Sábado, 26 de Janeiro de 2013

Gallaecia - Por terras da Gallaecia (I)


 
 

Adeus à Ponte de Remondes e ao rio Sabor

 
 

Li algures, já não sei aonde -  tal a avalanche vertiginosa de informação que, todos os dias, nos entra portas dentro, que até lhe perdemos a fonte -, que os habitantes de Remondes, do concelho de Mogadouro, se juntaram à volta da designada Ponte de Remondes, lugar de passagem sobre o rio Sabor para quem vem das terras de Mogadouro para as de Macedo, para se despedirem dela.

 

Não fiquei muito bem a saber se aquilo se tratou de festa rija ou de velório, pois até tinha Dj e tudo!

 

No passado 3 de Maio, vindo dos lados de Miranda do Douro, onde fui visitar um familiar, depois de ter terminado, a pé, a linha do Sabor, passei por aquele local em direcção a Izeda, onde nunca ainda tinha parado, apesar de por lá passar uma ou duas vezes.

 
 

Já passava bem da hora do almoço.

 

Não sei bem que me deu na cabeça quando parei o carro, à saida da ponte e, mais de uma hora, fui andando a pé rio acima.

 

Das minhas caminhadas pelas «Travessas e Linhas Abandonadas» deste nosso Reino Maravilhoso, para além de conhecer o rio Douro, do Pocinho à Barca d’Alba, o rio Tua e o Corgo, que correm paralelos às respectivas linhas, estava ansioso também por conhecer o Sabor. Razão pela qual me aventurei a fazer também aquela linha, desde o Pocinho até Duas Igrejas, término da mesma.

 

Mas, quando se percorre esta linha, o rio anda muito afastado de nós, a não ser entre Pocinho e Torre de Moncorvo, nas proximidades daquela vila.

 

Para quem vinha de fazer uma linha com o nome de um rio, ainda por cima com a fama, tal como o Tua, que corria em «estilo natural»

 
 

e sem qualquer intervenção humana que o desfigurasse no seu aspecto e estrutura natural,

 

 

mas que, praticamente, nunca o tinha visto, hoje entendo aquela minha atitude de parar alí à saída da Ponte de Remondes e «botar» pernas rio acima, num forte impulso para o melhor conhecer e sentir, depois da frustação de ter feito a linha que levava o seu nome e quase nem sequer ver as suas águas.

 

 

Como hoje compreendo tão bem o nosso poeta do Reino Maravilhoso!

 
 
Em certo sentido é preciso descer do carro e pegar nas botas para melhor se conhecer e amar este magnífico «reino». Enquanto caminhava rio acima, não era apenas o rumor das suas águas e a sombra dos sobreiros, na sua margem, que me refrescavam: sentia que me dava uma nova alma, saindo de mim mesmo uma forte emoção e um sentimento de amor por esta natureza que minhas botas pisavam e meus olham viam e observavam.
 

Há momentos inesquecíveis, que nunca jamais esqueceremos, tal a forte vibração que em nós provocam. Este foi um deles!...

 
 
 

A barragem do Baixo Sabor vai submergir toda esta natureza pura, em estado quase selvagem e, com ela, a sua antiga ponte, de tantas passagens e de tantas histórias, vai desaparecer. E tudo isto como se fosse um pedaço de alma que nos abandona e nos deixa órfãos e mais pobres.

 

Mais pobres em termos de humanidade, embora nos prometam, com este empreendimento, mais riqueza em termos económicos.

 

Mas riqueza para quem?

 

Para onde vai o proveito desta obra? Directamente para as suas gentes, os seus habitantes, para além dos míseros tostões que lhes deram pelas terras que vão ficar submersas?

 

Para um melhor e mais equilibrado desenvolvimento do território deste «reino» que teimamos em dizer ser maravilhoso mas que, constantemente,  se vê ensangue, expulso das suas gentes, desertificando o interior e tornando-nos, a todos, cada vez mais escravos num modelo de desenvolvimento assente num sistema económico delapidador de recursos que só aproveita a incontrolável gula e voracidade de meia dúzia de «rapinas»?

 

Que evento, afinal, as gentes de Remondes levavam a cabo junto da «sua» Ponte?

 

 


publicado por andanhos às 23:48
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Gallaecia:- Alto Tâmega e Barroso - A «Mesinha» de S. Sebastião do Couto de Dornelas


 
 

Devoção, tradição e modernidade

 

- A propósito da «Mesinha» de São Sebastião do Couto de Dornelas –

 
(D. Celeste Magalhães)
 
 

Fui já três vezes, a 20 de Janeiro, a Vila Grande/Couto de Dornelas participar na «Mesinha» de São Sebastião. A primeira creio ter sido há mais de trinta anos. Integrava uma Visita de Estudo, organizada pelo meu querido amigo Marcelino quando, então, eramos professores da extinta Escola do Magistério Primário de Chaves: ele, já um inveterado pelas causas da animação sociocultural; eu da área das ciências sociais e humanas e das ciências da educaçaão, movido pela curiosidade do evento que então se reconhecia como «genuino». A segunda, julgo que nos finais da década de noventa do século passado, no auge de uma querela azeda, e com relações revoltadas entre o anterior pároco e as «forças vivas progressistas», que na altura «comandavam» a comunidade, a propósito da titularidade da propriedade da designada «Casa do Santo». A terceira foi no passado domingo, participando no programa que a Associação Lumbudus organizou para partilharmos deste tão conhecido evento.

 
 

Não é minha intenção aqui falar da vida e do martírio de São Sebastião. O caro leitor, com um simples «clic», após escrever o nome deste santo, ficará fartamente informado. Não é minha intenção também aqui falar da lenda que, quanto a este evento, lhe anda associada. Uma simples consulta ao sítio da internet – http://ssebastiaodornelas.com.sapo.pt/, ou qualquer outro - este esteve-me mais à mão -, pode dar-nos uma ideia aproximada não só da lenda como da forma como o evento, ao longo dos tempos, se tem organizado.

 
O «cerimonial» esse mantem-se como uma efectiva e viva tradição: desde os preparativos para a apanha da lenha, recolha do centeio, moagem e cozedura do pão; à cozedura da marrã (carne de porco) e do arroz;
 
 

ao estender das tábuas e seus suportes para a «Mesinha» ao longo da rua principal da aldeia;

 
 

à missa em honra de São Sebastião, na Igreja Paroquial de São Pedro, com arquitectura idêntica à dos nossos vizinhos galegos (com a torre sineira separada do resto do corpo da igreja);

 
(Exterior da Igreja Paroquial de S. Pedro)
 
(Interior da Igreja Paroquial de São Pedro)
 
(Pormenor de um altar lateral)
 

ao mesmo adro e sua envolvente, imutáveis, dir-se-ia, desde o princípio dos tempos,

 
(Cruzeiro)
 
(Casa junto ao cruzeiro com as «alminhas»)
 
(Pormenor das «alminhas»)
 
(Casa de lavoura)
 

com o velho e tosco pelourinho, esquecido a um canto, mas a dizer-nos que esta terra já foi «couto» de Arcebispos (de Braga) e teve pergaminhos de importância;

 
 

à procissão

 
(Pormenor 01 da procissão)
 
(Pormenor 02 da procissão)
 

em direcção à «Casa do Santo»

 

 

para a benção do pão, da carne e do arroz;

 
 

logo seguida do pôr a «Mesinha» de São Sebastião com o estender da toalha de linho;

 
(Pormenor 01)
 
(Pormenor 02)
 
(Pormenor 03)
 

o transporte

 

 e colocação da broa do pão, rigorosamente a metro e meio umas das outras, sob a medida de uma vara com esse cumprimento (cana da india);

 
 

o transporte dos pratos de madeira;

 

 

o colocar o prato de madeira em cima do pão;

 

 

o transporte e colocação da marrã  

 
(Pormenor 01)
 
(Pormenor 02)
 
(Pormenor 03)
 

e do arroz na «Mesinha»,

 
 

enquanto é dado a beijar a figura de São Sebastião,

 
(Pormenor 01)
 
(Pormenor 02)
 

(agora, cada um dos comensais, conforme a sua vontade e as suas posses, deposita a sua esmola numa cestinha para a ajuda da comida que é servida).

 

 

Findo o repasto, com uma mesa que pode atingir os 500 ou 700 metros de cumprimento, de imediato, a «Mesinha» é levantada e, aqui assim, o evento acaba praticamente.

