Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Gallaecia: Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 1ª etapa:- Oviedo-Villapañada


 

7.Dezembro.2012

 
 

«Ainda uma outra noção do viajante é de que ninguém verá o que ele viu;

a sua viagem destrona a paisagem e o que importa é a sua versão dos acontecimentos.

Nisso, está certamente a enganar-se a si mesmo, mas,

se não se enganasse um pouco a si mesmo, nunca iria a parte nenhuma».

 

Paul Theroux (1983) – The Kingdom by the Sea (A Journey around Great Britain)

 
 

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 1ª Etapa:- Oviedo-San Juan de Villapañada

 
 
 

 

1º Troço:- Oviedo – San Lazaro de Paniceres

 

Às 8 horas em ponto toda a comitiva estava a sair do albergue. Dirigimo-nos ao Café-Bar Sucursal, onde ontem tínhamos guardado as nossas mochilas e à noite comemos um «caldo de pollo».

Do Café-Bar Sucursal, onde tomámos um frugal pequeno-almoço, até à Catedral de El Salvador, o Caminho é relativamente fácil. Já na Praça da Catedral ou Afonso II, local onde oficialmente começa o Caminho Primitivo,

 
 

para nos orientarmos, a coisa pareceu complicar-se, dado, como se sabe, este local é ponto de partida e chegada de outros caminhos e/ou conexões. A boa orientação de Fábios, e a ajuda do TwoNav, foram preciosas e, rapidamente, encarreirámos com as setas de bronze colocadas no pavimento.

 
 

O traçado urbano, em Oviedo, embora fácil de percorrer, se atentos à sinalização das vieiras, é, contudo, longo.

 

Lembro-me vagamente de algumas ruas como a de San Juan, Covadonga, Melquíades, Álvarez e Independencia. Nestas imediações comtemplámos a bonita igreja de San Juan El Real, já fora do centro histórico e na dita «ensanche».

 
 

Estávamos todos ansiosos por sair deste emaranhado de ruas. Até que, depois de atravessarmos uma passagem de nível de caminhos-de-ferro, e de penetrarmos na rua Afonso I, o Católico, depressa entrámos na Florida onde, no seu término, na rotunda com o mesmo nome, existe uma bonita escultura.

 
 

A partir daqui, e depois de deixarmos o Parque “Caminho de Santiago”,

 
 

a área urbana de Oviedo ficou-nos para trás e, em ligeira subida, e desníveis contínuos, caminhámos até San Lazaro de Paniceres, a 4 Km da Catedral, nosso local de partida.

 
 

Se bem que ontem o dia estivesse bonito, sem nuvens e chuva, e aparecendo aqui e ali uma luz de sol, hoje tudo se tinha modificado. A chuva começou a aparecer, com bastantes nuvens e nevoeiro. Uma chuva não muito intensa, na maior parte do tempo, mas miudinha e quase constante. Muito chata, obrigando-nos a usar e a tirar constantemente as capas de chuva.

 

Este tipo de chuva, tipicamente asturiana, acabava por completar o quadro estereotipado que temos das Astúrias: muitas áreas verdes, muito verde, com vacas e seus respectivos chocalhos, enquadrando os sons típicos da paisagem asturiana,

 
 

emoldurada pelos altos picos montanhosos ao largo do horizonte, a anunciar que nos dirigíamos para a comarca vaqueira. E não nos podemos esquecer, integrados profusamente na paisagem, quer nos campos, quer nas aldeias, dos célebres «hórreos» (espigueiros), muito típicos e característicos, cuja forma e diferentes arquitecturas só existem neste Principado.

 
 

 

2º Troço:- San Lazaro de Paniceres-Lloriana

 

A partir de San Lazaro de Paniceres, e mais à nossa direita, começámos a contemplar o conhecido monte Naranco, enquanto à nossa esquerda continuavam os prados, tendo como pando de fundo, não só ainda alguns bairros da cidade de Oviedo como,

 
 
 
 mais ao fundo, os contornos longínquos montanhosos para onde nos dirigíamos

 

 

bem assim uma séria de picos montanhosos pertencentes aos «Picos da Europa». Uma visão fantástica, apesar de misturada por um manto de nevoeiro que trazia uma “chuva de molha-tolos”.

 
 

Fizemos uma pequena pausa na capela del Carmen, em Llampaxuga. Não só para descansar um pouco mas também para deixar passar um pouco mais a chuva, que começou a cair com mais intensidade.

 

Ali, numa caixa de madeira encrustada na parede frontal da capelinha, onde havia material de primeiros socorros, usámos o carimbo da capela e apusemo-lo nas nossas respectivas Credenciais do Peregrino.

 
 

Mais à frente passámos por um sítio pitoresco e refrescante para descansar, particularmente em dias quentes.

 
 

 

3º Troço:- Lloreana – Escamplero

 

Passámos em Llampaxuga e Lloreana, após ultrapassada uma encosta um pouco íngreme. Contemplámos a igreja de Santa Maria de Lloreana, do século XII, dedicada a S. Vicente, que poderão observar no diaporama que se apresenta no final deste post  e cuja particularidade é a imponência da sua torre.

 

Entretanto, numa descida, e na entrada para o concelho de Las Regueras, em Gallegos, observámos a ponte medieval, construída no século XIII, sobre o rio Nora que, um pouco mais à frente, vai desaguar no rio Nalón.

 
 

Daqui, e sempre em asfalto, dirigimo-nos até Escamplero.

 
 

Optámos por não fazermos a derivação à direita, descendo pelo verdadeiro traçado do Caminho. Por tal facto não fomos ao encontro do bosque de carvalhos e castanheiros, mais conhecido por “El Castañéu del Soldáu”.

 

Em Escamplero, (que antigamente teve um hospital de peregrinos), e porque a chuva começava a incomodar mais pela sua intensidade, optámos por fazer uma pequena pausa, também para descansar no bonito, moderno e aprazível albergue desta localidade, o primeiro desde que saímos de Oviedo.

 

Tâmara_Júnior tinha comido pouco ao pequeno-almoço – apenas meia de leite – e, pelo caminho, foi rilhando uma maçã, comprada na véspera; mas, ao ouvir o buzinar de uma carinha do pão, que passava por esta aldeia (aliás como acontece em muitas das nossas aldeias rurais), correu de pronto para comprar um cacete. Em poucos segundos, quer ele, quer Pé D’Vento deram imediato sumiço ao dito, sem deixarem tempo para a restante comitiva sequer codear um pedacinho ou uma simples migalha. Depois de comido o cacete, acabaram por dizer que não era lá grande coisa, e que não havia pão como o de Chaves mas, apesar de tudo, seus mirrados estômagos, ficaram alegres. Como se vê, é bem verdade que, «com fome não há ruim pão».

 
 

 

4º Troço:- Escamplero – Premoño

 

Depois de sairmos de Escamplero pela estrada que se dirige a Avilés, e um pouco mais adiante, encontrámos esta típica construção com os seus não menos interessantes dizeres que, assim, traduzimos: “Conta-se que o infeliz mortal que profane um cruzeiro ou que «meta a unha» na caixa das esmolas da almas, andará, depois de morto, a vaguear pela noite, nos locais em que cometeu os seus pecados, procurando algum parente ou amigo que queira trocar o bem pelo mal que fez pois, se porventura não devolver o que roubou e não remedeie o que fez de mal, não terá sossego na morte”. De um outro lado da parede está a informação de que estamos a 335 Km de Santiago e a 12 de Cabruñana, Grado. No cimo da construção, outro dito: «Os lucros (ou investimentos) não têm dias santos».

 
 

Um pouco mais à frente, ao lado de uma descida, na aldeia de Valsera, uma singela capelinha do século XX, designada de Fátima, que veio substituir uma outra, ali existente, desde o século XV, dedicada a Santa Maria.

 
 

Mais espigueiros,

 
 

mais prados…

 
 

Descemos por um caminho, onde abundam carvalhos

 
 

e castanheiros,

 
 

com o chão repleto de folhas secas e, numa encruzilhada, a indicação que estamos nas imediações do moinho de Pincarin.

