Domingo, 22 de Setembro de 2013

Gallaecia - Pelo Alto Tâmega e Barroso:- «Ronda» pelo termo de Soutelo, por Calvão e Sera Velha

 
 
 

CAMINHADA

 

(«Ronda» pelo termo de Soutelo, por Calvão e Seara Velha)

 

21. Setembro. 2013

 

 

1.- Considerações gerais a propósito desta caminhada

 

Aqueles trinta e tal quilómetros percorridos pelas terras de afeto do médico e escritor, João de Araújo Correia, por entre uma enorme e abrupta subida, seguida de uma descida quase a pique, deixaram-nos um pouco maltratados. Não é que nos tivesse custado muito, simplesmente, e em face do nosso contexto físico, há certos exercícios que, pela sua dureza, não são muito recomendáveis, por nos poderem trazer alguma «mossa». Há que ter cuidado, pois…

 

E foi o que fizemos nestas últimas três semanas. Deixámos as grandes caminhadas e tivemos de optar por pequenos percursos.

 

Mas não deixámos o Douro!

 

A nossa curiosidade levou-nos a percorrer os aglomerados das seis ditas aldeias durienses classificadas como «Aldeias Vinhateiras»: Ucanha, Salzedas, Trevões, Favaios, Provesende e Barcos. Brevemente, na nossa página pessoal do Facebook, apresentaremos seis diaporamas/reportagens sobre cada uma delas.

 

Neste ínterim ainda tivemos tempo para fazer uma visita ao Museu do Côa, passar por Vila Nova de Foz Côa e dar uma «espreitadela» à terra natal do Padre Manuel da Nóbrega, fundador da cidade de São Paulo, Brasil – Sanfins do Douro.

 

Regressando ao nosso norte, as saudades de fazer uma caminhada com outro folgo vieram-nos e a curiosidade de, face à praga de um verão seco e ardente, com a desgraça dos incêndios, dar uma «ronda» para ver os «estragos».

 

Quanto a incêndios. Não seria necessariamente assim se tivéssemos uma planificada e correta política de desenvolvimento florestal. Que, obviamente, leva muitos anos a implementar. E que mexe com muitos e poderosos poderes e interesses, instalados. Porque não é só mão criminosa que aqui anda metida. É a desertificação a que votamos praticamente todo o nosso interior. É a pouca valorização que damos à floresta como um regulador ecológico e um recurso económico nacional. É a consequente incúria da limpeza das matas e montes. É a enorme divisão da propriedade em que vale mais o império da propriedade privada em detrimento do valor e da função social da terra. É, por fim, e porventura mais importante, a falta de coragem para levar por diante uma autêntica e verdadeira política de reflorestamento do país. Que mexe com tudo isto e que, por tal circunstância, em nada se toca, não vá o diabo tecê-las e, também por aqui, lá nos vão os nossos votinhos e as eleições não serão ganhas nem «por uma cano»…

 

Entre cidadãos e partidos falta a discussão, o consenso e o entendimento comum daquilo que deve ser prioritário e urgente para todos nós como comunidade. E, tal como dizia, há uns anos atrás, um ilustre e esclarecido político da nossa praça, que estávamos «num pântano», por isso, não sabemos senão navegar à vista.

 

 

2.- Mapa do percurso

 

Após este pequeno interlúdio, vamos, então, à nossa caminhada de hoje e começamos pelo mapa do percurso.

 

 

 

 

3.- Considerações sobre a «ronda» do termo de Soutelo, Calvão e Seara Velha

 

Ao entrarmos na povoação de Soutelo duas coisas mais nos despertaram a atenção: umas «alminhas», logo à entrada para a Rua da Igreja

 
(Soutelo - «Alminhas»)
 
(Soutelo - «Alminhas» - pormenor)
 

e, no meio da povoação, no cruzamento para Seara Velha, um Cruzeiro, todo ele renovado. Não sei bem porquê mas estes dois símbolos de religiosidade tão característico do nosso povo despertou-nos uma certa atenção! Vá lá a gente compreender, muitas vezes, o nosso subconsciente…

 
 
(Soutelo - Cruzeiro - vista geral)
 
 
 
(Soutelo - Cruzeiro - pormenor)
 

Seria a figura das «alminhas»?

 

Cá para nós, agora refletindo um pouco mais sobre o assunto, naqueles símbolos estavam os temas que, depois ao longo do percurso, nos preocuparam a mente: as almas, o inferno (as labaredas de fogo), o crucificado, a saúde.

