Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Gallaecia:- Alto Tâmega e Barroso - A «Mesinha» de S. Sebastião do Couto de Dornelas


 
 

Devoção, tradição e modernidade

 

- A propósito da «Mesinha» de São Sebastião do Couto de Dornelas –

 
(D. Celeste Magalhães)
 
 

Fui já três vezes, a 20 de Janeiro, a Vila Grande/Couto de Dornelas participar na «Mesinha» de São Sebastião. A primeira creio ter sido há mais de trinta anos. Integrava uma Visita de Estudo, organizada pelo meu querido amigo Marcelino quando, então, eramos professores da extinta Escola do Magistério Primário de Chaves: ele, já um inveterado pelas causas da animação sociocultural; eu da área das ciências sociais e humanas e das ciências da educaçaão, movido pela curiosidade do evento que então se reconhecia como «genuino». A segunda, julgo que nos finais da década de noventa do século passado, no auge de uma querela azeda, e com relações revoltadas entre o anterior pároco e as «forças vivas progressistas», que na altura «comandavam» a comunidade, a propósito da titularidade da propriedade da designada «Casa do Santo». A terceira foi no passado domingo, participando no programa que a Associação Lumbudus organizou para partilharmos deste tão conhecido evento.

 
 

Não é minha intenção aqui falar da vida e do martírio de São Sebastião. O caro leitor, com um simples «clic», após escrever o nome deste santo, ficará fartamente informado. Não é minha intenção também aqui falar da lenda que, quanto a este evento, lhe anda associada. Uma simples consulta ao sítio da internet – http://ssebastiaodornelas.com.sapo.pt/, ou qualquer outro - este esteve-me mais à mão -, pode dar-nos uma ideia aproximada não só da lenda como da forma como o evento, ao longo dos tempos, se tem organizado.

 
O «cerimonial» esse mantem-se como uma efectiva e viva tradição: desde os preparativos para a apanha da lenha, recolha do centeio, moagem e cozedura do pão; à cozedura da marrã (carne de porco) e do arroz;
 
 

ao estender das tábuas e seus suportes para a «Mesinha» ao longo da rua principal da aldeia;

 
 

à missa em honra de São Sebastião, na Igreja Paroquial de São Pedro, com arquitectura idêntica à dos nossos vizinhos galegos (com a torre sineira separada do resto do corpo da igreja);

 
(Exterior da Igreja Paroquial de S. Pedro)
 
(Interior da Igreja Paroquial de São Pedro)
 
(Pormenor de um altar lateral)
 

ao mesmo adro e sua envolvente, imutáveis, dir-se-ia, desde o princípio dos tempos,

 
(Cruzeiro)
 
(Casa junto ao cruzeiro com as «alminhas»)
 
(Pormenor das «alminhas»)
 
(Casa de lavoura)
 

com o velho e tosco pelourinho, esquecido a um canto, mas a dizer-nos que esta terra já foi «couto» de Arcebispos (de Braga) e teve pergaminhos de importância;

 
 

à procissão

 
(Pormenor 01 da procissão)
 
(Pormenor 02 da procissão)
 

em direcção à «Casa do Santo»

 

 

para a benção do pão, da carne e do arroz;

 
 

logo seguida do pôr a «Mesinha» de São Sebastião com o estender da toalha de linho;

 
(Pormenor 01)
 
(Pormenor 02)
 
(Pormenor 03)
 

o transporte

 

 e colocação da broa do pão, rigorosamente a metro e meio umas das outras, sob a medida de uma vara com esse cumprimento (cana da india);

 
 

o transporte dos pratos de madeira;

 

 

o colocar o prato de madeira em cima do pão;

 

 

o transporte e colocação da marrã  

 
(Pormenor 01)
 
(Pormenor 02)
 
(Pormenor 03)
 

e do arroz na «Mesinha»,

 
 

enquanto é dado a beijar a figura de São Sebastião,

 
(Pormenor 01)
 
(Pormenor 02)
 

(agora, cada um dos comensais, conforme a sua vontade e as suas posses, deposita a sua esmola numa cestinha para a ajuda da comida que é servida).

 

 

Findo o repasto, com uma mesa que pode atingir os 500 ou 700 metros de cumprimento, de imediato, a «Mesinha» é levantada e, aqui assim, o evento acaba praticamente.

 
 

Trinta anos volvidos desde a minha primeira aparição em Couto de Dornelas, neste dia 20 de Janeiro, houve, contudo, pormenores que, porventura, se bem analisados, já não são bem pormenores mas verdadeiras transformações. Transformações estas que me levam a refletir sobre duas ou três questões relacionadas com este acontecimento com características bem mais particulares que o São Sebastião de Alturas de Barroso e de Salto (Montalegre).

 

Vejamos, para mim, a mais importante delas: a massificação do evento. No passado domingo, apesar do dia de frio e de chuva que esteve, deveriam passar de dois mil os comensais que se aproximaram da «Mesinha».

 

(Pormenor 01)

 
(Pormenor 02)
 

Autocarros e carros particulares entupiram as restantes ruas da aldeia.

 
 

E não faltaram vendedores-ambulantes. Guarda-chuvas foi o que mais se vendeu, naturalmente…

 
 

Gente que não vinha apenas servir-se da comida do Santo pois traziam abonados farnéis que iam comendo e bebendo enquanto o repasto benzido não chegava.

 
 

Muitos deles em grupos, cantando, um ou outro, dançando, como se de uma autêntica romaria se tratasse.

