Sábado, 17 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.1.2)

 

4.- Outras Igrejas e Capelas

 

4.1.- Asilo-igreja do Santo Anjo

 

O Asilo-igreja do Santo Anjo – hoje colégio – forma um conjunto construído em estilo neogótico.

 

 

A obra foi projectada e dirigida pelo arquitecto Daniel Vásquez Gulías.

 

 

Na fachada destaca-se o Anjo da Guarda, obra do escultor Daniel Piñeiro.

 

4.2.- Capela do Seminário Menor da Imaculada

 

Expoente da arte religiosa ourensana dos finais do século XIX.

 

 

Aqui domina o neogótico, o classicismo, o historicismo e o eclectismo: uma sinfonia de elementos e formas diacrónicas.

 

 

O projecto é do professor de arquitectura D. Javier Cantón.

 

No adro, 15 estátuas, de estilo italianizante.

 

 

Está situada na Vista Fermosa, logo abaixo do Seminário Maior.

 

4.3.- Igreja de Santiago das Caldas

 

Possui três naves. É de estilo neogótico.

 

(Fachada Principal)

 

O seu arquitecto foi José María Basterra, de Bilbao.

 

(Interior)

 

A obra foi concluída em 1925.

 

4.4.- Igreja de Nossa Senhora de Fátima

 

Está situada no Bairro do Couto, em terrenos doados em 1941 por duas senhoras devotas de Fátima.

 

(Fachada principal)

 

Em 1962 foi esta igreja consagrada por D. Francisco Blanco Nájera, bispo de Ourense.

 

(Adro - pastorinhos de Fátima)

 

 

4.5.- Seminário Maior

 

O Seminário Maior de Ourense, começou a funcionar em Novembro de 1803, no pontificado de D. Pedro Quevedo e Quintano, no edifício do Convento da Companhia de Jesus, entretanto expulsos.

 

Com as invasões francesas, aquelas instalações foram sucessivamente ocupadas pelos militares, como quartel, passando o seminário a funcionar em diversas instalações, desde o Paço Episcopal e o convento de S. Francisco. Até que em Maio de 1952, foi inaugurado novo edifício, na Vista Fermosa, pelo bispo, D. francisco Blanco Nájera.

 

É de linhas austeras, como se pode ver:

 

 

4.6.- Igreja dos Salesianos

 

(Exterior)
(Interior)

 

 

Enumeremos mais alguns edifícios, de carácter religioso:

  • Capela das Irmãs Carmelitas, sita na Praça do Correxidor, do arquitecto – Antonio Crespo Lopes
  • Capela das Irmãs dos Desamparados, sita na Estrada de Ourense a Ponferrada - hoje Avenida de Buenos Aires, do arquitecto – José Antonio Queralt
  • Igreja de Santa Teresinha de Vinteum;
  •  Igreja de Trás Hospital;
  •  Igreja do Sagrado Coração (sita na Carballeira);
  • São Pio X (sita na Mariñamansa);
  •  Igreja de Santa Luzia de Rairo, todas construídas na década de 60 do século passado e do traço do mesmo arquitecto – José Barreiro
  • Igreja de Santa Ana do Pino, construída em 1968
  • Igreja da Cruz Alta, construída na década de 70 no século passado
  • Igreja da Vista Fermosa e
  • Igreja do Cristo Rei de Lagoas, construídas na década de 80 do século passado, pelo traço dos arquitectos Chao e Garayzabal.

 

5.- Capela de São Cosme e Damião (“Belén" de Arturo Baltar ou "Belén" de Ourense)

 

Na década de 90 do século passado tive, pela primeira vez, e pela mão do então alcaide de Ourense, o privilégio de conhecer, na capela de São Cosme e Damião, o Presépio (ou Belén, como se diz pela Galiza) do escultor ourensano Arturo Baltar. Fiquei fascinado por aquela obra e pelo mundo que a mesma representava. Por isso, hoje, ao se falar dos valores artísticos e monumentais de Ourense, não resisto a vos apresentar o Presépio de Arturo Baltar, também conhecido por Belén de Ourense.

 

Na altura foi-me oferecido o livro “Belén de Baltar, Belén de Ourense – Capela de San Cosme e San Damian”, Concello de Ourense, 1992, o qual aqui nos vai servir de guia.

 

 

Assim, no livro cuja capa vos mostramos, pode ler-se, na apresentação que o então alcaide de Ourense, Manuel Veiga Pombo, fazia, o seguinte: «No ano de 1980, o concelho reabilitou a velha capela dos santos Cosme e Damião, fundada e doada à cidade, no século XVI, pelo cirurgião Xoan de Lares e sua mulher, Tareixa García de Nogueira, situada na praça que hoje leva o seu nome,

 

 

(…) para instalar o Belén de Baltar, considerando as especiais características do mesmo, sendo inaugurado, uma vez reconstruída a capela, pelo alcaide de Ourense, D. Xosé Luís López Iglésias, no ano de 1982».

 

(Parte Parcial da Fachada)

 

O edifício é de pequenas proporções, que mantem a sua unidade dentro de esquemas platerescos. Destaca-se a porta de acesso, ampla e em arco, tendo, no cimo da mesma, esculturas, em alto relevo, com as figuras dos santos patronos dos médicos, em atitude de recolherem a poção que lhe traz um anjo.

 

 

Dos lados laterais, uma escultura de cada lado, vestidos à época, e podem estar a representar doentes.

 

 

E continua, na sua apresentação Veiga Pombo: «O Belén, obra do escultor ourensano Arturo Baltar, compõe-se figuras de barro cozido que mostram as edificações religiosas, militares e civis mais representativas da nossa província, assim como os núcleos urbanos tradicionais da nossa geografia que com oleiros, lagares, fornos de pão, espigueiros e cabaceiros, palheiros, pombais, lavouras agrícolas, tradições populares, personagens populares, do primeiro quarto do século passado, já desaparecidos, mostra-nos um conjunto de tradições e formas de viver próprias do nosso povo, de singular beleza, num cenário singular, como o correr romântico de um rio entre castanheiros, pontes e moinhos, dando vida às cenas quotidianas numa formosa recordação da nossa terra».

 

(Presépio de Baltar - Panorâmica Geral)

 

«O conjunto é adornado com uma série de murais do nosso pintor Xaime Quessada que nos mostra paisagens entre o realismo e o abstraccionismo, num ambiente de castanheiros centenários. As tábuas e o friso são pintadas também por outro dos nossos pintores, Virxilio, com cenas ourensanas da paisagem urbana da nossa cidade».

 

«Baltasar, Quessada e Virxilio, nesta obra, formam uma completa trilogia das belas artes ourensanas contemporâneas (…) O Belén de Baltar, exposto de forma permanente, faz parte da cultura mais tradicional do ocidente desde o século XIII, com a representação feita de imagens com figuras populares, na encenação deste formoso acontecimento que o Natal»

 

(O autor e a sua obra)

 

José Luís López Cid, no prólogo, pergunta: «donde saem estas minúsculas figuras de matéria e da matéria mais elementar – o barro – que nos levam ao mais simples e mais desordenado dos mundos da aparência ou ao mais ordenado mundo dos sonhos (…)?» E depois continua «eliminada a agressão do cinzel e do escopo, os seres de Arturo Baltar nascem das mãos, imediatas, frágeis e carregadas de futuro, como no princípio (…) Estamos ante uma concepção post-moderna e, por sua vez, livremente encerrada numa fidelidade à terra, de onde estas criaturas vêm a nascer, o barro maternal da Galiza, que nunca foi tão amorosamente vivificado».

 

 

Segundo Alvarado Feijoo-Montenegro, em Janeiro de 1990, no jornal “La Region”, dizia: «O Belén de Baltar é algo mais que um presépio, no sentido lato do termo. Pode-se afirmar que constitui a mais fiel e emocionada cenografia do ambiente rural aldeão ourensano, pondo em evidência diversos tipos populares, alias com os quais o escultor partilhou e vivenciou. Para além disso, é antes de mais um museu de antropologia, um estudo acabado de personagens, costumes, ritos, ofícios, misturados com uma sábia eleição paisagística, adornada pela arte pictórica de Virxilio, nos seus painéis laterais e com o fundo imaginativo de Jaime Quessada. É, em suma, uma obra de arte cénica, pelo menos em Galiza; é um presépio elevado à categoria de monumento, de um conjunto escultórico de singular importância».

 

 

Vicente Risco, em Fevereiro de 1962, a propósito do seu grande amigo e da sua obra, dizia: «(…) Baltar modela figuras vivas, que são preferentemente ermitões, penitentes, peregrinos, alquimistas, bruxas, máscaras, seres, sem dúvida, deste mundo mas que procuram o outro, por boas ou más razões. (…) Baltar revive o humor com o mistério, e este é o barro mental que tem na cabeça e que depois leva ao outro barro com as mãos, convertido em massa humanizada, em pequenos volumes de curvas precisas e superfícies esboçadas, com luzes e sombras que lhes dão efeito de uma requintada expressividade».

 

 

Aqui ficam algumas das “figurinhas”, que mais me impressionaram, acompanhadas, aqui e ali, ora com o comentário/anotação do autor Arturo ora com uma quadra (poesia), de poetas e amigos galegos, apresentados, tal como no livro, por quadros ou painéis, quais retábulos de vida, em “busca da infância perdida”.

 

5.1.- Painel “Vila das Infantes” – Com o seu Castelo

 

 

A Aldea

 

No médio dun souto, ao pé dunha serra,

na cume dun monte, no fondo dun val,

coas chouzas de seixos telladas de colmo,

están as aldeas, o mundo rural.

 

Por riba das casas, a torre da eirexa

destácase airosa mostrando unha cruz:

abaixo, tristuras, misérias e loito,

nos ceos, feitizos, espranzas e luz.

 

(Valentin Lamas Carvajal, A musa das aldeas, 1890)

 

5.2.- Painel “Cena dos Campos” – Sucalcos de Toubes

 

 

 

5.3.- Painel “Cenas dos Campos” – Lavradores na vinhas

 

 

Garda o tesouro das pingas

en bolsas de araña o toxo,

pois quere aforrar dinheiro

Para por dentamia de ouro.

 

O serán, que pillou frío

ten un zaluco dos demos,

e por tirarllo, a coruxa,

anda metendolle medo.

 

(Florencio Delgado Guarriaran, Bebedeira, 1934)

 

5.4.- Painel “Cenas dos Campos” – Espantalho e leiteira

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) A Rosa do Regueiro, nos anos da fome, com o leite para os senhores da cidade

 

5.5.- Painel “Caminho do forno” – Mulher com a pita

 

 

Comentário de Arturo Baltar:

“(…) Mas não vai para o Portal de Belén, mas sim para a casa do médico (…)”. Lá, como cá. Era tudo a mesma coisa! Simplesmente delicioso.

 

5.6.- Painel “Caminho do forno” – O oleiro

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) O Manolo de Toira fez milhentas púcaras (…) noutro forno cozia o pão para os seus filhos que eram muitos. Há muito tempo que a roda está calada e a olaria vazia (...)”.