 
 

Trinta anos volvidos desde a minha primeira aparição em Couto de Dornelas, neste dia 20 de Janeiro, houve, contudo, pormenores que, porventura, se bem analisados, já não são bem pormenores mas verdadeiras transformações. Transformações estas que me levam a refletir sobre duas ou três questões relacionadas com este acontecimento com características bem mais particulares que o São Sebastião de Alturas de Barroso e de Salto (Montalegre).

 

Vejamos, para mim, a mais importante delas: a massificação do evento. No passado domingo, apesar do dia de frio e de chuva que esteve, deveriam passar de dois mil os comensais que se aproximaram da «Mesinha».

 

(Pormenor 01)

 
(Pormenor 02)
 

Autocarros e carros particulares entupiram as restantes ruas da aldeia.

 
 

E não faltaram vendedores-ambulantes. Guarda-chuvas foi o que mais se vendeu, naturalmente…

 
 

Gente que não vinha apenas servir-se da comida do Santo pois traziam abonados farnéis que iam comendo e bebendo enquanto o repasto benzido não chegava.

 
 

Muitos deles em grupos, cantando, um ou outro, dançando, como se de uma autêntica romaria se tratasse.

 
 

A segunda questão leva-me a interrogar: é certo que todo este «cerimonial», sumariamente descrito, integra efectivamente uma tradição. Que real tradição? Bom, alguns dir-me-ão, a tradição que tem a ver realmente com a lenda! Correcto. Sabemos que, toda e qualquer lenda, tem o seu fundo de verdade; respalda-se em «alguma história». Que tem a ver com a fé; com os medos da peste, da fome, da pobreza, da violência… Mas, onde está a sua verdadeira história, porventura algures escondida nas funduras da Idade Média onde, provavelmente, tudo começou?

 

Estou certo que grande parte dos que se aproximam de Vila Grande e se acercam da «Mesinha» de São Sebastião, no dia 20 de Janeiro de cada ano, são movidos pelos mais sãos e santos sentimentos de fé no Santo. Certamente que sim. Contudo, uma grande percentagem de pessoas não vão a Couto de Dornelas movidos pelos laços de fé que os prende ao Santo! Que os move então? Curiosidade? Nostalgia dos tempos passados? Uma espécie de um «novo regresso ao campo», aliás donde a maior parte de nós somos oriundos, numa espécie de viagem româmtica? Ou…?

 

Não sou sociólogo, nem sequer antropólogo. Apenas um curioso, interessado na razão de ser das coisas, da profundidade das mesmas, se tal é possível.

 

Tenho para mim, se queremos integrar estas tradições efectivamente no «corpus» do dia-a-dia das nossas comunidades, nos tempos que correm, tão globais e tão voláteis, neste mundo que nos homogeniza a todos, há que ir mais fundo. Encontrar a raiz que prende esta(s) tradição(ões) à vida, à história efectiva das nossas comunidades para que, também com ela(s), possamos contribuir para uma maior e melhor construção da(s) mesma(s).

 

Li algures que uma exposição fotográfica sobre este evento esteve patente ao público num dos locais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e que correrá por outras localidades, sob a designação de «Gentes e Costumes». Ora aqui está o ponto: o arquivo, nomeadamente o fotográfico, é de uma importância fundamental para conhecer e melhor compreender uma terra, uma tradição e a sua consequente evolução. Mas há que ir mais longe. Ao cerne, ao âmago das coisas: do seu real e efectivo significado e da importância que, ao longo dos tempos, representou para a(s) comunidade(s). Por forma a que as comunidades melhor se compreendam, enquadrem e identifiquem, encontrando, desta forma, novas vias que as leve à sua preservação e melhoramento, o mesmo que dizer – manutenção no meio, no quadro de um novo desenvolvimento que utiliza a sua história e tradição como elemento, alavanca fundamental, não só da sua identidade e auto-estima, mas também da escolha da melhor estratégia para o seu efectivo desenvolvimento.

 

Mas, na complexidade da sociedade em que hoje vivemos, não é só às comunidades que se deve exigir este esforço. Deve ser um esforço da sociedade no seu todo. Em particular das instituições que para este desiderato estão mais vocacionadas. Há que repensar, analisar e apresentar um novo modelo de desenvolvimento pois, aquele que nos trouxe até aqui, está a vista de todos, não serve, esgotou. Desventrou de gentes todo o interior do país, deixando desertificado o seu território e abandonados à sua sorte os poucos resistentes que teimam em por lá ficar, enquanto, por outro lado, numa pequena faixa do litoral «encaixotamos» gentes que vivem o seu dia-a-dia ao lado de outros que não se falam, não conhecemos o seu nome e nem lhe vemos sequer o seu rosto, criando espaços que são não-lugares, sem identidade e sem história.

 

Eu acredito na política, nass instituições que trabalham o conhecimento e nas nossas comunidades. Da política espero que nos apresente um outro futuro, com uma visão de uma sociedade mais livre, mais justa, mais fraterna e mais igual; das instituições do conhecimento e da investigação, face a essa nova visão e esse futuro, um melhor conhecimento das gentes, das tradições, dos seus costumes e dos territórios pois é, a partir deste cadinho de conhecimento e saber, que se poderão arquitectar as melhores estratégias para um desenvolvimento mais justo e equilibrado das comunidades, num mundo em constante mudança; das comunidades, devidamente informadas, formadas e animadas, espero a vontade, a força e a determinação suficientes para levarem a cabo a tarefa urgente do desenvolvimento harmónico, integral e solidário do território – pátria que também foi dos nossos avoengos – e das suas gentes que, tal como antanho, souberam elevar bem alto, por aquele mundo conhecido de então, o nome de Portugal.

 

Neste sentido, há que nos despir da mentalidade mesquinha que cada terra, cada lugar tem. E evitar que sejamos “um ninho, ou de néscios, ou de lacraus” dando-nos “cotoveladas uns nos outros, ou fecharmos os olhos e baixar a cabeça. Sem esperarmos, pelo nosso trabalho ou lavor, quaisquer “prebendas, sorrisos e abraços”. Precisamos, sim, de todos. De todos sermos actores, artistas principais nas tarefas do nosso próprio desenvolvimento. Banindo a mentalidade de avestruz. Mesmo que tenhamos de assumir, na mesma pessoa, com autenticidade, verdade e sem torpezas, diferentes nomes e personalidades: temos que nos desdobrar!

 

Porque todos somos poucos para a(s) tarefa(s) que aí temos à nossa frente.

 

 

António de Souza e Silva

 
 

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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Gallaecia - Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 4ª etapa:- Campiello-Pola de Allende

 

 

Entre a alma humana e as paisagens revelam-se

 surpreendentes analogias. Estas analogias prendem-se, entre outras,

também com as impressões de depressão ou de excitação,

de tristeza ou de alegria que recebemos da natureza

ou dos seres humanos, sem frequentemente,

compreendermos bem a causa.

Uma paisagem não possui «alma», manifestando-se como a nossa,

por sofrimentos conscientes e por ideias ponderadas.

A sua alma consiste num conjunto de caracteres gerais, de fenómenos,

de funções que variam de uma paisagem para outra,

mas que exprimem ou constituem a vida das coisas,

a sua natureza, a sua destinação”.

 

Frédéric PaulhanA estética da paisagem (A paisagem como retrato da natureza)

 

 

 

10.Dezembro.2013

 
 

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias – Campiello – Pola de Allende

 
 
 
 

1º Troço – Campiello – La Mortera

 

Planeámos esta etapa um pouco mais curta para estarmos um pouco mais frescos para a etapa rainha do Caminho, no dia seguinte.

 

Acordei cansado e com vontade de dormir mais. Mas, quem pára Pé D’Vento?

 

Às sete em ponto lá nos encontrámos todos, outra vez, no comércio da Dona Hermínia para tomarmos o pequeno-almoço. Serviu-nos torradas com azeite, compotas e café com leite.

 

Enquanto tomavamos o pequeno-almoço, numa das paredes do comércio, a seguinte quadra: "Cuando marchamos, cerramos; cuando llegamos, abrimos; si vienes y no estamos, es que no coincidimos".

 

Estava um frio de morrer e tinha caído uma senhora geada!