 
 

A segunda questão leva-me a interrogar: é certo que todo este «cerimonial», sumariamente descrito, integra efectivamente uma tradição. Que real tradição? Bom, alguns dir-me-ão, a tradição que tem a ver realmente com a lenda! Correcto. Sabemos que, toda e qualquer lenda, tem o seu fundo de verdade; respalda-se em «alguma história». Que tem a ver com a fé; com os medos da peste, da fome, da pobreza, da violência… Mas, onde está a sua verdadeira história, porventura algures escondida nas funduras da Idade Média onde, provavelmente, tudo começou?

 

Estou certo que grande parte dos que se aproximam de Vila Grande e se acercam da «Mesinha» de São Sebastião, no dia 20 de Janeiro de cada ano, são movidos pelos mais sãos e santos sentimentos de fé no Santo. Certamente que sim. Contudo, uma grande percentagem de pessoas não vão a Couto de Dornelas movidos pelos laços de fé que os prende ao Santo! Que os move então? Curiosidade? Nostalgia dos tempos passados? Uma espécie de um «novo regresso ao campo», aliás donde a maior parte de nós somos oriundos, numa espécie de viagem româmtica? Ou…?

 

Não sou sociólogo, nem sequer antropólogo. Apenas um curioso, interessado na razão de ser das coisas, da profundidade das mesmas, se tal é possível.

 

Tenho para mim, se queremos integrar estas tradições efectivamente no «corpus» do dia-a-dia das nossas comunidades, nos tempos que correm, tão globais e tão voláteis, neste mundo que nos homogeniza a todos, há que ir mais fundo. Encontrar a raiz que prende esta(s) tradição(ões) à vida, à história efectiva das nossas comunidades para que, também com ela(s), possamos contribuir para uma maior e melhor construção da(s) mesma(s).

 

Li algures que uma exposição fotográfica sobre este evento esteve patente ao público num dos locais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e que correrá por outras localidades, sob a designação de «Gentes e Costumes». Ora aqui está o ponto: o arquivo, nomeadamente o fotográfico, é de uma importância fundamental para conhecer e melhor compreender uma terra, uma tradição e a sua consequente evolução. Mas há que ir mais longe. Ao cerne, ao âmago das coisas: do seu real e efectivo significado e da importância que, ao longo dos tempos, representou para a(s) comunidade(s). Por forma a que as comunidades melhor se compreendam, enquadrem e identifiquem, encontrando, desta forma, novas vias que as leve à sua preservação e melhoramento, o mesmo que dizer – manutenção no meio, no quadro de um novo desenvolvimento que utiliza a sua história e tradição como elemento, alavanca fundamental, não só da sua identidade e auto-estima, mas também da escolha da melhor estratégia para o seu efectivo desenvolvimento.

 

Mas, na complexidade da sociedade em que hoje vivemos, não é só às comunidades que se deve exigir este esforço. Deve ser um esforço da sociedade no seu todo. Em particular das instituições que para este desiderato estão mais vocacionadas. Há que repensar, analisar e apresentar um novo modelo de desenvolvimento pois, aquele que nos trouxe até aqui, está a vista de todos, não serve, esgotou. Desventrou de gentes todo o interior do país, deixando desertificado o seu território e abandonados à sua sorte os poucos resistentes que teimam em por lá ficar, enquanto, por outro lado, numa pequena faixa do litoral «encaixotamos» gentes que vivem o seu dia-a-dia ao lado de outros que não se falam, não conhecemos o seu nome e nem lhe vemos sequer o seu rosto, criando espaços que são não-lugares, sem identidade e sem história.

 

Eu acredito na política, nass instituições que trabalham o conhecimento e nas nossas comunidades. Da política espero que nos apresente um outro futuro, com uma visão de uma sociedade mais livre, mais justa, mais fraterna e mais igual; das instituições do conhecimento e da investigação, face a essa nova visão e esse futuro, um melhor conhecimento das gentes, das tradições, dos seus costumes e dos territórios pois é, a partir deste cadinho de conhecimento e saber, que se poderão arquitectar as melhores estratégias para um desenvolvimento mais justo e equilibrado das comunidades, num mundo em constante mudança; das comunidades, devidamente informadas, formadas e animadas, espero a vontade, a força e a determinação suficientes para levarem a cabo a tarefa urgente do desenvolvimento harmónico, integral e solidário do território – pátria que também foi dos nossos avoengos – e das suas gentes que, tal como antanho, souberam elevar bem alto, por aquele mundo conhecido de então, o nome de Portugal.

 

Neste sentido, há que nos despir da mentalidade mesquinha que cada terra, cada lugar tem. E evitar que sejamos “um ninho, ou de néscios, ou de lacraus” dando-nos “cotoveladas uns nos outros, ou fecharmos os olhos e baixar a cabeça. Sem esperarmos, pelo nosso trabalho ou lavor, quaisquer “prebendas, sorrisos e abraços”. Precisamos, sim, de todos. De todos sermos actores, artistas principais nas tarefas do nosso próprio desenvolvimento. Banindo a mentalidade de avestruz. Mesmo que tenhamos de assumir, na mesma pessoa, com autenticidade, verdade e sem torpezas, diferentes nomes e personalidades: temos que nos desdobrar!

 

Porque todos somos poucos para a(s) tarefa(s) que aí temos à nossa frente.

 

 

António de Souza e Silva

 
 

publicado por andanhos às 02:04
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1 comentário:
De Lena a 23 de Janeiro de 2013 às 11:11
Belas as fotos e a reportagem, voltarei ler com mais atenção.


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