Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017

Ao Acaso... Com Torga, falar do espírito e alma barrosãs

 

 

AO ACASO...

 

COM TORGA, FALAR DO ESPÍRITO E ALMA BARROSÃS

 


Quando acabei de ler o último post de A. Souza e Silva, subordinado ao tema «Reino Maravilhoso-Barroso - Realidade e Utopia», pensando na azáfama de seu amigo Fernando DC Ribeiro em querer, com a sua objetiva, “encontrar” - ir à procura - do verdadeiro espírito barrosão, ao acaso, lembrei-me de Miguel Torga quando, passando por estas paragens, a 1 de setembro de 1991, em Alturas do Barroso,

2017.- Montalegre (237)

no seu Diário, vertia estas palavras:
Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro”.

 

Já são decorridos 26 anos, desde que estas palavras foram escritas. E pergunto-me, interrogando, através das “lonjuras”, o nosso maior: esse é (ou era), manifesta e genericamente, o espírito barrosão, o mesmo que dizer, o verdadeiro espírito transmontano, galego, e genuinamente português; mas, nos tempos que correm, será que haverá uma consciência barrosã que, alicerçada no passado, justifique um futuro, genuinamente barrosão, em que, empenhadamente, os barrosões “arregacem as mangas” para o construir?

 

Subindo, no passado dia 15 de agosto às alturas de 1 200 metros, do Minheu, à minha frente, na lonjura da linha do horizonte, em frente aos cumes do Gerês, esbatidos pela paisagem imensa a nossos pés, aparece-nos os “Cornos das Alturas do Barroso”.

 

DSC_3043

Do alto daquele posto de vigia do Minheu, contemplando aqueles “cornos” do Barroso, nas Alturas, veio-me à lembrança um quadro descrito e escrito, precisamente ali, nas Alturas do Barroso, pelo nosso escritor maior, Miguel Torga, quando, em 21 de setembro de 1969, em simples, mas comovente prosa poética, nos descreve, desta forma, no seu Diário, o espírito barrosão:
A paz destes barrosões, sentados no escombro de uma lameira a guardar a junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade”.

 

Quando acabava de fazer a citação que precede, remexendo, ao acaso, em ficheiros de imagens, meus olhos fixaram-se, como levados por um íman, nesta fotografia tirada há pouco tempo desde a barragem do Alto Rabagão/Pisões.

2017.- Montalegre (239)

Em perspetiva, e do ângulo donde foi tirada, não se me afigura dois cornos, mas duas tetas.

 

E lembrei-me do mito do nascimento de Roma.

 

Porventura, e aqui compreendemos Fernando DC Ribeiro, é no beber o “leite” destas paragens e paisagens que, estou certo, a cultura e o ser barrosão “ressuscitará”.

 

Mito ou realidade?

 

Que importa?!

 

A imaginação humana não tem limites...

 

Desde que atentemos a estas palavras, proferidas a 1 de setembro de 1990, pelo nosso grande humanista transmontano, que foi Torga, quando, na vila de Montalegre, foi abordado por uns jovens. Escrevia, nessa altura, no seu Diário:
Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo?
- Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar-comum”.

 


nona


publicado por andanhos às 18:34
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

Reino Maravilhoso - Barroso - Realidade e utopia

 

 

REINO MARAVILHOSO - BARROSO

 

00.- 2017.- Montalegre (236)

(Fafião) 

 

REALIDADE E A UTOPIA

 

Temos vindo a acompanhar, juntamente com mais um ou dois amigos, o amigo Fernando DC Ribeiro, no seu afã de fazer a cobertura de todas as aldeias do Barroso, da parte de Montalegre.

 

Admiramos este seu entusiasmo - e enlevo - na recolha daquilo que, na sua ótica, considera o mais genuíno do Barroso.

 

Já há um tempo atrás fez idêntico trabalho em relação ao concelho onde nasceu e passou a residir, constituindo família e aqui desenvolvendo a sua vida - Chaves.

 

Muitas vezes damos connosco a perguntarmo-nos o que nos leva a seguir um aficionado pela fotografia quando pretende fazer o levantamento daquilo que considera o mais genuinamente barrosão.

 

A resposta vem fácil e está relacionada com uma sua costela barrosã, que herdou de sua mãe.

 

Como o compreendemos tão bem!

 

Vivendo há mais de 50 anos em Chaves, nunca perdemos a ligação com o terrunho que nos viu nascer. E, recorrentemente, descemos até ao Douro. Para matar saudades. Carregar baterias. Numa peregrinação, não de fé, mas de amor e carinho por aqueles horizontes que sempre nos ficaram cravados na memória desde a nossa meninice. A saudade. Termo tão próprio do ser português e do Homem Transmontano!

 

No passado dia 14 do corrente mês, levantámo-nos cedo para acabar de cobrir uma ou outra aldeia em falta e de completar mais umas 3 ou 4 que, noutras alturas, face à escassez do tempo, ficaram incompletas. Na verdade, em cada aldeia, não hás cantinho que não seja “coscuvilhado”!

 

Neste post, nosso intuito não é fazer a reportagem das aldeias por que passámos e visitámos. Esse desiderato é todo ele, pertence a Fernando DC Ribeiro, no seu Blogue “CHAVES”.

 

Hoje queremos apenas aqui deixar uma ou outra reflexão sobre as nossas deslocações até às terras barrosãs.

 

Quem já foi lendo e vendo os posts que Fernando DC Ribeiro publicou no seu blogue sobre algumas deias barrosãs (da parte de Montalegre, pois Boticas, creio, virá a seguir), à parte as informações que, da sua lavra, nos vai dando, e dos autores em que se apoia e cita, as suas imagens, tecnicamente bem tratadas, não nos deixam indiferentes pela sua beleza cénica.

 

Contudo, depois de observarmos e analisarmos cada post, no final, fica-nos um misto de tristeza e de melancolia.

 

Fernando DC Ribeiro não “capta” já o Barroso genuíno

 

1.- 2017.- Montalegre (36)

(Codeçoso, de Padornelos)

- pois tal hoje lhe é impossível - mas tão só a sua miragem.

