Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

Gallaecia: Caminho Primitivo de Santiago nas Astúrias - Advertência, Referências e Apontamentos

 

 
 

 

Antes de vos dar conta de cada etapa percorrida, ao longo deste Caminho, nas Astúrias, uma advertência; algumas referências e quatro apontamentos.

 

 

A.- Advertência e Referências

 

 

 

Não é aqui nossa intensão relatar todos os passos e peripécias dos diferentes troços de cada uma das etapas percorridas do Caminho.

 

Aqui, embora façamos referência aos troços percorridos em cada etapa, apenas se realçará aquilo que, nesses troços e/ou nessas etapas, mais impressionou o autor ou qualquer elemento da comitiva/grupo.

 

Para descrições mais completas, têm os caros leitores, que queiram realizar e levar a cabo este Caminho, em relação a cada troço de cada etapa, na internet, informação em pormenor e/ou especializada, inclusive relatos muito pormenorizados e circunstanciais. Das fontes consultadas, e que mais gostámos, foram as seguintes (sem preocupação de as posicionar por grau de importância):

 

  • El Camino Primitivo, de Eroski Consumer;
  • El Camino Primitivo, by Gronze.com;
  • Mundicamino – Guía completa del Camino de Santiago;
  • Arteguías – El Camino Primitivo a Santiago de Compostela;
  • Arteguías – Románico en Asturias y Cantabrico;
  • El Camino Primitivo a Santiago (desde Oviedo a Compostela), de Jorge Sánchez;
  • Guía práctica del Camino de Santiago: Camino del Norte (Costa y Primitivo), de Carlos Mencos;
  • Guía Camino del Salvador – León-Oviedo, de José António Cuñarro Exposto;
  • El Camino Primitivo, dos participantes Fernando Vara, Luís Álvarez e Santiago Palacios;
  • Guía de Oviedo;
  • O Caminho Primitivo de Santiago, de Oswaldo Buzzo;
  • Guía Turístico das Asturias, para quem queira ter uma ideia geral sobre o Principado das Astúrias.

 

B.- Apontamentos

B.1.- Momentos de uma caminhada ou viagem

Uma caminhada ou viagem não é apenas o momento da sua execução/realização. É constituída, essencialmente, por três momentos:

 

a) Preparação (Planificação)

No caso concreto de uma caminhada, pelos Caminhos de Santiago, há que escolher a época a realizar, em função dos dias e das disponibilidades de cada caminheiro/peregrino; as etapas a levar a efeito; os serviços existentes ao longo do percurso/caminho; o que levar, mais concretamente na mochila; informação sobre a época em que se realiza, em função da meteorologia; a natureza do terreno e respectiva altimetria; a logística ao longo de cada etapa em termos de alojamento, provisionamento/refeições, bem assim outros serviços; e ainda outro tipo de informação como os elementos naturais e/ou culturais relevantes e a ter em conta e, para os quais, seja útil ou de interesse uma visita e/ou desvio.

 

b) Execução/realização

A realização do Caminho, etapa a etapa, troço a troço, pode-se apresentar problemática e, quiçá, muitas vezes, inviabilizar o nosso empreendimento. Há quem goste de viajar mais de inverno, quer por uma simples questão de gosto e por, para quem fica em albergues, ter mais espaço disponível e aí estar mais à vontade, não havendo tanta balbúrdia de caminheiros/peregrinos. Há quem goste de andar mais sozinho e/ou pequenos grupos. Por outro lado é importante também o número de quilómetros que se pretendem fazer por dia. E, este aspecto, para além de outros, depende da capacidade física de cada caminheiro/peregrino de fazer x ou y quilómetros por dia em função do terreno que pisa e respectivo relevo. Daí que se recomenda que, com uma certa antecedência, e durante algumas semanas antes, se vão fazendo percursos, inicialmente mais curtos, mas indo depois aumentando o número de quilómetros, aproximando-os das etapas que vamos ou pretendemos realizar, e escolhendo também o terreno e relevo que tenha mais ou menos o mesmo perfil das etapas do Caminho, não esquecendo de, nos últimos treinos, andar já com a mochila com o peso idêntico ao que vamos levar. Mas a execução ou realização de uma etapa concreta não depende só destes elementos: a logística, como o posicionamento e distribuição, ao longo do terreno, do alojamento e do aprovisionamento, essencialmente, para as refeições, vai determinar também a extensão da etapa do Caminho. Também o que levar também tem uma importância fundamental na realização do Caminho. Porque levar mais peso do que o devido, essencialmente na mochila, pode vir a trazer problemas ao peregrino/caminheiro. Normalmente, mais de 10% do peso que levamos connosco, em relação ao peso do nosso corpo, pode ser prejudicial para a saúde, em particular com a superveniência de problemas na coluna. Há outros elementos que podem pôr em causa a execução do Caminho. Por exemplo, falta de dinheiro ou do cartão de crédito; esquecermo-nos do BI ou Cartão do Cidadão; o Cartão Europeu de Saúde, caso se tenha de recorrer aos serviços de saúde. Sem ele, os serviços, em termos de preço, em certos casos, podem ser insuportáveis.

 

c) Finalmente, a recordação/relato do Caminho

 Executado o Caminho, o mesmo só se completa pela comunicação das vivências e/ou peripécias que nele tivemos. E há muitas e variadas maneiras de recordar: partilhando essas vivências e peripécias falando com os nossos familiares e amigos e/ou mostrando fotos, vídeos, escrevendo relatos ou outros elementos que tragam à partilha aquilo que foi a nossa «aventura». O Caminho cumpre-se ou completa-se com este último momento, que representa o fechar de um círculo, ou seja, a verdadeira vivência do nosso Caminho.

 

B.2.- A organização e o perfeccionismo de Fábios e o perfil breve da equipa

 

No albergue de El Salvador, em Oviedo, início do nosso Caminho, combinámos despertar às 7 horas locais para, às 8, sairmos do albergue.

 

Como despertei antes do tempo, fui o primeiro a arranjar-me. Eram, aproximadamente, 7 horas e 20 minutos e já estava pronto na sala/cozinha do albergue à espera da comitiva restante.

 

Nona demorou pouco tempo a acompanhar-me e começou a ler uma série de panfletos, existentes num dos recantos da sala, junto à imagem de Santiago, sobre Oviedo e o Principado de Astúrias.

 

 

A páginas tantas dou comigo a observar Fábios. É o cúmulo da organização e do perfeccionismo… Cada secção da sua mochila tem um destino, sua finalidade: desde o lugar para o saco da roupa limpa ao lugar para o saco da roupa suja; os cosméticos e utensílios de higiene; a caixa dos primeiros socorros; o lugar para o cachecol, para as luvas, etc. Tudo devidamente embalado, cada qual em seu lugar certo da mochila! E o enrolar o saco cama? Uma verdadeira sessão, como se fora um ritual. O mesmo com a capa para a chuva. Um verdadeiro cerimonial que mais se me afigurava a de um sacristão a paramentar o padre!...

 

Já para não falar de uma outra bolsa, exterior, onde, entre outras coisas, trazia o seu telemóvel, com o TwoNav instalado, figurando todo o mapa do caminho com indicação das etapas, dos albergues, dos lugares para comer e outros assuntos de interesse ao longo de cada percurso…

 

Vejam só que, duas semanas antes, mandava para cada membro da “expedição” o seguinte quadro com a relação dos objectos a levar, com a recomendação de não nos excedermos no peso da mochila em função do peso corporal de cada um. Tal era a obsessão por esta circunstância que, um dia, fui dar com Tâmara_Júnior a pesar cada peça de roupa, por forma a ter de se decidir excluir da mochila os artigos, não tanto essenciais, para que o peso da mochila não excedesse aquela percentagem do peso do seu corpo!...

 

 

Fábios na tropa foi enfermeiro, mas, ali, pareceu-me ter aprendido muito mais do que a dar injecções. Aliás admira-me porque o dito não «meteu o chico»: estava mesmo quedado para aquela vida!

 

Confessemos, contudo, que, para situações desta natureza, faz sempre falta e é necessário haver alguém com este espírito, por forma a evitar alguma balbúrdia e desorganização que é habitual nestas ocasiões.

 

Pé D’Vento, nome que fica muito bem assente na sua pessoa, nem se dá conta da sua existência: move-se como se fosse uma ligeira brisa. Quase se não dá conta dele. Mas anda sempre por ali, atento e observador a tudo quanto à sua volta se passa, usando, muitas das vezes, um espírito, ora crítico ora sarcástico, nos momentos oportunos.

 

Tâmara_Júnior, o repórter de imagem, a sua maior preocupação é com o material fotográfico, em especial com o carregamento das baterias e dos telemóveis. De vez em quando não se dá por ele por andar na busca de um pormenor que, segundo ele, possa fazer a diferença.

 

B.3.- Da revista da Federação Espanhola das Associações de Amigos do Caminho de Santiago - «Peregrino»

 

 

 

 

Enquanto, ainda no albergue de Oviedo, esperava que os restantes membros da nossa comitiva se preparassem para enfrentarmos a jornada do dia, e, como já referi, ia observando Fábios no seu cerimonial de preparar a sua mochila, deitei os olhos ao nº 128 da Revista Peregrino, de Abril de 2010.

 

Minha atenção virou-se para um artigo de Eligio Rivas Quintas, a páginas 37 a 39. Servindo-se, fundamentalmente, das obras de Humberto Baquero Moreno: “Vias portuguesas de peregrinação a Santiago de Compostela na Idade Média”, Revista da Faculdade de Letras e História, II Série, Vol. III, Porto, 1986 e “La Peregrinación a Santiago”, Xunta de Galicia, 1999 e de Francisco Gonçalves Carneiro, nosso conterrâneo  flaviense: “A Igreja de Santa Maria Maior de Chaves”, Braga, 1979 e “Chaves, cidade heróica”, Braga, 1978, pude extrair que, de Chaves, part(em)iam três rotas antigas que os peregrinos seguem para irem a Compostela:

 

a) A que vai pela margem direita do rio Tâmega, Outeiro Seco, perto de Nossa Senhora de Azinheira;

 

b) A que vai de Chaves, passando por Valdanta, Soutelo, Santiago de Seara Velha, Meixide, etc.;

 

c)  A que de Chaves vai por Seara Velha, Couto de Ervededo, Agrela, Cambedo, etc.

 

Por outro lado, António Lourenço fontes recorda-nos que os peregrinos também usavam Pitões das Júnias (priorato beneditino, românico, do século XII), seguindo por Tourém e Calvos de Randin.

 

Rivas Quintas, a determinado passo, diz: “A vila de Chaves era o ponto de convergência de milhares de peregrinos que vinham do sul e se deslocavam aos santuários de Roc Amadour e Compostela. A vila estava no Caminho de Santiago. As suas albergarias davam pousada aos peregrinos que delas necessitavam, como a Colegiada de Santa Maria Maior”. E chega-se ao ponto de se dizer que Chaves era o núcleo mais importante do Caminho de Santiago possuindo quatro albergarias ou hospitais, a saber:

 

a) Aqui criou em 1160 D. Mafalda, esposa do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, a albergaria com a capela de Santa Maria Madalena para acolher os peregrinos de Santiago;

 

b) Também houve o hospital ou albergue de Nossa Senhora de Roquemadour, porventura junto à alameda do Senhor do Bom Caminho, que estava ao cuidado da Confraria de Nossa Senhora de Roquemadour, trazida por influência de D. Mafalda;

 

c)  Houve também albergaria e capela de Santa Catarina, fundada por Lourenço Pires de Chaves, no tempo de Afonso III, perto das Termas, na margem direita do rio Tâmega e que, em 1681, se mudou para o Anjo, em cuja capela se pode ler a seguinte inscrição: «Fundou-se na era de 1287 (ano de 1249)»;

 

d) Por último, D. Afonso, filho bastardo de D. João I, primeiro Duque de Bragança, ergue aqui, em 1415, um edifício para acolher os peregrinos e enfermos, instalando-se, assim, a Confraria da Misericórdia, décadas mais tarde, passando a chamar-se Hospital da Misericórdia (mais tarde apelidado de Hospital Velho).

Ainda no século XVIII, para além do Hospital da Misericórdia, havia em Chaves o Hospital Real de São João de Deus.

 

A tradição diz ainda que existiu um hospital em Couto de Dornelas, vizinha de Chaves.

 

Em Canaveses, de onde vinha um caminho medieval em direcção a Trás-os-Montes, criou a rainha D. Mafalda um albergue de peregrinos, no caminho que se dirigia para Mesão-Frio, minha terra natal, e Lamego. Na Régua o caminho passava o rio Douro, que vinha, portanto, da Beira em direcção a Chaves, passando por Vila Real, Mondrões, Lamas de Olo, Vila Cova e Flhadela.

 

Para assistir a peregrinos e caminhantes estavam as ordens militares. Os Cavaleiros Templários ou da Ordem do Templo (mais tarde conhecidos por Hospitalários ou do Hospital) espalharam-se por toda a Sanábria, Bragança, Mogadouro e, inclusive, Chaves. No lugar onde hoje em Chaves estão instalados modernos apartamentos, e que antigamente era uma estalagem, ainda hoje se pode ver a crus daquela Ordem.

 

B.4.- Oviedo – ponto de partida e de conexão de caminhos

 

a) Caminho Primitivo

É o que de Oviedo (da sua Catedral) se dirige a Santiago de Compostela. Foi o primeiro Caminho realizado em direcção a Santigo de Compostela por Afonso II, o Casto, no século IX, aquando do descobrimento dos restos mortais do Apóstolo Santiago, o Maior;

 

b) Conexão do Caminho Francês com o Primitivo (León-Oviedo)

Esta é uma rota utilizada pelos peregrinos que, provenientes do chamado Caminho Francês, se desviavam em León em direcção a Oviedo, passando por Puerto Pajares, Pola de Lena e Mieres e, no concelho de Oviedo, por Olloniego, para, na Catedral de El Salvador adorarem as relíquias guardadas na Câmara Santa. A Câmara Santa, capela palatina de Afonso II, acolhe o Tesouro Catedralício, no qual se destaca: a Cruz dos Anjos, doação de Afonso II e símbolo de Oviedo;

 

 

a Cruz da Victória, doação de Afonso III (século X), símbolo das Astúrias;

 

 
 

a Caixa das Ágatas, doação de Fruela II (910)

 

 
 

 

e, por último, a Arca Santa, que contém as relíquias da cristandade, entre elas, porventura o mais importante,

 

 

 o Santo Sudário, que actualmente se guarda num suporte especial para sua perfeita conservação.

 

 

Ao Caminho que constitui o desvio de León, do Caminho Francês, para Oviedo, dá-se o nome de Caminho Salvador. Embora sejam pouco mais de 100 quilómetros tem troços bem mais difíceis do que os do Caminho Primitivo, ao entrar em áreas montanhosas superiores a 1600 metros de altitude. Mas de uma beleza extraordinária, dizem.

 

 
 

A razão deste desvio tem a ver com este provérbio ou refrão medieval, já por nós citado:

 
 
 

c) Conexão do Caminho da Costa ou do Norte com Oviedo

Desde Vilaviciosa muitos peregrinos dirigiam-se a Oviedo através de Saniego e Pola de Siero, entrando em Oviedo por Colloto.

 
 
 

d) Conexão desde Oviedo com o Caminho da Costa ou do Norte

Da Praça da Catedral ou Praça Afonso II, este Caminho dirige-se até Avilés para depois seguir o Caminho da Costa ou do Norte. Refira-se, por fim, que o Caminho da Costa ou do Norte (que desde Irún atravessa toda a costa cantábrica) penetra em Astúrias por Bustio, corre toda a costa cantábrica, atravessando, entre outros concelhos, Llanes, Ribadesella, Vilaviciosa, Avilés, Cudillero, Soto de Lui´na. Luarca, Navia, El Franco, Tapia e Castropol, continuando depois pela costa galega em Ribadeo para, a partir desta localidade, se desviar da costa, seguindo um percurso mais para o interior, no sentido sudoeste.

 

publicado por andanhos às 20:52
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