Domingo, 5 de Maio de 2013

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 5ª Etapa

 

 

 

CAMINHO PRIMITIVO DE SANTIAGO – NAS ASTÚRIAS

 

II Parte

 

5ª Etapa:- Pola de Allande – Berducedo

[21.Abril.2013]

 

 

 

 

São os conjuntos de prados, bosquetes,

colinas que nos convidam de certo modo a percorrê-los.

Atraem-nos a doçura das encostas, a amenidade das suas sombras,

 a graça sinuosa dos seus riachos.

Outras paisagens revela-se hostis.

O escarpamento dos seus rochedos torna o acesso difícil,

as suas linhas secas e bruscas, o seu aspeto rude,

as suas moitas espinhosas, a sua aridez,

o seu solo pedregoso afoguentam-nos.

O passeio toma nela aspetos de luta e conquista.

Da mesma maneira,

existem pessoas acolhedoras e pessoas frias e como que escarpadas,

 e junto delas nossas impressões são do mesmo género.

 

Frédéric PaulhanA estética da paisagemA paisagem como retrato da natureza

 

 

 

 

 

Introdução

 

No passado dia 7 de Dezembro de 2012, desde Oviedo, juntamente com o meu amigo Fábio, demos início ao Caminho Primitivo de Santiago.

 

Por razões imponderáveis, em Pola de Allande, tivemos que o interromper, tomando o autocarro, desde aquela localidade até Grandas de Salime.

 

No dia a seguir ainda encetámos uma tentativa para continuar, fazendo o percurso a pé desde Grandas de Salime até Castro.

 

Não tendo sido possível levar a cabo o objetivo a que inicialmente nos propusemos realizar, solicitámos um táxi que nos levou de Castro até Fonsagrada e, daqui, fomos de autocarro até Lugo; de Lugo até Ourense; de Ourense ate Verin e, daqui, fomos até Chaves com a mulher de Fábio que teve a gentileza de nos ir buscar.

 

Embora tenhamos ficado tristes por não levarmos por diante o nosso intento – o chegar a Santiago de Compostela, nunca pairou nas nossas cabeças a ideia de desistir. Havia que encontrar uma outra oportunidade.

 

E, de fato, essa oportunidade apareceu.

 

Já aqui num dos posts deste blog fiz referência a um familiar, meu sobrinho, também amigo das caminhadas e do contato com a natureza. Aliás, já no passado verão (mês de Junho) de 2008, desde Valença, fizemos os dois o Caminho Português de Santiago.

 

Foi, assim, uma questão, por um lado, de o entusiasmar para o projeto e, por outro, o de ele compatibilizar o seu trabalho com a programação das suas férias para que fosse possível a realização deste evento.

 

O que nos metia mais confusão era, de Chaves, chegarmos até Pola de Allande, uma vilória, sede de concelho, nos confins rurais das Astúrias.

 

Mas até aqui os ventos sopraram a nosso favor, de feição. Pê, meu filho, a trabalhar no Brasil, veio a Portugal numas curtas férias. Já tinha estado a trabalhar nas Astúrias, vivendo escassos meses em Oviedo. A meu pedido, prontificou-se a levar-nos até Pola de Allende, numa atitude não só simpática para com o pai como para seu primo Tino.

 

É bem mais fácil e cómodo dirigirmo-nos para aquelas paragens de carro, apesar de se fazerem algumas horas de estrada. Mas, ultrapassada a autovia das Rias Baixas, e sem entrarmos no túnel do Negrón, que nos leva a Oviedo, a paisagem, e todo o ambiente envolvente, compensa o esforço da viagem.

 

Passámos pelos contrafortes e perto de uma das portas do Parque Natural de Somiedo, depois de passarmos pela barragem (embalse) de Luna. Atingido o Puerto de Leitariegos,

 

 

 

onde existem instaladas infraestruturas de uma estação de esqui, mas já sem quase nenhuma neve, descemos para Navia de Narcea e depois para Pola de Allende.

 

Era aproximadamente meio-dia e meia quando ali chegámos.

 

Depois de uma pequena volta pela vilória,
 
 

não foi difícil encontrar uma casa para comer. O Hotel Nueva Allandesa possui um restaurante de referência para os peregrinos, apresentando, inclusive, um menu próprio para eles.

 

Ora foi exatamente do menu peregrino que quer Pê quer Tino, meu companheiro de caminhada desde esta localidade até Santiago de Compostela, se serviram. Típica comida asturiana, já demasiado pesada para o meu estômago. De enfartar, pois! Eu, desta feita, fiquei-me por um simples salmão grelhado, acompanhado de umas verduras, seguido de uma maçã e de um café.

 

de almoçar já passava das duas horas em meia locais.