 

2.- 2017.- Montalegre (48)

(Codeçoso, de Padornelos - Reflexo num lavadouro público)

Miragem na qual abundam a falta de gentes, o abandono das terras para cultivo e os tratos de polé a que a sua arquitetura tradicional foi votada.

3.- 2017.- Montalegre (41)

(Codeçoso, de Padornelos - Forno do povo)

Diz Fernando DC Ribeiro, entre um clique de uma fotografia e o enquadramento para outra, que o que lhe interessa é “captar” a essência barrosã. Compreendemos o que ele pretende. Mas, na verdade, essa essência já não existe.

 

Desapareceu.

4.- 2017.- Montalegre (71)

(Mourilhe - Espigueiro em ruínas)

Porque desapareceu, está desaparecendo aceleradamente, quem dava vida ao barroso, que tão nostalgicamente recorda da sua infância - as pessoas.

5.- 2017.- Montalegre (63)

(Gorda - Uma das poucas casas habitadas, em tempo de férias de emigrantes)

Restam algumas histórias de vida, que autores barrosões tão magistralmente nos souberam transmitir, como Bento da Cruz,

6.- 2017.- Montalegre (80)

(Peirezes - Casa que foi de Bento da Cruz)

uma ou outra construção recuperada, com os confortos modernos, mantendo a traça tradicional.

 

Tudo o resto é ruína e desolação,

7.- 2017.- Montalegre (7)

embora os esforços feitos em sede da dinamização dos diferentes núcleos do Ecomuseu do Barroso...

8.- 2017.- Montalegre (217)

(Fafião)

adotando - e servindo-se - de gente jovem.

9.- 2017.- Montalegre (212)

(Fafião - Ecomuseu do Barroso - a Mariana)

É uma realidade dura a que o Barroso, a exemplo de outras terras interiores do nosso país, a que já nos acostumamos a aceitar, sem que surja um grito de revolta consistente que inverta este estado de coisas, que está matando, e fazendo desaparecer, a parte mais genuína e mais significativa da identidade e da realidade do ser português!

10.- 2017.- Montalegre (207)

(Fafião - Ecomuseu de Barroso - Vezeira e Serra)

Obviamente que não estamos a fazer a apologia do regresso ao passado. Um passado duro, de pobreza, fome e miséria, que lanço tantos barrosões (como, aliás, tantos portugueses) na emigração, na diáspora de braços jovens que construíram outros países, enquanto o nosso marcava passo e definhava.

 

O barrosão precisa, assim como o nosso país, é de uma outra visão do futuro.

 

Essencialmente no interior, o que os nossos autarcas fazem e executam - grande parte deles muito bem - é dos que cá restam...

 

Mas isso só não basta!

 

O barrosão de hoje, a exemplo dos meados do século passado, precisa de uma nova “colonização”, de um novo repovoamento. Com outros emigrantes. Com os seus emigrantes. E outros imigrantes que para aqui queiram vir, imbuindo-se do verdadeiro espírito do lugar. E que apostem nos ricos recursos destas terras e num novo modelo de desenvolvimento. Respeitador das suas tradições; 

11.- 2017.- Montalegre (216)

(Fafião - Ecomuseu do Barroso - Roda do moinho e "mariola")

orgulhoso da(s) sua(s) história(s) de vida; reconstruindo a arquitetura tradicional adaptada aos confortos dos tempos modernos.

 

Desenvolver este território e estas aldeias, em suma, este mundo rural,

000.- 2017.- Montalegre (180)

(Fafião - Proximidades do rio Toco)

tão rico, embora selvagem e inóspito,

001.- 2017.- Montalegre (187)

 (Rio Toco)

é, repetimos, adotar uma outra postura, apostando num outro modelo de desenvolvimento, respeitador da história,

13.- 2017.- Montalegre (154)

(Cabril - A ponte velha [romana])

das culturas locais,

14.- 2017.- Montalegre (147)

(Cabril - Igreja Matriz e envolvente)

e mais compaginável com a proteção da natureza ( e que rica natureza nós temos!),

14.- 2017.- Montalegre (141)

 e no respeito pelas diferentes diferenças e identidades e pela genuidade do modo de vida do ser barrosão, que é o mesmo que dizer, português.

 

Será que, perante esta realidade que, a nossos olhos, se nos apresenta tão deprimente, estamos a pugnar simplesmente por uma utopia?

 

Possivelmente para a maioria dos leitores que nos lê, assim será.

 

Mas, verdadeiramente, sem sonho, que seria da vida?

15.- 2017.- Montalegre (211)

E que futuro preparamos para as gerasções futuras?...

 


publicado por andanhos às 18:07
link do post | comentar | favorito
|
Sábado, 12 de Agosto de 2017

Por terras da Ibéria:- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca (Ida e volta) - I Parte

 

 

POR TERRAS DA IBÉRIA

 

 

CAMINHADA - DO PORTO DE SANÁBRIA A PEÑA TREVINCA (IDA E VOLTA)

 

I PARTE

 

AO LONGO DO VALE DO RIO BIBEI

 


As montanhas
são templos de encontro do homem consigo mesmo
e com a natureza mais orgulhosa.

 

Sebástián Álvaro


1.- Introdução

 

O nosso amigo Pablo Serrano Moreno sabia, há muito, do nosso interesse em atingirmos, a pé - pois doutra maneira não é possível - o teto da Galiza: o cume de Peña Trevinca.

 

A 31 de julho passado, recebo um “convocatória” de Pablo para caminharmos até Peña Trevinca, desde o Porto de Sanábria. Rezava, assim, a sua “convocatória”:
António, continuas interessado com o desejo de subires a Peña Trevinca? No sábado, 5 de agosto, vai haver uma caminhada com um grupito de amigos. Caminhada com calma. Do Porto de Sanábria a Peña Trevinca, 24 Km (ida e volta)”.

 

Ficámos-lhe com vontade. Mas, naquela altura, não lhe pudemos dar uma resposta definitiva: em primeiro lugar, tínhamos assuntos pendentes, com data, para resolvermos, e não sabíamos se os íamos cumprir; em segundo, depois do Caminho Sanabrês de Santiago, que fizemos em maio, desde Chaves até Santiago de Compostela, apenas tínhamos feito uma caminhada - e que caminhada! -, em férias, na ilha de Santo Antão, Cabo Verde.