 

Paga a conta, mochilas às costas e… toca a andar. Nesta localidade ganhámos mais um companheiro para o Caminho – um cão preto que, já na véspera, tinha simpatizado com Fábios.

 

Nas primeiras passadas, ao longo da estrada TI-3, por onde no dia anterior tinhamos vindo, e enquanto passávamos por El Freno e El Espín, fomo-nos apercebendo que o frio, vindo dos lados dos Picos da Europa, não estava nada meigo. E como se entranhava no corpo...

 

O que nos valeu, durante os primeiros quilómetros, para nos distrair, foram as «pantominices» do cão que fez questão de não nos largar. Rebolava-se pelos prados cheios de geada que até nos metia impressão!... e depois vinha, até junto de nós, como que nos incitando a entrarmos nas suas brincadeiras juvenis. Quem mais admirava as suas «maquequices» era Fábios. Este «fiel amigo», seguramente, acompanhou-nos em cerca de dois terços do nossos caminho de hoje. Até que, e sem darmos conta, depois de se ter encontrado com uma amiga cadela, desapareceu da nossa vista e nunca mais lhe pusemos a vista em cima. Lá continuou com a sua vida… de cão.

 
 

À saída de Campiello, Careca & Silva, compadeceu-se com meia dúzia de cavalos que, tendo dormido ao ralento, no meio do prado, exibiam, nos respectivos cerros uma espessa camada de geada.

 

Já para não falar das árvores!

 
 

Com o transcorrer da manhã, e com o ritmo da caminhada, o frio foi-se atenuando e, depois, desaparecendo.

 
(Panorama 01)
 
(Panorama 02)
 

Depois de El Espín, saímos da estrada à esquerda e, através de um caminho, a subir, a cerca de 300 metros, passámos por Borres, uma pequena localidade do concelho de Tineo, na qual é bem nítido o abandono a que este lugar está votado. Vislumbrámos, ao cimo de uma colina, o albergue de peregrinos, embora aqui não tivessemos ido visitar uma das igrejas mais antigas do concelho de Tineo.

 
 

Ao sairmos de Borres, cruzámoa a AS-219 e, depois, tomámos, à esquerda, um caminho que corre paralelo a um pinhal. E, antes de passarmos por Samblismo, um marco («mojón») mostra-nos a direcção de uma outra variante da etapa – a via ou rota dos Hospitales, mais montanhosa, que sobe até aos 1 200 metros, e até às ruínas do Hospital de Fonfaraón, para descer até Montefurado, após também ter passado pelo Puerto de El Palo. Esta via encurta, até Montefurado, sensivelmente 12 Km. Contudo, durante o inverno, ou com mau tempo, apesar da sua boa sinalização, é desaconselhável fazê-la: as condições meteorológicas são demasiado agrestes, dizem.

 
(Panorama 03)
 
 

Virámos, apesar de estar um bom tempo de sol, à esquerda, em direcção a Pola de Allende. Por se tratar de uma época do ano de inverno, em que decidimos efectuar este Caminho, a nossa planificação não contou com esta alternativa.

 
 
 

2º Troco – La Mortera - Porciles

 

 
(Panorama 01)
 
(Panorama 02)
 

Três quilómetros depois deste local, passámos em La Mortera, em plena As-219 e, daqui em frente, estamos de acordo com o que se diz no sítio do Eroski Consumer quando diz, referindo-se a este troço do Caminho, que: “comienza un verdadero trazado rompepiernas que asciende a Porciles”, a 770 metros de altitude.

 
(Panorama 03)
 
(Panorama 04)
 
(Panorama 05)
 

Antes da aldeia de Porciles, entrámos num bar, à beira da estrada, para nos refrescarmos. O seu proprietário era pessoa muito simpática. Ao lado, a singela capela de São Roque de Porciles.

 
 
 

3º Torço – Porciles – Pola de Allende

 

Continuando no asfalto (estrada), seguimos até ao alto da Lavadoira, a 815 metros de altitude.

 
 

A partir daqui foi uma dolorosa descida: primeiro, até Ferroy; depois, daqui até Pola de Allende.

 
 

Não sei que jeito Fábios deu ou se foi a extrema irregularidade e descida do caminho ou, inclusive, ambas, o que é certo é que, de todos, foi o que mais «roto» chegou a Pola de Allende: estava desesperado.

 
(Panorama 01)
 
(Panorama 02)
 
(Panorama 03)
 
(Panorama 04)
 
(Panorama 05)
 

Chegados ao albergue, bem arejado e ensoleirado, ao lado da Gurda Civil, tomámos banho e fomos almoçar. Fábios trazia um Hotel/Restaurante já referenciado, com a indicação que se comia bem a um preço em conta: Hotel Nueva Allandesa.

 

Todos comemos a célebre «fabada» asturiana, como entrada, seguida de uns suculentos lombos grelhados de vaca e, como sobremasa («postre»), um bolo à base de chocolate, muito saboroso, acompanhado de café.

Apenas Nona saíu da «norma», comendo vegetais cozidos com duas postas de salmão grelhado. Dizia já ter saudades de comer peixe.

 

Todos prescindiram do «menu» do peregrino que esta casa seve especialmente para os peregrinos.

Após o almoço, enquanto Fábios, ainda ressentido da jornada, foi descansar para o albergue, o restante grupo foi dar uma volta pela localidade. Eis o que mais nos despertou a atenção:

 

  • O edifício do Ayuntamiento – Casa Consistorial:
 
  • A Igreja de San Andrés. É um templo gótico, dedicado a Santo André, de princípios do século XVI, ainda que tenha acrescentos posteriores. Desempenha hoje as funções de Igreja Paroquial de Pola de Allende. O retábulo do altar é de meados do século XVI, de estilo maneirista. Tem uma abóboda em cruz nervada:
  • O Palácio de Cienfuegos de Peñalba. Alcandorado numa espectacular colina próxima de Pola de Allende, é um edifício com origem no século XV mas que conserva traços da época gótica. A sua primeira construção começou no sécilo XIV; foi reedificado no século XVI pelo novo senhor de Cienfuegos. Tem uma planta em L, ressaltando três sólidas torres. Tem um aspecto sóbrio, dado o seu carácter defensivo. Foi reformado no século XVIII e adaptado a residência pelo conde de Peñalba. O alçado exterior apresenta uma austeridade decorativa, ainda que no pátio posterior se conservem diversos elementos decorativos de carácter renascentista:
  • O edifício chamado Chalet de Cadierno:
  • e o respectivo pormenor heráldico(?): 
  • O Monumento ao Emigrante. Sito no Parque do Toural. Tem, no seu plinto, os seguintes dizeres: “Agnes Fuertes de Caravajal e um grupo de Allandeses residentes em Puerto Rico e Santo Domingo em homenagem a todos os emigrantes asturianos que com a sua presença e trabalho contribuiram para a formação do continente americano. Setembro de 1990”. A escultura é da autoria do catalão Antonio Prats Ventós, com réplicas em Puerto Rico e Santo Domingo:
  • O rio Nisón na passagem pela área urbana de Pola de Allende:
  • O casario «ensombrado» pelo pináculo ameaçador do Puerto de El Palo;
  • O entorno, profundamente rural, de Pola de Allende:
  • O edifício da Guardia Civil:
  • As escadas de acesso ao albergue de Pola de Allende:
  • O placard da etapa a realizar no dia seguinte junto à paragem de autocarros:
 

 

Considerações gerais

  

  • Etapa curta, mas com um início muito frio, amaciada por um jovem buliçoso canino;

 

  • As serras e as faldas dos montes foram uma constante durante o Caminho;

 

  • Foi um percurso realizado em plena Astúrias profunda, do ocidente;

 

  • Uma etapa em que se notou, mais claramente, a serenidade e tranquilidade do Caminho, em conjunto com paisagens de média montanha, ora aqui e ali com um prqueno povo (aldeia) ou casario isolado, convidando-nos a fazer constantes paragens para observar e contemplar toda a envolvente por onde passávamos;

 

  • A parte final, de Porciles até Pola de Allende, foi um troço duro, não só pelo declive orográfico como pelas condições instáveis e irregulares do terreno;

 

 

  • Pola de Allende é uma cidade ou vila nos confins do mundo, protegida pelo pináculo do Alto de El Palo;

 

  • O repasto no Hotel Nueva Allendesa foi não só uma alegria para os nossos esfomeados estômagos mas também, pelo atendimento, para as nossas solitárias almas.