 
(Trehco 1 do percurso) 
 
(Trehco 2 do percurso)
  

Atravessámos o rio (riacho) Andallón pela “passarela de las Xanas” e, subindo, ainda em pleno bosque, fomos dando conta já da presença do rio Nalón, por entre a folhagem das árvores.

 

Depois de uma pequena subida, entrámos no asfalto e nas imediações de Premoño.

 

Agora chovia com mais intensidade e, na capelinha de Santa Ana de Premoño, único vestígio de um antigo hospital de peregrinos, no seu alpendre, aproveitámos para nos abrigar e descansar um pouco.

 

Entretanto, Pé D’Vento e Tâmara_Júnior aproveitaram para, num bar ali ao lado da capelinha e de um bonito espigueiro, refrescarem a garganta: um, com uma «caña»; o outro, com um sumo de maracujá.

 

 

5º Troço:- Premoño – Peñaflor

 

 

Como a coisa não havia modos de aliviar, há que voltar a pôr a capa da chuva e continuar caminho.

 

Pouco tempo andámos por caminhos pejados de folhas de carvalho e castanheiro, embora com alguma lama, como tanto gosta Nona.

 

Ao entrarmos, contudo, no asfalto, pela estrada AS-234, adquirimos mais um novo companheiro de percurso: o largo e caudaloso rio Nalón.

 

 

Num momento de grande concentração para a captura das suas presas preferidas (porventura uma truta ou um salmão), aqui fica um atento corvo-marinho pendurado numa árvore encalhada no rio.

 

Ao passarmos por esta casa «fumeguenta», eis o comentário de Fábios: «Nona, somos bem malucos! Nós aqui à chuva e ao vento e que tão bem ali se estava à frente daquele luminho… Será que ao menos nos ofereciam um caldinho?... Que bem que eu o comia!».

 

Não assomando ninguém à porta, e tendo vergonha de pegar no batente da mesma para, porventura, no-la abrirem e, consequentemente, mendigar um bocadinho do manjar que, de cá de fora, cujo aroma tão bem cheirava, continuámos caminho.

 

Mais atrás Tâmara_Júnior acrescentava: «Eu, por mim, e por hoje, ficava por aqui, se me deixassem cá ficar!».

 
Mas não foi isso que aconteceu. À frente, Pé D’Vento, em alta voz, clamava: «Então, meninas, vamos embora. Logo à noite, no albergue, vou preparar-vos um manjar de romba».
 
 

E, com esta ilusão, lá nos adiantámos mais pelo asfalto adiante até à ponte medieval de Peñaflor, construída no século XII, e reconstruída em sucessivas épocas, devido, em grande parte, às cheias do rio Nalón.

 

Esta ponte é a porta de entrada do Caminho de Santiago (Primitivo) no concelho de Grado.

 

Tem também importância histórica. Aqui se travou uma importante batalha, com soldados e civis, às ordens de Gregório Jove, contra as tropas napoleónicas, em 1808.

 

Nesta ponte ainda, no século XII, existiu, numa das suas margens, um hospital de peregrinos.

 
 
Atravessada a ponte, continuámos ainda no asfalto para chegarmos e entrarmos na povoação de Peñaflor. Trata-se de uma povoação já bem antiga e com uma profusão de espigueiros por ela espalhados. Uma ou outra casa está recuperada. A estação do FEVE é um dos elementos mais modernos que por ali se vê…
 
 

 

6º Troço:- Peñaflor – Grado

 

 
(Vista parcial dos subúrbios de Grado)
 

De Peñaflor saímos cruzando um túnel da linha de caminho-de-ferro e, por um pequeno vale, com hortas e terras cultivadas, entrámos em Grado.

 

Já nos encontrávamos todos um pouco cansados, moídos. Por isso, unanimemente, decidimos, até porque ainda continuava a chover, embora a mesma «chuva de molha tolos», que aqui fazíamos uma paragem para comer e nos aprovisionar para a ceia, uma vez que, no albergue de Villapañada, um pouco ao lado da povoação com o mesmo nome, não havia qualquer comércio para o efeito.

 

Praticamente atravessámos toda a zona urbana. Depois entrámos num bar para petiscar qualquer coisa, carregar as baterias do telemóvel e da máquina fotográfica e descansar um pouco.

 

Tínhamos a informação que no albergue havia provisão de comida mas, «como o seguro morreu de velho», Pé D’Vento, como cozinheiro do dia, e Fábios foram a um supermercado para se abastecerem, enquanto Tâmara_Júnior saiu do Bar para tirar mais umas fotos, deixando Nona e o autor da puridade deste relato na conversa e a descansarem. Coisas da idade…

 

Entretanto Tâmara_Júnior aparece, mostrando a estes dois velhos caminhantes as fotos que tinha tirado na vila.

 

Mostrou essencialmente:

  • Uma discoteca muito colorida;
 
 
  • O Palacete Velázquez ou o Capitólio. Em estilo muito ecléctico e rodeada por um grande jardim. É a mais importante das casas de indianos da vila de Grado. Foi mandada construir, nos finais do século XIX, pelo indiano D. Manuel Velázquez, que foi emigrante em Santo Domingo;
 
 
  • A capela de Nuestra Señora de los Dolores. Foi mandada construir pelo marquês de Valdecarzana em 1713 e foi concluída em 1719. Inicialmente foi levantado para ser panteão funerário. Está declarada, conjuntamente com o palácio com o nome de Miranda-Valdecarzana, como Monumrnto Histórico Artístico, sendo um dos melhores exemplares de templo barroco astruriano;
 
 
  • A Casa Consistorial ou Torre do Relógio, sede do Ayumtamiento de Grado. Foi mandada construir em meados do século XIX.
 
 

Nona, depois de ver as fotos, em jeito de lição, faz-lhe o seguinte comentário: «António, isso é apenas uma ínfima parte do rico património que Grado e o seu concelho têm!... Como sabes, Grado é uma vila medieval, fundada ex novo por Afonso X, o Sábio. Para além das suas muralhas, hoje já restos, tem, do século XV, o Palácio Miranda-Valdecarzana; o Palácio Fontela, mais conhecido por Palácio da Marquesa de Fontela ou Casa de Cienfuegos, do século XVIII; a Casa dos Arcos, também do século XVIII; a Casa Fernández de Miranda, dos finais do século XVIII e princípios de XIX; a Casa conhecida como La Casa Tejeiro, também do século XVIII; a Antígua Pescadería, de 1929; a Fonte de Baixo e os edifícios que lhe estão contíguos, com um pormenor de uma placa, neles afixada, de inspiração neo-clássica; o Palacete de Indalecio Corujedo; o Palacete de los Casares; a igreja paroquial de São Pedro; a Casa da Taberna de Alvarín; a Casa del Rosal; a Casa da Família Guisasola; a Casa de Valentín Andrés; o Monumento ao Marquês; o Coreto da Música; a Vila Granada; o Palacete da Família Martínez; as casas para os operários dos caminhos-de-ferro; La Quintana: El Calabión; a Fonte de Cima; a Cruz de Pedra, entre outros. E isto só na vila. Agora nos arredores, tens: em Malta, o sepulcro de Santo Dolfo; nas margens do rio Cubia, a ponte de Grado; em Castañedo, as Vilas Ramoncita e Santa Julita e a Igreja de São Vicente e, nos arredores da vila, embora pareça fúnebre, vale a pena ver o seu cemitério, em especial o Panteão de Concha Heres».

