Domingo, 7 de Abril de 2013

Caminho de Santiago – Epílogo - II Parte:- Muxia - Fisterra

 
 

 

 

Caminho de Santiago - Epílogo - II Parte:- Muxia - Fisterra

 

[24 e 25 de Março de 2013] 

 

 

Breves considerações a jeito de Introdução

 

Mercê de circunstâncias várias, que não vêm aqui para o caso recordar, foram necessários quase cinco longos anos para que a promessa feita no dia 4 de Setembro de 2008, assumida em Muxía, e reconfirmada em Santiago de Compostela, se cumprisse.

 

Entretanto, o adolescente Mitok transformou-se num jovem promissor, transferindo-se para a Cidade do Conhecimento e lá, ao mesmo tempo que vai aprendendo, fazendo-se um homem para a vida, naturalmente, outros conhecimentos vai adquirindo e … vivendo.

 

Jason Walker, evidenciando já uma certa calvície, a lembrar a de seu pai Fábio, está num intervalo de reflexão quanto ao rumo a seguir num Portugal sem oportunidades e sem rumo…

 

Fábio continua o mesmo de sempre, ou seja, a personificação, porventura só num dia, de apresentar as quatro fases da lua, ou mesmo as quatro estações do ano. Bom coração, contudo, não lhe falta! Enfim, cada qual é como nasce…

 

Eu, a quem meu amigo Emídio, quando com ele, em Dezembro de 2008, fizemos o Caminho Francês de Santiago, me batizou de Careca & Silva, fora alguns percalços que a máquina do organismo, de vez em quando, me vai pregando, também continuo o mesmo de sempre: metido em mim mesmo, entregando-me às caminhadas pela Natureza, com a máquina fotográfica em punho, na tentativa de, num único disparo, encontrar o instante que defina a essência da Vida e do Belo, num esforço que, sei-o de antemão, ser de todo impossível! Mas vá lá a gente compreender a natureza humana! E não largando as minhas leituras. E partilhando o(s) meu(s) hobbie(s)  nas redes sociais ao mesmo tempo que vou cuidando da vivência familiar dia-a-dia, ao jeito que sou, sei e posso. De vez em quando, e quando me pedem, lá dou uma ajudinha aos meus companheiros de caminho naquela que foi a estrada que sempre gostei percorrer – o ensino.

 

Mas voltemos ao que nos trouxe hoje até aqui. E esquecemo-nos, pelo menos por alguns instantes, da rudeza da vida que temos pela frente nos tempos que correm.

 

Dizia, pois, que, passados quase cinco anos, a promessa feita e reafirmada de cumprir todo o Caminho de Santiago, chamado Epílogo (ou da Costa da Morte) foi, finalmente, cumprida.

 

Com efeito, no passado dia 24 de Março, depois do almoço, os quatro magníficos andantes abalaram até Muxía, via Verin, Ourense e Santiago de Compostela.

 

1.- Muxía – A véspera da 4ª e última etapa do Caminho de Santiago da Costa da Morte (Epílogo)

 

Ao chegarmos a Muxía dirigimo-nos ao albergue de peregrinos-público. Contudo, não nos aceitaram. Teríamos de vir já a caminho. Para iniciar o fim da última etapa de um caminho já iniciado, não tínhamos direito a alojamento.

 

Tivemos que ir saber de um outro alojamento. Não faltam, em Muxia, referências e indicações do albergue-privado Bela Muxía. Foi para lá que nos dirigimos. Angel, o albergueiro/rececionista, ainda com antepassados de origem portuguesa, atendeu-nos com extrema amabilidade.

 

Dando uma volta pelas instalações, todos concordámos em considerar que a diferença de preço em relação ao público valia bem a pena. Cada camarata tem o nome de um ilustre escritor ou poeta espanhol. A nossa era de García Lorca.

 

 

 

Por isso, aqui fica um pequeno poema deste grande poeta:

 

 

 

Sinto

 

Sinto

 que em minhas veias arde

 sangue,

 chama vermelha que vai cozendo

 minhas paixões no coração.

 

 Mulheres, por favor,

 derramai água:

 quando tudo se queima,

 só as fagulhas voam

 ao vento.

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos'

 Tradução de Oscar Mendes

 

Quer a receção, quer as camaratas, quer a sala de comer/refeitório, quer a cozinha, quer os sanitários são de excelente qualidade e tudo muito bem cuidado e limpo. Na sala de comer ou refeitório um grande painel com paisagens e cenas de Muxía, numa das paredes; noutra, uma cruz com fotos de pequenos e típicos barcos muxianos.

 

 

Depois de devidamente acomodados, fomos dar uma volta. Atravessámos o centro, onde se situa o albergue, e dirigimo-nos até ao Santuário de Nossa Senhora da Barca pela estrada marginal ao mar que, neste dia, apresentava uma linda cor turquesa.

 

 

 

Um pouco mais adiante, à beira mar, uma estrutura em madeira que, segundo publicidade ali afixada, indicava que era para seca do congro.

 

 

Pelos vistos o congro seco é um pitéu, por estas bandas, muito apreciado. Nunca comi.

 

Antes de chegarmos ao Santuário, aparece-nos o farol.

 

 

Demos umas voltas quer pelo Santuário, quer pelo Monumento/Memorial ao desastre do “Prestige” – “La Ferida”, quer ainda, saindo do recinto, percorremos e observámos as pedras mais célebres desta zona do mar: Pedra de Abalar; Pedra de Cadrís; Pedra dos Namorados, etc.

 

Já num meu outro blog fiz referência a esta minha passagem por este local, mostrando algumas das fotografias que ali tirei e que poderão ver em http://nona.blogs.sapo.pt/9900.html.

 

Porque foi a que mais me impressionou pela sua forma, embora não desse debaixo dela as tais voltas para tratar dos meus quadris, aqui fica mais uma foto desta dita “milagrosa” pedra.

 

 

 

Depois do pôr-do-sol, dirigimo-nos para o centro de Muxía, dando umas voltas ao longo do porto.

 

Já anoitecera

 

 

e, antes de nos dirigirmos para o albergue, passámos no Bar/Restaurante Pedra da Abalar,

 

 

 

onde tomámos umas bebidas.

  

Os temas de decoração do interior desta casa tem tudo a ver com as tarefas ou faina do mar.

 

 

 

Mesmo à saída do bar/restaurante, e numa esquina de um pequeno largo, um conjunto de âncoras, servindo como adorno urbano.

 

 

Chegados ao albergue, dirigimo-nos à sala de comer/refeitório, onde uma substancial merenda, de cozinhados caseiros elaborados pela dona senhora do amigo Fábio, e o imprescindível folar de Chaves, tão caraterístico desta época do ano, acompanhado de uma “boa pinga” do Douro, foi o prato forte do nosso repasto. Para a refeição e o cenário ser completo, só faltou mesmo o tão apreciado “vinho fino” para fim de refeição. Enfim, há esquecimentos imperdoáveis…

 

Amigos do convívio e satisfeitos com o trato do nosso albergueiro/rececionista, de nome Angel, numa atitude solidária, convidámo-lo para provar das nossas iguarias e apreciar a nossa “pinga”.

 

Angel, por sua vez, pegou na sua máquina fotográfica e registou este momento, oferecendo-nos cópia da respetiva fotografia. Ela aqui fica para que conheçam e vejam os perseverantes e valentes caminheiros, enchendo, quais camelos, o “alforge” para a caminhada dura do dia seguinte.

