Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2016

Versejando com imagem - E todos os invernos são assim

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

E TODOS OS INVERNOS SÃO ASSIM

 

 

E… em todos os Invernos é assim:
A chuva é fria, as noites claras e anoitece de dia.
E, em todos os Invernos, o silêncio é frio e tu te esqueces de mim.

Quebrei as asas meu amor
Quebrei as asas meu anjo doce
E estou cansada das súplicas senhor da luz…
Trevas.
O gelo corta-me as pernas e dilacera as carnes
Como navalhas frias as gotas cravam o rosto e as mãos.
Foi-se o amanhecer e o Sol.
Ó santa, ó senhora da luz
Dai-me olhos para ver e coração para crescer.

E, todos os Invernos são assim: escuridão e frio.
E todos os Invernos são assim: solidão e silêncio e vazio…

Será que avisto a estrela do pastor?
Será que tenho ainda uma vela de cera amarelecida
Uma candeia velha e óleo e torcida?
Segura-me essa chama pequena e amarela, pequenininha, bela.

Vamos embora daqui meu amor
Vamos partir antes que chegue a neve
Vamos partir em breve
Vamos meu amor pequenino
Vamos para onde eu ainda possa viver
Vamos onde as forças não me falhem.
Vamos onde nos valem.


Lúcia Cunha

(alpendredejardim.blogspot.pt)

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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

Chaves através da imagem - Da cidade de Cultura ao governo de incultos

 

 

CHAVES ATRAVÉS DA IMAGEM

 

DA CIDADE DE CULTURA AO GOVERNO DE INCULTOS


Estamos de acordo com Antoni Remesar e Fernando Nunes da Silva quando, na obra coletiva Arte pública e cidadania - Novas leituras da cidade criativa enfatizam que “a paisagem integral, isto é, o tratamento material do território assumido de onde vem (a sua memória) e para onde vai (a sua sustentabilidade), converte-se num dos atuais paradigmas de intervenção”.

 

Por outro lado, na mesma obra, Don Julíán Aliseda e D. Edgar Maria Gomes de Andrade, a dado passo, escrevem que “o facto de vivermos atualmente numa aldeia global, leva a pensarmos as cidades como «os nossos bairros». [E] neste sentido, a Cultura tem papel preponderante na gestão das cidades. Ela está intimamente ligada à identidade do desenvolvimento dos territórios, às nossas raízes. É importante sabermos rececionar o legado que os nossos antepassados nos deixaram, sabendo vivê-lo e transmiti-lo às gerações vindouras [...preservando o] património cultural, na sua forma tangível como intangível”.

 

Temos em Chaves um património milenar, orgulho os flavienses e, por isso mesmo, considerado por todos como o nosso «ex-libris», fruto do lavor e contributo dos povos autóctones da altura, que aqui construíram uma das mais belas pontes romanas.

 

Se vemos tanto frenesim e afã na «folclorização» e encenação «rasca» dos trajes e «cenas» dos romanos que por esta terra passaram, é nosso dever fundamental, como flavienses, assumir essa memória de uma forma plena, convertendo-a em fator de sustentabilidade para o futuro. E não atender só aos aspetos «folclóricos», mas cuidar efetivamente desta magnífica estrutura que os nossos antepassados nos legaram, integrando toda a sua envolvente.

 

Na década de 90 do século passado, em Chaves, ainda não estando muito conscientes que estávamos, cada vez mais, imersos numa nova sociedade - a da globalização - e em que ainda não se tinha completa consciência de que vivíamos, ou estávamos caminhando, para uma aldeia global, tinha-se clara consciência que o desenvolvimento do território flaviense tinha de ser assumido a partir da sua genuína identidade, na qual a Cultura era um dos seus fatores primordiais.

 

A aposta na dotação de toda a cidade - e depois todo o concelho - com o saneamento básico; o arranjo e valorização do nosso Centro Histórico; a melhoria soa arruamentos e acessibilidades; o integrar o Tâmega, e as suas margens, na convivência urbana, em que a atual ponte pedonal era a sua aposta mais visível; a reestruturação do Museu da Região Flaviense, assumido na sua vertente castreja e romana; os Encontros de Arte Jovem; os Simpósios do Granito e os Cortejos Etnográficos, entre outras atividades e eventos, inseriam-se numa estratégia, depois plasmada no Plano Diretor Municipal, da cidade de Chaves como uma Cidade de Cultura.

 

Foi no respeito não só pela preservação da nossa memória mas também pela valorização do nosso património que se fez a intervenção na Alameda Trajano, contígua à Ponte Romana, relvando aquele espaço e, por ocasião do Simpósio do Granito, ali se colocou uma obra em granito - um dos recursos da nossa região - feita por um jovem escultor português.

 

Na rotunda que faz a junção da Travessa da Alameda Trajano com a Alameda Trajano, colocou-se uma coluna romana que, posteriormente, se achou mais condigna estar no Museu da Região Flaviense, ficando-se de, posteriormente, ali colocar uma sua réplica.

 

Quase trinta anos depois, o que foi colocado no plinto onde assentava a coluna romana?

 

A imagem que se mostra, recentemente tirada, é verdadeiramente significativa. Nada!...

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E na Alameda Trajano, o que se fez para a sua preservação e/ou valorização?

 

Aqui, há uns escassos meses, embora com nítido mau trato do relvado, ainda podíamos ver o que esta imagem mostra:

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No verão passado, quando por ali passávamos, eis o que nossos olhos presenciaram e nossa objetiva registou...

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Na semana passada, quando passávamos por este «atropelo», o local pareceu-nos ser objeto de recuo. Arrebate de consciência dos responsáveis pelo governo da nossa coisa pública ou puro calculismo eleitoral, face a eventuais críticas feitas à devassa deste espaço?

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Alguém sabe porque se fez esta nova alteração de uso deste espaço? Ou sequer foi informado?

 

Alguém sabe o que fizeram à obra em granito que ali estava colocada?

 

Será que gerir uma cidade, e o seu espaço público, é estar constantemente a fazer e a desfazer o que outros fizeram, sem que se informe ou, tão pouco, se tenha uma ideia do que se pretende? E quanto é que tudo isto custo ao erário público, suportado por todos nós?