 

5.7.- Painel “Caminho do forno” – Forno “Das Quintás”

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) Nas longas noites de inverno, eram os fornos refúgio de moços e velhos. Neles se fiava, cantavam e contavam lendas da Santa Campaña (…)”

 

5.8.- Painel “Caminho do forno” – Peregrino

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) Os velhos caminhos, noutros tempos percorridos por um número sem conta de romeiros, encheram-se agora de silvas e cobras (…)” Felizmente que alguns, poucos ainda, estão sendo recuperados para outros fins.

 

5.9.- Painel “Caminho do rio” – Pastor tocando a Requinta

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) Os rapazes do povo, noutro tempo, guardavam o gado, faziam gaitas, de canas da índia, e pequenos moinhos, nos regatos dos lameiros (…)”

 

5.10.- Painel “Caminho do rio – O carro

 

 

 

5.11.- Painel “Caminho do rio” – Meninos pescando na Pontella

 

 

 

5.12.- Painel “Aldeia de fundo de vila” – “Noalla” e “Nonó"

 

 

Comentário de Arturo Baltar:

“(…) A Nónó” e mais a “Noalla” eram duas peruas, boas moças e muito conhecidas no ambiente… A primeira teve um fim trágico, lá pelos anos trinta e tantos. A “Noalla”, já velha, montou taverna na rua Pelaio e dela viveu até que morreu, que foi quase aos cem anos. A lamparina de azeite que ilumina a imagem da Nossa Senhora do Carmo, que está perto das Burgas, manteve-se acesa, graças à sua generosidade, nos difíceis tempos do racionamento (…)”

 

5.13.- Painel “Aldeia de fundo de vila” – Par de namorados

 

 

 

5.14.- Painel “Aldeia de fundo de vila” – Casa do Passadiço

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) Desde a varanda da Casa da Requiana, três meninos assistem ao passar dos Reis Magos (…)”

 

5.15.- Painel “Aldeia de fundo de vila” – Casa do Passadiço

 

 

NADAL

 

Hai unha estrela no ceo

meu amor!;

nos beizos unha canzón

doce ben!

Mainos arboredos

de froitos tan doces,

con homildes voces

vinde à vela frol

e tamén ó sol.

Neves das montañas,

augas dos regatos

que enchedes as lañas

de verdes follatos,

froiliñas dos matos

vinde à vela frol

é tamén ó sol.

Dende cotovía

que canta ó meñecer,

ata bicharía

que dá noxo ver,

todo vivo ser

vinde à vela frol

é tamén ó sol.

E vós, homes todos,

fozantes na terra,

as veces mais lobos

que lobos da serra,

esquecede a guerra,

vinde à vela frol

é tamém ó sol

 

(Avelino Gómez Ledo)

 

5.16.- Painel “Caminho de trás do rio” – O Fotografo é o “Rizo” (Foto de Família)

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) Minha mãe sempre desejou ter um retrato connosco – os três irmãos. Os tempos eram muito maus e, ou por uma coisa ou por outra, nunca se fez. Eu sinto muito... (…)”. Por isso, neste presépio, Arturo Baltar cumpre, de forma embora póstuma, i desejo de sua mãe.

 

5.17.- Painel “Praça dos Ponxo” – Velhinha rezando às almas

 

 

Não resisto a transcrever os últimos parágrafos do conto “O Peto das Ánimas”, de Antón Risco, filho de Vicente Risco, e a propósito destas “alminhas”:

Cando cheguei daba (Arturo Baltar) os derradeiros toques a súa escultura en arxila. Representaba un peto de ánimas, mais con animiñas nada arrepiantes, por certo, con facianas de nenos ben inocentes e tranquilos. Unha delas tiña nas mans algo no que cuidei ver, alternativamente, unha bola de futebol ou un cráneo. Pregunteille:

- Que é isso?

- Pois non cho sei ben. Pode que non sexa outra cousa que un froito desses que maduram na outra banda.

- Xa me decato. Eu ben puidera que o seu gusto fora moito mais saborido do que a xente pensa.

 

O abraio nos seus ollos:

Abofé que o é! Pero é que o dis dun xeito…

Probáchello ti quizais algunha vez?

- Quen sabe! E ti?

Sorriume.”

 

5.18.- Painel “Casa dos Ponxo” - Espigueiro

 

 

5.19.- Painel “O Portal de Belén” - Pormenor

 

 

Anotação de Arturo Baltar:

“(…) Dois anjinhos velam o sono do Deus Menino (…) Segundo Segundo Alvarado Feijoo-Montenegro, o Anjo da Anunciação foi inspirado na bela figura que então tinha a D. Romanita Mosquersa, que vivia na rua Alba, e por quem Vicente Risco sentia uma grande admiração (vá lá cada um saber…)

 

5.20.- Painel “O Portal de Belén” – Pormenor

 

 

O Verbo

 

Recompoñer o mundo

para mais ir poñendo

sobre unha morte outra

até atinxir o tempo

que se vai polo ollo

de luz da ponte.

 

Bandeiras sulagadas

Noite

e señardá.

Latexa o Verbo.

 

(José Ángel Valente – Cantigas de alén, 1989)


publicado por andanhos às 01:45
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 12 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 3.1.1)

 

Nesta Secção, sob o título “Destaque(s)”, pretendo falar de três assuntos, integrados e/ou relacionados com o Caminho de Santiago “Via de la Plata”/Moçárabe, Caminho Sanabrês, a saber:

  • Ourense, cidade e capital de província com o mesmo nome, apresentando os seus aspectos artísticos, monumentais, no contexto urbano. Por esta cidade passámos na 2ª etapa do Caminho Sanabrês que vos venho relatando.
  • O Convento e Igreja de Santa Maria La Real de Oseira, cisterciense, abordando um pouco da sua história e mostrando o seu rico património arquitectónico e artístico. O local de Oseira, onde se encontra a igreja e o mosteiro,  é um percurso alternativo da 4ª etapa (Cea – A Laxe) do Caminho Sanabrês que fiz.
  • Em terceiro, e último lugar, vou apresentar quatro etapas do  Caminho Português Interior de Santiago, desde Chaves até Laza. Assim:

                           * a primeira etapa, desde a Ponte de São Roque (Chaves) até Feces de Abaixo;

                           * a segunda, desde Feces de Abaixo até Tamaguelos

                           * a terceira, desde Tamaguelos até Monterrei;

                           * a quarta, desde Monterrei até Laza.

 

A primeira e terceira etapa foram feitas cada uma em seu domingo, de manhã cedo, e tiveram-me por companheiros o inseparável Fabios e seu filho, Mito(k).

 

Na segunda (Feces de AbaixoTamaguelos), também num domingo, bem cedinho, foi realizada tendo por companheiros os mesmos protagonistas da primeira e da terceira e mais a minha filha Babela.

 

A quarta, e última etapa (MonterreiLaza), fi-la sozinho, apenas com o apoio logístico da Ni e Jeca.

 

 

A.- As Burgas

 

Ramón Otero Pedrayo pensa que os benefícios oferecidos pelas Burgas aos romanos, amigos dos banhos, e o cruzamento de caminhos, [Recorde-se que Ourense actualmente é um importante nó de comunicações, onde se cruzam três autopistas, quatro estradas nacionais, assim como quatro vias de caminho de ferro. A estação de Ourense-Empalme, é uma das estações da cidade de Ourense, a mais importante da Galiza, porquanto é daqui que se centraliza e controla todo o tráfego ferroviário do noroeste da Península.] foi o que determinou o nascimento da cidade de Ourense.

 

A origem do nome das Burgas não é clara. Alguns autores dizem que deriva do celta “beru”, que quer dizer quente. Contudo, a etimologia mais aceite é a que provém do latim “burca”, que quer dizer “pia”, em alusão aos banhos romanos.

 

As fontes termais, rodeadas de um bonito jardim, ao redor das quais se formou o primitivo núcleo populacional, formam parte da vida da capital como um adjectivo qualificador.

 

(Burgas - Vista Geral)

 

 A origem dos mananciais não está ainda muito clara. Há uma lenda que diz nascerem debaixo da capela do Santo Cristo, na Catedral, e outra que são produto de um vulcão em repouso que está na base de Montealegre e que, a qualquer momento, pode vir a explodir. Obviamente, trata-se de uma interpretação lendária, sem qualquer motivo que a justifique, a não ser a pura fantasia. O que ocorre nestas águas termais, aliás como em toda a corda galaico-portuguesa, na realidade, é uma feliz e afortunada conexão de factores naturais que propiciam este efeito, em virtude das peculiares condições geológicas do lugar, afastando qualquer explicação com base na origem vulcânica. Para mais detalhes sobre este tema, bem assim a origem do nome Burgas, veja-se o sítio www. Canedo.eu/burgas/taboa1.html.

 

As águas das Burgas, silicatadas, fluoradas, litínicas e hipertermias, com um caudal de 300 litros por minuto, brotam à temperatura que oscila entre os 60 e 0s 70 graus centígrados e são utlizadas para fins medicinais, como seja, problemas da pele (dermopatias pruriginosas), doenças reumáticas e artrites.

 

Em tempos, ainda não muito recuados alias, a exemplo do que também acontecia nas Termas de Chaves, eram utilizadas para fins domésticos, nomeadamente, para escaldar as galinhas e tirar-lhes as penas de forma mais fácil e rápida.

 

No jardim da parte superior, encontra-se a Burga de Baixo (ou Burga Nova), fonte de estilo neoclássico tardio, projectada pelo arquitecto Trillo, em meados do século XIX.

 

(Burga Nova ou Burga de Baixo)

 

Na parte superior temos a Burga do Meio e encontra-se também a Burgas de Cima (ou Burga Vella), fonte de estilo popular do século XVII

 

 

e têm, à sua direita, a réplica das quatro aras encontradas na cidade. A primeira delas, em honra das ninfas destas águas.

 

 

Junto à Burga do Meio, está actualmente uma moderna piscina pública, de água quente ao ar livre, com 200 metros quadrados, com vários jactos de água.

 

(Piscina, com a "Casa da Nube", escultura em ferro)

 

Em 2005, em virtude de escavações não autorizadas, e relacionadas com a construção de um novo balneário, foi perfurado um dos poços que alimentam as Burgas. Como consequência, 40% do seu manancial perdeu-se, tendo secado um dos canos principais das fontes. Redução tão drástica de caudal só se verificou em 1755, aquando do Terramoto de Lisboa.

 

A partir deste facto, deu-se início ao processo de declaração de “Bem de Interesse Cultural” deste sítio histórico das Burgas, declaração essa que, oficialmente, veio a acontecer em 2007, com a aprovação desse interesse pela Junta da Galiza.

 

Já em 1975, estes mananciais foram declarados “Conjunto histórico artístico”.