 

  

2.- 4ª e última etapa:- Muxía – Fisterra

2.1.- Percurso da etapa

 

(Fonte:- Mundicamiño)

 

2.2.- Perfil da etapa

 

 

(Fonte:- Eroski Consumer)

 

3.- Breve descrição do itinerário da etapa

 

Logo ao nos levantar, por volta das 6. 30 horas locais, feitas as abluções matinais, fomos tomar o pequeno almoço na sala de refeições do albergue, que tinha ao lado uma máquina de café, café com leite e outras bebidas.

 

O dia estava escuro, carregado, não augurando nada de bom. E mais convicto fiquei que o dia não iria ser pera doce quando, abrindo uma janela para melhor ver o estado do tempo, deparamos, em cima de uma antenas de televisão de uma habitação, com uma coruja, teimando em não sair daquele poleiro.

 

 

Não sou absolutamente nada supersticioso mas, em terras de nuestros hermanos o ditado tem muita força: “eu não acredito em bruxas, mas que elas hai, hai!”

 

Ao sairmos do albergue e iniciarmos o nosso percurso,

 

 

 

apercebemo-nos que tinha chovido bem de noite e que, durante o dia, a chuva seria para continuar.

 

Enfim, estava predestinado que esta etapa teríamos de a fazer debaixo de chuva. Há cinco anos não a fizemos pelas condições do tempo; volvidos cinco anos, e apesar de na véspera ter estado um dia lindo de sol, as condições climatéricas apresentavam-se tal com então há cinco anos. Mas viemos para acabar este Caminho e, desta vez, a força anímica falou mais alto do que a chuva, vento, frio e granizo que nos acompanhou durante os quase mais de trinta quilómetros.

 

À saída de Muxía, e até à praia de Lourido,

 

 

a chuva era miudinha e pouco incomodativa mas, depois de passarmos Xurarantes

 

 

 

e enquanto subíamos para o alto do Facho de Lourido, começou a chover com muita mais intensidade.

 

Lindos espigueiros e algumas paisagens entre Morquintián, Guisamonde e Freixe não puderam ser retidas pela objetiva tal a intensidade da chuva!

 

A medo, para não estragar a máquina com tanta água, atrevidamente usei-a para reter a imagem deste espigueiro.

 

 

 

Mas, de pronto, num abrigo de uma paragem de autocarros, meti-a logo na mochila. E de lá não mais saiu.

 

Entretanto Fábio entra em desespero: começava-lhe a entrar água para os pés. Precisava das polainas. Mas as polainas estavam na mochila do Mitik e Mitok, quanto mais chovia, mais andava. Já ninguém o via… Nem a Fábio lhe valeu a solidariedade (ou amor?) filial de Jason Walker em ir no encalce de seu irmão para atender ao alívio de seu pai. O rapaz, até quase a Lires, nunca mais ninguém o viu.

 

De Frixe a Vaosilveiro não era apenas água que incomodava, era o granizo (saraiva) que caía com grande intensidade. Mas … que fazer? Não havia remédio, naquele meio quase do nada, havia que continuar!

 

Imediatamente a seguir a Vaosilveiro, passámos pela nova ponte sobre o rio Castro, que vai desaguar à ria de Lires.

 

 

Antigamente, e não vai ele assim há tanto tempo, existiam aqui umas poldras para se poder passar. Ainda se veem as setas amarelas em algumas delas. Mas hoje, se não existisse a ponte, teríamos de passar o rio a nado.

 

 

E, finalmente, chegámos a Lires, uma localidade mais ou menos a meio do Caminho que tem serviços. A chuva continuava sem parar… E, no Café/Restaurante, único aberto nesta localidade, foram-se juntando todos os peregrinos que, neste dia, também como nós, faziam a etapa: um par de meninas, com quem metemos um pouco de conversa enquanto as ultrapassávamos – uma canadiana outra sul-americana; um espanhol solitário e dois casais. Todos se descalçaram e mudaram de meias; vestiam novas e secas roupas, tiradas das respetivas mochilas, enquanto uma jovem simpática empregada nos servia bebidas, “bocadillos” e tortilha.

 

Pairava naquele local, até certa altura, a esperança que o tempo aliviasse. Mas quê?...

 

Há que botar pés a caminho, mesmo continuando a chover.

 

Ao passar pelo centro de Lires ainda quis tirar uma foto à sua bonita igreja. Mas a chuva era tanta e nos fustigava com tanta intensidade que não tive coragem de tirar a Nikon da mochila. Fica aqui, tirada com uma pequenina máquina, que levava no bolso, uma foto tirada ao campanário, onde se pode aferir da intensidade da água a cair…

 

 

Ao sairmos de Lires vamos ao encontro da ria que leva o seu nome. E entrámos em pleno asfalto, coberto de árvores que nos protegia um pouco da chuva. Mas, rodando mais acima o Atlântico, e subindo em direção a Canosa, passando por Padris, Castrexe e Buxán, então é que começou o nosso “calvário”. Não havia caminho mas um autêntico canal, cheio de água e lama. Mesmo que nos quiséssemos desviar para os terrenos adjacentes ao Caminho, a situação era a mesma: lameiros e vinhas pejadas de água que nos dava quase até aos joelhos. Para quê botas waterproof ou gore-tex e polainas? Não havia outro remédio se não chafurdar naqueles ribeiros lamacentos!

 

O degredo só acabou quando chegámos a Hermedesuxo de Baixo e Escaselas, ao mesmo tempo que a chuva também ia começando a cair com menos intensidade. Jason Walker, quando demos por ela, já tinha “desembestado” por ali em frente e nunca mais o vimos se não em Fisterra.

Em San Martiño de Duio, com uma bonita igreja barroca de 1717, onde se julga estar soterrada a legendária cidade de Dugium, já avistávamos, ao longe, Fisterra e a sua praia da Langosteira.  

 

 

Respirámos de alívio!

 

Em poucos minutos entrámos em Fisterra. E, no início desta localidade, agora praticamente sem chuva, não resistimos em tirar umas fotografias junto à placa indicativa de Fisterra. 

 

Percorremos quase toda a localidade até ao cruzeiro de Baixar, em frente da praia da Langosteira, onde fomos encontrar, sentado no pedestal, a descansar, enquanto esperava por nós os três, Jason Walker.

  

 

 

Continuámos pela rua paralela à praia até ao centro e, passando pelos Paços do Concelho e pelas ruas características do seu centro histórico, fomos ter ao albergue. Aí solicitamos a nossa “Fisterrana”, após apresentação das respetivas Credenciais de Peregrino e, enquanto no-las passavam, telefonámos ao amigo Angel, em Muxia, para nos mandar um táxi buscar para irmos de volta.

 

O cansaço da caminhada, o estarmos todos encharcados, porcos e o tempo pouco convidativo, embora já sem chuva, inibiu-nos de efetuar visitas e ir mais além. Há aspetos em Fisterra que ficaram para ver e observar com mais atenções noutras ocasiões e com outras condições. Em particular a sua gastronomia, à base de marisco, tal como nos afirmava Pepe, o taxista por Angel enviado para nos ir buscar. Pepe, em menos de meia hora, contou-nos como foi a sua vida até chegar aqui. Mas este relato já não cabe aqui nestas breves notas. Eventualmente, quem sabe!, farão parte de “outros contos”.

 

Chegados a Muxía há que ir diretos ao carro e, das mochilas suplentes que ficaram na mala, tirar roupa limpa e seca para nos mudarmos.

