Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Gallaecia: Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 1ª etapa:- Oviedo-Villapañada


 

7.Dezembro.2012

 
 

«Ainda uma outra noção do viajante é de que ninguém verá o que ele viu;

a sua viagem destrona a paisagem e o que importa é a sua versão dos acontecimentos.

Nisso, está certamente a enganar-se a si mesmo, mas,

se não se enganasse um pouco a si mesmo, nunca iria a parte nenhuma».

 

Paul Theroux (1983) – The Kingdom by the Sea (A Journey around Great Britain)

 
 

Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - 1ª Etapa:- Oviedo-San Juan de Villapañada

 
 
 

 

1º Troço:- Oviedo – San Lazaro de Paniceres

 

Às 8 horas em ponto toda a comitiva estava a sair do albergue. Dirigimo-nos ao Café-Bar Sucursal, onde ontem tínhamos guardado as nossas mochilas e à noite comemos um «caldo de pollo».

Do Café-Bar Sucursal, onde tomámos um frugal pequeno-almoço, até à Catedral de El Salvador, o Caminho é relativamente fácil. Já na Praça da Catedral ou Afonso II, local onde oficialmente começa o Caminho Primitivo,

 
 

para nos orientarmos, a coisa pareceu complicar-se, dado, como se sabe, este local é ponto de partida e chegada de outros caminhos e/ou conexões. A boa orientação de Fábios, e a ajuda do TwoNav, foram preciosas e, rapidamente, encarreirámos com as setas de bronze colocadas no pavimento.

 
 

O traçado urbano, em Oviedo, embora fácil de percorrer, se atentos à sinalização das vieiras, é, contudo, longo.

 

Lembro-me vagamente de algumas ruas como a de San Juan, Covadonga, Melquíades, Álvarez e Independencia. Nestas imediações comtemplámos a bonita igreja de San Juan El Real, já fora do centro histórico e na dita «ensanche».

 
 

Estávamos todos ansiosos por sair deste emaranhado de ruas. Até que, depois de atravessarmos uma passagem de nível de caminhos-de-ferro, e de penetrarmos na rua Afonso I, o Católico, depressa entrámos na Florida onde, no seu término, na rotunda com o mesmo nome, existe uma bonita escultura.

 
 

A partir daqui, e depois de deixarmos o Parque “Caminho de Santiago”,

 
 

a área urbana de Oviedo ficou-nos para trás e, em ligeira subida, e desníveis contínuos, caminhámos até San Lazaro de Paniceres, a 4 Km da Catedral, nosso local de partida.

 
 

Se bem que ontem o dia estivesse bonito, sem nuvens e chuva, e aparecendo aqui e ali uma luz de sol, hoje tudo se tinha modificado. A chuva começou a aparecer, com bastantes nuvens e nevoeiro. Uma chuva não muito intensa, na maior parte do tempo, mas miudinha e quase constante. Muito chata, obrigando-nos a usar e a tirar constantemente as capas de chuva.

 

Este tipo de chuva, tipicamente asturiana, acabava por completar o quadro estereotipado que temos das Astúrias: muitas áreas verdes, muito verde, com vacas e seus respectivos chocalhos, enquadrando os sons típicos da paisagem asturiana,

 
 

emoldurada pelos altos picos montanhosos ao largo do horizonte, a anunciar que nos dirigíamos para a comarca vaqueira. E não nos podemos esquecer, integrados profusamente na paisagem, quer nos campos, quer nas aldeias, dos célebres «hórreos» (espigueiros), muito típicos e característicos, cuja forma e diferentes arquitecturas só existem neste Principado.

 
 

 

2º Troço:- San Lazaro de Paniceres-Lloriana

 

A partir de San Lazaro de Paniceres, e mais à nossa direita, começámos a contemplar o conhecido monte Naranco, enquanto à nossa esquerda continuavam os prados, tendo como pando de fundo, não só ainda alguns bairros da cidade de Oviedo como,

 
 
 
 mais ao fundo, os contornos longínquos montanhosos para onde nos dirigíamos

 

 

bem assim uma séria de picos montanhosos pertencentes aos «Picos da Europa». Uma visão fantástica, apesar de misturada por um manto de nevoeiro que trazia uma “chuva de molha-tolos”.