 

Com um sol a brilhar,
 
 
mostrando-nos um bonito e brilhante horizonte,
 
 
 

o caminho por onde passávamos, em mais de metade do seu percurso, era uma verdadeira desolação!

 
 
(Trecho nº 1 do percurso)
 
 
(Trecho nº 2 do percurso)
 
 
(Trecho nº 3 do percurso)
 
 
(Trecho nº 4 do percurso)
 
 
(Trecho nº 5 do percurso)
 
 
(Trecho nº 6 do percurso)
 
 
(Trecho nº 7 do percurso)
 
 
(Trecho nº 8 do percurso)
 

Terras sem saúde, mortas, cheias de cinza, tal como as almas penadas, queimadas pelo brasume das chamas provocadas pelo fogo.

 

Nunca vimos, em tão pouco percurso, tanto cruzeiro e «alminhas» juntas! Premonitório?

 
 
(Capelinha e cruzeiro-«alminhas» no alto de Seara Velha)
 
 
(Alto de Seara Velha - pormenor das «alminhas»)
 

É certo que aqueles elementos de fé e religiosidade se referem a outras chamas e a outras almas! Mas a associação dos cruzeiros e «alminhas» com as terras, tal qual almas, chisnadas pelo fogo, não nos saia da cabeça.

 

Calvão já se vê ao longe.

 
 
 

Chegados a Calvão mais um cruzeiro à saída da povoação, reforçando mais ainda esta nossa ideia…

 
 
 
Em Calvão, embora recheada de algumas casas bonitas e de uma moderna sede da Junta de Freguesia,
 
 
 
dois edifícios chamaram-nos mais a atenção: a sua escola, certamente quase sem crianças para continuar a dar significado e razão de ser a esta terra
 
 
 
e o «Lar do Bom Caminho», certamente pejado de gente, gerindo, como podem, o seu tempo, à espera da sua «vez»…
 
 
 

E não é talvez por acaso que estas «alminhas» estão na confluência da rua que leva aquele lar!...

 
 
(Calvão - «Alminhas» - vista geral)
 
 
(Calvão - «Alminhas» - pormenor)
 
Será que a Senhora da Aparecida, tão bem recatada no seu recinto, de paz e tranquilidade,
 
 
 
com o seu Santuário
 
 
 
e capelinhas, algum dia «aparecerá» aos «grandes crânios» da nossa ilustre Pátria, que dirigem os nossos destinos,
 
 
 
alimentados por estas águas cristalinas, iluminando-os, abrindo-lhes os olhos, e abrilhantando-os com outra postura para,
 
 
 

com trabalho e honradez, fazerem destas terras, montes e pedregulhos, o «Paraíso Perdido» que, com o nosso «pecado» da avidez e da gula, perdemos?

 
 
 

Mas, se o estado de coisas que hoje em dia vivemos, percorrido pelos nossos passos, sob a batuta do «chico espertismo» reinante neste País, tão fustigado por oportunismos e corrupção, persistir, estamos em crer que só com um milagre é que nos salvamos.

 

Só que, infelizmente,  não acreditamos em milagres!...

 

Temos mais fé nos homens, na sua coragem face a objetivos que, com determinação e bravura, se perseguem!

 

E o nosso desejo é que não surjam «salvadores da pátria» ou um qualquer D. Sebastião, saído das brumas de um qualquer campo de batalha, onde aquele outro ficou e nunca mais apareceu, para nos salvar!

 

Nosso desejo é que surjam líderes audazes, competentes, honestos, sábios, que, em diálogo e partilha constante com os seus concidadãos, sejam capazes de acabar com a política de campanário, (sejam quais forem as «igrejas»!) que durante tantos anos nos subjugou, reconstruindo nossas terras, voltando a dar uma nova vida às nossas «almas», afastando delas o espetro do «inferno» em que vivemos, personificado neste cruzeiro e nestas «alminhas» de Seara Velha.

 
 
(Seara Velha - Cruzeiro-«alminhas»)
 
 
(Seara Velha - Cruzeiro-«alminhas»- pormenor)
 
Para que um dia, quando olharmos para trás, possamos ver uma terra rejuvenescida, cheia de esperança e alegria, enfim, renovada,
 
 
 

e não o espetáculo de desolação que, ao sairmos de Seara Velha, ficou bem patente aos nossos olhos.