 

Diaporama da etapa

 

 

Segue-se um diaporama com algumas imagens dos três troços percorridos nesta quarta etapa.

 

(Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue).

 

 

publicado por andanhos às 01:26
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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 3ª etapa:- Bodenaya-Campiello

 

Uma paisagem é um estado de alma (…)

é, por si mesma, independentemente do nosso humor quando a olhamos,

uma espécie de emoção (…)

 

Amiel, in Frédéric PaulhanA estética da paisagem (A paisagem como retrato da natureza)

 

 

É preciso ter-se estado lá em cima em pessoa

para ter uma noção de toda a magnificência e esplendor,

 e esse momento contará depois como o mais belo

e inesquecível da vida de uma pessoa… 

aquele momento em nos sentimos mais próximos do Espírito do mundo

 

Joachim RitterPaisagem (sobre a função do estético na sociedade moderna)

 

“Os homens deslocam-se até lá e observam, espantados,

 os cumes das montanhas, as amplas vagas dos mares,

 as correntes que fluem até ao longe, a imensidão do oceano,

o curso dos astros, mas esquecem-se de si mesmos”

 

Santo Agostinho – Confissões X, 8

 

 

 

 

9. Dezembro. 2012

 

 

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias – 3ª etapa:- Bodenaya-Campiello

 
 
 
 

1º Troço – Bodenaya – El Pedregal

 

Como disse, fomos acordados, às 7 horas em ponto, por uma canção dos Madredeus, posta por Alejandro (Alex).

 

Após as nossas abluções matinais, descemos para o piso térreo do nosso albergue/espigueiro: primeiro, para arrumarmos a roupa que esteve toda a noite no estendal a secar e, consequentemente, arranjar cada uma a sua mochila; depois, para nos sentarmos à mesa e tomarmos o café que, já há algum tempo, pelo cheiro, nos estava a despertar o apetite. O pequeno-almoço, para além de contar com pão, manteiga e compotas, leite e café, também tinha presente as sobras da tortilha do dia anterior.

 

Enquanto tomávamos o pequeno-almoço, Alex sempre nos foi avisando que o dia de hoje estava «áspero»: lá fora estava uma geada daquelas! O termómetro marcava menos 1,5 graus Celsius.

 

Tirada a fotografia da praxe ao grupo, que Alex fez questão para postar no Facebook do seu albergue (Albergue Bodenaya), cada um pegou nas suas mochilas, depois de dado um forte abraço ao nosso anfitrião-albergueiro e… toca a andar que se faz tarde!

 

Não levou muito tempo a entrarmos em La Espina, é uma povoação na confluência de caminhos para quem vai em direcção à Costa bem como para Noroeste. Nesta localidade despedimo-nos da N-634 e começámos a acompanhar a AS-216. La Espina tem alguns serviços.

 
 

Noutros tempos, esta localidade teve dois hospitais de peregrinos: um, fundado pelo Arcebispo Valdés-Salas; outro, pertença da igreja de Compostela.

 

Em La Pereda fizemos uma pequena inflexão à direita. Vimos o povoado e a sua igreja mas, de pronto, voltámos ao asfalto em vez de irmos pelo verdadeiro Caminho Primitivo. Coisas de Fábios!...

 
 

Fazia um frio de rachar vindo dos picos do conjunto montanhoso que nos ficava à nossa esquerda.

 
 

Mas, passada meia hora, devidamente encapuçados, protegidos no pescoço e com luvas, o frio foi desaparecendo.

 
 

Depois de passarmos em La Millariega, logo pegada a esta, aparece-nos El Pedregal.

 

Infelizmente não passámos na ermida do «Cristo de los Afligidos», do século XV, e a Fonte do Reconco.

 
(Eremita ou capela do «Cristo de los Afligidos)
 
(Trecho de paisagem)
 
 

2º Troço – El Pedregal – Tineo

 

Na povoação de El Pedregal o que mais se destaca é a sua igreja – dos Santos Justo e Pastor.

 

 

 

Continuámos pelo asfalto e passámos em Las Pontigas e El Crucero. Aqui a camada de geada, formada durante a noite, era ainda assinalável, apesar de já termos passado bem pelo meio da manhã.

 
(Trecho de paisagem nº 1)
 
(Trecho de paisagem nº 2)
 

Tínhamos notícia que passaríamos defronte da capela de São Roque, do século XII, já perto da nossa chegada a Tineo. Mas tal não aconteceu, porventura por virmos sempre pelo asfalto.

 

Até que, a dois quilómetros e tal antes de Tineo, entrámos numa pista pedestre.

 
 

Ao longo deste passeio, e do nosso lado esquerdo, aparecem-nos belos panoramas de montanhas e, a cada quinhentos metros, bancos em cimento, tendo, ao lado, placards com poemas de Rosa Arbelo, Alberto Cortez e Agustin Garcia Calvo.

 
 

A sensivelmente um quilómetro da entrada em Tineo aparece-nos uma escultura dedicada a Juan Carlos Fernández Fernández (1966-2008), fundador do Clube de Atletismo de Tineo, erigida a 26 de Junho de 2006, com a seguinte dedicatória: «A essência do teu espírito está connosco». Este monumento foi realizado por subscrição pública.

 
 

Um pouco mais à frente, a seguinte placa: «Tineo – ciudad amiga de la infância – 2010-2014».

 

Porque não descemos bem ao povoado, não passámos pelo Paseo de los Frailes e, desta forma, não podemos observar a escultura de ferro que representa um peregrino, assente sobre um relógio de sol.

 
 

Tineo, sede de concelho com o mesmo nome, já era importante durante o Império romano. Os romanos aproveitaram as ruínas de um antigo povoado celta, levantaram muralhas, uma fortaleza, e instalaram um centro administrativo que, com o passar do tempo, converteu-se numa vila medieval, a quem D. Afonso IX, em 1222, elevou à categoria de «puebla», povoação real.

 

Assim, o momento de maior esplendor desta terra foi durante os séculos XII e XV, em que aqui afluíam muitos peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela, passando, obrigatoriamente, pelo Mosteiro de Santa Maria La Real de Obona, perto desta localidade.

 

Tieneo actualmente é o segundo concelho das Astúrias em extensão.

 

Mostra-se, de seguida, o que de mais interessante, durante a rápida passagem pela vila, só com uma paragem para tomar um café, podemos apreciar:

  • Edifício do Ayumtamiento:
 
 
  • Igreja Paroquial de São Pedro e respectiva portada. Foi outrora convento que os franciscanos levantaram no século XII. Do edifício original apenas se conserva a porta da antiga clausura. Hoje já nada subsiste do claustro nem da antiga sala capitular. No século XVII fizeram-se várias reformas, entre elas, as da capela funerária de Merás. Em 1880 o convento de São Francisco passa a ser Igreja de São Pedro, da paróquia de Tineo;

 

  • Museu de Arte Sacra de Tineo. Está sito nas dependências do antigo convento de São Francisco, hoje, como se disse, Igreja Paroquial. Possui uma grande colecção de peças oriundas do concelho, que o pároco José Fernández Villamil, cuidou de comprar e reuniu ao longo dos anos. Nele podemos encontrar várias talhas medievais e barrocas e uma vasta amostra de ourivesaria;
 
(Igreja Paroquial de São Pedro, sita no antigo Convento Franciscano)
 
(Portada)
  • Dois trechos de arquitectura popular do século XVIII:
 
(Trecho nº 1)
 
(Trecho nº 2)
 
  • O faustoso Palácio de Merás, do sécilo XVI, hoje hotel:
 
 
  • A Casa da Cultura "Conde de Campomanes", de Tineo. No segundo andar encontra-se a Biblioteca. É um palácio urbano do século XIV e uma das poucas amostras do renascimento nas Astúrias:
 
 
  • A escultura do Conde de Campomanes
 
 

Para um melhor aprofundamento deste tema, aconselha-se a consulta do seguinte sítio da internet - http://www.asturnatura.com/turismo/tineo/2609.html.

 

Agora, aqui se mostra a “ratoeira” onde Tâmara_Júnior jogou um «bitacu» e que, não fora a mochila que trazia às costas, poderia trazer consequências bem mais graves. Ficou apenas com um simples arranhão no braço direito e com a sua máquina fotográfica meio espatifada.