 

Alguém dizia que falar de arte pública implica naturalmente falar também de espaço público. A arte «apodera-se» do espaço público e o espaço público não cessa de retomar da arte aquilo que esta restituiu após ter sido digerida e transformada. Nós, atualmente em Chaves, e principalmente os representantes que elegemos, parece que não restituem nada, digerem ou transformam; apenas se limitam a desfazer, destruindo!

 

Ou seja, e em síntese, o que os nossos responsáveis autárquicos estão fazendo na nossa cidade - e nos seus espaços públicos -, não é um ato de cultura, pelo contrário, é uma manifesta atividade de gestão inculta!


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Domingo, 27 de Novembro de 2016

Reino Maravilhoso - O Barroso e a sua serra mítica coberta de neve

 

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO

 

O BARROSO E A SUA SERRA MÍTICA COBERTA DE NEVE

00.- 2012 - PPL 11 - Padronelos-Larouco 051.jpg


Ontem, um amigo convidava-nos para o acompanharmos até ao Barroso... ver a neve!

 

Porque na altura muito distante das paragens do Barroso, não podemos aceder ao seu pedido, infelizmente.

 

No Reino Maravilhoso, não desfazendo as outras, há duas sub-regiões que nos fascinam particularmente - o Douro, nosso berço e terra da nossa meninice, e o Barroso, da nossa adultez.

 

Ontem, matámos saudades vendo este lindo álbum de fotografias, com o título Gente de Barroso, do grande fotógrafo francês, amante das terras barrosãs, Gérard Fourel, acompanhado de uma linda música.

 

Aqui vo-lo deixamos à vossa contemplação.

E lembrávamo-nos do dia 1 de dezembro de 2012 e de uma caminhada que fizemos, desde Padronelos até à cota máxima da sua mítica serra - O Larouco.

 

Nos dias anteriores tinha nevado bem.

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E, quando começámos a íngreme subida, eis o aspeto da sua vegetação, com a neve já completamente gelada.

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Uma placa de sinalização, entre caminhos, indicando diferentes percursos, mais parece uma cruz crucificada pela neve, gelo e vento!

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Com cuidado, e com calçado adequado para a montanha e para a neve e gelo, finalmente chegámos à cota máxima do Larouco - 1 521 metros de altitude!

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No cimo, no recinto cercado, para evitar quedas no precipício, a neve entreteve-se a fazer estes sugestivos enfeites e formações.

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O frio e o vento era tal que pouco tempo nos quedámos no alto.

 

Descemos.

 

E ainda com mais cautelas do que subimos por esta paisagem totalmente alba!

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Só apenas nas proximidades de Padronelos - e já passava do meio-dia - o céu começou a limpar um pouco e o sol a brilhar.

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Foi positivamente uma caminhada penosa. Mas verdadeiramente inesquecível!...


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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Palavras soltas... A Ponte do Granjão

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

A PONTE DO GRANJÃO

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Quando em 2014, numa publicação da Associação Lumbudus, com o título Memórias de uma Linha - Linha do Corgo, 28 de agosto a 1 de janeiro de 1990, da autoria do nosso amigo Humberto Ferreira, António de Souza e Silva amavelmente contribuía com um texto àquela edição, sob o título Nostalgia.

 

Não resistimos de, aqui, reproduzir o vertido daquela altura:


Já lá vão mais de sessenta anos. Mas a cena está-nos presente como se fora hoje. Vemos o buliçoso e traquina Nona, sentado no banco de pedra da janela de casa, com os braços apoiados no parapeito, olhando com aqueles olhos ávidos, cor de azeitona preta, para um ponto fixo do vasto horizonte de vinhedos à sua frente.

 

Não era o mítico Marão, tão bem cantado por Teixeira de Pasacoaes, e a sua Fraga protetora da Ermida, mesmo ali ao lado, que o fascinava. Nem tão pouco a beleza dos vinhedos, vestidos de mil cores, descendo em forma de barco até ao Douro.

 

Seus olhos, penetrantes e insaciáveis, apenas se fixavam num único e só ponto longínquo do horizonte, onde os vinhedos acabam e o rio Douro passa, espraiando-se, apressado, em direção à foz.

 

Era a Ponte do Granjão.

 

Não que fosse uma bela obra de arte. Ou sequer uma obra imponente, que mal a via. A sua importância advinha simplesmente porque, sobre ela, passava algo que o fascinava. Que o fazia sonhar noutros mundos e lhe apelava a outras paragens.

 

Nela passava o comboio.

 

E como ele gostava de sentir, ao longe, o barulho que as rodas de ferro faziam sobre os carris; os apitos estridentes que dava quando por ela passava e o fumo que a chaminé da sua locomotiva expelia!

 

Estava-se mesmo a ver que o pequenote, quando crescesse mais, não ficaria muito tempo por ali.

 

Não que ele não gostasse da terra que o viu nascer. Muito pelo contrário, adorava-a. Era mesmo o seu paraíso do qual guarda as melhores recordações de uma infância feliz, embora muito curta.

 

Era, contudo, terra pequena de mais para o tamanho do seu sonho.

 

Aquele comboio, passando ali todos os dias e a diferentes horas, tornou-se-lhe um amigo - o seu amigo. Mas também uma obsessão. E o seu estridente apitar, quando passava sobre a Ponte, entendia-o como a mágica de um chamamento - um «vem comigo conhecer o mundo».

 

E um dia partiu.

 

Com ele, e nele, deu os primeiros passos da descoberta. Do contacto com o outro. Do partilhar de vidas. Do conhecer as diferenças.

 

Foi, assim, a partir da luz que aquele ponto no horizonte lhe inculcou na mente que Nona se transformou no homem que é hoje: homem do mundo, mas com um enorme apego ao rincão donde partiu.

 

É por isso que, quando em presença de uma máquina a vapor, idêntica aquelas que passavam na Ponte da sua infância, em Nona se lhe despertam todas as memórias, das diversas e diferentes partidas e chegadas. De todos os momentos da sua vida.

 

Por elas evoca, principalmente, um Portugal que já não somos - comunitário e rural; interior e lutador; castiçamente ibérico e sonhador.

 

As últimas travessas arrancadas das linhas que o cerziam, fizeram-no infinitamente mais pequeno. Hoje somos, simplesmente, e apenas, uma pequeníssima e estreita faixa debruada sobre o oceano. E temos medo de nele entrar e encetar nova empresa de um novo navegar.