 

Tâmar_Júnior, pasmado com tanta informação, pergunta a seu tio como estava informado de todas estas coisas. Nona, mais uma vez, com uma paciência paternal, responde-lhe: «Nunca ouviste dizer que “quem vai ao mar se prepara em terra”? Então foi o que fiz. Não passávamos em Grado? Bastou apenas uma consulta ao sítio http://ayto-grado.es/museus-y-patrimonio. A partir daqui transferi, em pdf, toda a informação para o meu telemóvel e, ontem à noite, antes de começar a dormir, dei uma leitura pelos pontos e motivos mais interessantes das localidades por onde hoje passávamos. Pena não termos tempo para ver estas coisas todas. Como sabes, ainda temos de levar a cabo uma valente subida daqui até San Juan de Villapañada. Mas Grado merece uma visita para quem venha como turista para estes lados das Astúrias, António! E já agora, sabes como são chamados os habitantes de Grado? Mosconos… A gastronomia moscona típica é constituída pelo queso afuega’l pitu; pelo pan de escanda e pelo tocinillo. O queijo, que tem a forma de uma cabaça, chama-se afuega’ l pitu (a garganta) por ser ligeiramente amargo».

 

Entretanto chegam Pé D’Vento e Fábios, arfando e apressados, com as compras, dizendo-nos que nos tínhamos de despachar para não chegarmos já noite ao albergue.

 

 

7º Troço:- Grado – San Juan de Villapañada

 

 

Logo à saída de Grado temos uma forte subida.

 

 

 
Apesar dos prados verdejantes à nossa volta e de alguns espigueiros asturianos espalhados pelo território, a subida, ora em caminho de terra ora em asfalto, por via da autovia A-63 que por aqui passa, não foi pêra doce para final de etapa.
 
 

E depois ainda tivemos que fazer um desvio de 800 metros para nos dirigirmos ao albergue,

 
 

situado numa aldeia bem rústica.

 
 

Mas valeu a pena a subida de quase 3,5 Km.

 

O albergue, embora de aspecto rústico ou antigo, era, para nós, que vínhamos todos rotos, um luxo.

 
 

Quer Fábios, quer Pé D’Vento pediram insistentemente a Tâmara_Júnior para tirar fotos ao seu interior. Tâmara_Júnior estava para tirar mas depois esqueceu-se.

 

Deixamos, todavia aqui, uma descrição que Fábios fez questão que constasse da nossa reportagem:

 

  • Cozinha bem composta, com:
    • Frigorífico;
    • Fogão;
    • Máquina de lavar roupa; “Menage” e/ou trem de cozinha completo;
    • Máquina de extrair café, sumos, refrescos e outras guloseimas;
    • Mesa de refeições comunitária, ou melhor dizendo, utilizando as palavras de Pé D’Vento, «amesamento refeiçoeiro» a condizer;
    • Equipada com víveres e outras bebidas,
    • Onde não faltou uma das especialidades mais badaladas da região – a famosa sidra, com o respectivo equipamento de uso e,
    • tudo, com pagamento à confiança.

     

  • Hall de entrada:
    • Caixa de primeiros socorros;
    • Recipiente (antigo utensílio para recolha do leite das vacas) para guardar os cajados e guarda-chuvas;
    • Informação pormenorizada sobre o Caminho e
    • decoração a preceito, de acordo com a quadra que atravessamos.

     

  • Dormitório:
    • Camas confortáveis;
    • Com almofadas;
    • Com mantas;
    • Com pequenos armários e
    • Termoventilador.

     

  • Casas de banho:
    • Duas – multi-sexo -, para homens e senhoras;
    • Com toalhas;
    • E com artigos de higiene e limpeza básicos.

     

  • Exterior:
    • Com vistas para a vila de Grado, lá ao fundo;
    • Com mesas e cadeiras para refeições e/ou convivo no exterior, caso o tempo o propicie.

Positivamente, ficámos todos encantados. E, ainda para mais, uma dependência destas só para estes cinco magníficos!

 

Eram já quase 9 horas da noite quando nos bateram à porta. Era o hospitaleiro – o senhor Domingo, paisano asturiano de gema, pessoa afável e cioso do seu ofício, acompanhado da sua doce dona, Marisa.

 

Foi uma hora a falar. Todos e de tudo. Todos pareciam ter ares de papagaios, tal era o entusiasmo que emprestavam aos diferentes temas da conversa que corriam como cerejas. Mas quem debitou mais conhecimento, como não podia deixar de ser, foi o senhor Domingo, anfitrião da casa: sobre o Caminho, em particular o do El Salvador, muito querido e frequentado pelos asturianos e alguns peregrinos; sobre os diferentes albergues do Caminho e seus albergueiros; dos convívios que entre eles fazem; sobre as Astúrias e a crise. Enfim, quando demos por nós, já tinha passado mais de uma hora.

 

E o que o senhor Domingo e a sua doce Marisa vieram fazer, para além de nos cobrar a estadia e apor o selo nas nossas Credenciais? Ora vejam só: provisão para o nosso pequeno-almoço!

 

Pé D’Vento, à ceia,  comeu de caramba! Até a favada enlatada que havia nas prateleiras do albergue não escapou. E fez questão que fosse aberta uma garrafa de sidra.

 

Ficámos, todos, deveras surpresos e de boca aberta. Não pelo seu apetite à sidra, mas pela forma como executou o cerimonial de deitar a sidra no copo, tal como fazem os asturianos!

 

Nona, com ar circunspecto e sisudo, comprometeu-se, assim ele o quisesse, de lhe arranjar um emprego lá para os lados «da rua do bom comer e do bom beber», na Gascona, em Oviedo. É que nem um pingo de líquido deixou cair ao chão!

 

Comeu-se e bebeu-se à boa maneira transmontana. E, com a barriga cheia e uma pinga a mais, quem quer ir para a cama?

 

Lembrou-se a tempo Nona, ou Fábios, já não me lembro, que se jogasse uma partida de damas ou de dominó. Optou-se pelo dominó porque dava para mais jogarem.

 

Enquanto se jogava, uma chamada de Chaves procurava por Fábios.

 

Pareceu-nos que tinha havido «caldo entornado» por terras de Trajano. No final de contas, tudo se arranjou, não passando de um caso de excitação dos preparativos de uma tarefa importante: em casa de Fábios, no dia seguinte, ia-se fazer fumeiro.

 

Enquanto jogava uma pedra do dominó, um comentário, a meia voz, de Fábios: «Eu prá qui a aturar esta cambada e a comer favada enlatada quando, amanhã, podia estar a comer as sopas de alheira de que tanto gosto!».

 

Era este o desabafo de Fábios quando já perdia ao dominó por muitos pontos com  Pé D’Vento e se vingava na garrafinha do Vinho do Porto, melhor dizendo, do Generoso, que este humilde escrevinhador levava. Obviamente que ficou «como aço» e mal dava já com a cama, quando, finalmente, nos decidimos deitar. A meio da noite, diz Nona - que nele acredito -, Fábios sonhava em voz alta, pronunciando o nome de uma senhora cuja dignidade da dita aqui não deve ser referido…

 

Pelos vistos, ainda acordou a falar nela!

 

Coisas de Fábios…

 

 

Considerações (impressões) finais

 

 

Chegados ao albergue de Villapañda e depois de nos acomodarmos  e de nos refrescar-nos com um banho bem quentinho, foi hora de nos deitarmos um bocadinho para descansar.

 

Da camarata de Nona dou conta do diálogo deste com Fábios:

 

  • Para uma cidade como Oviedo, donde partem e aonde chegam tantos caminheiros e peregrinos, de vários caminhos e conexões, era para ter um albergue de peregrinos com outro gabarito. O edifício é pequeno, acanhado, embora numa rua sossegada, com pouco equipamento e praticamente nenhum serviço. Como capital do Principado, e tão ciosa do seu passado de peregrinações, era para terem mais orgulho nas instalações que se apresentam para os peregrinos/caminheiros que a visitam;

 

  • E não se entende porque o albergue abre tão tarde, aliás como em outras grandes cidades da Galiza!

 

  • Por outro lado, a questão da orientação das vieiras para indicar a direcção do Caminho. Fazendo parte de um símbolo universal, nos Caminhos de Santiago, não faz sentido que nas Astúrias uma posição indique uma orientação ou sentido e, na Galiza, o seu contrário! Deveriam as duas regiões se entenderem quanto a esta matéria para não confundirem ou baralharem os caminheiros/peregrinos.