 

De junho para cá estivemos praticamente parados. Sem treino e, pior ainda, engordámos um pouco.

 

A 1 de agosto, Pablo, completa a sua “convocatória”, esclarecendo:
Vai ser todo o dia, com 8 pessoas, mas com calma”.

 

Para quem gosta de caminhar com o máximo de 3, 4 pessoas, 8 parecíamo-nos uma multidão! É que, ao caminhar, gostamos de apreciar a paisagem, tirar fotografias e, em silêncio, meditar. Não está no nosso caminhar simplesmente “papar” quilómetros. Em suma, é um ritmo diferente, muito pouco compaginável com 8 (oito) pessoas...

 

A 2 de agosto, Pablo comunica:
No sábado, temos que sair de Verín às 7. 30 horas locais”. Ou seja, obrigava-nos a termos de nos levantar entre as 5 e as 5. 30 horas nossas, 6. 30 horas espanholas.

 

Dado o interesse do Pablo em o acompanhar - e resolvidos os assuntos que tínhamos pendentes -, decidimos encetar a caminhada e começámos a tratar das questões logísticas, perguntando ao amigo Pablo o que era preciso levar.

 

Eis a sua pronta e sucinta resposta:
Comida e Câmara. Palo para andar. E “ganas” de caminhar. E já está! Vai ser um passeio de amigos. às 19 da tarde estaremos em Verín”.

 

Dia 5 de agosto levantámo-nos às 5 da manhã. Ainda não eram bem 7. 30 horas e já estávamos sentados num dos bancos em frente à Casa do Concello, em Verín.

 

Pablo foi de uma pontualidade britânica. Às 7. 30 horas apareceu no local com o seu neto Xosé, um adolescente entusiasta das caminhadas e amante da música. A relação entre avô e neto é verdadeiramente ternurenta!


De Verín, tomámos a autovia A52 em direção a Benavente/Madrid até Villanueva.

 

Falamos de incêndios em Portugal. Ao longo da A52, por onde passámos, em grande troço, o ambiente é de idêntica desolação como em Portugal nesta época do ano!

 

Saídos da A52, tomámos a estrada ZA-102/OU-124. Isto porque, ao longo desta estreita estrada, em mau piso, com curvas e contracurvas constantes, ora estamos em território galego ora em Leonês (zamorano). A explicação que nos ia dando Pablo tinha a ver com a História e com os antigos senhores destas terras - os de Monterrei e Benavente - na conquista de terras para lenha, para se aquecerem nos invernos longo, e de caça, para se alimentarem.

 

A dada altura, um corso atravessa calmamente a estrada, penetrando no bosque contíguo à estrada. Também foi o único que, neste dia, vimos!

 

Aproximando-se as 9 horas locais, uma chamada de Urko Diaz, o organizador/guia da nossa caminhada. Xosé atendeu e respondeu que estávamos já “mui cerca” de Porto de Sanábria.

 

Passavam uns 4 ou 5 minutos das 9 horas - hora combinada para a partida da nossa caminhada ao teto da Galiza - quando chegámos à praça Laguazais, ponto de partida da nossa caminhada.

 

Vamos abrir aqui um parêntesis para explicar que não é apenas do Porto de Sanábria que se atinge Peña Trevinca. Existem duas opções e, cada uma delas, têm dois itinerários. Expliquemos sumariamente. Pela vertente galega, ou ourensana, o acesso mais cómodo é o que parte da localidade de Sobradelo; daqui, vai-se pela estrada provincial OU-122 a Casaio e, uma vez ultrapassada esta localidade, a estrada sobe até ao Porto de Fonte da Cova, a 1 800 metros, no limite entre a Galiza e Leão (Aqui, antigamente, existia uma estação de ski, hoje abandonada; em seu lugar existe um hotel de montanha) e, daqui, ora por uma pista mineira, ora a pé, em 10 Km, alcançamos o cimo de Peña Trvinca. Ainda pela vertente ourensana, existe uma segunda opção de acesso, que vai desde o vale do Xares, no município de A Veiga; chegados a A Ponte (1 100 metros), começa a subida para Peña Trevinca.

 

Pela vertente zamorana, a referência mais conhecida é a localidade de Puebla de Sanábria, tomando a autovia A52 e depois a estrada provincial ZA-104, em direção ao parque natural do Lago de Sanábria; percorridos 15 quilómetros pela ZA-103, chega-se a San Martín de Castañeda, para, ainda por estrada, se alcançar o aparcamento da Lagoa dos Peixes, onde se inicia a subida.

 

O nosso acesso por Porto de Sanábria a Peña Trevinca é um outro acesso zamorano, porquanto Porto de Sanábria pertence à província de Zamora. Mas, aqui, por estas bandas, não vimos grandes diferenças entre galegos e castelhanos!


2.- O Percurso

 

Depois de perguntarmos a um residente do Porto de Sanábria onde ficava a praça Laguazais e estacionado ali o carro, fomos ao encontro dos nossos companheiros de caminhada. Afinal, connosco os três, eram mais dois - Urko Diaz e Alfonso Granja Bruña; passados uns minutos aparece um terceiro - Antonio -, que apenas cumpriu, sensivelmente metade da caminhada, abandonando-nos na hora do almoço, pois, por afazeres pessoais, tinha compromissos para o fim da tarde e princípio da noite.

 

Eram sensivelmente 9. 30 horas locais quando saímos da praça da terra, junto ao tanque,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (3)

para darmos início à nossa caminhada.

 

O sol já estava bem desperto e, à nossa frente, por uma estrada de cimento, ia o amigo Pablo com o seu neto Xosé.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (7)

Saídos da aldeia, e já um pouco ao longe, a silhueta do casario de Porto de Sanábria.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (12)

À nossa frente, agora, ia, do lado direito, Urko, o organizador/guia da caminhada, de Porto de Sanábria, a seguir, Antonio, um residente destas paragens sanabresas, e depois, Alfonso Bruña, um natural também do Porto de Sanábria, mas há mais de 30 anos radicado em Madrid. Quanto a este nosso companheiro/caminheiro vamos ter oportunidade, mais para a frente, e demoradamente, falar dele. Por agora basta a apresentação do seu nome.