 

Acompanhámos meu filho até ao carro. Demos-lhe as despedidas e, no meio de uma terra, sede de um pedaço de terra nos confins de um mundo rural profundo, ficámos entregues à nossa sorte. Entretanto Pê seguiu em direção a Fonsagrada para se dirigir a Lugo e depois a Ourense e Verin. Um dia e peras de viagem para ele!

 

Estávamos inicialmente para começarmos o Caminho no dia seguinte, adiantando uns quatro quilómetros, indo ficar ao albergue de Peñaseita. Para isso, tínhamos que nos munir de mantimentos para a noite e para o pequeno-almoço do dia seguinte, uma vez que em Peñaseita não há nenhum comércio.

 

Dirigimo-nos a um bar – o “El Peregrino” – para nos abastecer. Feitas as compras, e conversa puxa conversa, demo-nos conta que a senhora que, delicada e atenciosamente, nos atendeu, era portuguesa, radicada há mais de trinta anos em Allande, transmontana, nascida em Macedo de Cavaleiros. Verdadeiramente somos um país de diáspora!

 

Sendo três horas da tarde, a senhora entusiasmou-nos a que não ficássemos em Peñaseita e que fossemos até Berducedo, pois ainda lá chegaríamos de dia, por volta das oito ou oito e meia, e que aí não teríamos problemas com comer e dormir.

 

Ficámo-nos na nossa, não muito convencidos. E, quando chegámos ao cruzamento para o albergue de Peñaseita,

 

 

olhando um para o outro, vendo o lindo sol que raiava, embora não muito intenso, a nossa decisão foi de seguir o conselho da nossa compatriota. E seguimos caminho.

 

É manifestamente em Pola de Allande que o meu Caminho Primitivo de Santiago recomeça como 5ª etapa.

 

Mas, antes de sumariamente descrever esta etapa, impõe-se que aqui faça, ou preste, um esclarecimento.

 

Os leitores que seguiram o relato das quatro primeiras etapas foram-se dando conta que eram cinco os personagens-caminheiros: eu próprio, Tâmara_Júnior, Nona, Fábio e Pé D’Vento.

 

Foram essas personalidades, com as suas idiossincrasias, o seu caráter e comportamento específico que seguiam no Caminho, apoiadas unicamente em duas pessoas físicas: Tâmara_Júnior e Nona na minha carcaça que já vai para além dos sessenta; Pé D’Vento na do quase cinquentão, irrequieto e ousado, Fábio.

 

Quando caminho não gosto de demasiadas ”juntanças”. Prezo demasiado o silêncio, as vozes, as cores e os ondulados da natureza para com ela, no meu caminhar quase solitário, criar e descobrir mil peripécias, inventar não sei quantas personalidades!...

 

O chão que piso e a paisagem que me envolve são para mim solo sagrado, objeto da minha mais profunda veneração, que apenas gosto partilhar com poucos eleitos…

 
 
1.- Traçado da etapa 
 

 

 
 
2.- Desníveis da etapa 
 

 

 

 

3.- Descrição sucinta da etapa

 

Aqui ficam, pois, breves notas extraídas do caderno de apontamentos que, regularmente, no fim de cada etapa ou caminhada, faço.

 

A primeira parte do Caminho foi encantadora,

 

 
 
desde Peñaseita, La Reigada e até à AS 14. Embora fosse um percurso todo ele a subir,

 

 
pois tivemos que superar um desnível de 524 metros para 900, fomos, contudo, compensados, ora pelo canto das águas do rio Nisón,

 

 
ora pelo chilrear da passarada espalhada pelo bosque bonito e agreste, constituído essencialmente por carvalhos e faias, que acompanhava aquele rio. O tempo, como disse, estava de sol, agradável, e estávamos protegidos pela serra ou monte de Fonfaraón.

 

 

Passámos por duas rústicas pontes de madeira que atravessam o rio Nisón.

 

(Ponte nº 1)

 

(Ponte nº 2)
 
O problema veio quando, atravessada a AS 14,

 

 

Podíamos ter seguido a estrada que, embora mais longa, não apresentava tanto desnível. Porque queríamos fazer o verdadeiro Caminho, tivemos que trepar monte e, como de vez em quando os “bofes” nos saiam pela boca, tivemos de fazer algumas paragens para descansar. Durante as paragens, a paisagem que visualizávamos era de alta montanha.

 

Entretanto, naquelas alturas, começava a sentir-se um vento frio e, desta feita, tivemos que vestir os impermeáveis para nos sentirmos mais agasalhados.

 

No último lanço, antes de chegarmos ao alto, parámos numa fonte com um tanque tosco não só para descansar um pouco como para beber.

 

A partir daqui, a subida, apesar de ainda mais forte, já não nos assustou tanto. Sentíamo-nos já muito perto do alto. Do ponto mais alto do Caminho Primitivo de Santiago – o Puerto del Palo, a etapa rainha! E ficámos felizes quando atingimos o seu topo.

 

A minha curiosidade levou-me até ao abrigo de montanha que ali se encontra. Apenas tirei fotografias ao seu exterior.

 

 

O interior está uma imundície. É, manifestamente, uma vergonha o estado em que o seu interior está. Por nojo, nem sequer uma foto tirei!

 
Mas o pior estava para vir: a descida do Puerto del Palo até atravessar a estada AS 14, mais ao fundo, para seguirmos para Montefurado.

 

 
 

É uma descida que “Deus me livre”! Era para terem um pouco mais de cuidado naquele piso que está um verdadeiro perigo, um autêntico quebra pernas! O Tino aconselhou uma pequena paragem para comermos uma barrita de cereais, que nos fazia bem. É que minhas pernas tremiam como varas verdes!

 

Com cuidado, e uma ou outra escorregadela, lá chegámos a Montefurado.

 

É bem verdade o que dizem: apenas um habitante, acompanhado do seu mastim, que não assentiu a que lhe tirássemos uma foto. Contudo, no meio das poucas galinhas, que por ali bicavam, o rei galo, convencido dos seus dotes e, garbosamente, consentiu, com muito gosto, numa foto.

 

 

Por sua vez, as poucas vacas que por ali pastavam, olhavam para nós como se fossemos extraterrestres.

 

 
Aqui se deixa uma foto da singela capela de Santiago de Montefurado, pertencente ao hospital de peregrinos,

 

 

e a de um povoado com apenas quatro casas e um habitante.

 

 
Quando pensávamos que as subidas tinham acabado e que Lago viria logo a seguir com certa facilidade, mais uma daquelas subidas. Neste Caminho nunca é de confiar nos desníveis. Depois da subida e já na descida, em direção a Lago, voltámos a encontrar a AS 14.

 

 
Mas seguimos por um caminho paralelo à mesma, à esquerda. E Lago nunca mais aparecia! Até que aparece o cemitério. Atravessámos a localidade subindo sempre.

 

 
Tirámos uma foto à sua igreja

 

 
e a um ou outro pormenor do seu casario.

 

 

E, como já eram oito horas, fomos apressando o passo para chegarmos ainda com dia a Berducedo.

 

Antes de chegarmos a Berducedo passámos por uma zona de pastegens e por um pinhal.

 

 

A primeira construção de Berducedo é o albergue público. Uma construção que não nos pareceu lá grande coisa. Entrámos e fomos informados, por um dos peregrinos, que a lotação, de 12 lugares, já estava esgotada. Atravessámos a povoação e fomos ter a um bar para saber onde ficava o albergue privado. Fomos informados que ficava no término da povoação, perto da igreja.

 

 

Tomámos a direção para a igreja e nem sequer quisemos saber da casa de comes e bebes mais afamada do Caminho “La culpa fue de Maria”. O menu peregrino de Allande deu de sobra para o Tino matar a fome todo o dia e eu, à noite, já como muito pouco.

 

A igreja de Berducedo, pela qual passámos, é muito parecida com a de Lago.

 

Batemos à porta do albergue privado e ainda demorou um pouco para o albergueiro aparecer.

 

O albergueiro selou-nos a Credencial do Peregrino, cobrou-se da estadia, deu-nos a conhecer os cantos da casa, indicou-nos o que havia para tomarmos de manhã de pequeno-almoço e nunca mais o vimos. Os dois tomámos conta do albergue, não havendo mais ninguém.

 

Tomámos banho, arranjámos as nossas coisas, o Tino escrevinhou no seu «e-paper», comemos a merenda que trouxemos de Pola de Allande do Bar “El Peregrino” e, quando me preparava para telefonar e aceder à internet… nem sinal! Que um albergue privado não tivesse Wi Fi ainda que vá, agora sem sinal de rede telefónica!? Enfim…

 

Dormimos pouco, e mal, os dois. Pela minha atribuo ao cansaço e mais ao café que tomei à noite, quando não estou acostumado a tomá-lo. Mas sempre fui passando pelas brasas…

 

[Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue]. 

 

 


publicado por andanhos às 12:41
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2 comentários:
De Lena a 6 de Maio de 2013 às 00:12
Ao ler-te Antonio e vendo as fotos da vontade de fazer essas caminhadas...as paisagens são fantasticas.


De andanhos a 29 de Março de 2014 às 14:57
Só agora, Lena , vi teu comentário. Obrigado pelo elogio. Tenho uma exposição com algumas fotos dos Caminhos de Santiago que fiz até agora patente no Pólo de Chaves da UTAD . Para aqueles que não a podem ver, no meu Facebook - António Souza Silva - vou, todos os dias publicando uma. A partir do dia 5 ou 6 de Abril próximo, com meu sobrinho Florentino (Tino), vou fazer o único Caminho de Santiago que me falta - o Inglês. E, quanto a Caminhos de Santiago por aqui ficarei para me dedicar, caso haja saúde, a outras «aventuras». «Unha grande aperta» do António


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