Domingo, 2 de Junho de 2013

Caminho Primitivo de Santiago na Galiza - 13ª e Última etapa

 
 
 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO NA GALIZA

 

II Parte

 

13ª e Última Etapa:- Monte do Gozo - Santiago de Compostela

[29 e 30.Abril.2013]

 

 

Como lembra John Dewey, a função moral da arte é “remover o preconceito, afastar os paradigmas que impedem o olho de ver, rasgar os véus resultantes de hábitos e costumes, [e] aperfeiçoar a capacidade de perceção”. Por outras palavras, continua Dewey, “obras de arte são meios pelos quais entramos […] noutras formas de relacionamento e de participação para além das nossas”.

 

Yi-Fu TuanApreciar a natureza nos seus próprios termos

 

No prefácio à 2ª edição (1843) de A Essência do Cristianismo, Feuerbach critica a «nossa era» por «preferir a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação À realidade, a aparência ao ser», não deixando de ter consciência de que também não escapa a isso. E, no século XX, esta acusação premonitória transformou-se num diagnóstico generalizadamente aceite: uma sociedade torna-se «moderna» quando uma das suas principais atividades é produzir e consumir imagens, quando as imagens, que influenciam extraordinariamente a determinação das nossas exigências para com a realidade e são elas mesmas um substituto cobiçado da experiência autêntica, passam a ser indispensáveis para a saúde da economia, para a estabilidade política e para a procura da felicidade privada.

As palavras de Feuerbach, escritas poucos anos depois da invenção da câmara fotográfica, parecem, mais especificadamente, um pressentimento do impacto que a fotografia viria a alcançar. Na verdade, as imagens que possuem uma autoridade virtualmente ilimitada numa sociedade moderna são principalmente as imagens fotográficas; e o alcance dessa autoridade deriva das propriedades tópicas das imagens obtidas por meio de uma câmara.

(…)

Entre duas alternativas imaginárias, a de que Holbein, o Jovem, tivesse vivido o suficiente para poder pintar Shakespeare ou de que um protótipo da câmara tivesse sido inventado a tempo de o ter fotografado, a maioria dos admiradores teria optado pela fotografia. O que não se deve apenas ao fato de ela presumivelmente mostrar o verdadeiro Shakespeare, pois ainda que essa hipotética fotografia estivesse desbotada, dificilmente legível e com sombras acastanhadas, continuaríamos provavelmente a preferi-la a outro glorioso Holbein. Ter uma fotografia de Shakespeare seria como ter um prego da Autêntica Cruz.

(…)

Seja quais forem os argumentos morais a favor da fotografia, o seu principal efeito é converter o mundo num armazém ou museu sem paredes, em que todos os temas são reduzidos a artigos de consumo, promovidos a objetos de apreciação estética. Através da câmara, as pessoas tornam-se consumidores ou turistas da realidade - ou Réalités, como sugere o título da revista de fotografias francesa -, uma vez que a realidade é entendida como plural, fascinante e pronta a ser capturada. Ao aproximar o exótico das pessoas, ao tornar exótico o que é familiar, as fotografias possibilitam um olhar apreciativo sobre o mundo inteiro.

 

Susan SontagEnsaio sobre a fotografia

 

 

 

1.- Percurso da etapa

 

 

 
 
2.- Desníveis da etapa
 

 

 
 
3.- Descrição sucinta da etapa
 

Dormimos com muito calor. E lembrei-me da noite aqui passada quando, em 2009, fiz o Caminho Francês, e de todas as amigas e amigos que dormiram na mesma camarata! Aquele foi, positivamente, em termos de camaradagem, um Caminho para não esquecer, inolvidável!...

 

Com o bar do complexo do Monte do Gozo fechado, tomámos café com leite numa das máquinas automáticas existentes na zona da alimentação, já à saída para Santiago de Compostela, em direção à cidade e ao nosso objetivo principal – A Praza do Obradoiro e a sua Catedral.

 

 

Na descida do Monte do Gozo, antes de atravessarmos as duas pontes – uma sobre a autoestrada AP-9 e a outra sobre a linha de caminho-de-ferro – um recanto em que o granito é a matéria-prima para esculpir obras de arte. Aqui fica uma amostra, a jeito de saudação, ao peregrino-caminheiro para que «Vá com Deus».

 

 

Entrámos em Santiago pelo bairro e rua de São Lázaro e damo-nos logo com a Praça da Concórdia, com o seu típico monumento.

 

(Monumento à Concórdia)

 

(Um pormenor do monumento)
 

Parámos no Café “El Peregrino” para tomarmos o pequeno-almoço. E, logo após este frugal repasto, atravessámos a cidade até à entrada da Praza do Obradoiro.

