidos. Todos aqueles que ao longo do tempo fizeram o que nós somos. Contando, e porque não, e principalmente, com a nossa diáspora. Filhas e filhos que saíram deste berço mas que nunca enjeitaram o terrunho.

 

Espaços que sejam utilizados para convívio e partilha. Fazendo deles palcos de outras histórias. Para que possam contar História. Para que não surjam jamais histórias tristes como aquelas que estão ligadas ao novo Jardim das Freiras e ao novo Jardim Público.

 

Necessitamos de um novo «caldo». De recordar e reviver histórias que andam nesta e naquela boca. Em muitas bocas. Mas que precisam de ser apropriadas por todos os flavienses. Integrando, e atualizando, o seu reportório. Porque, uma vez saídas da memória, ajudar-nos-ão a cimentar mais forte o nosso sentido de pertença a este lugar, a esta cidade, aprofundando, assim, a nossa própria identidade.

 

Sem este exercício, que os espaços públicos propiciam, lentamente vamos perdendo a consciência da terra que fomos e somos. Da cidade que queremos ser.

 

Sem aprofundamento do que nós somos, pela revisitação ao passado, jamais saberemos construir um futuro que a todos nos orgulhe!

 

Seria injusto se não reconhecesse que, ao longo destes anos todos, não se fizeram coisas. Contudo, sem uma estratégia definida. Sem uma ideia ou desígnio explicito mobilizador. Que nos apele e convoque para a construção de um outro futuro.

 

Muitas vezes fico com a sensação que os flavienses, tal como aconteceu com a nobreza do passado, pararam, ficaram-se na contemplação dos seus feitos e das suas velhas glórias, proferindo discursos inflamados sobre a sua gesta, esquecendo-se dos trabalhos da construção do dia-a-dia.

 

E, quando, acordarmos, vamo-nos dar conta que, afinal, somos «reis» ...contudo, sem coroa!...

 

(Nadir Afonso - A cidade longuinqua)

 


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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

Gallaecia - O Douro dos meus encantos:- Fui ao Douro à vindima

 
 

FUI AO DOURO ÀS VINDIMAS

  

14, 15 e 16 de Outubro de 2013

 

 

FUI AO DOURO ÀS VINDIMAS

 

Fui ao Douro as vindimas

 Não achei que vindimar

 Vindimaram-me as costelas

 Foi o que lá fui ganhar

 

Não cortes os cachos verdes

 Da videira cereal

 Não contes os teus segredos

 A quem ti não for leal

 

Nossa Senhora da Veiga

 Ela vai do Douro acima

 Com a cestinha no braço

 Fazer a sua vindima

 

O mundo é uma vindima

 Cada cepa um cristão

 Vem a morte faz vindima

 Não procura geração

 

Não se me dá da vindima

 Nem tão pouco vindimar

 Dá-se-me das tristes noites

 Que eu passei no lagar

 

Fui ao Douro as vindimas

 Não achei que vindimar

 Vindimaram-me as costelas

 Foi o que lá fui ganhar.

 


 

 

(Painel da Estação da CP do Pinhão)
 

 

António Barreto na «Antologia de textos durienses contemporâneos - Palavras que o Douro tece», no seu texto retirado de «Douro», 1995, a páginas tantas diz:

 

O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho (...) chamem-lhe fino ou licoroso, generoso ou de feitoria, de embarque ou de carregação, ou simplesmente, como em todo o mundo, vinho do Porto, será esse o seu bilhete de identidade”.

E, mais à frente, «o que o rio começou, o homem completou: ambos trabalhando em conjunto, fizeram uma região».

 

Mas foram essencialmente as suas gentes que fizeram o vinho...

 

