Quinta-feira, 30 de Maio de 2013

Caminho de Santiago nas Galiza - 12ª Etapa

 
 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO NA GALIZA

 

II Parte

12ª Etapa:- Ribadiso da Baixo – Monte do Gozo

[28.Abril.2013]

 

 

A paisagem não pertence a ninguém, e o caminhante usufrui de uma relativa liberdade.

Mas virá talvez o dia em que a terra será dividida em partes de recreio,

nos quais alguns encontrarão apenas um prazer fugaz e exclusivo

- onde se hão-de multiplicar cercas, armadilhas e outros engenhos concebidos para confinar

o homem às estradas públicas, e, nesse dia, percorrer a superfície da terra do bom Deus

 será violar a propriedade de um qualquer cavalheiro.

Ser o único a deleitar-se com algo é privar-se do verdadeiro deleite.

Tiremos partido de todas as oportunidades, antes que cheguem tão ominosos dias.

 

Henry David Thoreau - Caminhada

 

De fato, as palavras falam mais alto que as imagens.

As legendas tendem a sobrepor-se à evidência do nosso olhar;

mas não há legenda que possa de modo permanente

restringir ou fixar o significado de uma imagem.

 

Susan Sontag – Ensaios sobre fotografia
 

 

 
 

1.- Percurso da etapa

 

 

 
 

2.- Desníveis da etapa

 

 

 
 

3.- Descrição sucinta da etapa

 

 

Choveu de noite. A manhã estava fresca. Levantámo-nos à hora do costume: 7 horas locais.

 

Como disse no post da etapa anterior, fomos ao Bar/Restaurante, ao lado do albergue, tomar o pequeno-almoço. Não havia pão fresco ainda. Comemos um “croissant” com café com leite e bebemos um sumo natural de laranja. Comprámos ainda umas barras de cereais com chocolate para comermos a meio da manhã.

 

Apesar de o ambiente se apresentar húmido, por ter chovido, contudo, o dia apresentava-se melhor do que no dia anterior. Prometia, pois, sol.

 

 
Em pouco mais de meia hora, decorridos 2, 8 Km,

 

 

estávamos a atravessar Arzua, local onde se junta o Caminho do Norte com o Francês.

 

 

Atravessámos toda a cidade de Arzua, através de uma enorme avenida até entrarmos no “casco velho”.

 

(Tino fotografando o casco velho)

 

(Pormenor de uma habitação)
 
Desde o albergue de Arzua, no núcleo antigo, onde também se situa a igreja da Madalena (século XIV), que teve também mosteiro e foi antiga hospedaria de peregrinos, hoje em ruínas,

 

 

e até Pedrouzo/Arca, ao longo deste troço do Caminho, foi um constante rodopiar de caminheiros-peregrinos e ciclistas.

 

Aqui demo-nos conta de uma excursão de ciclistas, BTT, que, creio, serem portugueses, a encetaram daqui o Caminho de bicicleta até Santiago.

 

Foi exactamente neste troço que, ao longo de todo o Caminho Primitivo, vimos não só a maior concentração de caminheiros-peregrinos como de ciclistas.

 

 

Saídos do perímetro urbano de Arzua, entrámos no ambiente rural. Passando pela Fonte “Os Franceses” e, cruzando o rio Vello, chegámos a As Barrosas, com a sua capela de São Lázaro e passámos pelo Raido.

 

Continuámos a baixar até ao rio Brandeso, afluente do rio Iso e,

 

 

em pouco tempo, estávamos em Preguntoño, com a sua ermida de são Paio, do século XVIII. Segue-se Peroxa. Os eucaliptos começam a povoar, cada vez mais, a paisagem galega e os prados particulares cultivados de milho.

 

Baixámos até ao riacho de Ladrón para, depois, alcançarmos Taberna Vella.

 

(Um casal de peregrinos fazendo uma pausa)
 

Logo imediatamente a seguir vem Calzada, da paróquia de Burres, último núcleo habitado do concelho de Arzua. A partir daqui entrámos no concelho de O Pino. E a primeira povoação que encontrámos é Calle, aldeia de São Breixo de Ferreiros.

 

Entretanto o Caminho apresenta algumas veredas de encanto.

 

 
Passámos por Boavista e Salceda, junto da estrada N-547.  Em Salceda parámos num café

 

 
para descansar e comermos uma apetitosa empada.

 

 
De realçar no teto deste café um cachecol do Grupo Desportivo de Chaves, aquando da final da Taça de Portugal, m jogo com o Porto.

 

 

E, logo a seguir, o “memorial” do peregrino Guillermo Watt, falecido enquanto fazia o Caminho.

 

 

Segue-se Oxén, da paróquia de São Miguel de Cerceda, Ras, A Brea e a A Rabiña.

 

Desde estas últimas localidades que vimos referindo fomos acompanhados por um enorme grupo de alunos do Colégio La Salle, de Valência,

 

 

que, de Sarria, como me informou uma das professoras que devidamente os acompanhava, estavam a fazer o Caminho Francês.

 

(A professora vai à frente do Tino)
 
Houve locais, por onde estes jovens passaram, que me fizeram lembrar a Maria José e seu filho Adrian quando, também em Dezembro de 2008, passávamos por aqui fazendo o Caminho Francês.

 

 

No meio desta multidão de peregrinos-caminheiros, por esta área, percorria o Caminho uma caminheira-peregrina, que o Tino não hesitou em identifica-la como escocesa. Parecia uma “speed gonzález”, tal a forma como se movimentava, apoiada em dois cajados. Suas pernas eram bem musculadas para uma senhora!... Em poucos minutos saiu do nosso ângulo de visão.

 

 
Subimos até O Empalme, da paróquia de São Lourenzo de Pastor. Depois passámos por um túnel, debaixo da estrada N-547 e, em poucos minutos, chegámos à ermida de Santa Irene
 
 
 

e à sua fonte barroca. A ermida de Santa Irene é dedicada a uma santa mártir portuguesa. Foi construída graças aos donativos dos nobres que viviam na aldeia próxima - a povoação de Dos Casas.

 
 

Antes de chegarmos ao albergue público de Santa Irene, passámos por um albergue privado. Achámos um lugar interessante, com preços acessíveis quer para o alojamento, quer para o jantar, quer ainda para o pequeno-almoço.

 
 
 
A poucos metros mais abaixo da estrada, um lugar de descanso aprazível, mesmo junto ao albergue público de Santa Irene.
 
 
 Era meio-dia e um quarto. Estava ainda fechado. Era ainda bastante cedo. Depois de descansarmos um bocadinho num dos bancos encostados à frente do albergue, nós, que tínhamos decidido hoje ficar por aqui alojados, decidimos continuar a caminhada até Pedrouzo. Estava um dia lindo. E não resistimos em continuar.
 
 
 
 Passámos por um outro “memorial”, mais modesto, a um outro peregrino falecido no Caminho (peregrina).
 
 
 

Antes de chegarmos a A Rua, refrescámo-nos numa fonte.

 
 
 
 E não esqueço de a A Rua e do seu restaurante o “Acivro” onde, quando fiz o Caminho Francês, ali almocei com o Emídio e a Mónica.
 
 
 

Quando chegámos a Pedrouzo/Arca, sempre subindo ficámos dececionados. O albergue estava completamente cheio com os alunos do Colégio de La Salle, de Valência, amontoados cá fora, à espera da abertura do albergue.

 

Julgávamos que havia ainda mais um outro albergue público, mas não… só privados!

 

Parámos num café para comer uns “bocadillos”, beber una “caña” e tomar um café e, munidos de metade da ração que nos serviram e de água, olhando um para o outro, definitivamente, decidimos continuar e ir ficar a Monte do Gozo.

 

À saída de Pedrouzo/Arca encontrámo-nos com o peregrino espanhol e o seu amigo francês que estavam a fazer o caminho juntos e com os quais já tínhamos ficado em alguns albergues. Tinham decidido ficar aqui em Pedrouzo/Arca num albergue privado. E informaram-nos que, depois de San Roman de Retorta, foram pela via romana e que se perderam um pouco. Mas, disseram-nos, que o percurso era bonito e que tinham comido bem.

 
 

Comunicámos-lhes que tínhamos decidido ficar a Monte do Gozo. E, a partir daqui, até às imediações do aeroporto de Santiago de Compostela, praticamente sempre a subir, “ligámos o turbo” e toca a andar para não se fazer tarde.

 

O percurso que tínhamos pela frente era de mais de 15 Km, depois de termos feito já 20! Aventureiros, metemo-nos a caminho.

 

O caminho inicial, a partir de Arca, é bonito. Um bonito eucaliptal a cheirar bem a eucalipto. Mas o que custou mesmo foi a subida até às imediações do aeroporto de Santiago, chamado de Lavacolla, passando por San Antón, Amenal, pelo rio Brandelos e Cimodevila.

 
 
 Um pormenor depois de Amenal:
 
 
 
Alcançada a subida que nos levou até às imediações do perímetro do aeroporto de Santiago, entre a A-54 e a N-634, logo a seguir, e numa descida, um monólito, com um bordão, a cabaça e a vieira, a indicar-nos que acabámos de entrar no município de Santiago de Compostela.
 
 
 

 E a sinalização é outra, modifica-se.

 
 

Nas imediações da vedação, cravada de cruzes, que limita o perímetro do aeroporto, parámos um bocadinho para descansar, tirando as botas e as meias dos pés.

 

Enquanto descansávamos, apareceu-nos um australiano e um brasileiro, na casa dos vinte anos. Tal como nós, pararam para descansar. O brasileiro chamava-se Marco e vinha, fazendo o Caminho Francês, de Pamplona; o australiano iniciou o Caminho já desde França.

 
 
 
Após um ligeiro descanso, seguimos caminho e, imediatamente logo à direita, o bar Casa Porta de Santiago onde, quando fiz o Caminho Francês, em 2008, eu, o Emídio e a Mónica parámos para refrescar, bebendo uma “caña”.
 
 

Logo a seguir a este estabelecimento, uma igreja.