 

Num recanto das Burgas, incrustado no muro do colégio de freiras, aparece-nos este nicho, dedicado, e com a imagem de Nossa Senhora "Del Carmen" ou de Nossa Senhora do Posío, de muita devoção na cidade. A imagem foi trasladada da sua eremita original, no Jardim (Botânico) do Posío, depois da sua destruição, com a abertura da estrada Vigo-Villacastín (agora Rua do Progreso). Quando falarmos da capela de São Cosme e Damião, e a propósito do "Belén de Ourense", voltaremos a falar deste recanto.

 

 

As Burgas, em conjunto com a Ponte Romana, chamada Ponte Maior ou Ponte Vella e a Catedral, são o símbolo da cidade de Ourense, também conhecida como Cidade das Burgas.

 

B.- Ponte Romana, Ponte Maior ou Ponte Vella

 

Segundo se depreende do Itinerário Antonino Pio, por Ourense devia passar uma via secundária que partia da mansão “Salientibus” (tradicionalmente considera-se a vila de Banhos de Molgas como a  mansão romana conhecida como "Salientibus", que se menciona no Itinerario Antonino), da via XVIII.

 

Esta via secundária parece que atravessava Ourense, passando pelo rio Minho, através de uma ponte que dataria do tempo do Imperador Trajano. [Na obra "Ourense - Guía Monumental", da Deputacion Provincial de Ourense, de 1986, diz-se que embora a tradição suponha a obra como do tempo de Trajano, o mais provável é que seja da época de Augusto. Mas não apresenta razões para tal afirmação].

 

Dessa ponte conservamos, segundo certos estudos:

  • as bases;
  • os propianhos que lhes estão assentes;
  • os arcos extremos, de meio ponto, que unem com a terra e
  • os pilares, em forma circular, semelhantes aos torreões das muralhas romanas.

A ponte foi completamente (re)fundada pelo bispo D. Lourenço, que esteve à frente da diocese de Ourense, entre 1218 e 1248, e apoiada a sua construção pelo rei D. Fernando III, o Santo.

 

Em 1432, afundou-se o arco central e, assim, todos os ourensanos apuraram-se a prestar recursos para a sua reconstrução, impondo-se impostos especiais para o efeito. Após estas obras, já em 1449, há um novo derrubamento.

 

Face aos transtornos ocasionados aos peregrinos, o bispo D. Pedro Silva, a suas próprias expensas, paga os gastos da nova reconstrução. Mas as obras iam devagar e, só em 1484, graças à ajuda do bispo D. Diego da Fonseca, é que as obras de restauração terminaram. Entretanto funcionavam as barcas.

 

Em 1527 surge uma nova ameaça de ruína e voltam a funcionar as barcas.

 

Em 1671, pede-se ao rei ajuda para a reconstrução de partes afectadas da ponte, ao mesmo tempo que se projectou a construção de um castelo sobre o primeiro arco, partindo da cidade, que se chamará Torre Nova, para a defender. Restos desta Torre podem-se ver no escudo (brasão) de Ourense.

 

 

Em 1597 ainda se trabalha na obra do arco central. E não foi obra definitiva pois, em 1645, o concelho denuncia o estado de ruína da ponte e as obras de reforma começam em 1625, tendo ficado concluídas em 1694.

 

Fizeram retoques pontuais em 1835, 1837, 1874 e 1880, data em que Sebastián Martínez Risco efectuou as últimas reformas.

 

 

É uma ponte com 370 metros de cumprimento, com um arco central de 43, 70 metros de largura por 38 de altura.

 

Conservam-se hoje sete arcos dos 11 que, porventura, deveriam existir. Destes arcos, três são apontados, indicando-nos um antigo traço gótico. O primeiro arco, que está na margem esquerda do rio, conserva intacta a sua construção romana.

 

A rampa actual é uma herança típica gótica e deve-se aos arcos apontados. A pendente foi suavizada na última reforma de 1880.

 

Foi declarada monumento histórico-artístico por D. 647/1961, junto à capela que lhe está próxima - dos Remédios - fundada em 1522 poe D. Francisco Mendes Montoto e hoje totalmente destruída por um violento incêndio.

 

Apesar dos séculos e de muitas restaurações, que alteraram de algum modo o aspecto primitivo, a Ponte Vella de Ourense é um dos monumentos civis, de traça medieval, mais importantes da Península Ibérica.

 

 

C.- Catedral de São Martinho

 

A Catedral de São Martinho é a manifestação artística mais importante de Ourense.

 

A sua primitiva estrutura românica viu-se enriquecida com novas manifestações artísticas até aos nossos dias, resultando, assim, um conjunto onde se conjuga, com graça, o românico, o gótico, o renascentista e o barroco.

 

A planta românica da Catedral, começada em 1157, com D. Pedro Seguín, é de clara influência compostelana, enriquecida com novas ideias.

 

A obra foi continuada com o bispo D. Afonso (1174 – 1169), que consagrou o altar-mor em 1188, estando presentes os arcebispos de Braga, Lugo e Tui, como convidados, e com as relíquias de São Martinho, trazidas de Tours, a pedido do rei D. Fernando II.

 

Foi concluída por D. Lourenzo (1218-1248), a quem se atribui o Pórtico do Paraíso, réplica do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela do mestre Mateo.

 

O exterior do templo, de planta românica, está rodeado de edificações recentes que impedem a leitura completa do edifício pelo exterior: na parte norte, a pesada torre sineira, obra de Pedro de Arén, e as capelas de São João e do Santo Cristo; pela parte leste, o deambulatório e a sala do sacristão e pela parte sul, o claustro novo, a sala capitular, a secretaria e a biblioteca do cabido.

 

Apresenta uma planta de cruz latina, com três naves, rematando a cabeceira uma grande abside. A girola tem cinco capelas e o cruzeiro está coberto por um monumental zimbório.

 

Tal como podemos comprovar, depois das restaurações do edifício, este foi concebido como fortaleza defensiva, tal como muitos edifícios religiosos da altura, rematando os seus muros em torres e ameias, na sua maioria suprimidas no século XV. Foi cenário de lutas, de triste fama entre os condes de Lemos e de Benavente, assim como de levantamentos populares contra o poder feudal dos bispos.

 

 

Até ao século XIII era um templo com a cabeceira rematada em três absides semicirculares. Da obra primitiva hoje apenas se conservam, no exterior, três portais, embora com muitas intervenções.

 

A Catedral de Ourense foi declarada monumento nacional em 1931.

 

Exterior da Catedral

 

Podemos dizer, que o seu estilo é intermédio, entre o românico e o gótico, chamado “protogótico”.

 

Portal Principal (Ocidental)

 

Acede-se por umas escadas de recente construção, que nascem da Praça de São Martinho, desenhadas por Palacios primeiro e depois por Pons Soraya. Compõe-se  de dois corpos, acompanhados por dois grossos contrafortes e franqueados por duas torres: a dos sinos (ou sineira), de origem românica, mas recoberta com trabalhos barrocos, e a de São Martinho.

 

No corpo inferior abriram-se três vãos, no século XIII, reformados no século XVIII. No segundo corpo, uma roseta de rica traça, ilumina o Pórtico do Paraíso.

 

O carácter proto-gótico deste portal manifesta-se na altura do arco do vão central, ligeiramente apontado, na decoração das arquivoltas e na rosácea.

 

 

ligeiramente apontado, na decoração das arquivoltas e na rosácea.

 

Portal sul

 

Acede-se pela Praça ou Praceta do Trigo, uma das praças mais antigas de Ourense, do século XIV.

 

Este portal foi empreitado ao mestre Mateo, de Santiago de Compostela, com grande influência em toda a Galiza nesta arte.

 

Está integrado por um vão e o tímpano não tem decoração.

 

Este portal está incompleto, porquanto lhe falta os primitivos fustes. Os baseamentos têm tripla arquivolta e estas estão decoradas com ricos motivos.

 

 

Portal norte

 

Acede-se a este portal pela rua de Lepanto.

 

Primitivamente românico, ainda que as colunas de fuste nos fale de vestígios anteriores. Sofreu muitas alterações.

 

O tímpano tem um tema alusivo à Paixão, proveniente de uma reforma do século XIII, pertencente ao gótico final.

 

Nas duas esculturas adoçadas, uma de cada lado, destaca-se o tratamento das pregas das vestes das duas figuras e a perfeição anatómica das cabeças.

 

As arquivoltas têm temas ou motivos vegetais e animais.

 

 

 

Interior da Catedral

 

O Pórtico do Paraíso

 

É uma das bíblias em granito, uma página escrita posta diante do visitante, turista, investigador, curioso ou peregrino, dado que a arte medieval é um símbolo com uma finalidade doutrinal, e não só estética.

 

 

Como dissemos, pretender ser uma réplica do Pórtico da Glória da Catedral de Santiago de Compostela. Contudo, não consegue lá chegar, tendo em vista a abstracção das formas. As esculturas deste Pórtico reflectem pouco as ideias do mestre Mateo. Quando este Pórtico foi feito, entre 1218 e 1248, já se tinha adulterado a tradição mateísta.

 

A obra foi coberta de policromia no século XVI e perdeu o tímpano das suas três arcadas.

 

(Pórtico do Paraíso - Pormenor)

 

No século XVII colocaram no centro uma imagem alheia ao conjunto.

 

 

É uma das construções do protogótico que se conservam em Espanha, segundo Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez, autores da obra “Guía Histórico-Artística da cidade de Ourense”.

 

Retábulo da Capela-mor

 

Coroa o templo um retábulo renascentista de Cornualles de Hollanda. Está decorado em alto relevo, com alusivas cenas da vida de Cristo, da Virgem e de São Martinho.

 

 

O Deambulatório (ou girola)

 

Trata-se da “nave” que rodeia a capela-mor e é obra de Simón de Monasterio e de Gómez de la Sierra, do século XVII.

 

Esta girola desarticulou por completo a cabeceira do templo, obrigando-lhe a tirar as absides das naves laterais. Ao longo do trascoro (girola), podemos ver as capelas de São Paulo ou de Armada, de Santa Isabel ou de Arrojo, da Conceição, da Ressurreição, da Assunção e a do Cristo dos Desamparados, iconografia de finais do século XII.

 

 

Capela do Santo Cristo

 

Foi construída entre 1565 e 1578, quando era bispo D. Fernando Tricio de Arenzana. Tem dois corpos: o primeiro, coberto com abóbada de cruzeiro, foi feito pelo arquitecto Juan de Herrera e o segundo, obra de Diego de Arén, datando de 1685.

 

 

O baldaquino que cobre o retábulo, onde se venera a imagem do Santíssimo Cristo, é obra de Domingo de Andrade e a decoração é de Castro Canseco.

 

A imagem do Santíssimo Cristo foi trazida de Finisterra pelo bispo Pérez de Mariño,em 1332.

 

 

Exterior e Interior da Catedral

 

Zimbório

 

Destaca-se o airoso zimbório sobre o cruzeiro, que construído no século XV por Rodrigo Badajoz, com três corpos e profusamente adornados de esculturas.

 

(Zimbório - Construção Exterior)
(Zimbório - Aspecto Interior)
(Zimbório - Pormenor Interior)
(Quadro - Pormenor, de uma capela da Catedral)
(Cristo dos Desamparados, românico)

 

 Vejamos o aspecto da Catedral em foto 3D:

 

 

D.- Museu Arqueológico de Ourense

 

Um pouco de história.