 

Entretanto aqui ficam três imagens que, para mim, foram as mais impressivas ao longo desta passagem: a de um ancião peregrino;

 

 
um pormenor da fachada de uma das muitas igrejas de Santiago

 

 
e o busto de Cervantes na praça com o mesmo nome.

 

 
Na Praza do Obradoiro, término da nossa caminhada, e respetiva Catedral, a imponente fachada barroca da Catedral,

 

 

com o pormenor da estátua de Santiago ao centro.

 

 

De imediato nos dirigimos à Casa do Deán, ou Oficina do Peregrino, onde se obtém a «Compostelana», mediante a exibição da Credencial do Peregrino e do respetivo elemento de identificação pessoal. Contudo, como a Oficina só abria às dez horas da manhã e nós chegámos mais cedo, tivemos de entrar na «bicha» até que fossem as dez horas para sermos atendidos.

 

Obtida a «Compostelana», saímos do edifício

 

 
e tratámos de a plastificar. Enquanto percorríamos a rua do Vilar para plastificar o nosso documento, o Tino referiu-me que, ao descer da Casa do Deán, se tinha encontrado com as amigas e o amigo de Alicante, que se encontravam na «bicha» também para obterem a sua «Compostelana», a quem tirou fotos e se despediu. De pronto voltei atrás também para me despedir deles. Só então, pela Praza das Praterias,
 
 
 donde se vislumbra a Torre do Relógio, é que entrámos na Catedral.

 

 

No diaporama que no final deste post vem, podemo-nos dar conta de mais pormenores do interior deste monumento, magnífico exemplar da arte barroca compostelana. Ficam aqui mais algumas fotos para nosso deleite estético, tiradas depois da missa celebrada antes da missa do peregrino.

 

(Vista geral do interior da Catedral)

 

(Um pormenor do retábulo do altar-mor)

 

(O Apóstolo espera os visitantes)

 

(Uma perspectiva dos dois órgãos da Catedral)

 

(Um aspeto do retábulo da capela de Mondragón)
 
Saímos da Catedral pela mesma porta da Praza das Praterias e dirigimo-nos para a Praza da Quintana. É aqui que melhor se pode observar a Torre do Relógio (torre da Berenguela ou do Reloxo), as traseiras do Colégio do Convento de San Paio de Antealtares e a Porta Santa, que apenas se abre em anos jubilares, ou seja, quando o dia de Santiago – 24 de Julho – calha a um domingo.

 

 
 Aqui, por cima desta porta, fica mais uma bela estátua do apóstolo Santiago, o Maior.

 

 
Regressados outra vez à Praza do Obradoiro, demos uma vista de olhos à sede da Xunta da Galicia (Pazo Raxoi)

 

 
e à estátua que encima o seu edifício,

 

 
ao Hospital Real (hoje Hostal dos Reis Católicos),

 

 
ao Pazo de Gelmírez, ao lado da Catedral,

 

 
ao Pazo de San Xerome (edifício da Vice-Reitoria da Universidade de Santiago de Compostela)

 

 

e ao pormenor de encima a sua portada principal.

 

 

Do lado de trás do Pazo Raxoi, na rua que serve de saída da cidade para fazer o Caminho de Muxia e Fisterra (o Epílogo), dois pormenores da bonita fachada da igreja de San Fructuoso.

 

(Fachada principal com a torre sineira)

 

(Centro da fachada principal com a «Pietá»)
 

Eram sensivelmente onze horas quando fomos alugar um quarto e tomar banho num dos quartos do hotel onde habitualmente fico quando permaneço mais de um dia em Santiago.

 

E, antes de fazermos horas para o almoço, na Praza Cervantes,

 

 

Casa Manolo, para além de vaguearmos pelas ruas mais caracteristicamente medievais do casco histórico de Santiago, como a Rua do Vilar, A Rua do Franco, A Rua Nova e a Rua da Raíña (lembrando e em homenagem à nossa rainha Santa Isabel que, no seu tempo, se dirigiu a Santiago de Compostela em peregrinação e que, deste local, segundo reza a história ou lenda, foi de joelhos até à Catedral), ora vendo edifícios e pormenores mais emblemáticos que, já em parte, mostrámos no diaporama no final do post, fomos também entrando numa ou noutra casa comercial à procura de uma ou outra lembrança para trazermos. O que nos levou mais tempo foi encontrar uma t’shirt especial, alusiva ao «homo peregrinus»…

 

 

Do conjunto de monumentos que visitámos e/ou apreciámos, deixo aqui 6 apontamentos que, para mim, foram os mais importantes e significativos de tudo quanto vi, independentemente de todo o conjunto do casco histórico:

  • O Pazo da Fonseca- lembrando aquele grande homem de cultura, sepultado em Salamanca, que esteve na génese e na expansão da Universidade Compostelana tão bem apresentado e cantado na primeira faixa do álbum «Gallaecia Fulget», do grupo «Milladoiro»;