 

Mais atrás, o jovem Xosé, neto de Pablo e, na cauda, os dois velhotes - Pablo e o segundo António.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (19)

Perdoem-me os leitores: falta mais uma personagem - a “perrita" (cadela) de Alfonso -, a Trini(dad), que nos acompanhou desde o princípio ao fim, sempre irrequieta e animada, ora indo à frente, ora aproximando-se do seu dono, e, sempre que via um pequeno curso de água ou um charco, tomava sempre um banho, quer fosse água límpida ou barrenta. Ei-la, minúscula, à nossa frente, ao encontro de Pablo,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (21)

que, uns metros mais à frente se junta a seu neto e começa a entabular conversa sobre estas terras e estas suas gentes,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (26)

enquanto, à nossa direita, por entre terreno rochoso, o rio Bibei irrompe, fazendo a sua travessia que o irá lançar nos braços do rio Sil, afluente do Minho.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (27)

Percorridos sensivelmente 3,3 Km, acercamo-nos da Casa da Cacheta.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (35)

A Casa da Cacheta outra coisa não é que um estábulo para recolha do gado.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (38)

Ao longo deste pequeno vale do rio Bibei encontram-se muitas destas construções, que lhes chamam “cabanas”. Neste vale do Bibei, com vegetação baixa e poucas árvores, as gentes da terra dedica-se à pecuária e ao cultivo de cereais.

 

Atravessado o rio Bibei, de água límpida, rodeado de árvores ripícolas,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (40)

aos 3,6 Km vamos encontrar um bosque de azevinho - o Acerbal de Grañeiro.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (49)

Ao Km 4,3, mais um outro bosque de azevinho - o Acerbal de (Her)meadas.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (52)

O azevinho (ilex aquifolium), tal como em Portugal, aqui é uma espécie, árvore de pequeno porte, protegida.

 

Uma travessia do Bibei e, mais uma vez, a Trini aproveita para dar um outro mergulho na água.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (54)

Mais uma outra “cabana” abandonada, rodeada de carvalhos (robles).

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (60)

Caminhando ao lado do rio Bibei, vamos em direção a Valdetendas.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (66)

O Bibei, com as suas águas límpidas, prende-nos constantemente a nossa atenção.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (71)

Este pequeno vale, por onde transcorremos, é refúgio de animais como o corço e o javali, protegendo-se das inclemências do inverno, ao mesmo tempo que, no verão, é o seu lugar fresco.

 

Ao Km 5,6, estamos a passar numa outra “cabana” - A Casa do Castelo.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (73)

Continuando com a nossa jornada, a dada altura, Pablo para junto destas duas pequenas árvores, uma junto à outra.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (75)

Ele, um “especialista” florestal, elucida-nos, identificando-as: a do lado esquerdo, o nosso célebre azevinho; a maior, do lado direito, é a tramazeira ou cornogodinho (sorbus aucuparia). O nosso amigo Pablo e os galegos dão-lhe o nome vulgar de “cancereixo” ou “serval de los cazadores”.

 

Uns metros mais à frente, aparece-nos o salgueiro, a quem lhe também lhe dão o nome de borrazeira, cinzeiro ou vimieiro preto (salix atrocinera).

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (76)

Cada vez mais nos aproximamos da verdadeira subida a Peña Trevinca.

 

E continuam a proliferar as pastagens rasteiras,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (85)

(Uma perspetiva)

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (86)

(Outra perspetiva)


com “cabanas”.

 

E pouco tardou para que passávamos por mais duas delas, instaladas nesta paisagem, chamando-nos Alfonso a nossa atenção para o "Penedo Niegro", lá ao cimo, no lado direito. 

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (89)

Entretanto, ultrapassávamos a penúltima passagem sobre o rio Bibei.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (90)

Na nossa linha do horizonte, curta, a visão do início da montanha encheu-nos os olhos.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (93)

(Uma perspetiva)

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (97)

(Outra perspetiva)

 

Percorridos 7, 1 Km e, na veiga de Valdetendas, deixámos o bem cómodo e bem compactado caminho da nossa rota e começámos a penetrar nos contrafortes do pico Moncalvo.


Depois de feita a última travessia do rio Bibei, começa aqui a nossa verdadeira subida até à “cumbre” de Peña Trevinca,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (98)

indo ao encontro desta manada de bovinos.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (105)

Trini sentia-se feliz, não parando de andar de um lado para o outro, com a aproximação das vacas e de um ou dois bois. Ela deve ser, com certeza, uma descendente dos antigos cães da transumância destas paragens.

 

Segundo nos foi explicado por Pablo e Alfonso, nestas manadas podemos encontrar as seguintes raças:
* a “vaca del país” ou sanabresa, que está em perigo de extinção, e que apenas existem 1 500 exemplares;
* da província de Zamora, a alistana sanabresa e a sayaguesa;
* da província de Ourense, a cachena, a de límia, a de caldelas, a frieiresa e a vianesa (de Viana do Bolo);

* do norte de Portugal, uma ou outra mirandesa e barrosã
* e, finalmente, em muito menor quantidade, a maronesa (do Alvão).


Uma diversidade significativa de exemplares.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (111)

Enquanto começávamos a subir e, do alto, obtinhamos uma melhor perspetiva da “nossa” manada,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (118)

Alfonso foi-nos dando indicação de ser um perfeito conhecedor não só do “seu” território como da vida das suas gentes. Homem, como dissemos, radicado há 30 anos em Madrid, mas natural de Porto de Sanábria, todos os anos não passa sem vir à sua terra natal durante, pelo menos, 15 dias. Nesses 15 dias que aqui permanece faz este percurso uma ou mais vezes. É um verdadeiro exemplar do enorme amor ao terrunho que o viu nascer, em tempos difíceis, quando estávamos vivendo, tanto lá, quanto cá, em tempos de “vacas magras”.

 

Ei-lo, à nossa frente, pisando firme as terras que lhe são tão conhecidas, e que lhe trazem tantas recordações da sua meninice e que, por isso, tanto ama!