 

Sabemos que Ourense, nos tempos dos suevos, teve uma grande importância. Mas, por falta de documentos, a história deste tempo é pouca conhecida.

 

A cidade que nasceu junto do “Presidium”, construído para defesa da ponte sobre o rio Minho, ou junto das Burgas, estaria rodeada de um núcleo agrícola que se foi formando nas proximidades dos mananciais das Burgas e que rapidamente se transformou num “vilar” – agrupamento de casas de lavoura. Fixa, assim, na encosta e no que hoje ocupa o museu arqueológico, a praça da Madalena e a Catedral.

 

A chegada dos suevos alterou a configuração daquela primitiva cidade herdada dos romanos.

 

Dizem-nos as crónicas que os suevos se fixaram na Galiza em princípios do século V. Em 550, o rei Carriarico, assentou corte em Ourense, no paço que alberga o “presidium” romano. Teve um filho que lhe ficou doente – e nós sabemos quão importante eram os filhos para efeitos de sucessão – e, face a essa circunstância, envia emissários a Tours, onde estava enterrado o corpo de São Martinho, para lhe pedir (às relíquias) um milagre [Haveremos, um dia, de falar da importância das relíquias para o Homem da Idade Média, deste período]. O Santo curou-lhe o filho e, em sinal de agradecimento, converteu-se ao cristianismo, erguendo um templo, com nova planta, ou restaurando outro mais antigo, no lugar onde hoje se levanta a Igreja de Santa Maria Mãe.

 

(Antigo Paço Espiscopal, século XII)

 

Perto do “presidium” construiu também um paço para o bispo. As crónicas contam-nos (Cronicão, de Idácio de Chaves) que este facto ocorreu quando Ourense já era sé episcopal, dado que a origem da diocese dar-se como fixada no ano de 433 quando foi consagrado, na vizinha sé de Lugo, um bispo para Ourense, demonstrando-nos, desta forma, que havia já um bispo, antes da conversão dos suevos.

 

Outros, não concordando, afirmam que a diocese de Ourense nasce com o bispo Witimiro, por volta de 570.

 

Com Carriarico, também chamado Teodomiro, a partir de 551, começa uma fecunda época para Ourense.

 

Em virtude da conversão dos suevos, veio à Galiza Martinho Dumiense, bispo de Braga, panegirista de Martinho de Tours e verdadeiro apóstolo da Galiza. Martinho de Braga, antes de ser bispo, realizou um intenso trabalho monacal, fundando a vida eremita à volta dos rios Minho e Sil. Como bispo, tinha a faculdade de administrar, desde Braga, um extenso território do reino suevo, propondo ao rei Teodomiro a criação de novas sés episcopais, como sejam, as de Ourense e Astorga, no antigo convento jurídico de Braga.

 

A invasão muçulmana, conforme nos relatam os cronistas da época, afectou também as terras de Ourense, ao ponto de a sua ponte ficar totalmente destruída. Isto passava-se em 716, ano em que os muçulmanos destruíram completamente a cidade. Mas não a ocuparam. Periodicamente, iam-lhe infligindo invasões e terríveis devastações, como a de 738, quando o seu bispo foi obrigado a fugir com as relíquias da Catedral.

 

Possivelmente, por via do relevo e do clima, os muçulmanos nunca se estabeleceram em Ourense.

 

Após um período conturbado, entrámos no último terço do século XI, em que Sancho II, exercendo o poder por uns meses, leva a cabo a repovoação e restauração definitiva da cidade, depois de três séculos e meio de despovoamento.

 

(Claustro do Museu)

 

Nos primeiros anos do século XII, rege a diocese de Ourense um dos seus mais preclaros pastores – D. Diego Velasco que, imitando a figura do seu conterrâneo D. Diego Xelmírez, de Santiago de Compostela (e já aqui falado), obteve, de D. Urraca, o privilégio de uma espécie de carta-foro para a cidade, restaurou o paço episcopal, reedificou a ponte (de que também já falámos), e ampliou a Igreja de Santa Maria (levantada em 1071 pelo bispo D. Ederonio, sob as ruínas de um templo suevo do século VI).

 

(Porta de Entrada do Museu)

 

Concomitantemente, no meio das lutas entre o reino da Galiza e o Condado Portucalense, com Ourense no meio, em 1122, D. Teresa de Portugal concede ao bispo D. Diego Velasco a jurisdição sobre Ourense e o título de cidade, suspensa desde a destruição pelos árabes. Dizem Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez, na obra já citada “Guía Histórico-Artistica da Cidade de Ourense”, que vimos seguindo, que D. Teresa teve este gesto, aquelas “simpatias” para com a cidade por forma a incorporá-la definitivamente no seu projectado reino de Portugal.

 

(Escudo episcopal por cima da Porta de Entrada do Museu)

 

Abrindo aqui um parênteses, diria que, na minha óptica, este autores não estão totalmente correctos. Se entendermos tal gesto no sentido de ampliar o condado, tudo certo; pensar agora D. Teresa no futuro Reino de Portugal, já é mais discutível, face aos posteriores acontecimentos que, quer ela, quer seu filho, Afonso Henriques, protagonizaram, e que culminaram com a batalha de São Mamede, em 1128.

 

Supõe-se que o velho paço episcopal – hoje Arquivo-Museu Arqueológico – provável sede do antigo “presidium” romano, pelo seu carácter de fortaleza, que não perdeu ao longo da Idade Média, deveria ter sido morada, pelo menos ocasionalmente, de alguns reis suevos até que passou depois da conversão destes à fé católica a paço episcopal, mantendo-se até metade do século passado como tal, altura em que se transforma em museu, graças ao fecundo trabalho de um grande homem ourensano – Xesús Ferro Couselo.

 

 

E.- Igrejas

 

1.- Igreja de Santa Maria Maior (Santa Maria Mãe)

 

Dissemos já que, com a conversão do rei suevo Carriarico (Teodomiro) ao cristianismo, por via do milagre da cura do filho, aquele mandou erguer um templo dedicado a São Martinho, no lugar que hoje ocupa a Igreja de Santa Maria (século VI).

 

Devastada e arrasada a cidade pelos árabes, com Afonso III, o Magno, em 864, a igreja foi restaurada, sob a dedicação da mesma a Santa Maria e São Martinho, sendo na altura bispo D. Sebastião.

 

Em 997, Almançor arrasou a cidade e, em 1084, o bispo Ederónio, reconstrói o templo, sob dedicação do mesmo a Santa Maria, conforme se pode ver numa inscrição colocada na antiga porta lateral.

 

Com a construção da actual Catedral, esta igreja ficará reduzida a capela funerária até que, em 1722, D. Marcelino Siuri, bispo de Ourense, derruba aquela igreja e manda construir a actual.

 

Uma enorme escadaria dá acesso a Santa Maria Maior, a partir da rua Bispo Carrascosa.

 

A parede do lado sul da igreja está encoberta pelo Museu Arqueológico – Antigo Paço Episcopal. A parede norte dá para a Praça da Madalena. A cabeceira, rectangular, dá para a rua Hernán Cortéz ou de Cisneros.

 

 

A fachada desta igreja possui três corpos, separados por uma imposta corrida.

 

 

O corpo alto está coroado com motivos heráldicos, com frontão e dois torreões dos lados.

 

 

O interior é de uma grande simplicidade.

 

A Igreja de Santa Maria Mãe esteve sempre sujeita à jurisdição do Cabido, com um interregno que vai de Março de 1922 até 1983.

 

 

2.- Igreja da Santíssima Trindade

 

Construída no século XIII, e objecto de muitas reformas nos séculos XV, XVI e XVII, trata-se de uma igreja em que o gótico e o plateresco são patentes.

 

Formava um todo com o Hospital dos Peregrinos, também chamado dos pobres, dos transeuntes, da Trinidade e Hospital Vello, que já existia em 1158, e ampliado em 1492.

 

Acede-se ao adro da igreja através de um arco plateresco [de meio ponto, decorado com medalhões, com colunas estriadas e capitéis coríntios, num frontão que acolhe a imagem de São Roque], que foi trazido para aqui, em 1927, e que pertencia ao Hospital de São Roque, mandado construir, na Horta do Concello, pelo bispo D. Francisco Blanco, entre 1556 e 1567. No sítio onde se encontrava edificado o Hospital de São Roque, encontra-se, actualmente, o edifício dos Correios.

 

(Vista parcial do Portal)
(Pormenor do Portal - Parte Superior)

 

A igreja, voltada ao exterior, assemelha-se a um castelo feudal, por estar organizado em função de múltiplos inimigos. Nas suas origens teve ameias para evitar revoltas, assaltos e atropelos, aliás, o mesmo também aconteceu com a Catedral, o Convento de São Francisco e o Paço Episcopal.

 

O primeiro impacto com que o visitante se depara, depois de vir da Praceta de Rastro e subir a Praça da Tinidade, é de uma fachada flanqueada por dois torreões cilíndricos, de carácter defensivo, feitos no século XVI. Os dois torreões comunicam-se por uma galeria.

 

 

Na fachada principal deparamo-nos com um portal no qual podemos destacar colunas triplas, de fuste liso, com motivos antropomórficos, zoomórficos e fitomórficos, denotando que foram várias as mãos que os moldaram e em diferentes épocas. Esta fachada, do século XIII, e com modificações posteriores, é a mais antiga do edifício.

 

 

Salienta-se que esta igreja, até ao século XIX, encontrava-se extramuros da cidade, junto ao Campo (hoje Jardim) do Posío.

 

Na sua fundação, os bispos de Ourense, como donos da cidade, constituíram, como dote para esta igreja, os coutos de Valenzá, Seixalbo e a vila de San Cibrao da Viñas.

 

Segundo Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez, em “Guía Histórico-Artístico da cidade de Ourense”, de 1993, «dos abades da Trinidade sabemos que uns eram opulentos senhores que disfrutavam de abundantes rendas, tinham assento no Cabido da Catedral, sendo dignatários da mesma, e apresentavam os curas que exerciam o cuidado pastoral na dita paróquia. Outros faziam as vezes de abades comendatários como é o caso de D. Ochoa de Espinosa, a quem lhe dão como poder a abadia de Oseira, sem que deixe a sua da Trinidade. Este abade foi morto pelos lavradores de Villanfesta, armados com estadulhos». (ob. cit., pág. 52)

 

 

3.- Igrejas ligadas a Ordens Religiosas

 

3.1.- Igreja e Convento de São Francisco (Franciscanos)

 

Os Franciscanos chegaram a Ourense nos meados do século XIII e começaram a residir no ano de 1252.

 

O primeiro convento no qual se albergaram estava localizado dentro dos muros da cidade, no lugar que depois foi ocupado pela Casa do Deão e pelo Corregedor, na actual Praça do Correxidor.

