Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010

MEMÓRIAS DA MINHA INFÂNCIA (I)

 

 

Quando, há dois anos, em conversa com amigos e familiares, abordávamos os lugares da nossa infância, fiquei com a ideia que a poeira do tempo tinha acabado por apagar quase tudo.

 

Inconformado, tomei a resolução de, em dois ou três dias, percorrer a pé, os lugares e caminhos por onde a minha infância se tinha passado, na esperança de me reavivar aquele tempo…

 

 

E tomei também a decisão de fazer aquele percurso sozinho. [O que não veio depois a acontecer. O meu amigo “Rex” não me largou durante o percurso da terra natal de minha mãe (Loureiro) até Santa Maria (Mesão-Frio), terra natal de meu pai e minha].

 

 

Em finais de Outubro de 2008 fiz o percurso que vai de Loureiro a Oliveira, passando por Nostim, Mártir e Cidadelhe para depois regressar a Oliveira.

 

 

A essência do lugar, lá está. Tudo o resto é um outro mundo que já nada me diz, nada tem a ver comigo. Faltam as pessoas, aquelas pessoas, para que tudo aquilo faça algum sentido.


O ensejo da passagem pelos lugares incitava-me à memória. Mas a memória agora prega-nos partidas. Da minha infância, hoje, apenas guardo recordações esparsas, entrecortadas, faltando-lhes o fluir dos dias. Tudo me parece já tão longínquo, tão distante!

 

 

As gavetas da memória, outrora tão arrumadas, desapareceram com o tempo. Apenas sobraram pequenas impressões, sem nexo, desencontradas umas das outras.: era o jogo da bola na rua; e da bugalha e do arco; o comer a sopa de cebola ao “mata bicho” na companhia do meu padrinho, quando em Fevereiro, escavava na vinha; o roubar o mel do armário da minha madrinha; o fazer os cigarros ao meu avô, já demasiado trémulo; o mês de Maio, mês de Maria, e as idas ao terço à noite com a minha mãe, e o correr a apanhar os pirilampos; o nascimento da minha irmã mais nova e o caldo de galinha; as brincadeiras e ciúmes que tinha dela; as noites passadas na azenha a ver os homens fazer o azeite; o que bem me sabia as batatas com bacalhau, na vindima, servidas entre calços; o medo de estar sozinho no quarto enquanto meu irmão mais velho saía à noite; a alegria e o reboliço do fazer os fritos e doces no Natal; as brincadeiras no infantário da paróquia (já naquele tempo havia um infantário, mercê da dinâmica de um padre – um dos Ribeirinhas, de Vilarandelo, José Ribeirinha Machado); o queijo da CARITAS que lá se comia; o sinapismo do óleo de fígado de bacalhau que à refeição nos obrigavam a engolir; a alegria da caixa mágica, a preto e branco, no Salão Paroquial - que assombro!; as tardes metido na carpintaria do senhor Manuel Pereira, a ver fazer pipas e mobílias.

 

 

Eram as trovoadas de Agosto (e o meter-me debaixo da cama embrulhado num grosso cobertor) e as alicantinas da minha mãe para as espantar. Ainda me martela aquela oração a Santa Bárbara que ela rezava nessas ocasiões:


Santa Bárbara pequenina

Com a torrinha na mão

Pede ao Verbo Divino

Que abrande este trovão

Senhora Santa Bárbara

Se vestiu e se calçou

Ao caminho se deitou

E Nosso Senhor lhe perguntou:

Bárbara, para onde vais?

Senhor, eu convosco vou

Espalhar as trovoadas

Por esses montes maninhos

Onde não haja pão nem vinho

Nem meninos a chorar

Nem galinhos a cantar

Jesus, nado, nado,

Jesus, me quero salvar!

 

Enfim…

 

Os meus brinquedos eram a rua, a terra, os calços das vinhas e os montes. Era aí que decorriam as minhas brincadeiras, feitas de diabruras que pregávamos uns aos outros.

 

Que me lembre, nunca tive muitos brinquedos. Um ou outro que me davam por festa. Éramos pobres.