 

Jason Walker, pareceu-me, que “rompeu” qualquer coisa pois coxeava já um pouco. Mas o gosto por comer o “pulpo” (polvo) não lhe faltou! Na verdade, a Casa Picoteo, recomendada por Angel, prepara um polvo que é uma delícia, entre outras coisas, já se vê…

 

 

E, como diz o ditado, “comida feita, companhia desfeita”, ou melhor, depois de bem comidos, não víamos outra coisa senão o caminho para Chaves.

 

Ufa! Estava a ver que ainda não era desta que este Caminho era feito! Bem razão têm em lhe darem a estas paragens o nome de “Costa da Morte”!...

 

4.- Considerações finais

 

Em primeiro lugar queria salientar a receção que tivemos no albergue público de Muxía. Não se compreende que, depois de exibidas as respetivas Credenciais comprovando que já havíamos feito as três primeiras etapas, embora noutra altura, não nos deixassem alojar por forma a, de manhã cedo, iniciarmos a última etapa, que nos faltava, havendo lugares no albergue. Esta atitude é não só incompreensível como inaceitável. E tanto mais incompreensível e inaceitável quando estamos perante um funcionário/albergueiro que, mesmo eventualmente cumprindo ordens, foi de uma falta de simpatia e gentileza a toda a prova.

 

Em segundo lugar, se a Galiza (e a sua Xunta) quer transformar o seu território, com o Caminho de Santiago, uma região com uma forte componente turística, investindo (e mostrando) o seu património, a sua cultura, as suas tradições e gastronomia, deve ser mais diligente em cuidar do chão que os peregrinos/caminheiros/turistas pisam. É inacreditável o estado em que está o caminho que vai depois de Lires até às proximidades de, creio, Hermedesuxo de Baixo. Se é certo que é um caminho também utilizado pelos agricultores da zona, usando seus tratores para transporte de alfaias agrícolas e produtos de e para as suas propriedades, não se podem esquecer as autoridades que aquele troço é dado como o troço oficial do Caminho de Santiago a Muxia-Fisterra e vice-versa. Há, assim, que dotar aquele troço de uma infraestrutura que seja minimamente cómoda não só para os seus vizinhos como também para os peregrinos/caminhantes/turistas, porquanto aquelas povoações não só merecem melhores e cómodos caminhos como a grande maioria dos não residentes que por lá passam não vão a cumprir promessa alguma, sujeitando-se a um sacrifício daqueles. Tenham um pouco mais de consideração, senhores responsáveis, se não, a páginas tantas, “pode-se virar o feitiço contra o feiticeiro”.

 

Uma última palavra agora de agrado e apreço. Em questão de prestação de serviços não sou a favor do privado contra o público e vice-versa. Sou por quem bem serve! O albergue de Bela Muxía, na pessoa do seu albergueiro/rececionista Angel teve, da nossa parte, nota máxima. Atencioso, simpático, prestável – é tudo que é necessário para quem desempenha estas funções. E Angel foi além delas, dando-nos informações e recomendações úteis e com total disponibilidade para ajudar no que pudesse, desde que solicitado. Foi, pois, muito para além das suas competências, deixando em bom nome a casa que serve. Parabéns, Angel!

 

Por último, aqui vos fica um diaporama/reportagem desta quarta e última etapa do Caminho de Santiago (Epílogo ou da Costa da Morte).
 
[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 
 

 

  


publicado por andanhos às 14:35
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Sábado, 6 de Abril de 2013

Gallaecia:- Caminho de Santiago – Epílogo - I Parte:- Santiago de Compostela-Negreira-Oliveiroa-Muxia

 

 

 

 

Caminho de Santiago – Epílogo - I Parte:- Santiago de Compostela-Negreira-Oliveiroa-Muxia

  

[1,2,3 e 4 de Setembro de 2008]

 

 

Santiago de Compostela é a meta espiritual das peregrinações. A Costa da Morte, de Santiago a Muxia e Fisterra, possui também uma certa carga de misticismo.

 

Antes dos Descobrimentos esta era a última porção de terra habitada do Mundo.

 

Hoje Fisterra (ou Finisterra, como em Português dizemos) é um fim figurado. Um lugar onde todos desejam chegar, tal como os povos celtas e depois os romanos, aguardando a hora do ocaso e ver o sol a esconder-se na imensidão do mar.

 

Depois de no fim do verão de 2007 ter feito o Caminho de Santiago, mais conhecido como Sanabrês da Via da Prata; em Dezembro desse mesmo ano ter feito o Caminho do Norte e, no verão de 2008, o Caminho Português, perante a sugestão do meu amigo Fábio para fazermos o Caminho da designada Costa da Morte não resisti em fazê-lo.

 

No fundo, não tendo naquela altura em planos fazer qualquer outro Caminho de Santiago, este convite representava, assim, a oportunidade de levar por diante aquilo a que vulgarmente se designa como o Epílogo do Caminho.

 

Eis o mapa do Caminho de Santiago da Costa da Morte:

 

(Fonte:- Campus Stellae [2010])

 

Assim, na madrugada de 1 de Setembro de 2008, conduzidos pela viatura da mulher de Fábio, chegámos os quatro magníficos – Fábio, seus filhos, Jason Walker e Mitok e eu – a Santiago de Compostela para efetuarmos a

 

1.- Primeira etapa:- Santiago de Compostela – Negreira

 

1.1.- Traçado do percurso

 

(Fonte:- Mundicamiño)
 

1.2.- Perfil do percurso

 

(Fonte:- Eroski Consumer)

 

1.3.- Breve descrição do itinerário da etapa

 

Deixámos a pétrea urbe de Santiago pela rua das Hortas, entre o Hotel dos Reis Católicos e o Pazo Raxoi, embrenhando-nos na paisagem baixa e frondosa, coberta de pinheiros e de abundantes ribeiras, regatos saltitantes e frondosos bosques.

 

 
Após uma ligeira descida, fomos ao encontro da ponte e rio Sarela,
 
 

depois de nos cruzarmos por umas ruínas, amontoado de pedras, ensarilhas em heras, das antigas instalações de uma fábrica de curtumes (Km 1,5).

 

Em Sarela de Baixo vemos, ao longe, pela última vez a silhueta da Catedral compostelana (Km 2,3).

De seguida, passámos por Moas de Abaixo, Carballal e Quintáns. Aqui pode-se disfrutar de um excelente miradouro sobre o vale (Km 7,1).

 

Saídos de Quintáns, um pouco mais adiante, ultrapassámos uma ponte medieval sobre o rio Roxos. Nas suas proximidades, encontra-se um lugar aprazível para descansar, a coberto do sol.

 

Sem grande esforço chegámos ao Alto do Vento (Km 8,8). Aqui é o termo do concelho de Santiago de Compostela e, um pouco mais à frente, entrámos em Ames Ventosa.

 

Pela estrada AC-453 passámos em Lomboso e Augapesada. Deixando a estrada, fomos em direção à ponte sobre o rego dos Pasos, uma estrutura medieval reabilitada (Km 11,6).

 

Cruzada a estrada CP-0204, começámos uma senhora subida – a do alto do Mar de Ovellas – que segue, grosso modo, o traçado do Caminho Real, obrigando-nos a ultrapassar um desnível de 215 metros.