 

  • O percurso pela parte urbana de Oviedo é demasiado longo e deixa de fora monumentos pré-romanos de valia que mereciam ser vistos e/ou visitados no decorrer do percurso, obrigando, desta feita, a que se tenha de o fazer noutra altura, já fora do percurso. Estou-me a referir aos que estão situados no monte Naranco.

 

  • Quanto à etapa em si. Não fora a circunstância de já termos feito algumas caminhadas antes e treinado em relevo idêntico ao que passámos hoje, pelo menos para mim, já entrado nos sessenta, nesta etapa teria algumas dificuldades. Por um lado, a sua extensão; por outro, é um percurso, quase todo ele de sobe e desce, embora de troços curtos. Não é, positivamente, uma passeata qualquer! Ao chegarmos à vila de Grado já íamos quase todos moídos e sem vontade de ver nada.

 

  • E quanto a Grado. Não se entende que uma vila tão interessante, importante e distinta, pelo menos em termos do Caminho e do seu passado, não tenha, no seu centro urbano e/ou histórico um albergue de peregrinos. É preciso andar mais de três quilómetros, num terreno difícil, quase sempre a subir, para encontrarmos um albergue. E, se porventura este está cheio, ainda se tem de andar mais de três quilómetros e meio para atingir o mais próximo, em Cabruñana. Não faz sentido, tanto mais quanto mais, oficialmente, a etapa que está sinalizada é Oviedo-Grado. Está certo que Villapañada pertence ao concelho de Grado, mas entende-se que a informação aposta se deva referir ao seu núcleo mais importante – a vila. Sem um albergue na sua malha urbana da vila como é que querem que os caminheiros/peregrinos visitem e apreciem as suas «jóias da coroa»? Cansados como já vêm, chegados a Villapañada, não têm sequer vontade de descer à vila para a visitar melhor. Ficam-na a olhar ao longe do albergue de San Juan!...

 

  • Para mim, não fora a circunstância da data que escolhemos e querermos estar com, pelo menos, dois dias de antecedência antes da consoada, dividia esta etapa em duas. Tínhamos mais tempo para visitar Oviedo pois, para quem lá vai pela primeira vez, uma tarde e um pouco de uma noite, é muito pouco. Deveríamos ter mais uma manhã para o efeito. E, assim, a primeira etapa ficava por Escamplero onde, como vimos, tem um agradável albergue. Ao outro dia a seguir a etapa iria até Grado (Villapañada) e, assim, teríamos mais tempo para visitar com mais cuidado esta pitoresca vila, podendo até, em vez de se ficar no albergue de Villapañada, 3,6 Km mais acima, em Cabruñana.

 

  • Vamo-nos dando conta que, por causa do rompimento de estradas e novas vias, o Caminho fica debaixo do asfalto e sem alternativas. No planeamento e execução daquelas vias bem podiam prever pequenos percursos de caminho paralelos à estrada. Caminhar no asfalto não é só mais duro como mais perigoso.

 

  • E sempre pensei que vinha encontrar condições meteorológicas bem mais adversas. O que presenciámos, em termos de paisagem, é um bocadinho do que é a verdadeira Astúrias, da chamada comarca vaqueira: húmida, com chuva quase sempre intermitente, de «molha-tolos»; prados muito verdejantes, de um verde muito típico; com gado bovino e o seu característico chocalhar; muitos espigueiros com uma tipologia que só nas Astúrias se vê, espalhados por todos os cantos; bosques essencialmente de carvalhos e castanheiros e a presença constante dos picos altos das montanhas ao longe, no horizonte, envolvendo-nos.

 

  • Una nota final, os asturianos, em especial os aldeões, não me parecem pessoas muito abertas e expansivas. Raramente nos davam os bons dias e, quando os cumprimentávamos, parecia responderem «entre dentes». Mas talvez seja impressão minha…

 

Diaporama da etapa

 

Segue-se um diaporama com algumas imagens dos troços percorridos nesta primeira etapa.

(Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue)

 

 

 

 

 

 

publicado por andanhos às 16:06
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

Gallaecia: Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - Advertência, Referências e Apontamentos

 

 
 

 

Antes de vos dar conta de cada etapa percorrida, ao longo deste Caminho, nas Astúrias, uma advertência; algumas referências e quatro apontamentos.

 

 

A.- Advertência e Referências

 

 

 

Não é aqui nossa intensão relatar todos os passos e peripécias dos diferentes troços de cada uma das etapas percorridas do Caminho.

 

Aqui, embora façamos referência aos troços percorridos em cada etapa, apenas se realçará aquilo que, nesses troços e/ou nessas etapas, mais impressionou o autor ou qualquer elemento da comitiva/grupo.

 

Para descrições mais completas, têm os caros leitores, que queiram realizar e levar a cabo este Caminho, em relação a cada troço de cada etapa, na internet, informação em pormenor e/ou especializada, inclusive relatos muito pormenorizados e circunstanciais. Das fontes consultadas, e que mais gostámos, foram as seguintes (sem preocupação de as posicionar por grau de importância):

 

  • El Camino Primitivo, de Eroski Consumer;
  • El Camino Primitivo, by Gronze.com;
  • Mundicamino – Guía completa del Camino de Santiago;
  • Arteguías – El Camino Primitivo a Santiago de Compostela;
  • Arteguías – Románico en Asturias y Cantabrico;
  • El Camino Primitivo a Santiago (desde Oviedo a Compostela), de Jorge Sánchez;
  • Guía práctica del Camino de Santiago: Camino del Norte (Costa y Primitivo), de Carlos Mencos;
  • Guía Camino del Salvador – León-Oviedo, de José António Cuñarro Exposto;
  • El Camino Primitivo, dos participantes Fernando Vara, Luís Álvarez e Santiago Palacios;
  • Guía de Oviedo;
  • O Caminho Primitivo de Santiago, de Oswaldo Buzzo;
  • Guía Turístico das Asturias, para quem queira ter uma ideia geral sobre o Principado das Astúrias.

 

B.- Apontamentos

B.1.- Momentos de uma caminhada ou viagem

Uma caminhada ou viagem não é apenas o momento da sua execução/realização. É constituída, essencialmente, por três momentos:

 

a) Preparação (Planificação)

No caso concreto de uma caminhada, pelos Caminhos de Santiago, há que escolher a época a realizar, em função dos dias e das disponibilidades de cada caminheiro/peregrino; as etapas a levar a efeito; os serviços existentes ao longo do percurso/caminho; o que levar, mais concretamente na mochila; informação sobre a época em que se realiza, em função da meteorologia; a natureza do terreno e respectiva altimetria; a logística ao longo de cada etapa em termos de alojamento, provisionamento/refeições, bem assim outros serviços; e ainda outro tipo de informação como os elementos naturais e/ou culturais relevantes e a ter em conta e, para os quais, seja útil ou de interesse uma visita e/ou desvio.

 

b) Execução/realização

A realização do Caminho, etapa a etapa, troço a troço, pode-se apresentar problemática e, quiçá, muitas vezes, inviabilizar o nosso empreendimento. Há quem goste de viajar mais de inverno, quer por uma simples questão de gosto e por, para quem fica em albergues, ter mais espaço disponível e aí estar mais à vontade, não havendo tanta balbúrdia de caminheiros/peregrinos. Há quem goste de andar mais sozinho e/ou pequenos grupos. Por outro lado é importante também o número de quilómetros que se pretendem fazer por dia. E, este aspecto, para além de outros, depende da capacidade física de cada caminheiro/peregrino de fazer x ou y quilómetros por dia em função do terreno que pisa e respectivo relevo. Daí que se recomenda que, com uma certa antecedência, e durante algumas semanas antes, se vão fazendo percursos, inicialmente mais curtos, mas indo depois aumentando o número de quilómetros, aproximando-os das etapas que vamos ou pretendemos realizar, e escolhendo também o terreno e relevo que tenha mais ou menos o mesmo perfil das etapas do Caminho, não esquecendo de, nos últimos treinos, andar já com a mochila com o peso idêntico ao que vamos levar. Mas a execução ou realização de uma etapa concreta não depende só destes elementos: a logística, como o posicionamento e distribuição, ao longo do terreno, do alojamento e do aprovisionamento, essencialmente, para as refeições, vai determinar também a extensão da etapa do Caminho. Também o que levar também tem uma importância fundamental na realização do Caminho. Porque levar mais peso do que o devido, essencialmente na mochila, pode vir a trazer problemas ao peregrino/caminheiro. Normalmente, mais de 10% do peso que levamos connosco, em relação ao peso do nosso corpo, pode ser prejudicial para a saúde, em particular com a superveniência de problemas na coluna. Há outros elementos que podem pôr em causa a execução do Caminho. Por exemplo, falta de dinheiro ou do cartão de crédito; esquecermo-nos do BI ou Cartão do Cidadão; o Cartão Europeu de Saúde, caso se tenha de recorrer aos serviços de saúde. Sem ele, os serviços, em termos de preço, em certos casos, podem ser insuportáveis.

 

c) Finalmente, a recordação/relato do Caminho

 Executado o Caminho, o mesmo só se completa pela comunicação das vivências e/ou peripécias que nele tivemos. E há muitas e variadas maneiras de recordar: partilhando essas vivências e peripécias falando com os nossos familiares e amigos e/ou mostrando fotos, vídeos, escrevendo relatos ou outros elementos que tragam à partilha aquilo que foi a nossa «aventura». O Caminho cumpre-se ou completa-se com este último momento, que representa o fechar de um círculo, ou seja, a verdadeira vivência do nosso Caminho.

 

B.2.- A organização e o perfeccionismo de Fábios e o perfil breve da equipa

 

No albergue de El Salvador, em Oviedo, início do nosso Caminho, combinámos despertar às 7 horas locais para, às 8, sairmos do albergue.

 

Como despertei antes do tempo, fui o primeiro a arranjar-me. Eram, aproximadamente, 7 horas e 20 minutos e já estava pronto na sala/cozinha do albergue à espera da comitiva restante.

 

Nona demorou pouco tempo a acompanhar-me e começou a ler uma série de panfletos, existentes num dos recantos da sala, junto à imagem de Santiago, sobre Oviedo e o Principado de Astúrias.

 

 

A páginas tantas dou comigo a observar Fábios. É o cúmulo da organização e do perfeccionismo… Cada secção da sua mochila tem um destino, sua finalidade: desde o lugar para o saco da roupa limpa ao lugar para o saco da roupa suja; os cosméticos e utensílios de higiene; a caixa dos primeiros socorros; o lugar para o cachecol, para as luvas, etc. Tudo devidamente embalado, cada qual em seu lugar certo da mochila! E o enrolar o saco cama? Uma verdadeira sessão, como se fora um ritual. O mesmo com a capa para a chuva. Um verdadeiro cerimonial que mais se me afigurava a de um sacristão a paramentar o padre!...

 

Já para não falar de uma outra bolsa, exterior, onde, entre outras coisas, trazia o seu telemóvel, com o TwoNav instalado, figurando todo o mapa do caminho com indicação das etapas, dos albergues, dos lugares para comer e outros assuntos de interesse ao longo de cada percurso…

 

Vejam só que, duas semanas antes, mandava para cada membro da “expedição” o seguinte quadro com a relação dos objectos a levar, com a recomendação de não nos excedermos no peso da mochila em função do peso corporal de cada um. Tal era a obsessão por esta circunstância que, um dia, fui dar com Tâmara_Júnior a pesar cada peça de roupa, por forma a ter de se decidir excluir da mochila os artigos, não tanto essenciais, para que o peso da mochila não excedesse aquela percentagem do peso do seu corpo!...

 

 

Fábios na tropa foi enfermeiro, mas, ali, pareceu-me ter aprendido muito mais do que a dar injecções. Aliás admira-me porque o dito não «meteu o chico»: estava mesmo quedado para aquela vida!

 

Confessemos, contudo, que, para situações desta natureza, faz sempre falta e é necessário haver alguém com este espírito, por forma a evitar alguma balbúrdia e desorganização que é habitual nestas ocasiões.

 

Pé D’Vento, nome que fica muito bem assente na sua pessoa, nem se dá conta da sua existência: move-se como se fosse uma ligeira brisa. Quase se não dá conta dele. Mas anda sempre por ali, atento e observador a tudo quanto à sua volta se passa, usando, muitas das vezes, um espírito, ora crítico ora sarcástico, nos momentos oportunos.

 

Tâmara_Júnior, o repórter de imagem, a sua maior preocupação é com o material fotográfico, em especial com o carregamento das baterias e dos telemóveis. De vez em quando não se dá por ele por andar na busca de um pormenor que, segundo ele, possa fazer a diferença.

 

B.3.- Da revista da Federação Espanhola das Associações de Amigos do Caminho de Santiago - «Peregrino»

 

 

 

 

Enquanto, ainda no albergue de Oviedo, esperava que os restantes membros da nossa comitiva se preparassem para enfrentarmos a jornada do dia, e, como já referi, ia observando Fábios no seu cerimonial de preparar a sua mochila, deitei os olhos ao nº 128 da Revista Peregrino, de Abril de 2010.

 

Minha atenção virou-se para um artigo de Eligio Rivas Quintas, a páginas 37 a 39. Servindo-se, fundamentalmente, das obras de Humberto Baquero Moreno: “Vias portuguesas de peregrinação a Santiago de Compostela na Idade Média”, Revista da Faculdade de Letras e História, II Série, Vol. III, Porto, 1986 e “La Peregrinación a Santiago”, Xunta de Galicia, 1999 e de Francisco Gonçalves Carneiro, nosso conterrâneo  flaviense: “A Igreja de Santa Maria Maior de Chaves”, Braga, 1979 e “Chaves, cidade heróica”, Braga, 1978, pude extrair que, de Chaves, part(em)iam três rotas antigas que os peregrinos seguem para irem a Compostela:

 

a) A que vai pela margem direita do rio Tâmega, Outeiro Seco, perto de Nossa Senhora de Azinheira;

 

b) A que vai de Chaves, passando por Valdanta, Soutelo, Santiago de Seara Velha, Meixide, etc.;

 

c)  A que de Chaves vai por Seara Velha, Couto de Ervededo, Agrela, Cambedo, etc.

 

Por outro lado, António Lourenço fontes recorda-nos que os peregrinos também usavam Pitões das Júnias (priorato beneditino, românico, do século XII), seguindo por Tourém e Calvos de Randin.

 

Rivas Quintas, a determinado passo, diz: “A vila de Chaves era o ponto de convergência de milhares de peregrinos que vinham do sul e se deslocavam aos santuários de Roc Amadour e Compostela. A vila estava no Caminho de Santiago. As suas albergarias davam pousada aos peregrinos que delas necessitavam, como a Colegiada de Santa Maria Maior”. E chega-se ao ponto de se dizer que Chaves era o núcleo mais importante do Caminho de Santiago possuindo quatro albergarias ou hospitais, a saber:

 

a) Aqui criou em 1160 D. Mafalda, esposa do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, a albergaria com a capela de Santa Maria Madalena para acolher os peregrinos de Santiago;

 

b) Também houve o hospital ou albergue de Nossa Senhora de Roquemadour, porventura junto à alameda do Senhor do Bom Caminho, que estava ao cuidado da Confraria de Nossa Senhora de Roquemadour, trazida por influência de D. Mafalda;

 

c)  Houve também albergaria e capela de Santa Catarina, fundada por Lourenço Pires de Chaves, no tempo de Afonso III, perto das Termas, na margem direita do rio Tâmega e que, em 1681, se mudou para o Anjo, em cuja capela se pode ler a seguinte inscrição: «Fundou-se na era de 1287 (ano de 1249)»;

 

d) Por último, D. Afonso, filho bastardo de D. João I, primeiro Duque de Bragança, ergue aqui, em 1415, um edifício para acolher os peregrinos e enfermos, instalando-se, assim, a Confraria da Misericórdia, décadas mais tarde, passando a chamar-se Hospital da Misericórdia (mais tarde apelidado de Hospital Velho).

Ainda no século XVIII, para além do Hospital da Misericórdia, havia em Chaves o Hospital Real de São João de Deus.

 

A tradição diz ainda que existiu um hospital em Couto de Dornelas, vizinha de Chaves.

 

Em Canaveses, de onde vinha um caminho medieval em direcção a Trás-os-Montes, criou a rainha D. Mafalda um albergue de peregrinos, no caminho que se dirigia para Mesão-Frio, minha terra natal, e Lamego. Na Régua o caminho passava o rio Douro, que vinha, portanto, da Beira em direcção a Chaves, passando por Vila Real, Mondrões, Lamas de Olo, Vila Cova e Flhadela.

 

Para assistir a peregrinos e caminhantes estavam as ordens militares. Os Cavaleiros Templários ou da Ordem do Templo (mais tarde conhecidos por Hospitalários ou do Hospital) espalharam-se por toda a Sanábria, Bragança, Mogadouro e, inclusive, Chaves. No lugar onde hoje em Chaves estão instalados modernos apartamentos, e que antigamente era uma estalagem, ainda hoje se pode ver a crus daquela Ordem.

 

B.4.- Oviedo – ponto de partida e de conexão de caminhos

 

a) Caminho Primitivo

É o que de Oviedo (da sua Catedral) se dirige a Santiago de Compostela. Foi o primeiro Caminho realizado em direcção a Santigo de Compostela por Afonso II, o Casto, no século IX, aquando do descobrimento dos restos mortais do Apóstolo Santiago, o Maior;

 

b) Conexão do Caminho Francês com o Primitivo (León-Oviedo)

Esta é uma rota utilizada pelos peregrinos que, provenientes do chamado Caminho Francês, se desviavam em León em direcção a Oviedo, passando por Puerto Pajares, Pola de Lena e Mieres e, no concelho de Oviedo, por Olloniego, para, na Catedral de El Salvador adorarem as relíquias guardadas na Câmara Santa. A Câmara Santa, capela palatina de Afonso II, acolhe o Tesouro Catedralício, no qual se destaca: a Cruz dos Anjos, doação de Afonso II e símbolo de Oviedo;

 

 

a Cruz da Victória, doação de Afonso III (século X), símbolo das Astúrias;

 

 
 

a Caixa das Ágatas, doação de Fruela II (910)

 

 
 

 

e, por último, a Arca Santa, que contém as relíquias da cristandade, entre elas, porventura o mais importante,

 

 

 o Santo Sudário, que actualmente se guarda num suporte especial para sua perfeita conservação.

 

 

Ao Caminho que constitui o desvio de León, do Caminho Francês, para Oviedo, dá-se o nome de Caminho Salvador. Embora sejam pouco mais de 100 quilómetros tem troços bem mais difíceis do que os do Caminho Primitivo, ao entrar em áreas montanhosas superiores a 1600 metros de altitude. Mas de uma beleza extraordinária, dizem.

 

 
 

A razão deste desvio tem a ver com este provérbio ou refrão medieval, já por nós citado:

 
 
 

c) Conexão do Caminho da Costa ou do Norte com Oviedo

Desde Vilaviciosa muitos peregrinos dirigiam-se a Oviedo através de Saniego e Pola de Siero, entrando em Oviedo por Colloto.

 
 
 

d) Conexão desde Oviedo com o Caminho da Costa ou do Norte

Da Praça da Catedral ou Praça Afonso II, este Caminho dirige-se até Avilés para depois seguir o Caminho da Costa ou do Norte. Refira-se, por fim, que o Caminho da Costa ou do Norte (que desde Irún atravessa toda a costa cantábrica) penetra em Astúrias por Bustio, corre toda a costa cantábrica, atravessando, entre outros concelhos, Llanes, Ribadesella, Vilaviciosa, Avilés, Cudillero, Soto de Lui´na. Luarca, Navia, El Franco, Tapia e Castropol, continuando depois pela costa galega em Ribadeo para, a partir desta localidade, se desviar da costa, seguindo um percurso mais para o interior, no sentido sudoeste.

 

publicado por andanhos às 20:52
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

Gallaecia - Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - Introdução

 
 

6.Dezembro.2012

 

A.- BREVE DIÁRIO (APONTAMENTO) DO DIA

 

 

Saímos de Chaves eram 6:20 da manhã na “limousine” da mulher do Fábios em direcção a Ourense.

 

 

Depois de esperarmos cerca de uma hora na estação de camionagem de Ourense, partimos em autocarro directo para Oviedo.

 

 

Os principais locais de passagem foram: Monforte de Lemos; La Rua; O Barco de Valdeorras, onde, à direita, ficam “Las Médulas” e, a partir daqui, entrámos em Castilla y Lion. Antes de Ponferrada, e também à direita, ficam “Los Ancares” (El Bierzo). Logo a seguir a Ponferrada, uma cidade aberta, num vale à volta de “Los Ancares”, com a maioria dos seus edifícios em cinza e castanho, aparece-nos Astorga. Aqui, de relance, vi a sua magnífica Catedral.

 

 

Os nossos lugares no autocarro eram na designada «banheira». Foram os que se puderam arranjar juntos.

 

 

Ao meu lado vinha uma jovem, Marta de seu nome, que estuda Trabalho Social em Vigo, tem a sua família em Ourense e ia passar este fim-de-semana com uns amigos em Pola de Lena, Astúrias, aliás donde são naturais seus pais. Foi-me explicando tudo quanto a paisagem por onde passávamos tinha de característico e interessante para visitar.

 

 

Logo a seguir à entrada no Principado de Astúrias, pelo túnel do Negrón,, Marta fez referência a uma pista de esqui por estas paragens – Pallares – e uma barragem (embalse) – Os Barrios de Luna.

 

 

Marta ficou em Pola de Lena e, logo a seguir, passámos em Meires, que me impressionou pelo seu Campus universitário da Universidade de Oviedo.

 

 

A natureza, até à entrada do Principado de Astúrias, estava, até quase a Oviedo, toda coberta de neve. Mas notava-se que começava a derreter aceleradamente.

 

 

Chegámos às 15:30 horas exactas, e conforme o horário, a Oviedo.

 

 

O nosso navegador, Fábios, logo à chegada a Oviedo, teve um contratempo com o seu telemóvel – o GPS “pifou”. Veio em seu auxílio o de Tâmara_Júnior que nos levou direitinhos até à rua onde está situado o Albergue de Peregrinos de Oviedo.

 

 

Contudo o mesmo só abria às 17:30 horas. Nas grandes cidades os albergues têm esta política. Vá lá entender-se o porquê…

 

Valeu a indicação posta no placard do albergue para deixarmos as mochilas em dois lugares, os quais se disponibilizariam para o efeito.

 

 

E foi assim que fomos dar ao Café Sucursal, onde, bem atendidos por uma simpática asturiana, acabámos por comer uns “bocadillos”. A fome, com efeito, já apertava.

 

 

Daqui fomos depois dar uma volta pelo centro da cidade para fazer horas. Aproveitámos para dar uma vista de olhos à Catedral, às suas ruas mais características e aos seus edifícios mais emblemáticos. Contíguo ao Campo/Parque de São Francisco passámos por estruturas, montadas pela Associação de Comerciantes local e pelo “Ayuntamiento” de Oviedo, para a realização de uma feira de produtos locaias e artesanais. Aí comprámos meia dúzia de castanhas, que Pé D’Vento dizia não serem tão saborosas como as nossas, e, passeando e deambulando, viemos a comê-las atá ao albergue.

 

 

Às 17:30 horas em ponto apresentámo-nos no albergue com as nossas respectivas credenciais; inscrevemo-nos; pagámos cada um € 5 e começámos a acomodarmo-nos.

 

 

O Albergue de El Salvador, do “Ayuntamiento” de Oviedo não é um edifício por aí além. Como dizia Pé D’Vento: “Não é lá grande espingarda”. O segundo andar estava fechado e o rés-do-chão tem apenas uma recepção pequena; uma dependência com três beliches, sem mantas, colchões sem cobertura e almofadas sem fronha; uma sala/cozinha com uma larga mesa e cadeiras, com dois micro-ondas e um frigorífico; a casa de banho é pequena e apenas com um duche, uma sanita e um pequeno tanque para lavar roupa.

 

 

Dormiram connosco na camarata um uruguaio, vendedor de “semillas”, de nome Antonio, e um seu amigo, que iam fazer o Caminho da Costa.

 

 

O Albergueiro, Alfonso, era uma pessoa afável e simpática.

 

 

Do que vi (vimos) vai relatado quer na segunda parte deste post quer no vídeo deste dia.

 

 

Tenho a comunicar aos meus amigos Lumbudus de Chaves que vim a Oviedo encontrar a Lombuda, ex-mulher do nosso Lombudo, aliás como já relatei na minha página pessoal do Facebook.

 

 

O meu estado geral hoje não é lá grande coisa. Talvez fosse da viagem, muito maçadora. Pensei estar mais animado. E estou, agora, a ter receio do que me possa acontecer com o frio que venha a encontrar. Vamos ver como vai decorrer a etapa de amanhã. Vai ser uma etapa psicologicamente importante.

 

 

Quanto à restante comitiva: Fábios, aborrecido pela antena do seu GPS ter “pirado”. Passou toda a viagem a ver a paisagem, ouvir música e a dormitar; Pé D’Vento, sempre com as suas maluqueiras do costume; Nona, diz sentir-se animicamente bem disposto e apto para a aventura; Tâmara_Júnior, o mesmo de sempre, alinhando com todos.

 

 

B.- BREVE HISTÓRIA À VOLTA DO CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO

 

 

O Caminho Primitivo de Santiago é o primeiro caminho conhecido que, da capital do reino asturiano, Oviedo, percorreu, pela primeira vez, um ilustre peregrino – Afonso II, o Casto -, em direcção a Santiago de Compostela, ao ser informado, por Teodomiro, Bispo de Iria Flavia, (corriam os primeiros anos dos anos oitocentos), de que um ermitão, de nome Pelayo, por um facto insólito, descobriu os restos mortais do Apóstolo Tiago, o Maior, num lugar chamado Campus Stela.

 

 

Em Compostela, Afonso II manda erigir um mausoléu para acolher os restos mortais do Santo com o objectivo de que fosse venerado pela cristandade.

 

Ao empreender o Caminho desde Oviedo até Compostela; ao erigir o mausoléu ao Santo e ao mandar construir a primeira igreja, Afonso II, o Casto, com estas realizações fez que se tornasse decisiva a construção de uma urbe nascente pela organização do culto apostólico naquela região – a Galiza.

 

 

O Caminho Primitivo de Santiago não era muito diferente do actual. E, por ter sido o primeiro de todos os caminhos que se dirigiram para Santiago com a finalidade de prestar culto ao Santo, a sua denominação «primeva» está de acordo com a realidade histórica.

 

Ao haver, posteriormente, um avanço para sul da Península Ibérica pela conquista desses mesmos territórios pela cristandade aos muçulmanos, outros caminhos ou roteiros foram aparecendo, sendo, de entre todos, o mais famoso o que se designa por Caminho Francês.

 

 

Apesar de ter sido o primeiro caminho jacobeu documentado pela história não é, porém, o mais conhecido como foram outras vias de peregrinação, como o já aludido Caminho Francês, o Caminho da Via da Prata, o chamado Caminho do Norte, o da Costa, etc.

 

Contudo, nos últimos anos tem vindo a ser redescoberto por cada vez mais peregrinos e a ser dotado de adequada sinalização e serviços necessários para atendimento ao caminhante.

 

O actual Caminho Primitivo de Santiago, tendo em vista as notícias documentadas conservadas, como se já afirmou, reproduz, de modo assaz fiel, o itinerário que realizou o monarca asturiano Afonso II ao partir de Oviedo, sede da corte asturiana, em direcção ao ocidente, atravessando territórios de Grado, Salas, Tineo, Allende e Grandas de Salime, tudo em território asturiano. A partir daqui, ultrapassado o conhecido Alto de Acebo, o caminho entra em terras galegas pela comarca de A Fonsagrada, dando lugar a uma suave descida em direcção à histórica cidade de Lugo para, depois, ir desembocar no Caminho Francês.

 

O Caminho Primitivo conta com três variantes ou ramais menores: o primeiro deles é conhecido como a rota dos Hospitales que, desde as cercanias de Tineo, conduz o peregrino ao Alto do Palo, sem atravessar Pola de Allende; o segundo tem o nome de variante do Sobrado, iniciando-se na capital lucense e atravessando os municípios de Sobrado, Friol e Boimorto, encontrando-se com o Caminho Francês em Arzua; a terceira e última consiste num curto ramal que, em lugar de se incorporar na via principal, em Palas de Rei, ganha alguns quilómetros até à localidade de Melide.

 

 

B1.- OVIEDO E A SUA HISTÓRIA

 

 

 

Oviedo tem uma história milenária ligada ao seu papel de capital das Astúrias.

 

Poucos poderiam suspeitar que os monges  Máximo e Fromestano, fundadores da cidade no ano 761, ao situarem Oviedo numa colina, no centro de Astúrias, que esta cidade superaria os mais de mil e duzentos anos de vida urbana, comercial, eclesiástica e militar.

 

O rei Fruela, quarto da monarquia asturiana, foi o primeiro impulsionador decidido desta cidade com a construção de um palácio e uma igreja próxima deste.

 

Mas é, contudo, com Afonso II, o Casto, que Oviedo deve o seu estatuto de capitalidade e de sede régia com a transferência da corte de Pravia e a criação do Caminho de Santiago, fenómeno capital na história de Oviedo.

Um templo dedicado ao El Salvador e um Palácio Real, obras promovidas por aquele monarca, formaram o núcleo e o motor de Oviedo.

 

É nesta época que a cidade se converte no epicentro de Arte Asturiana, expressão original e única, herdeira da tradição visigótica, oriental e nórdica, que culmina com o reinado de Ramiro I.

 

Com a transferência da corte régia para Leão, após a morte de Afonso III, o Magno, a vida da cidade fica vinculada às relíquias conservadas na sua catedral e à passagem de peregrinos que visitam a catedral de El Salvador na sua passagem para Santiago.

 

Quanto à obrigatoriedade e à importância dos peregrinos passarem pela catedral de El Salvador, em direcção a Santiago, há um antigo refrão que reza assim: “Quem vai a Compostela e não ao Salvador, honra seu criado e deixa o Senhor”.

 

Os séculos XIII e XIV conhecem o desenvolvimento da cidade medieval, conservada no seu traçado até hoje.

Refira-se a construção de uma muralha; o incêndio devastador do dia de Natal de 1521 e a formidável obra do aqueduto de los Pilares para abastecimento de água à cidade ao longo do século XVI.

 

A fundação da Universidade por Fernando de Valdés Salas, de Salas, nos começos do século XVII, abre urbanisticamente Oviedo a uma expansão progressiva, impulsionada, no século XVIII, pela nobreza urbana e a construção de notáveis palácios.

 

A título de exemplo:

 

(Palácio dos Marqueses de Camposagrado)

 

(Palácio do Marqués de San Feliz)

 

(Palácio de Toreno)

 

No século XIX, o crescimento industrial leva à ampliação da malha urbana para fora dos tradicionais limites impostos pela muralha para a rua Uría e, no século XX, assiste-se a um desenvolvimento administrativo e comercial.

 

Oviedo na actualidade é a capital do Principado de Astúrias e mantém uma vocação de cidade de serviços administrativos e universitários. O comércio converteu-se num sector económico fundamental.

 

(Teatro Campoamor)

 

Refira, por fim, que Oviedo é hoje uma cidade com uma notável projecção internacional com os Prémios Príncipe de Astúrias, entregues anualmente no Teatro Campoamor e do Campus Internacional ao qual acodem personalidades da mais alta relevância internacional.

 

Outros monumentos relevantes:

 

(Museu de Belas Artes das Astúrias)

 

(Antigo Convento de São Vicente)

 

(Igreja e Santo Isidoro)

 

(Mosteiro de São Pelayo) 

 

(Palácio Episcopal)

 

Conjuntos interessantes:

 

(El Fontán)

  

(Casa de la Rúa)

 

(Palácio de Congressos de Oviedo, de Calatrava)

 

 

B2.- MONUMENTOS DE MAIOR RELEVÂNCIA NO CAMINHO PRIMITIVO NAS ASTÚRIAS

 

O Caminho Primitivo de Santiago inicia-se em Oviedo, cidade que, como capital do reino (hoje Principado) de Astúrias contou com a chegada ao trono de Afonso II, o Casto, dotando-a de um conjunto de equipamentos e infra-estruturas compatíveis com uma cidade relacionada com a monarquia e a sua corte.

 

O Palácio Real, a julgar pela documentação conservada, seria, sem dúvida, um magnífico edifício de que apenas se conservaram vestígios.

 

Contudo, são vários os equipamentos religiosos ovetenses da época pré-românica, que chegaram até aos nossos dias, e outros de épocas posteriores.

 

Para não sermos demasiado exaustivos, pois existe muita literatura disponível sobre este tema, vamos apenas enumerar os que nos parecem mais significativos:

 

1.- San Julián de los Prados,

mais popularmente conhecido como Santullano. É o mais antigo e o melhor conservado.

 

 

 

2.- Igreja de San Tirso

É contemporânea de Santullano. Foi mandada construir por Afonso II, o Casto.

 

 

3.- No Monte Naranco

Apenas a três quilómetros da cidade de Oviedo, nas faldas do Monte Naranco, o rei Ramiro I mandou edificar, em meados do século IX, um complexo palaciano suburbano de que apenas hoje subsiste:

 

3.1.- A Igreja de San Miguel de Lillo

 

 

3.2.- Santa Maria do Naranco

Um enigmático edifício conhecido por este nome.

 

 

4.- A Foncalada

No centro da cidade de Oviedo a conhecida Fonte de Foncalada é o único vestígio conservado, de carácter civil, herdado dos tempos da monarquia asturiana (Afonso III).

 

 

5.- A Catedral e a Câmara Santa

A Catedral é um soberbo edifício do mais puro estilo gótico que coabita, no seu interior, com diversos vestígios de construções anteriores.

 

 

O mais relevante, da época alta medieval, é a Câmara Santa, mandada construir por Afonso II, o Casto. A Câmara Santa alberga o tesouro da Catedral, destacando-se a Cruz dos Anjos, a restaurada Cruz da Victória e a Caixa das Ágatas.

 

 

6.- Campanário românico da Catedral

Adossado à parte meridional da Catedral gótica conserva-se ainda o primitivo campanário românico, uma torre levantada numa base pré-romana.

 

 

 

7.- Arredores de Oviedo

 

7.1.- Igreja de San Pedro de Nora, em Las Regueras

Está situada junto à antiga via romana que comunicava Asturica Augusta (Astorga) e Lucus Asturicum (Lugo de Llanera).

 

 

7.2.- Igreja de San Pedro, em Grado

Erguida em estilo historicista, substituiu uma fundação anterior de origem tardo românica.

 

 

 

7.3.- Mosteiro de San Salvador de Cornellana

 

 

7.4.- Conjunto Histórico-Artístico de Salas

Salas é uma localidade cujo desenvolvimento se deveu à sua situação estratégica ao longo do Caminho de Santiago. Do seu património, destaca-se:

 

7.4.1.- Antigo Mosteiro de San Martin e o

 

 

 

7.4.2.- Palácio de Valdés-Salas,

com uma airosa torre fortificada.

 
 

7.5.- Tineo

Embora o seu extenso concelho seja rico em manifestações românicas, na capital apenas sobreviveram dois edifícios deste período: o Convento de São Francisco com a sua destacada portada principal e a pequena igreja de San Pedro, hoje capela do cemitério.

 

7.5.1.- Mosteiro de Santa Maria la Real de Obona

Neste concelho a referência mais significativa é o Mosteiro de Obona.

Está hoje decrépito, em ruína. A igreja é, contudo, um sólido edifício do século XII, construída segundo os ditames cistercienses. Consta de três naves.

 

 

7.6.- Allende

Saindo de Tineo em direcção ao concelho de Allende, as suaves ondulações que até agora acompanhavam o peregrino desaparecem para dar lugar a um relevo mais acidentado. Assim, no Alto de Porciles ou de Lavadoira, e assente sobre uma ladeira, descobre-se a localidade de Pola de Allende.

 

 Aí se destaca o Palácio de Cienfuegos, uma soberba construção nobiliária do século XIV.

 
 

 Em Allende encontra-se a igreja de Santa Maria de Celón, uma das mais singulares do românico ocidental do Principado das Astúrias.

 

 

Actualmente a Igreja de Celón apresenta-se, no seu exterior, como um harmónico edifício de uma só nave rematada em abside quadrangular. No seu interior, em boa talha românica, pode-se observar a Virgem com o Menino. Conserva ainda no seu interior um interessantíssimo ciclo de pinturas murais de estilo popular alusivas à vida de Cristo, datadas do século XV.

 

7.7.- Grandas de Salime

Descendo a Pola de Allende, o Caminho inicia depois uma dura subida que culmina nos mais de mil e cem metros de altitude, em Puerto del Palo. A partir daqui, inicia-se uma prolongada descida que nos leva a Grandas de Salime, onde se situa a colossal barragem com o mesmo nome.

 

 

Foi terra povoada desde tempos passados, como bem atestam os numerosos assentamentos castrejos dispersos por todo o seu território.

 

 

Na época medieval, à custa da rota jacobeia, está documentada a passagem pela vila do rei Afonso IX, na sua peregrinação a Compostela. Muito provavelmente foi neste espaço temporal que a Igreja de San Salvador foi edificada.

 

 

Da obra original apenas se conserva uma magnífica portada de três arquivoltas de colunas e capiteis com decoração figurativa, aparecendo num deles a cena da Visitação.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

Para além, por um lado, da singeleza e, por outro, da monumentalidade de Oviedo, o que mais me admirou, durante a meia dúzia de horas que por esta urbe vagueei, foram, essencialmente dois aspectos: a impressionante estatuária pública dispersa por todos os recantos do aglomerado urbano e na qual é bem patente o amor e consideração que os seus responsáveis e residentes têm não só pela arte como também pelos seus «maiores» que se distinguiram nos mais diversos campos, mesmo de ofícios aparentemente humildes; o segundo, a animação nocturna, em especial na “Gascona” a quem lhe chamam «El Bulevar de la Sidra».

 

 

No geral, nas poucas horas que permaneci nesta cidade, não encontrei gente demasiado expansiva, contudo, educada e afável.

 

 

Finalmente, uma última palavra para a gastronomia. Come-se muito. Talvez demais, julgo. Aliás é por demais conhecida a afamada e rica gastronomia das Astúrias. Complicada, dura demais, contudo para o meu frágil aparelho digestivo!

 

 

 
Segue-se um video do percurso pedonal, diurno e nocturno, por Oviedo, na véspera do início da nossa caminhada pelo Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias.
 
[Nota: Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blog]
 
 
 

publicado por andanhos às 01:38
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