 

 

Enterrado nas lamas das ruas iniciei as minhas brincadeiras de criança. Eram pontes, rios, lagos, casas. Era este todo o mundo que me rodeava, moldado com água e terra. Era o jogo da buraca com os bugalhos do monte. Era o rebolar pelas folhagens dos soutos e o andar às castanhas. Eram as cenas divertidas de andarmos pelas vinhas a roubar uvas e o dono a aparecer, ameaçador, mas benevolente, a correr connosco com o rabo da vassoura. Eram as maravilhosas tardes de verão passadas no ribeiro de Soromenha.

 

Como ainda hoje, quando vou a Santa Maria visitar os meus padrinhos e o meu tio Zé, pelo caminho que me leva às duas casas, quão bem ainda me soam aqueles sons, já tão distantes, das suas águas, de queda em queda, sem parar!

 

 

Como de verão a água na aldeia era pouca, o tanque público estava quase sempre vazio. Por isso, as mulheres, não tendo onde lavar a roupa, à segunda-feira, formavam ranchos em direcção à ribeira. De manhã, antes do romper da aurora, levantavam-se para fazer a merenda e, ao nascer do sol, lá iam elas, com sua roupa suja enfardada e metida nas bacias que levavam à cabeça, acompanhadas de seus petizes. Estes não lhes largavam a roda das saias. Mas alguns, mais ousados, organizavam correrias para ver aquele que chegava lá primeiro.

 

 

Só visto! Era uma autêntica alegria. E, no meio disto, nossas mães berrando:  “oh António, oh Zé, anda cá, meu filho! Não corras tanto que o caminho é muito ao fundo e podes quebrar a cabeça e as pernas! Anda cá, ouviste? Oh alma danada! Onde ele já vai, olhem só, que correria! Este rapaz mete a minha alma no inferno!". E a ladainha continuava, continuava… quanto mais falavam mais vontade tínhamos de andar. E, cansados, arfando, chegávamos ao ribeiro. Deitávamo-nos sobre as ervas secas na margem e nelas nos rebolávamos e revirávamos. Eram o nosso doce leito.

 

O rio… Estávamos no rio…

 

Era uma festa, de gritos e pulos. Só então, muito depois, ao fundo da curva de um carreirinho é que elas apareciam, as nossas mães. Bacias à cabeça e mãos à cintura, caminhavam apressadas, tagarelando umas com as outras, bem-dispostas para um dia árduo de trabalho à tineira do calor. Como relatar este doce prazer de ver nossas mães contentes, todas suadas pelo calor e pelo esforço de esfregar a roupa, conversando animadamente umas com as outras? E quando cantavam? Que vozes que elas tinham!

 

 

Foram poucas ou quase nenhumas as canções que me ficaram de memória mas, passados que são tantos anos, ainda não encontrei paz de alma e enlevo semelhantes como, quando sentado todo nu em cima duma pedra lavada pelas águas de inverno, sentia ao escutá-las.

 

Eram vozes finas, melodiosas, que cantavam coisas da terra, do nosso Douro, o trabalho de seus homens, os seus amores, ciúmes, ódios… Como tudo isto era belo!

 

A pedra aquecia. Entretanto, um silêncio. E, com o rabo em brasa, aproveitava esta pausa que faziam para ir rio acima ter com os outros que já andavam a brincar.

 

Então era vê-los!... Em fila indiana, correndo uns atrás dos outros, percorríamos a margem para cima e para baixo, descalços, nus, as ervas roçando-nos pelo corpo. Não havia prazer mais voluptuoso…

 

E o que os saltaricos faziam à nossa passagem! Que eles também saltavam, pulavam… Que bichinhos tão pequeninos e como eles nos entendiam tão bem?! Também queriam saltar, pular, brincar connosco, vejam bem!

 

E neste frenesim delirante, cansado e exausto, vinha-me sentar ao pé de minha mãe.

 

Ela, ao ver-me assim tão suado e com a cara em brasa, dizia-me: "Ah meu fajardo, amanhã é que vai ser lindo. Depois eu é que tenho de te aturar, meu malandro. Ai se me apanhas uma pneumonia que te mato, meu garoto!".

 

Mas não ligava ao que ela dizia. Deixava-a falar, falar… E, muito meigamente, já mais calmo e menos suado, dizia-lhe: "Tenho fome, mãe, dê-me pão!". "Não, meu maroto, daqui a nada vamos comer. Deixa-te estar aqui, quietinho, ao pé de mim. Só me falta este par de calças do teu pai.".