Galgaram montes, quebraram a rocha, fizeram a terra, levantaram muros, selecionaram castas, plantaram videiras. Sofreram o oídio e a filoxera, o míldio e a maromba, recomeçaram tudo várias vezes. Sofreram o paludismo, as sezões, a pneumónica e a tuberculose. E recomeçaram. Mandaram vir cepas americanas, enxertaram variedades rústicas, arranjaram remédios, o sulfato, o enxofre ou o bórax. Trataram das vides melhor do que das próprias vidas. Trataram das videiras como trataram os filhos, as adegas como se fossem as suas casas. Podaram, enxertaram, cavaram, escavaram, redraram e nunca um desses trabalhos foi simples ou fácil. Encosta acima, foi sempre um calvário. Vindimaram a cantar, para esquecer o cansaço e o calor dos quarenta graus. Levaram as uvas às costas, em cestos de quatro ou cinco arrobas, em sítios aonde não vão carros de bois, onde se desce para o precipício e se sobe para o inferno. À noite, pisaram uvas, cortaram lagaradas, horas a fio, num dos mais violentos trabalhos de toda a agricultura, que os álbuns de turismo ou os citadinos filhos de proprietários acham tão pitoresco, mas que só se aguenta porque é preciso viver, porque uma posta de bacalhau cru e um caneco de aguardente aquecem o corpo e porque as mulheres, em frente aos lagares, aquecem as almas. Transportaram tudo à cabeça e às costas, almudes de água-pé, canecos de água, vasilhas de aguardente; pedras e terra; esteios de ardósia, rolos de arame; cepas, cestos de uvas. Carregaram carros de bois, desceram os montes, entraram no rio, carregaram barcos rabelos, desceram o rio, conduziram o barco, descarregaram o barco, carregaram os vapores, voltaram ao rio, subiram o rio, levaram o rabelo à sirga, à corda, rio acima, no que deveriam ser as galeras do Douro. Foi este o homem do Douro. Foram os que morreram debaixo de rochas e de rodas, afogados no rio, abafados em tonéis, a tremer de febres e de paludismo, foram eles que acabaram o que a Natureza apenas tinha começado.

E fez-se vinho, o vinho fez os homens e os homens fizeram o Douro”.

 

O excerto do texto que acabámos de citar não é pura retórica: é pura, e simplesmente, a realidade!

 

Realidade que, enquanto menino e moço infante me esteve tão perto, me tocou, porque, todos os dias a presenciava.

 

É certo que não senti as agruras da vida de quem mourejava na terra. Em certo sentido, fui um privilegiado. Mas via-lhes, estampado no rosto, a luta diária, o sofrimento. E, com eles e elas, também sofria, de certo modo, numa espécie de solidariedade de almas. Porque feitos do mesmo barro. Nascidos na palha da mesma enxerga.

 

Na verdade o tempo era marcado pelo ritmo do ciclo da vinha.

 

Há mais de cinquenta anos que não descia ao Douro por alturas da vindima. Este ano, sabe-se lá porque impulso, fui «medir», sentir o ritmo daquela «safra». Certificar-me daquela mística que guardo no mais recôndito da minha memória de menino quando, com nove anos, fui arrancado, obrigado a sair daquele terrunho.

 

E, no contacto com a realidade da vindima de hoje, sou obrigado a dar razão a A. Barreto: «o relógio das adegas e das vinhas deixou de governar os dias do Douro. O calendário das vindimas já não dita a sua lei. Os trabalhos da vinha e do vinho já não são obsessivamente os únicos que interessam e preocupam os Durienses (...) Mas o reino do vinho, embora menos despótico, ainda existe”.

 

Lado a lado com o meu cunhado, durante estes três dias de vindima em Santa Isabel, fui procurar sentir a realidade mais autêntica, palpável, vertida nas palavras de Torga quando afirma que o «Douro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos». Mas, obviamente, tão distinta e diferente daquela que, quando infante, a vivi e presenciei. Na verdade, o Douro mudou. E muito!

 

Aqui vos deixo pedaços, mais de uma observação que de uma vivência, muito diferente e distante da realidade de antanho. A anos luz do tempo em que a vindima no Douro era mesmo a «vindima». E em que as batatas cozidas com bacalhau, regadas com azeite e vinagre, servidas no meio ou no fim de um bardo de videiras, e amassadas com um garfo feito de uma vide, na tijela, muita vezes encardida, sabia ao melhor manjar dos príncipes!...

 

Os vinhedos aqui estão.

 

 
 São a realidade mais visível e palpável desta terra.

 

 

Cercando-nos por todos os pontos cardeais, onde apenas admitem núcleos de casario para deles cuidar.

 

 
 A uva, hoje com castas mais apuradas, também aí estão.

 

 
 

Prenhes de sumo que se há-de transformar em licor fino, generoso, saído de um solo agreste e de um clima tantas vezes tórrido, no verão.

 

 
 A roga, pequena, invade os balados,

 

(A «roga»)
 
 pegando nas tesouras, cortando a eito os cachos

 

 (Cortando uvas - cena 1)

 

(Cortando uvas - cena 2) 
 
(Cortando uvas - cena 3)
 

que serão transportados aos ombros, já não em cestos vindimos, encosta acima para o lagar, mas para os contentores, assentes em camionetas que percorrem monte acima e abaixo os vinhedos, mercê da maquinaria moderna, que esventrando o monte, lhe rompeu novos, amplos e modernos caminhos, e que os hão-de levar para as novas adegas, usando a nova tecnologia de ponto na fabricação do precioso néctar com o conhecimento e perícia de uma nova classe - o enólogo.