 

Tiraram-nos a alma. A nossa verdadeira alma - a do cavador que sempre fomos.

 

Sem terra e sem mar, ficámos mais pobres. Estamos pobres. Uma pobreza que está não apenas naquilo que não temos. Essencialmente naquilo que já não somos. E deveríamos ser!

 

Urje, pois, que nos encontremos. Talvez em qualquer travessa perdida da linha que já não temos - a do Corgo. E que nos indique um rumo. Um novo caminho”.

 

Este nosso sobrinho predileto traçava o perfil de um Nona criança, profundamente amante do seu terrunho duriense, e que jamais se esqueceu (ou sequer se esquece) da terra que o viu nascer.

 

Recorrentemente descemos das terras do Norte até ao nosso querido Douro para «matar saudades».

 

À falta de gente da sua meninice para conversar, entretemo-nos a fotografar as suas paisagens, como uma forma inconsciente, quiçá pobre, de irmos ao encontro da vida e do espírito daquele tempo, a modos de o querer fazer parar, indo à procura das memórias, já infelizmente poucas, que ainda nos restam daquele tempo.

 

Determinados que estamos a captar o Alto Douro Vinhateiro, nestes dias de outono, começámos por onde começa a sua delimitação, que vem já desde os tempos do Pombal, ou seja, a partir do Baixo Corgo, na freguesia de Barqueiros, concelho de Mesão-Frio, nosso concelho natal.

 

Acompanhava-nos nesta «aventura» nosso cunhado, Augusto, e seu neto, Eduardo.

 

Conduzindo a viatura, a certa altura do percurso, nosso cunhado faz um desvio para um atalho da estrada que vai da Régua a Mesão-Frio.

 

Pela nossa frente tínhamos a Linha de Caminho-de-ferro do Douro.

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Lentamente fomo-nos apercebendo que estávamos pisando o troço da Ponte do Granjão, com o Marão à nossa frente.

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Avançámos nela e parámos, sensivelmente, a meio.

 

Foi uma sensação verdadeiramente estranha. Estávamos em cima do ponto de luz que vislumbrávamos - e nos fascinava, convidando-nos à descoberta - quando sentados no banco de pedra rente à janela da casa da nossa infância!

 

Pela primeira vez, em mais de 60 anos, víamos o quadro em sentido contrário!

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Já não passa por esta linha o velho comboio a vapor. Outras máquinas o substituíram.

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Saímos do local com uma sensação estranha. Nem a Casa do Granjão, ao lado da Ponte,

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nem tão pouco este bonito portão de entrada,

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denunciando uma certa ruína, e lembrando tempos passados de riqueza e fausto, interrompeu nossas cogitações sobre os tempos da nossa meninice, vivida naquela linda terra duriense.

 

E, inopinadamente, veio-nos à memória o filme Citizen Kane (Cidadão Kane) e daquela cena no leito da morte, com o protagonista do filme (Kane) a pronunciar a palavra «rosebud», que ninguém sabia o que era.

 

De imediato nos lembrámos dos ganapos da nossa idade, nossos companheiros de brincadeiras, todos, rua acima e rua abaixo, chiando o arco, azucrinando a paciência dos transeuntes que se interpunham à nossa frente.

 

Para o esquerdino Nona, da sua infância, pouco mais que esta sua «rosebud» sobrou...

 


nona

 


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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Versejando com imagem - Trova do adeus

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

TROVA DO ADEUS

 

Meu lenço, na despedida,
Tu não viste em movimento:
Lenço molhado, querida,
Não pode agitar-se ao vento.


(Carlos Guimarães)

 

sem nome.png

(In:- https://peregrinacultural.wordpress.com/page/35/)


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Sábado, 19 de Novembro de 2016

Ao Acaso - Barragem dos Pisões 50 anos depois

 

 

AO ACASO...

 

BARRAGEM DO ALTO RABAGÃO/PISÕES - RECORDAÇÃO DE HÁ 50 ANOS


Em 5 de maio passado, fomos dar, sozinho, uma volta pelas terras do Barroso, mais propriamente pela Barragem do Alto Rabagão/Pisões, Negrões e Vilarinho de Negrões.

 

Parámos, na hora do almoço, no restaurante de Lama da Missa, onde comemos um opíparo cozido à barrosã.

 

E, a propósito do topónimo Lama da Missa, da origem do nome desta localidade, durante uma viagem de largas 8 horas que fizemos com o amigo Padre Fontes, foi-nos, assim, explicada.

 

Dizia-nos ele que, antes de ser construída a Barragem do Alto Rabagão/Pisões, as pessoas do outro lado do rio, porque a igreja aqui era demasiado pequena, e atravessar o rio não era assim coisa fácil e cómoda, ao repicar do sino para a missa, punham-se na lama (lameiro) e, daí, ao som dos diferentes toques do sino - que dava o sinal do começo e dos diferentes momentos da eucaristia, sem ouvirem nada do que o padre dizia (naturalmente), mas simplesmente imbuídos da sua fé, ali permaneciam, assistindo à missa, até que um determinado toque desse por terminada a sagrada eucaristia, indo cada um depois para as suas lides domésticas ou campestres.

 

Hoje já não existe tanta fé, a não ser a dos velhos que por aqui teimam em ficar. Nem tão pouco lameiros bordeando o então rio Rabagão. Tudo a albufeira abafou.

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Existe, contudo, ao longo do paredão da barragem, uma estrada que liga as duas margens.

 

No dia 5 de maio passado, passámos por esse paredão. A dada altura, parámos a viatura e tirámos algumas fotografias.

 

Chegados a casa, e vendo as fotografias tiradas nesse dia daquele paredão, retivemos a nossa atenção mais nesta, tendo como pano de fundo os «cornos» das Alturas de Barroso.

 

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De imediato nos demos conta que, das proximidades daquele paredão, em tempos que já não podíamos precisar, haviam-nos tirado uma foto com um amigo que, naquela altura, tal como nós, frequentávamos o Seminário Diocesano de Vila Real. Tínhamos-mos deslocado aquela localidade, em Visita de Estudo, para ver aquela grandiosa e recente obra da engenharia portuguesa.

 

Rebuscando nas gavetas, já catalogadas como «gavetas de memórias», encontrámos esta foto.

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O amigo que estava connosco é o Delmino Fontoura, que, se a memória não nos atraiçoa, era de Mairos e ainda parente do senhor Padre Delmino, Pároco de Mairos.

 

Como infelizmente aconteceu com muitas outras pessoas que connosco se cruzaram na vida, deixámos de lhes conhecer o rasto, segundo o que muitos dizem serem as vicissitudes da mesma.

 

Mas, o que vem aqui ao caso deste «Acaso...» não foi apenas a fotografia tirada muito perto do lugar donde foi tirada a de 5 de maio de 2016, mas o que no verso, ou nas suas costas, estava escrito por nosso punho: “5 de maio de 1966/Barragem dos Pisões”.

 

Uma enorme coincidência, cinquenta anos depois!

 

Se hoje fosse vivo o nosso grande repórter jornalista, Fernando Pessa, era caso para dizer: “E esta, hem?!...


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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2016

Por terras da Ibéria:- Caminho de São Salvador - Poladura de la Tercia - Pajares (Payares)

 

 

DE LA PULCHRA LEONINA A LA SANTA OVETENSIS


CAMINHO DE SÃO SALVADOR

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5 etapa:- Poladura de la Tercia - Pajares (Payares)

(02.maio.2016)

 

Preâmbulo

 

No nosso último post deste Caminho (4ª etapa), no último parágrafo, prometíamos falar um pouco mais sobre os companheiros/peregrinos que ficaram connosco no albergue de Poladura de la Tercia.

 

Peguemos nas nossas Notas e respiguemos o que elas nos dizem:
“Dormiram no albergue mais duas pessoas, para além de nós os dois: uma polaca, de nome Justina Bartkowiak, e um checo, Bodhan Dovhanic. A Justina vem de Madrid e, segundo nos apercebemos, da conversa em inglês que tivemos com ela, ao chegar a Oviedo, vai fazer o Caminho Primitivo. É uma jovem que não tem mais de vinte e poucos anos. Ficámos admirados com a sua coragem: andar sozinha por caminhos inóspitos, pelo menos estes do São Salvador, fazendo o mínimo de gastos em comida, pois se fornece nos pequenos supermercados ou lojas (tiendas) de cada terra por onde passa. Não admira, assim, que ande muito carregada, como pudemos constatar. (...) Justina, nesta etapa, não se distanciou muito de nós. (...) O checo Bodhan, praticamente não falei com ele. Florens foi o que com ele mais conversa meteu. Do essencial deste personagem, há a retirar que faz este Caminho e prosseguindo outros - que não chegámos a saber quais - apenas bebendo água e comendo fruta. E, segundo diz, faz esta dieta durante 40 duas. Florens não se admirou muito por tal facto. Dizia-me que há muitos «maluquinhos» e «maluquinhas» que adotam este sistema, que pegou moda”.

 

Levantámo-nos ainda não eram 7 horas da manhã. Fizemos as nossas abluções matinais, vestimo-nos, descemos para o rés-do-chão para, na máquina do Centro, tirarmos um café com leite. Justina precedeu-nos. O Bodhan ainda ficou a dormir. E partimos. Hoje tínhamos pela frente uma etapa de 14, 7 Km.

 

1.- De Poladura de la Tercia ao Alto de los Romeros e Canto La Tusa

 

Saindo do albergue, descemos à parte baixa da aldeia, e passando pela Pousada “El Embrujo”, fomos em direção à estrada, atravessando o rio Rodiezmo, afluente do Bernesga. Pouco metros andados na estrada, seguindo as tabuletas de «Cuatro Valles», começámos a subir um trecho de montanha, guiando-nos sempre pelas célebres «piruletas de limón».

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Passando por lugares de pastagens

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 e por zonas rochosas,

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(Perspetiva I do trecho percorrido)

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(Perspetiva II do trecho percorrido)

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(Perspetiva III do percorrido)

 

deixámos Peña Cháncara.


A partir de certa altura, começámos a subir, outra vez,

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rodeando depois as colinas de Los Eros.

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(Perspetiva I do percorrido)

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(Perspetiva II do percorrido)

Florens, num determinado momento,  estanca, olhando para o alto.

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Era o Alto de Los Romeros nos esperando. 

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Ultrapassado aquele difícil acesso e aquele pedaço de neve, já congelada,

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enfim, chegávamos à Cruz de São Salvador. Tínhamos andado, sensivelmente, 2,8 Km. Ei-la, a cruz, mais de perto.

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Esta cruz, com o seu mastro, segundo nos informa o Eroski Consumer, pesa, nada mais, nada menos, cerca de 250 quilos. Foi colocada por José Antonio Cuñarro, de alcunha «Ender», com a ajuda de 8 amigos, no dia 22 de setembro de 2012.

 

Florens não deixou passar a oportunidade para tirar uma foto junto a ela.

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Enquanto nos entretínhamo-nos, descansando aqui um pouco, olhávamos para a aridez montanhosa da paisagem.

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Estávamos perto da cota ou do ponto mais alto deste Caminho - O Canto La Tusa. Faltava-nos, porém, ultrapassar um desnível de 120 metros, a subir, por um percurso todo ele cheio de neve. Que o diga Florens quantas cautelas teve para trepar sobre esta neve, completamente gelada!

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Em contrapartida, Justina, em nossa perseguição, sem qualquer ajuda, deslizava feliz,

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sabendo que o Canto La Tusa estava mesmo ali. Só faltava um pequeno esforço.

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Veja-se o ar feliz de Justina e Florens quando chegaram ao topo, a 1. 572m!

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Percorridos que estavam 3,7 Km, havia agora que descansar um bocadinho, comer uma barra de chocolate e hidratarmo-nos. Depois disso, foi comtemplar, deste teto do céu, com um sol radiante, os picos nevados que tínhamos em frente e, lá no fundo, Busdongo, terra natal de Amancio Ortega e onde se produz um pão tão bem falado por esta região.

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2.- De Canto La Tusa a Arbas del Puerto

 

Contudo, o nosso percurso não passava por Busdongo. Cortava à esquerda.

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Enquanto descíamos, olhávamos para os picos nevados.

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E chegados quase à cota da aldeia de Busdongo, mais uma subida, com neve, por entre uma mancha florestal e até ao indicador nº 54 do gasoduto, que por aqui passa,

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enquanto nos íamos despedindo da aldeia do rico e apreciado pão.

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E voltámos a descer, vendo-se, a certa altura, Arbas del Puerto, ao fundo.

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No final da descida, na passagem de um regato de água, Justina encharcou as suas botas de água.

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Mas, sem qualquer engulho e incómodo, continuou connosco assim.


Rodeados por montanhas nevadas, e por meio de terrenos de pastagens, em que a água aparece por todos os lados, em pouco mais de um quarto de hora, chegámos a Arbas del Puerto.

 

Estávamos sensivelmente a meio da nossa caminhada de hoje. Parámos junto à Colegiada de Arbas del Puerto

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para comer do farnel que adquirimos, na véspera, na Pousada do «Embrujo», em Poladura. Justina também parou aqui para descansar, beber e comer. Demorou pouco, seguindo o Caminho logo a seguir.

 

Depois de descansados e comidos, fomos observar um pouco melhor o edifício da Colegiada de Arbas, românica,

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reparando neste relógio de sol.

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Ligeiramente à nossa frente, do outro lado da estrada, a «Mesón Quico», já fechada a algum tempo, à espera que alguém a compre ou a alugue. Porventura, aqui, os lucros não serão muito por aí além...

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3.- De Arbas del Puerto (Província de Leão) à fronteira com o Principado de Astúrias


Pondo pés a caminho, passamos pelo edifício dos Cónegos (Canonigos)

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e começámos a subir ligeiramente pela estrada nacional 630,

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até ao designado alto de Pajares, mas, agora, saindo da estrada 630 e dirigindo-nos para a Venta de Pajares, onde existe um restaurante, pertença de um tal senhor Casimiro, que, pelos vistos, se encontrava encerrado, para obras, segundo nos relata Eroski Consumer.

 

Fomos começando a subir e, à nossa esquerda, exatamente na fronteira entre a província de Leão e o Principado de Astúrias, uma bonita Estalagem, também sem qualquer atividade, para alugar ou vender.

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Subindo um pouco mais, e também à nossa esquerda, o Maciço de Ubiña, com quase 60 picos que ultrapassam os 2 000 metros de altura.

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Entretanto, Justina, enganando-se no trecho do Caminho, tal como nós, inicialmente, foi trepando, trepando, até se aperceber que andava por caminho errado e que teria de voltar a descer para encarreirar pelo trecho de caminho certo, justamente virando à esquerda, junto a um poste de tensão.

 

Foi uma descida tremenda esta, com demasiada inclinação, com um trecho de caminho pouco sinalizado (ou com a sinalização encoberta pela vegetação), apenas sabendo que teríamos de chegar à estrada 630, já em plena Astúrias. Ziguezagueando por esta larga e inclinada ladeira, quase ao fundo, a silhueta de Justina, junto ao poste de alta tensão.

35.- P5020664.jpg

Até que ultrapassada a declivosa pendente e a estrada, aparece-nos o primeiro marco jacobeu asturiano!

36.- P5020671.jpg


4.- Da fronteira do Principado de Astúrias até Pajares (Payares)

 

Entrámos em terras asturianas. E pensávamos que, a pouco menos de 4 quilómetros da aldeia de Pajares (Payares), o Caminho seria «canja». Mas, puro engano!

 

Primeiro, começámos por ter de abrir esta cancela, tendo como pano de fundo, à nossa frente, os sempre omnipresentes picos da Ubiña,

37.- P5020675.jpg

com o gado, sob um bonito sol, descansando nestas pastagens de montanha, sob a proteção do Maciço da Ubiña;

38.- P5020680.jpg

depois, foi encetar mais uma enorme descida, por um carreiro encoberto pela vegetação, aos ziguezagues. Não fossem as célebres «piruletas de limón», com certeza que nos perderíamos por aquele imenso mato.

 

Perto do cruzamento de quem vai para San Miguel del Rio, a linha de caminho-de-ferro.

39.- P5020683.jpg

Ultrapassado este matorral, essencialmente de urzes e giestas, parámos para descansar um pouco. Nossas pernas começavam a tremer demais! Aqui, Justina ultrapassa-nos, seguindo, solitária, o seu Caminho.

 

Pondo mochila às costas, continuámos também o nosso Caminho, agora embrenhando-nos num bosque espetacular de faias e azevinhos. Pena haver tanta lama pelo caminho!

40.- P5020697.jpg

Saindo deste bosque, sempre a caminhar a descer, aparece-nos uma enorme clareira: um grande pasto, onde as pachorrentas vacas e as suas crias se iam entretendo a comer e a descansar. Uma boa vida, não fora a tristeza do seu fim antecipado!

41.- P5020737.jpg

Na passagem por esta vaca, veja-se a pacatez, curiosidade ou indiferença do bicho, que vá lá a gente saber!

42.- P5020718.jpg

Chegados quase ao fundo desta enorme descida, demos um escorregão num conjunto de folhas molhadas, espalhadas pelo terreno que nos prostrou no chão. E depois para levantar-nos?! Salvou-nos a mão amiga de Florens, respondendo ao nosso apelo... Não passou de um simples susto. Até porque o caminho começou a ser plano e a proximidade de Pajares (Payares) deu-nos uma outra alma.

43.- P5020753.jpg

Com efeito, aproximávamo-nos, a passos largos, de Pajares (Payares). Florens marcava o passo; Justina já, há muito, se tinha ausentado da nossa linha do horizonte.

44.- P5020758.jpg

Até que, finalmente, chegámos a Pajares (Payares) pelo bairro La Campa, junto ao cemitério, onde, à entrada, se localiza esta singela capela.

45.- P5020764.jpg

Atravessámos, quase por completo, a rua central de Pajares (Payares), onde não nos escapou este espigueiro (horreo) tipicamente asturiano, como muitos outros que encontrámos ao longo do Caminho Primitivo;

46.- P5020776.jpg

passámos pela igreja,

47.- P5020793.jpg

até que, 100 metros depois de a termos passado, na rua de Abajo, chegámos ao albergue.

48.- P5020794.jpg

Justina, sentada num banco encostado à parede do albergue, aguardava que a albergueira chegasse.

49.- P5020778.jpg

Marisa não demorou a nos receber. É este o nome da albergueira de Pajares (Payares). E, tal como vem nos diferentes guias do Caminho, e testemunho de alguns peregrinos - que o diga um amigo de Florens, que numa época de mais frio, por aqui passou - Marisa é uma senhora prestável, amável, simpática, enfim, sem adjetivos para qualificar esta excelente personagem que desempenha o seu papel como uma verdadeira vocação e autêntica paixão.

 

Informados por Marisa que o albergue de Bedueños não estaria aberto, por estar em obras, e sabendo que, não gostaríamos no dia seguinte percorrer 25 Km, Marisa tudo fez para nos encontrar uma alternativa. Sugeriu-nos que ficássemos em Campomanes, num hotel ou numa pensão, pois aí nessa localidade há todos os serviços.

 

Juntamente com Florens, decidimos que, conforme a nossa resistência ou estado físico, ao longo da etapa, assim determinaríamos onde efetivamente ficar - ou em Pola de la Lena ou, então, em Capomanes. Ou seja, teríamos que, no dia seguinte, fazer 25 Km, até Pola de Lena, ou 17,3 Km, até Campomanes. Só que se pernoitarmos em Capomanes, em vez de pernoitarmos em Pola de Lena, seguimos e vamos até Mieres, andando, em vez de 15Km, 21,5 Km. Qualquer destas alternativas encurtava a nossa planificação inicial do Caminho em um dia e, assim, em vez de chegarmos a Oviedo sexta, chegaríamos na quinta.

 

Tratadas as questões burocráticas e financeiras do alojamento, depois de nos acomodarmos num compartimento sozinhos - tratamento verdadeiramente VIP - e de tomarmos banho, fomos saber do nosso almoço.

 

Marisa cuidou, atempadamente, do nosso almoço e do jantar no único bar/restaurante da localidade, sendo-nos sido servida a tradicional gastronomia asturiana, onde a «favada» não pode faltar!

 

À ida para o bar/restaurante, na mesma rua, encontrámos esta frontaria, com esta placa:

50.- P5020782.jpg

Aqui viveu, nos tempos da sua infância e primeira adolescência, enquanto seu pai, nesta localidade, desempenhava o ofício de magistrado, Ramón Menéndez Pidal, um dos grandes filólogos, historiador, folclorista e medievalista de Espanha, de naturalidade corunhesa (Corunha, Galiza).

 

Depois de comermos, e pouco havendo mais para ver em Pajares (Payares),

51.- P5020775.jpg

fomos para o albergue.

 

De tarde, ainda aqui deram entrada dois peregrinos italianos. Jovens como eram, fizeram uma etapa desde Pola de Gordón até aqui.

 

O resto do dia passámo-lo a lavar a roupa no albergue, a ler e conversar, enquanto a mesma não secava. Até que, aproximando-se a noite, deitamo-nos cedo para a jornada do dia seguinte que se nos afigurava a mais difícil do Caminho pela sua extensão, se bem que as duas mais difíceis e duros, pelas pendentes que tínhamos de ultrapassar, subindo, fossem as duas anteriores.


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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

Por terras de Portugal - Capela Árvore da Vida (Seminário Conciliar de Braga)

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL

 

CAPELA ÁRVORE DA VIDA - BRAGA

01.- DSCF3769

 
Encontra-se no interior do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo, em Braga.

 

Não saberíamos da sua existência, não fora uma «dica» de amigo flaviense, a fazer vida em terras bracarenses, especialista em turismo religioso, e a obra de Eduardo Pires de Oliveira «Segredos de Braga - Braga Top Secret».

 

A entrada não é totalmente livre. Como se trata de um espaço privado, as visitas só acontecem às sextas-feiras, das 17h às 18h. Fora disso, só com autorização, para não importunar o lugar onde os seminaristas cumprem com as suas obrigações religiosas diárias.

 

Mas vamos àquilo que nos levou a nos debruçar sobre esta peça, vencedora do prémio ArchDaily 2011 para edifício religioso com a melhor arquitetura, sendo uma obra que vale a pena visitar, não só pelo seu aspeto arquitetónico, mas também pelo místico.

 

Está situada no segundo andar do edifício do Seminário Conciliar, com “corredores e escadas anódinas, iguais a tantas outras existentes em edifícios dos finais do século XIX da Europa, América ou Ásia! Apenas a realçar o claustro, após a porta de entrada, um claustro toscano do século XVI

02.- DSCF3810

 em cujo centro se descobriu há alguns anos o peristilo de um palácio romano (...) 

03.- DSCF3809

 
A porta do compartimento é também ela igual a milhares ou milhões de outras” (Eduardo Pires de Oliveira, in op. cit, página 106).

 

Reza assim o sítio da internet Braga Cool (http://bragacool.com/visitar/capela-arvore-vida):

 


Durante 6 anos os seminaristas, em conjunto com o Padre Joaquim Félix, professor da faculdade de Teologia de Braga, fizeram um trabalho de pesquisa e estudo de forma a projetar na capela a palavra de Deus. Depois da informação toda recolhida e de algumas visitas a bons exemplos de arquitetura religiosa, entregaram essa informação e missão aos arquitetos André e António Cerejeira Fontes, [que, com a colaboração do escultor Asbjörn Andresen], (...) durante um ano a interpretaram, construindo o conceito que viria a dar vida à capela: uma floresta.

04.- DSCF3761

 
Todo ele visa representar de uma forma extremamente simples, a liturgia. Ao abrir da porta, logo à entrada, deparamos com a simplicidade deste adereço

05.- DSCF3778

 
e, logo a seguir, este quadro.

06.- DSCF3772

A sua simplicidade, que oculta a complexidade da liturgia, é o grande destaque. Construída em madeira, foram necessárias cerca de 20 toneladas de madeira. Nada foi pregado nem há dobradiças, tudo foi encaixado. As traves de madeira encaixadas criam um jogo de luz e sombras deslumbrante, especialmente no final do dia”.

07.- DSCF3770

 
No final da visita fomos ver como a capela Árvore da Vida encaixava naquele exíguo espaço, mas perfeitamente integrada, no final de um corredor daquele enorme edifício que é o Seminário Conciliar.

08.- DSCF3775

 


Vista do alto, mais nos parece a «Arca de Noé»!

09.- DSCF3784

 
Os poucos, mas importantíssimos, adereços da capela ficaram a cargo da pintora Ilda David, e também de alguns artesões de Barcelos. As roupas litúrgicas foram concebidas por Lurdes de Castro.

 

Depois de boa meia hora a apreciar esta bonita obra, saímos com as palavras de Eduardo Pires de Oliveira na mente: “E nada direi mais sobre esta obra de poesia, não de arquitetura”.

 

A não perder uma visita, pois...


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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2016

Amadora - Congresso Internacional de ASC - À conversa com Padre Fontes

 

 

AMADORA - CONGRESSO INTERNACIONAL DE ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL


Mais uma vez a Associação Intervenção nos «presenteou» com um Congresso sobre Animação Sociocultural, desta vez, sobre o tema «Globalização, Multiculturalidade, Educação Intercultural e Intervenção Comunitária».

 

Nos últimos anos de docência universitária, antes da nossa aposentação, lecionámos disciplinas que sensibilizavam os alunos(as) para o desenvolvimento dos territórios, particularmente na vertente turística. E, paulatinamente, fomo-nos apercebendo da importância da animação (sociocultural) como instrumento (e condição) fundamental para a prossecução de um verdadeiro e autêntico desenvolvimento: equilibrado, justo e sustentável. Enfatizando a participação cidadã na construção dos seus próprios territórios, sempre guiados pelo lema de que “ninguém desenvolve ninguém, a não ser nós próprios”.

 

Ao sermos convidado pelos amigos(as) da Associação Intervenção para coordenar o Painel VIII - Multiculturalidade, Educação Intercultural, Turismo, Ócio e Tempo Livre, não podíamos recusar tal pedido. Tanto mais que o mesmo vinha acompanhado de um outro: o de apresentar um homem, transmontano e barrosão, nosso amigo há mais de 50 anos, e que, durante todo o seu percurso de vida, outra coisa não fez senão que intervenção comunitária, promovendo o Barroso, a cultura barrosã e as suas gentes.

 

Aqui fica, assim, a minha pequena e improvisada intervenção, aquando da apresentação do «À conversa com o Senhor Padre Fontes»:

 

PALAVRAS DE APRESENTAÇÃO «À CONVERSA COM O SENHOR PADRE FONTES»

asc-amadora (444)

 (Foto gentilmente cedida por Fernando DC Ribeiro)


Vimos do Reino Maravilhoso de que nos fala Torga: eu, mais a sul, das terras onde Baco é adorado como seu deus, numa cíclica e penosa penitência do homem em cuidar do jardim donde sai o fino e dourado néctar, apreciado por deuses, príncipes e plebeus; António Lourenço Fontes, mais a norte, é filho criado entre um mar de pedras, a paisagem gélida e o rugido dos ventos que deus Larouco comanda.

 

Reino Maravilhoso muitas vezes - ou quase sempre - esquecido.

 

Mas que, à custa da têmpera e vontade indomável dos seus nativos, persiste em viver e afirmar que é parte integrante de um Portugal que ajudou a criar. E que jamais se esqueceu dos seus vizinhos que as vicissitudes da História, erguendo-lhe muros (fronteiras) deles os queriam separar, mas nunca desistiram da partilha do encontro e da convivência com os seus irmãos galegos.

 

É tendo presente esta realidade que, em poucas palavras, vos queria falar de um homem, pertencente a uma parcela bem específica desse Reino Maravilhoso - o Barroso - para, a partir daqui, puderdes ir à conversa com ele.

 

Nasceu em Cambeses do Rio, concelho de Montalegre, Barroso, distrito de Vila Real, Trás-os-Montes.

 

Nos finais dos anos 50 do século passado tirou o curso de Teologia no Seminário Diocesano de Vila Real, com 22 anos de idade.

 

Na década de 80 do século passado, licenciou-se em História.

 

Ordenado presbítero, o seu bispo deu-lhe as freguesias de Tourém, Pitões das Júnias e Covelães para paroquiar. Nestas paróquias exerceu o seu múnus sacerdotal de 1963 a 1971, deixando nesse ano aquelas paróquias, passando, a partir daí, a paroquiar Vilar de Perdizes, Meixide e Soutelinho da Raia. De 2002 até 2005 é-lhe entregue também a paróquia de Mourilhe.

 

Em 2015, acossado severamente pela doença de Parkinson, que tomou conta do seu corpo, abandonou todo o múnus sacerdotal que o seu bispo lhe destinou. Mas não parou. Continua ativo nas áreas que sempre lhe foram queridas e às quais, a par da sacerdotal, dedicou todo o melhor da sua vida.

 

Foi vasta e diversificada a sua atividade, para além da sacerdotal.

 

I.- Como escritor


a).- Escreveu Etnografia Transmontana (em 2 volumes). E em parceria:
b.01).- Usos e costumes do Barroso;
b.02).- Milenário de S. Rosendo;
b.03).- Antropologia da Medicina popular Barrosã;
b.04).- Chega de bois;
b.05).- Raça Barrosã;
b.06).- Las fronteras invisibles;
b.07).- Contos da Raia;
b.08).- Crenzas e mitos da raia ourensana;
b.09).- Ponte da Misarela, ponte do diabo;
b.10).- Roteiro dos Castros de Montalegre;
b.11).- Roteiro dolménico de Montalegre.
c).- Colaborou em vários jornais e revistas regionais.

 

II.- Como conferencista


• Fez centenas de conferências por todo o país e no estrangeiro, em universidades, grupos culturais, escolas e autarquias, versando as mais variadas temáticos do seu Barroso.

 

III.- Fundou e dirigiu o mensário «Notícias de Barroso», de 1971 a 2006.

 

IV.- Foi colaborador permanente da


• Rádio Televisão Portuguesa (RTP), da Televisão Espanhola (TVE) e da Televisão Galega (TVG).

 

V.- Participou, como ator, em filmes rodados no seu Barroso:


1.- Terra de Abril;
2.- Terra Fria;
3.- 5 dias e 5 noites;
4.- Não cortes o cabelo que meu pai penteou.

 

VI.- Participou nos documentários


• Para a BBC, TV da Holanda e França, UNESCO e Odisseia sobre a rubrica «Os Demónios».

