Sábado, 26 de Janeiro de 2013

Gallaecia - Por terras da Gallaecia (I)


 
 

Adeus à Ponte de Remondes e ao rio Sabor

 
 

Li algures, já não sei aonde -  tal a avalanche vertiginosa de informação que, todos os dias, nos entra portas dentro, que até lhe perdemos a fonte -, que os habitantes de Remondes, do concelho de Mogadouro, se juntaram à volta da designada Ponte de Remondes, lugar de passagem sobre o rio Sabor para quem vem das terras de Mogadouro para as de Macedo, para se despedirem dela.

 

Não fiquei muito bem a saber se aquilo se tratou de festa rija ou de velório, pois até tinha Dj e tudo!

 

No passado 3 de Maio, vindo dos lados de Miranda do Douro, onde fui visitar um familiar, depois de ter terminado, a pé, a linha do Sabor, passei por aquele local em direcção a Izeda, onde nunca ainda tinha parado, apesar de por lá passar uma ou duas vezes.

 
 

Já passava bem da hora do almoço.

 

Não sei bem que me deu na cabeça quando parei o carro, à saida da ponte e, mais de uma hora, fui andando a pé rio acima.

 

Das minhas caminhadas pelas «Travessas e Linhas Abandonadas» deste nosso Reino Maravilhoso, para além de conhecer o rio Douro, do Pocinho à Barca d’Alba, o rio Tua e o Corgo, que correm paralelos às respectivas linhas, estava ansioso também por conhecer o Sabor. Razão pela qual me aventurei a fazer também aquela linha, desde o Pocinho até Duas Igrejas, término da mesma.

 

Mas, quando se percorre esta linha, o rio anda muito afastado de nós, a não ser entre Pocinho e Torre de Moncorvo, nas proximidades daquela vila.

 

Para quem vinha de fazer uma linha com o nome de um rio, ainda por cima com a fama, tal como o Tua, que corria em «estilo natural»

 
 

e sem qualquer intervenção humana que o desfigurasse no seu aspecto e estrutura natural,

 

 

mas que, praticamente, nunca o tinha visto, hoje entendo aquela minha atitude de parar alí à saída da Ponte de Remondes e «botar» pernas rio acima, num forte impulso para o melhor conhecer e sentir, depois da frustação de ter feito a linha que levava o seu nome e quase nem sequer ver as suas águas.

 

 

Como hoje compreendo tão bem o nosso poeta do Reino Maravilhoso!

 
 
Em certo sentido é preciso descer do carro e pegar nas botas para melhor se conhecer e amar este magnífico «reino». Enquanto caminhava rio acima, não era apenas o rumor das suas águas e a sombra dos sobreiros, na sua margem, que me refrescavam: sentia que me dava uma nova alma, saindo de mim mesmo uma forte emoção e um sentimento de amor por esta natureza que minhas botas pisavam e meus olham viam e observavam.
 

Há momentos inesquecíveis, que nunca jamais esqueceremos, tal a forte vibração que em nós provocam. Este foi um deles!...

 
 
 

A barragem do Baixo Sabor vai submergir toda esta natureza pura, em estado quase selvagem e, com ela, a sua antiga ponte, de tantas passagens e de tantas histórias, vai desaparecer. E tudo isto como se fosse um pedaço de alma que nos abandona e nos deixa órfãos e mais pobres.

 

Mais pobres em termos de humanidade, embora nos prometam, com este empreendimento, mais riqueza em termos económicos.

 

Mas riqueza para quem?

 

Para onde vai o proveito desta obra? Directamente para as suas gentes, os seus habitantes, para além dos míseros tostões que lhes deram pelas terras que vão ficar submersas?

 

Para um melhor e mais equilibrado desenvolvimento do território deste «reino» que teimamos em dizer ser maravilhoso mas que, constantemente,  se vê ensangue, expulso das suas gentes, desertificando o interior e tornando-nos, a todos, cada vez mais escravos num modelo de desenvolvimento assente num sistema económico delapidador de recursos que só aproveita a incontrolável gula e voracidade de meia dúzia de «rapinas»?

 

Que evento, afinal, as gentes de Remondes levavam a cabo junto da «sua» Ponte?

 

 


publicado por andanhos às 23:48
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