 

 
  • A escultura que encima o edifício mais emblemático, dedicado à cultura, na Praza do Toural;

 

  • A estátua e um pormenor da fachada da Faculdade de Filosofia – Pólo Norte da universidade de Santiago de Compostela;

 

  • O retábulo do altar-mor da igreja da Companhia de Jesus, transformada em espaço de exposições, e que fica entre a Faculdade de Geografia e História (antigo edifício-sede da Universidade de Santiago) e a Faculdade de Filosofia;

 

  • Dois bonitos exemplares exibidos em montras do casco histórico, evidenciando o gosto que também esta cidade nutre pelas artes;

 

(Um dos aspetos da decoração de uma montra)

 

(Um outro aspeto da decoração de uma outra montra) 
  • Finalmente, e ao lado da Faculdade de Geografia e História, a estátua do homem que está na origem das peregrinações – D. Afonso II, o Casto -, caminhando, pela primeira vez, da capital do reino Astur – Oviedo – até Santiago de Compostela para ver a tumba do apóstolo. Por esta razão, a este Caminho, se apelida de «O Primitivo».

 

 

Depois do almoço, como disse, na Casa Manolo, ainda demos umas voltas pelo centro de Santiago mas, de pronto fomos descansar para o quarto do hotel.

 

Dia 30 de Abril, depois de nos levantarmos, convidei o meu companheiro do Caminho para irmos a um café tomar o pequeno-almoço e… matar saudades das vezes que por ali passei quando, noutros tempos, por razões académicas, tive de permanecer em Santiago de Compostela.

 

 

E não me esqueci de passar pelo recanto que mais apreciei nas minhas estadias em Santiago: convidativo ao silêncio, calmo, com arte, enfim, de encontro connosco mesmos.

 

 

Com uma certa antecedência, dirigimo-nos para a estação de caminhos-de-ferro de Santiago de Compostela.

 

 

O nosso destino era a A Gudiña onde, conforme previamente combinado, o Toni, irmão do meu parceiro nesta aventura do Caminho Primitivo, ali nos esperaria para nos levar de volta ao nosso lar, em Chaves.

 

 

Enquanto esperávamos na gare da estação, um pormenor, ao longe, da Cidade da Cultura de Santiago.

 

 
Instalados já no comboio que nos levaria a A Gudiña, e cujo destino final era Madrid, a estação de Chamartin,

 

 
ainda tive oportunidade de, na passagem por Ourense, observar as suas pontes sobre o rio Minho e tirar uma foto.

 

 

De Ourense até a A Gudiña foi um sem fim de túneis que tivemos de atravessar!...

 

Aqui e ali vislumbrava-se a célebre «pista do Marroquí» e as obras para o AVE (comboio de alta velocidade) que, numa cota mais baixa que a da atual linha, atravessa, perfurando, em enormes túneis, as entranhas da «dorsal ibérica».

 

Enquanto atravessava este trecho da linha férrea, uma resolução se firmou em mim: que a minha próxima caminhada seria percorrer esta célebre pista.

 

 

4.- Considerações finais ou à guisa de posfácio

 

É justo, e essencial, que estas palavras aqui, e agora, sejam ditas.

 

Normalmente são ditas no princípio de qualquer obra. Dado que se trata apenas de um simples relato dos aspetos essenciais de um Caminho de Santiago, o formalismo ou a rigidez das normas podem ser bem dispensadas.

 

  •  DEDICATÓRIA
    • Dedico todo este meu esforço, e gosto de andar pela natureza, às pessoas que mais estimo e gosto na vida: aos meus filhos Pê e Anababela; à minha Ni; ao Lau e à Jeka.

 

  • AGRADECIMENTO
    • O agradecimento é dirigido, essencialmente, a três pessoas, meus companheiros nas jornadas pelos Caminhos de Santiago [E não só. Também de outras pelas nossas terras lusas do Alto Tâmega e Galiza]: ao Fábio, ao Mitok e ao Tino.

 

  • HOMENAGEM
    • Neste Caminho Primitivo caminhei sempre com uma boina galega em homenagem a um homem íntegro, impoluto, republicano, algo revolucionário, que infelizmente hoje já há poucos; uma figura que já nos deixou mas que continuarei, sempre, a estimar e a admirar em toda a vida. A boina e a seta do Caminho serão entregues, simbolicamente, a seu filho Fábio.

 

  • A PROVA
    • O ter realizado este Caminho foi a prova de que, apesar das contrariedades, por via da saúde, que nos vão surgindo ao longo da vida, nunca devemos desistir dos nossos sonhos e de lutar pelos nossos objetivos. E tentar sempre! Porque vida há só uma…

 

 

 

Aqui fica uma reportagem, em diaporama, da etapa de hoje.

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 


publicado por andanhos às 22:54
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