Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013

Gallaecia:- Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 2ª etapa (San Juan de Villapañada- Bodenaya)

 
 

A natureza, que no seu profundo ser e sentido,

desconhece totalmente a individualidade,

 é edificada pelo olhar do homem,

 que divide e forma o dividido em unidades peculiares,

 em cada individualidade - «a paisagem»”.

 

 George SimmelFilosofia da Paisagem

 

 

Viajar na ignorância da história de uma região

deixa-nos incapazes de entender o

«porquê» de qualquer coisa ou de qualquer pessoa”.

 

Paul TherouxA Arte da Viagem

 
 
8.Dezembro.2012
 
 
 

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias – 2ª etapa:- San Juan de Villapañada-Bodenaya

 

 
 
 

 

1º Troço – San Juan de Villapañada- Santa Eulalia de Dóriga

  

Às sete horas toda a minha gente tratou de se pôr a pé, logo a seguir ao toque de alvorada dado por Pé D’Vento.

 

Nona, como sempre, foi o primeiro a arranjar-se e tomar o pequeno-almoço.

 

E foi logo seguido por seu sobrinho Tâmara_Júnior, que se queixava de ter sentido um pouco de frio, de noite. Assim, logo que tomou também o seu pequeno-almoço, saiu logo para fora ver como estava o tempo, munido da respectiva máquina fotográfica. Após ter tirado meia dúzia de fotos ao nascer do sol, que crescia por detrás da vila de Grado, Tâmara_Júnior, ora contemplativo, ora em amena cavaqueira com seu tio Nona, aguardavam, sentados nos bancos do recinto do albergue, que os outros membros da comitiva se preparassem para darmos início à caminhada do dia.

 
 

Pé D’Vento foi o terceiro a aparecer à soleira da porta do albergue e, como sempre, o último, Fábios, que leva uma eternidade a arranjar seus pertences na mochila com aquele cerimonial que todos conhecemos.

 

Fábios e Pé D’Vento deixaram o albergue num brinco.

 

Às oito menos um quarto estávamos os cinco já defronte da Igreja de San Juan de Villapañada todos prontos para dar início à nossa faina do dia.

 

 

Mas não arrancámos sem que, a seu pedido, Tâmara_Júnior tivesse tirado uma foto a Fábios à frente da igreja.

 

Fábios faz questão de preservar a sua imagem, não gostando de vê-la espalhada pelas redes sociais. Há, pois, que respeitar o seu direito. Mas, sempre direi, aos meus caros leitores, que a foto até ficou com uma certa piada: parecia um soldado recruta, devidamente equipado e pronto, de saída para a semana de campo. Em postura tão hirta que só lhe faltou bater a pala ao respectivo fotógrafo, como se fora seu superior.

 

O dia não estava tão macio como o de ontem: havia menos nuvens no céu e, efectivamente, estava mais frio.

 

A chuva não ameaçava tanto como fizera na véspera, caindo com tanta abundância do céu.

 

Por isso, logo que saímos da povoação, todos atacámos, determinados, uma forte subida, em asfalto, até ao Alto do Fresno, que nos levou até aos pés do Santuário de Nossa Senhora do Fresno, à nossa direita. A sua romaria celebra-se a cada 28 de Setembro. O Santuário é uma construção em estilo barroco, do século XVII. Até 1839, este local era ponto de vigilância dos Cavaleiros de Jerusalém e, nas Invasões Napoleónicas, serviu de fortaleza, com a edificação de uma grande barricada.

 
 

Por outro lado, este lugar é o ponto de divisória entre os vales e as bacias dos rios Narcea e Nalón.

 

Neste mesmo Alto, no sentido do Santuário, para quem não tenha lugar no albergue mais abaixo de San Juan de Villapañada, o peregrino pode seguir para o albergue de Cabruñana.

 

Entretanto nós seguimos em frente, em direcção a San Marcelo, La Reaz e La Dóriga, numa larga e tremenda descida, de dar cabo dos joelhos. Aqui, neste troço, o antigo caminho desapareceu, por via da construção do túnel da Autovia de la Espina da A-63.