 
 

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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2013

Gallaecia - O Douro dos meus encantos: Caminhada pelas terras de afeto de JACorreia

 
 
 

CAMINHADA

 

Pelas terras de afeto de João de Araújo Correia

 

25. Agosto.2013

 
 

“«Ora, a lavoura velha, mal cuidada e administrada a troixe-moixe» apenas lhes dá «que diabo», para irem vivendo. Muitas vezes da venda das propriedades aos ingleses.

Substancialmente por falta de abertura, psicológica e geográfica e inteligência para os estudos (que não de dinheiro), hoje o Douro está entregue a excessivo capital estrangeiro. Já não vinga a velha cepa familiar que personalizava a fabricação do néctar, hoje entregue ao socialismo cooperativo que dá uma única e impessoal resultante de uma soma aritmética de ancestrais cerimoniais vinícolas, e castas, e calços, e tonéis, e lagares – onde noutros tempos se sublimava o amor e a arte de lavradores mimosos”

 

Altino Moreira Cardoso, O Homem do Douro nos contos de João de Araújo Correia

 

 

(Capa do livro de Altino Moreira Cardoso - "O Homem do Douro nos Contos de João de Araújo Correia)
 

1.- Breves considerações à volta do médico e escritor António de Araújo Correia

 

O médico João de Araújo Correia foi pessoa cujo nome não me era estranho na minha meninice quando, infante, vivia em Oliveira e, depois, em Godim.

 

Lembro-me de minha irmã mais nova referir, quando saia de casa depois das aulas, ir brincar com uma das suas netas, filha do Camilo, apenas…

 

A obra literária deste grande João Semana só a conheci muito mais tarde.

 

E nela pude identificar – e ainda mais, amar – o Douro, suas paisagens e retratos de pessoas que, na minha infância, lá pelos anos cinquenta do século passado, muitas delas tão bem conhecia.

 

Ao ler, principalmente os seus contos, outra coisa não experimento senão uma nova epifania, num regresso às minhas origens, revivendo, fundamentalmente, a vida daquelas pessoas que ele tão bem descreve e, com muitas delas, com as quais, observando-as, partilhava e participava, intimamente, das suas dores, lutas, aflições, tormentos e agruras.

 

Na esteira de José Régio, «a originalidade de João de Araújo Correia não consiste em imitar extravagâncias alheias; nem sequer inventar coisas originais. Em João de Araújo Correia é justíssimo honrar a independência dum excelente escritor que segue o seu caminho – a sua originalidade – num género em que a nossa literatura é notável, e que ele contribui para dignificar».

 

Por outro lado, Óscar Lopes, no início da sua primeira obra «Sem Método – Notas Sertanejas», diz que João de Araújo Correia é um dos nossos melhores contistas que “assimila à mais correntia e elegante prosa a fala oral dos seus aldeões, e se torna capaz, como poucos, de organizar a narrativa de modo a dispensar a mínima nota judicativa extrínseca à ação, convertendo muitas vezes o próprio narrador rural da primeira pessoa em personagem bem caraterizada e que se mexe à nossa vista. O mundo social, admiravelmente notado, dos seus livros abrange a aristocracia dominante dos fins da Monarquia, brasileiros, doutores, burgueses alcandorados, padres aburguesados, caseiros, almocreves e outros tipos populares. A sua temática dominante é a luta pela terra, a caça ao lucro pelo logro, a sujeição das mulheres à tutela masculina, o culto dos figurões locais, a ritualização doméstica dos objetos hereditários». Tudo temas tão próprios e caraterísticos do «ser português», em particular do «homem transmontano”.

 

Pena que a sua projeção como escritor não tenha sido maior do que aquela que tem e lhe foi dada!

Por isso, muito admiro, no seu «Sem Método – Notas Sertanejas» – o que verte no ponto XIV e que, aqui, não resisto a transcrever:

 

“Vieira da Costa fêz hoje anos. Disse-mo em segredo uma das vizinhas que olham por êle, que lhe fazem o comer e lho levam à casinha escura, onde vive só. Que o senhor Vieirinha estimava que ninguém soubesse dos seus anos. Porquê? Receou que os seus admiradores e admiradoras o importunassem com uma homenagem? Que a infância das escolas locais, com mestres e mestras, juncasse de flores o traço da sua porta? Que a direcção da Casa do Douro o fosse cumprimentar? Que os lavradores mandassem os seus paquetes, com burros carregados, pôr como um ovo a dispensa do escritor regionalista? Por mim não descubro a razão de semelhante recato num romancista, cujos romances ninguém lê, homem de letras tão desprezado, que está a apodrecer num catre, entrevadinho do reumatismo deformante, quasí cego, completamente mouco e cada vez mais tartamudo.