 
 

Fizemos uma pequena pausa na capela del Carmen, em Llampaxuga. Não só para descansar um pouco mas também para deixar passar um pouco mais a chuva, que começou a cair com mais intensidade.

 

Ali, numa caixa de madeira encrustada na parede frontal da capelinha, onde havia material de primeiros socorros, usámos o carimbo da capela e apusemo-lo nas nossas respectivas Credenciais do Peregrino.

 
 

Mais à frente passámos por um sítio pitoresco e refrescante para descansar, particularmente em dias quentes.

 
 

 

3º Troço:- Lloreana – Escamplero

 

Passámos em Llampaxuga e Lloreana, após ultrapassada uma encosta um pouco íngreme. Contemplámos a igreja de Santa Maria de Lloreana, do século XII, dedicada a S. Vicente, que poderão observar no diaporama que se apresenta no final deste post  e cuja particularidade é a imponência da sua torre.

 

Entretanto, numa descida, e na entrada para o concelho de Las Regueras, em Gallegos, observámos a ponte medieval, construída no século XIII, sobre o rio Nora que, um pouco mais à frente, vai desaguar no rio Nalón.

 
 

Daqui, e sempre em asfalto, dirigimo-nos até Escamplero.

 
 

Optámos por não fazermos a derivação à direita, descendo pelo verdadeiro traçado do Caminho. Por tal facto não fomos ao encontro do bosque de carvalhos e castanheiros, mais conhecido por “El Castañéu del Soldáu”.

 

Em Escamplero, (que antigamente teve um hospital de peregrinos), e porque a chuva começava a incomodar mais pela sua intensidade, optámos por fazer uma pequena pausa, também para descansar no bonito, moderno e aprazível albergue desta localidade, o primeiro desde que saímos de Oviedo.

 

Tâmara_Júnior tinha comido pouco ao pequeno-almoço – apenas meia de leite – e, pelo caminho, foi rilhando uma maçã, comprada na véspera; mas, ao ouvir o buzinar de uma carinha do pão, que passava por esta aldeia (aliás como acontece em muitas das nossas aldeias rurais), correu de pronto para comprar um cacete. Em poucos segundos, quer ele, quer Pé D’Vento deram imediato sumiço ao dito, sem deixarem tempo para a restante comitiva sequer codear um pedacinho ou uma simples migalha. Depois de comido o cacete, acabaram por dizer que não era lá grande coisa, e que não havia pão como o de Chaves mas, apesar de tudo, seus mirrados estômagos, ficaram alegres. Como se vê, é bem verdade que, «com fome não há ruim pão».

 
 

 

4º Troço:- Escamplero – Premoño

 

Depois de sairmos de Escamplero pela estrada que se dirige a Avilés, e um pouco mais adiante, encontrámos esta típica construção com os seus não menos interessantes dizeres que, assim, traduzimos: “Conta-se que o infeliz mortal que profane um cruzeiro ou que «meta a unha» na caixa das esmolas da almas, andará, depois de morto, a vaguear pela noite, nos locais em que cometeu os seus pecados, procurando algum parente ou amigo que queira trocar o bem pelo mal que fez pois, se porventura não devolver o que roubou e não remedeie o que fez de mal, não terá sossego na morte”. De um outro lado da parede está a informação de que estamos a 335 Km de Santiago e a 12 de Cabruñana, Grado. No cimo da construção, outro dito: «Os lucros (ou investimentos) não têm dias santos».

 
 

Um pouco mais à frente, ao lado de uma descida, na aldeia de Valsera, uma singela capelinha do século XX, designada de Fátima, que veio substituir uma outra, ali existente, desde o século XV, dedicada a Santa Maria.

 
 

Mais espigueiros,

 
 

mais prados…

 
 

Descemos por um caminho, onde abundam carvalhos

 
 

e castanheiros,

 
 

com o chão repleto de folhas secas e, numa encruzilhada, a indicação que estamos nas imediações do moinho de Pincarin.