 
 
 

Descendo, passámos por São Paio, a A Esquina e Lavacolla. E, logo a seguir, a paróquia de São Pelayo com a sua igreja, do ano de 1840.

 
 

Atravessámos o rio Sionlla e, a partir daqui, iniciámos uma cómoda subida que praticamente acabou no Monte do Gozo, depois de passarmos por Vila Maior, onde fomos ultrapassados pelos jovens australiano e brasileiro.

 

Eis alguns trechos do Caminho:

 
(Trecho nº 1)
 
 
(Trecho nº 2)
 

Passámos pelo centro da TVG e, rodando noventa graus à esquerda, passámos pelo centro territorial da RTVE até chegarmos à urbanização de São Marcos, ante sala do Monte do Gozo.

 

No Monte do Gozo encontra-se erigido um monumento, do ano de 1993, por ocasião do ano jacobeu, comemorando a vinda do Papa João Paulo II.

 

Aqui também se construiu um albergue de peregrinos – um enorme complexo com todos os serviços – o maior de todos o s Caminhos, com capacidade para 300 pessoas, em ano normal, mas que, em anos jacobeus, pode albergar até 800.

 
 
 

Parámos na pequena capela de São Marcos. De um bar ambulante, ali existente, tomámos uma bebida e descansámos um pouco. Logo de seguida tirámos uma série de fotografias ao monumento e à capelinha de São Marcos.

 
 
(Capela vista do exterior, de frente)
 
(Pormenor esterior da capela)
 
 
 
(Pormenor interior da capela)
 

Procurámos descortinar as torres da catedral de Santiago… mas não vimos nada! Foi necessário uma explicação suplementar da albergueira para, saindo do albergue, ir procurar o melhor sítio para obter uma fotografia das torres. Creio que, se não estivesse tanto vento e frio, teria procurado melhor localização para o efeito. Foi o que saiu. Mas não me deu assim tanto gozo!...

 
 
 

Enfim, foi, positivamente, uma etapa com uma reta final penosa, em particular depois de Vila Maior. Os meus pés e as minhas pernas já acusavam um sério cansaço e fadiga. Mas, aqui no Monte do Gozo, estávamos já a menos de cinco quilómetros de Santiago de Compostela!

 

Tratadas as questões burocráticas, fomos para as nossas camaratas. Tomámos banho. Descansámos e, passada uma hora, descemos até ao restaurante-cafetaria do complexo para comermos qualquer coisa. Entretanto a metade dos “bocadillos” que trouxemos de Pedrouzo/Arca já tinham ido!

 

Na cafetaria do complexo do albergue de Monte do Gozo tirei uma foto ao Tino, em plena descontracção. Postei-a na minha página do Facebook e, de seguida, fomo-nos deitar pois estávamos verdadeiramente cansados, “feitos num oito”.

 
 
(Pormenor do recinto contíguo à cafetaria/bar/restaurante do complexo do albergue de Monte do Gozo)
 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 


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Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago na Galiza - 11ª Etapa

 
 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO NA GALIZA

 

II Parte

11ª Etapa:- As Seixas – Ribadiso da Baixo

[27.Abril.2013]

 

 

Ao passo que todos os homens sentem uma atração por algo que os impele para a sociedade,

Poucos se sentem atraídos pela Natureza.

Na sua relação com a Natureza, os homens parecem-me geralmente

Não obstante as suas artes, de condição inferior aos animais.

Quão pouca consideração temos pela beleza da paisagem.

 

Henry David Thoreau - Caminhada

 

A necessidade de tirar fotografias é um princípio indiscriminado,

pois a prática da fotografia identifica-se agora com a ideia de que

tudo no mundo pode adquirir interesse graças à câmara.

Mas esta qualidade de ser interessante, tal como a de manifestar humanidade, é vazia.

A captura do mundo pela fotografia, com a sua ilimitada produção de referências sobre a realidade,

 torna as coisas homólogas.

A fotografia não é menos redutora por ser informativa do que quando revela formas belas.

Desvendando a curiosidade dos seres humanos e a humanidade das coisas,

 a fotografia transforma a realidade numa tautologia.

 

Susan Sontag – Ensaios sobre fotografia

 

 

 

 

1.- Percurso da etapa

 

 

 

2.- Desníveis da etapa

 

 

 

 

3.- Descrição sucinta da etapa

 

Levantámo-nos à hora do costume e, depois de comermos um bolo seco, acompanhado de café com leite, na Casa Goriños, partimos de As Seixas às 7 horas e 30 minutos locais.

 

 
Subimos um monte, através de um caminho pedregoso,

 

 

até Casacarriño. Corria um vento frio, não tanto intenso como na noite anterior,

 

 

 

(Pormenor de uma porta de uma habitação)
 
contudo, as vistas que se observavam eram bonitas.

 

(Paisagem nº 1)

 

(Paisagem nº 2)

 

(Paisagem nº3)
 

Depois de Casacarriño descemos até a Hospital das Seixas, onde, à saída, há uma zona de descanso e uma fonte.

 

Por estrada de asfalto, subimos até ao cume da serra de Careón, a 710 metros de altitude. Aqui é a divisão das duas províncias – de Lugo e Coruña.

 

 
Em pouco tempo, e descendo, estávamos em Vilouriz.

 

 
Nesta hora do dia, entre as oito e as 9 horas, foi um encanto atravessarmos caminhos de bosque com toda a passarada a chilrear, nos seus habituais trinados e namoros de primavera.

 

 

Entre nós fez-se um profundo silêncio, deixando que a Natureza se ouvisse com mais clareza, no seu estado puro.

 

 
A maioria do entorno era constituído por prados de planalto. Em pouco tempo também, e guardando ainda o silêncio para deixar falar mais alto a Natureza, descendo, e continuando por meio prados,

 

 

estávamos em Vilamor, onde existe uma fonte por detrás da igreja.

 

Seguimos depois a estrada local por uma zona mais arborizada.

 
 
Passámos pelo rio Furelos e,

 

 

percorridos 3,5 km, entrámos em Melide, passando por Compostela, da paróquia de San Salvador, onde, resguardados por uma paragem de autocarro, tivemos que fazer uma pausa por via de uma enorme saraivada que entretanto caía. Enquanto esperávamos que a borrasca amainasse, apareceu-nos uma aldeã que, entabulando conversa connosco – e estranhando este nosso gosto por caminhar – nos relatou um pouco da sua via, em especial quando emigrante bem assim da enorme consideração que tem pelos portugueses com quem lidou na época da emigração e da ajuda que lhe prestaram…

 

 

Melide é constituída por 26 paróquias e está situada no centro da Galiza, na vertente ocidental da serra do Careón.

 

Foi um povoado pré-romano e, segundo consta, foi repovoado pelo arcebispo Gelmírez. A igreja românica de São Pedro foi trasladada para o Campo de são Roque, sendo agora conhecida como a capela de São Roque.

 

 
A capela, de românico, apenas conserva a portada.

 

 

Neste mesmo local pode-se encontrar o cruzeiro do século XIV, considerado o mais antigo da Galiza.

 

 

É aqui em Melide que acaba o traçado do Caminho Primitivo para se unir ao Francês.

 

 

O tempo estava de aguaceiros, com algumas abertas, e foi com um sol radiante que entrámos na Praça do Convento de Melide, onde se procedia a uma “juntança” de gaiteiros e grupos da zona.

 
 
No Convento do Sancti Spiritus observámos a fachada da sua igreja,

 

 
 bem assim um pormenor da sua fachada,

 

 
e entrámos no seu interior,

 

 

bem como observámos a fachada do Ayuntamiento (Casa do Concello), do século XVIII, e a capela de Santo António.

 

 

E não deixámos de nos misturar com tantos e tantas artistas da “gaita”, da viola, do bombo e da pandeireta, tirando aqui e ali uma ou outra fotografia de um ou outro grupo ou pormenor numa completa mistura de grupos e de peregrinos.

 

 

Num bar das proximidades do largo do Convento, entrámos para comer umas tapas do bom queijo da região, acompanhado de pão e café com leite.

 

 

Como começasse a chover aguaceiros intensamente, recolhemo-nos no Museu da Terra de Melide por um pouco. Ali pedimos à simpática recepcionista que nos selasse as Credenciais e, ajudando-nos a vestir o “poncho”, para nos resguardar da chuva, botámos caminho.

 

Não nos dirigimos à célebre “pulperia” Ezequiel. Na verdade, o polvo que comemos ao entrar na Galiza, por Fonsagrada, tinha-nos enchido, por completo, todas as medidas!

 

 
Passada a área urbana de Melide, atravessámos os seus arredores, baixando até à estrada N-547, que cruzámos de frente com a CP-4603 em direcção a São Martinho. Perto de um restaurante “parrillada”,

 

 
voltámos à direita e fomos visitar a igreja de Santa Maria de Melide. É um templo românico, dos finais do século XII, com uma só nave e abside semicircular que alberga a única “reja” (grade) românica da Galiza.

 

 
Tem por perto um bonito cruzeiro.
 
 

E seguimos em frente para Carballal, por um entorno rodeado de eucaliptos, árvores de folhas caducas e prados, até chegarmos ao rio Catasol, afluente do rio Furelos, que o atravessámos por meio de um empedrado, tipo poldra. Neste local encontrámos uma família a vender aos caminheiros-peregrinos “bugigangas”, essencialmente com temas do Caminho. Eu e o Tino comprámos-lhes umas pedrinhas com a seta amarela.

 

 

É bem verdade que estas paisagens, neste troço, são dignas de verdadeiros postais ilustrados!

 

 
Seguindo debaixo e ao longo de um eucaliptal, depois de ultrapassarmos o arroio de Valverde e Peroxa (Km 4,5), entrámos em Boente e ao lugar de Punta Brea. Ao quilómetro cinco depois de Melide, estávamos na aldeia de Boente de Arriba, onde, além de uma bela igreja dedicada a Santiago,

 

 
num dos seus anexos, selarmos as nossas Credenciais.

 

 

Existe nesta localidade a célebre fonte de “La Saleta” com suas águas frescas e cristalinas para os caminheiros-peregrinos se refrescarem, convidando a uma pausa.