 

A causa deste abandono sei qual é. Portugal, terra de doutores, não lê. Se Portugal lesse, moraria o Vieira da Costa em casa limpa e soalheira, com uma legião de criados invejável por qualquer rei da aguardente ou do lixo. Assim, vive o autor do Entre Montanhas, da Irmã Celeste e da Família Maldonado duma pensãozinha camarária, simpático óbulo mensal que tanto dignifica os edis da nossa terra. Graças a êste benefício, não morreu ainda de fome o escritor”.

 

Será que o panorama aqui descrito por João Araújo de Oliveira se modificou muito?

 

Creio que não!

 

É certo que hoje em dia vivemos numa época bem diferente daquele que João Araújo Correia viveu. A torto e a direito vemos gente «exibindo» talentos literários que mal sonhávamos que os tivessem! E com que sucesso de vendas!... Mas… será efetivamente talento ou, pelo contrário, toda uma parafernália publicitária, que os meios de comunicação social, propriedade de poderosas multinacionais do lucro, põem ao serviço de «colunáveis», alcandorados por aquelas empresas e que outra preocupação não têm que maximizar apenas o seus proventos, «borrifando-se» para a verdadeira descoberta do talento e do verdadeiro artista, com a conivência cúmplice dos ditos e oficiais pseudo críticos literários e da arte?

 

No último post afirmava que deixaria as terras da Gallaecia – hoje terras de fronteira – mais a norte, e que, descendo para sul, começaria as minhas caminhadas pelas terras que foram o berço, a «matriz» da nossa portugalidade.

 

Pois hoje aqui estamos no terreno primevo daquele que inicialmente foi o Condado Portucalense para, depois, se transformar em Portugal, o país que hoje somos.

 

E, com esta caminhada, homenagear um grande homem das letras portuguesas, meu conterrâneo, como disse, às vezes tão injustamente esquecido – o nosso querido João de Araújo Correia.

 
Designei esta caminhada como «Por terras dos afetos de João de Araújo Correia». E a razão é simples. Porque a mesma é feita, essencialmente, em terras que o viram nascer e onde repousa para todo o sempre (Canelas) e onde casou (Poiares), sendo certo que a cidade do Peso da Régua foi aquela em que mais tempo viveu. Por isso, também aqui se faz uma pequena referência à casa onde viveu e teve consultório, na Rua Maximiliano Lemos, também um outro ilustre e insigne médico e historiador (e tão pouco falado) da história da medicina, ao cimo da Régua, quem vai para o Peso, em Medreiros,
 
 

e à Imprensa do Douro, onde João de Araújo Correia, durante muitos anos, colaborou, essencialmente, como colunista.

 

 

 

Por razões operacionais, isto é, para não sobrecarregar muito a logística da caminhada, optámos – eu e os meus companheiros, Fábio e Neca – com quem partilho o meu hábito de andarilho, por começarmos e acabarmos em Covelinhas.

 

Tratou-se de uma caminhada, de certa forma, arriscada, em função das nossas idades, dado o desnível do traçado.

 

Felizmente que, com calma – e madrugando por causa do sol -, conseguimos levar a nossa «empreitada» a bom porto.

 

Porque sabíamos que, ao longo deste traçado, existiam umas ruínas de uma «villa»/castellum romana no lugar do Alto da Fonte do Milho, ao descer de Canelas para Covelinhas, não deixámos de fazer um ligeiro desvio e ir visitá-las. Sempre pensei que estivessem em muito melhor estado! Infelizmente, assim não acontece… Para umas ruínas «descobertas» nos anos 40 d0 século passado, classificadas como Monumento Nacional, era para estarem noutro estado de estudo e conservação/restauração. Afinal de contas, elas atestam a presença dos romanos (e não só) nesta zona, sendo habitadas provavelmente desde o I século d.C até ao século IX/V d. C, ou seja, até ao fim do Império Romano. E, eventualmente, estavam na rota da via romana que, desde as Beiras, iam até Aquae Flaviae. Representam, acima de tudo, a importância que, já naquela altura, a cultura da vinha e do azeite tinham não só para o império como para esta região.