 

VII.- Organizou vários congressos nacionais e internacionais, destacando-se:


Milenário de S. Rosendo (1977);
Centenário de S. Bento (1981);
Caminhos de Santiago (1982);
Arquitetura popular (1984)
• 2 sobre Religiosidade popular (1984 e 1985).
• Mas, de todos, o que lhe deu mais projeção, pondo Vilar de Perdizes e as suas gentes no roteiro das medicinas não convencionais, ou alternativas, e do turismo, em Barroso, particularmente em Vilar de Perdizes, foi o «Congresso de Medicina Popular», que iniciou em 1983 e que, com muito poucas falhas, se vem realizando todos os anos até à presente data.

 

VIII.- Promoveu


• Mais de 30 Encontros de Cantadores ao Desafio e Concertinas, pelo Natal;
• Mas o que traz milhares de forasteiros e turistas a Montalegre, e ao seu Castelo, são as «Sextas 13».

 

IX.- Empresário turístico e promotor de eventos


• Em 2000-2001 reconstruiu, em Mourilhe, o Solar do Outão, do século XVII, agora Hotel Rural Senhora dos Remédios, que o transformou num centro cultural de promoção e divulgação das terras e cultura Barrosã, onde acolhe turistas, visitantes, docentes, universidades, estudantes, artistas e comunicação social.

 

Olhando para o número de atividades que desenvolveu e, hoje ainda, com certas limitações, é certo, continua a desenvolver, podemos afirmar que António Lourenço Fontes - o Padre Fontes - é o exemplo vivo de um verdadeiro Animador Sociocultural:


• No saber ouvir, observar e compreender a diversidade do ser barrosão no contexto da região de Trás-os-Montes e Galiza;
• No identificar o território, as suas gentes e a sua história;
• No divulgar, no essencial, a sua alma, com as suas crenças e tradições;
• No promover os seus recursos essenciais, específicos, tendo como base as pessoas, as suas pessoas, em particular os seus paroquianos;
• No dinamizar os recursos, pondo os seus paroquianos a sentirem-se importantes, e valorizando o seu papel na comunidade,
• Enfim, repete-se, a sua vida é um exemplo vivo de um ator/autor participante na construção e desenvolvimento do seu território e das pessoas que nele habitam, dando-lhes dignidade e contribuindo para a sua qualidade de vida.


Infelizmente o modelo de desenvolvimento que Portugal tem vindo a seguir, encostou e encalhou o Barroso para a periferias das periferias, impedindo, assim, que esta cultura viva, que o Barroso representa, não contribua ainda mais para a compreensão e (re)construção da identidade do ser português.

 

O que prevalece no perfil de Padre Fontes não é a predominância da sua atividade sacerdotal no sentido estrito do termo. Da sua formação seminarística, o que prevaleceu foi a grande cultura humanística que dela soube extrair, pondo a sua formação e múnus sacerdotal ao serviço do Homem (das mulheres e homens) das comunidades que, ao longo da sua vida, foi servindo.

 

António Lourenço Fontes foi padre não por uma opção profundamente sentida que o ligasse ao Além, especialmente no sentido místico. Como ele muito bem diz, a sua opção como sacerdote foi ditada por um acaso: a escolha de um de dois papéis dobrados num copo de água, em que um, dizia ser padre, e o outro, não ser.

 

Na verdade, o que, de essencial, Lourenço Fontes aprendeu é que o seu destino era servir o Homem. A sua vocação foi por a sua vida e saber ao serviço desse mesmo Homem, que vive, aqui e agora, num determinado contexto histórico. E o seu contexto foi sempre o Barroso.

 

X.- Não admira, pois, que as suas gentes e instituições o tenham homenageado, premiado e agraciado:


• Prémio abade de Vassal pelos Escritores e Jornalistas de Trás-os-Montes e Alto Douro;
• Troféu do aluno do ano da associação dos Antigos Alunos do Seminário Diocesano de Vila Real;
• Arraiano-mor da Raia Seca (2010);
• Juiz Honorário do Couto Misto;
• Prémio Humanidades e Comunicação, de Ponteares, Vigo/Galiza-Espanha;
• Medalha de Prata da Casa dos Poetas Curros Enriques, Celanova, Galiza, Espanha;
• Diploma de Animação de Soto Chao, Galiza, Espanha;
• Medalha de Prata da Câmara Municipal de Montalegre pelos serviços prestados à Cultura;
• Diploma de Mérito Municipal do Município de Montalegre;
• Duas Comendas de Mérito Cultural da Universidade Sénior, de Barcelos e Esposende (UMATI);
• Atribuição do nome ao Ecomuseu de Barroso, em Montalegre, como Espaço Padre Fontes, selando a sua vida e obra, e integrando nele o seu busto em cera;
• Busto de granito em Vilar de Perdizes.


XI.- Como padre que é, a boa mesa e o bom beber, para ele, não podia estar ausente. Por isso é:


• Confrade Honorário dos Sabores de Beja;
• Confrade Honorário da chanfana, de Vila Nova de Poiares;
• Confrade Honorário do Enófilos e Gastrónomos de Trás-os-Montes;
• Confrade da Ortiga, de Fornos de Algodres;
• Confrade Honorário das Carnes Barrosãs;
• Grão-mestre dos Amigos do Repasto.

 

Pede-me agora o Padre Fontes que vos deixe espaço para usardes da palavra e puderdes interrogá-lo sobre o que entenderdes sobre a sua história de vida, das suas gentes e do seu Barroso.

 

António de Souza e Silva


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Domingo, 23 de Outubro de 2016

Versejando com imagem - «O Grito»

 

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

O GRITO

 

 

Estava andando pela estrada com dois amigos

O sol se pondo com um céu vermelho sangue

Senti uma brisa de melancolia e parei

Paralisado, morto de cansaço...

...Meus amigos continuaram andando - eu continuei parado

Tremendo de ansiedade,

Senti o tremendo Grito da natureza.

 

 

Edvard Munch

le-cri-1910 - 03.jpg

 Edvard Munch, versão de 1983 em óleo e pastel sobre cartão/Galeria Nacional de Oslo

[Existem mais 4 versões: a lápis, de 1893; a de 1910 (a versão roubada e seriamente danificada);

a de 1895, de pastel sobre cartão, a obra de arte mais cara, vendida em 2012; finalmente, de 1910, uma litografia]

 


publicado por andanhos às 19:41
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