 

 

Rodeados de prados, enfrentámos uma dura subida, passando por vários lugares das paróquias de Figueiroa e Castañeda. Neste lugar, encontravam-se os célebres fornos de cal: era aqui que os peregrinos, na idade média, depositavam as pedras que traziam de Triacastela.

 

Pelo asfalto descemos até ao arroio Ribeiral, localizado entre Pedrido e Rio e, continuando a descer, sempre no asfalto, e durante dois quilómetros, até ao rio Isso, chegámos a Ribadiso da Baixo, aldeia da paróquia de Rendal.

 

Foi aqui, do lado direito do rio, atravessando a ponte medieval que aqui se encontra,

 

 

que escolhemos o albergue, existente neste local, para pernoitarmos.

 

 

Este albergue, que outrora foi hospital de peregrinos, com a designação de San Antón, depois de restaurado, transformou-se num albergue público interessante, com uma envolvente – o rio Isso e a ponte medieval -, bucólica, convidando a um belo disfrute e descanso. Pena que o tempo estivesse demasiado plúmbeo, com alguma chuva de permeio.

 

Não gostámos da localização da zona de balneários e das casas de banho, todas elas fora do mesmo espaço onde se situa o dormitório. Quando está frio, vento ou chuva, como nos aconteceu, não é muito agradável – e até prejudicial para a saúde – ao atravessarmos, a céu aberto, um espaço, mesmo pequeno que seja.

 

Ao lado, e do outro lado da estrada, junto ao albergue público, existe um alojamento privado e, do outro lado, um bar/restaurante que servem muito bem, embora os preços sejam pouco módicos.

 

 

Foi ali que jantámos, opiparamente, uma grande costeleta de “ternera” bem assim, no dia seguinte, antes de iniciarmos a nossa etapa, aí tomámos o nosso pequeno-almoço.

 

 

Já estávamos devidamente acomodados nas nossas camaratas, prontos a dormir, iniciando os célebres e característicos “roncos”, próprio destas situações, quando se faz sentir um barulho.

 

Primeiro pensei que fosse o meu companheiro ao lado da camarata que estava com uma destas constipações mas, abrindo bem os olhos, e observando melhor, apercebi-me que eram os nossos amigos (as) de Alicante. Eram quase 10 horas da noite!

 

Só me apercebi que, mal chegou, a Marilu (a nossa Maria Preta), depois de acomodar as suas coisas na camarata, caiu sobre a cama e ali ficou até ao outro dia de manhã. Deveriam ter tido uma boa estafa naquele dia!

 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 

 


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Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago na Galiza - 10ª Etapa

 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO NA GALIZA

 

II Parte

 

10ª Etapa:- Lugo – As Seixas

[26.Abril.2013]

 

 

Do cimo de muitas colinas, avisto ao longe a civilização e os domínios do homem.

Os camponeses e as suas plantações pouco mais se destacam do que as marmotas e as suas tocas. Agrada-me ver o espaço diminuto que os homens e os seus afazeres, a igreja, o estado e as escolas, o comércio e os negócios, os produtos artesanais e a agricultura, e até mesmo a política, de todos o mais alarmante, ocupam na paisagem. A política não passa de um campo minúsculo ao qual se acede por uma estrada ainda mais estreita. Por vezes, encaminho o viajante até lá. Se quereis ir para o mundo da política, segui a grande estrada – segui o comerciante, sem perder de vista a poeira que ele levanta, e lá chegareis rapidamente, pois o seu mundo tem também o seu lugar próprio e não ocupa todo o espaço. Afasto-me disso como quem, vindo de um faval, penetra na floresta, e logo o esqueço. E meia hora de caminho, alcanço lugares da superfície da terra onde nenhum homem permanece o ano inteiro, e onde, por consequência, não medra a política, que tanto se assemelha a fumo de charuto.

 

Henry David Thoreau - Caminhada

 

A visão fotográfica significa uma aptidão para descobrir beleza

 no que toda a gente vê mas menospreza por demasiado vulgar.

 

Susan Sontag – Ensaios sobre fotografia

 
 
 
1.- Percurso da etapa 
 
 
 
2.- Desníveis da etapa
 

 

 
 
3.- Descrição sucinta da etapa
 

Como referi no post anterior, estávamos para ficar um dia em Lugo, a meio do nosso percurso, não só para descansar um pouco mas, essencialmente, para melhor conhecer esta antiga cidade galega. Contudo, com a ameaça do tempo a arrefecer significativamente, e de chuva, achámos por bem, quando tomávamos o pequeno-almoço, continuar o nosso Caminho, deixando a visita pormenorizada da cidade, em particular das suas muralhas e monumentos, para outra altura.

 

Assim, depois de tomarmos o pequeno-almoço, já passava bem das oito horas locais, num café do centro histórico da cidade, em definitivo, optámos por continuar o Caminho.

 
(Café onde tomámos o pequeno-almoço)
 
(Pormenor do interior do café)

 

A etapa de hoje levávamo-nos até San Roman de Retorta. Sucede, porém, que, ao chegarmos a San Roman de Retorta, o albergue público encontrava-se fechado e o albergue privado, segundo nos foi dito, não prestava serviços de qualidade. Mesmo o bar, ao lado, encontrava-se fechado. E, assim, face a estas condições, decidimos continuar caminho até ao albergue de As Seixas. E optámos não ir pela via romana, como a maioria faz, por encurtar 1, 4 Km do Caminho, seguindo pelo velho e oficial traçado do Caminho Primitivo, todo ele quase sempre efectuado pela estrada LU-P-2901.

 

Deixámos Lugo descendo pela rua de Santiago e pela Porta com o mesmo nome.

 

(Aproximação a Porta de Santiago)

 

(Porta de Santiago)

 

Não passámos pela ponte romana ou Ponte Vella por se encontrar em obras,

 

 

seguindo paralelos ao rio Minho, por um vasto parque verde, com um enorme recinto de equipamentos,

 

 

até à ponte pedonal, junto à igreja de São Lázaro.

 

 
E, subindo, afastámo-nos da malha urbana lucense, entrando nos seus arredores com moradias interessantes,

 

 

lançando-nos, primeiro, na estrada nacional N-540 e, um quilómetro depois, na estrada LU-232 até desembocarmos na já referida LU-2901 que, em mais de vinte, quase trinta, quilómetros, tivemos que percorrer.

 

A primeira localidade mais importante, ao longo desta estrada, foi Seoane; a segunda, San Vicente do Burgo, com a sua característica fonte

 

 
e a sua igreja, 

 

 
bem assim um seu peculiar forno. 

 

 

Como disse, foi uma etapa toda ela sob o asfalto, com um ou outro desvio com caminhos e veredas interessantes para quebrar a monotonia desta enorme etapa.

 

 A envolvente, contudo, autenticamente rural, é interessante.

 

(Pormenor ao Km 90, 777)

 

(Cena da vida agrícola)
 
(Pormenor de um caminho)

 

De interesse, para além da paisagem envolvente, são as suas igrejas. Principalmente a de Bacurin.

 

(Vista geral da igreja de Bacurin)

 

(Abside tipicamente romana)

 

(Portada principal da igreja de Bacurin, também românica)
 
Em San Roman de Retorta é de destacar a eremita, de origem românica, do século XII.
 
 

Nesta localidade encontra-se uma réplica de um marco miliário e aqui começa a variante romana do Caminho Primitivo que se vai encontrar com o oficial, ou traçado original, em (Ponte) Ferreira.

 

 
Mais à frente encontra-se a igreja de Santa Cruz de Retorta, também românica e do mesmo século XII.
 
 

De San Roman de Retorta até Ponte Ferreira, quase sempre pelo asfalto, passámos por um território tipicamente rural, atravessando pequenas aldeias e paróquias sem qualquer bar, café ou comércio, entre elas, Vilamaior, Xende e Senande, embora com alguns trechos de paisagens rurais bem bucólicas.

 

 
Só em Ponte Ferreira é que encontrámos uma casa rural – a Casa da Ponte -.

 

 

Aqui parámos para descansar um pouco e comer e beber qualquer coisa. O presunto e o queijo, tão afamado, da comarca de Ulloa, estavam verdadeiramente saborosos, no ponto. E o seu proprietário, pessoa delicada, foi de uma grande afabilidade.

 

 
Passada a pequena ponte romana, de um só e simples arco, mesmo ali junto à Casa da Ponte,

 

 
e um albergue privado,

 

 
em subida, rumámos até As Seixas. Cinco longos quilómetros!... Pelo caminho passámos por Laboreira; pela estrada que se dirige a Palas de Rei e pelas localidades de San Xorxe e Merlan (San Salvador).

 

(Pormenor de uma janela pelo Caminho)

 

Destaca-se aqui a fonte de Aguas Santas.

 

 

O albergue de As Seixas, da Xunta, aberto em 2010, fica à direita do Caminho. É uma construção em pedra com um interior aprazível: um lugar de conforto no meio de um mundo rural profundo. Desde a sua simpática e simples albergueira até às suas instalações, cinco estrelas.

 

 

Fomos encontrar nele apenas um casal que, supomos, serem alemães. Pernoitámos aqui apenas os quatro. Todos os outros peregrinos-caminheiros, que nos acompanharam nas etapas anteriores nos albergues, eclipsaram-se.

 

Para comer bastou descer uns poucos metros e, à direita, fomos dar à recente inaugurada (algumas partes ainda em obras, pois também tem alojamento privado) Casa Goriños.

 

Aqui, ao jantar, a comida era tipicamente galega. E, daqui, telefonei para o meu Pê, em trânsito para o Brasil, à Ni e mandei uma mensagem de parabéns à minha sobrinha Dulce que neste dia faz anos. E tive ainda tempo de postar, na minha página pessoal do Facebook, o reclame, em lousa, da casa onde jantámos.

 

Fazia um frio de cortar à faca, desconfortável. Por isso, apressámo-nos para ir para o albergue, deixando de dar uma volta pela aldeia.

A roupa que tínhamos levada já estava praticamente seca.

 

Confortáveis no albergue, em pouco tempo, ficámos a dormir, depois de um dia passado, na sua maior parte, sobre o asfalto.

 

 

 

(Tino escrevendo as suas notas)

 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 


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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago na Galiza - 9ª Etapa

 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO NA GALIZA

 

 

II Parte

 

9ª Etapa:- O Cádavo Baleira – Lugo

[25.Abril.2013]

 

 

Uma paisagem nunca vista é uma grande felicidade,

e em cada volta há sempre algo novo.

Bastam duas ou três horas de caminhada para me

encontrar em regiões desconhecidas que nunca esperaria ver.

Uma simples casa de campo com que ainda não me deparara

é por vezes tão notável como os domínios do rei de Daomé.

 

Henry David Thoreau - Caminhada

 

O pintor constrói,

O fotógrafo revela.

(…) Em fotografia, mostrar qualquer coisa

é mostrar o que está oculto.

 

Susan SontagEnsaios sobre fotografia

 

 
 
1.- Percurso da etapa
 

 

 
2.- Desníveis da etapa
 

 

 
 
3.- Descrição sucinta da etapa
 

Saímos de O Cádavo Baleira às 7.34.

 

O primeiro troço do Caminho foi agradável, embora, no início, a subir até ao Alto da Vacariza.

Vimos nascer o sol e,
 

 

 
pouco depois, após de passarmos por um pinhal, e após uma ligeira descida, fomos ao encontro da capela del Carmen,

 

 

rodeada de uma aprazível área de descanso e recreio. Estávamos já nas redondezas de Vilabade.

 

 
Logo à entrada da povoação demos com um velhote – tio Constantino,

 

 

assim se chamava o senhor, que nos fez dirigir para a sua “tienda” de artesanato em madeira.

 

 

Aqui se mostra um dos escaparates onde expõe a sua obra. Eu trouxe-lhe uma miniatura de par de botas; o Tino trouxe mais coisas e não resistiu em trazer um cajado. Como cada um trazia já o seu, de bom grado arrumei o meu monopé para, de vez em quando apoiar a máquina fotográfica, que o utilizava como cajado, na mochila, e, durante todo o percurso, utilizei este novo “palo”. O acordo foi o seguinte: eu trazia o cajado mas, o mesmo, seria oferecido como recordação do pai Tino aos filhos - Rodrigo e Martim.

 

Depois de efectuado o negócio com o tio Constantino, dirigimo-nos para a Igreja de Vilabade,

 

 

construída sobre os restos de um mosteiro franciscano, e considerada a Catedral de Castro Verde. Trata-se da igreja dedicada a Santa Maria, do século XV, em estilo gótico que conta, no seu interior, com um retábulo de Santiago Matamouros.

 

Ao lado da igreja de Santa Maria, o Pazo de Vilabade, convertido em Casa de Turismo Rural.

 

 

(Pormenor nº 1 do Pazo)

 

(Pormenor nº 2 do Pazo)

 

Juntámo-nos debaixo do alpendre da igreja (ou nártex?) os quatro portugueses, que entretanto chegaram, que estavam a fazer o Caminho, fazendo médias loucas de quilómetros por dia, e que pernoitaram connosco no albergue de Cádavo Baleira e com um casal – uma italiana e um alemão -, a descansar um pouco, beber água e tirar roupa, pois estava já a fazer bastante calor.

 

 

De Vilabade a Castroverde é um pulo, sempre pela estrada. Logo à entrada de Castro Verde, e à direita do Caminho, o albergue, construído em madeira.

 

 
Passámos em Castro Verde e, embora houvesse bares e comércio, não parámos muito tempo. Apenas o suficiente para tirarmos uma fotografia à Fonte dos Nenos (uma escultura em pedra com os nenos [meninos] resguardando-se debaixo de um guarda-chuva de metal), à Casa do Concello e,

 

 

ao longe, à Torre do antigo castelo feudal dos senhores de Lemos e depois dos senhores de Altamira.

 

 

À saída de Castro Verde ainda andámos um bocadinho por um caminho de bosque, de terra batida. Mas foi sol de pouca dura. A partir de certa altura o percurso é todo ele feito em asfalto. E com um calor intenso. Um verdadeiro degredo. Positivamente não gosto do asfalto. E, de um modo especial, com calor! O que nos ia distraindo era o ambiente envolvente, tipicamente rural e com uma arquitectura relativamente bem conservada.

 

 
Passámos por Souto de Torres, com o seu cruzeiro  

 

 

e a sua igreja, por Vilar de Cas e fomos lentamente subindo até Santa Maria de Gondar.

 

 

(Pormenor do interior de uma casa em ruínas)
 

Ao longo destas aldeias não há cafés, bares ou qualquer comércio. Existem, porém, máquina de bebidas e alimentos para o peregrino se munir. Numa delas parámos para tomar uma bebida fresca e um café e tirar as botas e as meias para descansar.

 

 

Continuando ainda no asfalto, e sempre a subir, passámos por uma pedreira em direcção a As Casas da Viña, quase sempre por estrada. Uma ou outra placa, ao longo da estrada vai-nos indicando de que se trata de um desvio provisório mas, pelo que consta, trata-se de um desvio com mais de cinco anos! Durante este percurso, vimos, a poucos metros dos nossos olhos, um corso e dois esquilos. A máquina fotográfica não foi suficiente ligeira para registar o momento. Paciência!

 

Em chegando a As Casas da Viña, o caminho começa a ser em terra batida, em direcção a Lugo, que já nos fica relativamente perto, depois de tantos quilómetros andados.

 

(Pormenor de uma marco "mojón" do Caminho)
 
Até atravessarmos a ponte sobre a A6 - Autovia do Noroeste – o ambiente continua a ser tipicamente rural, essencialmente lameiros com vacas a pastar.A partir daqui, e ultrapassada aldeia de Castelo, Lugo já nos fica em frente.

 

 
Em pouco tempo estávamos atravessando o bairro A Chanca, cruzando um rio que leva o seu nome, por uma ponte de origem romana. Subimos a rua Chanca, as escadas de Fontiñas, cruzámos a ronda das Fontiñas, prosseguimos pelo carril de Flores

 

 
Flores e logo nos encontrámos no recinto amuralhado de Lugo.

 

 

Entrámos no Centro Histórico de Lugo pela Porta dita de São Pedro

 

 

e virámos na segunda rua à direita, com a designação de Nória, para nos dirigirmos ao acolhedor albergue da Xunta. Estávamos estafados, sob um sol abrasador, depois de percorridos 34,5 Km.

 

 

Apesar de cansados, foi agradável receber as boas vindas do albergueiro, ao ficar radiante por encontrar um peregrino que tinha exactamente o seu nome próprio, e nascido também no mesmo ano que ele – o meu companheiro, e sobrinho, Florentino.

Que dizer de Lugo? Não vamos aqui falar, porque se tornaria demasiado fastidioso, do passado histórico que esta cidade tem em comum com Chaves. Basta apenas nos lembrar da Sétima Legião Gemina.

 

Destacaremos aqui apenas a sua construção mais importante: a muralha romana, que, no ano 2000, foi declarada Património da Humanidade pela UNESCO. A sua construção data dos finais do século III e inícios do século IV, rodeando completamente a cidade romana Lucus Augusti, pilar fundamental da sua defesa.

 

Como se pode verificar, está excelentemente conservada e, as suas dimensões, são impressionantes: tem um perímetro superior a dois quilómetros, uma altura que oscila entre os 8 e os 12 metros e uma grossura média de 4 metros. Conserva ainda a maior parte das suas 86 torres defensivas e, por motivos logísticos, ligados à modernidade, abriram-se novas novas às cinco originais.

 

Estávamos para ficar em Lugo um dia, conhecendo melhor a cidade. Contudo, de acordo com os dados da meteorologia que nos chegava, estávamos perante a ameaça de uma frente fria e de chuva, o que acabou por ditar a nossa decisão de continuar no dia seguinte o Caminho; caso contrário, teríamos percorrido a adarve toda desta linda muralha! Seria uma experiência inolvidável e inesquecível. Ficará para outra altura!

 

Depois de nos acomodarmos no albergue; tomado banho; lavado a roupa e descansado um bocadinho, a par de dois dedos de conversa com alguns dos nossos peregrinos-caminheiros que, ao longo destas três últimas etapas, temos encontrado, no final de etapa, nos albergues, fomos conhecer um pouco do seu Centro Histórico. Como tinha já cheios os cartões de memória da máquina fotográfica, há que comprar mais para que desse para fazer a reportagem até Santiago. Por indicação do albergueiro Tino, dirigimo-nos a uma casa da Rua Nova para o efeito. Feita a compra, atravessámos toda a rua até à Porta com o mesmo nome na respectiva muralha, e voltámos para trás para irmos ver a Catedral e o Museu, bem assim a sua Praza Maior, enquadrada pelo edifício dos Paços do Concelho de Lugo.

 

 

(Muralha romana de Lugo à noite)

 

Na verdade, o segundo monumento da capital lucense é a Catedral de Santa Maria.

 

 

 

Dentro das muralhas, é um templo de construção de base românica, iniciado no século XII. São, contudo, os seus elementos barrocos que lhe dão um “colorido” especial, particularmente no seu interior, destacando-se a capela conhecida pelo nome da “Virgem dos Olhos Grandes”.

 

 

Sentámo-nos numa esplanada da Praza Maior, bebendo umas cañas, acompanhadas de uns salgadinhos, observando uma manifestação de pensionistas e reformados. Lá, tal como cá, os mesmos problemas… Triste Europa!

 

 

Demos uma vista de olhos pela Casa do Concello de Lugo bem assim 

 

 
ao edifício onde se aloja o Museu Provincial.

 

 

Como não nos apetecesse muito comer de faca e garfo, à noite fomos para a “Rual del Vino” e suas transversais, comer umas tapas. Petiscos verdadeiramente deliciosos, embora, para o Tino, a “tortilla” é o máximo. E lá veio uma com todos os “matadores”…

 

 

Fiquei encantado com aquela “movida”, com aquele ambiente… apesar de o Wi Fi do meu HTC não funcionar, debalde os esforços do simpático empregado da casa para o pôr a funcionar. Tino fartou-se de gozar o caminheiro-peregrino tecnológico.

 

 

Há dois povos que aprecio pela alegria de viver e encarar a vida: os nuestros hermanos ibéricos e os nossos irmãos brasileiros. Somos demasiados taciturnos, fatalistas, “pesados”, quando a vida é tão curta!... Admiro-lhes toda aquela sua “leveza”! E positivismo.

 

Satisfeitos no corpo e na alma, fomos para a cama do albergue, que já se fazia tarde e há horas para fechar.

 

Quando nos preparávamos para dormir, demo-nos conta que os nossos amigos (as) de Alicante tinham acabado de chegar. Positivamente, para eles (elas), o Caminho é para se ir fazendo. Sem pressas… convivendo.

 

Dormimos como anjos, de uma assentada até à madrugada do dia seguinte!...

 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

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Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

Caminho Primitivo na Galiza - 8ª Etapa

 
 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO NA GALIZA

 

 

II Parte

 

8ª Etapa:- Padrón (Fonsagrada) - O Cádavo Baleira

 

[24.Abril.2013]

 

 

 

A sensibilidade para apreciar a paisagem, tal como se entende hoje,

é um dado relativamente novo na história do homem.

A palavra 'paisagem', surgiu na Europa da Renascença,

esteve primariamente associada à pintura, significando uma vista,

quase sempre agradável, de onde estavam arredados os aspetos

menos pitorescos da natureza (…) Importa salientar, no entanto,

que embora o seu significado se tenha alterado (…),

o termo ‘paisagem’ manteve-se como um pano de fundo para as ações do homem.

Assim, ‘paisagem’, é um espaço misto de natureza e cultura,

onde o homem projeta ideias, necessidades e valores,

numa relação de influência mútua.

 

 

Isabel Maria Fermandes Alves, in Fragmentos de memória e arte

 

 

 
 
 
1.- Percurso da etapa 
 
 
2.- Desníveis da etapa 
 
 
 

 

3.- Descrição sucinta da etapa

 

 

O sítio da internet Gronze bem nos tinha avisado: “é uma etapa durinha pelos contínuos desníveis. A subida a Montouto é progressiva, mas a subida a A Lastra, de pouco mais de um quilómetro, é mortal”.

 

Por isso, quando saímos do albergue de Padrón às 7, 30 horas, locais, iniciámos a etapa com algum receio.

 

Contudo, após a saída de Padrón, depois de passarmos a aldeia e a sua igreja,  

 

 

o troço do Caminho foi agradável e aprazível. Apesar de ser a subir, e de cruzarmos, aqui e ali, com a estrada. O percurso de Padrón até Vilardongo, mas especialmente para Montouto, convidava ao silêncio e contemplação. Depois de Vilardongo e num miradouro ao longo deste troço para Montouto não resistimos a parar e tirar algumas fotos desta espetacular paisagem, verdadeiramente bucólica.

 
(Panorama 01)
 
 
(Panorama 02)
 
(Panorama 03)
 

Depois foi a subida até Montouto. Aqui, no alto, observámos as ruínas de um antigo hospital para peregrinos, desativado no início do século XX, e mandado construir por D. Pedro I de Castela, no século XIV.

 
 

Ao lado, as ruínas, também, de um antigo dólmen neolítico.

 
 

E começámos a descer até Paradavella.

 

A primeira parte é uma longa e larga pista.
 
 

Na parte final, e também mais um pouco a descer, o caminho é mais estreito e com uma ou outra dificuldade.

 
 
 

A primeira construção de Paradavella, de quem vem do Caminho, é a “Casa Mesón”, do senhor António.

 

Aí já estava parado o caminheiro-peregrino Cristóbal, de Madrid, comendo tortilha e bebendo vinho. No final, tomou café com leite.

 

O Tino também pediu uma tortilha (que outra coisa não era senão ovos fritos com chouriço, metidos numa baguete de pão) e bebeu-lhe um ou dois “penalties” (de vinho).

 

Eu fiquei pelo café com leite e dois pedaços de pão torrado com azeite e tomate.

 

Tirei umas fotos à casa, ao dono, e ao amigo Cristóbal e, mochila às costas, lá fomos enfrentar as duras subidas de A Lastra.

 
 
 
Em boa verdade ele são três troços de subida: um primeiro, correndo quase paralelo à estrada, é relativamente agradável, com uma envolvente bem rural;
 
 
(Troço da 1ª subida)
 
(Vista nº 1 para Paradavella do percurso de subida)
 
 
(Vista nº 2 do percurso de subida)
 
a segunda, essa é que não fica mesmo nada a dever à última subida para o Puerto del Palo. Com uma diferença – mais pedregosa e escorregadia, dando a entender tratar-se de o leito de um ribeiro seco.
 
 
(Início do segundo troço de subida)
 

Quer eu quer o Tino, na parte final, estávamos "derredeadinhos".

 
 

Quando pensávamos que, ao chegar a A Lastra, iriamos encontrar um comércio aberto, tal como a informação que possuíamos, demos mas foi com o nariz na porta.

 

Segundo nos disse uma senhora, que estava a entrar para sua casa e, pela cor das suas vestimentas, deveria ser viúva, os senhores da “tienda”, àquelas horas do dia, perto do meio-dia, andavam no campo com as vacas, que lhes dava mais lucro.

 

Valeu-nos a bondade da dita senhora que nos deixou beber água de uma torneira do exterior de sua casa.
 
 
 
Depois de refrescados, matada a sede e enchidas as garrafas de água que levávamos, atacámos a terceira e última subida, antes de descermos para Fontaneira.

 

Atacado o cimo da subida, Tino mata a sede, pois o sol começa a aquecer mesmo!

 
 
 

Depois de chegarmos ao cimo, entrámos num largo caminho, rodeado de pinheiral, e que, como disse, nos conduziu até Fontaneira, na parte final, através da estrada.

 

Em Fontaneira parámos num bar. Tomámos um sumo e um café e… demos descanso às nossas mochilas.

 
 
 

Neste café, enquanto tomávamos o sumo, vi o meu sobrinho preocupado com a saúde de um seu primo. Ainda tentou telefonar para uma sua tia a saber novas, mas não atendeu, acabando por lhe mandar uma mensagem.

 

E seguimos até O Cádavo Baleira.

 

À saída de Fontaneira um linfo “hórreo” de colmo.

 
 
 

Tínhamos ainda, aproximadamente, cinco quilómetros de caminho pela frente para Chegar a O Cádavo Baleira, ora por estrada ora, essencialmente, por caminho de pinhal, mais a subir que a descer, exceto na parte final. Do alto do monte, todo ele colorido e com um céu azul, com uma ou outra nuvem, demos conta já do albergue. 

 
 

Chegados ao albergue da Xunta, Tino deixa-se posar para a foto da praxe.

 
 

Até aqui, nos albergues em que pernoitamos, tínhamos um compartimento só para os dois. No de hoje tivemos que o compartilhar com, salvo erro, seis italianos, que faziam três casais.

 

Quanto ao meu estado geral, uma novidade boa: até aqui ainda não fiz bolhas nos pés. Mas andava um pouco dorido dos pés e das pernas. E, como de costume, continuo a ter dificuldades nas subidas, embora recupere logo bem.

 

O Cádavo Baleira é uma terrinha pequena, que tem uma igrejinha simples, um Centro Social e um Centro de Saúde.

 

Depois de me conectar com a internet no bar do restaurante que nos recomendaram, fazendo horas para o jantar, bebendo um sumo, fomos para a sala de jantar comer: sopa de “berças”, pois já tinha saudades de verdura, embora com muita gordura, e “pollo” assado, caseiro, delicioso.

 

E dirigimo-nos para o albergue, com um céu coberto de nuvens refulgentes, emolduradas pelo seu casario,
 
 
 

para uma merecida noite de descanso e sono pois a etapa do dia seguinte era longa, 31 Km que, em termos de desnível, segundo parece, não é tão “danada” como foi a de hoje!

 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

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Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago entre Astúrias e Galiza - 7ª Etapa

 

 
 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO ENTRE AS ASTÚRIASE A GALIZA

 

 

II Parte

 

7ª Etapa:- Castro – Padrón (Fonsagrada)

23.Abril.2013

 

 

 

 

In nature we perceive elemental forces.

the ‘heavens above, the earth beneath,

and the waters under the earth’. (…)

The essence in the quality of nature is

the unbridled force of its energy and power. (…)

Nature is raw elementar power byond human control. (…)

Landscape is nature converted into na opera

invested with human passion so it becomes

funcionally and emocionally related to the needs

and uses to wich we put nature.

Landscapes are cultivated.

They reflect human values.

 

Lawrence Halprin, citado por Isabel Maria Fermandes Alves, Fragmentos de memória e arte

 

 

 
 

1.- Percurso da etapa

 

 

 
 
2.- Desníveis da etapa 

 

 

 
 

3.- Descrição sucinta da etapa

 

Levantámo-nos às sete e pouco, horas locais.

 

Mas estivemos um pouco à espera até que os donos do albergue nos servissem, às oito horas, o pequeno-almoço: torradas, manteiga, doces variados, sumo de laranja e café com leite.

 

Saímos de Castro às oito e meia e, na saída da povoação, entranhamo-nos num pequeno caminho, tipo bosque, bucólico, cheio de passarada a chilrear.

 

 

 

Quase no fim do caminho, a eremita de São Lázaro de Padraira, reconstruída em 1689. Bonita e interessante.

 

 

 Depois entrámos no asfalto. Com envolvente muito agradável.

 

 

Depois entrámos no asfalto. Com envolvente muito agradável. Mas foi coisa de pouco tempo. Antes de entrarmos na povoação de Penafonte, passámos por um cruzamento que, a três quilómetros, nos levava às galerias mineiras de Penafurada.

 

Atravessámos, subindo, a aldeia de Penafonte. Observámos o seu casario e detivemo-nos numa fonte, junto da sua igreja, dedicada a Maria Madalena, e construída em 1605.

 

 

É, mais precisamente, a partir desta povoação que começa a primeira parte da subida para o alto ou porto de Acebo. Um pouco dura mas, como estava bastante nevoeiro e pouco calor, fizemos bem a subida, embora, pelo menos eu, com algum esforço. Tino diz que não lhe custou nada. Mas, é preciso salientar que, entre nós, há uma diferença de 14 anos de idade!

 

 

A segunda parte, que começa por um caminho mais parecido comum carreiro, foi um pouco mais ingreme, levando-nos, finalmente, até ao porto ou alto e seu respetivo parque eólico.

 

 
Foi pena o nevoeiro, caso contrário teríamos tirados umas bonitas fotos ao parque eólico do Acebo. De qualquer das formas sempre se tiraram algumas e,

 

 

quando estávamos já no cimo, o céu começou a limpar, deslocando-se as nuvens com bastante velocidade, deixando, desta forma, o sol raiar.

 

 

Tino, na sua pose de fotógrafo semiprofissional, não resistindo a captar a descida, término do Caminho Primitivo nas Astúrias.

 

 

Passado o parque eólico, uma placa meio tosca, de 2006, dando-nos a indicar que aqui acabava o Caminho Primitivo das Astúrias e começava o da Galiza.

 

 

A partir daqui foi descer até à estrada, onde se vislumbrava uma habitação branca que nos parecia um comércio.

 

 

Com efeito, a referida construção era o Bar “O Acebo”.

 

Alí parámos. Mudei de roupa, pois vinha todo suado, e descansei um pouco até que o dono da casa nos servisse de comer e beber. Mandámos vir umas tapas de queijo, presunto e chouriço e pão. Para beber o Tino preferiu vinho. Eu ainda provei um pouco, mas o que bebi mais foi água. No fim tomámos um café.

 

Achei graça à decoração do comércio, em particular à exibição de uma coleção de navalhas.

 

 

As vieiras, indicando o Caminho, aqui na Galiza mudam de sentido e, virando à esquerda do comércio “O Acebo”, em ligeira subida, o Caminho continua até à vila, sede do maior concelho da Galiza – Fonsagrada.

 

Detive-me a observar um cavalo solitário, no alto do monte, pastando.

 

 

Uma boa centena de metros mais à frente, após a subida, já se vê ao longe Fonsagrada, talvez a uns 10 ou 12 Km.

 

 
Passámos por Fonfria (Fonte Fria, antigamente). Detive-me num pormenor de uma janela

 

 

e no caleiro de uma casa.

 

 

A partir daqui, durante o caminho, só apareciam placas a indicar a “Méson Catro Ventos”, em Barbeitos.

 

Cheios de alguma curiosidade, e também com alguma sede, fomos lá parar.

 

O seu interior é rústico e agradável, com uma mesa indicando o menu e os produtos mais requintados da Casa.

 

 

Tomámos uma “caña” bem acompanhada de uma pequena taça de polvo e uma rodela de pão. Oferta da Casa.

 

Saindo da “Méson Catro Ventos”, dirigimo-nos para Fonsagrada, passando por Silvela.

 

À saída de Silvela uma pequena capela – de Santa Bárbara do Caminho -, com um aprazível recanto para merendas e descanso.

 

 

E, logo a seguir, em ligeira descida, Paradanova. De Paradanova até Fonsagrada o Caminho é sempre a subir. E, como estava fazendo bastante calor, este troço custou-me a percorrer. A entrada em Fonsagrada não é lá nada agradável e bonita…

 

Demos uma pequena volta à vila, tirando uma fotos,
 
(Casario apalaçado em ruínas)

 

(Campanário da Igreja Matriz de Fonsagrada)
 
e entrámos na sua igreja matriz.
. 
(Altar-mor)

 

(Crucifixo junto ao altar-mor)
 
Não deixando, obviamente, de ir ver a célebre Fons Sacrata, logo ao lado da igreja, que, segundo consta, deu o nome à terra.
 

 

E, a conselho do sítio Eroski Consumer, fomos à “pulperia Caldeira”. Já não me lembro de comer um polvo tão saboroso e tenrinho. Estava mesmo “esquisitérrimo”. Comemos que nos fartámos!

 
 

Depois de tanto “pulpo” e de três “cañas”, apenas nos apeteceu tomar um café, pagar a conta e toca a andar que já se faz tarde para o albergue de Padrón, a quilómetro a meio.

 

Chegados ao albergue, modesto, mas com um simpático albergueiro, o senhor Vítor, resolvidas as questões burocráticas e financeiras da estadia, fomos de imediato tomar banho e lavar a roupa. Estava uma bonita tarde de sol, convidativa a sair para a relva à volta do albergue, dando dois dedos de conversa com os caminheiros-peregrinos que já lá se encontravam e outros que foram chegando. Do conjunto de peregrinos-caminheiros queria aqui destacar três grupos: os quatro elementos de Alicante, que já aqui se fez referência; um casal italiano; dois amigos, um francês e outro espanhol cujas localidades não captámos, embora, nos albergues, tivéssemos falado com eles bastante. Queria destacar do grupo de Alicante a Maria Preta (a Marilú). Passei a chamar-lhe assim dado que, desde A Mesa, onde nos encontrámos, até Santiago, não lhe vi outra cor de roupa senão o preto, à exceção do impermeável que era vermelho. Eu e o Tino passámos bons bocados do Caminho falando da Maria Preta e da sua vestimenta…

 

 

Foi neste albergue que, porventura, mais tempo estivemos falando com os companheiros, caminheiros-peregrinos. E com o seu albergueiro que, ao que parece, é artista de artes plásticas, conforme se prova dos seus quadros expostos no hall de entrada do albergue e que aqui se exibem três.

 

 
- Exposição -

 

(Quadro nº 1)

 

 

(Quadro nº2)

 

(Quadro nº 3)
 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 6ª Etapa

 
 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO – NAS ASTÚRIAS

 

 

II Parte

 

6ª Etapa:- Berducedo - Castro

22.Abril.2013

 

 

 

 

 

Na viagem (o mesmo que dizer, numa caminhada),

o homem tem de levar consigo saber, se quer trazer saber.

 

Samuel Johnson, em James Boswell, Life of Johnson

 

Caminhar para aliviar a mente também é um objetivo do peregrino.

Também há uma dimensão espiritual:

a própria caminhada faz parte de um processo de purificação.

 Caminhar é a forma mais antiga de viajar, a mais fundamental, talvez a mais reveladora.

 

Paul Theroux, em A arte da viagem

 

 

É num local específico que se dá a união entre a paisagem natural

e a cultural, pois é aí que se sente a interdependência

entre o lugar e o homem, ambos se influenciando mutuamente.

 

Isabel Maria Fernandes Alves, em Fragmentos de memória e arte

 

 
1.- Traçado da etapa 

 

 

 
 
2.- Desníveis da etapa 

 

 

 

 

3.- Descrição sucinta da etapa

3.1.- De Berducedo a Grandas de Salime

 

Levantámo-nos às sete e pouco, horas locais.

 

Fizemos as nossas abluções matinais; tomámos o pequeno-almoço e saímos do albergue.

 

Ainda tive de voltar a trás pois deixei o meu cajado no albergue.

 

Logo à saída de Berducedo há uma subida jeitosa. No cimo da subida, Berducedo fica-nos ao fundo, com o sol nascente a despontar timidamente por entre as nuvens. Mas foi mesmo sol de pouca dura. Apareceu aqui e ali, timidamente, no intervalo da dança das nuvens a se movimentarem pelo céu.

 

Foi mais lá para o princípio da tarde que começou a brilhar com mais intensidade e fulgor. Mas também por pouco tempo.

 

Após a subida e após uma ligeira descida ao longo de lameiros e pinheiral, fomos dar à estrada.

 

 

 

E pela estrada seguimos até A Mesa rodeados, do lado esquerdo, por pinheiral, e do lado direito, por lameiros e monte. Em frente, o cimo do monte e o Parque Eólico.

 
 

Entretanto alguns peregrinos-caminheiros que ficaram no albergue da Xunta, em Berducedo, já iam bem mais adiante. Apenas um, que nos pareceu um pouco mal das pernas, é que se deixou ficar para trás, principalmente nas descidas.

 

Ao passarmos por A Mesa observamos a sua linda igreja, dedicada a Santa Maria Madalena.

 

 

No albergue de A Mesa estavam a preparar-se para saírem mais quatro peregrinos-caminheiros: três raparigas e um rapaz, que nos foram acompanhando na curta mas dura subida pelo asfalto até ao Parque Eólico.

 

E acompanharam-nos, mais ou menos, até à aldeia de Buspol. Ali, onde há uma pequenina capelinha, dedicada a Santa Marina de Buspol, tirámos umas fotos uns aos outros.

 

(Os caminheiros-peregrinos de Alicante. Da esquerda para a direita: Marilú, Alexandra, Abel e Belinda)

 

(Os caminheiros Tino e António)

 

E cada um seguiu com a sua dinâmica de grupo: eu e o Tino; os alicantinos Abel, Marilú, Alexandra e Belinda, na sua toada própria.

 

A partir de Buspol começa a descida para a barragem de Grandas de Salime. Uma descida sem fim que, embora não demasiado íngreme, sempre vai moendo as pernas. É considerada, à parte os Pirinéus, a descida mais longa de todos os Caminhos de Santiago.

 

Logo no início da descida ultrapassámos o peregrino-caminheiro, em franca dificuldade com as suas pernas. Perguntámos-lhe se precisava de ajuda, mas disse-nos que iria no seu vagar e que, em Grandas de Salime, ficaria um dia para descansar. Deixámo-lo e continuámos a nossa descida.

 

Esta descida, genericamente, pode-se dividir em duas partes: numa primeira parte, anda-se por um caminho largo, ladeado essencialmente por pinus silvestris

 

 

numa segunda parte, o caminho é muito mais estreito, mais íngreme e sinuoso, rodeado por um lindo bosque de bétulas, até mesmo à estrada, que nos leva, aproximadamente em 500 metros até à barragem de Grandas de Salime.

 

 

Antes de atravessarmos a barragem, entrámos num lindo e peculiar miradouro com vistas para a barragem e o rio Navia.

 

(Tino a atravessar o pequeno túnel para o miradouro)

 

(O curioso miradouro visto da curva que leva à barragem)

 

Atravessámos a barragem. Tirámos umas fotos.

 

Esta barragem é uma gigantesca obra de engenharia, dos anos 50 do século passado. Cobre a bacia do rio Navia e, a sua construção, obrigou ao desaparecimento duas ponte e de catorze povoações, entre elas, a de Salime. Foi inaugurada em 1954 e, para a época, era a segunda maior da Europa, com uma capacidade de 266 hectómetros cúbicos e uma potência de gerar energia eléctrica – a sua única finalidade – de 128 MW.

 

 

Como tínhamos a informação que à segunda-feira o Horel Rural “Las Grandas”, a 800 metros da barragem, estaria fechado, já íamos mentalizados para ir descansar e comer só em Grandas.

 

Felizmente, pouco antes de ali chegarmos, demo-nos conta que, no terraço da Casa Rural havia movimento de pessoas. Ficámos contentes. É que daqui até Grandas de Salime ainda eram uns bons seis quilómetros e já estávamos a precisar de uma pequena pausa para descansar e comer qualquer coisa.

 

Entrámos no terraço do Hotel Rural e aí demos com os restantes caminheiros-peregrinos que vinham à nossa frente desde Berducedo: italianos e espanhóis.

 

Aqui, no terraço, descalcei as botas, tirei as meias e, ao sol, bem em frente à barragem bebi duas “cañas”, acompanhadas de um ”bocadillo” de chouriço e uns salgadinhos.

 

 

 Tino, enquanto comia e bebia, entretinha-se com um lindo cão do hotel, raçado de mastim com labrador.

 

 

Passado pouco tempo, os nossos caminheiros-peregrinos de Alicante davam também entrada no terraço do hotel para também descansarem, comerem e beberem.

 

Mas não usufruímos muito do agradável lugar. Ainda havia seis quilómetros para percorrer ate Grandas de Salime e eu queria ver o Museu Etnográfico, um dos mais importantes, e mais visitados, das Astúrias. Daí, toca a andar.

 

E trepar quase quatro quilómetros e meio pelo asfalto.

 

Num dos miradouros da estrada, a impressionante imagem da barragem e dos seus contafortes.

 

 

Ao quilómetro três de Grandas de Salime, cruzámo-nos com o nosso caminheiro-peregrino em dificuldades com as suas pernas. Não parou no “Las Grandas”, como a maioria de todos nós. Queria chegar o mais depressa a Grandas de Salime, e, agora, ia pedindo boleia a qualquer carro por que passasse. Mas ninguém parava! Até que o Tino, quando passava um jeep, solicitou a um casal de velhotes que nele ia, para que levasse o nosso caminheiro, pois estava em mau estado. E, assim, lá foi, e nunca mais soubemos dele. Que se tenha curado depressa e cumprido o seu objetivo, é o que, naquele momento, lhe desejávamos!

 

A quilómetro e meio antes de Grandas de Salime, deixámos a estrada e, por um caminho, inicialmente ingreme, dirigimo-nos a Grandas de Salime.

 

(Colmeias - um pormenor do caminho que, na reta final, nos levou a Grandas de Salime)

 

Em pouco tempo estávamos já em Grandas de Salime.

 

Mas fiquei dececionado: eu queria ver o Museu Etnográfico de Grandas de Salime e este estava fechado! Não me lembrei que lá, tal como cá, às segundas os museus estão fechados. Fiquei com uma senhora “cachola”!...

 

Demos umas voltas pela vila, vendo particularmente a sede do Concelllo, só por fora, e, como não podia deixar de ser, a sua igreja, dedicada a São Salvador, uma construção sólida e robusta do século XVIII. Descansámos e tomámos uma águas num café. Ainda nos encontrámos com caminheiros-peregrinos e Alicante e… de táxi até Castro!

 

 

 

3.2.- De Grandas de Salime a Castro (11 de Dezembro de 2012)

 

Não é que estivesse demasiado cansado para ir a pé até Castro. O que se passa, salvo raras exceções, é que gosto pouco de repetir o mesmo caminho, a menos que haja uma razão muito especial. Ora, no passado dia 11 de Dezembro de 2012, já tinha feito este troço com o meu amigo Fábio, debaixo de um intenso nevoeiro e com uma destas senhoras geadas, conforme as fotos que se seguem mostram. Por isso, propus ao meu companheiro de jornada que, não fizéssemos o caminho a pé, convencendo-o que seríamos compensados com a visita ao Museu e ao castro de Chao Chamartín, em Castro, na saída da povoação.

 

(Pormenor nº 1 do percurso de 11 de Dezembro de 2012)

 

(Pormenor nº 2 do percurso de 11 de Dezembro de 2012)

 

(Pormenor nº 3 do percurso de 11 de Dezembro de 2012)

 

(Pormenor nº 4 do percurso de 11 de Dezembro de 2012)

 

Entre Grandas de Salime e Castro passa-se pelas pequenas aldeias de La Farrapa e Cereijeira e pela capelinha da Esperança de Malneira, anterior ao século XVIII.

 

(Exterior da capela)

 

(Interior da capela)

 

3.3.- Castro (22 de Abril de 2013)

 

 

 

 

(Albergue Juvenil de Castro)

 

Quando chegámos a Castro, onde se localizam as ruínas do castro de Chao Chamartín, que remonta ao ano 800 a. C. (Idade do Bronze), e que se prolongou até ao século II d. C., quando um terramoto o destruiu, o panorama foi o mesmo como quanto ao Museu Etnográfico de Grandas de Salime. As visitas ao castro fazem-se a partir do Museu de Chao Chamartín e, como museu que é, às segundas está “cerrado”!

 

Desta feita, tomámos banho, descansámos um pouco, mandámos lavar e secar a nossa roupa neste excelente albergue privado e, até que nos servissem o jantar que mandámos fazer, fomos dar uma volta pela aldeia, indo até ao fundo da povoação ver por fora o Museu e, ao longe, as ruínas do castro, enquanto tirávamos umas fotos ao ambiente geral de Castro e,

 

 
como não podia deixar de ser, ao seu albergue e à capela que lhe fica ao lado.

 

 

 Capela esta com uns singelos interiores.

 

 

Regressámos ao albergue. Tive ainda tempo de tirar umas notas sobre a caminhada do dia de hoje antes de jantar e de nos deitarmos.

 

Fica, por fim, aqui uma foto minha tirada em 11 de Dezembro de 2012 pelo meu amigo Fábio quando, aqui, por razões imponderáveis, demos os dois por finda a nossa jornada do Caminho Primitivo (I Parte).

 

 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 

 


publicado por andanhos às 23:40
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Domingo, 5 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 5ª Etapa

 

 

 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO – NAS ASTÚRIAS

 

II Parte

 

5ª Etapa:- Pola de Allande – Berducedo

[21.Abril.2013]

 

 

 

 

São os conjuntos de prados, bosquetes,

colinas que nos convidam de certo modo a percorrê-los.

Atraem-nos a doçura das encostas, a amenidade das suas sombras,

 a graça sinuosa dos seus riachos.

Outras paisagens revela-se hostis.

O escarpamento dos seus rochedos torna o acesso difícil,

as suas linhas secas e bruscas, o seu aspeto rude,

as suas moitas espinhosas, a sua aridez,

o seu solo pedregoso afoguentam-nos.

O passeio toma nela aspetos de luta e conquista.

Da mesma maneira,

existem pessoas acolhedoras e pessoas frias e como que escarpadas,

 e junto delas nossas impressões são do mesmo género.

 

Frédéric PaulhanA estética da paisagemA paisagem como retrato da natureza

 

 

 

 

 

Introdução

 

No passado dia 7 de Dezembro de 2012, desde Oviedo, juntamente com o meu amigo Fábio, demos início ao Caminho Primitivo de Santiago.

 

Por razões imponderáveis, em Pola de Allande, tivemos que o interromper, tomando o autocarro, desde aquela localidade até Grandas de Salime.

 

No dia a seguir ainda encetámos uma tentativa para continuar, fazendo o percurso a pé desde Grandas de Salime até Castro.

 

Não tendo sido possível levar a cabo o objetivo a que inicialmente nos propusemos realizar, solicitámos um táxi que nos levou de Castro até Fonsagrada e, daqui, fomos de autocarro até Lugo; de Lugo até Ourense; de Ourense ate Verin e, daqui, fomos até Chaves com a mulher de Fábio que teve a gentileza de nos ir buscar.

 

Embora tenhamos ficado tristes por não levarmos por diante o nosso intento – o chegar a Santiago de Compostela, nunca pairou nas nossas cabeças a ideia de desistir. Havia que encontrar uma outra oportunidade.

 

E, de fato, essa oportunidade apareceu.

 

Já aqui num dos posts deste blog fiz referência a um familiar, meu sobrinho, também amigo das caminhadas e do contato com a natureza. Aliás, já no passado verão (mês de Junho) de 2008, desde Valença, fizemos os dois o Caminho Português de Santiago.

 

Foi, assim, uma questão, por um lado, de o entusiasmar para o projeto e, por outro, o de ele compatibilizar o seu trabalho com a programação das suas férias para que fosse possível a realização deste evento.

 

O que nos metia mais confusão era, de Chaves, chegarmos até Pola de Allande, uma vilória, sede de concelho, nos confins rurais das Astúrias.

 

Mas até aqui os ventos sopraram a nosso favor, de feição. Pê, meu filho, a trabalhar no Brasil, veio a Portugal numas curtas férias. Já tinha estado a trabalhar nas Astúrias, vivendo escassos meses em Oviedo. A meu pedido, prontificou-se a levar-nos até Pola de Allende, numa atitude não só simpática para com o pai como para seu primo Tino.

 

É bem mais fácil e cómodo dirigirmo-nos para aquelas paragens de carro, apesar de se fazerem algumas horas de estrada. Mas, ultrapassada a autovia das Rias Baixas, e sem entrarmos no túnel do Negrón, que nos leva a Oviedo, a paisagem, e todo o ambiente envolvente, compensa o esforço da viagem.