 

Aí levantaram os franciscanos, por volta de 1253, uma igreja e convento, onde residiram até que um incêndio, provocado pelo bispo D. Pedro Yáñez de Nóvoa, para eliminar os cavaleiros que ali se refugiaram, destruiu aquele primitivo convento de finais do século XIII.

 

Em consequência de tal facto, o Papa obrigou aquele prelado a construir um novo edifício, constituído por igreja, claustro e convento, na parte alta da cidade, no lugar a que passaram a chamar de Campo de São Francisco.

 

Igreja, claustro e convento permaneceram neste lugar até 1835, altura em que, pela lei de Mandizábal, foi “desamortizado”, passando ali a se instalar o quartel de infantaria, até 1984.

 

Em 1867 é devolvida aos franciscanos a Igreja do convento, passando esta para propriedade daqueles.

 

Nos finais do século XIX, os franciscanos instalaram-se em Vista Alegre e, em 1971, é-lhes autorizado estabelecerem-se, como casa, no Campo de São Lázaro.

 

Foi então nesta altura que se trasladou a igreja do Campo de São Francisco para aqui, ou seja, a cabeceira e respectiva fachada.

 

Em Janeiro de 1928 começou a reedificação e, em finais de 1929, é inaugurada a nova igreja e convento de São Francisco.

 

Do antigo convento do Campo de São Francisco somente se conserva a Sala do Capítulo e o Claustro, hoje em obras, que foi declarado Monumento Nacional em 1932.

 

 

O claustro forma um exemplar de arte cisterciense, com arcos apontados, sustidos em colunas pareadas, com capitéis ornamentados, de corte ogival, e com muitos elementos românicos. Tem 63 arcos. É obra de canteiros anónimos, galegos.

 

Com o passar do tempo foi objecto de algumas intervenções, sendo a principal a de 1730, tal como nos relata o livro da Irmandade do Santíssimo Sacramento de Celanova.

 

(Igreja de São Francisco na Praça de São Lázaro - Frontal trasladado)

A igreja constitui um exemplar de transição românica para o gótico – o mesmo se passando com o convento.

 

Apresenta uma planta de cruz latina, de uma só nave, longitudinal, e três absides semicirculares. A capela-mor alberga os sepulcros góticos e platerescos da família Nóvoa – senhores de Maceda.

 

A fachada principal tem retábulo de dois corpos: no superior, uma rosácea e, no inferior, abre-se um portal com dois contrafortes, tripla arquivolta que descansa em colunas de fuste liso e estriado, com capiteis fitomorfos – folhas e frutos; zoomorfos – entrelaçados de homens e animais – e antropomorfos – um gaiteiro. É a primeira vez que aparece um gaiteiro, exemplificado neste tipo de obra.

 

 

Também aparece a Virgem e o Anjo, na cena da Anunciação.

 

Pegado à Igreja, do Campo de São Francisco, pelo lado sul, encontra-se a capela da Venerável Ordem Terceira, hoje transformada em albergue de peregrinos e espaço expositivo que mostra uma antologia de escultura das colecções do Museu Arqueológico Provincial de Ourense.

 

 

3.2.-Igreja de Santa Eufémia do Norte ou  Igreja de São Domingos (Dominicanos)

 

A Ordem dos Pregadores entrou em Ourense e fundou convento em 1607. O Padre Vigário Provincial, Frei Juan Fernández, diz-nos que o indiano Domingo Fernández de Araújo, natural da Vila Noa dos Infantes, da comarca de Celanova, morreu em Potosí, deixando uma doação pia para que se levantasse um convento de São Domingos em Ourense.

 

A fundação atrasou-se até 1634, data em que o dinheiro a doação pia cresceu (rendeu) de forma necessária para se começar a obra.

 

Nesta altura instalam-se em Ourense cinco frades, quando D. Juan de Valdevieso era bispo da diocese.

 

Em 1641, o Vigário Provincial empenhou-se, junto do Concelho, solicitando permissão para construir um convento para a comunidade de São Domingos.

 

A Cooperação Municipal indicou-lhe o mesmo lugar onde já estavam os cinco primeiros frades, que tinham começado a cimentar o dito convento.

 

As obras da igreja demoraram longos anos. No arco toral lemos 1659, contudo, a sua inauguração não se verificou senão em 1666, tal como consta de uma acta do Cabido que diz ter sido no dia 14 de Fevereiro do dito ano que foi celebrada a primeira missa na igreja.

 

Sabemos dos dominicanos de Ourense que tiveram a seu cuidado a “cátedra” de Teologia Moral e Artes.

 

Em 1835 foram expulsos do convento, pela “desamortização” e, desde então, o edifício conventual teve vários destinos, nomeadamente: em 1849 instala-se aí a Deputação Provincial; serviu de Escola Normal e de Armazém do Regimento de Mérida. Hoje nada mais resta que pouco mais de uma pequena construção destinada a Casa Paroquial. O resto foi demolido para ali se levantar a actual Delegação da Fazenda.

 

A igreja paroquial é de estilo renascentista, coroada por uma majestosa cúpula, que foi começada em 1659.

 

O exterior tem pouco valor artístico: uma fachada em retábulo coroada por espadana e pirâmides dos lados, à qual se acede, descendo uma ampla escada, desde a rua de Santo Domingo.

 

 

O interior da igreja tem planta em cruz latina, com uma só nave longitudinal, de trinta e nove metros de cumprimento por nove de altura e dezanove de largura. O cruzeiro apresenta braços pouco salientes. A nave longitudinal e o cruzeiro estão cobertos com abóbadas de canhão, que descansam numa imposta corrida e que coroa as paredes laterais com abertura de janelas de iluminação. No transepto ergue-se uma airosa cúpula, de um só tambor.

 

Apresenta ainda vistosa talha nos retábulos do altar-mor e nos dois altares sitos no transepto, de traço barroco.

 

(Capela-mor e respectivo retábulo do altar-mor)
(Retábulo do altar direito do transepto)

 

3.3.- Igreja de Santa Eufémia do Centro (Jesuítas)

 

Localizada a antiga rua Nova – mais tarde do Instituo e hoje Lamas Carbajal  -, onde, na idade média, se encontrava uma sinagoga, ergue-se a Igreja de Santa Eufémia, uma das jóias mais apreciadas do barroco ourensano, ainda que serôdio, como nos mostram os múltiplos motivos neoclássicos.

 

 

Em 1615 sabemos que D. Pedro de Mondragón Alcorraba Zabal, natural e notário do Santo Ofício na Vila de Posí de Perú, deixou uns bens para fundar e edificar em Ourense uma Casa Colégio, com a sua respectiva igreja.

 

O templo inicia-se em 1653 e, desta forma, nascia a igreja, que mais tarde se chamaria de Santa Eufémia do Centro, adstrita ao colégio dos jesuítas.

 

Em 1689 já estava fundado o colégio com a sua igreja monacal, mas as obras pararam até ao primeiro terço do século XVIII, data a partir da qual se lhe apõe uma fachada cheia de monumentalidade e ornamentação. E a obra continua até aos finais do século XIX.

 

O exterior da igreja de Santa Eufémia apresenta-se encoberta por dois lados, não se podendo fazer uma leitura completa da mesma.

 

A única parte exterior em que o visitante pode olhar é a fachada principal que dá para a rua de Lamas Carbajal.

 

Esta fachada foi construída por Frei Plácido Iglésias, monge de Celanova, natural das terras de Montes, arquitecto que também trabalhou no mosteiro de Celanova e no Santuário dos Milagros.

 

Trata-se de uma fachada encurvada para dentro e consta de três corpos. O primeiro e o segundo estão separados por uma imposta, encurvada no meio, com nicho, onde se alberga a imagem de Santa Eufémia. Esta imagem foi feita pelo escultor ourensano, Xosé Cid. É uma imagem de arte naturalista e simbólica e, como dizem Henrique Bande Rodríguez e Luís Fernández Rodríguez, em “Guía Histórico-Artístico da cidade de Ourense”, de 1993, feita por um autor que «soube arrancar formas belas e doces ao granito galego».

 

 

O segundo corpo está coroado por um frontão roto, típico do barroco galego, que alberga uma cruz que parece surgir da mesma fachada.

 

Os panos da fachada são três, apresentando-se o central mais largo que os laterais, simétrico, e separados por colunas jónicas, no primeiro corpo, e coríntias, no segundo.

 

A decoração é composta por folhas e frutos que simbolizam a fecundidade da  terra galega.

 

 

Encontram-se também motivos heráldicos e pináculos, do século XVIII, que foram acrescentados em 1927.

 

 

A planta é de cruz latina, com três naves longitudinais e um cruzeiro com braços pouco salientes. As naves laterais têm dois pisos, abrindo-se, no segundo, balcões que dão para a nave central. As pilastras dão a sensação de excessivo peso à estrutura e dificultam a visibilidade ao público.

 


publicado por andanhos às 01:38
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 10 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.6)

 

Chegado aqui, agora não podia desistir. Apenas faltam pouco mais de 16 Km. Tinha de ir buscar forças no mais recôndito de mim mesmo.

 

Embora com o joelho e as bolhas a doerem-me, ao levantar-me, como sempre de madrugada, estava decidido a empreender o Caminho até ao fim.

 

Apesar das minhas dores, o Caminho foi deveras aprazível, talvez por saber que era a última etapa. Mas não só. Entre bosque, eucaliptal (com um agradável cheiro a eucalipto), casas rodeadas de ramadas (latadas) de videiras e vistas amplas, o Caminho, apesar das minhas condições físicas e receios, até se fez sem sofrimento assinalável.

 

Depois de passarmos por Ardarís, entrámos no concelho de Boqueixón, por Lestedo. Mais moradias, e respectivas latadas de videiras.

 

 

E chegámos a Rubial. A partir daqui começámos a ver o Pico Sacro, monte lendário para a Comunidade Galega, relacionado com a Translatio do Apóstolo, ou seja, a condução do corpo do Apóstolo para Santiago de Compostela. Conforme na primeira parte da reportagem deste Caminho já referi, era aqui que se apascentavam dois toiros bravos e que os discípulos, Teodósio e Atanásio, com a ajuda divina, os amansaram para aqueles poderem cumprir a sua missão.

 

 

Em Rubial existe uma inscrição a atestar a passagem daqueles dois toiros bravos por aquelas bandas. 

 

 

Pelas proximidades de Rubial, encontramos troços de aprazíveis percursos no Caminho de hoje.

 

(Passadiço ligando a casa aos terrenos dec cultivo)
(Montes de Rubial)

 

A seguir a Rubial, por entre grupos de jovens que, calmamente faziam o seu Caminho, devidamente acompanhados, passámos por Deseiro de Arriba, pertencente à maior paróquia de Boqueixón, Sergude.

 

A partir de A Gándara, o Pico Sacro fica-nos por trás.

 

Ao Km 7,6 da etapa, passámos por A Susana, a seguir Cañoteira de Marrozos e, depois de cruzarmos a linha de caminho de ferro, entrámos em Vixoi, já pertencente ao concelho de Santiago.

 

No Rego das Covas de Santa Luzia, e sua respectiva ermida, atravessámos a quota mais baixa do Caminho de hoje.