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (122)

Mais à frente explicaremos porque, na nossa ótica, Alfonso tanto ama e gosta de percorrer estes “horizontes”.

 

Agora é tempo de fazermos uma pausa, ou “paragem técnica”, para comer, beber água e descansar um bocadinho,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (125)

nas proximidades de um pequeno regato de água límpida, onde nos abastecemos,

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (128)

enquanto apreciávamos uma planta - uma framboesa selvagem.

2017.- Caminhada Porto de Sanábria-Peña Trevinca-Porto de Sanábria (127)

Deixamos aqui aos nossos leitores um vídeo produzido pelo nosso organizador/guia desta caminhada - Urko Díaz - sobre a sua terra natal - Porto de Sanábria.

 

PORTO DE SANÁBRIA - POR URKO DÍAZ

 


publicado por andanhos às 20:53
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 11 de Agosto de 2017

Versejando com imagem - Lá vai meu pobre espírito ansioso (Teixeira de Pascoaes)

 

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

Lá vai meu pobre espírito ansioso

 


Lá vai meu pobre espirito ansioso,
Através dos espaços confundidos,
De estrelas hesitantes, brancas nuvens
E nocturnos desertos esquecidos...

Ando em procura de mim próprio; eu ando
Ao longo da infinita solidão
E de forças ocultas, que se cruzam
Num sítio, que é meu triste coração!
Eis que me perco, em grande labirinto!
E, perturbado e doido, apenas vejo
Onda fatal de comovido instinto,
Que me impele, violento, para um negro,
Misterioso abismo...

Como a espuma,
Foilha das águas, com as águas vai,
Na cerração fantástica da bruma,
Enlouquecido, vou levado, à tona
Dum alteroso mar de sentimento!
Qual o destino meu? Quem me responde?
Que diz a noite às lástimas do vento?
Que dizes tu, meu coração aflito?
E lá vais, e lá vais, arrebatado
No dorso dum dilúvio! E fico, a sós
Comigo, esse misérrimo punhado
De arrefecida cinza e vã tristeza!

Desconheço, meu corpo, a tua essência
Sombra animada de íntimo luar.
És feito de invisíveis elementos,
Embora te descubra o nosso olhar...
Miraculoso peso, assim composto
De imponderáveis cousas! Forma viva,
Contendo a indefinida morte escura,
A vaga Identidade primitiva...

Alma e corpo, que sois? E quem és tu,
Ó voz que os interrogas? Quem sou eu?
Sombra da terra, fala! Ó tu, que és feita
Talvez de toda a luz que tem o céu!»

Estas palavras, loucas, sem sentido,
Que os seus lábios proféticos disseram,
De eco em eco, arrastadas pelos vales,
Numa poeira de som se desfizeram...
Poeira que sobe, e é névoa de silêncio;
Névoa que arrepiada e fria aragem,
Perpassando, condensa, e é humano canto,
Doce marulho de água ou de folhagem.

 

(excerto do poema V Chegada de Marânus à Montanha, de Marânus)

20170709_054411

 (Imagem de Eduardo Santos Leite)


publicado por andanhos às 20:36
link do post | comentar | favorito
|

Versejando com imagem - As sombras (Teixeira de Pascoaes)

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

As Sombras

 


Olha, contempla o espírito soturno
E original; contempla a
Sombra enorme
Que, de alto a baixo, se rasgou, tal como
Os negros véus do templo.

E dessa informe,
Estranha sombra cósmica saiu
Claridade espectral, quase invisível;
Um desmaio que, pouco a pouco, abriu
Seus olhos num olhar de Nebulosa.
E logo a etérea Névoa desejou
Ser uma estrela a desfazer-se em luz.
E a estrela ardente quis ser mundo gélido,
Regado com o sangue de Jesus...

Então, a clara estrela arrefecida,
Sob os beijos da aurora que a fecundam,
Mudou-se em tenra planta enverdecida,
Que depois se tornou, por um milagre,
Criadora também...

E as aves voam
No céu; e pelas selvas, que estremecem,
Sinistros animais, ainda indecisos
E grandes como sombras, aparecem...
O sol, em fúria e raiva, neles arde...
São deuses monstruosos, sanguinários,
Que vão criar o homem que, mais tarde,
Será Buda e Jesus...

Estes dois Santos
Deram, por sua vez, divina origem
A Deus, o Ser perfeito e sempiterno;
A Vida Espiritual, mais alta e virgem,
Que todos nós sonhamos, sobre a terra.

 

(Teixeira de Pascoaes)

 

20170709_065225

 (Imagem de Eduardo Santos Leite)


publicado por andanhos às 15:41
link do post | comentar | favorito
|
Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

Versejando com imagem - O Nascimento (Teixeira de Pascoaes)

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

 

O Nascimento

 

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Rompendo a sombra etérea do crepúsculo!
A paisagem tornou-se mais estranha,
Mais cheia de silêncio e de mistério!
Dormem ainda as árvores e os homens,
E dorme, em alto ramo, a cotovia…
E, se ergue já seu canto, é porque sonha
julga ver, sonhando, a luz do dia!

E, pelos negros píncaros, a estrela
É divino sorriso alumiante.
Oh, que esplendor! Que formosura aquela!
É lírio de oiro aberto! É rosa a arder!

Aí vem a estrela! Aí vem, sobre a montanha,
Tão virginal, tão nova, que parece
Sair das mãos de Deus, a vez primeira!

E como, sobre os montes, resplandece!

Persegue-a o sol amado... No oriente,
Alastra um nimbo anímico de luz.
E a antiga dor das trevas, suavemente,
Ondula, em transparência e palidez.

Aí vem a estrela, alumiando a serra!
E os olhos encantados dos pastores
Voltam-se para a estrela... E cá na terra
Há mágoas e penumbras, a fugir...

Como ela voa, cintilando e rindo
Aos penhascos agrestes e desnudos!

E os pastores, atentos, vão seguindo
A direcção etérea do seu voo...

E a quimérica estrela deslumbrante
Parou sobre a capela, onde a Saudade
Agasalhava o Deus recém-nascido,
Com seu manto de amor e claridade.
E, amparando-o nos braços, lhe estendia
Os seios maternais. A criancinha
Mamava. E a Saudade lhe sorria,
Num enlevo, num êxtase sagrado.

A primavera, errante no Marão,
Veio cobrir de lírios e de rosas
O berço do Menino. E veio o outono,
E vieram ermas sombras dolorosas.
Logo, o outono rezou a sua prece

De cinzas e de bruma. E o lindo sol,
Entrando pelos vidros, aparece,
Junto ao pequeno berço. E toda a luz
Do céu veio com ele! E veio a noite.
Vieram as avezinhas, que deixaram,
No recôndito ninho, abandonados,
Os filhos ainda implumes. E cantaram
Em louvor do Menino e da Saudade.

E Marânus sentia, mais alegre,
Tornar-se vida, amor, fecundidade,
A sua antiga e mística tristeza.

E, ao ver a própria alma da sua raça
Criar a Virgem Mãe dum novo Deus,
Eis que à flor dos seus lábios esvoaça
O sorriso supremo da vitória.

E a Saudade, num casto e luminoso
Gesto de amor, tomando, novamente,
O Menino nos braços, o embalava.
E sobre ele inclinava docemente
A fronte aureolada. E uma canção,
Que era feita de todas as cantigas,
Mais num murmúrio brando de oração

Que em voz alta, cantava. E o Deus menino,
Com os olhos abertos, num espanto,
Recebia do mundo a clara imagem
E o seu nubloso e misterioso encanto...

Também o bom pastor, a quem Marânus
Havia prometido o Nascimento,
Sentia em seu espírito surgir,
Envolto num astral deslumbramento,
Estranho e novo ser, que dissipava
O seu velho crepúsculo interior,
Onde um fantasma, trágico e nocturno,
Aparição do medo e do terror,
Furibundo, reinava, desde os séculos!

O Menino crescia, como a aurora
Que, sendo esparso vulto de mulher,
Na linha do horizonte, que descora,
Lembra a auréola dum Deus anunciado…

Em volta dele, as coisas se animavam
Dum sentido mais belo e verdadeiro;
E a sua alma oculta desvendavam,
Como na luz primeira da Existência.

Mundo transfigurado! Ó terra santa!
Ó terra já divina e toda erguida
Àquela altura ideal da Eternidade,
Mais uma vez, a morte foi vencida!

Alguns dias passaram. E Marânus
Disse que ia partir à sua Esposa,
E que se entregava ao casto amor, tão puro,
Desta leal paisagem montanhosa.
E, chorando, abraçava-a, e repetia
Que tinha de partir; mas, dentro em pouco,
Por uma clara noite, voltaria.

E a trágica Saudade, sufocada:

«Eu bem conheço a voz que te chamou!
Voz que ilumina as árvores e as nuvens,
E que meu ser antigo transformou
Neste meu ser anímico e perfeito.»

E, mais serena e resignada: «Vai!
Cumpre a sua vontade. É teu destino...»

E beijando-o nos lábios, e tomando
Em seus braços de imagem o Menino,
Subiu a um alto píncaro escarpado,
De onde ela, por mais tempo, contemplasse
O esposo e companheiro bem amado.

E, sozinha, de pé, sobre um rochedo,
Disse-lhe um longo adeus.
E, já distante,
Marânus, ansioso, para trás
Volvia a face triste, a cada instante.
E parava, cismando…
Mas, ao longe,

O corpo da Saudade, vago e incerto,
Perdia-se, no ar que se turbava...

Anoitecia. A serra era um deserto.
E Marânus seguia o seu caminho.

 

Teixeira de Pascoaes,  'Antologia Poética'

20170709_060811

(Imagem de Eduardo Santos Leite)

 


publicado por andanhos às 16:19
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017

Versajando com imagem - Marânus e a Pastora (Teixeira de Pascoaes)

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

Marânus e a Pastora

 

Já na serra fronteira, a deusa Aurora
erguia o facho aceso; e já, nas fontes,
os seus cabelos de oiro derramava,
e nas encostas íngremes dos montes,
quando a brisa, pousando etérea mão
no rosto de Marânus, o acordou.
E, animado de nova comoção.
Olhava as formas belas da Natura.

Que infinita alegria misteriosa
parecia baixar, na luz do sol,
e inundar a paisagem radiosa,
cravejada de lumes e de cores!

E Marânus sorria, num desejo
alado de voar! E, no seu corpo,
um vago, esparso, indefinido beijo
acendia-lhe o sangue alvoroçado.
Cantava, como as aves matutinas,
unicamente por sentir a vida,
por se sentir viver!


Teixeira de Pascoaes, Marânus

20170709_061052

(Imagem de Eduardo Santos Leite)

 


publicado por andanhos às 17:23
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

Versejando com imagem - Do autor de Maranus à evocação de Santa Maria de Oliveira

 

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

 

DO AUTOR DE MARANUS À EVOCAÇÃO DE SANTA MARIA DE OLIVEIRA

 


Espectros nebulosos
Remotos ascendentes
Emergem na penumbra que flutua
Toda embebida em lua


E rodeiam-me, tristes, misteriosos.
Neles me perco e me difundo...
Longe da minha idade...
E tudo, para mim, é trágica saudade.


Teixeira de Pascoaes
(Poema dedicado a Guerra Junqueiro)

2017.- Régua (Julho) (91)


publicado por andanhos às 00:53
link do post | comentar | favorito
|
Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

Ao Acaso... Padre Manuel da Nóbrega

 

 

AO ACASO...

 

2016 - Sanfins do Douro - Padre António da Nóbrega 00

PADRE MANUEL DA NÓBREGA

 

O MISSIONÁRIO E UM DOS CONSTRUTORES DO BRASIL


Nas nossas frequentes deambulações pelo Douro que nos viu nascer, ao acaso, num dia parámos em Sanfins do Douro.

Eram horas de almoço.

 

E escolhemos o restaurante integrado no edifício dos Bombeiros Voluntários da localidade.

 

Mas não é sobre bombeiros, os quais, por má sorte ou dita, andam tanto nas bocas de todo o mundo; nem tão pouco sobre as belezas desta linda terra e das suas gentes, que hoje vamos falar.

 

Vamos falar simplesmente de uma pessoa que, diz-se, ser natural daqui - já lá vão muitos anos! -, e da sua importância para a construção do Brasil e na luta pelos Direitos Humanos, em especial a dos povos índios.

2016 - Sanfins do Douro - Padre António da Nóbrega 01

 
Deixemos os episódios sobre o seu sonho quanto a ser lente, mas preterido por outros, ou por influências mais poderosas, ou pela sua gaguez, que não ficava bem num catedrático, particularmente da recém-criada Universidade de Coimbra.

 

Tudo isto podemos confrontar no sítio da internet - Manuel da Nóbrega.

2016 - Sanfins do Douro - Padre António da Nóbrega 03
Debrucemo-nos apenas no gago, tornado exímio pregador; no jesuíta construtor de cidades brasileiras, em especial a de S. Paulo, uma das maiores do mundo e a maior da América Latina, que levou o nome do colégio que criou, no dia de São Paulo, deixando para trás o nome do rio que lhe estava próximo - Piratininga.

 

E falemos, essencialmente, num dos primeiros lutadores pelos Direitos Humanos, como dissemos, em especial dos direitos dos povos índios.

 

Vale a pena, desta feita, em tempo de férias, em período de descanso, e sem o frenesim do dia-a-dia que é hoje as nossas vidas, pararmos um pouco e, através do visionamento destes dois vídeos - duas perspetivas não de todo diferentes - a de um português e de dois brasileiros, vermos e informarmo-nos sobre a ação deste jesuíta, em plena época da Contra-Reforma, a forma como lutou por um Mundo melhor e mais livre.

 

A Alma e a Gente - Quem foi o Padre Manuel da Nóbrega

 

Padre Manuel da Nóbrega - História

 

Padre Manuel da Nóbrega, cujo berço é apenas reivindicado pelas gentes de Sanfins do Douro, concelho de Alijó, nasceu a 16 de outubro de 1517 e faleceu, no Rio de Janeiro, a 18 de outubro de 1570.

2016 - Sanfins do Douro - Padre António da Nóbrega 02
E não nos podemos despedir nesta crónica despretensiosa sem que abordemos aos nossos leitores todo o papel e toda ação que os Jesuítas tiveram pelas terras de Vera Cruz e na América do Sul.

 

Por isso, recomendamos vivamente, mesmo para aqueles que já viram o filme, reverem «A Missão», tão bem acompanhado pela banda sonora de Enio Morricone.

 

E lembrar a especial vocação dos «parrilheiros» ou «machos», tal como são apelidadas as gentes de Sanfins do Douro, tal como diz o falecido José Hermano Saraiva na peça que acima exibimos, na especial propensão destas gentes para dar alcunha às pessoas.

 

Para terminar, uma especial homenagem a um homem nato nesta terra que, sendo embora nosso professor de inglês, foi o melhor professor de História que tivemos!

 

Em boa hora os seus muitos alunos o alcunharam de «O Teacher».


nona


publicado por andanhos às 23:51
link do post | comentar | favorito
|
Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

GRANDE GUERRA (1914-1918) - ENQUADRAMENTO INTERNACIONAL - SESSÃO PÚBLICA DE LANÇAMENTO DA OBBRA

 

GRANDE GUERRA (1914-1918)

ENQUADRAMENTO INTERNACIONAL

 

- SESSÃO PUBLICA DE APRESENTAÇÃO DA OBRA -

 

PALAVRAS FINAIS DO AUTOR

IMG-20170523-WA0000

 

Em primeiro lugar, um muito obrigado pela vossa presença, que muito me honra.


É, por todos sabido, que a minha área de interesse, quanto à investigação, não é a História, muito menos a História Militar, embora seja um curioso da mesma.


Razão pela qual, quando, nos inícios de 2014, me foi feito um repto, pela Presidente do Grupo Cultural Aquae Flaviae, Dra. Isabel Viçoso, para elaborar umas escassas 50 ou 100 páginas sobre os Heróis de Chaves na Grande Guerra, tudo fiz para me esquivar a tal “empresa”.


Mas a insistência da Dra. Isabel Viçoso foi tal que, sendo membro do Grupo Cultural Aquae Flaviae, senti, então, por imperativo ético, ser meu dever contribuir, de uma forma mais efetiva, para a atividade do Grupo.


Durante alguns meses, outra coisa não fiz que, partindo de uma lista de obras que a Dra. Isabel Viçoso me facultou, ler o mais que pude sobre a Grande Guerra.


Literatura sobre os militares de Chaves e do Alto Tâmega e Barroso é que era manifestamente escassa.


Da leitura daquela lista de obras, surgiu a necessidade de alargar mais a perspetiva.


Não sendo, repito, especialista em História e, muito menos, em História Militar, contudo, cedo me foi apercebendo que a Grande Guerra teria de ser tratada à luz de um novo paradigma, que não o tradicional, e no qual outras áreas do saber estivessem presentes.


Isto, por um lado; por outro, entendi, à luz desse novo paradigma, não falar dos Heróis de Chaves, outrossim, dos nossos bravos militares que, do Alto Tâmega e Barroso e do RI 19, partiram para os diferentes campos de batalha da Grande Guerra, em especial na Europa, Flandres.

 

***

 

Para a realização deste intento, era necessário a participação de outros intervenientes para que esta “empresa”, que me foi “encomendada”, cumprisse, com sucesso, o seu objetivo.


Foi, neste sentido, que, em boa hora, acompanhado do meu amigo Fernando DC Ribeiro, recorri ao Comandante do RI 19.


Do Comando do RI 19 tive toda a disponibilidade para me ajudar, trabalhar comigo e abrir-me as portas necessárias no Arquivo Histórico Militar, em Lisboa, a fim de obter todas as Fichas do Corpo Expedicionário Português (CEP), dos militares do Alto Tâmega e Barroso, que partiram com e para as diferentes unidades militares para a França, Flandres.


Se a Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae reflete a minha perspetiva (e dos diferentes autores a que recorri) sobre o Portugal da I República e toda a problemática da nossa beligerância, quer no Sul de Angola, quer no Norte de Moçambique, quer ainda, e principalmente, na Flandres, já os 7 Cadernos Anexos àquela Revista nº 50 é totalmente obra do Comando do RI 19, que obteve autorização para a publicação das Fichas Individuais do CEP de todos os militares do Alto Tâmega e Barroso e dos dois sargentos-ajudantes do RI 19 que, sob coordenação, as trataram. O arranjo final dos 7 Cadernos Anexos têm apenas uma modesta contribuição minha, pois todo ele é da responsabilidade da Presidente da Direção do Grupo Cultural Aquae Flaviae, Dra. Isabel Viçoso.

 

***

 

Chegado aqui, há uma pergunta que fica no ar: por que surge esta publicação que, agora, fazemos a sua apresentação pública?


Na elaboração do guia inicial do texto que se me pedia, considerei não fazer sentido abordar a Grande Guerra apenas à luz da nossa História e da nossa saga nos diferentes campos em que os militares portugueses tiveram de intervir.


Havia, pois, que, necessariamente, fazer o seu adequado Enquadramento Internacional.


Só que, das 50 ou 100 páginas pedidas, a obra estendeu-se e atingiu a soma de, aproximadamente 1 000 páginas, não compaginável para uma Revista com as características do Grupo Cultural Aquae Flaviae.


Teve, desta forma, de ficar de fora o Enquadramento Internacional, com cerca de 300 páginas.


Todavia, a leitura da Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, na minha modesta opinião, só tem sentido e se completa com este presente volume.


Em boa hora, a Gráfica Sinal - cedendo-lhe os direitos de autor -, tomou a seu cargo a tarefa de editar o presente volume, que hoje vos apresentamos.


Fica, aqui, pois, uma palavra de agradecimento e gratidão para com os senhores Manuel Ferreira e Nelso Sousa, sócios-gerentes da Gráfica Sinal, pelo arrojo em assumirem a tarefa de editarem esta modesta obra.

 

***

 

Tudo na vida é carregado de símbolos.


Se, aquando do texto para a Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, fiz questão de o depositar nas mãos da senhora Presidente do Grupo Cultural Aquae Flaviae precisamente no dia 31 de janeiro de 2015 - 100 anos depois do 3º Batalhão do RI 19 ter partido de Chaves para o sul de Angola, era minha intenção que esta obra fosse lançada também precisamente no dia em que a Alemanha declarou guerra a Portugal, por via do aprisionamento português dos barcos alemães e austríacos aportados nos portos portugueses, ou seja, 9 de março de 1916, 100 anos passados.


Todavia, tal apresentação não foi possível por, nessa altura, me encontrar hospitalizado.


Teve de a apresentação ser adiada e de se encontrar outra data.


E nada melhor do que o dia de hoje, em que há 100 anos, a partir da meia-noite, o nosso 1º Batalhão do RI 19 marcha, a pé, do quartel de Chaves, até à estação de caminho-de-ferro de Vidago, em direção a Lisboa e, depois, de navio para Calais e de comboio, outra vez, durante alguns dias, para a zona de operações do CEP, e distribuídos pelas diferentes unidades militares que já se encontravam em combate na Frente, na Flandres.

 

***

 

Da obra em si, já o meu querido amigo e colega, Dr. Alfredo Faustino, teve ocasião de refletir sobre as suas “virtudes”, obviamente exageradas, uma vez que não me reconheço merecedor de tais elogios.


Do seu conteúdo não vos vou falar. Esse fica para vossa leitura e análise crítica.


Uma certeza, contudo, tenho: nada na vida é definitivo; o que fiz é apenas um pequeníssimo contributo para o conhecimento de um fenómeno que tanto marcou não só a Europa daquele tempo - e não só - como moldou todo o Mundo que hoje conhecemos.


Não queria, todavia, acabar esta minha intervenção sem enfatizar o que julgo ser a grande valia e desiderato dos estudos de História - conhecer melhor o passado para preparar melhor o porvir.


E aqui estou com o nosso grande ensaísta Eduardo Lourenço, que hoje faz 94 anos, quando afirma que “perder a memória do passado é para o presente falhar o futuro”.


Como educador, que sempre me assumi, para finalizar, deixo-vos aqui as palavras que, em 2015, escrevia no Prefácio à obra que agora têm em mãos. Reza assim:


Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.


Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.


À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a sua Belle Époque.


Tudo isto simplesmente se passava à superfície.


As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo, e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um fin de siècle em que tudo poderia deixar de ser como dantes.


A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.


Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.


E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!


Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.


Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.


Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos”. Fim de citação.

 

***

 

O Mundo e a Europa em que hoje vivemos foi moldado pela Grande Guerra (I e II Guerras Mundiais).


Cremos que as palavras por nós escritas há dois anos têm pleno cabimento nos tempos por que passamos, exigindo de todos nós, numa sociedade tão outra que criámos, com novos, mas com os mesmos velhos problemas, melhores mecanismos de controlo, muita mais clarividência e lucidez, não só para evitar as calamidades, que por várias áreas do Planeta proliferam, como para vivermos numa sociedade sem hegemonias e na aceitação igual e plena das diversas diferenças. Aceitação do outro, que embora diferente, é e tem os mesmos direitos e a mesma dignidade de todos nós.


Só assim é que o sacrifício e as vidas perdidas dos nossos antanhos, há 100 anos, terão algum sentido e valido a pena.


Reitero, uma vez mais, um muito obrigado a todos pela vossa presença e pelo carinho da vossa companhia nesta hora.

 

Disse.

 

REPORTAGEM DA SINAL TV

 

 


publicado por andanhos às 20:20
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.rádio

ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

.Agosto 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10

13
14
15
17
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Ao Acaso... Com Torga, fa...

. Reino Maravilhoso - Barro...

. Por terras da Ibéria:- Ca...

. Versejando com imagem - L...

. Versejando com imagem - A...

. Versejando com imagem - O...

. Versajando com imagem - M...

. Versejando com imagem - D...

. Ao Acaso... Padre Manuel ...

. GRANDE GUERRA (1914-1918)...

.arquivos

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Julho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Agosto 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

.tags

. todas as tags

.A espreitar

online

.links

.StatCounter


View My Stats
blog-logo