 

Pensei – ingenuamente – que iria ali encontrar os célebres azulejos policromados, idênticos aos que se encontraram em Conimbriga e noutras «villas» romanas descobertas em Portugal…

 

Mas, nem aqui, nem pela pesquisa que fiz, soube (ou sei) onde esses azulejos param!

 

Enfim, trabalho e investigação à portuguesa!...

 

2.- Mapa da caminhada

 

 

 

3.- Descrição sucinta do percurso

 

Passemos agora à descrição sucinta do percurso.

 

Como disse, por questões operacionais, e porque também, porque não dizê-lo, queríamos conhecer toda aquela encosta de Covelinhas até Galafura, começamos a caminhada nas imediações da Igreja Matriz de Covelinhas, mesmo junto a umas toscas e singelas alminhas.

 

 

 

E começamos muito cedinho, ainda o sol não tinha nascido.

 

A subida até Galafura é íngreme, dura. Evitámos o percurso mais a pique, pelo caminho, embrenhando-nos, aos ziguezagues pelo vinhedo.

 

Mas com paisagens espetaculares sobre os vinhedos!

 

 

(Paisagem nº 1)

 

 

(Paisagem nº 2)

  

Chegados a Galafura, com os «bofes» a saírem-nos pela boca, fizemos uma ligeiríssima pausa junto ao adro da igreja.

 

O sol, ao nascer, começou a incidir fortemente sobre a igreja e edifícios à sua volta. Prometia um dia de verdadeira canícula.

 

Mas não havia tempo a perder. Não queríamos fazer o percurso da caminhada debaixo de um sol que prometia ser abrasador.

 

Daqui que fomos apressadamente trepando desde Galafura até Vila Seca de Poiares, passando pelo Lugar da Estrada.

 

 

 

 

Antes de chegarmos a Vila Seca de Poiares mais uma bonita paisagem com a Serra do Marão ao fundo.

 

 

 

Pisámos muito asfalto até Vila Seca de Poiares. E aproveitamos aqui para, entrando num café, bebermos água e tomarmos um café.

 

Chamou-me a atenção um pequeno azulejo numa das paredes do estabelecimento. Rezava assim os seus dizeres:

 

Freguês educado

Não cospe do chão

Não pede fiado

Não diz palavrão”.

 

Assim fosse em todos os estabelecimentos das nossas terras!

 

À saída de Vila Seca de Poiares, Fábio e Neca pararam para contemplar a fachada de uma casa típica rural duriense.

 

Há que ter em conta esta arquitetura específica, regional, preservando-a. E não só as fachadas dos edifícios ditos «nobres» daquilo a que agora se chama as «Aldeias Vinhateiras» e seus respetivos arruamentos…

 

 

 

A mesma observação aqui deixamos quanto ao centro urbano de Poiares.

 

 

 

Poiares é uma povoação dinâmica. Com certeza a iniciativa do arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, com a instalação do Colégio Salesiano, obra de D. Bosco, que chegou a Poiares a 19 de Janeiro de 1924, não deve ser estranha e este dinamismo.

 

Diga-se ainda que foi, graças a este prelado, aqui nascido, que a diocese de Vila Real foi criada.

 

João de Araújo Correia casou em 8 de Outubro de 1922 com Maria da Luz de Matos Silva, sua conterrânea, natural desta aldeia de Poiares.

 

 

 

Em direção a Canelas mais uma bonita paisagem, tendo como pano de fundo a Serra do Marão e a sua emblemática Fraga da Ermida.

 

 

 

Ao chegarmos ao largo dos vinhedos de Canelas, vislumbra-se a torre sineira da sua Igreja Matriz.

 

 

 

Deixamos aqui dois trechos (de entre muitos outros, porventura mais valiosos) desta histórica e pergamiada localidade que, nos alvores da nacionalidade, foi doada, por D. Sancho I, à Sé de Lamego e, em 1225, foi coutada por D. Sancho II.

 

 

(Trecho nº 1)

 

Por aqui se diz que, nestas pequenas paragens, o teatro português aqui nasceu.

 

Verdade histórica, lenda, ou invenções dos seus habitantes?

 

Certo é que aqui decorrem as «Jornadas Medievais do Douro» nas quais a população residente dá vida a um quadro histórico que evoca a passagem, em 1193, do Rei D. Sancho I por Canelas. A Carta de Doação, com referência ao arremedilho feito pelos jograis, é a primeira alusão ao teatro em Portugal, fazendo de Canelas, conforme sítio da internet da freguesia e do município da Régua, o seu berço nacional.