 

 

Depois do Km 11,9 da etapa, entrámos em O Piñeiro, no Caminho Real de O Piñeiro

 

(Caminho Real O Piñeiro)
(Ponte do Caminho Real O Piñeiro)

 

para, depois, entrarmos em Angrois, e a respectiva subida do Caminho Real de Angrois, donde se tem uma bela vista já de Santiago de Compostela.

 

 

Pouco depois já nos encontramos a descer a calçada de Sar

 

 

e, mais um bocadinho adiante, já se tem uma visão mais clara da torres da Catedral.

 

 

Aqui fez-se uma pausa. E respirei de alívio: já estou quase lá, vou conseguir! As dores, quase por milagre, até pareciam ter desaparecido.

 

Embrenhamo-nos pelas ruas da Ponte de Sar, Rua de Sar e Rua Castron Douro, 

 

(Rua do Sar)
(Ponte romana sobre o Sar)

 

dando tempo ainda para observar e tirar duas fotos à Colegiada de Santa Maria A Real do Sar e ao Convento das Madres Mercedarias Descalças  e,

 

(Colegiada de Santa Maria a Real do Sar)
(Convento das Madres Mercedarias Descalças)

 

quase sem contarmos, já estávamos na Porta ou Arco de Mazarelos (única porta medieval existente na cidade). 

 

 

Com alguma saudade passei pela Praza da Universidade, lembrando-me dos tempos passados naquela Facultade de Xeografía e Historia,

 

 

como estudante de um doutoramento em Geografia. Saudades de alguns colegas e professores. Gente boa. Que, recorrentemente, me vêm à lembrança… Há pessoas, tempos e terras que nos marcam. Para sempre…

 

Passando a Rua da Caldeireiría e a Rua Diego Xelmírez, entramos na fervilhante Praza das Praterías,

 

 

para, logo de seguida, nos apostarmos, com um sentido de dever cumprido, em frente da impressionante fachada barroca da Catedral de Santiago de Compostela, a meio da Praza do Obradoiro

 

 

Aquela cidade de pedra escurecida pelo passar do tempo e pela humidade, tantas vezes por mim frequentada, hoje parecia-me outra, apresentava-se-me como que transfigurada.

 

Recebida “A Compostelana”, 

 

 

há que entrar dentro da Catedral.

 

Contemplada a beleza da preciosa obra quase de filigrana, que é o Pórtico da Glória, do Maestro Mateo

 

 

há que dar uma volta pela Catedral, pelas naves laterais, enquanto decorre a Missa do Peregrino. 

 

(Retábulo do Altar-Mor da Catedral)

 

Chegados aqui, uma pergunta, pertinente, impõe-se que seja feita: o que me faz correr tantos quilómetros a pé?

 

Cumprimento de alguma promessa? Fé? Devoção pelo Santo?

 

Embora tenha nascido no seio de uma família profundamente religiosa; apesar de ter recebido uma educação católica, tendo, inclusive, frequentado um seminário, mais por opção e/ou questões económicas do que, verdadeiramente, por autêntica vocação, o que é certo é que não fui bafejado pelo dom da fé.

 

Sinceramente, muitas vezes, até tenho inveja dos que, autenticamente, têm fé e vivem em conformidade com ela. A vida para essas pessoas, julgo, deve parecer-lhes muito mais leve.

 

Mas… cada um é como é.

 

Pegar numa mochila às costas e num cajado nas mãos, para além da sensação de desprendimento, é como se me sentisse totalmente livre. Livre, para percorrer caminhos e veredas, ao encontro da natureza e de mim próprio. Num constante ultrapassar desafios. Num tentar entender o ser humano.

 

Sou absolutamente telúrico e algo agnóstico.

 

E, se é assim, porquê os Caminhos de Santiago?

 

Também pode ser entendido por estar na moda, mas, julgo, não ser esse o meu caso. O culto ao Santo iniciou-se numa época – a Idade Média – num período profundamente instável e que, historicamente, o identificamos com o nome de “A Reconquista”. A partir daqui, toda a história da Península Ibérica e, porventura, de toda a Europa, sofreu uma profunda transformação.

 

Como época, tão instável e violenta, gerou, simultaneamente, um movimento não só de grande fé como também de eclosão cultural, tão patente na arte românica e gótica, disseminada por todo o território das peregrinações.

 

A partir daqui, sobrevêm-me um conjunto de interrogações: como é que aqueles que estiveram na origem do ressurgimento de uma nova civilização – a Igreja, com todas as suas Ordens e Mosteiros – depois se transformaram em parasitas e exploradores da sociedade? E como é possível que, com as “desamortizações”, em plena época liberal, se tenha, por sua vez, atentado tanto contra o património? Até onde chega a “gula” humana?

 

Estas, e outras questões, são o ensejo para iniciar o Caminho. Questões que fazem parte das minhas congeminações solitárias, enquanto percorro etapas e, no intervalo, quer da contemplação de um bonito trecho da natureza ou de uma obra de arte, que entretanto surja, ou ainda entre “dois dedos de conversa” com um “paisano” mais desinibido no se relacionar.

 

E também a circunstância de conhecer o “outro”, nosso irmão aqui tão perto, um alter ego, nascido da mesma ninhada de que se fizeram os portugueses do norte – os nossos vizinhos galegos.

 

E como somos tão parecidos!

 

É todo este fascínio – pela natureza, pela arte, pela história, pelo irmão galego, tudo sentido tão perto e presencial – que me leva a aceitar desafios e correr riscos.

 

Na Galiza, é como se estivesse em minha casa. Os galegos, com quem tenha muitas amizades e alguns bons amigos, são meus irmãos. De verdade.

 

Feita a visita ao interior da Catedral, meu objectivo estava cumprido.

 

Agora sim, meu joelho e bolhas despertaram-me para uma dolorosa realidade: o tratar das mazelas e descansar.

 

Na Praza Cervantes está um restaurante, farto e económico, muito frequentado por estudantes – Casa Manolo. Foi para lá que nos dirigimos.

 

 

Depois de comer, só queria ver percorrido o espaço que dali me levava à estação dos caminhos de ferro de Santiago. Descer as escadas daquela estação então é que foi um verdadeiro suplicio.

 

Tomámos o comboio em direcção à estação de Laza, localidade donde partimos, mas que, por sinal, fica bem mais distante do centro da vila.

 

Já lá se encontrava à nossa espera o amigo de Fabios, Tó, uma personalidade simpática e muito querida. Que nos levou até à nossas casas. E despedindo-nos com a promessa que, em Dezembro, faríamos o Caminho do Norte.

 


publicado por andanhos às 22:21
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 9 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.5)

 

Quando acordei, nem queria acreditar que o pesadelo do dia anterior se tinha esfumado. Parecia outro: a febre tinha desaparecido, a disposição era outra e até as bolhas parece que tinham combinado não me atormentarem tanto.

 

Acordei os meus companheiros de caminho que, olhavam para mim, estupefactos. E toca a andar…

 

A jornada de hoje vai-se despedir da província de Pontevedra, do concelho de Lalin e do rio Deza para abraçar as terras do Trasdeza, o concelho de Silleda e, já na parte final, o rio Ulla e a província de A Coruña, que começa mesmo na povoação de Ponte Ulla.

 

A bacia hidrográfica do Ulla e Deza é a segunda da Galiza, depois do rio Minho e rio Sil.

 

O rio Deza desagua no rio Ulla e este, por sua vez, vai desaguar na bonita ria de Arosa, depois de ter percorrido 130 Km.

 

Hoje, a exemplo do que já vem acontecendo com as duas últimas etapas, andámos a jogar o “cão e o gato” com a Estrada Nacional nº 525 (Carretera N 525), nossa companheira inseparável.

 

Também, mais desde a etapa de ontem, e particularmente na de hoje, fiquei com a sensação que passávamos numa área onde havia uma grande concentração de “Pazos” (Paços). Só a título de exemplo: Pazo de Louzado; Pazo de Donfreán; Pazo de Liñares Oeste; Pazo Cibrán; Pazo de Transfontao; Pazo de Ribadulla; Pazo de Ximonde; Pazo de Vista Alegre; Pazo de Andeade; Pazo de Marqués de Montesacro; Pazo de Ortigueira; Pazo Vilar de Ferreiros; Pazo e Capilla de la Obra Pia de San Antón; Pazo Guimaráns; Pazo de Oca.

 

Deixo aqui duas imagens relacionadas com dois desses "Pazos" – a avenida de oliveiras do Pazo de Ribadulla e o exterior do Pazo de Oca

 

(Avenida das oliveiras do "Pazo" de Ribadulla)
(Exterior do "Pazo" de Oca)

 

Depois de passarmos por Vilasoa e Prado, fomos ao encontro da ponte de Taboada sobre o rio Deza. O entorno desta ponte é muito aprazível. Ainda se encontra parte da calçada, nas suas proximidades. Aproveitamos para um ligeiro descanso e para tirarmos umas fotos. E “andantibus”, pois o caro Fabios tem pressa…

 

(Calçada que leva à ponte de Taboada)
(Ponte de Taboada)

 

Continuámos por Tansfontao e Silleda. Até aqui tínhamos percorrido 9,5 Km da etapa.

 

 

Entre San Fiz, aldeia de Margaride, e a Toxa (Km 13,5) passámos por bonitos caminhos.

 Deixo aqui duas imagns de dois troços  do percurso. 

 

(Troço 1 da 5ª Etapa)
(Troço 2 da 5ª Etapa)

 

Sabíamos que por aqui era a célebre queda do rio Toxa. O nosso objectivo era mesmo o caminho. A “fervenza do Toxa” fica para outra altura. De qualquer das formas, aqui fica um registo.

 

("Fervenza" do Toxa)

 

Era meio dia quando chegámos a Bandeira. Parámos num café: abastecemos o estomago de combustível e descansámos um pouco.

 

Depois foi passar por Casela, Vilariño, Dornelas (aqui, a igreja de São Martinho tem uma abside muito parecida com a de São Pedro de Vila Nova de Dozón), O Seixo e Castro.

 

Neste troço as minhas bolhas rebentaram-me e começaram-me a incomodar muito. Era muito asfalto e o calçado (sapatilhas) que levava mostrou-se o menos adequado para estes pisos.

 

E, como se isso não bastasse, ao descer para a povoação de Ponte de Ulla, com uma forte pendente, meu joelho direito “crashou”. Foi um esforço hercúleo descer aquela pendente.

 

Na ponte sobre o rio Ulla

 

 

ainda tive um pouco de disposição para tirar uma foto à ponte ferroviária de Gundián, mais conhecida por Ponte Ulla

 

 

Ainda deu para tirar uma foto à fonte e à capela de Santiaguiño mas, decididamente, não podia andar mais.

 

(Fonte de Santiaguiño)
(Capela de Santiaguiño)

 

Informei os meus companheiros que não aguentava mais e que, por isso, dali até ao cimo, no Outeiro, iria de táxi. Apesar dos seus protestos e outros “epítetos”, tomei um táxi, que estava ali mesmo à mão – sabe-se lá porquê? – e fui até ao albergue.