 

 Pensou-se, inicialmente, que iríamos ficar sem reportagem fotográfica. Felizmente, o essencial do mecanismo não sofreu danos de maior e continuou a fotografar.

 
 

A coisa foi, mais ou menos, assim: o percurso pedonal que nos leva a Tineo tem escorrências de água, vindas dos terrenos contíguos. De noite, com o frio, e as temperaturas abaixo de zero, aquela água transforma-se em gelo. Ao longo de toda a manhã a água dos terrenos contíguos continuam a escorrer mas o gelo não derreteu todo, encontrando-se, desta feita, sob a água que continuava a escorrer pelo passeio, representando um enorme perigo para quem por aqui passa.

 

Ainda bem que tudo não passou de um susto, mas que aquela obra não está bem feita, não está, não senhor! Falta-lhes caleiras suficientemente amplas e desentupidas para que a água não se espalhe pelo passeio. O senhor alcaide de Tineo, ou quem de direito, tem de ver melhor esta obra. Até porque há muitos residentes que faz este pequeno percurso matinal, como verificámos.

 

 

3º Troço - Tineo – Villaluz

 

A partir de Tineo, iniciámos uma progressiva subida,

 

 

 

depois de passarmos pela Fonte de San Juan,

 

(Fonte de San Juan)
 
(Fonte de San Juan - zona de descanso)
 

ao longo da ladeira meridional do Alto de Navariego. Daqui vêem-se vistas espectaculares que não resistimos em mostrar.

 
(Paisagem nº 1)
 
(Paisagem nº 2)
 
(Paisagem nº 3)
 
(Paisagem nº 4)
 

Após vários cruzamentos, chegámos ao Alto La Guardia, a 867 metros de altitude.

 
 

E continuam as belas paisagens do nosso lado esquerdo.

 
(Paisagem nº 5)
 
(Paisagem nº 6)
 

A partir daqui começámos a descer. Mais de meio quilómetro à frente, em asfalto (estrada), e pela esquerda, numa forte descida, alcançámos a estrada TI-3, em Piedratecha, a 796 metros de altitude.

 

Seguindo pela direita, e paralelo à estrada, meio quilómetro depois, entrámos num caminho, à esquerda, a descer.

 
 

Após dois quilómetros de descida, numa área de bosque, chegámos a um cruzamento. Aqui, optámos por andar mais 500 metros para irmos ver o Mosteiro de Obona, que está a uma altitude de 700 metros, cruzando um riacho com o nome de Deyna.

 
 

O Mosteiro,

 

 
 

beneditino, foi fundado, segundo reza a tradição, em 780, por um filho natural do rei Silo. Em 1222, o rei Afonso IX, de León, outorgou-lhe privilégio de cenóbio em função do qual todos os peregrinos de Santiago deveriam passar, obrigatoriamente, por ele, razão pela qual se desviou o traçado do caminho.

 
 
(Escudo do Mosteiro)
 

Depois de uma vista de olhos pelo mosteiro, em ruínas já,

 
(Ruínas 01)
 
(Ruínas 02)
 

à excepção da sua igreja, que não entrámos nela por se encontrar fechada e sem ninguém por perto para pedir a chave, aproveitámos para comer uma bucha que trazíamos no farnel e descansar um pouco.

 
 

 

Pé D’Vento ficou sem água. Os restantes também não traziam grande coisa para que o saciasse. Bem se procurou pelas redondezas mas… nada. Apesar de escorrer em abundância neste local, não se encontrou água potável. Nem sequer no cemitério, que se encontra ao lado da igreja do mosteiro.

 

E, quase todos sediados, lá tivemos que voltar para trás, fazendo os 500 metros que nos levou até ao desvio do Caminho.

 

Prosseguimos em zona de bosque com muitas folhas, e ainda muita mais lama, até à povoação de Villaluz.

 

 

4º Troço - Villaluz – Campiello

 

 
 

Aqui, num lavadouro e fontenário, saciámo-nos de água. Já fazia algum calor. O céu estava todo aberto, coberto de sol. Já passava da uma e meia da tarde.

 

Continuámos à esquerda até desembocarmos na estrada TI-3 e, pela direita, continuámos no asfalto passando por Vega del Rey, Berrugoso e Las Tiendas (apenas com uma casa), para, finalmente, já fartos de verde e asfalto, chegarmos a Campiello.

 
(Trecho de paisagem nº 1)
 
(Trecho de paisagem nº 2)
 

O melhor que Campiello tem são as lojas/armazéns de Francos e de Dona Hermínia. E, obviamente, tudo quanto diga respeito a prados, vacas e leite, e seus derivados: estamos em plena comarca dita vaqueira.

 
 

Tínhamos decidido ficar no albergue privado de Dona Hermínia. Por isso, dirigimo-nos à sua loja/comércio para tratar do alojamento e da comida para a ceia.

 
 

Depois de petiscarmos uns «bocadilhos» e bebermos, fomos então atendidos pela senhora Dona Hermínia que, prontamente, nos encaminhou para as instalações onde deveríamos ficar. Pelo caminho foi-nos dizendo que não iríamos para o pavilhão: que era muito grande e, nesta altura do ano, não se justificava a sua abertura, por excesso de gasto de combustível com aquecimento. Levou-nos para umas instalações a que lhe chamou «Casa Rural». Quando entrámos na dita Casa Rural deparámos que estava gelada. Chamou o marido para por a caldeira a funcionar mas o mesmo não soube dar conta do recado. Por isso tiveram de chamar o tio Chispas, o electricista de serviço da terra. E entre o compõe a caldeira e não compõe, o tempo ia-se passando e nós esfriando e sem tomar banho e nos acomodarmos devidamente.

 

Tio Chispas, pessoa aliás simpática e conversadora, debalde tentou pôr a caldeira a funcionar. Tentou, tentou, até que se deu por vencido, comunicando tal facto à senhora Dona Hermínia. E, nisto, passaram-se duas horas!...

 

Coube, desta feita, a Nona dirigir-se à senhora Dona Hermínia dizendo-lhe que assim não podia ser: que nos íamos para Pola de Allende arranjar alojamento condigno. A senhora, de pronto, ofereceu-se para telefonar a um taxista, apesar de Nona já trazer consigo um contacto.

 

Vendo-nos assim tão resolutos, Dona Hermínia informou-nos que tinha, pegado à Casa Rural, um hotel, onde nos poderíamos alojar. E que, quanto ao aquecimento, não haveria problema, pois este era aquecido a electricidade. Mas o preço era outro, foi adiantando a Nona. Nona, achando uma exorbitância o preço que a senhora pedia, agradeceu e começou a providenciar a chamada para o contacto do taxista que tinha na sua agenda. É, nesta altura, que Dona Hermínia, resoluta, apresenta a Nona (e creio que também a Fábios) uma proposta que nos pareceu justa e razoável. E, assim, acabámos por ficar.

 

O hotel, embora modesto, tinha razoáveis condições.

 

Ainda levou um pouco de tempo até que os quartos aquecessem e a água quente sanitária chegasse mas depois tudo correu pelo melhor.

 

À hora aprazada para a ceia saímos dos nossos quartos e fomos ter ao comércio da Dona Hermínia. Já fazia um frio de rachar.

 

Diga-se, de passagem, que Dona Hermínia (que nos pareceu dona e senhora da terra, possuidora, inclusive, de um clube seu na terra), serviu-nos uma ceia que se visse e com fartura, não faltando, no início da refeição, a célebre «fabada» asturiana.

 

Ainda vimos um bocadinho do jogo do Barcelona, quentinhos juntos a uma salamandra postada à entrada do comércio, mas cedo fomos para a cama.

 

Calhou-me ficar no quarto com Pé D’Vento. E que pé-de-vento o dito toda a noite fez! Ora porque eu «roncava» demais, ora porque, a determinada altura da noite, achou que o aquecimento se tinha ido abaixo e sentia frio, o certo é que, como já não bastasse o final de dia que tivemos, a noite foi um teatro, no melhor sentido de drama. Um verdadeiro suplício, aturando as «caturrices» de Pé D’Vento.

 

Considerações/Impressões finais

 

  • Foi uma etapa relativamente fácil, comparada com as duas anteriores;

 

  • Contudo o frio, pelo menos durante a primeira hora do percurso, incomodou um pouco;

 

  • Foi pena na primeira parte do percurso andarmos pela estrada e não seguirmos pelo traçado do verdadeiro Caminho;

 

 

  • Foi pena também não termos previsto mais tempo para permanecermos em Tineo e visitar, com mais pormenor, o seu centro urbano;

 

  • Compensou, apesar de tudo, o troço de Tineo até Villaluz: por um lado, pelo espectacular panorama que a subida do Alto de Navariego e do Alto de La Guardia nos propiciaram – parecia até que estávamos em presença do melhor que há em termos de paisagem na Suiça!; por outro, pelo desvio e visita ao Mosteiro de Obona. Apesar de estar em ruína, a sua visita valeu a pena. Eu e Nona, particularmente, gostámos.

 

  • Como já referi, a não ser a primeira parte do percurso, feito em asfalto, desviando-nos do Caminho, por opção de Fábios, e nosso assentimento, o restante foi do agrado geral, por se efectuar em caminhos que, embora em alguns troços com alguma lama, eram aprazíveis bosques, essencialmente de castanheiros e robles (carvalhos);

 

  • O mais desagradável do percurso foi a sua parte final – em asfalto – e as iniciais condições de alojamento. Apesar de tudo, Dona Hermínia mostrou-se não só uma mulher de fibra, na conduta do(s) seu(s) negócio(s), mas também uma sensata albergueira;

 

  • Pela minha parte, uma queixa ao companheiro de quarto. Pé D’Vento quase que me não deixou pôr olho toda a noite. Lá diz o ditado: «Não há dona sem senão»!

 

Diaporama da etapa

 

Segue-se um diaporama com algumas imagens dos troços percorridos nesta terceira etapa.

 

(Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue).

 

 

 

 

 

publicado por andanhos às 17:48
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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Gallaecia:- Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 2ª etapa (San Juan de Villapañada- Bodenaya)

 
 

A natureza, que no seu profundo ser e sentido,

desconhece totalmente a individualidade,

 é edificada pelo olhar do homem,

 que divide e forma o dividido em unidades peculiares,

 em cada individualidade - «a paisagem»”.

 

 George SimmelFilosofia da Paisagem

 

 

Viajar na ignorância da história de uma região

deixa-nos incapazes de entender o

«porquê» de qualquer coisa ou de qualquer pessoa”.

 

Paul TherouxA Arte da Viagem

 
 
8.Dezembro.2012
 
 
 

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias – 2ª etapa:- San Juan de Villapañada-Bodenaya

 

 
 
 

 

1º Troço – San Juan de Villapañada- Santa Eulalia de Dóriga

  

Às sete horas toda a minha gente tratou de se pôr a pé, logo a seguir ao toque de alvorada dado por Pé D’Vento.

 

Nona, como sempre, foi o primeiro a arranjar-se e tomar o pequeno-almoço.

 

E foi logo seguido por seu sobrinho Tâmara_Júnior, que se queixava de ter sentido um pouco de frio, de noite. Assim, logo que tomou também o seu pequeno-almoço, saiu logo para fora ver como estava o tempo, munido da respectiva máquina fotográfica. Após ter tirado meia dúzia de fotos ao nascer do sol, que crescia por detrás da vila de Grado, Tâmara_Júnior, ora contemplativo, ora em amena cavaqueira com seu tio Nona, aguardavam, sentados nos bancos do recinto do albergue, que os outros membros da comitiva se preparassem para darmos início à caminhada do dia.

 
 

Pé D’Vento foi o terceiro a aparecer à soleira da porta do albergue e, como sempre, o último, Fábios, que leva uma eternidade a arranjar seus pertences na mochila com aquele cerimonial que todos conhecemos.

 

Fábios e Pé D’Vento deixaram o albergue num brinco.

 

Às oito menos um quarto estávamos os cinco já defronte da Igreja de San Juan de Villapañada todos prontos para dar início à nossa faina do dia.

 

 

Mas não arrancámos sem que, a seu pedido, Tâmara_Júnior tivesse tirado uma foto a Fábios à frente da igreja.

 

Fábios faz questão de preservar a sua imagem, não gostando de vê-la espalhada pelas redes sociais. Há, pois, que respeitar o seu direito. Mas, sempre direi, aos meus caros leitores, que a foto até ficou com uma certa piada: parecia um soldado recruta, devidamente equipado e pronto, de saída para a semana de campo. Em postura tão hirta que só lhe faltou bater a pala ao respectivo fotógrafo, como se fora seu superior.

 

O dia não estava tão macio como o de ontem: havia menos nuvens no céu e, efectivamente, estava mais frio.

 

A chuva não ameaçava tanto como fizera na véspera, caindo com tanta abundância do céu.

 

Por isso, logo que saímos da povoação, todos atacámos, determinados, uma forte subida, em asfalto, até ao Alto do Fresno, que nos levou até aos pés do Santuário de Nossa Senhora do Fresno, à nossa direita. A sua romaria celebra-se a cada 28 de Setembro. O Santuário é uma construção em estilo barroco, do século XVII. Até 1839, este local era ponto de vigilância dos Cavaleiros de Jerusalém e, nas Invasões Napoleónicas, serviu de fortaleza, com a edificação de uma grande barricada.

 
 

Por outro lado, este lugar é o ponto de divisória entre os vales e as bacias dos rios Narcea e Nalón.

 

Neste mesmo Alto, no sentido do Santuário, para quem não tenha lugar no albergue mais abaixo de San Juan de Villapañada, o peregrino pode seguir para o albergue de Cabruñana.

 

Entretanto nós seguimos em frente, em direcção a San Marcelo, La Reaz e La Dóriga, numa larga e tremenda descida, de dar cabo dos joelhos. Aqui, neste troço, o antigo caminho desapareceu, por via da construção do túnel da Autovia de la Espina da A-63.

 

Mais uma vez, quem projectou esta obra não teve o mínimo de respeito por este caminho histórico! Como bem se diz no sítio de «Gronze.com»: “Este troço é o paradigma do que está sucedendo ao conjunto dos caminhos de Santiago, tratando com iniquidade e desprezo um património natural, histórico e monumental de primeira grandeza”. E que, ainda por cima, foi considerado como Conjunto Histórico-Artístico, com pretensão, tal como acontece com o Caminho Francês, ser declarado, pela UNESCO, Património da Humanidade!

 

Depois de superarmos aquela horrível descida, ainda por cima com chuva a começar a cair-nos no lombo, e passarmos pela Fonte e Ponte de Meredal, e por uma outra metálica sobre a autovia, chegámos a Santa Eulalia de Dóriga.

 
(Trecho nº 1 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
(Trecho nº 2 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
(Trecho nº 3 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
(Trecho nº 4 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
 

Em Santa Eulália de Dóriga dois edifícios nos chamaram a atenção: a igreja românica de Santa Eulalia, embora se apresente com estrutura neoclássica, que nos aparece logo que chegámos à aldeia

 
 

e o palácio/fortaleza dos Dóriga, do século XIV-XVI.

 
 

Fábios estava informado e, por isso, tinha assinalado no seu TwoNav, que, nesta localidade, existia um bar chamado «Cá Pacita», mesmo em frente da igreja, onde aí iriamos aproveitar para reforçar um pouco mais o espartano pequeno-almoço que tínhamos comido em Villapañada. Mas, infelizmente, nesta altura do ano, encontra-se fechado.

 

Aproveitámos, entretanto, uns, para dar uma vista de olhos à aldeia; outros, para, no alpendre da igreja, descansar um pouco. E, passados 15 minutos, aproximadamente, continuámos caminho.

 

 

2º Troço - Santa Eulalia de Dóriga – Cornellana

 

À saída de Santa Eulalia de Dóriga,

 

 

após uma pequena subida, vislumbrámos o vale do rio Narcea e «tropeçámos», mais uma vez, com as obras, completamente paradas, desde Junho de 2011, da Autovia A-63. Apesar das obras, o traçado do Caminho está bem sinalizado.

 
 

Na descida,

 
 

para irmos ao encontro do asfalto (estrada) em La Ponte, duas observações: a primeira, é necessário ter muita cautela com aquela descida – depois de se ultrapassar um agradável bosque -, o caminho está pejado de pedras soltas entre musgo e folhas velhas, tornando-se escorregadio e perigoso; o segundo, foi a primeira vez que vi tal coisa num Caminho de Santiago, ao chegar à estrada (N634 ou AS-15), em La Ponte, já no final da descida, pois o Caminho encontra-se vedado com cancelas para confinar, em sucessivos «estábulos», o respectivo gado bovino. E, assim, cada peregrino que por ali passe, tem de abrir e fechar as respectivas cancelas, por entre uma quantidade enorme de porcaria excretada por aqueles animais.

 
 

De La Ponte a Correllana é, aproximadamente, um quilómetro.

 
(Perspectiva parcial de Corlleana)
 
 

Aqui já se começa a sentir as águas do rio salmoneiro,  Narcea.

 
(Um pormenor no rio Narcea)
 

Passámos junto da Casa do Rio, sede do Centro de Interpretação do Salmão e, imediatamente a seguir, cruzámos o rio Narcea, entrando logo no centro urbano de Cornellana.

 

No centro urbano de Cornellana parámos no Café Bar Casino para não só descansarmos um pouco como comer e beber qualquer coisa: a maioria dos nossos estômagos, há um certo tempo, já estava a «bater horas».

 

No final do ligeiro repasto, Fábios dirigiu-se ao balcão para pagar a conta e vinha a comer um bolinho típico de Cornellana e Salas – los carajitos del professor (um bolo doce/«galheta» à base de avelã). Mas a verdadeira razão do nome é que não a soubemos verdadeiramente. O dito nem tão pouco mais ou menos se parece com um «carajo», por mais ínfimo que seja!...

 

Mas é numa padaria à entrada de Cornellana, numa esquina, que podemos encontrar os tradicionais «bonos preñaos» asturianos, um bolo recheado com chouriço.

 

Não tivemos grande oportunidade de visitar condignamente o Mosteiro de São Salvador de Cornellana, que se encontra à saída da povoação.

 

Este mosteiro foi fundado em inícios de 1024 e, no século XII, passou a depender da Ordem francesa de Cluny, convertendo-se, assim, num dos mosteiros mais importantes do reino das Astúrias.

 

Edificou-se em terras férteis do rio Narcea, na sua confluência com o rio Nonaya.

 

No século XVII foi anexado à Ordem (Congregação) de São Bento. No século XIX, com a desamortização de Mendizábel, iniciou-se a sua decadência.

 

Recentemente foi reconstruído. Foi declarado Bem de Interesse Cultural com a categoria de monumento. É actualmente habitado por beneditinos.

 

A igreja do mosteiro é hoje a igreja paroquial de Cornellana. Mas já não com o nome de São Salvador mas com o de São João Baptista, patrono da localidade.

 

O mosteiro de São Salvador de Cornellana integra elementos desde o pré-românico asturiano, do século IX, até à modernidade.

 

 

 

 

A torre campanário do mosteiro tem materiais que vêm já do ano 910.

 

 

 

 

Os elementos pré-românicos do rural asturiano estão na porta que dá acesso ao novo albergue de peregrinos, aqui localizado.

 
 
Do período românico conserva-se a Porta da Ursa, possivelmente o antigo acesso ao mosteiro.
 
 

São também do período românico os arcos do claustro e, sobretudo, a estrutura da igreja, de três naves, e de tripla cabeceira, escalonada e arrematada por três absides semicirculares.

 
 

Do período barroco é a fachada da igreja, com duas torres quadradas. A fachada do mosteiro, que faz ângulo com a igreja é também barroca.

 
 

 

3º Troço – Cornellana – Quintana

 

Optámos, neste troço, por seguir pela estrada N 634. Não foi ideia que agradasse muito a Nona. Nem a mim tão pouco. Fábios achou que seria mais fácil… Pareceu-me, contudo, um pouco arriscado, em termos de segurança e nada bom para os meus pés. Tal como Nona, não só fã em andar no asfalto. E, no final da etapa, ganhei duas valentes bolhas – uma em cada pé!

 

O troço é cheio de povoações, não muito grandes, mas sem qualquer serviço.

 
(Trecho nº 1)
 
(Trecho nº 2)
 

O que não faltou foram linhas de água, ribeiras, ribeiros, riachos, tudo a escorrer para o rio Nanoya, nosso companheiro agora de viagem também.

 
 
(Trecho nº 3)
 
(Trecho nº 4)
 

Por outro lado, aqui e ali, numa ou noutra curva da estrada, pilares da A-63, com ferro à mostra e cheios de ferrugem. Autovia esta que, por estas bandas, tarda em entrar ao serviço.

 

 

4º e 5º Troços – Quintana – Casazorrina – Salas

 

O mesmo asfalto; a mesma planura;

 

 

a mesma paisagem; pouca água a cair do céu, mas muita correndo pela terra.

 
(Trecho nº 1 - Casazorrina)
 
(Trecho nº 2)
 

E…  um pormenor interessante ao longo da estrada.

 
 

Chegados a Salas parámos no Restaurante Sidrería La Campa de Miguel  para restabelecer forças, descansando e comendo qualquer coisa. Ainda tínhamos uma valente subida a ultrapassar até ao albergue de Bodenaya.

 

Salas é considerada a porta do ocidente das Astúrias. Foi ocupada desde a pré-história, (daqui a presença de castros por toda esta zona) na época romana e medieval.

 

Demos uma pequena volta a esta pequena, linda, limpa e aprazível vila, sede de concelho e pudemos ver com agrado:

 

  •  Edifício do Ayuntamiento de Salas;
  • Igreja paroquial/Colegiata de Sanata Maria Maior. É monumento nacional. Do século XVI. Foi mandada edificar pelo Arcebispo D. Fernando de Valdés. A obra realizada é, num primeiro momento, gótica, com elementos renascentistas. Esta igreja, inicialmente, não foi construída para ser igreja paroquial outrossim panteão familiar dos Valdés. Foi em 1894, sendo seus titulares os duques de Alba, que se cedeu o templo para estas funções, conservando-se, apenas por tradição, o nome de Colegiata. Entre as obras de arte que fazem parte do espólio da Colegiata, destaca-se, para além do retábulo da capela-mor, a capela dos Malleza e
  •  O mausoléu do Arcebispo Valdés - o fundador da Universidade de Oviedo, Astúrias.
  • O Palácio dos Valdés. É monumento nacional. Do século XVI. É um sóbrio edifício, de tipo popular, representando uma amostra da arquitectura civil da época. Tem forma de trapézio; organiza-se à volta de um pátio interior; dispõe de uma fachada principal, com um corpo de duas plantas flanqueado por duas torres salientes; porta principal com arco de meio ponto e pequenas janelas. Tem adossada uma capela de planta rectangular. O palácio actualmente acolhe um hotel, a Casa da Cultura e o Posto de Turismo;

 

  • Torre do Palácio dos Valdés. É monumento nacional. Do século XIV. Está unida ao palácio em forma de arco com os escudos da família Valdés Salas. É de cantaria lavrada e planta quadrada. Nesta Torre está instalado o Museu Pré-românico San Martin, que conserva o valioso conjunto de peças e lápides procedentes da igreja de San Martin, hoje capela sita no cemitério da localidade, que são uma excelente amostra da riqueza decorativa do pré-românico do século X.
  • Casa Maria Veiga ou de Miranda. É do século XVII. Tem uma fachada principal com estrutura popular, enriquecida por um escudo.
  • Palácio dos Condes de Casares. Edifício do século XVII, de planta quadrada, em torno de um pátio com a mesma forma. Destaca-se nele o escudo dos Malleza. Alberga um amplo conjunto de dependências, capela e lagar. Tem uma quinta contígua, cercada com pedra de cantaria.
  • Igreja de San Martin. É monumento nacional. A primitiva igreja foi construída entre os séculos VIII e IX. Foi reconstruída no século X por Alfonsus Confesus. Foi destruída no século XV e reconstruída nos séculos XVII e XVIII. Consta de una nave única coberta de madeira com duas águas. O acesso faz-se por uma porta gótica com arco ogival, de três arquivoltas molduradas, mas sem decoração. Grande parte das suas peças originais estão expostas na Torre do Palácio do Valdés, hoje Museu Pré-românico.
 
  • Capela de São Roque. É do século XVII. Pertencia ao antigo hospital do Caminho de Santiago. É de nave única e de planta rectangular, coberta com abóbeda de meio canhão. O arco de acesso é de meio ponto.
  • Parque Municipal Carmen Zuleta
 
  • Um pormenor do casario de Salas
 
 

6º Troço – Salas – Bodenaya

 
(Pormenor nº 1 - Casario à saída de Salas)
 
 
(Pormenor nº 2 - Espigueiro à saída de Salas)
 

Mais de seis quilómetros e meio sempre a subir!

 

Partimos da cota 250 metros de altura para atingirmos os 800.

 

O caminho inicial é por um bosque frondoso, onde abundam robles (carvalhos) e castanheiros e o rio Monaya, quase sempre ao fundo da ravina, murmurando.

 
 

Nestes troço, água, fontes e pontes, recuperadas,  não faltam. É a Fonte de Pain; a Ponte Borra; a Ponte Cartabón…

 
 
 

Foi uma beleza, embora o percurso fosse a subir, percorrer estre troço do Caminho, durante mais de dois quilómetros e meio!

 

Embora o piso fosse uma boa cama de folhas mortas, aqui e ali, a lama e, principalmente, o pedregulho, não foram o melhor para as minhas bolhas.

 
 

Ao nos aproximarmos da N 634, Km 458, tivemos que parar por duas vezes: a subida era íngreme e Nona foi-se atrasando. A solidariedade aqui pedia que esperássemos pelo “velhote”. Como sempre, e compreensivelmente, o primeiro a dar o exemplo foi seu sobrinho, Tâmara_ Júnior.

 

Até que se chegou à estrada! Aqui descansámos todos um pouco antes de prosseguir pelo asfalto. Comemos alguma fruta que trazíamos e, quando estávamos para carregar mochilas para partir,  um telemóvel toca. Era o de Fábios. Do seu filho Mito(k). O direito à privacidade fez nossas orelhas moucas. Mas, pelo semblante e sobrolho de Fábios, dava para perceber que a conversa não o animou muito. Desligado o telemóvel, até nos pareceu amuado.

 

Enquanto andámos um quilómetro pelo asfalto e subíamos, com esforço, até Porciles, sem intensão de me intrometer na conversa, sempre fui ouvindo o desabafo de Fábios para com Pé D’ Vento: “Caraças, eu prá qui a esforçar-me nesta subida, enquanto aquele «macaco» me telefona, a gozar, dizendo que as sopas de alheira estavam uma delícia!

 

Voltando, novamente, ao trajecto original do Caminho Primitivo, depois de sairmos do asfalto que rodeava a nova A-63, depois de passarmos por uma ponte metálica que cruza a A-63, e após mias uma pequena, mas bem difícil subida, com prados verdejantes à nossa direita, finalmente encontrámo-nos na planície da serra de Bodenaya!

 
 
 

Chegar ao albergue, um espigueiro asturiano transformado para este efeito, por um ex-taxista madrileno, de nome Alejandro, foi para mim um alívio. As bolhas doíam-me de caramba!

 
 

Mas, pelo semblante dos restantes, não vinham muito melhores. A subida de Salas até Bodenaya foi, positivamente, um osso ruim de roer.

 

O que valeu foi o acolhimento que tivemos. Alejandro (Alex) recebeu-nos à entrada do albergue. Afável, discreto e muito prestável. Sua companheira, natural de Bilbao, encontrava-se no interior, de fronte a uma salamandra a ler um livro, a aquecer-se, enquanto, a seu lado, um estendal de roupa fumegava. Após os respectivos cumprimentos, preenchimento do livro de hóspedes e selagem das Credenciais do Peregrino, Alex foi-nos dando indicações sobre os cantos e normas da casa. Entretanto uma música de fundo soava-nos agradavelmente aos ouvidos, alternando música clássica com música celta.

 

Trata-se de um albergue privado. Que proporciona aos peregrinos dormida, ceia e pequeno-almoço bem assim lavagem e secagem de roupa, para além do banho quente.

 

O preço, sob a forma de donativo, fica ao critério de cada um, que o deposita numa caixa pregada numa parede interior do albergue. Esta forma de viver pareceu-nos ser a principal de Alex e sua companheira, uma outra peregrina que, como ele, cedeu aos encantos de Bodenaya, do seu albergue e aos do albergueiro que a atendia, quando também fazia o seu próprio Caminho.

 

De um espigueiro asturiano não se pode exigir grande espaço para os peregrinos. Contudo, nele perpassa muito calor humano e as respectivas divisões estão organizadas como se estivéssemos em casa de família.

 

Enquanto Tâmara_Júnior, Nona e Pé D’Vento tomavam banho e se refrescavam, Fábios, que para além de ser o navegador de serviço, cumpria também com as suas funções de enfermeiro, tratava das minhas bolhas, com equipamento e material adequado para a pequena «cirurgia». Após o tratamento fiquei mais aliviado.

 

Depois de tomarmos todos banho e darmos a roupa suja para lavar ao Alex, fomos todos descansar um pouco para as camaratas, no piso superior do espigueiro, decorado com motivos, pareceu-me, de matriz sul-americana. Começámos a dar conta que o tempo estava arrefecendo mais.

 

A páginas tantas, entra-nos um cheirinho pelas narinas. Fábios, curioso e mais dado a conversa, desce para se inteirar do que se estava a cozinhar.

 

Era Alex a fazer a nossa ceia. Nossa, dele e da sua companheira, pois comemos todos juntos na mesma mesa.

 

A ceia constou daquilo que mais lhe chamaria um caldo forte à base de batata, ervanço, chouriço, arroz, e sei lá quê mais!... Pão não faltava na mesa. E todos nós pensávamos que a nossa ceia ficaria por aqui. Espartana, portanto. Mas não. Depois veio mais uma salada com muitos ingredientes, entre eles, massa fusilli, alface, tomate, etc. a acompanhar uma valente tortilha.

 

Alex pareceu-nos pessoa devota. E muito conhecedor da região que adoptou como sua. Juntamente com sua companheira, já tinham feito o Caminho del Salvador (León-Oviedo), que nos recomendou fazê-lo, dizendo ser até um pouco mais difícil  que o Primitivo. E falou-nos de um outro percurso, de uma beleza rara – a «Ruta das Xanas». Ficámos cheios de curiosidade.

 

Antes de se retirar com a sua companheira para os seus aposentos, situados ao lado do albergue, ofereceu-nos um «pin» com a seta amarela do Caminho de Santiago.

 

Quando se despediu de nós para se deitar, perguntou-nos a que horas nos levantávamos para nos vir fazer o pequeno-almoço. Marcada a hora -7 como de costume – disse-nos que não nos preocupássemos com o despertar pois ele se encarregaria de nos acordar, pondo-nos música a tocar a essa hora.

 

E, com efeito, às sete horas despertámos com uma bonita canção dos Madredeus. Homem de bom gosto e sensibilidade, este Alex!

 

Impressões finais

 

  • Como já atrás referi, hoje foi dia de relativamente pouca água vinda do céu, mas muita na terra, correndo para os leitos do rio Narcea, o maior rio salmoneiro de Espanha, e do Nanoya.

 

  • Na paisagem os mesmos espigueiros junto às casas, a mesma verdura e… muito asfalto!

 

 

  • A etapa desenvolveu-se em plena comarca vaqueira, das Astúrias interior, de cerros e colinas e com vistas bonitas,

 

  • Pejada de veigas das ribeiras dos rios que passam por Cornellana (Narcea) e Salas (Nanoya).

 

 

  • Apesar de chata, por se pisar muito asfalto, a não ser a subida para o Alto do Fresno e a de Salas a Porciles e Bodenaya (6,5 Km), a etapa foi relativamente tranquila.

 

  • Algumas casas rurais, de certo porte, e palácios rurais asturianos eram vistos ao longe, entre bosques e prados.

 

 

  • Da gastronomia, as sempre presentes «fabadas»; o «pote de berzas», o salmão, as trutas, o já falado queijo «Afuega’l Pitu», o arroz com leite (ou doce) e os emblemáticos «los carajitos del professor».

 

  • Uma nota negativa, aliás já aqui referida: esta etapa, em alguns dos seus troços, foi muito profanada pela execução da nova via A-63. Deveria haver um pouco mais de sensibilidade para um dos mais emblemáticos, embora não o mais importante, Caminho de Santiago. Tratando-se de «Primitivo», a pureza do seu traçado deveria ser preservada em toda a linha. O que, infelizmente, não aconteceu!

 

 

 

 

Diaporama da etapa

 

Segue-se um diaporama com algumas imagens dos troços percorridos nesta segunda etapa.

 

(Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue).

 


 


publicado por andanhos às 14:24
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