Caso o leitor queira aprofundar este tema, e poder aquilatar deste evento, pode consultar o seguinte sítio da internet – http://www.youtube.com/watch?v=ad1Pyn9RQij.

 

(Trecho nº 2)

 

É, assim, aqui nesta localidade, que João de Araújo Correia tem duas moradas:

  • a do seio materno para a terra, aquela onde nasceu;

 

 

  

  • a da terra para a eternidade, aquela onde seus restos mortais, em 1 de Janeiro de 1985, ficaram aqui sepultados para todo o sempre, precisamente no mesmo dia em que nasceu – 1 de Janeiro de 1899.

 

 

À saída de Canelas, mais um trecho dos seus vinhedos, salpicados entre floresta, hortas e olival.

 

 

 

Virando para a direita, damo-nos conta da Casa e Quinta do Covelo, da família do General Silveira, que aqui nasceu.

 

 

 

E, antes de nos aproximarmos da «villa»/castellum romana do Alto da Fonte do Milho, mais duas magníficas paisagens: uma, de puro vinhedo;

 

 

 

outra, um emaranhado de cerros e mamelões cobertos de vinha e floresta.

 

 

 

Até que, finalmente, eis-nos chegados à tão desejada «villa». Contudo, como se pode ver, sem qualquer perímetro de proteção, dado tratar-se de um monumento Nacional: os vinhedos chegam até às proximidades das suas ruínas, sem obedecerem, minimamente, ao que a lei, para estes casos, estipula. Enfim…

 

Foi Russel Cortez que, nos anos 40 do século passado, descobriu estas ruínas.

 

Sabemos do interesse do nosso canelense João de Araújo Correia por este achado. Contudo, volvidos mais de setenta anos, muito pouco se fez por este achado, pondo para usufruto dos cidadãos, para melhor conhecerem a sua história, e como uma mais-valia na valorização patrimonial e turística do território duriense…

 

Mas também quando a mentalidade reinante, como a de uma habitante de Canelas, vai no sentido do escarninho e puro desprezo por aquele sítio, praguejando contra o dinheiro (pelos vistos, pouco) que ali se gasta para cortar silvas, quando o dinheiro seria bem mais empregue a matar a fome a muita gente, o que se pode esperar, assim, de um povo?...

 

Procurei informar-me sobre este local. Não foi uma pesquisa muito profunda, diga-se em abono da verdade. Deixo aqui, contudo, o título de um artigo um pouco esclarecedor para aqueles que queiram saber um pouco mais sobre este local. Seu autor é Carlos A. Brochado de Almeida e o seu título é: «A Villa do Castellum da Fonte do milhoUma antepassada das actuais quintas do Douro», que poderão encontrar em pdf na internet.

Como já referi, nem uma pequeníssima amostra dos célebres azulejos policromados ali encontrados! Nem, tão pouco, onde «param o pote»… Alguém é capaz de informar?

 

Os que da Freguesia, Câmara, Governo da República, Universidade (UTAD, principalmente) têm feito para trazer a lume a história desta região com base nos vestígios que, aqui e ali, vão aparecendo?

 

Questão provavelmente sem resposta ou, o que é ainda pior, do mesmo jaez da habitante que connosco falou, desabafando daquele jeito…

 

Ficamos, desta feita, aqui, com um panorama parcial da vila,

 

 

 

(Panorama parcial da «Villa»)

 

dois trechos daquelas ruínas

 

 

(Trecho de ruina nº 1)

 

 

(Trecho de ruina nº 2)

 

e um panorama espetacular que, daqui, se vislumbra sobre Covelinhas.

 

 

 

Saídos destas ruínas, há que descer e, depois, voltar a subir antes de, em declive acentuado, e aos ziguezagues, nos dirigirmos para Covelinhas.

 

Eis mais duas panorâmicas do último «alto» da nossa caminhada com vistas, uma, sobre Folgosa do Douro, em frente a Covelinhas

 

 

 

e outra, dos vinhedos enquanto iamos descendo.

 

 

 

E, durante este ziguezaguear até Covelinhas, três vistas para contemplação dos nossos (as) leitores (as): a casa da Quinta dos Frades;

 

 

 

mais um patamar de vinhedos visto à sombra de um pinheiro e,

 

 

 

finalmente, a estação de Caminhos de Ferro de Covelinhas.

 

 

Foram 33 Km bem medidos e bem suados. Contudo, valeu a pena!

 

Porque mais um pedaço do nosso querido Douro foi por nós calcorreado, todo ele cheio de encantos.

 

Quanto mais percorremos estas terras mais elas nos surpreendem e, consequentemente, mais nos predispõe a amá-las.

 

Quem dera que estas terras vibrassem não só pelas suas belezas naturais, que o homem, ao longo de gerações, com muito sacrifício, luta, vida miserável, suor e lágrimas, criou!

 

Mas também pela alegria, orgulho e gosto de partilhar este querido torrão por parte das suas gentes, em especial da sua juventude e daqueles que partiram, regressando, arregaçam mangas para um novo desenvolvimento, uma outra construção.

 

Quanto da nossa história, tradição e cultura se está exaurindo!

 

E que memória (s) estamos preservando, recuperando?

 

O Douro, o nosso querido Douro, precisa, urgentemente, de muitas mulheres e homens como João de Araújo Correia! Que, com verdadeiro amor à terra, ao seu terrunho, tenham o engenho e a arte de o (re) inventar para as gerações futuras.

 

Para que, de outra forma, sem a fome e a escravidão de outrora, possamos dizer que esta terra é mesmo nossa! E podermos contar uma outra gesta heroica por estas montanhas e cerros donde sai o mais precioso néctar do mundo: o vinho fino; o vinho generoso do nosso Douro Encantado, parte integrante do Reino Maravilhoso que o nosso querido e genial Torga tão bem soube cantar!

 

Deixo agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta caminhada.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].

 

 

 


publicado por andanhos às 22:02
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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2013

Por terrras da Gallaecia - «A Escalada»


 

«A ESCALADA»

 

CAMINHADA DE VERIN A INFESTA

AO ENCONTRO DO FORTE DA ATALAIA NO CASTELO/FORTALEZA DE MONTERREI

 

17. Agosto.2013 

 

É por funda necessidade cultural que eu peregrino esta pátria. A realidade telúrica de um país, descoberta pelos métodos de um almocreve, é muito mais instrutiva do que trinta calhamaços de história, botânica ou economia. Sem acrescentar que é com o seu próprio corpo que o homem mede o berço e o caixão.

 

Miguel Torga, Diário V, 3ª edição, Coimbra, 1974, pág. 73

 

 

Vivo na natureza integrado nela. De tal modo chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espetáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito tão acabado do perfeito e do eterno.

 

Miguel Torga, Diário II, 3ª dição, Coimbra, 1960, pág. 72

 

 

(Le Bois - Nadir Afonso)

 
1.- Mapa do itinerário da caminhada

 

  

2.- Consierações à volta da caminhada 

 

Com esta caminhada deixámos o território da Mancomunidad de Municípios da Comarca de Verín, constituída por Laza, Cualedro, Verín, Monterrei, Oimbra, Castrelo do Val, Vilar de Vós e Riós, que fazem paredes meias com o concelho de Chaves, Portugal.

 

A partir desta caminhada, vamos para outras paragens, mais a sul da Gallaecia, terras que têm a ver com a origem da nacionalidade portuguesa, mais precisamente as terras do Douro Sul.

 

As palavras acima citadas de Miguel Torga, quando diz que a «realidade telúrica de um país, descoberta pelos métodos de um almocreve, é muito mais instrutiva do que trinta calhamaços de história, botânica e economia», são, para quem é um andarilho, uma verdade inquestionável.

 

Na verdade, caminhar ao sol, ao vento, à chuva, ao frio, quer por entre fraguedos ou pradarias verdejantes ou por searas secas, é, efetivamente, para mim, um espetáculo de plenitude  e, como diz o nosso velho e saudoso poeta, sentimos em nós, no nosso espírito, um sentimento «tão acabado do perfeito e do eterno»!

 

Mesmo que, sem nos apercebermos, ao percorrer as veredas, caminhos e barrancos desta nossa querida Gallaecia, a volta de uma curva, se transforme num calvário e numa flagelação do corpo. Mas, no final da tarefa cumprida, sentimo-nos como uma espécie de ressuscitados, renascidos para um outro amanhã.

 

E é aqui, neste brutal sofrimento que, muitas vezes, representa uma subida ao cimo de uma serra ou ao píncaro de um monte, que as palavras de Torga são efetivamente premonitórias quando afirma que é «com o seu próprio corpo que o homem mede o berço e o caixão».