 

Entretanto meus companheiros, a todo o gaz, treparam por ali para cima com as maiores das facilidades e quase chegaram ao mesmo tempo de que eu.

 

O albergue, sito em Outeiro, São Pedro de Vila Nova, concelho de Vedra, instalado num local estratégico e tipicamente rural, agradou-me sobremaneira.

 

 

Depois do banho, e enquanto descansava, antes do jantar, ouvir um companheiro de camarata, das Canárias, e todo fresco, dizer que já vinha de Sevilha a pé, provocou-me uma grande frustração. Mas ficou, a partir daquela conversa, o “bicho”, partilhado com os meus companheiros de jornada, de um dia ainda fazermos aquele percurso todo, desde Sevilha, mesmo que não seja todo de uma só vez.

 

(Janela - Algures pelo Caminho deste dia)

 

 

 

 

 

 

 

 

 


publicado por andanhos às 22:36
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.4)

 

Foi a etapa mais longa do Caminho.

 

Quando cheguei ao albergue de Laxe, que alguns dizem ser vanguardista, inaugurado em 2004, mas que nem sequer me apercebi de tal, estava todo “roto”. As bolhas doíam-me “tamaninho” e sobreveio-me febre.

 

Depois de tomar banho, deitei-me, e cuidei que o meu caminho tinha acabado ali. Não comi nada, estava tiritando de frio, por causa da febre. Pedi ao Fabios e ao Mito(k), que entretanto foram comer ao centro da povoação, que me trouxessem uma peça de fruta. Quando chegaram, Mito(k) informou-me que não conseguiu arranjar fruta nenhuma. Comi uma bolachas, enquanto Mito(k), numa das máquinas automáticas que havia no albergue, me preparou um chã para tomar comprimidos para a febre, que trazia no meu kit de medicamentos. Estava num estado deplorável, suando muito, pela febre alta que tinha. Praticamente, despedi-me dos meus companheiros do caminho, tal o estado em que estava. Mito(k), via-lhe nos olhos, não só carinho, mas também tristeza. Doces 14 anos…

 

Contudo, de manhã, qual “Fénix renascida”, estava pronto, e bem disposto, não fora as incomodativas bolhas dos pés, também fruto de um mau planeamento da escolha (compra) das sapatilhas. Para além de serem demasiado frágeis, tinha andado pouco tempo com elas para me adaptar. Enfim, coisas de “maçarico”.

 

Nesta etapa, para mim interminável, dissemos adeus à província de Ourense para nos embrenharmos na de Pontevedra, em A Grouxa, passando por Castro Dozón, mais adiante, no alto de São Domingos (700 metros de altitude), nas imediações de Lalin, o maior concelho da província de Pontevedra, e o quarto da Galiza, situando-se mesmo no centro geográfico da Comunidade Autónoma da Galiza.

 

Mas vamos falar um bocadinho do itinerário desta etapa que, como digo, foi um osso duro de roer.

 

Como disse, optámos por não ir por Oseira para ver o Mosteiro.

 

Saímos de San Cristovo de Cea, como sempre de madrugada, para não apanharmos muito calor pelo caminho.

 

O sítio do Mundicamino refere que, ao sair da povoação, pela rua de San Lourenzo, encontramos um “monumento à mulher que amassa no seu forno de lenha”. Infelizmente não o vi. De qualquer dos modos a sua imagem aqui fica: a internet para estas coisas sempre vem ao nosso socorro para completar o que o descuido ou a falta de lembrança deixaram para trás.

 

 

Bem assim a Igreja da Virgem da Saleta.

 

 

Seguimos depois em direcção a Porto do Souto, Cotelas e Piñor. Entre Cea e Porto Souto, não deu para ver o Pazo de Reda, junto do rio Silvaboa. Nem em Piñor, ver o seu Mosteiro. Fabios, que, invariavelmente, imprime o ritmo das jornadas, é um autêntico “papa léguas”. É de invejar a sua pedalada!...

 

De qualquer das formas, aqui fica o testemunho da nossa passagem ao longo do rio Silvaboa, com imagens do seu curso e respectiva ponte.

 

(Rio Silvaboa)
(Ponte sobre o rio Silvaboa)

 

Passámos por O Reino, Carballeda e A Corna.

 

Aqui ainda deu tempo para tirar uma fotografia à igreja de Santa Maria do Desterro. Ela aqui fica na sua singeleza, a testar a enorme influência que o Mosteiro de Oseira tinha por estas paragens. Um dos escudos, apostos na parede da fachada principal, do seu lado direito, é do Mosteiro de Oseira. Trata-se de uma construção dos finais do século XVIII. No seu interior, que não vimos, por se encontrar fechada, encontram-se imagens, quer barrocas, quer rococó, do Santo Cristo.

 

 

Entre Vidueiros e Castro Dozón, em pleno vale do rio Deza, a paisagem mescla-se entre o verde e uma profusão de povoações, onde não faltam os respectivos “hórreos” (espigueiros ou canastros).

 

(Paisagem do vale do Deza)
(Dois dos muitos espigueiros "hóreos" disseminados pela paisagem)

 

Nas proximidades de Castro Dozón, no lugar de Mosteiro, encontra-se a igreja conventual de São Pedro de Vila Nova de Dozón, jóia do românico galego do século XII, que pertenceu a um cenóbio beneditino feminino que, a partir do século XVI, passou a depender de San Paio de Antealtares.

 

Nas minhas deambulações pela Galiza com a Ni, percorrendo a Ribeira Sacra, e fazendo a rota do românico, tirei algumas fotografias desta igreja que ponho três delas à partilha com o leitor. A primeira é de perfil, por falta de ângulo, em virtude do cemitério que lhe está contíguo.

 

 

É pena a construção ao lado da única abside da igreja lhe tirar grande parte da visibilidade desta jóia românica.

 

 

Chamou-me a atenção, ao lado da portada principal, uma pequena imagem da virgem com o menino.

 

 

O progresso, que traz consigo as modernas infra-estruturas de comunicação, causam algum transtorno ao peregrino que anda a pé. Entre Dozón e A Xesta, o ziguezaguear do caminhante é constante, devido à construção da AP-53, entre Ourense e Santiago, que naquela altura estava em fase de acabamento. Do alto de um dos seus viadutos, deslumbra-se o serpentear desta moderna infra-estrutura rodoviária.

 

 

Nas proximidades de Doxión, descansámos um pouco junto de uma ermida. Fazia calor já. O alpendre da ermida convidava a um pequeno descanso.

 

Em Puxallos, Balcabado, num dos jardins de uma moradia, uma impressiva e bem executada estátua do Apóstolo Peregrino, e respectivo cruzeiro, chamou a minha atenção.

 

 

Depois de A Xesta, parámos um bocadinho da estação de Caminho de Ferro de Lalin, em Botos. Bebida uma refrescante “canã”, continuámos caminho.

 

 

O Caminho, contudo, por estas paragens era duro para as minhas bolhas, com demasiada gravilha. Foi um verdadeiro sacrifício percorrer esta parte final.

 

Após passarmos o rio Cabirtas e de mais um atravessamento da AP-53, a 100 metros da Estrada Nacional 525, depois de uma pequena subida,

encontrámos o albergue.

 

 

Estava, positivamente, todo “roto” e num estado lamentável.

 

Deixo, finalmente, aqui duas imagens de impressivas paisagens das redondezas do caminho de hoje.

 

(Carvalheira de Crespin)
(Fraga de Catasós)

publicado por andanhos às 18:59
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.3)

 

Saímos de Ourense pela Ponte Velha sobre o rio Minho.

 

Depois de sairmos do perímetro urbano, apercebo-me que deixei a minha carteira, com documentos e dinheiro, no albergue.

 

Lá tive de pegar num táxi e voltar ao albergue, enquanto Fabios e Moti(k) aguardaram por mim.

 

Por sorte, ou honestidade dos ocupantes, a carteira lá se encontrava intacta na cama da camarata onde dormimos.

 

Voltei de táxi ao encontro dos meus companheiros.

 

E lá tivemos que subir o afamado Caminho Real. Rica estopada!

 

Subimos o Caminho Real até Cudeiro Norte e, mais à frente, pelo Caminho da Costa, com restos de antiga calçada empedrada.

 

Optámos por ir por Sartédigos, em vez de Caschasúas, Liñeares e Mandrás.

 

Depois de Sartédigos, o Caminho foi agradável e aprazível: ora nos aparecia o bosque típico de carvalhos (robles) e castanheiros;

 

 

 

 ora casas (moradias) disseminadas pela paisagem; ora vinhedos, junto às casas;

 

 

 ora ainda as cortinhas tão tipicamente galegas como do Norte de Portugal.

 

 

Tive pena de, em Tamallancos, não ter visto o Paço barroco de Tamallancos, do século XVIII, um dos cinco paços pertencentes a Villamarin, entre eles o célebre Paço de Villamarin. Segundo María Teresa Ribera Rodríguez, o Paço de Villamarin pertenceu ao conde de Ribadávia e foi destruído durante a Revolta Irmandiña, em 1467. É actualmente propriedade da  Deputação Provincial de Ourense.

 

Em Sobreira, passámos por uma ponte de pedra sobre o rio Barbantiño, do século XIII ou XIV.

 

 

Finalmente chegámos a San Cristovo de Cea, a “Vila do bom pão”.

 

Pese embora a sua torre do relógio e o edifício da Casa do Concello, na Praza Maior,

 

 

como alguém dizia, o pão “moreno” de Cea apenas necessita de publicidade, porquanto não há nenhum monumento histórico na povoação que lhe arrebate o primeiro lugar.

 

 

Só de fornos tradicionais, a lenha, existem 20, com 16 ou 17 em elaboração.

 

Têm os mais variados e sugestivos nomesForno do Santo; Forno da Parapeta; Forno da Rua; Forno do Abade; Forno da Burata; Forno da Pepita, entre outros. Mostramos duas fotos, de dois deles, e o interior de um outro, com o respectivo contexto da sua implantação:

 

(Forno do Abade)
(Forno do Santo)
(Interior de um forno)

 

Historicamente, Cea desenvolveu-se em paralelo com o Mosteiro de Oseira, que lhe fica a 9,5 Km, por estrada.

 

Se bem que antigamente os monges de Oseira ditaram, de acordo com uns censos do século XVIII, que toda a povoação vivesse para o fabrico e produção do pão, hoje em dia já não é assim.

 

Quando, em 2007, fiz este Caminho, fiquei com imensa pena por não ter ido visitar o Mosteiro de Oseira. Naquele altura deixei-me dormir, depois de ter pregado uma partida a Fabios – esconder-lhe a flauta – para não me fazer barulho e me deixar a descansar, tranquilo. Entretanto, alguns companheiros do albergue, alugando um táxi, foram-no visitar. E eu que tinha mostrado tanto interesse também em ir, “fiquei em terra”.