 
(Trehco 1 do percurso) 
 
(Trehco 2 do percurso)
  

Atravessámos o rio (riacho) Andallón pela “passarela de las Xanas” e, subindo, ainda em pleno bosque, fomos dando conta já da presença do rio Nalón, por entre a folhagem das árvores.

 

Depois de uma pequena subida, entrámos no asfalto e nas imediações de Premoño.

 

Agora chovia com mais intensidade e, na capelinha de Santa Ana de Premoño, único vestígio de um antigo hospital de peregrinos, no seu alpendre, aproveitámos para nos abrigar e descansar um pouco.

 

Entretanto, Pé D’Vento e Tâmara_Júnior aproveitaram para, num bar ali ao lado da capelinha e de um bonito espigueiro, refrescarem a garganta: um, com uma «caña»; o outro, com um sumo de maracujá.

 

 

5º Troço:- Premoño – Peñaflor

 

 

Como a coisa não havia modos de aliviar, há que voltar a pôr a capa da chuva e continuar caminho.

 

Pouco tempo andámos por caminhos pejados de folhas de carvalho e castanheiro, embora com alguma lama, como tanto gosta Nona.

 

Ao entrarmos, contudo, no asfalto, pela estrada AS-234, adquirimos mais um novo companheiro de percurso: o largo e caudaloso rio Nalón.

 

 

Num momento de grande concentração para a captura das suas presas preferidas (porventura uma truta ou um salmão), aqui fica um atento corvo-marinho pendurado numa árvore encalhada no rio.

 

Ao passarmos por esta casa «fumeguenta», eis o comentário de Fábios: «Nona, somos bem malucos! Nós aqui à chuva e ao vento e que tão bem ali se estava à frente daquele luminho… Será que ao menos nos ofereciam um caldinho?... Que bem que eu o comia!».

 

Não assomando ninguém à porta, e tendo vergonha de pegar no batente da mesma para, porventura, no-la abrirem e, consequentemente, mendigar um bocadinho do manjar que, de cá de fora, cujo aroma tão bem cheirava, continuámos caminho.

 

Mais atrás Tâmara_Júnior acrescentava: «Eu, por mim, e por hoje, ficava por aqui, se me deixassem cá ficar!».

 
Mas não foi isso que aconteceu. À frente, Pé D’Vento, em alta voz, clamava: «Então, meninas, vamos embora. Logo à noite, no albergue, vou preparar-vos um manjar de romba».
 
 

E, com esta ilusão, lá nos adiantámos mais pelo asfalto adiante até à ponte medieval de Peñaflor, construída no século XII, e reconstruída em sucessivas épocas, devido, em grande parte, às cheias do rio Nalón.

 

Esta ponte é a porta de entrada do Caminho de Santiago (Primitivo) no concelho de Grado.

 

Tem também importância histórica. Aqui se travou uma importante batalha, com soldados e civis, às ordens de Gregório Jove, contra as tropas napoleónicas, em 1808.

 

Nesta ponte ainda, no século XII, existiu, numa das suas margens, um hospital de peregrinos.

 
 
Atravessada a ponte, continuámos ainda no asfalto para chegarmos e entrarmos na povoação de Peñaflor. Trata-se de uma povoação já bem antiga e com uma profusão de espigueiros por ela espalhados. Uma ou outra casa está recuperada. A estação do FEVE é um dos elementos mais modernos que por ali se vê…
 
 

 

6º Troço:- Peñaflor – Grado

 

 
(Vista parcial dos subúrbios de Grado)
 

De Peñaflor saímos cruzando um túnel da linha de caminho-de-ferro e, por um pequeno vale, com hortas e terras cultivadas, entrámos em Grado.

 

Já nos encontrávamos todos um pouco cansados, moídos. Por isso, unanimemente, decidimos, até porque ainda continuava a chover, embora a mesma «chuva de molha tolos», que aqui fazíamos uma paragem para comer e nos aprovisionar para a ceia, uma vez que, no albergue de Villapañada, um pouco ao lado da povoação com o mesmo nome, não havia qualquer comércio para o efeito.