 

A jornada de hoje tinha tudo para ser mais uma simples e natural caminhada pelas terras cobiçadas, nos primórdios da nossa nacionalidade, pelos então senhores do Condado Portucalense e os do reino da Galiza.

 

Partimos do sopé do Castelo/Fortaleza de Monterrei, com os seus característicos vinhedos,

  

 
adegas e tavernas típicas

 

 

 

e por ”talleres” de verdadeiros artistas do granito,

 

 
passando por uma rota do rio Bubal e do Tâmega e pelo Caminho Sanabrês de Santiago, via Xinzo de Limia, 

 

 
em direção a Infesta,
 
 
 
lugar de passagem para um ligeiro descanso, e tratamento de um joelho arreliador. 
 
 
 
 Aí aproveitamos para comer um  merecido e espartano pequeno-almoço.
 
 
E, continuando caminho, passámos por uma presa de água, que também serve de ponto de água para incêndios florestais.
 
 
 
 E, subindo, os caminhos dos montes de Infesta,
 
 
(Percurso nº 1)
 
 
(Percurso nº 2)
 

a meio da sua subida, vislumbra-se esta panorâmica sobre Infesta.

 

 
 
 

Calejados já com os novos meios de orientação, íamos descontraídos. Ora passámos por terremos pejados de mimosas ora por pinhais.

 

 

 

 E, neste subir descontraído,

 

 

 

entretidos pela paisagem e pela vegetação,

 
 
 
nem sequer nos demos conta, mesmo munidos, como digo, dos instrumentos de navegação mais sofisticados, que descansavam pacatamente nos nossos bolsos, que teríamos de enveredar por um outro caminho que nos levaria a uma outra cota, mais superior.
 
 
 

Embalados pelo bonito traçado do caminho e pelo calor da conversa entre pai e filho, por um lado, e pelo silêncio e contemplação pura dos altos que aquela natureza nos oferecia, por parte do amigo que os acompanhava -  este humilde escrevinhador -, que seguia um pouco mais atrás,

 
 
 
a páginas tantas, não tivemos outra solução, ou remédio, para atingirmos a cota que a nossa rota exigia, que "trepar" por um aceiro ou corta-fogo!
 
 
 

De princípio, a "coisa" ainda foi indo, mas a meio…! A cada duas ou três passadas uma paragem!

 

Foi, como disse, um verdadeiro calvário para chegar ao cimo. Felizmente que o cimo do aceiro não era o Gólgota!
 
 
 

Aquela pequena parede, ou montículo de pedras, onde repousámos um pouco, hidratando-nos com os últimos abastecimentos de água que levávamos, transformou-se num paraíso! Nunca um montículo de pedras quase soltas, mal-amanhadas, nos pareceram um colchão de tão finas, leves e suaves penas!

 
 
 

Chegados ao cimo do aceiro, algo me pareceu estranho: não vislumbrei nenhum caminho digno desse nome, mas sim um outro aceiro. Só que, desta vez, a descer bem a pique!...

 

Algo se deveria ter passado no traçado do itinerário feito por Fábio!

 

E, não havendo outro remédio, há que descer outro tanto quanto subimos – ou porventura mais! -
 
 
  

para, finalmente,  irmos desembocar num caminho que, em ligeira subida, e rodando o monte, nos levou até às proximidades do Forte da Atalaia e, depois, ao Castelo/Fortaleza de Monterrei.

 

Quando vi a veiga de Monterrei e Verín, a meus pés,

 

 
 
e a aldeia de Vilaza,  respirei de alívio!
 
 
 
Chegados ao Forte
 
 
 
 e às proximidades do Castelo/Fortaleza de Monterrei, tivemos ainda que subir um bocadinho
 
 

 

até nos embrenharmos na calçada que, descendo do Castelo /Fortaleza de Monterrei, nos conduziu atá à capela de São Lázaro, término da nossa última caminhada por terras-palco de escaramuças no período medievo entre os terra-tenentes do Condado Portucalense e os senhores do reino da Galiza que, por estas bandas, acordaram fazer fronteira (política).

 

Nossa próxima caminhada, como acima já refimos, vai ser em terras que foram o berço daquilo que hoje somos – Portugal.

 
 
 

Deixo agora, para visionamento do(a) leitor(a), um singelo diaporama desta caminhada.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].

 

 


publicado por andanhos às 19:37
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