 

Chegados ao alto do Mar de Ovellas (Km 13, 8), entrámos na paróquia de Trasmonte de Ames, passando por Carvallo (Km 14,2), Trasmonte (Km 15), Reino (Km 15,5) Burgueiros (Km 16,2) e, seguindo agora pela estrada, alcançámos o rio Tambre e a sua célebre ponte Maceira, a qual serve de divisão entre os concelhos de Ames e Negreira (Km 17).

 

 

A ponte de Maceira, conhecida localmente por ponte Vella, é dos finais do século XIV. Sofreu várias derrocadas pelas sucessivas cheias e investidas do rio Tambre. Nas imediações desta ponte, podemos apreciar a capela del Carmen ou de San Blas e, à sua direita, o Pazo Baladrón, construído entre 1945 e 1956.

 

 

 

Depois da ponte Maceira, pela estrada AC-450, entrámos na Barca (Km 19,1).

 

Deixada a estrada, subimos até A Chancela (Km 20,2) e, seguindo pela estrada, entrámos em Negreira (Km 21).

 

Para chegarmos ao albergue, passámos pela capela de San Mauro e pelo Pazo de Cotón, depois de cruzarmos o rio Barcala e ultrapassarmos uma pequena subida, por estrada asfaltada, já mesmo fora do centro urbano.

 

Esta etapa, não fora a subida do alto do Mar de Ovellas que, embora tendo bom piso e bancos para descansar, fez-me parar mais de meia dúzia de vezes, pois não raro os “bofes” saíam-me pela boca, enquanto, Fábio e Mitok, mais que Jason Walker, pareciam que tinham asas, fui uma caminhada agradável, com lugares agradáveis como a passarela do rio Sarela e a envolvente da ponte Maceira sobre o rio Tambre.

 

O dia esteve bonito, radiante de sol, a convidar a umas “cervejocas” num dos bares de Negreira.

 

Em Negreira, para além do Pazo de Cotón e da capela de San Mauro, o que mais me despertou a atenção foram duas esculturas urbanas: uma, homenageando o Emigrante;

 

 

 

a outra, muito impressiva, e, julgo, com muito significado para estas terras, A Vaqueira.

 

 

Na primeira, Mitok, adolescente irrequieto e brincalhão, não parou de fazer “momices” ao coitado do emigrante!

 

Não havendo lugares já no albergue, acomodámo-nos em tendas no logradouro do mesmo.

 

E acabámos o dia comendo um belo e saboroso bolo de chocolate, acompanhado de um bom vinho fino, depois de cantarmos os parabéns a Jason Walker que, neste dia, faz anos.

 

2.- Segunda etapa – Negreira – Oliveiroa

 

2.1.- Traçado do percurso

 

 

(Fonte:- Mundicamiño)

 

2.2.- Perfil do percurso

 

 

(Fonte:- Eroski Consumer)

  

2.3.- Breve descrição do itinerário da etapa

 

Foi uma etapa comprida, embora decorrida em pleno ambiente rural, passando por muitas aldeias, apresentando desníveis, em geral, suaves, ainda que frequentes.

 

 

De Piaxe e A Pena até Vilaserío (Km 4,5) fomos até Portocamiño e Cornovo e, continuando na mesma estrada, numa paisagem verdejante, de fim de verão, íamos observando os trabalhos de recolha de feno, milhos e outros alimentos vegetais para os animais.

 

Em pleno planalto, que liga Vilaserío a Maroñas (Kim 6,9), com caminho reto e plano, a mesma paisagem verdejante, vendo-se, ao longe, aqui e ali, uma hélice para produção de energia eólica.

 

E mais asfalto no espaço que liga Maroñas até Corzón (Km 9,1).

 

De Corzón, passando pelo rio Xallas, e até Oliveiroa (Km 4,3), um recanto aprazível, onde uma simpática galega, arquiteta de decoração de interiores, se deixou posar para a nossa máquina fotográfica.

  

 

 

Ao longo desta etapa longa, embora não muito cansativa, não fora o muito asfalto moendo os pés, fica aqui dois pequenos apontamentos: o de um lindo cão branco, em pose de guarda, dando-nos as boas-vindas
 

 

vindas e a de um “labrego”, explicando-nos o Caminho e contando as amarguras do seu dia-a-dia.

 

 

 

Chegados a Oliveiroa, e até que a “madona” albergueira nos abrisse a porta do albergue, quando todos, já cansados, uns encostando-se nas paredes das instalações do albergue outros deitados na pouca relva que por ali havia, dormitavam, fomos estremunhados por uma miniprocissão sul-americana, cantando hinos ao Senhor, subindo a calçada para o albergue. Diziam que sua caminhada/peregrinação já vinha desde Roma.

 

 

 

Porque não haveríamos de acreditar!

 

Quando, finalmente, a albergueira chegou, e depois de nos acomodarmos, fomos dar uma volta pela aldeia e suas redondezas. Um povo bastante agradável com traçado algo medieval e recheado de elementos pitorescos,

 

 

 

não esquecendo os numerosos espigueiros (hórreos).

 

 

Passou-se um bom bocado da tarde, “picando” alguns petiscos que nos iam preparando, enquanto nos íamos divertindo com “chistes” e em amena cavaqueira uns com os outros.

 

Entretanto Mitok e Jason Walker, em conversa entre irmãos, foram dar uma volta até ao fundo do povo – um ambiente urbana bem arranjado e tratado, rodeado de um riacho todo bucólico -, enquanto eu, não muito longe deles, ia pondo a minha “escrita em dia”, via telemóvel, com os familiares. Posta a “escrita em dia” com os meus familiares, por entre algumas brincadeiras adolescentes de Mitok, recolhemos ao albergue para mais uma reconfortante noite de sono e descanso.

 

3.- Terceira etapa: Oliveiroa-Muxia

 

3.1.- Traçado e perfil do percurso

 

(Fonte:- Eroski Consumer)

 

3.2.- Breve descrição do itinerário da etapa

 

Os dois dias de sol, que nos acompanharam nas duas primeiras etapas, desapareceram. Pairava no céu, coberto de densas nuvens, a ameaça forte de chuva. Já preparados para o que desse e viesse, vestimos os nossos respetivos impermeáveis, à saída do albergue.

 

Foi necessário um pouco de atenção para sairmos de Oliveiroa e encontrarmos a correta indicação do Caminho. Contudo, em pouco tempo, encontrámos o marco com a indicação de 34. 558 metros. E, num salto, desembocamos numa pista que se dirigia à barragem (embalse) do Castrelo.

 

Entrámos no alto do planalto, dirigindo-nos para a plena montanha, onde se começava a sentir o som característico das hélices das eólicas girando. Daqui se poderia ver, se não houvesse tanto nevoeiro, ao fundo, o vale cavado pelo rio Xallas.

 

Descemos depois até Vao de Ripas, cruzando o rio Hospital por uma ponte de pedra. Até aqui tínhamos percorrido 2, 7 Km. Subimos até Logoso, uma aldeia situada nas faldas do monte Castelo (Km 3,7) e fomos até à aldeia de Hospital, apanhando a estrada CP-3404 (Km 5,1). Aqui a chuva começou a intensificar-se e nem os impermeáveis serviram de nada – ficámos “num pito”. O que nos valeu foi haver aqui perto um bar, onde descansámos um pouco, tomando uma bebida quente e mudámos de roupa. Começou-se a ouvir vozes jovens que o melhor era… desistir. Mas continuámos caminho, apesar de continuar a chover, embora agora com menos intensidade.

 

Ao quilómetro 6 um marco (“mojón”) indicava-nos a bifurcação dos Caminhos a Fisterra e Muxia.

 

 

A nossa rota era Muxia, por isso, continuámos em frente pela estrada DP-3404, acompanhados pelos gigantes do parque eólico. Em cerca de 1,1 Km deixámos a estrada, ao Km 25. 880, tantos quantos faltava até Muxia, e baixámos até ao rego de Vao Salgueiro, afluente do rio Fragoso (Km 7,2).

 

Um pouco mais à frente estávamos no asfalto outra vez e, descendo, passámos por As Carizas, aldeia da paróquia de Santa Baia de Dumbría) (Km 8,7).

 

Pouco tempo levou para passarmos no rego de Cheo e, subindo um pouco, em Dumbría, com a sua igreja de Santa Eulália, do século XVII e XVIII, conservando a portada principal o estilo românico, e com a residência paroquial ao lado bem assim os seus típicos espigueiros de pedra.

 

 

 

Passámos o rio Fragoso e Trasufre, pertencente à paróquia de São Pedro de Crucieiro. Já do concelho de Muxia.

 

Até aqui tínhamos andado, aproximadamente, 13 Km. Mais adiante cruzámos o rio Castro, que se dirige para a ria de Lires.

 

Mais e mais espigueiros em Sanande, percorridos que foram 16 Km.

 

Passámos por mais um conjunto de aldeias até chegarmos a A Grixa (Km 17).

 

Depois de passarmos por um caminho florestal, que atravessa os montes Vilastose e Raposa, em cerca de 4 quilómetros, chegámos a Quintáns, tendo à direita a capela de Santo Isidro.

 

Depois, ao Km 22,7, aparece San Martiño de Ozón com a sua igreja e o espigueiro maior da Galiza, com 22 pares de pés e 27 metros de comprimento.

 

 

 

Subimos até Vilar de Sobremonte (Km 23, 6), penetrando no monte para acabarmos por descer, lentamente, até Merexo (Km 25). Neste ponto avistámos uma ria formada pela foz do rio Grande, podendo ainda ver-se Camariñas.

 

 

 

Em dois quilómetros e meio chegámos a Os Moiños, cruzando o rio Negro no meio da povoação.

 

A chuva parou de nos fustigar e, ao entrarmos em San Julian de Moraime (Km 28), já estávamos quase enxutos.

 

A seguir veio Casas Novas, o monte de San Roque e sua capela (Km 29) e Chorente para, ao Km 30,4, através de um passadiço,

 

 

 

entrarmos na praia de Espiñeirido.

  

 

 

Em pouco minutos entrámos em Muxia.

 

Chegámos ao albergue todos “rotos”. Jason Walker, depois de tomar banho, não saíu mais da camarata. O irrequieto Mitok desafiou o pai para ir recolher a “muxiana” ao centro da vila e, de pronto, dirigiu-se até ao alto do monte Corpiño.

  

 

 

Entretanto, Fábio, seu pai, deambulava pacatamente pelo porto, observando o seu movimento. Eu, por sua vez, tomando um caminho empedrado,

 

 

fui visitar a igreja de Santa Maria

 

 

e um tosco cruzeiro, encostado na rocha nas proximidades da igreja.

 

 

E não resisti em subir também ao topo do monte Corpiño. Que lindas panorâmicas para o mar

 

 

 

e para o porto!

 

 

A páginas tantas não dou com Mitok. Do alto do monte chamo por Fábio. De seu filho também não sabe o paradeiro! Nestas coisas de montes e alturas, tão íngremes e perigosas como este monte, a gente não é de confiar muito em adolescentes aventurosos como Mitok. Às vezes tomam atitudes arrojadas, não sabendo medir os perigos e as suas consequências. Procurando, chamando, e berrando, receei o pior. Fábio, naturalmente, ficou numa aflição. E é vê-lo trepar o monte, olhando por todo o lado, à procura do “maroto”!

 

 

Felizmente tudo não passou de um susto. Fomos encontrá-lo nos arredores do Santuário de Nossa Senhora da Barca e… respiramos de alívio!

 

E, passado o susto, veio-nos cá uma fome!

 

Vingámo-nos com uma boa e abundante mariscada num bar/restaurante no interior do centro de Muxia. E não nos esquecemos de levar provisões para J. Walker que ficou no albergue, deitado, descansando, ouvindo música.

 

Já íamos “quentinhos” para a camarata do albergue. Não me lembro bem cair à cama. Foi sono de uma assentada.

 

O problema foi no dia seguinte! Não, não se tratou de ressaca nenhuma! Somente sob Muxia caiu uma tal borrasca que, chovendo “a cântaros” daquela maneira, nem sequer nos atrevemos a pôr pé a caminho para a última etapa até Fisterra …

 

Arranjámos cada qual sua mochila e tratámos de, numa das poucas abertas, ir à procura de autocarro para nos levar para Santiago.

 

Prometemos que um dia, todos os quatro, faríamos aquela etapa em conjunto, tal como acontecera com as três primeiras.

 

Quanto mais nos aproximávamos de Santiago de Compostela mais o tempo amainava. Até que parou mesmo de chover.

 

Chegados a Santiago, entrámos na Catedral,

 

 

 observámos um pormenor exterior desta barroca igreja,

 

 

 

bem como uma das suas torres,

 

 

demos umas voltas pela Praça do Obradoiro, observando as pessoas, no seu bulício típico de peregrinos em fim de caminhada. Naquela Praça algumas “estátuas” chamando-nos à atenção. Fixei-me numa.

 

 

 

E, na Praça das Praterias, um tocador de jazz, vestido a rigor, já em fim de espetáculo, preparando-se para abalar.

 

 

 

 E nós, seguindo pela buliçosa Rua do Franco,

 

 

 

lá fomos comer algumas das saborosas iguarias compostelanas e, barriguinha satisfeita, não vimos outra coisa se não o caminho para a estação de comboios a fim de nos dirigirmos a Ourense, onde a paciente, e sempre prestável mulher de Fábio, nos esperava para regressarmos a casa. Com a promessa, repetíamos, assumindo, que, um dia, a etapa Muxia-Fisterra seria feita!

 

Por último, aqui vos fica um diaporama/reportagem das três etapas realizadas.
 
[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].  

 

 

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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Gallaecia - Por terras do Alto Tâmega e Barroso: - Aldeias Fantasmas num paraíso natural

 
 
 
 

ALDEIAS FANTASMAS NUM PARAÍSO NATURAL

 

A partir dos primórdios da I Revolução Industrial torna-se cada vez mais claro e evidente que, de uma sociedade profundamente rural e agrária, passaríamos, inexoravelmente, para uma sociedade urbana. Lenta, mas fatalmente, é este o diagnóstico: as sociedades do futuro serão, na sua essência, urbanas.
 
O mundo rural, tal como o conhecíamos, e como as diferentes narrativas (muitas delas românticas) no-lo apresentam, desapareceu. E, mesmo aquele que persiste em prevalecer, mais-dia-menos-dia, seus dias estarão contados.
 
Desta feita, não há que chorar sobre o leite derramado. Há que aceitar os fatos. Sabê-los enfrentar e, nesta conformidade, encontrar as melhores respostas ou soluções para um velho e persistente problema: como encarar a problemática do desenvolvimento dos territórios rurais em total despovoamento, lidando com as gentes que restam, completamente envelhecidas?
 
De nada, agora, vale-nos acusar o modelo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui. É esta a realidade que temos. É, pois, com ela que temos de lidar.
 
O ideal seria uma mudança radical de paradigma, mais amigo da terra e do ambiente, em harmonia e equilíbrio entre estes dois mundos: um, o rural, tal como o conhecemos, em acelerada extinção, contudo, portador de enormes potencialidades ainda por explorar; o outro, o urbano, onde se acantonam, nos tempos de hoje, perto de dois terços da população mundial, com as suas virtualidades e potencialidades de convivência e socialização, mas também, simultaneamente, palco de misérias, conflitos e violência.
 
Sobre estes dois mundos paira um sistema económico e social depravador dos recursos naturais, pouco amigo da terra e do ambiente, explorador e escravizador, e sem respeito pela dignidade da vida humana.
 
Bom seria que a crise pela qual atualmente passamos fosse um bom ensejo para uma reflexão e tomada de consciência de uma outra postura perante a Vida e a Natureza, provocando a tal mudança de paradigma que urge que aconteça.
 
Mas … sejamos realistas! Infelizmente, creio, ser necessário ir mais fundo, ir até ao fundo do poço, até que esta “fruta podre” caia na terra e, depois da sua decomposição, ajudada pelo rigor de um longo inverno, sempre incentivador de uma aguda reflexão, faça renascer, com uma nova primavera, um novo mundo, uma nova esperança.
 
Antes que esse mundo pelo qual tanto aspiramos aconteça, que podemos fazer?
 
Não cabe aqui, neste pequeno escrito, o elencar das soluções para um problema que se nos apresenta tão complexo. Nem eu, tão pouco, possuo a varinha mágica propiciadora dessas soluções. Mas estou sinceramente convicto da premência em pormos este tema, cada vez mais ingente e com acuidade, quer na agenda da(s) nossa)s) sociedade(s) quer, em particular, na agenda política.
 
Porque precisamos encontrar, a partir de uma nova visão, que já tarda, um novo “modus operandi” para fazer face aos novos problemas com que o mundo rural hoje se confronta.
 
E a sua solução não deve vir de qualquer iluminado. Deve surgir do confronto, democrático e participativo, de todos, de toda a sociedade. Porque este não é só um problema do mundo rural: é um problema de todos nós!
 
Se atentarmos na reportagem que, no post anterior deste blog, reproduzimos, da jornalista Sandra Ferreira, constatamos estarmos perante aldeias raianas fantasmas, praticamente desertas,
 

carentes de vitalidade humana.
  
 
Conforme foto abaixo mostra, a aldeia de Segirei foi positivamente invadida por uma dezena de repórteres forasteiros  
  

 

e nem sequer meia-dúzia de pessoas encontraram!

 

 

Dos diferentes depoimentos, damo-nos conta que, as poucas gentes que por lá se encontram, depois de andarem pelas quatro partidas do mundo, à procura de melhores condições e qualidade de vida, criando e repartindo seus filhos aos quatro ventos, outra coisa não vieram aqui encontrar, depois de uma longa vida a construir e desenvolver outras terras e outros países, se não o afago, o aconchego, no final dos seus dias, da terra-berço que um dia os viu nascer e os fizeram mulheres e homens para a vida.

  
 
Sempre, em dilema constante, entre o amor ao seu terrunho 
 
 
e o amor dos seus filhos que por lá andam “mourejando”. Com persistente saudade, que lhes cava, ainda mais fundo, as rugas que a vida lhes criou. 
 
 
E, nostálgicos, dando-nos a conhecer a memória de outros tempos, evidenciando, nos seus relatos, com vivacidade, os tempos difíceis, de uma luta diária pela sobrevivência, numa comunidade prenhe de solidariedade e onde não faltava o calor humano, porque cheia de vitalidade.
 
 
São estas as memórias que importa reter, preservar. Sem esta preservação não se faz história. E sem esta história não há, não se reconstrói comunidade. Apenas restarão ruínas,
 
 

escombros à espera de arqueólogos para tentar interpretar aquilo que outrora foi uma comunidade, hoje já morta.

 

 

Porque é este, fatalmente, o destino da maior parte das nossas comunidades rurais!

 
 

Se não se tomarem outras medidas, o que se pode esperar de uma freguesia, e sua aldeias, que tem pouco mais de 300 (trezentos) habitantes, e sem praticamente crianças e jovens, dos quais 172 (cento e setenta e dois) têm mais de 65 anos – segundo dados de 2009 – sendo certo que atualmente serão mais?

 

Para finalizar, queria deixar aqui quatro imagens impressivas, que me ficaram da minha visita às aldeias da freguesia de São Vicente da Raia na qualidade de “repórter por um dia”.

 
A primeira, a do bondoso senhor Antenor, mas impotente e conformado Presidente da Junta de Freguesia. Tal como um D. Quixote, a sua luta circunscreve-se à conquista da sua Dulcineia – a construção do “seu” «Lar de Idosos» para acolher os seus velhos fregueses. A sua esperança, infelizmente, não é pugnar por criar mais vida outrossim acabar de construir, utilizando e ampliando as instalações da antiga escola, um lugar de acolhimento para os seus pares terem, segundo diz, um fim de vida mais condigno e com mais conforto.
 
 

A segunda imagem fui encontra-la em Aveleda, no placard informativo da Junta de Freguesia. O que sobressai e se sobrepõe naquele placard não são os editais da Câmara Municipal ou da Junta de Freguesia, mas sim um panfleto, anúncio publicitário, propagandeando os preços de uma funerária.

  

 

A terceira imagem, logo na outra esquina, ao lado daquele placard, um singelo Cristo crucificado, lembrando a morte.

 

 
A quarta, e última imagem, no meio de uma paisagem humana sem esperança,
 
 
  uma natureza viva persistindo em viver, personificada neste velho castanheiro,
 
 

e constantemente se renovando…

 

 
Por último, aqui vos fica um vídeo/reportagem de uma caminhada feita no verão passado pelas terras galegas de Vilardevós e de Segirei (Chaves), encontrando recantos autenticamente paradisíacos.
 
[Nota:- Para ouvir o vídeo, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].  
 
 

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Repórter por um dia em S. Vicente da Raia - Chaves

 
 

Repórter por um dia na freguesia de São Vicente da Raia

 

Estas aldeias raianas só são para velhos

 

Que contam as rugas das gentes que ainda habitam o nosso mundo rural? O que sentem quando vêem os filhos partir para regressar “de longe a longe”? Como lutam contra o isolamento e resistem à solidão? Respondemos ao apelo de um projecto de Animação Sociocultural do Pólo de Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) – desenvolvido em parceria com a Associação de Fotografia e Gravura Lumbudus  – e subimos pelas artérias da freguesia mais distante da “civilização” flaviense, São Vicente da Raia, até chegar ao coração de xisto das suas aldeias, abandonadas na serra raiana.

 

AVELEDA. “Funerais a partir de 379,12 euros na Funerária São Pedro”. “Edital para a eleição da Assembleia Municipal de Chaves no dia 5 de Junho 2011”. “Participe nos Censos 2011”. O tempo terá parado em Aveleda? Depois de um arrepio na espinha, não se sabe bem se da chuva miudinha, se do receio, apetece gritar alto se está aí alguém, não sentíssemos o cheiro a sardinha assada vindo de mais adiante, do grelhador de Emídio.

 
 

É de Paradela de Monforte, mas casou em Aveleda, uma das quatro aldeias da maior e mais distante freguesia de Chaves, São Vicente da Raia. Aconchegada num pequeno vale a 500 metros de altitude e rodeada dos montes que unem Portugal à Galiza, é aqui que Emídio Teixeira, 56 anos, vive desde que nasceu a filha Marlene, há 29 anos. Esteve emigrado em Espanha, em França e na Suíça, mas andava ilegal e nem sempre arranjava trabalho. Gosta da aldeia? “Que remédio! A gente tem aqui as coisas, há que aguentar!”, ri-se. Claro que sofre com a solidão. “Aqui, não há um café, é uma tristeza… Há domingos em que só se vê uma pessoa a passar na rua. Nos outros dias ando entretido!”.

 
Ainda mergulhada no “antigamente”, Aveleda tem 17 habitantes, mas além de Emídio, a assar sardinhas no largo principal da aldeia, Marlene, a espreitar timidamente à janela de casa, e um simpático casal de idosos, a aparecer na rua para receber as “visitas”, não se verá nem mais um sinal de vida na aldeia mais pequena da freguesia de S. Vicente, mas também uma das mais pitorescas, pelas casas feitas em xisto, já que não se forma uma rocha de granito nesta zona, como acontece no resto do concelho flaviense.
 
 

Marlene é o único rosto sem rugas em Aveleda. Com o 8º ano, ainda tentou emigrar para Espanha, onde está o irmão, mas logo regressou e vai ajudando na lavoura. “Lá também não há trabalho!”, resigna-se o pai, sempre de sorriso nos lábios.

 
“Foi tudo embora! O que estavam aqui a fazer?”, mete-se a idosa que desceu ao largo, Luísa Neves, 72 anos, que tem cinco irmãos “espalhados pelo mundo fora” e apenas uma irmã e a filha, de 52 anos, na aldeia. “Daqui a 10 anos, não haverá ninguém. Eu aqui nasci e aqui quero morrer!”.
 
 

O marido, o tio Mário, a fazer 80 anos, ri-se e diz com orgulho que ainda caça. A vez em que tentou emigrar para França “a salto”, ainda com as fronteiras fechadas, foi preso e forçado a regressar. Desde então, “com pão e vinho”, lá foram “andando o caminho”. Mais velho do que ele na aldeia, só Narciso, com 84 anos.

 

Hoje, com “luz, telefone e boas estradas”, a dona Luísa está bem. “Só nos falta uma camioneta para ir a Chaves. Há dias, o meu marido teve que me levar numa burra até S. Vicente para apanhar a camioneta das 7h. Temos de sair daqui às 5h30 porque não temos carro! Olhe que ainda é um sacrifício…”, conta. O que vale, muitas vezes, é a “boleia” até ao hospital dos emigrantes que regressam quando surge um problema de saúde grave.

 

Também faltam crianças. Aqui não há nenhuma. A escola primária de Aveleda foi a última a encerrar na freguesia, em 2002, por falta de alunos. Mas nem todos os esquecem. Todas as semanas, o Padre Delmino Fontoura celebra missa em cada aldeia de S. Vicente. Em Aveleda, só para dois ou três fiéis.

 

- “Tio Mário, gosta de morar na aldeia?”

- “Que remédio tenho!”

 
 
SEGIREI. Submersa em chuva miúda… amorosa… desértica. É aqui o último ponto de chegada para quem segue a estrada sinuosa em direcção à fronteira. Nas montanhas, avistam-se casas isoladas até se dar com um “desfile” de vivendas de emigrantes que competem em exuberância e tamanho da piscina. É o “bairro de cima” de Segirei.
 
 

Descendo a encosta, pouco soalheira para outrora facilitar o contrabando que ali alimentou muitas famílias em tempos de fome, chegamos ao “bairro de baixo”, o dos retornados, das casas modestas, algumas com resquícios de xisto. Tanto o bairro “rico” como o “pobre” estão praticamente desabitados… até aos dois meses de Verão, em que regressam os emigrantes, aguardados com ansiedade e muita saudade.

 
 

Ao ouvir vozes desconhecidas, aparece à espreita um rosto enrugado à janela. É o de Sílvia Caridade Pires, 87 anos. Lá sai da porta, de sorriso envergonhado, mesmo sem ter culpa da “invasão” forasteira. Como quase toda a gente, emigrou. Viveu 13 anos em Bilbau, cidade basca onde muitos da aldeia estiveram e ainda permanecem. Um dia, “o meu marido ficou sem trabalho, quis vir…Eu antes queria lá estar porque as filhas estão lá …”, lamenta. Mas se viessem, “a vida seria ruim porque aqui a gente é pobre…”.

 
 

Outra “Pires” aparece na rua, Leonilde, já que aqui é tudo família. Nunca saiu da aldeia. “Nunca tive curiosidade porque nunca tive dinheiro! Para onde é que havia de ir?”, ri-se a mulher de 58 anos, que teve 13 irmãos, mas apenas dois filhos, que trabalham perto, mas do outro lado da raia, em Vilardevós, o que justifica a ligeira pronúncia espanhola. “O meu dia-a-dia é andar com as crias, trabalhar no campo e fazer a comida em casa”, conta a esposa do “gaiteiro” de Segirei, que vai animando a casa do vizinho, a rua, o café, onde calha. Os “vitelinhos” que vendem na aldeia rendem 500 euros por ano e vão chegando para comprar a mercearia dos vendedores ambulantes.

 

“Aqui há muito pouquinha gente”. Dizem os Censos que são à volta de 30 residentes. Para onde foram as pessoas? “Algumas faleceram, outras emigraram”. E os jovens? “Na agricultura metade não sabe trabalhar e outros têm que emigrar porque aqui, coitadinhos, não têm trabalho”. Crianças? “Não há nenhuma”. A pessoa mais nova tem 35 anos. “Acho que isto vai acabar…”, arrisca Leonilde.

 

Antigamente? Havia quem levasse “umas batatinhas, umas cebolinhas, por aí acima [até Soutochao, concelho galego de Vilardevós] … Às vezes, por uma dúzia de ovos, os guardas até lhos tiravam na fronteira” para acabar num “arranjinho” conveniente para ambas as partes, recorda Leonilde. “O meu pai e os meus irmãos eram contrabandistas!”, lembra também a dona Sílvia. Era daqui que saía o presunto que enchia a mesa dos espanhóis. Com a adesão à CEE, o contrabando terminou, mas a emigração continuou… livremente.

 

Tal como o cheiro agradável que escapa da porta aberta de uma casa na travessa principal da aldeia e chega até ao estômago. À volta dos tachos, Ivone Nascimento, 69 anos, memora 14 anos da sua vida em França. Emigrou aos 30 anos para “poder comprar casa”, ainda se passava “a salto de coelho” na fronteira. Regressou com o objectivo cumprido. Agora é, finalmente, livre. Da fome, das patroas, da vida escrava, das “porradas”.

 

Em Segirei, conversa-se muito entre vizinhas. “Falamos que amanhã tenho que ir para ali, tu já almoçaste, eu ainda não, os teus filhos estão bem, os meus também”. De Inverno, anoitece cedo e as tabernas fecharam há anos. “Estou com o meu marido, e começo a pensar ‘valha-me Deus, hoje estamos os dois, amanhã está só um…”. Mais novos do que eles a habitar na aldeia, só três casais. “Depois aqui não fica ninguém. Que vêm cá fazer? Mete-me pena. A gente trabalhou tanto para ter o que tem…”

 
 

“O que não se juntou até agora, hoje já não se junta!”, acrescenta o marido de Ivone, o “Tio Alcides”, 74 anos. Na aldeia já não se vendem as batatas. “Se o quilo vale 20 cêntimos, só o pagam a cinco! Os adubos caros, o gasóleo caro, para que é que a gente anda a trabalhar? Para o Governo?”.

 

Em Segirei, que tem por topónimo um apelido de família espanhola, ainda mora um antigo embaixador de Espanha no Brasil, que deu emprego a muita gente nas vinhas, de reconhecida qualidade. Além dos emigrantes e visitantes que desfrutam da cascata, rios e praias fluviais no Verão, a aldeia também é percorrida por peregrinos espanhóis que se aventuram pela "Via de La Plata" até Santiago de Compostela ou experimentam a “Rota do Contrabando”.

 

- “Tio Alcides, gosta da sua aldeia?”

- “Sou obrigado!”

 
 
 
ORJAIS. Finalmente surge aqui a revolta. “O meu nome é Manuel Fernandes e pode-me mandar para a prisão por aquilo que digo!”.
 
 

Numa encosta longe da estrada principal e da vista, a aldeia de xisto esconde uma beleza singular e até vestígios de ocupação judaica. Toda a gente diz que “isto está mal”, que o Governo devia ajudar as aldeias em vez de “mandar os jovens emigrar”, mas sem convicção, pois hoje já ninguém acredita em nada. Manuel enerva-se e grita contra os políticos do pós 25 de Abril que “não souberam dirigir o dinheiro que havia” e deixaram que a sua linda aldeia chegasse ao ponto a que chegou, que até para ver futebol tem de ir a S. Vicente porque não se lembraram de lá fazer chegar a TDT. “Ninguém olha para o pobre! Gostava que me deixassem ir à televisão a Lisboa!”.

 

Manuel ainda se lembra de haver 12 rebanhos de ovelhas e 40 cabeças de bovino em Orjais. Hoje só um rebanho e nenhum gado. Habitam aqui cerca de 50 pessoas, uma única criança de 7 anos, e só duas casas é que não têm reformados. “Há mais pessoas no cemitério do que a viver cá!”.

 

 

“Ninguém passa por Orjais”, confirma Nestor Santos, 45 anos. “É bonita como quem diz!”, desabafa, para não dizer que é pobre… e triste. É dos poucos que regressou à aldeia para não deixar a mãe sozinha, que entretanto faleceu. Já pensou voltar a abandonar a terra, mas “agora é que não há muitas oportunidades para sair…”.

 

Antigamente, “havia agricultores na freguesia que colhiam 30 mil quilos de batatas e vendiam-nos!”, recorda Antenor dos Anjos, presidente da junta de S. Vicente da Raia há 24 anos. Ainda acredita que a solução para inverter os números da emigração é voltar a cultivar os terrenos com os devidos apoios, apostando nas cooperativas agrícolas e no turismo rural. Contudo, admite que “um presidente de junta pouco pode sem a ajuda da Câmara”, que também “pouco pode para as aldeias sem a ajuda do Governo”.

 

 

S. VICENTE DA RAIA. É o ponto de todos os encontros, já que, além de ter mais habitantes (cerca de 100), é a única aldeia da freguesia onde há cafés. Hoje o “Outeiro” serve mais copos de vinho do que o costume, pois os idosos aguardam a chegada da contabilista para ajudar a preencher a declaração de IRS, que este ano tem de ser entregue por todos os que recebam uma pensão acima dos 293 euros.

 

 

Há dois anos, Agostinho Fontoura, um filho da terra, decidiu regressar do Porto, com a esposa Catarina Santos, para montar uma cozinha regional. Trabalhavam num hipermercado da Maia, onde se conheceram, e quiseram livrar-se de horários, serem “independentes”. Lá a vida “estava a ser muito saturante, muito stress, muita correria…”, desabafa Catarina, 36 anos, natural de São João da Pesqueira. Nunca viveu numa aldeia, mas a adaptação não está a custar. “Gosto das pessoas, do ambiente, é tudo muito bom! Vive-se com uma paz interior muito maior”.

 

Como não dá para viver do fumeiro, o casal gere o “Outeiro” com os pais de Agostinho. Este ano, criaram 10 porcos que venderam na aldeia, nas feiras e a emigrantes, mas “sem apoios” e muita burocracia, mesmo com produtos de sabor incomparável, não é fácil manter um negócio no mundo rural, onde os telemóveis nem sequer apanham rede.

 

 

Um buzinão interrompe as conversas no café. “É o padeiro!”, grita logo Maria, a filha de 3 anos, uma das três crianças da aldeia. Todos os dias, vai de táxi para o jardim-de-infância de Argemil, na freguesia vizinha de Travancas, que para o ano também vai encerrar. Conta os amiguinhos novos pelos dedos de uma mão. “O Martim, a Beatriz, o David, e eu!”. Aqui ninguém tem tempo para se aborrecer, garante a avó Arminda. “Os animais não têm fins-de-semana!”.

 

À espera da contabilista, está Agostinho da Costa, 76 anos. “Noutros tempos, à noite, havia muita malta nova a cantar pelas ruas. Era o nosso cinema! Não havia outro!”, recorda. À mesma mesa, Carlos Noval, 78 anos, assiste à conversa com ironia. “Estou sozinho, trazem-me a comida de um lar. Pior não podia estar!”. Só mesmo nos tempos da fome, em que o contrabando “não dava muito”. “Andávamos aí como os burros, carregados para cima e para baixo, para ganhar 25 escudos”, confirma Salvador Fernandes, 77 anos, de Orjais. Mas havia mais educação e honestidade. “Hoje anda tudo de carro, acenam só com a mão e assim se perdem os amigos…”.

 

 

No povo, todos agradecem o zelo do presidente da junta. Antenor dos Anjos já tentou negociar um autocarro com a Auto Viação do Tâmega para ligar as aldeias da freguesia a S. Vicente, mas a empresa não está interessada em prejuízo. Antenor sabe que a transferência de muitos serviços de saúde de Chaves para Vila Real agravou problemas. “Para ir a uma consulta, as pessoas perdem um dia e gastam o dinheiro que não têm…”. A maior parte das reformas não ultrapassa 300 euros, muitos não têm viatura própria e dependem do autocarro diário de S. Vicente para Chaves.

 

Mudaram os tempos, mudaram as necessidades. Onde antes era a escola, em breve será o lar de idosos. Este ano, Antenor esteve nos Estados Unidos para angariar 100 mil euros junto da comunidade emigrante para continuar a obra, iniciada em 2010 com 75 mil euros da Câmara de Chaves, mas que parou por falta de dinheiro. Quando abrir, o lar, com um custo estimado em meio milhão de euros, só poderá acolher 12 idosos, muitos ficarão na lista de espera.

 

 

Apesar das paisagens deslumbrantes integradas no Parque Natural de Montesinhos, os Censos de 2011 contaram apenas 228 habitantes na freguesia de S. Vicente da Raia. Em 1960, eram 990. Pelo meio, os guardas-fiscais partiram, o contrabando acabou, a emigração continuou. Já não nascem crianças, os mais velhos vão falecendo... Não regressa ninguém. Encolhem-se os ombros. Sabe-se que nas cidades “também está tudo muito complicado” e que há crise, mas... Toda a gente vê, toda a gente sente, toda a gente teme, mas… é ter fé e deixar tudo em reticências…

 
 
 
Texto de Sandra Ferreira
Fotos de tamara_junior
 

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