 
(O Rogério - esperando...)
 
(Emília ajudando Rogério) 
 
 
(Rogério levando as uvas para o contentor)
 

Adeus à «pousa», adeus às «lagaradas». As que por aí se fazem e vêm não passam de simulacros. Para inglês, turista ver!

 

A gente é a mesma. Pelo menos provém da pura «cepa» de gerações de assalariados durienses. Ora com rostos alegres,

  

(A tia Maria Lurdes)
 
(A tia Lúcia)
 
(A tia Palmira) 
 
 
(A Emília)
 
 ora tristes, conforme o feitio e o jeito como a vida se lhes corre.
 
 
(A tia Deolinda)
 
 Há ainda caras jovens, alegres e trigueiras. Que são capazes de soltar um sorriso para a camara que lhe apontamos. A mesma «cepa» produzindo o que há de mais belo e bonito na casta de homens e mulheres durienses.
 
 
(A Emília e o Rui)
 

Mas, no bater de um clique «atrevido» da câmara fotográfica, aqueles belos rostos, amorenados por dias à torreira do sol, não escondem, no seu olhar, as preocupações do seu dia-a-dia.

 
 
 

Mas, para mim, hoje à vindima do Douro falta-lhe já aquele ritual que lhe emprestava a mística com que a vivíamos, ano a ano, dando um significado muito especial na vida de todos quantos se empenhavam nesta «safra».

 

É certo que no meio daquela gente, decididamente, eu já não era um deles. Manifestamente, viam-me como um estranho. Mas, apesar disso, há coisas que a gente sente. Que, ao longo deste longo caminho, se perderam...

 

Subindo os socalcos, vim ter a um pequeno souto, onde os ouriços, abrindo o «ventre», me ofereceram meia dúzia de castanhas, que vim a «rilhá-las» até casa, «ruminando» sobre todas estas coisas.

 
 
 
 À noite - à noite! - comeram-se as célebres batatas com bacalhau, bem regadas com azeite na tijela, num rito, ou tentativa, de ir ao encontro do espírito do passado.
 
 
 

Apanhar o espírito do passado?! Tarefa já impossível! Tudo se move. Tudo se transforma. Mesmo no Douro!...

 

Nos tempos modernos, o tempo deixou de ser cíclico. Mesmo, aqui no Douro, apesar do ingente apelo da terra!...

 

 
Para se aquilatar um pouco deste «mundo», deixo-vos uma canção que, nesta época, e noutros tempos, andava na boca a boca dos homens e mulheres da vindima. Foi, posteriormente, apropriada pelos respetivos ranchos folclóricos locais. Hoje, arrancada ao cancioneiro regional, os nossos artistas, usando a sua criatividade, partilham, com as novas correntes musicais, um mundo que eles cantam, mas que jamais lhe souberam o sabor amargo ou as alegrias do viver destas gentes!...
 
[Nota:- Para ouvir o clip, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].
 

publicado por andanhos às 19:58
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Domingo, 6 de Outubro de 2013

Gallaecia - O Douro dos meus encantos:- Aldeias Vinhateiras do Douro

 
 
ALDEIAS VINHATEIRAS DO DOURO

(Uma breve apreciação a partir do meu «olhar»)

 
 
 

Tal como as pessoas,

não basta apenas ter uma linda cara para sermos felizes,

é necessário que a alma acompanhe esse desejo

 - o de estarmos bem connosco mesmos.

 
 
(Douro - Nadir Afonso)
 

Foram seis as Aldeias Vinhateiras do Douro que visitei durante o passado mês de Setembro: Ucanha e Salzedas, do concelho de Tarouca; Trevões, do concelho de São João da Pesqueira; Favaios, do concelho de Alijó; Provesende, do concelho de Sabrosa e Barcos, do concelho de Tabuaço.

 

Nestes últimos dias, na minha página pessoal do Facebook - António Souza Silva - exibi um diaporama de cada uma delas, apresentando, naquelas visitas, ao longo do percurso nelas feito, o meu «olhar».

 

Não estou por dentro destes projetos ou programa. Nem tão pouco no(s) critério(s) que levou (levaram) à escolha do «lavar de rosto» destas «joias» durienses. Por tal fato, não vou, nem devo, por isso mesmo, entrar em qualquer reflexão, ou sequer polémica, sobre esse(s) mesmo(s) critério(s) de escolha.

 

 

(Ucanha - Ponte e Torre)

 

Tenho, contudo, para mim, que o Douro possui muitas mais «joias», que estas intervencionadas, a necessitarem também de revitalização, pondo-as mais visíveis e também aptas a entrarem no circuito turístico.

 

Presumo estarem envolvidos nestes projetos (ou programa) dinheiros da União Europeia, do país, das autarquias locais e de particulares. É o que se adivinha, nas placas de sinalização, onde consta o nome dos respetivos «patrocinadores».

 

E, sendo os recursos financeiros escassos, teria sido bem difícil a escolha!

 

Vozes discordantes quanto ao(s) critério(s) e «modus operandi» não deveriam ter faltado...

 

São situações comuns e, naturalmente, sempre acontecem. Por isso, já estamos acostumados.

 

(Salzedas - Fachada Principal da Igreja do Mosteiro de Salzedas)

 

Não é, contudo, minha intenção enveredar nas costumeiras querelas bairristas, mesmo entre autarcas, e nos despiques de «campanário».

 

Minha atitude aqui não passa, como acima referi, de apresentar uma breve e despretensiosa reflexão sobre os projectos (ou programa) a partir daquilo que foi o meu «olhar» na visita.

 

E o meu «olhar» viu seis aldeias e/ou vilas que, possuindo um valor histórico e patrimonial assinalável, se apresentavam de «cara lavada», arejadas.

 

Essencialmente quer a nível dos seus arruamentos, da sua sinalética, quer dos seus núcleos e fachadas características, quer, por fim, dos seus mais emblemáticos solares e edifícios históricos (nem todos!).

 

Ou seja, deu gosto percorrer aqueles aglomerados e ver-lhes os rostos, na maior parte dos seus núcleos e nas fachadas dos seus edifícios, bem «maquilhados».

 

(Trevões - Um pormenor do arruamento principal)
 

Contudo, uma povoação, aldeia, vila ou cidade, é verdadeiramente um corpo vivo. Possui dinâmicas que lhes são muito próprias. Têm vida. Nelas habitam pessoas. Por isso mesmo, devem ter, forçosamente têm, uma «alma». É essa vida, essa alma que as caracteriza e as distingue das demais. É nessa diversidade que se encontra a riqueza de um povo e de uma região.

 

Como já disse, e repito, não conheço os projetos (ou programa). Mas, pelo que vi, não é difícil adivinhar que, para além da componente material de «obras» (públicas e privadas) houve (e, porventura, ainda há) a componente imaterial da «animação». A designação genérica de «Festivais» podem-se, pois, incluir nesta rubrica.

 

E é aqui, nesta vertente, que eu mais gostaria de falar, refletir.

 

(Favaios - Antigos Paços do Concelho, atual «Correios»)
 

Animar uma comunidade é, para além do mais, ir ao encontro da sua «alma», e do seu «animus». Animar é, pois, dar alma. E tudo quanto à alma se refere e ao animus, pelo significado profundo da própria palavra, deve vir de dentro. Do interior de cada um de nós, como habitante, como membro de uma comunidade. No conhecer e reavivar da sua história, das suas tradições, do seu património. Vivendo-o e, porque não, (re)inventando-o, de acordo com os tempos que passam.

 

É a partir daqui, por um processo efetivo de «apropriação», que as pessoas e comunidades se identificam e, por via desta identificação, se renovam e se reconstroem.

 

Sem esta vinculação e identificação com o seu «locus», cada um amando-o, não é possível existir, criar-se sinergias que levem a que, contando essencialmente com os recursos endógenos da comunidade, haja mobilização para as tarefas do desenvolvimento de cada lugar, localidade, freguesia, vila, cidade, região ou país.

 

Animar uma localidade não é realizar eventos de fachada. É criar cultura, (re)inventando o passado, projetando-se para o futuro.

 

Uma localidade diz-se animada quando do seu seio - pessoas e instituições - e pegando na sua história e no seu passado, se criam iniciativas portadoras de verdadeiro sentido para elas, pondo-as à partilha e convivência com os demais vizinhos, forasteiros, visitantes ou turistas.

 

 

Uma localidade ou região só com uma massa crítica de pessoas e instituições, repito, portadoras de uma bem vincada identidade, orgulhando-se de si mesma, é que possuirá o pré-requisito necessário para o seu próprio desenvolvimento. Sem ele, tudo quanto se venha a fazer, em termos de valorização desse mesmo local, acabará, mais tarde ou mais cedo, por morrer, ficar ao abandono.

 

Há muitos anos que venho falando - e disto estou mais que convicto - «que ninguém desenvolve ninguém, a não ser nós próprios».

 

(Barcos - Casa típica regional com lousa)
 

O Douro e as suas aldeias (e localidades) necessita de fatores exógenos que as ajudem a concitar o seu próprio desenvolvimento, que o mesmo é dizer, a sua qualidade de vida. Como, nomeadamente, aqueles que ajudaram a «maquilhar», lavando a cara destas seis aldeias emblemáticas.

 

Mas, mais que essas ajudas, obviamente necessárias, necessitamos mais de «alma». De pessoas que nelas habitem. Nelas façam vida. E de instituições que as dinamizem.

 

Mas, não tenhamos ilusões. Há que mudar o paradigma de desenvolvimento em que vivemos! Olhando mais para o território como um todo. Pugnando por uma efetiva descriminação positiva, e incentivando, tal como no início da nossa nacionalidade, que a partir deste rincão duriense começou a formar-se, embora em novos moldes, uma nova «Reconquista», um verdadeiro repovoamento do território. Exigindo-se políticas públicas consentâneas com este desiderato.

 

O ciclo das Descobertas e da Expansão acabou. Regressados ao território, que foi o nosso berço inicial, temos que refletir nas profundas e avisadas palavras do nosso Grande Torga quando, no último poema da sua obra Poemas Ibéricos dizia:

 

                “Venha o Sancho da lança e do arado,

                 e a Dulcineia terá, vivo a seu lado,

                 o senhor D. Quixote verdadeiro!”.

 

Obviamente, com outras «lanças» e outros «arados»! Que o conhecimento, a ciência e a técnica, de gente instruída, e que não imigra, propiciam para que o desenvolvimento integrado e harmonioso do território nacional se faça. Seja uma realidade. Sendo solidários! Prosseguindo políticas solidárias...

 

Só assim é que podemos dizer que esta terra é nossa. E que, tal como os nossos antanhos, com muita labuta, suor, lágrimas, e por vezes muitas mortes, possamos, com orgulho, dizer que esta terra é mesmo nossa porque nós próprios a construímos! E, desta forma, orgulhosos do que criámos, com galhardia recebamos quem nos visita.

 

Doutra forma, outros se encarregarão de tomar conta dela - e infelizmente já não são poucos! - fazendo de nós não os seus senhores, mas os seus vassalos.


publicado por andanhos às 18:34
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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2013

Gallaecia - Pelo Alto Tâmega e Barroso:- O «Teacher» e a "Memória do Mosteirinho da Granjinha"

 

O «TEACHER» E A “MEMÓRIA DO MOSTEIRINHO DA GRANJINHA” 

21. Setembro. 2013 

 

 
 

1.- Introdução

 

«Teacher». Era assim que os seus alunos o tratavam quando António Sampaio, ainda padre, dava aulas de Inglês, já nos idos anos 60.

 

Se com o «Teacher» aprendi pouco inglês, sobrou o gosto que me incutiu pela História e pela Arte de Viajar.

 

António Sampaio era um autêntico mestre, na verdadeira aceção da palavra. A sua área disciplinar estava, contudo, na minha modesta opinião, deslocada.

 

No pouco que, com ele, aprendi inglês, repito, sobrou, por via de uma erudição profunda, em primeiro lugar, o conhecimento da história inglesa; em segundo, da história universal; em terceiro, das lições a tirar dela e, por último, o gosto pelo viajar e pela cultura.

 

António Sampaio, o nosso «Teacher» era verdadeiramente um Mestre.

 

Já não faz parte do mundo dos vivos, por via de um estúpido acidente, na sua terra natal - Sanfins do Douro -, terra do Padre Manuel da Nóbrega, o fundador da cidade de São Paulo, no Brasil.

 

Aqui, ao «Teacher», deixo-lhe o meu preito de estima, admiração e amizade, público, por um homem que, como mestre, me ensinou a «crescer».

 

No passado dia 21 de Setembro, fui com a minha Ni à Granjinha, uma pequena povoação de Vale de Anta, revisitar a sua pequena e histórica capelinha.

 

Para meu espanto, enquanto estacionava o carro, na rua estreita da principal artéria da povoação, dou de caras com Dona Nídia. Seu marido, a que todos os utentes da Conservatória do Registo Civil de Chaves, quando estava no ativo, lhe chamavam «o Senhor Cruz», retirou-se, tal como no século IX os frades beneditinos, para o recanto da Granjinha, vivendo paredes-meias com aquele que deveria ter sido um pequenino mosteiro.

 

Dona Nídia, de início, mal me conheceu, mas, tal como quando era funcionária da Conservatória do Registo Civil de Chaves, mostrou que não tinha perdido as qualidades e a simpatia evidenciada quando atendia os utentes. E, mal soube que nosso interesse era conhecer a «capelinha» da sua «terriola», embora estando a preparar-se para se dirigir para Chaves, tudo deixou e esqueceu para nos abrir a porta e servir de «cicerone».

 

Com o decorrer da conversa, prestes me reconheceu, reafirmando por mim e meu irmão aquilo que, em tempos, quer ela quer seu marido, nos prestavam: uma enorme estima, consideração e carinho que, aqui, publicamente, lhes agradeço.

 

O Senhor Cruz, já um pouco debilitado, em função dos seus achaques, ficou no terreiro da sua casa a descansar.

 

Dona Nídia acompanhou-nos.

 

Enquanto tirava fotografias àquele antigo e nobre monumento, Dona Nídia não se cansava de conversar com a minha Ni, explicando-lhe tudo quanto lhe mostrava.

 

Já quase no fim da visita, recusámos amavelmente o seu convite para lancharmos em sua casa, por já se ir fazendo muito tarde. Ofereceu-me um pequeno opúsculo com o seguinte título “Memória do Mosteirinho da Granjinha”.

 

Ao pegar nele, saltou-me à vista o seu autor, reconhecendo, de imediato, que, aquele António Sampaio, era o meu «Teacher».

 

O opúsculo é uma 2ª edição do ano de 2000. A primeira saiu do prelo em 1995.

 

E são pertinentes as palavras nele contidas quando, a determinada altura, diz que tratando-se de um monumento que, na sua opinião, parece datar do século IX, «bem merecia maior atenção, interesse e investigação por parte das gentes da Cultura Local que do monumento nem sequer o fazem constar das rotas do Turismo».

 

Tendo sido responsável pela área da Cultura, na altura da primeira edição daquele opúsculo, aqui fica o meu «mea culpa».

 

2.- Contexto Geográfico e Histórico do Mosteirinho da Granjinha

 

Vamos seguir, citando, nas partes que considero mais pertinentes, o que António Sampaio nos diz quanto a este item:

 

A uns escassos 3 Km de Chaves na estrada de Soutelo, num ramal bem assinalado, fica a Granjinha, lugar da freguesia de Vale d’Anta.

 

Trata-se dum lugar duns 15 fogos muito bem situado, voltado a Nascente e Sul, com um pequeno mas fértil valezinho aos pés.

 

As casas, de cantaria, vestidas de veludo verde do musgo, com varandas e pequenas janelas de madeira donde espreitam umas sardinheiras floridas para a única rua da aldeia, por onde numa convivência pacífica e ecológica se passeiam vizinhos e animais formando tudo um conjunto muito harmonioso.

 

 

Pela sua posição, pertinho da cidade, com uma paisagem linda e donde se divisa um vasto horizonte, aninhada em anfiteatro à volta da sua capelinha, afastada dos encontrões e do «indefinido mais impessoal» da Cidade, presta-se ao recolhimento do silêncio e da contemplação, motivos de sobejo para a escolha deste local pelos monges beneditinos, que durante séculos daqui irradiaram para a Sua Obra “Ora et Labora”.

 

Situada ao lado da Via Romana que de Bracara Augusta se deslocava até Legio e Asturica, a Granjinha era uma das muitas “Vilas Romanas” da região.

 

O espólio abundante de valiosos achados romanos tais como: mosaicos, aras, estatuetas, moedas, cerâmica diversificada e outros, dispersos pelos museus de Belém, local e na capela, são prova evidentes da permanente ocupação romana.

 

Aqui mesmo ao lado, a velha e nobre Aquae Flaviae, orgulhosa da sua Torre Românica da Matriz e do ex-libris da Ponte, os lagares e túmulos antropomórficos de Vale de Anta, as inscrições enigmáticas de Outeiro Machado, os Castros de Curalha, Mairos e Sanfins da Castanheira, o cemitério de S. Caetano (com a sua capelinha onde se adivinham restos do Donatismo e Priscilianismo), o monte de Wamba a marcar a “Divisio Wambae”, são monumentos que nos falam bem da Antiguidade Cultural da Região”.

 

(...) É neste contexto geográfico e histórico e à luz desta cultura que nos surge o “MOSTEIRINHO” da “VILLIOLA” da Granjinha.

 

Na ausência de documentos escritos, apenas um pouco de luz lançada por uma escritura do Livro Antigo do Cabido da Sé de Braga, na ausência total de tradições, apenas uma que outra fugidia sem importância e já recente, só raciocinando sobre este contexto cultural e interrogando aquelas “pedras vivas” se pode tentar construir a sua história.

 

É a investigação possível.

 

Vimos uma vez monges beneditinos franceses a filmar o monumento e à procura de raízes históricas desta capelinha.

Disseram-nos que de momento não conheciam qualquer bibliografia a não ser que lhes tinham falado duma tese dum historiador alemão mas que desconheciam”.

 

(...) A Granjinha continua desconhecida mesmo localmente, ofuscada pelo Orgulho da Ponte e da Matriz.

 

Património duma Cultura com raízes na Alta Idade Média faz parte dum Legado Cultural ao lado dos mais antigos monumentos visigóticos do País: a Real de Montélios, Balsemão, S. Geão, Santo Amaro de Beja, Lourosa e Idanha-a-Velha.

 

Dado que dos monumentos visigóticos apenas nos restam ossaturas duma que outra pedra perdida aproveitadas na reconstrução de outros monumentos enquadrados dentro do românico que só mais muito mais tarde, fins do séc. XIII, chega a Trás-os-Montes, só com muita dificuldade se pode determinar da antiguidade deste tipo.

 

Simples, humilde e esquecida no silêncio desta aldeia mas nem por isso perde nada da sua graça e beleza, do seu interesse e importância”.

 

3.- A Capela

 

Citando, uma vez mais, António Sampaio:

 

A sua estrutura é simples: uma só nave com a riqueza da Fachada.

 

(Fachada Principal - Perspetiva de um ângulo)

 

(Fachada Principal - Perspetiva de outro ângulo)
 
 
(Fachada Principal - Sino)
 

O Arco Principal, autêntica lição de “banda desenhada” a explicar o popular episódio dos capítulos VI e XIV de Daniel: Daniel na Cova dos Leões.

 

 

 

No Arco Principal da Fachada, nove leões em atitude de quietação e humildade perante a figura estilizada de Daniel no centro.

 

(Arco Principal da Fachada - Perspetiva geral)

 

(Arco Principal da Fachada - Pormenor do Arco Superior)
 
(Arco Principal da Fachada - Pormenor dos leões  do Arco Superior)
 
No Arco Inferior e na parte superior o banquete dos sacerdotes de Baal a comer coelhos e outros animais. 

 

Na parte inferior deste Arco as pegadas dos sacerdotes e crianças marcadas na cinza do chão, ardil de que o Profeta se servira para demonstrar a falsidade dos sacerdotes que diziam que era o deus Baal quem comia as oferendas.

 
(Perspetiva nº 1)
 
 
(Perspetiva nº 2)
 

No capitel da esquerda pode ver-se o rosto triste e inconformado dum sacerdote de Baal a ser comido por um braço por um leão raivoso.

 
(Perspetiva geral do capitel)
 
(Pormenor do capitel)
 
Os outros capitéis com motivos geométricos
 
 
e outros vegetais de palmeiras. 
 
 
 

Ao lado, a figura misteriosa e severa de Nabucodonosor (?), Dario (?), Ciro (?), a mandar Daniel primeiro e depois os sacerdotes de Baal para a Cova dos Leões, convencido pelo ardil de Daniel e pela mansidão dos leões da inocência do Profeta que falava a Verdade e era protegido pelo Deus de Daniel - o único verdadeiro.

 
 
 

Figuras simples de arcaísmo muito popular a traduzir a fé simples do Povo; figuras comparadas no seu arcaísmo às do Paleocristão do Museu de Lateranense, à iluminuras do beato de Liébana das Bibliotecas de Amiens, Paris e Brescia.

 

Tão simples que com elas se metia medo às crianças que também se riam e comparavam as orelhas de Nabucodonosor à carranca dos avós.

 

Pedagogia a explicar com clareza ao Povo simples este episódio muito do gosto do Povo quer ouvia e recontava de boca em boca o “formoso milagre” do profeta Habacuc levado pelos cabelos pelos ares com uma cesta nas mãos para levar a comer da Judeia a Daniel na Cova dos Leões em Babilónia”.

 

(...) “No interior pode ver-se uma pia baptismal que pode ser servida para baptismos de imersão em voga nos séculos VIII e IX.

 
 
 
Ainda ao lado pode ver-se uma “PEDRA FORMOSA” por cima duma pia de água benta
 
 
 

e no altar-mor uma outra pedra saliente que bem pode ter pertencido ao primitivo templo visigótico.

 
 
 
Por detrás do altar-mor, uma ara romana de difícil leitura.
 
 
(O altar tendo como pé a ara)
 
 
(A ara)
 

Disseram-me que por baixo da cal, antes da reconstrução, haveria uns frescos que representariam um Cristo em Majestade.

 

A ara estava escondida e entaipada na parede, sendo posta à luz depois da reconstrução.

 

Terá sido capelinha primitiva destruída aquando do Ermamento de Afonso I (753) ou III (878) ou mesmo aquando da invasão de Almançor em 999? Ou será mesmo anterior dada a instabilidade permanente da zona?

 

Perguntas a que se não pode responder por falta de documentação. Teremos de nos contentar com hipóteses. A velha Aquae Flaviae ao lado, só ruinas e desabitada, já muito longe, de há séculos, das glórias de município latino 73 (?) e das suas leis e privilégios. Só a Ponte estaria de pé e viva, pois os cristãos regressados de Lugo tinham optado por um reagrupamento à volta do seu padroeiro, S. Estêvão, na actual freguesia de S. Estêvão”.

 

4.- A Cruz

 

Trata-se de uma singular Cruz «Gaélica»,

 

de uma beleza extraordinária e que, na minha humilde maneira de ver, bem pode ser a assinatura a autenticar a construção da Capela.

É uma Cruz “Gaélica”, celta, ligada à expansão dos monges beneditinos pela Europa.

 

 

 
 

Com efeito S. Columbano, monge irlandês ao estabelecer-se em Luxeil na Borgonha onde morreu em 615, espalhou pela Europa a Ordem Beneditina e implantou nos mosteiros esta Cruz irlandesa.

 

É a estes monges com S. Bento, o Pai da Europa; Lanfranc e S. Beda, S. Patrício, S. Bonifácio que devemos a Europa de hoje.

 

Estes monges espalharam pela Europa o culto de S. Comba, Virgem da Borgonha e que entre nós se encontra tão ligado aos cultos de S. Senhorinha, S. Rosendo e S. Xiraldo”.

 

(...) “ Esta capelinha devia ser destinada a uma pequena comunidade de dois ou três monges de S. Bento que aí se dedicavam a catequizar e a ensinar a cultivar os campos.

 

É possível que aquando do Ermamento de Afonso I (753) e Afonso III (878) com o êxodo dos cristãos de Aquae Flaviae para Lugo continuasse aqui uma pequena comunidade que se recusava a ir para Lugo e que refugiada das ruinas de Aquae Flaviae aqui se mantivesse e com ela alguns monges a manter a tradição do culto de S. Comba e a cultivar o pequeno vale contíguo à capela e dele fizessem uma Granjinha Modelo.

 

Posteriormente, a partir do século XI, já reconstruída na sua estrutura actual, à beira do Caminho de S. Tiago daria apoio aos peregrinos de S. Tiago e seria ponto de peregrinação de S. Comba, factores que seriam um ponto de atracção dos cristãos de S. Estêvão e com a Ponte contribuisse para a reconstrução de Aquae Flaviae”.

 

(...) “No Livro Antigo das Escrituras do Cabido da Sé de Braga diz-se que no reinado de Froila, o rei que restaurou a disciplina de Elvira liberalizada por Witiza, se construíram muitos mosteirinhos na região onde os monges serviam as pequenas povoações que começavam a aparecer. A capelinha da Granjinha seria um desses mosteirinhos.

 

A Granjinha será uma peça fundamental para o estudo dos problemas do Ermamento e Reconquista de Chaves Medieval”.

 

(...) “A Granjinha poderá ser hoje como ontem um lugar de refúgio, do silêncio e do equilíbrio ecológico”.

 

Lugar de refúgio, silêncio e de equilíbrio ecológico, pelo menos, está sendo para os amigos Dona Nídia e seu marido, deixando sua casa em Chaves para, sob a proteção desta Capela, se acolherem.

 

 

 

 

 

5.- O retábulo do altar-mor

 

Ao fundo da capelinha, do lado esquerdo de quem entra, encontra-se um retábulo que, com certeza, estaria no altar-mor.

 

Com um adequado restauro poderia regressar ao seu lugar original, atestando mais um período áureo da arte religiosa barroca neste bonito e histórico monumento.

 
 
(Retábulo)
 
 
(Retábulo - Um pormenor)
 
 

publicado por andanhos às 11:55
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