 

Mais uma vez, quem projectou esta obra não teve o mínimo de respeito por este caminho histórico! Como bem se diz no sítio de «Gronze.com»: “Este troço é o paradigma do que está sucedendo ao conjunto dos caminhos de Santiago, tratando com iniquidade e desprezo um património natural, histórico e monumental de primeira grandeza”. E que, ainda por cima, foi considerado como Conjunto Histórico-Artístico, com pretensão, tal como acontece com o Caminho Francês, ser declarado, pela UNESCO, Património da Humanidade!

 

Depois de superarmos aquela horrível descida, ainda por cima com chuva a começar a cair-nos no lombo, e passarmos pela Fonte e Ponte de Meredal, e por uma outra metálica sobre a autovia, chegámos a Santa Eulalia de Dóriga.

 
(Trecho nº 1 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
(Trecho nº 2 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
(Trecho nº 3 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
(Trecho nº 4 entre o Alto de Fresno e Dóriga)
 
 

Em Santa Eulália de Dóriga dois edifícios nos chamaram a atenção: a igreja românica de Santa Eulalia, embora se apresente com estrutura neoclássica, que nos aparece logo que chegámos à aldeia

 
 

e o palácio/fortaleza dos Dóriga, do século XIV-XVI.

 
 

Fábios estava informado e, por isso, tinha assinalado no seu TwoNav, que, nesta localidade, existia um bar chamado «Cá Pacita», mesmo em frente da igreja, onde aí iriamos aproveitar para reforçar um pouco mais o espartano pequeno-almoço que tínhamos comido em Villapañada. Mas, infelizmente, nesta altura do ano, encontra-se fechado.

 

Aproveitámos, entretanto, uns, para dar uma vista de olhos à aldeia; outros, para, no alpendre da igreja, descansar um pouco. E, passados 15 minutos, aproximadamente, continuámos caminho.

 

 

2º Troço - Santa Eulalia de Dóriga – Cornellana

 

À saída de Santa Eulalia de Dóriga,

 

 

após uma pequena subida, vislumbrámos o vale do rio Narcea e «tropeçámos», mais uma vez, com as obras, completamente paradas, desde Junho de 2011, da Autovia A-63. Apesar das obras, o traçado do Caminho está bem sinalizado.

 
 

Na descida,

 
 

para irmos ao encontro do asfalto (estrada) em La Ponte, duas observações: a primeira, é necessário ter muita cautela com aquela descida – depois de se ultrapassar um agradável bosque -, o caminho está pejado de pedras soltas entre musgo e folhas velhas, tornando-se escorregadio e perigoso; o segundo, foi a primeira vez que vi tal coisa num Caminho de Santiago, ao chegar à estrada (N634 ou AS-15), em La Ponte, já no final da descida, pois o Caminho encontra-se vedado com cancelas para confinar, em sucessivos «estábulos», o respectivo gado bovino. E, assim, cada peregrino que por ali passe, tem de abrir e fechar as respectivas cancelas, por entre uma quantidade enorme de porcaria excretada por aqueles animais.

 
 

De La Ponte a Correllana é, aproximadamente, um quilómetro.

 
(Perspectiva parcial de Corlleana)
 
 

Aqui já se começa a sentir as águas do rio salmoneiro,  Narcea.

 
(Um pormenor no rio Narcea)
 

Passámos junto da Casa do Rio, sede do Centro de Interpretação do Salmão e, imediatamente a seguir, cruzámos o rio Narcea, entrando logo no centro urbano de Cornellana.

 

No centro urbano de Cornellana parámos no Café Bar Casino para não só descansarmos um pouco como comer e beber qualquer coisa: a maioria dos nossos estômagos, há um certo tempo, já estava a «bater horas».

