Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.1.5)


 

 

 

H.- Ourense – Atenas da Galiza (ou Terra de Mecenas)

 

Há em Ourense uma tendência a vestir bem, um bom gosto e uma nítida preocupação pela elegância, que vai para além da simples aparência. Aqui, talvez por estas condições sociais, histórica e culturais, surgiu uma boa escola de alfaiates e modistas, que são a base na qual se sustenta a indústria ourensã do desenho e da moda.

 

Terra de “chispa”, diz-se em Ourense, numa clara expressão com duplo significado, já que está claramente relacionada com a profissão ambulante de afiador e paragueiro. Mas também com a agilidade e a agudeza do pensamento, numa tendência ao gracejo, a uma irónica inocência ou modo inteligente de ver as coisas, com perspectiva e distância.

 

(Afiador e Paragueiro, de Antonio Faílde Gago - Nos Jardins de Riba túnel [S. Francisco])

 

Esta maneira de ser deu à cidade o melhor de si, o mais criativo, participativo, enfim, um ar mais feliz.

 

É, porventura - segundo nos diz o guia turístico Everest , Ourense, Vive y Descubre -, D. Xoán da Cova, que aqui viveu e nasceu, na segunda metade do século XIX, quem melhor representa este modo de ser. Inventor do Trampitán, idioma com vocação universal, mas de uso próprio, e de uma forma de viajar sem se mover do sítio, editor de um periódico escrito no seu idioma, no qual exercia o ofício de redactor, distribuidor e único leitor… O escritor José María Merino considerava-o um personagem tão singular, uma lenda, que o incluiu no seu livro “Leyendas españolas de todos los tempos. Una memoria social” .

 

Deste espírito se alimentaram Vicente Risco, Otero Pedrayo, Florentino Cuevillas, Primitivo Rodríguez Sanjurjo, Luís Trabazo, Xosé Ramón e Fernández Oxea (Be-Cho-Shey). Este último, escritor e etnógrafo, ao qual devemos a compilação do vocabulário do Barallete, a linguagem (fala) dos afiadores, e que nos deixou o seguinte epitáfio: “Quedan suprimidos todos los homenajes post mortem, porque las cosas ou se hacen a su tiempo o no se hacen”.

 

Irónico também o Carrabouxo, personagem criada pelo humorista Xosé Lois González, que cada dia faz sorrir os ourensanos, a partir das páginas do periódico ourensano La Región.

 

(O Carrabouxo, de César Lombera - Parque de São Lázaro)

 

Tudo isto supõe uma aprendizagem de vida, porventura relacionada com a condição de cruzamento de caminhos que Ourense é. Mas também com a diáspora migratória e com um nível cultural que fez já alguém a denominar “Atenas da Galiza”.

 

(Busto de Vicente Risco, de José Liste Naveira - Na rua com o seu nome)

 

Motivo pelo qual aqui se relativizam as coisas e tomamos consciência que há mais mundos e vidas para além do próximo e do óbvio, tal como já escrevia Vicente Risco no primeiro editorial da revista La Centuria: “Ourense dista seiscentos quilómetros de Madrid e, por acaso, menos de Nova Iorque. Em todo o caso, La Centuria vai cortar com esta última distância. Ourense não tem nada de cosmopolita nem de típico, nem de futurista, nem de tradicional: muitas casas velhas e nenhuma antiga. Mas tem sete estradas e, para além disso, tem-nos a nós.”

 

1.- A “Xeración Nós


Vicente Risco, Ramón Otero Pedrayo e Florentino López Cuevillas formaram o núcleo fundamental da Revista Nós, fundada em 1920 à volta da qual se agrupou a mais brilhante intelectualidade ourensã do momento: E. Montes; Blanco Amor; Primitivo Rodríguez Sanjurjo; Arturo Noguerol Buján; Antón Losada Diéguez, entre outros.

 

 

Membros do Ateneo Orensano animavam também a tertúlia do Café Royalty.

 

Constitui-se, desta forma, aquilo a que se chamou a Xeración Nós.

 

Os membros da Xeración Nós foram leitores de poetas estrangeiros; sentiram-se atraídos pelo exótico; foram grandes inconformistas; participaram de uma “sensibilidade” – introduzida em Espanha pelo modernismo -, na qual cabe a desconformidade política com o sistema da Restauração, até uma rebeldia vital face ao mundo espiritual que os rodeava.

 

Do ponto de vista cultural rejeitavam tanto o racionalismo cientista do século XIX como o realismo.

 

(Homenagem à Xeración Nós, Fernando Blanco - Nos Jardins do Campus Universitário)

 

O grupo seria definido por Risco, em 1933, simplesmente como “Nós, os inadaptados”, inadaptação que vai representar uma verdadeira contradição, pois chegaram ao nacionalismo depois de uma ampla viagem por outros horizontes culturais.

A obra deste grupo é muito heterogénea, abarcando desde o campo científico até ao literário.

 

A nível científico destacam-se os trabalhos de Vicente Risco sobre etnografia e a síntese que realiza sobre a evolução histórica da cultura galega; as investigações sobre geografia, de Otero Pedrayo; e a obra de Cuevillas dedicada à pré-história da Galiza. Na produção literária, dentro dos diversos géneros, apresenta uma grande variedade.

 

O grupo nasceu sem implicações políticas. Mas logo evoluiu, abandonando o seu esteticismo inicial a favor de pontos de vista galeguistas.

 

Vicente Risco foi o responsável de levar a cabo a primeira sistematização do nacionalismo galego, entendida como um problema essencialmente cultural, afirmando que a personalidade da Galiza lhe vem da raça, da língua, da tradição cultural e da história. A teoria do nacionalismo de Risco – e, por extensão, de toda a Xeración Nós -, bebe na fonte do idealismo alemão e será a que informa, ideologicamente, tanto as Irmandades (da Fala) como o Partido Galeguista, durante a II República.

 

2.- O Bar Tucho/O Volter e os “artistiñas”

 

 

O O Volter foi um bar, situado numa praceta de Ourense antiga –o  Erociño dos Caballeros -, próximo da Praça do Ferro, onde, a partir de 1963, se juntaram muitos intelectuais, artistas e liberais ourensanos daquela época.

 

A ideia, na realidade, foi de Vicente Risco, que criou uma versão local, única na Galiza, do que viu no “Cabaret Voltaire”, de Zurique (Suíça), no qual se reuniam os artistas da vanguarda europeia, no momento representada pelo surrealismo (dadaísmo).

 

Assim se criou em Ourense o Grupo Volter, cuja sede foi o bar O Tucho, e ali passaram a reunir-se, diariamente, personagens como os pintores e escultores Xaime Quessada, Xosé Luís de Dios, Acisclo Manzano e, mais tarde, Manuel García Buciños, Xavier Pousa, Arturo Baltar e Virxilio Fernández Cañedo.

 

O local foi centro de reunião de pintores e intelectuais daquela época, a que se juntaram Conde Corbal (médico) e Prego de Oliver (pintor).

 

Mas o O Volter, pouco a pouco, foi decaindo, à medida que a democracia e as liberdades também iam caindo.

 

Tucho, o emblemático taberneiro, gerente do local e considerado por toda a gente como o melhor de Ourense (assim figurava em alguns livros sobre os vinhos do Ribeiro), pouco a pouco, com o pesar dos anos, as novas modas e novos locais, teve de encerrar o estabelecimento: o O Volter desaparece assim.

 

(O Tucho)

 

Tucho foi um homem de uma sóbria elegância e de uma generosidade sem limites, que chegou até ao ponto de mudar o nome da sua taberna, por deferência para com uns artistas moços, cheios de inquietações, aqueles aquém Vicente Risco apelidava, carinhosamente, de os artistiñas.

 

O bar o O Tucho ou o O Volter, com os seus artistiñas, deixaram-nos uma riquíssima herança, formada por um grupo de amigos, unidos também por ideologia e ímpeto criador, que pôs Ourense no mapa mundial, segundo palavras de Anxeles Cuña, responsável pela homenagem ao bar o "O Volter”, realizada em 2008 (La Región, de 29.03.2008).

 

(Vicente Risco pairando sobre o artistiña Xosé Luis de Dios no O Volter)

 

O Tucho/Volter, com os seus artistiñas, representa “a fusão das artes, a festa, o pensamento e mesmo a vida”. Os volterianos ou volterinos, nas bonitas palavras de Xoan Luis de Dios, entretanto falecido, e aquando da homenagem/romagem àquele local, em 2008, “não viramos a página, o que fazemos é ler a página que nos passaram, por higiene democrática e por justiça histórica”.

 

O convívio e as tertúlias do Tucho/Volter era o de uma geração que tinha vivido na república e que procurava sempre as liberdades, depois da publicação da obra de Celso Emilio Ferreira “Longa noite de pedra”.

 

Para Xosé Lois Carrión, da Associação Amigos da Republica de Ourense, o espaço do Euriciño dos Caballeros, onde se situava o O Volter é o símbolo de um espaço livre, de livre pensamento, para Ourense.

 

(Homenagem às gerações do O Volter no Eurociño dos Caballeros)

 

Mercedes Gallego Esperanza, num seu artigo “Criterios expositivos em Ourense durante la segunda mitad del siglo XX” refere-nos que, a partir da década de 60 do século passado, o panorama artístico de Ourense começou a mudar. E que tudo se deveu ao “O Volter” e aos seus célebres “sete artistas galegos”, chamados os “artistiñas”. Ao buscarem a mudança e provocarem a renovação da cidade, com uma nova figuração e informalismo, duas tendências muito em voga nesta década em Espanha, encetaram um admirável esforço, dando novo alento e entusiasmo, para tirar Ourense do seu anquilosamento, catapultando-a para o mundo artístico. Dos lugares escassos para exposições, começam a abrir uma série de casas para exporem arte. Desde o Museu Arqueológico Provincial, dirigido por Ferro Couselo, ao Museu Municipal, desde o Liceo Ourensano, à Sociedad Artistica La Troya e ao Ateneo e aos mais recentes Caixa Ourense, Caixa Galicia, Caxa Vigo (que utiliza o Museu Provincial para as suas exposições), a Casa da Juventude e o Pazo de Vilamarín até às galerias privadas Souto, El Rincón del Arte, Choni, Conde Sueiro, Obradoiro das Artes de Tamallancos, Taller de Grabado, Sargadelos, Expression, Esse, Café Estudio 34, Latino, Issac e, mais recentemente, Marisa Marinón, Volter, Visol, Marja Parda ou Lucerna, entre outros, num constante abrir e fechar de lojas, o panorama artístico de Ourense nunca mais deixou de parar. E tudo isto graças, também, aquelas  duas gerações que propulsaram a auto-estima ourensana.

 

(Xosé Luis de Dios em plena maturidade)

 

 Por isso, em 2008, graças a uma bem merecida homenagem, foram aquelas duas gerações benzidas numa espécie de rito pagão, 45 anos depois  daqueles “artistiñas” terem homenageado Risco numa tasca do Ourense antigo.

 

(Quadro de Xosé Luis de Dios por si oferecido à associação Albergueria)

 

Quando conheci Ourense, nos anos 90 do século passado, e principalmente as suas gentes, o que mais me cativou foi ainda este espírito de “esquerdas”, solidário, aberto. A maior parte dos amigos e meus conhecidos que aí tenho estão ou na Associação Amigos da República de Ourense, ou no Liceo Ourensano ou são militantes ou simples simpatizantes do “Bloque”.

 

Para aquilatar da áurea daquelas duas gerações – Xeración Nós e dos artistiñas do  O Volter -, nada melhor do que deixar falar Marina Sanchez Soto que, na La Región, de 18 de Abril de 2008, em coluna de opinião, dizia:

 

“ (…) Graças a eles ainda nos fica esse laço, esse cordão umbilical que nos comunica com aquela Atenas da Galiza, que era o Ourense de então. Ainda, através deles, chegam-nos os ecos daqueles homens cultíssimos, capazes de fazerem quase tantas coisas como as que eram capazes de imaginar, aquele Risco, Otero Pedrayo, o Xocas… que souberam chegar aqueles moços e transmitir-lhes a necessidade de se cultivarem para que a sua arte mais prontamente tivesse voz própria. Quando os conheces, vês algo em comum neles: aquele ar de intelectualidade de grupo, essa geração unida, ainda que com as suas diferenças, que sonharam – com o respeito que caracteriza os homens de honra -, fazer a leitura mais anema, mais acertada, mais positiva e mais construtiva de cada um deles, como elemento de per si e de todos como conjunto. Formam uma formosa equipa. São nossos. Nascidos por um sonho, por uma ilusão e, ainda que à vezes inadaptados, alimentaram-se de entusiasmo e do bem fazer e, todos eles, sem excepção, dotados de uma sensibilidade apurada que os fez grandes (…) Quem diz que em Ourense não há talento, perguntem aos artistiñas!!!

 

3.- A nova Ourense do século XXI e a sua escultura pública (urbana)

 

Pode-se bem dizer que, aqui, graças a esta terra e a estas gentes tão peculiares, a pátria galega ressurgiu, ergueu-se, qual Fénix renascida, para alento e orgulho actual de todos os galegos.

 

Ao longo do longo processo que foi o desabrochar do nacionalismo galego, com os movimentos, primeiro,  o provincialismo, e depois, o ressurgimento, o regionalismo, as Irmandades da Fala, até à constituição do Partido Galeguista, Ourense esteve sempre na sua vanguarda. Na defesa da sua terra. Com a sua língua própria, as suas tradições e a sua história.

 

Nas minhas deambulações por esta antiga e vetusta cidade, fui-me apercebendo do carinho e do valor que os galegos e, em especial os ourensanos, dão aquilo que é deles. Um exemplo a seguir, entre nós…

 

À volta dos ditos artistiñas, e mercê do impulso que estes na cidade criaram, prolifou depois uma plêiade de artistas que não só dinamizaram culturalmente a cidade como, alguns, em especial os escultores, a embelezaram com as suas obras, contribuindo, assim, para a nova imagem que Ourense hoje nos apresenta.

 

Vou assim, desta feita, apresentar algumas das obras de artistas ourensanos que, ao longo dos diferentes percursos urbanos que fiz em Ourense, fui encontrando.

 

3.1.- Antonio Faílde Gago

 

Um escultor muito acarinhado pelos artistiñas. O Roteiro Volter tem aqui uma sua estação, porventura a primeira, nos Jardins de Faílde, aos Remédios:

 

(Mural Feria do Campo Madrid)

 

No Parque Minho:

 

(Mulher sentada)

 

 

Deste autor, e mais acima neste post, já inserimos a obra Afiador e Paragueiro.

 

3.3.- Acisclo Manzano

 

Já incluímos em posts anteriores, obras deste autor, como sejam, Alegoria das Ninfas, nos Jardins das Burgas e A Venus do Minho, nas "Pozas" e Termas da A Chavasqueira bem assim o Monolito à entrada do passeio "Itinerário Ambiental do rio Ninho".

 

No Hospital de Santa Maria Nai (Mãe):

 

(Maternidade)

 

Na Praça de Santo António:

 

(Lembranza feminina)

 

No Parque Minho:

 

(Figura abstracta)

 

E, no Parque Barbaña, em colaboração com Xaime Quessada:

 

(Fauno e sereia)

 

Na rua do Paseo:

 

(Maternidade)

 

 

3.4.- Arturo Baltar

 

No Parque Minho:

 

(Sereia aleitando um filho)

 

3.5.- Manolo Buciños

 

Na Praça do Correxidor:

 

(Otero Pedrayo)

 

 

Na Praça das Mercedes:

 

(Manuel Rei de Viana)

 

Na rua da Imprenta:

 

(Castelao)

 

Na rua Barreira, cruzamento com Bailén:

 

(Homenagem a Alexandre Boveda)

 

No adro na Igreja de Santiago das Caldas:

 

(Busto de Xesús Pousa)

 

No adro da Igreja de Fátima, no Couto:

 

(Busto de Xosé Álvarez)

 

Na Praça Peñafiel, Reza Vella:

 

(Gaiteiro)

 

3.6.- Xosé Cid

 

Na Praça Leiras Pulpeiro, na Mariñamansal:

 

(Exaltação)

 

Na rua Pablo Iglésias, perto do Conservatório:

 

(Parella)

Em Reza, Campo da Festa:

 

(Gaiteiro Luís Padrón Sotelo)

Na Praça Alférez Provisional:

 

 

(São Rosendo)

 

Na rua abaixo do Auditório de Ourense:

 

(Mulher)

 

No Parque Minho:

 

(Homem)

 

Na Avenida de Santiago, bifurcação com Rei Soto, antiga estrada de Santiago:

 

(Os caminhantes)

 

Na Rotunda "As Lagoas":

 

(O afiador)

 

Na rua Curros Enríquez:

 

(A castanheira)

 

Nos Jardins Bispo Cesáreo:

 

(Blanco Amor)

 

3.7.- Ramón Conde

 

Já em anterior post mostrámos o busto de Xesús Ferro Couselo feito por este escultor.

 

Na Av. Pablo Iglésias:

 

(Busto de Pablo Iglésias)

 

No Parque Minho:

 

(Homem em pé)

Na rua do Paseo:

 

(Leiteira)

 

Na rua Curros Enríquez:

 

(Rally Ourense)

 

No cruzamento das ruas Ramón Cabanillas e Ramón del Valle-Inclán:

 

(Ramón Cabanillas e Ramón Valle-Inclán)

 

 

3.8.- Luis Borrajo

 

Em C.E. Ferreiro, Casa da Juventude:

 

(Para estra jovem)

No Parque Minho:

 

 

(Escultura abstracta)

 

Nos Jardins das Burgas:

 

(A casa de Nube)

 

Na Alameda do Concello:

 

(Mulher despida)

 

3.9.- César Prada

 

No Progreso-Vilar, Praça do Posío:

 

(Busto do médico Luís Gallego)

 

Na Rotunda S. de Madariaga/Fonte do Bispo, em colaboração com alunos:

 

(A familia)

3.10.- Fernando Garcia Blanco

 

Nos Jardins D. Bosco:

 

(D. Bosco)

 

3.11.- José Manuel Pateiro

 

No Jardim Ponte do Milenio, margem direita:

 

 

(Piramo e Tisbe - Amor de Juventude)

 

3.12.- Xosé Antón Ferrer

 

Na Rotunda de Pardo Bazán:

 

(A mulher com a bola do mundo)

 

3.13.- Luis González Xesta

 

 Na Rotunda do Pavilhão dos Desportos:

 

(Fonte quente)

 

3.14.- Xosé Lois Carrera

 

Na Rotunda da Ponte Milenio, margem esquerda:

 

(Nexus VI)

 

3.15.- Um português – Manuel Patinha

 

Na rua dos Remédios:

 

(Caminhante)

 

3.16.- Dois autores da primeira metade do século XX

 

3.16.1.- Manuel Pascual (1907)

 

No Jardim do Posío, no monumento a Vicente Lamas Carvajal, o busto é deste autor, o restante, em granito, é de Faílde (1949).

 

(Vicente Lamas Carvajal)

 

3.16.2.- Francisco Assorey

 

No Jardim do Posío:

 

(Prado Lameiro)

 

 

Em Pedrafita existe um bloco de pedra do Beiro, com uma inscrição em bronze de Assurey:

 

(Monumento a Florentino L. Cuevillas)

Na Praça de são Lázaro:

 

(Anjo - Monumento às vítimas da guerra)

 

3.17.- Dois autores do século XIX

 

3.17.1.- Juan Soler y Dalmau (1887)

 

Nos Jardim Padre Feijoo:

 

(Padre Feijoo)

 

3.17.- Aniceto Mariñas Garcia (1898)

 

Na Praça do Palácio da Justiça:

 

(Concepción Arenal)

 

3.18.- Outras esculturas

 

Para a listagem destas obras temos vindo a seguir os seguintes trabalhos:

  • Evocaciones en piedra y bronce. Escultura publica en Ourense”, de María de las Mercedes Gallego Esperanza, editado pela Deputación, em 1993;
  • o folheto “Roteiro das esculturas urbanas de Ourense”, do Concello de Ourense, 2002;
  • e o “Catálogo de escultura urbana publica existente no Concello de Ourense, em Janeiro de 2010", de Manolo Domínguez, de Canedo-Ourense, no seu sítio www.canedo.eu.

De acordo com este autor, existem ainda três obras ainda não referidas aqui, a saber:

 

(Busto de Basílio Álvarez)

 

 

Trata-se de uma obra de autor desconhecido, sita no Beiro;

 

(Homenagem a Florentino L. Cuevillas)

 

É um penedo furado, sito na Alameda do Concello, trazido dos Chãos de Amoeiro.

 

(Gaiteiro)

 

O autor deste gaiteiro é desconhecido. Está no Castro de Beiro, frente à Igreja.

 

3.19.- Esculturas recentes na cidade de Ourense

 

São três as mais recentes obras de arte expostas na cidade de Ourense. Duas delas muito perto uma da outra, engrandecendo e embelezando a Ponte Milenio, que lhe está próxima.

 

Aqui temos uma:

 

(Árvores em súplica - título provisório, à espera do seu verdadeiro)

 

E mais outra:

 

(Cruzamento de caminhos - chamar-lhe-ia eu, à espera do seu nome autêntico)

 

Uma outra terceira, na Rotunda que dá acesso, creio, à rua Marcelo Morais y García:

 

(Olivo implorante - digo eu)

 

Não sei o nome de cada uma deles. Espero em breve elucidar os caros leitores, à falta de melhor, vai o que elas me sugerem de momento.

 

Ainda nas minhas deambulações ourensanos, detectei mais três. Elas aqui ficam:

 

Na Alameda da Ponte. É mais para além da aparência de um tanque:

 

(Setas de água apontadas ao céu - não?)

 

No C.E.E.I.P Curros Enríquez:

 

(Homenagem a Curros Enríquez)

 

Creio que, na fachada ao lado da fachada principal do Instituto IES Otero Pedrayo, também a seguinte placa, invocando um grande ourensano:

 

Placa indicativa da casa onde viveu e trabalhou Arturo Nogueirol Buján)

 

Nos finais de Janeiro de 2011, na Praça Saco e Arce, foi inaugurada uma escultura do artista Manuel Penin:

 

 

Trata-se, com esta obra, que teve o apoio do Concello de Ourense, de homenagear Obdulia Díaz (e sua filha Lola Nóvoa). Obdulia, ourensana de gema, consagrou, durante quarenta anos, toda a sua vida, a criar crianças sem recursos, e, de um modo especial, os filhos da “mulheres da vida”, que exerciam a prostituição nos locais do centro histórico de Ourense.

 

Deixo aqui o testemunho do próprio artista Manuel Penin, proferido no próprio dia da inauguração e homenagem a esta benemérita daqueles tempos, num tempo, como o de hoje, que tanto se fala em solidariedade:

Eu vivi aquela história em primeira mão, porque tinha um amigo que se criou com ela. Como estudei nas Irmãs Villar e em Otero Pedrayo via diariamente o que faziam. Foi uma mulher admirável, aliás como a sua filha, que tinha um só objectivo – criar aquelas crianças, vê-las crescer e dar-lhes uma educação. Ainda a recordo, acompanhada de suas crianças, e demais pessoas, descendo, todos os dias, até Às Burgas, para lavar. A peça, que hoje inauguramos, rememora aquela tábua de lavar” (La Voz de Galicia, 2011/01/29). E criou mais de duzentas crianças!...

 

Este post foi mais um exercício de um andarilho à procura de andanhos. No fundo, tentando descobrir a verdadeira alma de uma cidade, como é que ela pulsa e quais os seus valores. A toponímia e a escultura (arte) urbana apresentam-nos, sem dúvida, os símbolos de uma terra; indicam-nos onde reside a sua própria identidade; como se constrói a sua própria auto-estima.

 

É no conhecimento dos seus símbolos, no encontrar os seus valores, que Ourense me encanta. Não tanto pela sua monumentalidade: pelo apego ao seu terrunho, à sua história, aos seus.

 

No último post que irei apresentar sobre Ourense abordarei um dos aspectos desta terra que o percurso pela sua estatuária e o conhecimento da sua toponímia me despertou.

 

Olho para a minha terra, tão perto, mas, simultaneamente, tão longe de Ourense, e interrogo-me: qual o sentido que demos à nossa história comum? O que construímos com ela? O que dela aproveitamos? Que fizemos com as afinidades territóriais, sociais e culturais, enfim, das relações de vizinhança? O que queremos construir numa Ibéria de estados, no contexto de uma Europa que, queremos, que seja solidária, e dos povos, das nações?

 

Temos ainda uma grande lição a aprender e um logo caminho a percorrer...


publicado por andanhos às 19:08
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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.1.4)

 

 

 

G.- Ourense – Capital termal da Galiza

 

Enquanto compilava apontamentos sobre a cidade de Ourense, por forma a elaborar a presente reportagem, neste Destaque, fui-me dando conta que havia muita coisa que desconhecia desta antiga, culta (cheia de “chispa”) e bonita cidade.

 

Particularmente estava interessado em ver e aprofundar melhor:

  • o seu centro histórico, as suas ruas mais antigas, profundas, cheias de história;
  • as três ruas, e respectivas perpendiculares, que abriram a cidade, retirando-a do casco medieval: Santo Domingo, Progreso e Paseo, zonas nobres de comércio e onde se concentram a maior parte dos afamados exemplares de arquitectura modernista;
  • as suas zonas verdes, em especial aa áreas termais ao longo das margens do rio Minho.

Por isso, um dia – 29 de Março do corrente ano -, sob um céu lindo de sol, de mochila às costas, munida de literatura adequado para o efeito, de um mapa da cidade, da minha inseparável Nikon D200 e de alguns líquidos e mantimentos sólidos, sozinho, pus-me a caminho, embrenhando-me pelas ruas da urbe.

 

Meu destino inicial era a Livraria Torga, (como os galegos ourensanos são carinhosos para com os nossos escritores!), mesmo em pleno centro histórico, onde queria munir-me de uma obra que fala detalhadamente sobre a História de Ourense, de José Somoza Medina, que me foi indicada pelo amigo Luís, ourensano de gema, editada pela Duen de Bux.

 

Mas dei com o nariz na porta. 29 de Março de 2012 foi dia de Greve Geral (Folga Geral) em toda a Espanha. E a Livraria Torga, fazendo jus aos seus pergaminhos de esquerda, não abriu nesse dia.

 

Nem tão pouco o comboio turístico que, partindo da Praça Maior, nos faz todo o percurso pedonal do Itinerário Ambiental do rio Minho, pela sua margem esquerda, estava em funcionamento.

 

Desta feita, ultrapassada a rua do Progreso e transposta a Ponte Maior, penetrei no bairro de A Ponte.

 

Na Estação de Caminho de Ferro de Ourense-Empalme tomei o pequeno-almoço e, daqui, desci até junto das pontes Ribeiriño e Milenio, disposto a efectuar, a pé, aquele percurso ambiental até às burgas de Outariz e Canedo.

 

1.- As águas termais de Ourense


Enquanto tomava o pequeno almoço, fui abrindo a mochila, e, de uma das suas bolsas, peguei em dois pequenos livrinhos: “Roteiros da Água – Balneários do Eixo Atlântico”, de Francisco J. Gil, de 2008, Edições Nigra Trea, SL e “Ourense – Vive y Descubre”, da Editorail Everest.

 

De dentro daquelas páginas fui (re)assimilando que o principal apelativo de Ourense é o de Cidade das Burgas, o que se deve às três fontes hipertermias que se encontram em pleno coração do seu núcleo histórico.

 

(Alegoria das Ninfas - escultura de Acisclo Manzano)

 

“As Burgas são o coração e o pulso íntimo da terra que brota em solo milenário, de uma urbe que procurou nas águas a sua razão de ser”, assim diz o manual do Everest.

 

Já no século XIX, Antonio Casares Rodrigo, que foi reitor da Universidade de Santiago de Compostela, e um dos pioneiros na catalogação e análise das águas minerais da Galiza, tinha dito que, se se juntassem todas as torrentes das fontes termais da cidade de Ourense, formariam um rio mais caudaloso que o Manzanares.

 

E não foi por acaso que os suevos, que aqui tiveram a capital do seu reino, chamavam a esta cidade Warmsee (o lago quente), nome do que, talvez, e como já disse num outro post, derive o actual topónimo Ourense.

 

As águas termais de Ourense são alcalinas, bicarbonatadas-sódicas, fluoradas, silicatadas e clorado-sódicas.

Em 2007, Ourense foi declarada, pelo governo galego, capital termal da Galiza.

 

Logo a seguir à cidade de Budapeste, Ourense é a segunda cidade europeia em riqueza termal.

 

Na actualidade, as águas das burgas do seu centro servem para converter, em piscina aquecida, a que existe no Pavilhão dos Remédios, entre as pontes Vella e Milenio.

 

Além das fontes das Burgas, em Ourense há notícia do uso, pelo menos, de quatro instalações de balneoterapia e um importante número de fontes nas margens do rio Minho.

 

Quanto às instalações de balneoterapia. Aqueles quatro estabelecimentos encontram-se agora abandonados. Dois deles estavam nas imediações das Burgas: a Casa de Banhos, muito perto do Mercado Municipal, que se nutria dos três mananciais, que lhe forneciam água a 47º C, com características similares às das Burgas. A segunda instalação eram os Banhos de Outeiro, ao pé da antiga prisão. As outras duas instalações, de modestas pretensões, encontravam-se em Mende e em Santiago das Caldas.

 

As burgas ao longo do rio Minho, agora integradas no Itinerário Ambiental do Rio Minho, ao contrário da deterioração e desleixo que provocaram a desaparição das instalações termais acima referidas, nestes últimos anos, têm sido objecto de recuperação.

 

As instalações termais (burgas, poças, pias, piscinas) ao ar livre, ao longo do passeio do Itinerário Ambiental do Rio Minho são gratuitas.

 

A Chavasqueira e Outariz  também têm instalações privadas, oferecendo piscinas interiores e ao ar livre, assim como serviço de cafeteria. São um complexo termal para o disfrute e a saúde, com sauna e massagens, e num contexto que pretende causar o menos impacto possível nas margens do rio. Definem-se em termos de um conceito típico de inspiração japonesa, portanto oriental, de íntima relação entre a água, a pedra e a energia, num jogo com a música do rio e ar (natureza). Os preços que se cobram são relativamente acessíveis.

 

2.- Percurso Pedonal do Itinerário Ambiental do Rio Minho


Partindo do Parque da Ribeira de Canedo, logo à saída da Ponte Vella, o percurso tem, sensivelmente, seis quilómetros (três para lá e três para cá). Foi exactamente o que fiz.

 

(Passando debaixo da Ponte Milenio)

 

Um pouco logo à saída da Ponte Ribeiriño, aparece-nos esta bela escultura, em ferro, de Acisclo Manzano:

 

 

2.1.- Pozas e Termas de A Chavasqueira


A A Chavasqueira, também chamada Fonte do Bispo, possui águas alcalinas, de mineralização média, fluoradas, litínicas, bicarbonatadas-sódicas e sulfurosas.

 

 

As primeiras instalações foram construídas à custa do cardeal Quevedo, quando era bispo de Ourense, recebendo, desta forma, esse nome. Hoje são conhecidas popularmente como d’A Chavasqueira.

 

 

São recomendadas para artrites e infecções respiratórias. Emergem a 64º C pelo que é preciso arrefecê-las para os banhos.

 

 

As instalações privadas oferecem serviços todo o ano, em horário que vai desde a nove e meia da manhã até às onze e meia da noite. Às sextas, sábados e vésperas de feriados estão abertas até às três da manhã. Convém sempre confirmar estes horários.

 

 

Aqui na A Chavasqueira, e banhando-se no rio, uma outra escultura de Acisclo Manzano - A Vénus do Minho:

 

 

A 500 metros de A Chavasqueira, aparece-nos o

 

2.2.- Manancial de O Tinteiro


Tem escasso caudal.

 

 

As cheias do rio marginaram este manancial que, apesar de tudo, tem muitos defensores pelas suas qualidades na cura de problemas relacionados com a pele e as vias respiratórias.

 

(Corvos marinhos no rio Minho)

 

Emergem a 43ºC.

 

 

A fonte do Tinteiro possui a infra-estrutura que a fotografia mostra.

 

(Entrada na área do manancial)
(Infra-estrutura)

 

Sensivelmente a dois quilómetros de O Tinteiro, aparece-nos

 

2.3.- Pozas do Moiño da Veiga


O passeio ao longo da margem do rio leva-nos até Moinho da Veiga, na freguesia de Quintela de Canedo.

 

(Margem do rio Minho)
(Uma bonita pega empoleirada)

 

Esta águas possuem uma temperatura que oscila entre os 65 e os 72º C.

 

(Perspectiva geral das "pozas" do Moiño da Veiga)
(O moinho)
(Uma outra perspectiva do moinho)

 

O seu generoso manancial, com um caudal de 20 litros por segundo, permite encher uma grande piscina a cujo uso é possível, graças a que é arrefecida previamente para os banhistas poderem realizar, assim, os seus banhos terapêuticos, ou simplesmente lúdicos.

 

2.4.- Pozas e Termas de Outariz


A mais recente área termal está formada pelas fontes de Outariz, com quatro piscinas muito semelhantes às de A Chavasqueira.

 

(Em direcção a Outariz)
(Termas de Outariz)

 

Estas águas são bicarbonatadas-sódicas, fluoradas, litínicas e sulfurosas, de mineralização débil, com uma temperatura de emergência de 60ºC.

 

(Perspectiva da "pozas" de Outariz)
(Uma outra perspectiva das "pozas" de Outariz)

 

Tem um caudal que, se somarmos todas as nascentes, supera os 30 litros por segundo.

 

2.5.- Burga de Canedo


Está mesmo colada a Outariz, quase sob a “passarela” de Outariz.

 

(De Outariz a Canedo - muito perto)
(Burga de Canedo - placard de informação)
(Perspectiva da Burga de Canedo)
( A "passarela" de Outariz que faz ligação à margem direita do rio Minho)
(Mais uma pega, de entre muitas, na paisagem)

 

Aqui, por esta “passarela”, comunicamos com a margem esquerda do rio Minho, e com o seu respectivo passeio pedonal, que nos leva até à

 

2.6.- Fonte de Reza


Fonte de Reza, na paróquia com o mesmo nome, fica mesmo em frente ao Manancial de O Tinteiro.

 

O seu manancial também é conhecido como Fonte Santa.

 

É também de utilização pública e gratuita.

 

A partir daqui, o Passeio das Ninfas, paralelo ao rio, vai  até ao Poço Maimón, onde existe um parque, restaurante e uma paragem de autocarros. [Vale a pena perder escassos dois ou três minutos e inteirarmo-nos do conteúdo da lenda de Ana Manana e do Poço Maimón: cheia de filosofia de vida!].

 

3.- Parque Miño


De regresso à cidade, depois de passar no Parque da Ribeira de Canedo,

 

(Uma perspectiva do Parque da Ribeira do Canedo)
(A Ponte Vella vista do Parque da Ribeira do Canedo)

 

e atravessar a “passarela” que nos transporta ao Centro comercial Ponte Vella, desci ao Parque Miño.

 

Aqui ficam algumas vistas do Parque:

 

(Entrada do Parque do lado da Estrada 525 - Ourense-Santiago)
(Um de dois pombais sitos no Parque)
(A Ponte Nova vista do Parque)
(Uma perspectiva do Parque)
(Uma outra perspectiva - do lado esquerdo, duas esculturas)

 

As esculturas que nele proliferam, levou-me a pensar na importância e no papel do nome das ruas, da estatuária e das esculturas urbanas como forma de conhecimento da história de uma cidade e da afirmação da sua identidade.

 

Será este, pois, o tema do próximo post.


publicado por andanhos às 02:13
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Sábado, 21 de Abril de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.1.3)

 

F.- Aproximação ao desenvolvimento urbano da cidade de Ourense

     (da Idade Média aos nossos dias)

 

1.- A Cidade Medieval – Da obscuridade altomedieval ao renascer da cidade

 

Na idade média, Ourense converteu-se numa importante encruzilhada de caminhos do sul da Galiza e na confluência de entradas de Castela para o interior e para Portugal.

 

Por Ourense passavam dois importantes Caminhos de Santiago: um, de Castela, entrava na província pelas Portillas de Padornelo e da Canda; o outro, vinha de Portugal, por Bande e Celanova.

 

Já tivemos oportunidade de referir que foi o bispo Diego Velasco (1100-1132) que, aproveitando-se das rixas entre as filhas de Afonso VI, Teresa e Urraca, obteve, em 1122, de D. Teresa de Portugal, a jurisdição sobre a cidade, para ele e seus sucessores. Com ele, efectivamente, Ourense recupera e consolida-se.

 

O século XII é a época do esplendor, que se reflecte na construção da Catedral e no Paço Episcopal, convertidos em verdadeiras fortalezas; o alargamento da cidade para norte; a porta norte da Catedral marcará o sentido do caminho principal que daria até à Ponte, principal via de comunicação com o resto da Galiza; outras ruas paralelas nascem, como a Lepanto; Tiendas e Paz, a oeste da Catedral; e as de este, que vão dar à Praça do Ferro, saindo depois pela rua de Santo Domingo (antiga Corredoira e Bairro Novo), em direcção também aos lados da ponte.

 

(Rua de São Domingos)

 

Contudo, a Baixa Idade Média - séculos XIII e XIV -, representará para a cidade de Ourense um período de lutas contínuas e de instabilidade política e social que degenerou, em algumas ocasiões, no assalto e derrube de numerosos edifícios e fortalezas. As principais causas de instabilidade foram: o conflito entre o poder do concelho da cidade, apoiado pela realeza, e o bispo, sobre a jurisdição da mesma, atingindo este conflito grande virulência no já referido incêndio do convento de São Francisco; as lutas fratricidas entre Pedro I e Henrique II para a sucessão à coroa; a invasão da Galiza pelo duque de Lancaster, pretendente à coroa de Castela, e aliado de D. João I de Portugal.

 

2.- Ourense nos séculos XV e XVI – O senhorio episcopal da cidade

 

Durante o século XV o estado de instabilidade continua, se não que até se agudiza mais. São as tensões entre bispo e o Concelho, a que se acrescenta os afrontamentos entre membros de uma certa nobreza e os vizinhos, e destes com o bispo. Destaca-se, neste período, o especial papel e protagonismo da família nobre dos Cadórniga.

 

Em 1467 estala a Revolta Irmandiña, que também afecta a cidade ao serem destruídas algumas torres do Paço Episcopal, juntamente com o castelo Ramiro.

 

Por último, a cidade também foi cenário das lutas senhoriais dos CastroCondes de Lemos – e dos PimenteisCondes de Benavente, senhores de Allariz. Em 1471, o conde de Benavente, na sua pretensão de se tornar senhor da cidade,  enfrenta-se com os de Lemos, que vêm em defesa da cidade, e ataca a fachada norte da Catedral, destruindo a capela de São João e o Paço do Bispo.

 

Por via desta instabilidade, e também da fome, produto de más colheitas e escassez de víveres, de 3. 000 habitantes, que a cidade tinha em meados do século XV, passa para 1. 800, nos seus finais.

 

No século XVI Ourense experimenta um período de florescimento do comércio, especialmente do trafego do vinho e artesanato, também como consequência da paz imposta pelos Reis Católicos.

 

(Ao fundo, lado direito, da alameda do Concellho, o Hospital de S. Roque)

 

A cidade começa a recompor-se e, como diz Ferro Couselo «sopram ventos de prosperidade e desperta-se uma nova febre construtiva». Começam a levantar-se novas casas e edifícios religiosos, e o concelho, ao tomar consciência das suas obrigações para com os cidadãos, preocupa-se também por dotá-los com edifícios auxiliares e de serviços, hoje praticamente todos desaparecidos.

 

(Edifício dos Correios, ocupando o lugar do antigo Hospital de S. Roque)

 

Em termos construtivos passa-se do gótico flamejante ao estilo renascentista e, nesta síntese equilibrada e harmoniosa do estilo gótico e renascimento, aparecem o zimbório da Catedral, a Capela de Santo Cristo, a dos Santos Cosme e Damião, o antigo Hospital de São Roque, a capela dos Remédios, as Torres do relógio da Catedral, o convento de São Francisco, a abóbada e os arcos do Pórtico do Paraíso da Catedral.

 

(Estado actual da Capela da Senhora dos Remédios)
(Capela da Senhora dos Remédios - estado  após o incêndio)

 

De uma época de contracção económica passa-se a outra de investimento. Ampliam-se algumas praças e pavimentam-se várias ruas.  Mas a remodelação profunda da cidade não se verifica.

 

A via principal da cidade é a que desemboca na porta norte da Catedral, caminho que se dirige para o Campo de São Lázaro e para o rio Minho, comunicando  com a cidade com Santiago de Compostela e Monforte de Lemos.

 

(Mosteiro de São Francisco - actualmente em obras)
(Mosteiro de São Francisco)

 

No século XVI chegam ventos de prosperidade. Por via da invasão do duque de Lancaster e a consequente destruição por ela provocada, começa-se a levantar a cidade, perdendo aquele ar mais medieval que tinha.

 

Nesta altura, os nomes das ruas e das praças nascem ligados a actividades económicas, artesanais e gremiais.

 

Infelizmente, muitas das construções desta época desapareceram, quer por serem construídas com materiais de terceira ordem, como palha, barro ou madeira, quer porque foram substituídas – sem respeitarem a tradição -, como ocorreu com a Casa chamada das “Encinas”.

 

A maior parte destas casas localizavam-se nos arredores da Catedral.

 

A Casa dos Armada ou de María Andrea situa-se na Praça do Eirociño dos Caballeiros – hoje Cid. Apresenta um estilo pobre, não sendo reflexo da vida refinada e ostentativa dos seus senhores: as fachadas são singelas, sem ornamentação. O mesmo se passa com a Casa dos Sotelo e dos Deza.

 

(Casa dos Armada ou de María Andrea - Praça do Eirociño dos Caballeros)

 

O Paço de Oca-Valladares, situado na rua Nova – hoje Lemos Carbajal -, é uma das criações mais afortunadas do Renascimento civil ourensano. O canteiro construtor – Antonio Díaz – acabou a obra, em 1584, pela qual cobrou “setenta ducados, catro fanegas de pan de centeo e dous toucinhos” (Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez,  in ob. cit., pág. 58). A fachada apresenta quatro varandas balconadas, assentes sob mísulas, sendo, a da porta principal, rodeada por cinco brasões.

 

(Paço de Oca-Valladares - Sede do Liceo Orensano)

 

O edifício possui um pátio interior, de acordo com as regras renascentistas.

 

(Paço Oca-Valladares - Pátio Interior, rés-do-chão)
(Paço Oca-Valladares - Pátio interior, piso superior)

 

Da Casa dos Cadórniga conserva-se a entrada principal, com um arco conopial, que corresponde ao estilo isabelino do século XV, e um arco de meio ponto de grossas dobras.

 

 

3.- Ourense no século XVII – A conflitualidade social da Baixa Idade Média

 

 

No século XVII a cidade de Ourense experimenta uma profunda transformação com a chegada das Ordens Religiosas – os Jesuítas e os Dominicanos -, os quais, com os seus conventos, deram à cidade uma maior monumentalidade e a fisionomia que manteve até ao século XIX.

 

A partir deste século XVII, o governo da cidade está em mãos de gente possidente e de funcionários públicos de carreira. O pleito de jurisdição da cidade entre o Bispo e o Concello acaba em 1628, mediante um acordo pelo qual se dava ao bispo a Abadia das Águas Santas e ao Cabido o anexo de San Xoan de Vide, bem como a nomeação de secretários e corregedores da cidade.

 

Em suma, os verdadeiros impulsionadores do desenvolvimento urbanístico de Ourense na Idade Moderna foram o Bispado, o Cabido da Catedral, que dispunham de rendas territoriais e jurisdicionais; o Concelho, reafirmando definitivamente a sua luta secular frente ao Bispado, obrigado a facilitar uma série de serviços à população; a nobreza, titulada ou não, possuidora de fortuna mais ou menos importante; os burgueses, os artesãos e os comerciantes.

 

Nos começos deste século, nas Praças do Trigo e do Ferro, erguem-se as Casas-Paço, de Boán e Temes.

 

(Praça do Ferro - Fonte, original, trazida do Mosteiro de Oseira)
(Praça do Ferro - Paço de Boán, em frente)

 

 

4.- Ourense no século XVIII – A calma depois da tormenta

 

No século XVIII continua o crescimento da cidade e a sua renovação.

 

Ergue-se a Igreja de Santa Maria Maior, que pertencia à jurisdição do Cabido. Com a perda de poder do peso político do Cabido, o controlo do culto, nesta igreja, passou para os jesuítas, dominicanos e franciscanos, que fomentavam a piedade mediante confrarias e irmandades nas paróquias, ao ponto de para se constituir confrarias e irmandades, como as do Rosário, da Virgem e do Carmo, o clero tinha que pedir permissão ao convento que se encontrasse mais perto da sua paróquia.

 

Ourense do século XVIII é conhecida através do Cadastro do Marquês de la Ensenada, de 1752, no qual figura uma relação detalhada de casas, famílias e das “riquezas” (fortunas) comuns e particulares. Assim, o referido Cadastro, censa: 854 vizinhos, na cidade; 11, em Cabeza de Vaca; 18, em diversos casarios e casas dispersas. É de destacar a escassez de povoação campesina nos arredores, o que nos indica que a mesma, na sua maior parte, se teria integrado dentro do núcleo da cidade. O número de casas, que parece excessivo, era: 676; 56 térreas, com edifícios em ruínas e mais 16 térreas, desabitadas. A estes números juntam-se mais 396 pessoas ligadas ao sector eclesiástico, incluindo seus familiares e criados. A média por agregado familiar andava por 3,5 elementos, o que, para a época, era baixa, só explicável pelo estado de pobreza em que tinha caído a Galiza, face à guerra de separação com Portugal e as frequentes levas para as Flandres, Itália e Portugal. Eis, pois, um quadro, que nos dá a real dimensão da cidade da altura!

 

O bispo Muñoz de la Cueva, cronista da cidade, empreende reformas no Paço Episcopal. É agora que se configura o estado actual do Paço do Bispo – faz-se a escadaria principal e o jardim e deixa-se uma rua ampla em frente à Casa Consistorial, hoje rua do Bispo Carrascosa.

 

Nos finais do século, o bispo Quevedo e Quintana reforma o antigo Colégio das Mercedes, sito na Pia da Casca – Hoje Praça de las Mercedes -, que tinha sido erguido no século anterior por Frei Baltazar de los Reys.

 

(Colégio das Mercedes - Praça das Mercedes)

 

 

5.- Ourense no século XIX – Da prostração demográfica e económica a caminho do progresso

 

Dois factores importantes e antagónicos marcaram a história de Ourense do século XIX – as pestes e as transformações da fisionomia urbana.

 

Em 1830 sabemos que as colheitas foram abundantes mas escasseou muito o dinheiro e subiu muito o preço do milho, das batatas e do centeio.

 

Na década de quarenta subiram muito as contribuições, a tal ponto que as pessoas não as podiam suportar.

 

No ano de 1850 colheu-se pouco milho e batatas e o pulgão comeu toda a verdura.

 

Em 1852 continuaram as crises. Choveu tanto que não nasceu quase nenhum milho, nem batatas, que apodreceram na terra.

 

Em 1854 o “oidium tucheri” atacou os vinhedos, destruindo todas as vinhas de Ourense.

 

Apareceu neste século também a cólera. Por via da peste, as pessoas acudiam a São Roque, tendo-se-lhe feito uma enorme procissão.

 

Contudo, apesar de estarmos num século de prostração demográfica e económica, nos seus finais, começa uma época de prosperidade, que tem essencialmente a ver com o alastramento da cidade, ditado, na sua grande parte, pelas seguintes infra-estruturas:

 

  • a construção da estrada de Villacastín a Vigo (1860-63);
  • a chegada do caminho de ferro em 1881;
  • a revolução das ideias e a própria posição da cidade que conecta pólos de crescimento existentes. Depois,
  • a cidade abandona a zona sul e estende-se para o norte, paralela ao Minho, através da construção de uma via-estrada (do Progreso), que vai do Posío até à Ponte, marcando o limite da cidade para oeste, ainda que com muitos espaços vazios;
  • abre-se uma rua – a do Paseo – que se estendia desde a rua do Instituto – hoje Lemos Carbajal -, até ao Campo de São Lázaro, lugar onde se fazia a feira mensal;
  • transversalmente, abre-se a rua de Alba, que desce de Santo Domingo para a rua do Progreso.
  • Do outro lado do rio – concelho de Canedo – nasce um centro comercial com tavernas, pousadas e armazéns.
  • Em 1876 abre-se passagem para as carruagens na estrada de Ponferrada, sendo um dos principais promotores o Marquês de Trives.
  • Em 1881 inaugura-se a estação de caminhos de ferro Ourense – Vigo, onde, até finais do século XX, estavam os armazéns Tabarés, facto que se festejou em Ourense durante vários dias.
  • A cidade alastra-se para Polvorín e A Carballeira.
  • Constrói-se o cemitério de São Francisco, devido à proibição de enterrar os mortos dentro das igrejas.

 

É também, e infelizmente, neste século que se procede à rectificação e desaparecimento da toponímia originária. Justificava-se tal facto por razões como “malsonância” ou não estarem de acordo com os gostos da época, mas, sobretudo, por estarem em galego. A primeira destas bárbaras desaparições, fundamentalmente de personalidades galegas, ocorreu em 1850, quando são substituídos por conquistadores e colonizadores espanhóis.

 

 

5.1.- Arquitectura modernista de Ourense

 

Na segunda metade do século XIX, fruto do crescimento urbano e também de uma burguesia, embora minoritária, que aqui se instala, erguem-se numerosos e belos edifícios, de estilo ecléctico, modernista e neogótico, que são verdadeiras jóias e obras de arte, de acordo com o gosto estético daquela época.

 

Por modernismo entende-se o movimento artístico que se desenvolveu em toda a Europa nos finais do século XIX e começos do século XX, definido como o estilo complexo e inovador, próprio da nova burguesia. Também se denominou de “Arte Nova” (Art Nouveau).

 

Em Espanha, talvez o mais original dos seus expoentes foi Antoni Gaudí.

 

Foi sobretudo um estilo decorativo e, como tal, utilizado também, com grande êxito, nos metais, na joelharia, nos vidros e ilustrações de livros.

Na arquitectura destaca-se o emprego dos seguintes materiais: ferro, vidro e madeira.

 

Este estilo ornamental utiliza linhas curvas, decoração vegetal ou formas fantásticas. Com estes elementos criavam-se fachadas ornamentais, monumentais, providas de varandas de ferro; galerias de madeira; vidros de cores; relevos; colunas e mísulas.

 

Entre 1879 e 1900 levantaram-se edifícios civis, casas particulares, casas-sede de Casas de Caridade e de Religiosos. Os artífices destas obras de arte foram sobretudo os arquitectos José Antonio Queralt, Antonio Crespo López, Antonio Seara y Pujol, Daniel Vásquez Gulías, Emílio Meruéndano e Juan de Arriba. Deste grupo, os mais prolíficos e de maior capacidade criativa e artística foram Daniel Vázquez Gulías e José Antonio Queralt.

 

As principais obras, desta nova arte, situam-se na rua de Santo Domingo, da Alba, do Paseo, de Manuel Pereira – hoje Avenida de Pontevedra -, na Praça do Trigo, na rua Paz Nóvoa – hoje Cardenal Quevedo -, na rua do Instituto – hoje Lamas Carbajal -, na Praceta do Correxidor e da Mercedes, na Estrada de Ponferrada, na esquina de ErvedeloProgreso, na Hernán Cortés, destacando-se:

  • o edifício Junquera,
  • o Paço Episcopal,
  • o antigo Banco Simeón, ambos na rua do Progreso;
  • a Casa de Fermín García e
  • a actual Casa Consistorial, na Praça Maior.

 

(Edifício Junquera, virada para a Praça Bispo Cesário, do arquitecto Vásquez Gulías)
(Edifício Junquera - Interior, pormenor)
(Paço Episcopal - Fachada virada para Praça  Bispo Cesário, desenho do arq. Antonio Queralt)
(Fonte - Praça Bispo Cesário, mais outra trazida do Mosteiro de Oseira)
(Paço Episcopal - Fachada virada para a rua do Progreso)
(Antiga Casa Consistorial - Na Praça Maior)
(Antigo Banco Simeón - hoje Casa de Cultura Provincial)
(Rua do Paseo - onde se localizam numerosos edifícios modernistas)
(Teatro Losada - actualmente loja da Zara)
(Antigo Grande Hotel Minho, do arquitecto Vásquez Gulías)
(Antigo Grande Hotel Minho - outra perspectiva)
(Antigo Banco de Espanha - topo frontal)
(Antigo Banco de Espanha - em remodelação[restauro])
(Antigo Banco de Espanha - interior, antigos balcões)
(Antigo Banco de Espanha - Interior, pormenor de um dos tectos)
(Casa Taboada - Praça São Rosendo, do arquitecto Vásquez Gulías)
(Paço Provincial de Ourense)
(Mercado [Praza de Abastos nº 1])
(Café Victoria - Av. Pontevedra, em direcção à Praça Maior)
(Coreto da música - na Alameda do Concelho)

 

Em relação a este período e inícios do século XX, gostaria de realçar três realizações importantes para a cidade de Ourense:

 

a).- A Ponte Nova ou de Ferro

 

Dizem Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez, in ob. cit., página 75, que, das mais de cem pontes inventariadas na província, algumas são exemplares únicos, como é o caso da Ponte Nova ou de Ferro, do concelho de Ourense, sob o rio Minho [Note-se que, até 1943, esta ponte pertencia ao concelho de Canedo].

 

(Ponte Nova)

 

Esta ponte nasce para prolongar a estrada que ia desde o Campo de São Lázaro até à estação de Canedo – linha de caminho de ferro Ourense-Vigo -.

 

(Ponte Nova - perspectiva da estrada de Santiago)

 

Ainda segundo aqueles autores, a inauguração desta importante infra-estrutura ferroviária, foi, no Ourense da época – 20 de Junho de 1918 -, uma festa de paz e fraternidade, num mundo ensanguentado pela Primeira Guerra Mundial.

 

(Ponte Nova - vista nocturna)

 

O projecto foi obra do engenheiro de caminhos de ferro, D. Martín Díaz de la Banda, que dirigiu as obras até 1916, data esta a partir da qual depois se responsabilizou D. Manuel Fernández García. A ponte é um belo estilo modernista. De traço airoso, singelo e com unidade estética.

 

(Ponte Nova - pormenor)

 

Constitui um dos monumentos ourensanos modernos de maior significado e ergueu-se como símbolo do progresso, da expansão, iniciada nos finais do século XIX, a partir da construção do edifício Siméon.

 

Essencialmente encarna uma arte funcional.

 

E tal foi o impacto, na altura, que esta ponte teve, que, Ourense, a cidade das Burgas, também se passou a chamar a cidade das Pontes. Para além do impacto, esta obra, veio dar aos ourensanos mais carácter e orgulho, um selo inconfundível. Uma espécie de contraponto entre a cidade antiga (das Burgas) e a cidade moderna (da Ponte Nova). Loárona, Risco, Cuevillas e Luís Trabazo diziam: «A Ponte Nova é obra modernista, de pedra e ferro, obra preciosa e elegante, com amplos pilares de bela curvatura modernista e o seu arco central estendido como uma “ballesta” sobre as águas “cantariñas” do rio Minho».

 

E, os autores que vimos seguindo, rematam: «na ponte tudo é harmonia, proporção, ordem e medida, destacando-se os trabalhos de cantaria, os relevos, os escudos heráldicos e a beleza harmónica dos elementos ornamentais e decorativos».

 

b). - O Instituto do Posío

 

Os centros culturais docentes de Ourense do século XIX foram o Seminário Conciliar e o Centro Provincial de Instrução.

 

Em 1840 iniciam-se trâmites para a criação de um Instituto de 2º grau de Ensino em Ourense por parte da Comissão Provincial de Instrução Pública.

 

 

Este estabelecimento de ensino contou com um grande número de alunos.

 

Depois de várias vicissitudes entre a Junta Provincial de Instrução e o Seminário Conciliar, no ano de 1860-1861, a Deputação acabou por adquirir, à beira do Campo ou Horto do Posío, um terreno para a construção do edifício, capaz de albergar o Instituto, a Escola Normal e “outras dependências do centro”.

 

Entre 1879 e 1898, incorporam-se ao Instituto os Colégios privados da província, como sejam, os Escolapios, Pauis dos Milagres, Colégio de São Luís Gonzaga e Colégio de Nossa Senhora do Carmo de Trives.

 

Só no curso de 1896-1897 é que o Centro Provincial de Instrução começa o seu funcionamento normal, constituindo um dos melhores edifícios que havia em Espanha dedicado ao ensino.

 

(Edifício IES Otero Pedrayo ou Instituto do Posío)

 

Por Ordem Real de 1900, o Centro Provincial de Instrução de Ourense converte-se em Instituto Geral Técnico, começando uma nova etapa para o seu centro docente, incorporando, assim, a Escola de Mestria Industrial, os estudos da suprimida Escola de Mestres da província, os de Arquitectura, Belas Artes, Comércio e ensino nocturno para os trabalhadores.

 

Foi graças ao bom trabalho que esta instituição desenvolveu que se acabaram as “quezílias” e as “arremetidas” da Igreja (Seminário) contra o ensino público.

 

Hoje o Instituto do Posio tem o nome do grande galego ourensano Ramón Otero Pedrayo – IES Otero Pedrayo.

 

Segundo me diz o meu bom amigo Luís, ourensano de gema, no Instituto do Posio esteve instalado o Museu Arqueológico e a Biblioteca Pública, a qual, na noite de 7 para 8 de Dezembro de 1927, teve um incêndio que a destruiu. Era considerada a terceira biblioteca galega. A actual biblioteca do Instituto guarda parte dos volumes que compunham a biblioteca do Mosteiro de Oseira e que se salvaram do dito incêndio de 1927.

 

É de referir o restauro do seu “Paraninfo”, iniciado em 2006 e inaugurado em 2008. É uma autêntica jóia civil, de estilo neoclássico, em transição para o modernismo, e um dos poucos existentes em Espanha. Na sua inauguração, o então Presidente da Junta, Emílio Pérez Touriño, recordou que, naquele edifício, nasceu a “Geração Nós”. E foi o centro de ilustração e da intelectualidade galega com professores como Julián Besteiro, Ramón Otero Pedrayo, Jesús Soria, Vicente Risco, Carlos Casares e José Angel Valente, entre outros. O “Paraninfo” foi, infelizmente, também palco dos juízos sumaríssimos, dos conselhos de guerra, durante a guerra civil e os primeiros anos do pós-guerra. Tem capacidade para 160 pessoas sentadas. Para além de “salão de actos” é também hoje um lugar de actividades culturais e educativas, não só para os seus estudantes mas também para a população em geral, sendo, desta feita, um autêntico centro cultural da província. Todas as quintas-feiras, excepto nos meses de julho e agosto, organizam-se os concertos "Sin Batuta", de música de câmara.

 

(Paraninfo restaurado)


 c).- O Jardim Botânico

 

O Posío primitivamente era um campo que, no século XVIII, se ampliou mediante a compra de terrenos. Ali se levantou uma ermida dedicada à Virgem, sob a designação Nossa Senhora do Posío e que, segundo testemunhos, já existia em 1438.

 

Aquele campo, nos começos do século XIX, estava num estado calamitoso e a ermida em ruína, ao ponto de, tais as tropelias ali cometidas, o concelho perguntava ao Abade da Trinidade, ali vizinho, o que tinha sido feito da venda da madeira e o que aconteceu aos retábulos da ermida. Segundo documentos, a tal ermida já não existia em 1844. A imagem de pedra, que presidia à ermida, passou para a igreja da Trinidade e, em 1926, foi colocada num nicho à entrada dos jardins das Burgas.

 

O Posío, até que se converteu em Jardim Botânico no século XIX, foi um terreno arborizado, já fora dos limites da cidade. E esta transformação só foi possível graças à ajuda da cadeira (disciplina) de Física, Química e História Natural do Instituto do 2º Grau de Ensino de Ourense, no curso de 1846-1847.

 

A 18 de Março de 1855 acordou-se formar uma nova alameda no Campo do Posío para ali se estabelecer um Jardim Botânico que ajudasse os alunos do Centro Provincial de Instrução.

 

(Jardim do Posío - avenida)

 

O Jardim Botânico estava constituído por cinco pentágonos irregulares, oito semicirculares e quatro triângulos, com os correspondentes passeios intermédios, restando um outro triângulo para depósito de estercos e vários usos. No centro um templete de três corpos com base octogonal.

 

(Jardim do Posío - fonte)

 

Nas entradas dos passeios há um arco de ferro e dezanove de madeira revestidos por plantas trepadeiras.

 

O Jardim Botânico, hoje um verdadeiro parque urbano, é tratado com muito “mimo”.

 

 

6.- Ourense do século XX aos nossos dias – À procura de um lugar num mundo global

 

Em 1943, o concelho de Canedo, um bairro populoso e comercial, integra-se na cidade de Ourense.

 

A partir da década de 60 e 70 do século passado, mercê, essencialmente, do contributo da emigração do centro da Europa, assiste-se a um “boom” construtivo na cidade.

 

O alargamento urbanístico de Ourense verifica-se ao longo dos vales dos três rios que banham a cidade – Miño, Barbaña  e Loña -, bem assim nas faldas de Montealegre e ao redor da Estação de Empalme, da nova linha de caminho de ferro Ourense-Zamora, inaugurada em 1957.

 

Começam, assim, a nascer os seguintes bairros:

 

  • à volta da nova estação e da linha de caminho de ferro Ourense-Zamora – o bairro das Lagoas;
  • a oeste da cidade, ultrapassando o rio Barbaña e as vias de circunvalação – o bairro do Couto;
  • a sul da cidade, prolongando-se até Mariñamansa – os bairros da Cuña, Santo Cristo, Palácio dos Desportos, etc., invadindo, inclusive, concelhos vizinhos, como o de San Ciprián das Viñas, onde está situado o Polígono Industrial e o Parque Tecnológico da Galiza;
  • a este da cidade, subindo até Montealegre – pelo bairro de São Francisco, ultrapassando a linha de caminho de ferro.

 

(Estação de Empalme - Canedo[edifício parecido a um paço galego])
(Máquina em exposição em frente à estação de Empalme)

 

Todos estes bairros dotaram-se dos mais diversos serviços públicos, desde estabelecimentos de ensino, serviços de saúde, paróquia, etc.

 

(Rio e Bairro Barbaña)

 

Face a esta circunstância, se bem que já na década de 60 e 70 os POM’s (Planos de Ordenamento Municipal) se faziam sentir como uma necessidade premente, hoje em dia, é um instrumento de gestão urbana fundamental da cidade. Daí tanta polémica à sua volta.

 

Para além do alargamento da cidade com novos bairros, novas vias de comunicação surgem:

 

  • a estrada de Ponferrada e
  • a autovia das Rias Baixas, envolvendo a cidade e marcando novos limites e novos horizontes ao seu desenvolvimento.

 

Este inusitado crescimento urbano veio exigir o estender de novas pontes, todas, à excepção da do Milenio, no século XX:

 

  • a já falada Ponte Nova ou Ponte de Ferro (1918), para ligação à estação de caminho de ferro de Canedo (Ourense-Vigo), aliviando o excesso de circulação na Ponte Vella (romana);
  • o Viaduto de Caminho de Ferro, de elegantes e airosas linhas;
  • a Ponte do Ribeiriño;
  • a Ponte de Velle, que une a circunvalação da cidade;
  • a da presa de Velle e, já neste século,
  • a Ponte Milenio.

 

(No primeiro plano, lado direito, Viaduto de Caminho de Ferro; ao fundo, estação de Empalme)
(Vista aérea das pontes de Ourense no núcleo urbano)
(Ponte Milenio vista da Ponte Velha ou Maior)
(Ponte Milenio - aproximação)
(Ponte Milenio - efeito de luzes)

 

Na entrada para o século XXI as preocupações da cidade de Ourense, e dos seus responsáveis, tem, essencialmente, a ver com as seguintes questões:

 

  • Dotá-la com um POM (Plano de Ordenamento Municipal) eficaz por forma a bem gerir uma cidade que, de 120 mil habitante, quer chegar aos 150 mil;
  • Voltar a cidade a um convívio mais profundo e harmonioso com as zonas ribeirinhas do rio Miño, que nela passa, e dos outros dois, que ali desaguam, dotando-as com áreas verdes e equipamentos para usufruto da população, qualificando e vitalizando espaços que estavam degradados;
  • Melhoramento das zonas termais;
  • Preservação e (re)qualificação da sua malha urbana tradicional, cuidando da preservação da memória histórica, de que alguns edifícios são representativos, e emblemáticos, no centro histórico;
  • Consolidação da Cidade da Cultura no conjunto de São Francisco;
  • Candidatura (eventual) da cidade de Ourense a Capital Europeia da Cultura em 2020;
  • Articulação de todos os transportes da cidade (perspectiva intermodal), preparando a cidade para receber o comboio de alta velocidade (AVE);
  • Criação (e consolidação) de um verdadeiro pulmão verde para a cidade (Botânico de Montealegre);
  • Consolidação, em termos globais, da bacia do agro-alimentar e da moda.
(São Francisco - recuperação do antigo Mosteiro, a integrar p complexo para a cidade da cultura)
(São Francisco área moderna da cidade da cultura)

 

Para além daqueles que temos vindo a referir nesta rubrica, mostram-se alguns edifícios representativos de Ourense, emblemáticos, do seu centro histórico, e que, de alguma forma, são a sua memória, fundamentalmente os de feição modernista.

 

No próximo post iremos abordar as zonas ribeirinhas de Ourense, em especial as suas zonas termais.

 


publicado por andanhos às 22:55
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