 

E, assim, lavada toda a roupa, sentados na erva, à volta das toalhas estendidas no chão, só se viam rostos a escorrer suor, rubros, queimados pelo sol, comendo avidamente, com prazer.

 

Nesta altura, era um pandemónio, ninguém se entendia.

 

Depois de comer, e estendida toda a roupa lavada para enxugar, nossas mães deitavam-se à sombra das árvores a descansar ou a dormir, embaladas pela música sonora, penetrante, das cigarras e de todos os insectozinhos que só conheciam no ano o calor do verão.

 

Bem insistiam connosco para que também descansássemos mas, depois da barriga cheia, oh pernas para que te quero!

 

Brincávamos com tudo quanto encontrássemos e nos viesse à cabeça. Mas, o nosso jogo preferido, era o jogo das escondidas.

 

Cada qual procurava o sítio mais disparatado para se esconder. Os meus preferidos eram as ruínas dumas casas espalhadas pela margem. Petiz e arisco, de olhar trocista e malandro, corria que só visto! Quase sempre nunca davam comigo. Então, cansado de estar no esconderijo, saía e ia sentar-me na margem a ver a água correr.

 

Que interessante era a água. Ao ver a água a correr tão palpitante, parecia-me que ela até tinha alma, tal era a sua alegria naquele seu precipitar constante e apressado! E que maravilhosa espuma que ela fazia na queda!

 

Então levantava-me e corria a margem como um louco para ver quais nas quedas de água aquela que fazia mais espuma e a que era mais bonita. E donde vem a água? E lá ia rio acima, lá ia ver donde a água saía.

 

Mas, cansado de tanto andar, deitava-me à água e, mergulhando nela e refrescando-me, via-a andar, a correr… - "O que me roçou agora na perna? Olha, que bonito! Tantos peixes pequenininhos!". Desenfreado, então, procurava apanhar um. Mas os sacanas fugiam-me sempre, escorregavam das minhas mãos. Nunca se deixavam apanhar, aqueles marotos.

 

E, cansados e fartos de brincar comigo, metiam-se debaixo duns pedregulhos e nunca mais os via. “Já deve ser tarde. Vou ter com a minha mãe." - pensava eu.

 

Pelo caminho, encontrava os outros meninos que, já cansados de jogar às escondidas, andavam a trepar pelos fraguedos. Entusiasmado ia ter com eles, trepando também, fazendo autêntico alpinismo. E, enquanto subia ia com muito cuidado. Pensava:  “Um simples descuido nestas fragas e…  adeus, António, que lá vais para os anjinhos, como diz a minha mãe. E se morresse? O que é morrer?” - Já então pensava nisso.

 

Tinha assistido ao enterro de alguns bebés. Morrer, para mim, naquela idade, era não poder sentir mais aquela alegria de estar no rio, de estar com os meus amigos. Os meninos que se iam a enterrar nunca dali mais saíam para brincar connosco.

 

E, assim, sem darmos por ele, o tempo passava.

 

Então, ao longe, ouvíamos as vozes das nossas mães berrando pelos nossos nomes.

 

Todos aflitos, talvez porque fosse muito tarde e nossas mães, zangadas, nos batessem, íamos, margem abaixo, apressados e cabisbaixos, para junto delas.

 

Mas não, elas não nos batiam! Tinham lavado e enxugado a roupa, também se tinham lavado, aproveitando-se da nossa ausência e, com o sabão na mão, apressadas, contentes, lavavam-nos dos pés à cabeça. Uma vez enxutos, davam-nos o lanche, metiam tudo dentro das bacias e das cestas das merendas e iniciávamos a nossa viagem de retorno a casa.

 

Estava terminado mais um dia passado no rio. O sol já se começava a pôr. A nossa alegria ainda permanecia.

 

Mas o que se sentia mais nesses momentos era pena de o dia ter corrido tão depressa.

 

E tristonhos por termos de subir aquela encosta tão íngreme, quando estávamos tão cansados e exaustos! Era bem um autêntico calvário.

 

As pobres das nossas mães, coitadas, estafadas, ainda tinham que nos arrastar: a uns, pelas mãos; a outros, dizendo-lhes que se agarrassem às suas saias. E, ora pousa aqui, ora pousa acolá, chegávamos finalmente a casa.