 

No final do ligeiro repasto, Fábios dirigiu-se ao balcão para pagar a conta e vinha a comer um bolinho típico de Cornellana e Salas – los carajitos del professor (um bolo doce/«galheta» à base de avelã). Mas a verdadeira razão do nome é que não a soubemos verdadeiramente. O dito nem tão pouco mais ou menos se parece com um «carajo», por mais ínfimo que seja!...

 

Mas é numa padaria à entrada de Cornellana, numa esquina, que podemos encontrar os tradicionais «bonos preñaos» asturianos, um bolo recheado com chouriço.

 

Não tivemos grande oportunidade de visitar condignamente o Mosteiro de São Salvador de Cornellana, que se encontra à saída da povoação.

 

Este mosteiro foi fundado em inícios de 1024 e, no século XII, passou a depender da Ordem francesa de Cluny, convertendo-se, assim, num dos mosteiros mais importantes do reino das Astúrias.

 

Edificou-se em terras férteis do rio Narcea, na sua confluência com o rio Nonaya.

 

No século XVII foi anexado à Ordem (Congregação) de São Bento. No século XIX, com a desamortização de Mendizábel, iniciou-se a sua decadência.

 

Recentemente foi reconstruído. Foi declarado Bem de Interesse Cultural com a categoria de monumento. É actualmente habitado por beneditinos.

 

A igreja do mosteiro é hoje a igreja paroquial de Cornellana. Mas já não com o nome de São Salvador mas com o de São João Baptista, patrono da localidade.

 

O mosteiro de São Salvador de Cornellana integra elementos desde o pré-românico asturiano, do século IX, até à modernidade.

 

 

 

 

A torre campanário do mosteiro tem materiais que vêm já do ano 910.

 

 

 

 

Os elementos pré-românicos do rural asturiano estão na porta que dá acesso ao novo albergue de peregrinos, aqui localizado.

 
 
Do período românico conserva-se a Porta da Ursa, possivelmente o antigo acesso ao mosteiro.
 
 

São também do período românico os arcos do claustro e, sobretudo, a estrutura da igreja, de três naves, e de tripla cabeceira, escalonada e arrematada por três absides semicirculares.

 
 

Do período barroco é a fachada da igreja, com duas torres quadradas. A fachada do mosteiro, que faz ângulo com a igreja é também barroca.

 
 

 

3º Troço – Cornellana – Quintana

 

Optámos, neste troço, por seguir pela estrada N 634. Não foi ideia que agradasse muito a Nona. Nem a mim tão pouco. Fábios achou que seria mais fácil… Pareceu-me, contudo, um pouco arriscado, em termos de segurança e nada bom para os meus pés. Tal como Nona, não só fã em andar no asfalto. E, no final da etapa, ganhei duas valentes bolhas – uma em cada pé!

 

O troço é cheio de povoações, não muito grandes, mas sem qualquer serviço.

 
(Trecho nº 1)
 
(Trecho nº 2)
 

O que não faltou foram linhas de água, ribeiras, ribeiros, riachos, tudo a escorrer para o rio Nanoya, nosso companheiro agora de viagem também.

 
 
(Trecho nº 3)
 
(Trecho nº 4)
 

Por outro lado, aqui e ali, numa ou noutra curva da estrada, pilares da A-63, com ferro à mostra e cheios de ferrugem. Autovia esta que, por estas bandas, tarda em entrar ao serviço.

 

 

4º e 5º Troços – Quintana – Casazorrina – Salas

 

O mesmo asfalto; a mesma planura;

 

 

a mesma paisagem; pouca água a cair do céu, mas muita correndo pela terra.

 
(Trecho nº 1 - Casazorrina)
 
(Trecho nº 2)
 

E…  um pormenor interessante ao longo da estrada.

 
 

Chegados a Salas parámos no Restaurante Sidrería La Campa de Miguel  para restabelecer forças, descansando e comendo qualquer coisa. Ainda tínhamos uma valente subida a ultrapassar até ao albergue de Bodenaya.

 

Salas é considerada a porta do ocidente das Astúrias. Foi ocupada desde a pré-história, (daqui a presença de castros por toda esta zona) na época romana e medieval.

 

Demos uma pequena volta a esta pequena, linda, limpa e aprazível vila, sede de concelho e pudemos ver com agrado:

 

  •  Edifício do Ayuntamiento de Salas;
  • Igreja paroquial/Colegiata de Sanata Maria Maior. É monumento nacional. Do século XVI. Foi mandada edificar pelo Arcebispo D. Fernando de Valdés. A obra realizada é, num primeiro momento, gótica, com elementos renascentistas. Esta igreja, inicialmente, não foi construída para ser igreja paroquial outrossim panteão familiar dos Valdés. Foi em 1894, sendo seus titulares os duques de Alba, que se cedeu o templo para estas funções, conservando-se, apenas por tradição, o nome de Colegiata. Entre as obras de arte que fazem parte do espólio da Colegiata, destaca-se, para além do retábulo da capela-mor, a capela dos Malleza e
  •  O mausoléu do Arcebispo Valdés - o fundador da Universidade de Oviedo, Astúrias.
  • O Palácio dos Valdés. É monumento nacional. Do século XVI. É um sóbrio edifício, de tipo popular, representando uma amostra da arquitectura civil da época. Tem forma de trapézio; organiza-se à volta de um pátio interior; dispõe de uma fachada principal, com um corpo de duas plantas flanqueado por duas torres salientes; porta principal com arco de meio ponto e pequenas janelas. Tem adossada uma capela de planta rectangular. O palácio actualmente acolhe um hotel, a Casa da Cultura e o Posto de Turismo;

 

  • Torre do Palácio dos Valdés. É monumento nacional. Do século XIV. Está unida ao palácio em forma de arco com os escudos da família Valdés Salas. É de cantaria lavrada e planta quadrada. Nesta Torre está instalado o Museu Pré-românico San Martin, que conserva o valioso conjunto de peças e lápides procedentes da igreja de San Martin, hoje capela sita no cemitério da localidade, que são uma excelente amostra da riqueza decorativa do pré-românico do século X.
  • Casa Maria Veiga ou de Miranda. É do século XVII. Tem uma fachada principal com estrutura popular, enriquecida por um escudo.
  • Palácio dos Condes de Casares. Edifício do século XVII, de planta quadrada, em torno de um pátio com a mesma forma. Destaca-se nele o escudo dos Malleza. Alberga um amplo conjunto de dependências, capela e lagar. Tem uma quinta contígua, cercada com pedra de cantaria.
  • Igreja de San Martin. É monumento nacional. A primitiva igreja foi construída entre os séculos VIII e IX. Foi reconstruída no século X por Alfonsus Confesus. Foi destruída no século XV e reconstruída nos séculos XVII e XVIII. Consta de una nave única coberta de madeira com duas águas. O acesso faz-se por uma porta gótica com arco ogival, de três arquivoltas molduradas, mas sem decoração. Grande parte das suas peças originais estão expostas na Torre do Palácio do Valdés, hoje Museu Pré-românico.
 
  • Capela de São Roque. É do século XVII. Pertencia ao antigo hospital do Caminho de Santiago. É de nave única e de planta rectangular, coberta com abóbeda de meio canhão. O arco de acesso é de meio ponto.
  • Parque Municipal Carmen Zuleta
 
  • Um pormenor do casario de Salas
 
 

6º Troço – Salas – Bodenaya

 
(Pormenor nº 1 - Casario à saída de Salas)
 
 
(Pormenor nº 2 - Espigueiro à saída de Salas)
 

Mais de seis quilómetros e meio sempre a subir!

 

Partimos da cota 250 metros de altura para atingirmos os 800.

 

O caminho inicial é por um bosque frondoso, onde abundam robles (carvalhos) e castanheiros e o rio Monaya, quase sempre ao fundo da ravina, murmurando.

 
 

Nestes troço, água, fontes e pontes, recuperadas,  não faltam. É a Fonte de Pain; a Ponte Borra; a Ponte Cartabón…

 
 
 

Foi uma beleza, embora o percurso fosse a subir, percorrer estre troço do Caminho, durante mais de dois quilómetros e meio!

 

Embora o piso fosse uma boa cama de folhas mortas, aqui e ali, a lama e, principalmente, o pedregulho, não foram o melhor para as minhas bolhas.

 
 

Ao nos aproximarmos da N 634, Km 458, tivemos que parar por duas vezes: a subida era íngreme e Nona foi-se atrasando. A solidariedade aqui pedia que esperássemos pelo “velhote”. Como sempre, e compreensivelmente, o primeiro a dar o exemplo foi seu sobrinho, Tâmara_ Júnior.

 

Até que se chegou à estrada! Aqui descansámos todos um pouco antes de prosseguir pelo asfalto. Comemos alguma fruta que trazíamos e, quando estávamos para carregar mochilas para partir,  um telemóvel toca. Era o de Fábios. Do seu filho Mito(k). O direito à privacidade fez nossas orelhas moucas. Mas, pelo semblante e sobrolho de Fábios, dava para perceber que a conversa não o animou muito. Desligado o telemóvel, até nos pareceu amuado.

 

Enquanto andámos um quilómetro pelo asfalto e subíamos, com esforço, até Porciles, sem intensão de me intrometer na conversa, sempre fui ouvindo o desabafo de Fábios para com Pé D’ Vento: “Caraças, eu prá qui a esforçar-me nesta subida, enquanto aquele «macaco» me telefona, a gozar, dizendo que as sopas de alheira estavam uma delícia!

 

Voltando, novamente, ao trajecto original do Caminho Primitivo, depois de sairmos do asfalto que rodeava a nova A-63, depois de passarmos por uma ponte metálica que cruza a A-63, e após mias uma pequena, mas bem difícil subida, com prados verdejantes à nossa direita, finalmente encontrámo-nos na planície da serra de Bodenaya!

 
 
 

Chegar ao albergue, um espigueiro asturiano transformado para este efeito, por um ex-taxista madrileno, de nome Alejandro, foi para mim um alívio. As bolhas doíam-me de caramba!

 
 

Mas, pelo semblante dos restantes, não vinham muito melhores. A subida de Salas até Bodenaya foi, positivamente, um osso ruim de roer.

 

O que valeu foi o acolhimento que tivemos. Alejandro (Alex) recebeu-nos à entrada do albergue. Afável, discreto e muito prestável. Sua companheira, natural de Bilbao, encontrava-se no interior, de fronte a uma salamandra a ler um livro, a aquecer-se, enquanto, a seu lado, um estendal de roupa fumegava. Após os respectivos cumprimentos, preenchimento do livro de hóspedes e selagem das Credenciais do Peregrino, Alex foi-nos dando indicações sobre os cantos e normas da casa. Entretanto uma música de fundo soava-nos agradavelmente aos ouvidos, alternando música clássica com música celta.

 

Trata-se de um albergue privado. Que proporciona aos peregrinos dormida, ceia e pequeno-almoço bem assim lavagem e secagem de roupa, para além do banho quente.

 

O preço, sob a forma de donativo, fica ao critério de cada um, que o deposita numa caixa pregada numa parede interior do albergue. Esta forma de viver pareceu-nos ser a principal de Alex e sua companheira, uma outra peregrina que, como ele, cedeu aos encantos de Bodenaya, do seu albergue e aos do albergueiro que a atendia, quando também fazia o seu próprio Caminho.

 

De um espigueiro asturiano não se pode exigir grande espaço para os peregrinos. Contudo, nele perpassa muito calor humano e as respectivas divisões estão organizadas como se estivéssemos em casa de família.

 

Enquanto Tâmara_Júnior, Nona e Pé D’Vento tomavam banho e se refrescavam, Fábios, que para além de ser o navegador de serviço, cumpria também com as suas funções de enfermeiro, tratava das minhas bolhas, com equipamento e material adequado para a pequena «cirurgia». Após o tratamento fiquei mais aliviado.

 

Depois de tomarmos todos banho e darmos a roupa suja para lavar ao Alex, fomos todos descansar um pouco para as camaratas, no piso superior do espigueiro, decorado com motivos, pareceu-me, de matriz sul-americana. Começámos a dar conta que o tempo estava arrefecendo mais.

 

A páginas tantas, entra-nos um cheirinho pelas narinas. Fábios, curioso e mais dado a conversa, desce para se inteirar do que se estava a cozinhar.

 

Era Alex a fazer a nossa ceia. Nossa, dele e da sua companheira, pois comemos todos juntos na mesma mesa.

 

A ceia constou daquilo que mais lhe chamaria um caldo forte à base de batata, ervanço, chouriço, arroz, e sei lá quê mais!... Pão não faltava na mesa. E todos nós pensávamos que a nossa ceia ficaria por aqui. Espartana, portanto. Mas não. Depois veio mais uma salada com muitos ingredientes, entre eles, massa fusilli, alface, tomate, etc. a acompanhar uma valente tortilha.

 

Alex pareceu-nos pessoa devota. E muito conhecedor da região que adoptou como sua. Juntamente com sua companheira, já tinham feito o Caminho del Salvador (León-Oviedo), que nos recomendou fazê-lo, dizendo ser até um pouco mais difícil  que o Primitivo. E falou-nos de um outro percurso, de uma beleza rara – a «Ruta das Xanas». Ficámos cheios de curiosidade.

 

Antes de se retirar com a sua companheira para os seus aposentos, situados ao lado do albergue, ofereceu-nos um «pin» com a seta amarela do Caminho de Santiago.

 

Quando se despediu de nós para se deitar, perguntou-nos a que horas nos levantávamos para nos vir fazer o pequeno-almoço. Marcada a hora -7 como de costume – disse-nos que não nos preocupássemos com o despertar pois ele se encarregaria de nos acordar, pondo-nos música a tocar a essa hora.

 

E, com efeito, às sete horas despertámos com uma bonita canção dos Madredeus. Homem de bom gosto e sensibilidade, este Alex!

 

Impressões finais

 

  • Como já atrás referi, hoje foi dia de relativamente pouca água vinda do céu, mas muita na terra, correndo para os leitos do rio Narcea, o maior rio salmoneiro de Espanha, e do Nanoya.

 

  • Na paisagem os mesmos espigueiros junto às casas, a mesma verdura e… muito asfalto!

 

 

  • A etapa desenvolveu-se em plena comarca vaqueira, das Astúrias interior, de cerros e colinas e com vistas bonitas,

 

  • Pejada de veigas das ribeiras dos rios que passam por Cornellana (Narcea) e Salas (Nanoya).

 

 

  • Apesar de chata, por se pisar muito asfalto, a não ser a subida para o Alto do Fresno e a de Salas a Porciles e Bodenaya (6,5 Km), a etapa foi relativamente tranquila.

 

  • Algumas casas rurais, de certo porte, e palácios rurais asturianos eram vistos ao longe, entre bosques e prados.

 

 

  • Da gastronomia, as sempre presentes «fabadas»; o «pote de berzas», o salmão, as trutas, o já falado queijo «Afuega’l Pitu», o arroz com leite (ou doce) e os emblemáticos «los carajitos del professor».

 

  • Uma nota negativa, aliás já aqui referida: esta etapa, em alguns dos seus troços, foi muito profanada pela execução da nova via A-63. Deveria haver um pouco mais de sensibilidade para um dos mais emblemáticos, embora não o mais importante, Caminho de Santiago. Tratando-se de «Primitivo», a pureza do seu traçado deveria ser preservada em toda a linha. O que, infelizmente, não aconteceu!

 

 

 

 

Diaporama da etapa

 

Segue-se um diaporama com algumas imagens dos troços percorridos nesta segunda etapa.

 

(Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue).

 


 


publicado por andanhos às 14:24
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