 

Passámos pelos contrafortes e perto de uma das portas do Parque Natural de Somiedo, depois de passarmos pela barragem (embalse) de Luna. Atingido o Puerto de Leitariegos,

 

 

 

onde existem instaladas infraestruturas de uma estação de esqui, mas já sem quase nenhuma neve, descemos para Navia de Narcea e depois para Pola de Allende.

 

Era aproximadamente meio-dia e meia quando ali chegámos.

 

Depois de uma pequena volta pela vilória,
 
 

não foi difícil encontrar uma casa para comer. O Hotel Nueva Allandesa possui um restaurante de referência para os peregrinos, apresentando, inclusive, um menu próprio para eles.

 

Ora foi exatamente do menu peregrino que quer Pê quer Tino, meu companheiro de caminhada desde esta localidade até Santiago de Compostela, se serviram. Típica comida asturiana, já demasiado pesada para o meu estômago. De enfartar, pois! Eu, desta feita, fiquei-me por um simples salmão grelhado, acompanhado de umas verduras, seguido de uma maçã e de um café.

 

de almoçar já passava das duas horas em meia locais.

 

Acompanhámos meu filho até ao carro. Demos-lhe as despedidas e, no meio de uma terra, sede de um pedaço de terra nos confins de um mundo rural profundo, ficámos entregues à nossa sorte. Entretanto Pê seguiu em direção a Fonsagrada para se dirigir a Lugo e depois a Ourense e Verin. Um dia e peras de viagem para ele!

 

Estávamos inicialmente para começarmos o Caminho no dia seguinte, adiantando uns quatro quilómetros, indo ficar ao albergue de Peñaseita. Para isso, tínhamos que nos munir de mantimentos para a noite e para o pequeno-almoço do dia seguinte, uma vez que em Peñaseita não há nenhum comércio.

 

Dirigimo-nos a um bar – o “El Peregrino” – para nos abastecer. Feitas as compras, e conversa puxa conversa, demo-nos conta que a senhora que, delicada e atenciosamente, nos atendeu, era portuguesa, radicada há mais de trinta anos em Allande, transmontana, nascida em Macedo de Cavaleiros. Verdadeiramente somos um país de diáspora!

 

Sendo três horas da tarde, a senhora entusiasmou-nos a que não ficássemos em Peñaseita e que fossemos até Berducedo, pois ainda lá chegaríamos de dia, por volta das oito ou oito e meia, e que aí não teríamos problemas com comer e dormir.

 

Ficámo-nos na nossa, não muito convencidos. E, quando chegámos ao cruzamento para o albergue de Peñaseita,

 

 

olhando um para o outro, vendo o lindo sol que raiava, embora não muito intenso, a nossa decisão foi de seguir o conselho da nossa compatriota. E seguimos caminho.

 

É manifestamente em Pola de Allande que o meu Caminho Primitivo de Santiago recomeça como 5ª etapa.

 

Mas, antes de sumariamente descrever esta etapa, impõe-se que aqui faça, ou preste, um esclarecimento.

 

Os leitores que seguiram o relato das quatro primeiras etapas foram-se dando conta que eram cinco os personagens-caminheiros: eu próprio, Tâmara_Júnior, Nona, Fábio e Pé D’Vento.

 

Foram essas personalidades, com as suas idiossincrasias, o seu caráter e comportamento específico que seguiam no Caminho, apoiadas unicamente em duas pessoas físicas: Tâmara_Júnior e Nona na minha carcaça que já vai para além dos sessenta; Pé D’Vento na do quase cinquentão, irrequieto e ousado, Fábio.

 

Quando caminho não gosto de demasiadas ”juntanças”. Prezo demasiado o silêncio, as vozes, as cores e os ondulados da natureza para com ela, no meu caminhar quase solitário, criar e descobrir mil peripécias, inventar não sei quantas personalidades!...

 

O chão que piso e a paisagem que me envolve são para mim solo sagrado, objeto da minha mais profunda veneração, que apenas gosto partilhar com poucos eleitos…

 
 
1.- Traçado da etapa 
 

 

 
 
2.- Desníveis da etapa 
 

 

 

 

3.- Descrição sucinta da etapa

 

Aqui ficam, pois, breves notas extraídas do caderno de apontamentos que, regularmente, no fim de cada etapa ou caminhada, faço.

 

A primeira parte do Caminho foi encantadora,

 

 
 
desde Peñaseita, La Reigada e até à AS 14. Embora fosse um percurso todo ele a subir,

 

 
pois tivemos que superar um desnível de 524 metros para 900, fomos, contudo, compensados, ora pelo canto das águas do rio Nisón,

 

 
ora pelo chilrear da passarada espalhada pelo bosque bonito e agreste, constituído essencialmente por carvalhos e faias, que acompanhava aquele rio. O tempo, como disse, estava de sol, agradável, e estávamos protegidos pela serra ou monte de Fonfaraón.

 

 

Passámos por duas rústicas pontes de madeira que atravessam o rio Nisón.

 

(Ponte nº 1)

 

(Ponte nº 2)
 
O problema veio quando, atravessada a AS 14,

 

 

Podíamos ter seguido a estrada que, embora mais longa, não apresentava tanto desnível. Porque queríamos fazer o verdadeiro Caminho, tivemos que trepar monte e, como de vez em quando os “bofes” nos saiam pela boca, tivemos de fazer algumas paragens para descansar. Durante as paragens, a paisagem que visualizávamos era de alta montanha.

 

Entretanto, naquelas alturas, começava a sentir-se um vento frio e, desta feita, tivemos que vestir os impermeáveis para nos sentirmos mais agasalhados.

 

No último lanço, antes de chegarmos ao alto, parámos numa fonte com um tanque tosco não só para descansar um pouco como para beber.

 

A partir daqui, a subida, apesar de ainda mais forte, já não nos assustou tanto. Sentíamo-nos já muito perto do alto. Do ponto mais alto do Caminho Primitivo de Santiago – o Puerto del Palo, a etapa rainha! E ficámos felizes quando atingimos o seu topo.

 

A minha curiosidade levou-me até ao abrigo de montanha que ali se encontra. Apenas tirei fotografias ao seu exterior.

 

 

O interior está uma imundície. É, manifestamente, uma vergonha o estado em que o seu interior está. Por nojo, nem sequer uma foto tirei!

 
Mas o pior estava para vir: a descida do Puerto del Palo até atravessar a estada AS 14, mais ao fundo, para seguirmos para Montefurado.

 

 
 

É uma descida que “Deus me livre”! Era para terem um pouco mais de cuidado naquele piso que está um verdadeiro perigo, um autêntico quebra pernas! O Tino aconselhou uma pequena paragem para comermos uma barrita de cereais, que nos fazia bem. É que minhas pernas tremiam como varas verdes!

 

Com cuidado, e uma ou outra escorregadela, lá chegámos a Montefurado.

 

É bem verdade o que dizem: apenas um habitante, acompanhado do seu mastim, que não assentiu a que lhe tirássemos uma foto. Contudo, no meio das poucas galinhas, que por ali bicavam, o rei galo, convencido dos seus dotes e, garbosamente, consentiu, com muito gosto, numa foto.

 

 

Por sua vez, as poucas vacas que por ali pastavam, olhavam para nós como se fossemos extraterrestres.

 

 
Aqui se deixa uma foto da singela capela de Santiago de Montefurado, pertencente ao hospital de peregrinos,

 

 

e a de um povoado com apenas quatro casas e um habitante.

 

 
Quando pensávamos que as subidas tinham acabado e que Lago viria logo a seguir com certa facilidade, mais uma daquelas subidas. Neste Caminho nunca é de confiar nos desníveis. Depois da subida e já na descida, em direção a Lago, voltámos a encontrar a AS 14.

 

 
Mas seguimos por um caminho paralelo à mesma, à esquerda. E Lago nunca mais aparecia! Até que aparece o cemitério. Atravessámos a localidade subindo sempre.

 

 
Tirámos uma foto à sua igreja

 

 
e a um ou outro pormenor do seu casario.

 

 

E, como já eram oito horas, fomos apressando o passo para chegarmos ainda com dia a Berducedo.

 

Antes de chegarmos a Berducedo passámos por uma zona de pastegens e por um pinhal.

 

 

A primeira construção de Berducedo é o albergue público. Uma construção que não nos pareceu lá grande coisa. Entrámos e fomos informados, por um dos peregrinos, que a lotação, de 12 lugares, já estava esgotada. Atravessámos a povoação e fomos ter a um bar para saber onde ficava o albergue privado. Fomos informados que ficava no término da povoação, perto da igreja.

 

 

Tomámos a direção para a igreja e nem sequer quisemos saber da casa de comes e bebes mais afamada do Caminho “La culpa fue de Maria”. O menu peregrino de Allande deu de sobra para o Tino matar a fome todo o dia e eu, à noite, já como muito pouco.

 

A igreja de Berducedo, pela qual passámos, é muito parecida com a de Lago.

 

Batemos à porta do albergue privado e ainda demorou um pouco para o albergueiro aparecer.

 

O albergueiro selou-nos a Credencial do Peregrino, cobrou-se da estadia, deu-nos a conhecer os cantos da casa, indicou-nos o que havia para tomarmos de manhã de pequeno-almoço e nunca mais o vimos. Os dois tomámos conta do albergue, não havendo mais ninguém.

 

Tomámos banho, arranjámos as nossas coisas, o Tino escrevinhou no seu «e-paper», comemos a merenda que trouxemos de Pola de Allande do Bar “El Peregrino” e, quando me preparava para telefonar e aceder à internet… nem sinal! Que um albergue privado não tivesse Wi Fi ainda que vá, agora sem sinal de rede telefónica!? Enfim…

 

Dormimos pouco, e mal, os dois. Pela minha atribuo ao cansaço e mais ao café que tomei à noite, quando não estou acostumado a tomá-lo. Mas sempre fui passando pelas brasas…

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 

 


publicado por andanhos às 12:41
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