 

Comíamos umas batatas cosidas com sardinhas ou com bacalhau e depois de uma malga de sopa… cama. “Dormia como um anjo” -, dizia minha mãe.


E coisa curiosa. Quando minha mãe me dizia na semana seguinte que ia para o rio, pulava, saltava de alegria. O longo e moroso regresso a casa nunca se me passava pela cabeça.

 

 

Um dia, numa tarde escaldante de Agosto, enquanto andava no terreiro da nossa casa entretido a brincar com pedras para fazer uma casa, oiço uns gemidos esquisitos na soleira da porta da casa da nossa vizinha. Olho e vejo que a senhora trincava os lábios e, ao mesmo tempo, punha as mãos no baixo-ventre que tinha enorme. Era a senhora Maria d’Almeida, a nossa vizinha pobre, mais pobre que nós e muito amiga da minha mãe.

 

Ao longo destes anos essa amizade pura e desinteressada ainda se mantém. Os seus filhos eram muito meus amigos e o senhor Zé Miguel, o marido, dava-me da sua malga as migas do seu caldo. Nunca comia lá muito bem a sopa em casa e deliciava-me com estas migas!

 

Ora, em face daqueles gemidos e daqueles trejeitos fiquei um pouco intrigado.

 

Pois se a senhora Maria d’Almeida era mais forte e podia mais que alguns homens; se ela nas vindimas, de trouxa à cabeça e cesta às costas fazia inveja a muitos homens, o que é que ela tinha?

 

Daí a nada vejo a casa dela a andar num burburinho, num autêntico reboliço. São pessoas a sair e a entrar numa pressa de atender a alguém que está para morrer. E eu, sem perceber nada. Quando vejo o homem a correr para casa, uma senhora autoritária a pedir uma bacia de banho com água quente e oiço gritos de criancinha, fiquei muito perplexo e pensei, cá para os meus botões, que ali havia marosca.

 

Ao ver as roupas cheias de sangue e umas coisas esquisitas embrulhadas para lá, comecei a ficar cheio de medo e perguntava-me: ”O que terá acontecido? Donde saiu aquilo?”.

 

Mais tarde, fui a casa da senhora Maria d’Almeida. Já só estavam os da casa. E como costumava andar naquela casa como da minha se tratasse, fui meter o nariz dentro do quarto onde ela estava. Foi então, aqui, que tudo se me deparou claro.

 

E que espectáculo maravilhoso aquele! Uma senhora de trinta e tal anos, sempre forte e destemida, de enorme cabeleira preta, com os cabelos em desalinho, espalhados pela travesseira, ainda húmidos, cheios de suor, com a combinação caída pelos ombros e aberta à frente, olhava embebecida, de olhos cansados, duas crianças, uma de um lado e outra doutro de duas enormes mamas, enquanto os seus dedos das mãos seguravam com prazer e davam com carinho dois biquinhos rosados, redondos e erectos à boca daqueles ávidos petizecos.

 

Como aquilo me fascinou!

 

Daí para a frente não foi preciso dizerem-me donde, na verdade, vinham os meninos. A barriga onde estava?

 

Ah! Contente por esta descoberta nela falava frequentemente aos meus companheiros de brincadeira. Tratava-se duma coisa gira, bonita, mais bonita do que as cegonhas que nunca as tinha visto com os seus cestinhos.

 

Agora compreendia porque meus pais me queriam tanto. Nós éramos deles.

 

Mas como talvez tivesse dado à língua demais (no ver deles) a minha mãe repreendeu-me severamente e disse-me que era feio falar naquelas coisas. Eu, que tinha descoberto uma coisa tão bonita e maravilhosa, era obrigado a ter de me calar porque os meus pais, que sabiam aquilo que diziam, diziam-me que era feio falar naquelas coisas! …

 

 

Do meu pai só possuo vivas duas recordações. Estava ele na Casa do Povo, onde trabalhava, depois que teve o ataque no dia em que eu nasci e do qual ficou ileso dum braço e duma perna, quando eu lá chego para por lá ficar entretido com ele e os seus papéis.

 

“Mas não estragues nada, está bem?” -dizia-me ele frequentemente. A certa altura, diz-me com os seus olhos profundos e tristes: "Olha, meu filho, vai à fonte buscar este jarrinho de água". Entretanto passa-me a jarrinha para uma das mãos e, na outra, põe-me uma moeda de $50 e diz-me: “É para ti, guarda-o”.

 

 

A outra foi numa cegada. Na altura da sesta, com a sua bilhinha de água fresca ao lado, pegou no livro da primeira classe que trazia num bolso grande do casaco (ainda não andava na escola) e começa a dizer-me: "Sabes o que é isto? “. Abriu o livro da primeira classe na primeira página e continuou: " Sabes que letra é esta? É um 'a'. Diz… aaa… ". E assim, à sombra duma parede dum calço num dia de verão, ouvindo o queixume da queda das águas do ribeiro de Soromenha que passava ali perto, recebi de meu pai os primeiros passos nas letras.

 

Passados poucos dias, morria. Com ele, todo o fascínio da minha infância, se apagou.

 

Aos pés de sua cama, no canto direito, encostado à parede, embrulhado no xaile que minha mãe me passava pelas costas, vi-o dar o seu último suspiro depois de várias horas sem ouvir, ver e falar. Foi o maior choque que tive. Nunca esta cena se me apagou na minha vida. Lembro-me ter ficado autenticamente desvairado. Não me conformava com a ideia de não ter mais o meu pai para brincar comigo.

 

Na cova que a terra o cobriu, num lindo dia de Março, ficou enterrada para sempre com ela a minha infância.

 


 

 

 


 



 



publicado por andanhos às 23:37
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010

RAÍZES - 4.- "Excesso de natureza" moldada pelo homem

 

Peçamos emprestadas a Miguel Torga suas palavras para descrever uma das paisagens durienses que ele mais apreciava, vista do alto de São Leonardo (Galafura): "O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta." (in Diário XII).


 

A. M. Pires Cabral, in Cesto da Gávea, Repórter do Marão, Amarante, em 24 de Setembro de 1993, escrevia: "Os dois grandes poetas do Douro – do Douro vinhateiro, entenda-se – são pois Miguel Torga e António Cabral. Um natural de S. Martinho de Anta (Sabrosa), outro de Castedo do Douro (Alijó), povoações circunvizinhas ambas da grande saga do vinho, têm à partida, um e outro poeta, este mérito não pequeno de cantarem o seu, quero dizer, pôr primeiramente a voz na realidade que os viu nascer e desde cedo lhes impressionou, pela sua magnitude, a sensibilidade.» (...) «Obviamente, nenhum deles se esgota no Douro" (...) "São ambos duas vozes poderosas, Torga e Cabral, duas vozes bem timbradas e cheias, substanciosas, empenhadas ambas no canto duriense, mas os olhos com que vêem o Douro são diferentes, e por isso diferente a voz com que o cantam."

Por isso, não resisto a colocar neste post uma das mais belas poesias sobre o Douro que o meu querido e falecido amigo António Cabral escreveu nos idos de 1963:

 

AQUI, O HOMEM


Nem Baco nem meio Baco!:

Aqui é o homem,
desde as mãos ossudas e calosas,
desde o suor
ao sonho que transpõe as nebulosas.


Montes de pedra dura,

gólgotas
onde os geios são escadas!
Venham ver como sobe o desespero
e a esperança, de mãos dadas.


É o homem.
Isso é o homem.
– Nem sátiro nem fauno –
Uma vontade erguida em rubro gládio
que ganha a terra, palmo a palmo.


Vinhas que são o inferno,
o único
em que o fogo é a taça da alegria!
Venham ver um senhor
grandioso como o sol ao meio-dia.


Nem Baco nem meio Baco!:
Aqui é o homem
que nada há que não suporte
mas suporta e persiste.
Aqui é o homem até à morte.


António Cabral, Poemas Durienses. – Vila Real : Minerva Transmontana (comp. e impr.)


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Terça-feira, 2 de Novembro de 2010

RAÍZES - 3.- Rincão e lar da minha infância

Estes são os calços da minha infância.

É bem verdade o que Pina de Morais, já referido no post anterior, e na mesma obra, dizia: "O homem duriense, de boa cepa, mal descobre na ilharga de um monte, dois palmos de terra xistosa, sobranceira ao rio, que lhe pareça propícia ao fabrico de um ou dois geios, aí está ele com a pica e o ferro do monte a esfarelar, a erguer o socalco e a espetar no custoso degrau duas dúzias de bacelos, que serão o seu melhor cuidado, até à morte, como se fossem as mais finas roseiras da Pérsia".

E Sant'Anna Dionísio, ainda na mesma obra: "Olhando os vinhedos que recortam os flancos enormes até ao cimo, é difícil deixar de exclamar em silêncio: - «Quantas vidas!... ilusões... heranças! - estratificadas, em silêncio nesta obra grandiosa e anónima, ao mesmo tempo gigantesca e liliputiana, que se chama o vale vinhateiro do Douro! Quantos trabalhos e quantas jornas, anónimas e invisíveis!» (...) Os montes alcantilados parecem querer escalar os céus. Há neles algo de titânico. Fraguedos e mais fraguedos".

 

 

Ora, foi no intervalo do labor quotidiano da jorna na vinha, à sombra de uma figueira, entre calços de vinhedo, em tarde tórrida de Agosto que, com cinco anos, aprendi as primeiras letras com meu pai.

 

 

Com pouco mais de sete anos fui arrancado deste rincão da minha infância.

 

e, a cada passo, me dou a ler estas quadras de Casimiro Abreu:

 

Eis meu lar, minha casa, meus amores,

A terra onde nasci, meu tecto amigo,

A gruta, a sombra, a solidão, o rio

Onde o amor me nasceu – cresceu comigo.

 

Os mesmos campos que eu deixei criança,

Árvores novas … tanta flor no prado!...

Oh! Como és linda, minha terra d’alma,

- Noiva enfeitada para o seu noivado! –


Foi aqui, foi além, ali … mais longe,

Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;

- Lá vejo o atalho que vai dar na várzea –

Lá o barranco por onde eu subia!...


Como eu me lembro dos meus dias puros!

Nada me esquece!... e esquecer quem há-de?...

- Cada pedra que eu apalpo, ou tronco ou folha,

Fala-me ainda dessa doce idade!


E ali … naquele canto … o berço armado!

E minha mana, tão gentil, dormindo!

E mamãe a contar-me histórias lindas

Quando eu chorava e a beijava rindo!

 

Oh! primavera! Oh! minha mãe querida!

Oh! mana! - anjinho que eu amei com ânsia –

Vinde ver-me, em soluços – de joelhos –

Beijando em choros este pó da infância!

 


 

 


publicado por andanhos às 23:43
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RAÍZES - 2.- Paisagens da minha infância

 

Duas paisagens que, desde pequeno, sempre me acompanharam - uma, da terra natal de meu pai; outra, da terra natal de minha mãe:

 

* Vista de São Silvestre (Mesão-Frio)

 

 

Pina de Morais, um ilustre duriense, nascido em Valdigem, Lamego, em 1889, no Guia de Portugal, Volume V, Tomo 2, quanto à paisagem duriense dizia: "é inteiramente diferente de toda a paisagem do País. Como desenho, é forte e doce; pela cor, azul e verde; pela expressão, violenta e carinhosa. Azul, na tranquilidade das serras nuas e nos longes montanhosos que se perdem de vista; verde, durante quase todo o ano, das videiras anaínhas e prodigiosas que se desemtranham, cada ano, nos fins do Verão, em pérolas negras ou aloiradas de maná; forte, nas suas linhas declivosas e grimpantes, como titânicas escadarias; violenta, pelo arrojo dos seus arremessos e discretos movimentos: - onde o Marão avança logo o Montemuro recua, e onde este vai logo o outro se afasta e sobe; no fundo, o vale do Douro nasceu da luta entre estas duas serras tremendas; - finalmente, carinhosa, pelo mimo do jardim da sua monocultura canseirosa. (...) De grandeza nem falemos. Quem vê o Douro do alto de Mesão-Frio (...) [ e, acrescentamos nós, e de  Santo António, Loureiro] é como se olhasse uma gigantesca taça de bordos de bronze. Em baixo, o rio, sinuoso e largo, parece um sulco de âmbar ou de platina".

 

* Vista de Santo António

 

 



publicado por andanhos às 23:00
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