 

E fiquei com aquele “bicho” de lá ir, uma vez que, na jornada do dia a seguir, optámos por não passar por lá, dado ser uma alternativa muito mais longa.

 

Há poucos dias fui lá passar dois dias com a Ni, na Hospedaria do Convento. Na secção três, desta reportagem, sob a epígrafe Destaque(s), falarei mais detalhadamente sobre este Convento e sua respectiva Igreja.

 

O pão que nestes últimos dias comi no Mosteiro era efectivamente muito bom, contudo, como fomos informados pelo irmão hospedeiro Alfonso, um dos 18 monges da actual comunidade, já não é em Cea que o Mosteiro se abastece, mas num outro concelho ao lado, O Reino. Coisas dos tempos…

 

As instalações do albergue, sitas na Casa das Netas, que pertenceu durante muito tempo aos “cobradores dos tributos do partido de Cea”, “gentes acomodadas”, é um exemplar da arquitectura tradicional rural, adaptada para albergue de peregrinos.

 

Aqui ficam três imagens dele:

 

(Exterior do albergue)
(Terraço do albergue)

 

Queria agora apresentar quatro ilustres personagens, oriundos de Bilbau, que encontramos a partir do albergue de Ourense. Aqui deixo as suas respectivas imagens que, suponho, deverei ficar perdoado por as ter publicado sem a respectiva permissão dos ditos.

 

 

Acompanharam-nos durante parte de Caminho até Santiago. Como faziam parte de um grupo, tinham o seu ritmo próprio. Aqui e ali íamo-nos encontrando e confraternizando.

 

 

 


publicado por andanhos às 22:18
link do post | comentar | favorito
|

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.2)

 

Apesar de ter pouco mais de vinte quilómetros, foi uma etapa chata: um nunca acabar de estradas em asfalto, que me puseram os pés com bolhas.

 

E depois o atravessar o polígono (industrial) de San Cibrao... E mais ainda o atravessar a cidade inteira de Ourense para chegar ao albergue!

 

 

À saída de Xunqueira de Ambía, atravessámos o rio Arnoia que, com o rio Tâmega, nasce na serra de São Mamede. O Arnoia corre 84 Km até se lançar no rio Minho. Do Minho, comparado com o rio Sil, dois dos grandes rios da Galiza, diz-se: "O Minho leva a fama e o Sil a água".

 

Passámos por Seixalbo e, infelizmente, não me apercebi daquela povoação, declarada como Conjunto de Valor Etnográfico. Numa das próximas idas a Ourense não me esquecerei de passar por lá.

 

Na localidade de A Venda do Río conflue a variante do Caminho Sanabrês da "Via da Prata"que da A Gudiña vem por Verin, Monterrei, Xinzo de Limia e Allariz.

 

No polígono de San Cibrao descansámos num dos bares e bebemos uma "caña". Fabios foi, entretanto, matar saudades para a internet do bar.

 

Deixo-vos aqui, para uma leitura atenta e divertida, três dos muitos azulejos exibidos por tudo o que é canto do bar.

 

 

Ao chegarmos ao albergue, no cimo da cidade, junto ao moderno Auditório Municipal,

 

 

e instalado numa das dependências do Convento de São Francisco,

 

 

todos encharcados de suor, em vez de termos as portas abertas para um refrescante banho, tivemos de esperar quase duas horas - até às 16 horas - hora da abertura do albergue. O que tem de ser, tem muita força…

 

Mas não foi preciso muito para passar pelas "brasas", num recanto do edifício, encostado à parede.

 

 

Após o banho e um merecido repouso, aventuramo-nos pelas ruas do centro histórico de Ourense.

 

Numa das explanados de um bar, enquanto nos refrescávamos com uma "caña", apareceu o meu caro amigo Martínez-Risco Daviña. Andava dando umas voltas pela sua cidade.

 

Não vou hoje, e aqui nesta secção, descrever o que de mais interessante tem Ourense para mostrar ao visitante. Vou deixar essa reportagem sucinta para a terceira secção desta reportagem.

 

Quando foram horas da “janta”, dirigimo-nos a uma dos  restaurantes do centro histórico, “O Forno do Paxaro”, e "enchemos a mula” de marisco, bem regados com o afamado vinho d’“O Ribeiro”.

 

E, depois, "deita", num simpático albergue, com alguns "roncos" pelo meio.

 

 

 

 

 

 

 


publicado por andanhos às 16:38
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 5 de Março de 2012

Pelos Caminhos de Santiago - Na Galiza (Via da Prata 2.1)

 

 

Foi em Setembro de 2007 que combinei com o meu amigo Fabios efectuarmos o Caminho Sanabrês da "Via da Prata", começando por Laza. Acompanhou-nos o Mito(k), filho do Fabios. Um companheirão!

 

Já não me recordo exactamente em que dias o efectuámos. Não andarei muito errado se disser que foi em meados do mês, mais lá para o fim do que para o princípio. A memória já não é o que era!

 

Combinámos que iríamos na véspera ficar ao albergue de Laza para depois, de madrugada, "botar caminho".

 

Ao fim da tarde, a mulher do Fabios transportou-nos até às imediações de Laza, no seu Jeep verde. Fabios fez questão de parar nas proximidades e efectuarmos o percurso de perto de um quilómetro até ao albergue, a pé. Dizia que, se não efectuámos o Caminho nesse dia, em bom rigor, não tínhamos direito a pernoitar no albergue. Chinesices, dizia eu; coisas sérias, dizia Fabios, para quem as regras são para se cumprirem. E Mito(k) rematou: meu pai é "como manda a sapatilha".

 

No albergue foi um final de dia tranquilo, entre nos acomodarmos, cumprimentarmos três ou quatro caminhantes, que já lá se encontravam, petiscarmos qualquer coisa, ler um pouco, e jogar uma partida de cartas com o Mito(k).

 

 

(Albergue de Laza)

 

 

Uma pequena advertência.

 

Não vamos neste apontamento das etapas deste Caminho fazer uma descrição exaustiva do itinerário de cada uma. Já há muita gente que, tendo feito o Caminho, o faça nos seus respectivos blogues.

 

Aqui apenas farei referência àquilo que mais me ficou da jornada - e que a memória deixou guardar pedaços dessa vivência.

 

Relato que apenas vincula o autor destas letras, não representando, por isso, o partilhar das mesmas vivências pelos meus companheiros. Palavras necessárias, porquanto cada um vive e vivencia o Caminho de modos muito diferentes.

 

Desta feita, em cada etapa, quando achar necessário, ou interessante, faço uma descrição sumária do seu itinerário, enfatizando as dificuldades, se porventura as houver; relevando algumas curiosidades ou eventos que entretanto tenham surgido; referindo o património, quer natural quer construído, que me tenha despertado mais atenção. Digo despertado atenção, e com alguma razão, pois, ao longo de uma longa e dura jornada, a nossa atenção está mais virada para o descanso e repouso do que para a contemplação da natureza e do património. Mas, enfim, sempre alguma coisa fica...

 

 

 

Saímos de madrugada com as luzes da iluminação pública ainda acesas.

 

 

Entrámos na estrada OU-113 e cruzámos o rio Tâmega. Passámos por Soutelo Verde e Tamicelas.

 

Depois de andarmos aproximadamente sete quilómetros, começou o meu calvário – a subida do monte Travesa. Tive de parar duas vezes na subida, enquanto Fabios e Mito(k) dispararam por ali acima.

 

Na subida a paisagem é deslumbrante.

 

Finalmente consegui chegar ao cimo.

 

Logo a seguir aparece a povoação de Alberguería. Começou a “muliscar”.

 

Pelo esforço despendido, merecemos um pequeno-almoço reforçado servido pelo simpático proprietário do Rincón del Peregrino.

 

Depois de “botarmos assinatura” numa vieira e de a colocarmos no tecto, como é da praxe, deitámo-nos ao caminho.

 

 

Em Vilar de Barrio parámos no albergue para descansar um pouco e retemperar forças. O sol começava a mostrar a sua graça.

 

Entre Gomareite e Bobadela, o Caminho parece que nunca mais acabava: foi o ultrapassar uma recta de 3,5 Km, na lagoa de Antela, zona húmida natural, recuperada com obras de engenharia na década de 50 do século passado para a produção agrícola. A batata é uma das maiores produções destas terras.

 

 

Depois, entre campos de “berzas”, pequenas povoações e “hórreos” (espigueiros), finalmente chegámos ao albergue de Xunqueira de Ambía.

 

 

32,7 Km que pareciam nunca mais acabar! Para primeira etapa foi de estoirar.

 

Apenas cheguei ao albergue, banho e cama.

 

(Xunqueira de Ambía - Cruzeiro do Adro da Igreja)

 

Como o albergue fica um pouco fora do centro, tivemos de ir a pé, de chinelos, pois já não podia com as botas, para comermos.

 

(Xunqueira de Ambía - Varanda em pedra da Casa "Adega Xunqueira")

 

Depois de comermos no Café Bar Saboriño, fomos dar uma volta pela vila.

 

Aqui fica uma breve reportagem fotográfica, sem pretensões, imagens captadas pela Nikon 200, que também muito contribuiu para o esforço do dia.

 

(Xunqueira de Ambía - Pormenor de uma casa)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor de uma rua)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor de uma rua)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor de uma rua)

 

Mas, o que marca mais presença na vila é a sua igreja e aquilo que em tempos foi mosteiro, Colegiada de Santa Maria la Real de Xunqueira de Ambía, hoje dependências da Casa do Concello.

 

(Xunqueira de Ambía - Mosteiro e Igreja vistos do albergue)
(Xunqueira de Ambía - Fachada da Igreja virada a norte)
(Xunqueira de Ambía - Fachada Principal da Igreja)

 

Do que se sabe, daquilo que em tempos foi um cenóbio, é que o mesmo foi entregue por Alfonso VII ao Cónegos Regulares de Santo Agostinho (em concreto ao priorato de Sar), no século XII, época em que se construiu a igreja românica. Possui três naves e três absides. Apresenta-se alguns pormenores da portada principal

 

(Xunqueira de Ambía - Fachada Principal da Igreja)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor da Portada Principal da Igreja)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor da Portada Principal da Igreja)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor da Portada Principal da Igreja)
(Xunqueira de Ambía - Pormenor da Fachada Principal da Igreja)
e da abside
(Xunqueira de Ambía - Pormenor de uma janela da abside principal)

 

No seu interior, encontramos um órgão, aparentemente em bom estado e o chamado “falso trifório”, com manifesta influência da catedral compostelana.

 

 

O claustro, do lado sul, que não tive oportunidade de visitar por se encontrar em obras, não é românico, outrossim de um estilo a meio caminho entre o tardogótico e o renascentista, com clara influência portuguesa.

 


publicado por andanhos às 22:32
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 7 seguidores

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15

17
18
21
22
23

25
26
27
29
30


.posts recentes

. Por terras da Ibéria - Tr...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras de Portugal - ...

. Versejando com imagem - A...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

. Palavras soltas... Em dia...

. Ao Acaso... Com Torga, fa...

. Reino Maravilhoso - Barro...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo