Segunda-feira, 3 de Setembro de 2012

Gallaecia - O Douro dos meus encantos II

 

 

 

Trilho das Belas Vistas [Douro, Santa Marta de Penaguião]

(ou de como um percurso pedestre nos apela à necessidade da preservação da nossa memória pessoal e colectiva)

 

 

Não sei já como tudo se passou. Apenas me recordo que, a convite do meu amigo Fabios – íamos no ano 2007 – para, num ou noutro fim-de-semana darmos uns passeios a pé para “afiarmos a língua” e “pôr a escrita em dia”, dou comigo a exercitar nos fins-de-semana pelos caminhos de Chaves e Alto Tâmega como preparação para levarmos por diante o Caminho de Santiago – Via da Prata, em finais de Junho de 2007.

 

A partir daqui, como se de um vício se tratasse, qualquer fim-de-semana sem calendário ou obrigações familiares era ensejo para pegar no cajado, mochila às costas, e pôr-me a caminho.

 

Porque caminhos e veredas não faltam…  A “coisa” entranha-se e depois já não há volta a dar-lhe.

 

 

É assim, neste contexto de falar em caminhadas e percorrer a pé o nosso Portugal “profundo” (e não só…), que me dou conta que na família não estava só. Meu sobrinho Tino, através de alguns companheiros e amigos, estava bem lançado no “movimento”.

 

 

E, de pronto, me propôs um desafio: fazer o Trilho das Belas Vistas, no concelho de Santa Marta de Penaguião (veja-se sítio http://www.cm-smpenaguiao.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=31335). Não havia nenhuma razão explícita para esta escolha. Apenas o conhecimento que lhe foi dado da Rede de Percursos Pedestres naquele concelho, promovida pela Câmara Municipal.

 

Era, na verdade, uma proposta aliciante o regressar aos velhos caminhos e veredas que evocavam a minha infância, numa tentativa não só de ir ao encontro daquelas paisagens como de recuperar “rostos” e, por esta via, avivar memórias esquecidas pelo passar do tempo.

 

Conforme panfleto do percurso, constante do sítio atrás citado, o mesmo é efectuado na freguesia de Fornelos, passando pela de Fontes. É de pequena rota, com 12,6 Km. Circular. Essencialmente paisagístico.

 

 Começa na Igreja Paroquial de Fornelos, passando muito rapidamente pelo aglomerado

 

 

 

até se embrenhar por completo a caminho das alturas – Capela da Senhora do Viso com o Marão à sua frente.

 

 

 

Citemos as palavras vertidas no respectivo panfleto, como respaldando o “animus” do caminhante naquela subida: “(…) os olhos fogem para as alturas, para o cume da serra onde a capela da Senhora do Viso nos desafia as pernas e o alento, convite mudo mas claro ao animus do caminhante (…) Assim, por entre as casas no início, e por entre a natureza depois, o amontoado gracioso de habitações vai ficando para trás assinalado na alvura das fachadas e no braço pontiagudo da torre da igreja buscando o céu”.

 

 

Bravo escritor. Verdadeira alma de poeta que verteu tais palavras que, no cansaço e ardor da subida, foram lenitivo e força para escalar aquelas alturas!

 

Três notas a salientar até à chegada à capela de Nossa Senhora do Viso.

 

O recorte da própria paisagem. Veja-se, nomeadamente, como Fornelos se encontra naquele cenário – encavalitada ou encarrapitada ao longo de um cerro.

 

 

 

Em seguida a omnipresença do Marão – a toda-poderosa serra. De longe, é de meter medo; mais perto, porque entretanto tão familiarizados com a sua silhueta imponente e granítica, cuja idade se perde pelos tempos, mais nos parece uma amiga afável a querer-nos receber no seu regaço.

 

 

Se, ao longe, é de reter a respiração, tal o respeito que inspira, no cimo do monte daquela capela da Senhora do Viso transubstancia-se num regaço acolhedor e maternal para o caminheiro cansado da subida.

 

 

Ficamos deveras admirados pelas manifestações simples, diria mesmo até quase pueris, da religiosidade do povo: cruzeiros,

 

 

capelinhas e castelinhos,

 

 

ermidas,

 

 

ou capelas dedicadas aos santos das mais diferentes devoções (Santa Eufémia, Santa Quitéria…) são uma constante ao longo do percurso.

 

 

E a capela da Senhora do Viso.

 

 

Dizem que para capela é um templo de grandes dimensões. Será. Mas não nos interessa aqui confrontar. O certo é que já levou uns bons “retoques”. Pelo menos por fora. Por dentro não conseguimos ver. Foi pena!

 

 

 

A invocação de Nossa Senhora do Viso tem a ver com o facto de o lugar onde está implantada a capela ser elevado e nele se  “ter belas vistas e amplos horizontes”.

 

Também se crê que esta capela foi a primeira igreja paroquial de Fontes.

 

El-Rei D. Diniz doou esta capela à Ordem de Malta. Daqui se prova o seu valor e antiguidade. O Presidente da edilidade penaguiota, por volta de 2005, aquando da abertura da Rede dos Caminhos Pedestres no concelho de Santa Marta, falava na ideia de, para valorização e potenciação turística do local, aqui se constituir um Museu a céu aberto que pudesse contar a história da Ordem de Malta. Provavelmente não passou de mera ideia ou intenção.

 

Segundo refere o sítio do Agrupamento 687 do Corpo Nacional de Escutas (Fontes – Santa Marta de Penaguião[http://www.agr687.cne-escutismo.pt/nova_página_4.htm]), a capela de Nossa Senhora do Viso possuía um belo frontal de prata que os soldados de Napoleão levaram para França durante as Invasões Francesas de 1807 e 1809. Supõe-se que este belo exemplar se encontra no Museu Britânico de Londres na Sala Arte Religiosa com o dístico “Viso – Portugal”.

 

Foi a primeira vez que visitei este lugar, apesar de sempre ter curiosidade de aqui vir. A ocasião é que nunca se propiciou. Minha saudosa mãe referia-me que ela e o pai tinham lá ido algumas vezes. E, quanto a uma dessas vezes, contava-me como o caminho lhe pareceu uma enorme lonjura, e o tempo em que esteve na romaria a cumprir suas promessas e a rezar pelas suas obrigações, lhe pareceu uma eternidade. E compreende-se. Tinha casado havia pouco tempo. A sua primeira filha, a pequenina Liu, tinha ainda meses. Não a levou por isso. Deixou-a aos cuidados da tia Helena, uma tia do seu marido, surda e muda. Mas, apesar de surda e muda, tia Helena era muito cuidadosa e limpinha. A sua casa dava gosto ver-se. E o jardim e as flores que tinha! Já para não falar na artista que ela era. Então, as suas bonecas de trapos, só de ver!...

 

Não sei porquê mas, embora a tradição de comer falachas – um bolo doce feito à base de castanha pilada – a coloque mais nas festas de São Brás (Resende) e Santa Luzia (Granjão), entre outros, o certo é que associo sempre as falachas à Senhora do Viso. Será que os meus pais traziam falachas para casa? Não sei.

 

Na romaria da Senhora do Viso, que se realiza no primeiro fim-de-semana de Setembro – portanto, precisamente, ontem -, também há feira. Nela, antigamente, não sei se agora também, vendiam-se as célebres mantas de farrapos e de lã de ovelha de papa (com tiras verdes e vermelhas). Minha cunhada Stela refere que sua mãe aproveitava esta romaria para se munir destas “cobertas da serra”.

 

Acode-me sempre a lembrança de meu pai quando se fala da Senhora do Viso. Pelos vistos, meu pai, como, a miúdo, referia minha mãe, era um seu grande devoto. Infelizmente, não sei muitas histórias a respeito deste lugar e desta romaria. Por falta de curiosidade da minha parte. Quando mais novos, queremos lá saber do “antigamente” e das misérias de vida que os nossos contavam. E é pena. Porque muito da nossa história e do nosso legado como povo assim se perde. Por isso não há memória. E um povo que não tem memória, que não a preserva, é um povo mais fraco e frágil para prover e vencer o futuro. Porque um pouco da sua alma ficou pelo caminho, mais difícil é encontrar a sua própria identidade e poder-se afirmar de uma forma autónoma no contexto de um mundo em que as comunidades são cada vez mais indiferenciados e homogénias.

 

Mais que a desertificação deste nosso belo mundo rural, o que mais nos deve preocupar é o que fazemos, ou melhor, não fazemos, com a(s) nossa(s) memória(s). E a cada passo repiso num texto de uma palestra por mim proferida no âmbito do tema “Turismo e desenvolvimento do território”. Dizia a determinada altura, e aqui vos deixo um pequeno excerto para reflexão:

 

“(…) O desafio para as comunidades locais que queiram apostar no turismo como uma das estratégias para o seu desenvolvimento é o de se abrirem ao exterior, modernizando-se pela função turística e, ao mesmo tempo, implicarem-se no reinvestimento do seu passado, reestruturação do seu património, na manutenção e revitalização das suas tradições, realçando a topofilia, o elo emocional entre uma pessoa e um lugar ou envolvente física, o mesmo que dizer, o sentimento de pertença a um lugar ou região de origem, de residência, de trabalho ou de lazer”.

 

Mas o tema do “meu” Douro, do nosso Douro, do seu desenvolvimento e do aproveitamento deste belo e magnífico território para a função turística será objecto de um próximo post.

 

 Por agora, e para concluir a jornada que empreendi com o Tino, quero apenas dizer que, chegados ao Viso – e de um breve repouso para comer, observar a paisagem e “carregar baterias” – foi descer por ali abaixo. Pois lá diz o ditado e muito bem que “a descer todos os santos ajudam”. Aqui eram mais santas…

 

Foi muito reconfortante e delicioso contemplar a paisagem que se vislumbra de Fontes para Santa Marta de Penaguião

 

 

e da capela de S. Pedro de Fontes para todos os horizontes.

 

 

Logo a seguir à capela de S. Pedro de Fontes dei por mim a observar aquilo a que lhe chamaria uma “orquídea selvagem”. Deixo aqui uma sua imagem para eventualmente os leitores comentarem.

 

 

Do Marco Geodésico da Lebre

 

 

pode-se avistar este belo panorama.

 

 

A aldeia da Veiga, como colocada numa cratera de um vulcão adormecido! No seu topo, o traçado da Estrada Nacional nº 2, que liga Vila Real à Régua.

 

 

Antes de chegar a Fornelos, temos a realçar, para além do alcantilado da implantação da vinha, “estendida” nos moldes mais antigos,

 

 

a pequena veiga cavada pela ribeira de Bandugem, entre Valverde e Fornelos,

 

 

a incursão ao Forno Romano de Louredo,

 

 

 

tendo bem perto uma zona fluvial para disfrute não só daquelas comunidades como dos forasteiros da Vila que, dizem, muito a frequentam.

 

Ao chegarmos a Vila Real, a casa do Tino, o frango do churrasco foi maná, soube-nos pela vida!

 


publicado por andanhos às 16:37
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