 

Praticamente atravessámos toda a zona urbana. Depois entrámos num bar para petiscar qualquer coisa, carregar as baterias do telemóvel e da máquina fotográfica e descansar um pouco.

 

Tínhamos a informação que no albergue havia provisão de comida mas, «como o seguro morreu de velho», Pé D’Vento, como cozinheiro do dia, e Fábios foram a um supermercado para se abastecerem, enquanto Tâmara_Júnior saiu do Bar para tirar mais umas fotos, deixando Nona e o autor da puridade deste relato na conversa e a descansarem. Coisas da idade…

 

Entretanto Tâmara_Júnior aparece, mostrando a estes dois velhos caminhantes as fotos que tinha tirado na vila.

 

Mostrou essencialmente:

  • Uma discoteca muito colorida;
 
 
  • O Palacete Velázquez ou o Capitólio. Em estilo muito ecléctico e rodeada por um grande jardim. É a mais importante das casas de indianos da vila de Grado. Foi mandada construir, nos finais do século XIX, pelo indiano D. Manuel Velázquez, que foi emigrante em Santo Domingo;
 
 
  • A capela de Nuestra Señora de los Dolores. Foi mandada construir pelo marquês de Valdecarzana em 1713 e foi concluída em 1719. Inicialmente foi levantado para ser panteão funerário. Está declarada, conjuntamente com o palácio com o nome de Miranda-Valdecarzana, como Monumrnto Histórico Artístico, sendo um dos melhores exemplares de templo barroco astruriano;
 
 
  • A Casa Consistorial ou Torre do Relógio, sede do Ayumtamiento de Grado. Foi mandada construir em meados do século XIX.
 
 

Nona, depois de ver as fotos, em jeito de lição, faz-lhe o seguinte comentário: «António, isso é apenas uma ínfima parte do rico património que Grado e o seu concelho têm!... Como sabes, Grado é uma vila medieval, fundada ex novo por Afonso X, o Sábio. Para além das suas muralhas, hoje já restos, tem, do século XV, o Palácio Miranda-Valdecarzana; o Palácio Fontela, mais conhecido por Palácio da Marquesa de Fontela ou Casa de Cienfuegos, do século XVIII; a Casa dos Arcos, também do século XVIII; a Casa Fernández de Miranda, dos finais do século XVIII e princípios de XIX; a Casa conhecida como La Casa Tejeiro, também do século XVIII; a Antígua Pescadería, de 1929; a Fonte de Baixo e os edifícios que lhe estão contíguos, com um pormenor de uma placa, neles afixada, de inspiração neo-clássica; o Palacete de Indalecio Corujedo; o Palacete de los Casares; a igreja paroquial de São Pedro; a Casa da Taberna de Alvarín; a Casa del Rosal; a Casa da Família Guisasola; a Casa de Valentín Andrés; o Monumento ao Marquês; o Coreto da Música; a Vila Granada; o Palacete da Família Martínez; as casas para os operários dos caminhos-de-ferro; La Quintana: El Calabión; a Fonte de Cima; a Cruz de Pedra, entre outros. E isto só na vila. Agora nos arredores, tens: em Malta, o sepulcro de Santo Dolfo; nas margens do rio Cubia, a ponte de Grado; em Castañedo, as Vilas Ramoncita e Santa Julita e a Igreja de São Vicente e, nos arredores da vila, embora pareça fúnebre, vale a pena ver o seu cemitério, em especial o Panteão de Concha Heres».

 

Tâmar_Júnior, pasmado com tanta informação, pergunta a seu tio como estava informado de todas estas coisas. Nona, mais uma vez, com uma paciência paternal, responde-lhe: «Nunca ouviste dizer que “quem vai ao mar se prepara em terra”? Então foi o que fiz. Não passávamos em Grado? Bastou apenas uma consulta ao sítio http://ayto-grado.es/museus-y-patrimonio. A partir daqui transferi, em pdf, toda a informação para o meu telemóvel e, ontem à noite, antes de começar a dormir, dei uma leitura pelos pontos e motivos mais interessantes das localidades por onde hoje passávamos. Pena não termos tempo para ver estas coisas todas. Como sabes, ainda temos de levar a cabo uma valente subida daqui até San Juan de Villapañada. Mas Grado merece uma visita para quem venha como turista para estes lados das Astúrias, António! E já agora, sabes como são chamados os habitantes de Grado? Mosconos… A gastronomia moscona típica é constituída pelo queso afuega’l pitu; pelo pan de escanda e pelo tocinillo. O queijo, que tem a forma de uma cabaça, chama-se afuega’ l pitu (a garganta) por ser ligeiramente amargo».

 

Entretanto chegam Pé D’Vento e Fábios, arfando e apressados, com as compras, dizendo-nos que nos tínhamos de despachar para não chegarmos já noite ao albergue.

 

 

7º Troço:- Grado – San Juan de Villapañada

 

 

Logo à saída de Grado temos uma forte subida.

 

 

 
Apesar dos prados verdejantes à nossa volta e de alguns espigueiros asturianos espalhados pelo território, a subida, ora em caminho de terra ora em asfalto, por via da autovia A-63 que por aqui passa, não foi pêra doce para final de etapa.
 
 

E depois ainda tivemos que fazer um desvio de 800 metros para nos dirigirmos ao albergue,

 
 

situado numa aldeia bem rústica.

 
 

Mas valeu a pena a subida de quase 3,5 Km.

 

O albergue, embora de aspecto rústico ou antigo, era, para nós, que vínhamos todos rotos, um luxo.

 
 

Quer Fábios, quer Pé D’Vento pediram insistentemente a Tâmara_Júnior para tirar fotos ao seu interior. Tâmara_Júnior estava para tirar mas depois esqueceu-se.

 

Deixamos, todavia aqui, uma descrição que Fábios fez questão que constasse da nossa reportagem:

 

  • Cozinha bem composta, com:
    • Frigorífico;
    • Fogão;
    • Máquina de lavar roupa; “Menage” e/ou trem de cozinha completo;
    • Máquina de extrair café, sumos, refrescos e outras guloseimas;
    • Mesa de refeições comunitária, ou melhor dizendo, utilizando as palavras de Pé D’Vento, «amesamento refeiçoeiro» a condizer;
    • Equipada com víveres e outras bebidas,
    • Onde não faltou uma das especialidades mais badaladas da região – a famosa sidra, com o respectivo equipamento de uso e,
    • tudo, com pagamento à confiança.

     

  • Hall de entrada:
    • Caixa de primeiros socorros;
    • Recipiente (antigo utensílio para recolha do leite das vacas) para guardar os cajados e guarda-chuvas;
    • Informação pormenorizada sobre o Caminho e
    • decoração a preceito, de acordo com a quadra que atravessamos.

     

  • Dormitório:
    • Camas confortáveis;
    • Com almofadas;
    • Com mantas;
    • Com pequenos armários e
    • Termoventilador.

     

  • Casas de banho:
    • Duas – multi-sexo -, para homens e senhoras;
    • Com toalhas;
    • E com artigos de higiene e limpeza básicos.

     

  • Exterior:
    • Com vistas para a vila de Grado, lá ao fundo;
    • Com mesas e cadeiras para refeições e/ou convivo no exterior, caso o tempo o propicie.

Positivamente, ficámos todos encantados. E, ainda para mais, uma dependência destas só para estes cinco magníficos!

 

Eram já quase 9 horas da noite quando nos bateram à porta. Era o hospitaleiro – o senhor Domingo, paisano asturiano de gema, pessoa afável e cioso do seu ofício, acompanhado da sua doce dona, Marisa.

 

Foi uma hora a falar. Todos e de tudo. Todos pareciam ter ares de papagaios, tal era o entusiasmo que emprestavam aos diferentes temas da conversa que corriam como cerejas. Mas quem debitou mais conhecimento, como não podia deixar de ser, foi o senhor Domingo, anfitrião da casa: sobre o Caminho, em particular o do El Salvador, muito querido e frequentado pelos asturianos e alguns peregrinos; sobre os diferentes albergues do Caminho e seus albergueiros; dos convívios que entre eles fazem; sobre as Astúrias e a crise. Enfim, quando demos por nós, já tinha passado mais de uma hora.

 

E o que o senhor Domingo e a sua doce Marisa vieram fazer, para além de nos cobrar a estadia e apor o selo nas nossas Credenciais? Ora vejam só: provisão para o nosso pequeno-almoço!

 

Pé D’Vento, à ceia,  comeu de caramba! Até a favada enlatada que havia nas prateleiras do albergue não escapou. E fez questão que fosse aberta uma garrafa de sidra.

 

Ficámos, todos, deveras surpresos e de boca aberta. Não pelo seu apetite à sidra, mas pela forma como executou o cerimonial de deitar a sidra no copo, tal como fazem os asturianos!

 

Nona, com ar circunspecto e sisudo, comprometeu-se, assim ele o quisesse, de lhe arranjar um emprego lá para os lados «da rua do bom comer e do bom beber», na Gascona, em Oviedo. É que nem um pingo de líquido deixou cair ao chão!

 

Comeu-se e bebeu-se à boa maneira transmontana. E, com a barriga cheia e uma pinga a mais, quem quer ir para a cama?

 

Lembrou-se a tempo Nona, ou Fábios, já não me lembro, que se jogasse uma partida de damas ou de dominó. Optou-se pelo dominó porque dava para mais jogarem.

 

Enquanto se jogava, uma chamada de Chaves procurava por Fábios.

 

Pareceu-nos que tinha havido «caldo entornado» por terras de Trajano. No final de contas, tudo se arranjou, não passando de um caso de excitação dos preparativos de uma tarefa importante: em casa de Fábios, no dia seguinte, ia-se fazer fumeiro.

 

Enquanto jogava uma pedra do dominó, um comentário, a meia voz, de Fábios: «Eu prá qui a aturar esta cambada e a comer favada enlatada quando, amanhã, podia estar a comer as sopas de alheira de que tanto gosto!».

 

Era este o desabafo de Fábios quando já perdia ao dominó por muitos pontos com  Pé D’Vento e se vingava na garrafinha do Vinho do Porto, melhor dizendo, do Generoso, que este humilde escrevinhador levava. Obviamente que ficou «como aço» e mal dava já com a cama, quando, finalmente, nos decidimos deitar. A meio da noite, diz Nona - que nele acredito -, Fábios sonhava em voz alta, pronunciando o nome de uma senhora cuja dignidade da dita aqui não deve ser referido…

 

Pelos vistos, ainda acordou a falar nela!

 

Coisas de Fábios…

 

 

Considerações (impressões) finais

 

 

Chegados ao albergue de Villapañda e depois de nos acomodarmos  e de nos refrescar-nos com um banho bem quentinho, foi hora de nos deitarmos um bocadinho para descansar.

 

Da camarata de Nona dou conta do diálogo deste com Fábios:

 

  • Para uma cidade como Oviedo, donde partem e aonde chegam tantos caminheiros e peregrinos, de vários caminhos e conexões, era para ter um albergue de peregrinos com outro gabarito. O edifício é pequeno, acanhado, embora numa rua sossegada, com pouco equipamento e praticamente nenhum serviço. Como capital do Principado, e tão ciosa do seu passado de peregrinações, era para terem mais orgulho nas instalações que se apresentam para os peregrinos/caminheiros que a visitam;

 

  • E não se entende porque o albergue abre tão tarde, aliás como em outras grandes cidades da Galiza!

 

  • Por outro lado, a questão da orientação das vieiras para indicar a direcção do Caminho. Fazendo parte de um símbolo universal, nos Caminhos de Santiago, não faz sentido que nas Astúrias uma posição indique uma orientação ou sentido e, na Galiza, o seu contrário! Deveriam as duas regiões se entenderem quanto a esta matéria para não confundirem ou baralharem os caminheiros/peregrinos.

 

  • O percurso pela parte urbana de Oviedo é demasiado longo e deixa de fora monumentos pré-romanos de valia que mereciam ser vistos e/ou visitados no decorrer do percurso, obrigando, desta feita, a que se tenha de o fazer noutra altura, já fora do percurso. Estou-me a referir aos que estão situados no monte Naranco.

 

  • Quanto à etapa em si. Não fora a circunstância de já termos feito algumas caminhadas antes e treinado em relevo idêntico ao que passámos hoje, pelo menos para mim, já entrado nos sessenta, nesta etapa teria algumas dificuldades. Por um lado, a sua extensão; por outro, é um percurso, quase todo ele de sobe e desce, embora de troços curtos. Não é, positivamente, uma passeata qualquer! Ao chegarmos à vila de Grado já íamos quase todos moídos e sem vontade de ver nada.

 

  • E quanto a Grado. Não se entende que uma vila tão interessante, importante e distinta, pelo menos em termos do Caminho e do seu passado, não tenha, no seu centro urbano e/ou histórico um albergue de peregrinos. É preciso andar mais de três quilómetros, num terreno difícil, quase sempre a subir, para encontrarmos um albergue. E, se porventura este está cheio, ainda se tem de andar mais de três quilómetros e meio para atingir o mais próximo, em Cabruñana. Não faz sentido, tanto mais quanto mais, oficialmente, a etapa que está sinalizada é Oviedo-Grado. Está certo que Villapañada pertence ao concelho de Grado, mas entende-se que a informação aposta se deva referir ao seu núcleo mais importante – a vila. Sem um albergue na sua malha urbana da vila como é que querem que os caminheiros/peregrinos visitem e apreciem as suas «jóias da coroa»? Cansados como já vêm, chegados a Villapañada, não têm sequer vontade de descer à vila para a visitar melhor. Ficam-na a olhar ao longe do albergue de San Juan!...

 

  • Para mim, não fora a circunstância da data que escolhemos e querermos estar com, pelo menos, dois dias de antecedência antes da consoada, dividia esta etapa em duas. Tínhamos mais tempo para visitar Oviedo pois, para quem lá vai pela primeira vez, uma tarde e um pouco de uma noite, é muito pouco. Deveríamos ter mais uma manhã para o efeito. E, assim, a primeira etapa ficava por Escamplero onde, como vimos, tem um agradável albergue. Ao outro dia a seguir a etapa iria até Grado (Villapañada) e, assim, teríamos mais tempo para visitar com mais cuidado esta pitoresca vila, podendo até, em vez de se ficar no albergue de Villapañada, 3,6 Km mais acima, em Cabruñana.

 

  • Vamo-nos dando conta que, por causa do rompimento de estradas e novas vias, o Caminho fica debaixo do asfalto e sem alternativas. No planeamento e execução daquelas vias bem podiam prever pequenos percursos de caminho paralelos à estrada. Caminhar no asfalto não é só mais duro como mais perigoso.

 

  • E sempre pensei que vinha encontrar condições meteorológicas bem mais adversas. O que presenciámos, em termos de paisagem, é um bocadinho do que é a verdadeira Astúrias, da chamada comarca vaqueira: húmida, com chuva quase sempre intermitente, de «molha-tolos»; prados muito verdejantes, de um verde muito típico; com gado bovino e o seu característico chocalhar; muitos espigueiros com uma tipologia que só nas Astúrias se vê, espalhados por todos os cantos; bosques essencialmente de carvalhos e castanheiros e a presença constante dos picos altos das montanhas ao longe, no horizonte, envolvendo-nos.

 

  • Una nota final, os asturianos, em especial os aldeões, não me parecem pessoas muito abertas e expansivas. Raramente nos davam os bons dias e, quando os cumprimentávamos, parecia responderem «entre dentes». Mas talvez seja impressão minha…

 

Diaporama da etapa

 

Segue-se um diaporama com algumas imagens dos troços percorridos nesta primeira etapa.

(Nota:- Para ouvir o diaporama, aconselha-se a tirar o som ao rádio, no canto superior esquerdo do blogue)

 

 

 

 

 

 

publicado por andanhos às 16:06
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15

17
18
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras de Portugal - ...

. Por terras de Portugal - ...

. Versejando com imagem - A...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

. Palavras soltas... Em dia...

. Ao Acaso... Com Torga, fa...

. Reino Maravilhoso - Barro...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

. Versejando com imagem - L...

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo