Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Gallaecia - Por terras do Alto Tâmega e Barroso: - Aldeias Fantasmas num paraíso natural

 
 
 
 

ALDEIAS FANTASMAS NUM PARAÍSO NATURAL

 

A partir dos primórdios da I Revolução Industrial torna-se cada vez mais claro e evidente que, de uma sociedade profundamente rural e agrária, passaríamos, inexoravelmente, para uma sociedade urbana. Lenta, mas fatalmente, é este o diagnóstico: as sociedades do futuro serão, na sua essência, urbanas.
 
O mundo rural, tal como o conhecíamos, e como as diferentes narrativas (muitas delas românticas) no-lo apresentam, desapareceu. E, mesmo aquele que persiste em prevalecer, mais-dia-menos-dia, seus dias estarão contados.
 
Desta feita, não há que chorar sobre o leite derramado. Há que aceitar os fatos. Sabê-los enfrentar e, nesta conformidade, encontrar as melhores respostas ou soluções para um velho e persistente problema: como encarar a problemática do desenvolvimento dos territórios rurais em total despovoamento, lidando com as gentes que restam, completamente envelhecidas?
 
De nada, agora, vale-nos acusar o modelo de desenvolvimento que nos trouxe até aqui. É esta a realidade que temos. É, pois, com ela que temos de lidar.
 
O ideal seria uma mudança radical de paradigma, mais amigo da terra e do ambiente, em harmonia e equilíbrio entre estes dois mundos: um, o rural, tal como o conhecemos, em acelerada extinção, contudo, portador de enormes potencialidades ainda por explorar; o outro, o urbano, onde se acantonam, nos tempos de hoje, perto de dois terços da população mundial, com as suas virtualidades e potencialidades de convivência e socialização, mas também, simultaneamente, palco de misérias, conflitos e violência.
 
Sobre estes dois mundos paira um sistema económico e social depravador dos recursos naturais, pouco amigo da terra e do ambiente, explorador e escravizador, e sem respeito pela dignidade da vida humana.
 
Bom seria que a crise pela qual atualmente passamos fosse um bom ensejo para uma reflexão e tomada de consciência de uma outra postura perante a Vida e a Natureza, provocando a tal mudança de paradigma que urge que aconteça.
 
Mas … sejamos realistas! Infelizmente, creio, ser necessário ir mais fundo, ir até ao fundo do poço, até que esta “fruta podre” caia na terra e, depois da sua decomposição, ajudada pelo rigor de um longo inverno, sempre incentivador de uma aguda reflexão, faça renascer, com uma nova primavera, um novo mundo, uma nova esperança.
 
Antes que esse mundo pelo qual tanto aspiramos aconteça, que podemos fazer?
 
Não cabe aqui, neste pequeno escrito, o elencar das soluções para um problema que se nos apresenta tão complexo. Nem eu, tão pouco, possuo a varinha mágica propiciadora dessas soluções. Mas estou sinceramente convicto da premência em pormos este tema, cada vez mais ingente e com acuidade, quer na agenda da(s) nossa)s) sociedade(s) quer, em particular, na agenda política.
 
Porque precisamos encontrar, a partir de uma nova visão, que já tarda, um novo “modus operandi” para fazer face aos novos problemas com que o mundo rural hoje se confronta.
 
E a sua solução não deve vir de qualquer iluminado. Deve surgir do confronto, democrático e participativo, de todos, de toda a sociedade. Porque este não é só um problema do mundo rural: é um problema de todos nós!
 
Se atentarmos na reportagem que, no post anterior deste blog, reproduzimos, da jornalista Sandra Ferreira, constatamos estarmos perante aldeias raianas fantasmas, praticamente desertas,
 

carentes de vitalidade humana.
  
 
Conforme foto abaixo mostra, a aldeia de Segirei foi positivamente invadida por uma dezena de repórteres forasteiros  
  

 

e nem sequer meia-dúzia de pessoas encontraram!

 

 

Dos diferentes depoimentos, damo-nos conta que, as poucas gentes que por lá se encontram, depois de andarem pelas quatro partidas do mundo, à procura de melhores condições e qualidade de vida, criando e repartindo seus filhos aos quatro ventos, outra coisa não vieram aqui encontrar, depois de uma longa vida a construir e desenvolver outras terras e outros países, se não o afago, o aconchego, no final dos seus dias, da terra-berço que um dia os viu nascer e os fizeram mulheres e homens para a vida.

  
 
Sempre, em dilema constante, entre o amor ao seu terrunho 
 
 
e o amor dos seus filhos que por lá andam “mourejando”. Com persistente saudade, que lhes cava, ainda mais fundo, as rugas que a vida lhes criou. 
 
 
E, nostálgicos, dando-nos a conhecer a memória de outros tempos, evidenciando, nos seus relatos, com vivacidade, os tempos difíceis, de uma luta diária pela sobrevivência, numa comunidade prenhe de solidariedade e onde não faltava o calor humano, porque cheia de vitalidade.
 
 
São estas as memórias que importa reter, preservar. Sem esta preservação não se faz história. E sem esta história não há, não se reconstrói comunidade. Apenas restarão ruínas,
 
 

escombros à espera de arqueólogos para tentar interpretar aquilo que outrora foi uma comunidade, hoje já morta.

 

 

Porque é este, fatalmente, o destino da maior parte das nossas comunidades rurais!

 
 

Se não se tomarem outras medidas, o que se pode esperar de uma freguesia, e sua aldeias, que tem pouco mais de 300 (trezentos) habitantes, e sem praticamente crianças e jovens, dos quais 172 (cento e setenta e dois) têm mais de 65 anos – segundo dados de 2009 – sendo certo que atualmente serão mais?

 

Para finalizar, queria deixar aqui quatro imagens impressivas, que me ficaram da minha visita às aldeias da freguesia de São Vicente da Raia na qualidade de “repórter por um dia”.

 
A primeira, a do bondoso senhor Antenor, mas impotente e conformado Presidente da Junta de Freguesia. Tal como um D. Quixote, a sua luta circunscreve-se à conquista da sua Dulcineia – a construção do “seu” «Lar de Idosos» para acolher os seus velhos fregueses. A sua esperança, infelizmente, não é pugnar por criar mais vida outrossim acabar de construir, utilizando e ampliando as instalações da antiga escola, um lugar de acolhimento para os seus pares terem, segundo diz, um fim de vida mais condigno e com mais conforto.
 
 

A segunda imagem fui encontra-la em Aveleda, no placard informativo da Junta de Freguesia. O que sobressai e se sobrepõe naquele placard não são os editais da Câmara Municipal ou da Junta de Freguesia, mas sim um panfleto, anúncio publicitário, propagandeando os preços de uma funerária.

  

 

A terceira imagem, logo na outra esquina, ao lado daquele placard, um singelo Cristo crucificado, lembrando a morte.

 

 
A quarta, e última imagem, no meio de uma paisagem humana sem esperança,
 
 
  uma natureza viva persistindo em viver, personificada neste velho castanheiro,
 
 

e constantemente se renovando…

 

 
Por último, aqui vos fica um vídeo/reportagem de uma caminhada feita no verão passado pelas terras galegas de Vilardevós e de Segirei (Chaves), encontrando recantos autenticamente paradisíacos.
 
[Nota:- Para ouvir o vídeo, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue].  
 
 

publicado por andanhos às 17:40
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1 comentário:
De Tânia Oliveira a 5 de Abril de 2013 às 00:28
Excelente post caro amigo.
Um texto que infelizmente nos transmite a triste realidade das nossas aldeias,mas cheias de beleza natural.


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