Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Palavras Soltas ... No Dia Mundial da Fotografia

 

 

PALAVRAS SOLTAS...

 

NO DIA MUNDIAL DA FOTOGRAFIA

00.- Nevada 1970 - Senhora da Saúde.jpg

 (A nossa primeira foto: Nevada de 1970, Senhora da Saúde, S. Pedro de Agostém/Chaves)


Citemos, neste Dia Mundial da Fotografia, pequenos excertos de três autores, de áreas bem diferenciadas, que nos falam sobre a fotografia, a modos de «palavras soltas...»:

 

“Diz-se muitas vezes que foram os pintores que inventaram a Fotografia (transmitindo-lhe o enquadramento, a perspetiva albertiana e a ótica da camara escura. E eu digo: não, foram os químicos. Porque o noema «Isto foi» só foi possível a partir do dia em que uma circunstância científica (a descoberta da sensibilidade à luz dos sais de prata) permitiu captar e imprimir diretamente os raios luminosos emitidos por um objeto diferentemente iluminado. A foto é literalmente uma emanação do referente. De um corpo real que estava lá, partiram radiações que vêm tocar-me, a mim, que estou aqui. Pouco importa a duração da transmissão; a foto do ser desaparecido vem tocar-me como os raios emitidos por uma estrela. uma espécie de ligação umbilical liga o corpo da coisa fotografada ao meu olhar; a luz, embora impalpável, é aqui um meio carnal, uma pele que eu partilho com aquele ou aquela que foi fotografado” (Roland Barthes, 2006: A Câmara Clara. Notas sobre a fotografia, Edições 70, pág.s 90 e 91).

 

“No fundo - ou em última instância -, para se ver bem uma foto, o melhor é erguer a cabeça ou fechar os olhos. «A condição prévia da imagem é a vista», dizia Janouch a Kafka. E Kafka sorria e respondia: «As pessoas fotografam coisas para as afastar do espírito. As minhas histórias são um modo de fechar os olhos». A fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, dessas não gosto): não se trata de uma questão de «descrição», mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida num estado, um esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer falar a imagem no silêncio). A foto toca-me quando a retiro do seu «bla-bla» vulgar: «Técnica», «Realidade», «Reportagem», «Arte», etc.: nada dizer, fechar os olhos, deixar que o pormenor suba sozinho à consciência afetiva” (Roland Barthes, idem, pág. 64).

 

“O pintor constrói, o fotógrafo revela” (Susan Sontag, 2012, Ensaios sobre fotografia, Quetzal Editores, pág. 94).

 

“Sejam quais forem os argumentos morais a favor da fotografia, o seu principal efeito é converter o mundo num grande armazém ou museu sem paredes, em que todos os temas são reduzidos a artigos de consumo, promovidos a objetos de apreciação estética. Através da câmara, as pessoas tornam-se consumidoras ou turistas da realidade - ou Réalités, como sugere o título da revista francesa -, uma vez que a realidade é entendida como plural, fascinante e pronta a ser capturada. Ao aproximar o exótico das pessoas, ao tornar o exótico o que é familiar e doméstico, as fotografias possibilitam um olhar apreciativo sobre o nosso mundo inteiro” (Susan Sontag, idem, pág. 111).

 

“Em fotografia, mostrar qualquer coisa é mostrar o que está oculto” [...] Tal como os fotógrafos o descrevem, o ato de fotografar é tanto uma técnica ilimitada de apropriação do mundo objetivo como uma expressão inevitavelmente solipsista do eu singular” Susan Sontag, idem, pág. 121).

 

“A fotografia entrou em cena como uma atividade arrogante, que parecia usurpar e diminuir uma arte com créditos firmados: a pintura. Para Baudelaire, a fotografia era o «inimigo mortal» da pintura; mas, com o tempo, negociaram-se tréguas e a fotografia foi considerada como a libertadora da pintura [...] Na verdade, a ideia mais persistente nas histórias e na crítica da fotografia é este pacto mítico entre pintura e fotografia, que lhes permite prosseguirem as suas tarefas separadas mas igualmente válidas, enquanto se influenciam de forma criativa” (Susan Sontag, ibidem, pág.s 143 e 144).

 

Embora a fotografia tenha «nascido» há 177 anos, foi, contudo, durante o século XX, que atingiu o seu apogeu, a sua plena maturidade.

 

Por isso, vale a pena dar uma breve passagem, dando uma vista de olhos, fazendo uma breve leitura sobre a obra Fotografia do século XX Museum Ludwig de Colónia, publicada em 2001 pela Tascher.

 

Na Introdução a esta obra, Reinhold Miβelbeck, reiterando as palavras acima citadas de Susan Sontag, a determinada altura, escreve: “A invenção da fotografia, como dizem as pessoas vulgarmente, libertou a pintura da necessidade de reproduzir a realidade. Ao fazê-lo, herdou géneros como o retrato e a pintura histórica e contribuiu para o desenvolvimento do Modernismo. O facto deste processo ter tido lugar, pela primeira vez alguns 70 anos após a invenção da fotografia, depois da pintura ter ultrapassado as tendências naturalistas e realistas, passando pelo Impressionismo, não contradiz de modo algum esta opinião. Demonstra, aliás, que teve lugar a um diálogo moroso e que foram precisamente as experiências que a pintura adquiriu com o Naturalismo e o Impressionismo que tornaram evidentes que a fotografia estava mais bem equipada para representar a realidade com exatidão e para captar disposições e momentos e, a certa altura dos desenvolvimentos, tornou-se claro para todos que o sdois meios tinham agendas bastantes diferentes”.

 

No final da sua Introdução, Reinhold Miβelbeck conclui: “A relação íntima entre imagem e realidade, tão própria da fotografia, encorajou acima de tudo os artistas a utilizarem-na para as suas visões imaginárias. Ao mesmo tempo, os artistas não estavam apenas interessados em estabelecer os limites da capacidade da fotografia em conseguir dar uma reprodução fiel da realidade, mas também em explorar o meio e os limites em si. Em todas estas correntes, a fotografia é usada de um modo concetual. Não só cumpre o que é tecnicamente capaz de fazer - espelhar a realidade -, mas simultaneamente reflete o que está a fazer.


A fotografia está de momento a viver uma grande transformação. Está a mudar de um meio que tradicionalmente trilhava o seu próprio caminho, longe da história da arte, para um ramo das belas -artes. E é de notar que os jovens artistas já têm medo de se aproximar das fontes históricas da fotografia e destruí-las pela sua arte”.

 

Neste Dia Mundial da Fotografia vamos destacar, de entre muitas outras «celebridades», três fotógrafos, do século passado, em que as suas obras se debruçam sobre a realidade da sociedade em que viveram.

 

O primeiro - Jean Dieuzaide. A sua carreira começou no dia 19 de agosto de 1944 quando tirou fotografias da libertação de Toulouse, a sua terra natal, tornando-se um fotojornalista de renome.

 

Deixamos aqui uma foto, da sua autoria, do célebre, e grande, surrealista Dalí, Dalí na água, Cadaquès, tirada em 1953, durante uma viagem a Espanha.

01.- ali.jpg

 (Impressão a gelatina e brometo de prata, 31x24,5 cm, ML/F 1984/31 - Doação Gruber)

 

Por se tratar de uma foto tirada por Jean Dieuzaide em Portugal a uma bonita mulher portuguesa, em 1954, na Nazaré, deixamos aqui, deste autor, o registo da «sua» Tiulinda.

02.- Tiulinda, Nazaré, 1954 - (BM Lyon) .jpg

 A nossa segunda «celebridade» é a americana Dorothea Lange. A sua obra constitui uma das mais importantes contribuições para «documentários sociais de fotografia de maior compromisso no século XX».

 

Chocada com o número de desalojados à procura de emprego durante a Grande Depressão, Dorothea Lange decidiu tirar fotografias de pessoas na rua para chamar a atenção para as situações que retratava.

 

A foto que abaixo reproduzimos, com o título Mãe Migrante, Califórnia, 1936, é uma das suas mais famosas.

03.- giov123.png

(Impressão a gelatina e brometo de prata, 32x26,1 cm, ML/F 1977/442 - Coleção Gruber)

 

É o retrato de uma trabalhadora que migrou da Califórnia com os seus três filhos. Segundo Reinhold Miβelbeck, “esta imagem extremamente concentrada e rigorosamente composta fez de Dorothea Lange um ícone da fotografia socialmente comprometida”.

 

O terceiro trata-se de A. Kertész. Reproduzimos duas fotos, cada uma com o seu comentário, retirado da obra citada acima de Roland Barthes, A Câmara Clara.

04.- Piet-Mondrian-by-Andre-Kertesz-176_001.jpeg.j

(Piet Mondrian no seu atelier, Paris, 1926)


Como é possível ter-se um ar inteligente sem se pensar em nada de inteligente?

05.- 291b5db87bfd52c440610a1fe707309e.jpg

(O cãozinho, Paris, 1928)


Ele não olha nada; retém dentro de si o seu amor e o seu medo: é isso olhar”.

 

Diz-se frequentemente que uma imagem vale mais que mil palavras.

 

E que dizer destas duas imagens, que aqui vos deixamos, ao espelharem e refletirem o drama atual dos refugiados sírios, numa guerra sangrenta e desumana, da qual todos nós, cidadãos do mundo, somos cúmplices, e cujas maiores vítimas são as crianças representadas nestas fotos?

06.- menino sírio afogado.jpg

(O menino sírio afogado - Fonte:- https://noticias.terra.com.br/mundo/asia/a-historia-por-tras-da-foto-do-menino-sirio-que-chocou-o-mundo,a491948f737fabaedc2b65294952c1d8zbulRCRD.html)

07.- A foto do menino de Aleppo que retrata a trag

(O menino de Aleppo e a tragédia na Síria - Fonte: http://observador.pt/2016/08/18/a-foto-do-menino-de-aleppo-que-retrata-a-tragedia-na-siria/-)


Nona


publicado por andanhos às 16:00
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Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

Versejando com imagem - Antes da noite inteira (I)

 

VERSEJANDO COM IMAGEM

Antes da noite inteira (I)

 


Esperei tão longamente que cansei do cansaço
Enquanto as Primaveras se exauriam
E os Invernos escorriam nos cabelos
Enrugando demais o coração.


Esperei ao frio, ao vento, ao desalento
Mas nenhuma magnólia floresceu
Ou espinho acerbo veio ferir-me a mão.

 

 

Maria da Purificação - «Antes da noite inteira»

 

CoroadeEspinhos.jpg


publicado por andanhos às 13:57
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Memórias de um andarilho :- Linha do Corgo - Ermida/Povoação-Peso da Régua

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO


CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS


LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO CORGO


Ermida/Povoação - Pedo da Régua

- 21.novembro.2010 -

00.- 19471306_7D6I2

Com este post, damos por finalizada a nossa reportagem sobre a nossa caminhada pela antiga Linha de Caminho-de-ferro do Corgo.

 

No post anterior e neste, a nossa caminhada decorre(u) em pleno coração do Douro Vinhateiro, Património da Humanidade.

 

A altura em que ocorreu a nossa caminhada, em pleno outono, é a que mais gostamos, porquanto o Douro apresenta-se nas suas multifacetadas cores.

01.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 069

(Paisagem I)

02.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 077

(Paisagem II)

O dia, embora com algumas nuvens, apresentava-se com um lindo céu azul.

 

Do fundo do estreito vale do Corgo, a presença sempre constante, na linha do nosso horizonte, da A24 e as suas obras de arte para ultrapassar os diferentes desníveis que a orografia do Douro Vinhateiro apresenta.

2a.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 081

(Paisagem III)

2b.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 118

(Pormenor I da paisagem III)

2c.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 111

(Pormenor II da paisagem III)

Dos antigos «mortórios» começam a renascer novas vinhas, sob a proteção de capelas e igrejas, a meio ou no cimo das encostas, na esperança da transformação de uma terra mais próspera para os que nela habitam.2d.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 084

Por mais voltas que demos, o rio Corgo e o seu vinhedo não nos largam, apresentando-nos aos olhos os antigos socalcos, numa amostra do esforço hercúleo do homem duriense para erguer estes jardins suspensos.03.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 094

(Paisagem IV)

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(Paisagem V)

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(Paisagem VI)

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(Paisagem VII)

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(Paisagem VIII)

Aqui e ali a linha estreita-se, dando-nos a conhecer uma das matérias-primas de que são feitos os vinhedos e o segredo que o xisto guarda para proteger a videira e poder produzir o precioso néctar que é o Vinho Fino do Douro.

08.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 096

Até que chegámos a Alvações do Corgo, a 7, 188 Km do fim da linha (ou princípio, para quem parte do Peso da Régua).

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E, quer nos viremos para a esquerda ou para a direita ou mesmo em frente, o espetáculo é sempre o mesmo: o rio Corgo sustentando os seus vinhedos, em ambas as suas margens, com o casario quase no cimo dos seus cocurutos.

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Até que, numa ligeira curva, a gigantesca obra de arte da A24, destinada a ultrapassar o rio Douro nas imediações do Peso da Régua, com toda a sua imponência e grandiosidade!

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Atravessada a ponte sobre o rio Tanha, sob o olhar atento do nosso vigilante Augusto - qual miniatura postada sobre um muro - no términus da ponte,

12.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 144

chegámos ao apeadeiro do Tanha.

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Faltavam-nos ainda percorrer 3, 5 Km para chegarmos à estação do Peso da Régua.

 

Do nosso lado direito, a ponte sobre o rio Corgo na Estrada Nacional 313.

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Olhando um pouco mais em frente e um pouco mais para o alto, eis as autênticas cores do vinhedo no outono, na Quinta do Judeu, e a imponente estrutura que ali, parecendo uma enorme curva, sustenta a A24!15.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 172

Uns metros mais à frente, o rio Corgo, em deslize remansoso, passando sobre a penúltima ponte ferroviária desta linha (para quem vem no sentido de Chaves), tendo, como pano de fundo, o último lanço da ponte da A24, em direção a Lamego, e os armazéns da Casa do Douro (Casa Amarela).

16.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 173

 E, sem nos darmos conta, chegámos ao apeadeiro do Corgo.

17.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 185

 Pouco mais de um quilómetro nos separava da nossa «meta».

 

Antes de entramos na penúltima ponte da linha do Corgo - e sobre este rio -,

18.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 196.jpg

 uma olhadela para trás, como dizendo adeus ao amigo que em tantos quilómetros nos acompanhou, ora dando-nos momentos alegres, ora fazendo-nos passar por momentos bem difíceis,

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 e outra olhada para a frente, para o lugar onde este precioso caudal se lança nas águas da veia cava transmontana - o rio Douro - na sua foz.

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 Ultrapassado o último pontão da linha, nas proximidades da Quinta da Vacaria,

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 eis o espetáculo que nossos olhos observam: a bonita obra de engenharia da A24 nas imediações do Peso da Régua, debaixo da qual podemos espreitar, vendo, de socalco em socalco, o monte de São Domingos!

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 Estamos a escassas dezenas de metros da Estação da Régua.

 

Por entre um laranjal, a vista das duas pontes da Régua da nossa infância: a da esquerda, rodoviária, que foi projetada para ser ferroviária, numa linha que, da Régua a Lamego, nunca foi acabada e, consequentemente, utilizada, sendo a linha mais cara do país em termos de custo/benefício; a da direita, projetada para ser rodoviária, por ela, cremos, nunca passou uma viatura automóvel.

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 Quando, a 21 de novembro de 2010, por aqui passámos, apresentava este aspeto:

24.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 222.jpg

 Hoje está recuperada como ponte peatonal, de recreio.

 

Cumprido o nosso objetivo, e aproximando-se a hora do almoço, o nosso vigilante e supervisor Augusto levou-nos até à localidade de Ermida/Povoação na sua viatura. Rui e Tó Quim tomaram rumo a norte (Chaves), levando o atrelado tenda no jeep; nós regressámos a sul, levando a nossa viatura até à Estação da Régua, onde a Ana e o amigo Neca nos esperavam para irmos almoçar à Quinta de Santa Isabel, Loureiro.

 

E como é reconfortante passar uns dias no «nosso» Douro. Não apenas «matamos saudades», mas também recarregamos «baterias» para melhor suportarmos e aguentarmos o dia-a-dia, muitos deles tão fatigantes e, por vezes, penosos!

 

E... até breve.

 

A Linha do Sabor espera-nos.


publicado por andanhos às 12:12
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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2016

Por terras da Ibéria:- Caminho de São Salvador - La Robla-Buiza

 

 

DE LA PULCHRA LEONINA A LA SANCTA OVETENSIS

 

CAMINHO DE SÃO SALVADOR

01.- P4301808

3ª etapa:- La Robla-Buiza
(30.abril.2016)


De La Robla a Buiza são 14 quilómetros e 580 metros, aproximadamente. Gastámos 3 horas e 48 minutos. Andámos nas calmas.

 

Dormimos no albergue de La Robla acompanhados de duas irmãs espanholas e, chegando mais à tardinha, um peregrino alemão, de Bremen, de seu nome - Martin.

 

As duas irmãs espanholas levantaram-se muito cedo e abalaram. E nunca mais lhes vimos o rasto pelo Caminho.

 

Quer nós, quer o Florens, levantámo-nos nas calmas e, feita a higiene matinal e vestidos, dirigimo-nos ao centro de La Robla, onde, num café/ croissanteria junto à Praça da Constituição, tomámos o pequeno-almoço.

 

Regressados ao albergue, quase no final de La Robla, e mochila às costas, iniciámos a nossa etapa de hoje.

 

Não vamos referir em pormenor o percurso. Nos Guias de que já falámos em post anterior à reportagem deste Caminho, e principalmente no Eroski Consumer, vem tudo bem descrito, evitando-se, desta feita, repetições.

 

Contudo, destacamos alguns pontos que, ao longo desta nossa jornada, mais nos despertaram a atenção.

 

Assim, logo à saída de La Robla, este aqueduto.

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Conforme se pode ver, o mesmo tem colocado uma placa que reza assim, traduzindo livremente do espanhol (castelhano): “Este aqueduto, único no seu género, na província de Leão, estava a ser construído em 16 de abril de 1795, quando Gaspar Melcher de Jovellanos, de passagem por estas terras, ficou impressionado pela magnitude da obra, deixando testemunho no seu diário.
Texto: Juan José Sánchez Badiola. Aqueduto restaurado pela junta Vecinal de La Robla, ano 2002, sendo Presidente José Luis García Fernández”.

 

Passado o aqueduto, sob o qual correm as águas do rio Bernesga,

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aparecer-nos imediatamente a ponte de Ponte de Alba.

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Ponte de Alba foi muito importante noutros tempos e, alguns autores, referem a sua mais que provável relação medieval com o Castelo de Alba, onde, quem passasse poe ela, pagava portagem.

 

Hoje Ponte de Alba não passa simplesmente de um pequeno bairro de La Robla.

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Saídos de Ponte de Alba, começa-nos a aparecer, ao longe, as montanhas da Cordilheira Cantábrica e, junto de nós, a linha de caminho-de-ferro por onde, e nas suas margens, acompanhámos durante uns largos metros.

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Logo a seguir a Ponte de Alba, o primeiro povo que atravessámos foi Peredilla de Gordón

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com o casario típico leonês.

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Ultrapassado um pequeno túnel (viaduto) da linha de caminho-de-ferro,

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voltámos, mais uma vez, a acompanhar a via férrea.

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Até que chegámos à ermida/capela de Nossa Senhora do Bom Sucesso.

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Neste santuário, que se encontrava fechado, podemos observar a sua fachada principal, protegida por uma galilé.

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Do outro lado da linha, esperava-nos um café/bar com algumas variedades de tortilhas. Provámos duas delas. Qual delas a melhor!

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Comemos.

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Ficámos deliciados. E mais aptos ainda para nos lançarmos no novo troço de Caminho que nos esperava,

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andando sempre por perto do rio Bernesga e do seu vale.

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Passámos ao lado da aldeia de Nocedo de Gordón,

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com a sua vetusta igreja e o seu caraterístico casario,

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atravessando este vale

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e passando por baixo desta enorme ponte que atravessa o vale servido pelo Bernesga, antes de subirmos até Póla de Gordón,

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acompanhados, uma vez mais, pela linha de caminho-de-ferro,

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não nos passando desapercebido este pequeno pontão que a serve

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e passando, depois, pela Subestação da Rede Elétrica de Espanha

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de Pola de Gordón.

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(Um pormenor da Subestação)


Voltando, uma vez mais, à linha férrea,

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eis, à nossa frente, o casario de Pola de Gordón.

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Atravessada a linha por um túnel subterrâneo,

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entrámos em Pola de Gordón acompanhados pelo omnipresente rio Bernesga.

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Pola de Gordón é quase uma pequena cidade, moldada por três grandes eixos que marcaram o seu mais recente crescimento: o rio Bernesga; o traçado do caminho-de-ferro e a estrada das Astúrias.


Pola de Gordón é a capital do Alto Bernesga - a Reserva da Biosfera Alto Bernesga, declarada a 25 de junho de 2005.


Para além do seu valioso património natural, do seu património cultural e paisagístico, destacando-se o Caminho da Prata, o do Salvador, a transumância e as suas minas, Pola de Gordón foi palco destacado da Guerra Civil Espanhola: as «Trincheiras de Gordón», como património bélico, aqui estão para atestá-lo.


Uma vez chegados a Pola de Gordón fomos à procura de um bar/restaurante para almoçarmos.


Pela sua rua principal desfilou perante os nossos olhos o seu típico casario

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e os seus edifícios públicos,

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como a Câmara Municipal (Ayuntamiento),

 

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(Perspetiva de esquina)

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(Perspetiva frontal)


a pequena Praça del Cano

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e, adossada ao edifício do Ayuntamiento, esta singela capela.

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Depois de comermos, e após um pequeno descanso, fomos a um supermercado comprar mantimentos para o jantar e para o pequeno-almoço do dia seguinte (pois no povo onde iríamos pernoitar não há qualquer «tienda»). E botámos pés ao Caminho, atravessando, outra vez, a sua rua principal, até que, quase no final da mesma, nos aparece a Igreja Matriz de Pola de Gordón,

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bem assim, já mesmo à saída, este belo edifício de 1927.

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Saindo de Pola de Gordón, começámos, lentamente, a entrar na montanha,

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passando pelo casario de Beberino

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e pela sua rua principal.

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Fica-nos aqui a imagem de uma aldeia nitidamente encostada ao sopé (base) da montanha.

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A partir de Beberino, então, sim, ficámos com a sensação que, andando, começávamos a ser engolidos pela montanha, entrando no ventre da Cordilheira Cantábrica, na sua Montanha Central, com o rio Bernesga, nosso fiel companheiro durante 30 quilómetros, a nos abandonar, dando lugar ao pequeno rio Casares.

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(Pormenor I)

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(Pormenor II)

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(Pormenor III)

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(Pormenor IV)


Ao longo da estrada, íamo-nos entretendo a observar as diferentes formações rochosas junto às bermas, com os seus singelos,

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e coloridos pormenores.

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Até que, nos aparece, no meio do nada, a ermida de Nossa Senhora do Vale, padroeira de Buiza.

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Aqui aproveitámos para fazer uma pequena pausa para descansar e bebermos água, tendo como companhia este belo e solitário cavalo, que se encontrava nos arredores da ermida a pastar.

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Outra vez com a mochila às costas, percorremos o troço final desta nossa etapa até que, numa curva da estrada, aparece-nos o casario de Buiza.

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O albergue fica logo no início da povoação.

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Trata-se de um edifício que foi Escola Primária e que hoje, à falta de crianças para a frequentar, divide o seu espaço com o albergue e uma dependência dos Serviços de Saúde para atender os «maiores» do povo.

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Parámos à entrada do albergue, enquanto não nos vieram abria a porta. O nosso companheiro Martin, que, vindo atrás de nós, fez o percurso solitário, aqui descansou um bocadinho, conversando com o Florens, e continuou o Caminho.


O albergue esteve só por nossa conta.


Fizemos a nossa higiene. Descansámos um pouco e depois fomos dar uma volta pela aldeia de Buiza.


À saída do albergue, do seu lado esquerdo, a meia encosta, e já fora do perímetro urbano da aldeia, vemos este caraterístico cemitério.

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Penetrámos no povo de Buiza - encruzilhada de caminhos - e cheio de pergaminhos na história do Camiño del Salvador,

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com casas de «filhos d’algo» já em ruínas,

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outras novas e, ainda as mais antigas, com o seu casario típico da zona.

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Chegámos até às proximidades da sua Igreja Matriz

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para melhor nos certificarmos, junto a uma fonte e um tanque,

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qual o percurso/desvio que deveríamos seguir para irmos pela «Forcadas de San Antón», ou seja, para atravessarmos a Montanha Central da Cordilheira Cantábrica, na sua parte mais alta e em que Buiza é a sua antecâmara.


Em Buiza há três alternativas de percurso: ir pelas «Forcadas de San Antón» (não aconselhável no inverno); ir por Rediezmo e, um uma terceira, por Villasimpliz (esta principalmente aconselhável no inverno por causa do nevoeiro e da neve).


No cimo da aldeia, e um pouco ao lado da sua igreja, fomos dar com esta Casa de Turismo Rural,

 

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construída com materiais típicos da região.

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No seu logradouro, este poço com esta singular decoração

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e este carro de bois.

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Da Casa de Turismo Rural esta panorâmica para a fachada lateral da igreja da aldeia e para a montanha, que começa já aqui.

62.- P4302042


Enquanto fizemos o reconhecimento do povo e do casario de Buiza, entrámos num café, o único da localidade. Tomámos um pingo, enquanto víamos a primeira parte do jogo da Liga Espanhola entre o Real Sociedad e o Real Madrid. Numa mesa os «maiores» jogavam cartas, dando uma olhadela, de quando em vez, para a «pantalla» da televisão.


No início da segunda parte do jogo saímos do café e dirigimo-nos para o albergue, não deixando escapar mais uma típica casa do povo de Buiza.

63.- P4302019

 
Chegados ao albergue, aparece-nos, finalmente, o seu albergueiro, de nome «Angel».


Paga a estadia e selada a credencial, tentámos saber como resolver o problema das refeições do dia a seguir em Poladura de la Tercia, povoação onde não existe qualquer bar ou restaurante. Apenas há uma Casa de Turismo Rural que serve comida, marcando ou encomendando com antecedência. Obtivemos o telefone da Casa Rural «El Embrujo» e marcámos duas refeições (almoço e jantar) para o dia seguinte.


Quando telefonámos para o «El Embrujo», a senhora que nos atendeu ficou admirada por amanhã só irmos fazer 9 quilómetros - que é o espaço que separa Buiza de Poladura de la Tercia. Mas é assim: este Caminho, desde o início, estava programado para, como dizem os espanhóis (repetido pelo Florens), fazê-lo «despacio».


Jantámos os dois sozinhos uma saborosa massa. Conversámos um pouco e deitámo-nos. E tudo à nossa volta era um silêncio profundo.


O dia esteve bonito, cheio de sol. E, caídos à cama, dormimos até ao outro dia como dois «anjos»...

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(Parede colorida de uma casa de Buiza)


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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2016

Por terras de Portugal - Braga de André Soares:- A capela dos Monges na Igreja dos Congregados

 

 

POR TERRAS DE PORTUGAL

 

BRAGA DE ANDRÉ SOARES

 

A CAPELA DOS MONGES DA IGREJA DOS CONGREGADOS

 

 


Quem foi André Soares (Braga, 1720-1769)?

 

Na obra de Eduardo Pires de Oliveira, com fotografia de Libório Manuel silva, com o título «Braga de/by André Soares», Eduardo de Oliveira afirma que “foi um criador de obras de arquitetura, talha, ferro, desenho e cartografia. A sua grande capacidade financeira permitiu-lhe não precisar de trabalhar. Como era corrente na época, as suas obras dividem-se por duas correntes artísticas: o rococó e o tardo barroco. O rococó chegou a Braga pela mão do arcebispo D. José de Bragança (1741-1756). André Soares beneficiou do seu apoio ao ser escolhido para desenhar o novo Paço Arquiepiscopal, em que oscilou entre o gosto joanino e os novos valores do rococó. Rapidamente, porém, mudou para o novo estilo, de que são exemplos a nova fachada da Capela de Santa Maria Madalena da Falperra e o Palácio do Raio. [obras de que brevemente falaremos num outro post]. Mas também fez muito rapidamente uma nova inflexão decisiva: as obras de arquitetura passaram a ter um desenho que se revê num tardo barroco desornamentado e as de talha mantiveram-se num rococó vibrante, ideias que manteve até ao final da sua vida. A sua obra está espalhada um pouco por todo o Norte de Portugal: Braga, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Vila Verde, Esposende, Guimarães e Vila Nova de Gaia (esta perdida)."

 

Na verdade, André Soares foi o maior vulto do rococó português. Autodidata, desenvolveu a sua arte a partir de gravuras de Augsburgo. A sua obra é profundamente emotiva. A capela dos Monges, no Convento dos Congregados, em Braga,  pode contar-se entre as mais impressionantes do tardo barroco na Europa. E é precisamente esta obra que vamos mostrar ao(s) nosso(s) leitor(es).

 

Citemos, uma vez mais, Eduardo Pires de Oliveira: “A capela dos Monges, situada no primeiro andar,

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num local acima da capela-mor da Igreja [dos Congregados]

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é, sem dúvida alguma, a obra-prima de André Soares [...] De pequeníssimas dimensões, não albergará mais de uma vintena de pessoas em simultâneo.

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Apesar da sua exiguidade, é formada por todas as partes de qualquer templo:

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nave, transepto e capela-mor,

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embora esta seja na verdade muito diminuta. Em contrapartida, tem na nave um extraordinário lanternim.

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(Aspeto geral)

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(Pormenor)

Apresenta ainda uma característica invulgar no Minho: a estrutura e os motivos decorativos que a ornamentam são em estuque [e não em pedra]”.

 

Quase a terminar, o autor avalia: “[...] é fácil perceber-se que é um trabalho do final da vida, podendo mesmo pensar-se que é o seu testamento artístico”.


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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2016

Memórias de um andarilho - Caminhada na Linha do Corgo - Vila Real-Povoação

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO


CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS


LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO CORGO


Vila Real - Ermida/Povoação

- 20.novembro.2010 -

18.- 2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 151


Vai para cerca de dois meses que não produzimos qualquer post para este blogue.

 

Circunstâncias várias, entre as quais as férias e o excessivo calor, contribuíram para que nos dedicássemos mais à leitura que à escrita.

 

Mas não queríamos deitar este mês de agosto fora sem completarmos a reportagem sobre a nossa caminhada na Linha do Corgo.

 

Já lá vão, aproximadamente, seis anos. E, entretanto, nestes seis anos, quer nas nossas vidas, quer ao longo do trilho da linha, muita coisa se passou. A reportagem desta etapa, no que diz respeito a este último item, é bem ilustrativa.

 

A nossa anterior etapa foi realizada entre Samardã e Vila Real, em 7 de novembro de 2010.

 

Esta é a sexta etapa, realizada em 20 de novembro de 2010, entre Vila Real e Ermida/Povoação.

 

Para além dos quatro caminhantes das últimas etapas - nós, o Rui, o Toquim e a Ana - nestas duas últimas veio-se juntar a nós um amigo de outras caminhadas noutras paragens, transmontano de cepa, mas vivendo para a zona dos «mouros», em Alcochete - o amigo Neca.

 

Para completarmos exatamente os 25.069 Km que nos faltavam, entre Vila Real e a Régua, decidimos percorrê-los em dois dias seguidos, num sábado e num domingo.

 

A logística assentou em levarmos de Chaves um atrelado tenda e colocá-lo ao lado da Estação da Povoação, onde realizaríamos ali o nosso jantar e dormiríamos.

 

Assim, na manhã do dia 20 de novembro de 2010, o Jeep Land Rover do Rui levou o atrelado tenda, montámo-lo e, no nosso carro, viemos, ao princípio da tarde, até à Estação de Vila Real para darmos início à etapa. Nosso cunhado Augusto, de Loureiro, Régua, trouxe o irmão Neca para se juntar a nós.

 

Ao princípio da tarde, começámos a caminhada. Ameaçava chuva. No início ainda caíram umas pinguinhas. Mas foi somente de molha tolos.

 

À saída de Vila Real, o arco-íris que aqui vemos

01.- 2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 001(21).j

demostra o estado do tempo que se fazia húmido e chuvoso.

 

Contudo, com o decorrer do tempo, e apesar do receio da chuva, o tempo compôs-se, apresentando-se um tempo relativamente soalheiro.

 

Percorridos menos de dois quilómetros, depressa o grupo se partiu: Rui e Neca eram a locomotiva, indo à frente, em amena cavaqueira; Ana e Toquim, um pouco mais atrasados, iam animados e, aqui e ali, apreciando a paisagem e tirando fotografias, enquanto, lentamente, a paisagem se ia transformando no verdadeiro Douro Vinhateiro. Nós, ainda mais devagar, íamos mais recuado, filmando e tirando fotos.

 

Até que, a certa altura, cremos que antes de entrarmos nos limites de Folhadela, demos com este Marco de Feitoria,

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com data de 1761, completamente abandonado no meio de um silvado. Este marco fez parte dos 134 colocados naquele ano, e que corresponde a uma alargamento da delimitação anterior feita poucos anos antes a mando do Marquês de Pombal.

 

Desta feita, neste local, em boa verdade, e para sul do termo de Vila Real, nas proximidades de Folhadela, começa o nosso Douro Vinhateiro.

 

Também nos limites de Folhadela, eis as obras de construção para o grande viaduto sobre o rio Corgo da A4

03.- 2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 001(56).j

e que hoje podemos observar com toda a sua elegância e beleza.

 

A partir daqui, penetrámos no vale profundo do Corgo,

04.- 2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 029.jpg

onde a vinha, a oliveira

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e o sobreiro (Quercus suber)

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são uma presença constante nesta paisagem, e onde as povoações, de corres albas, nos aparecem ao longe.

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(Cenário I)

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(Cenário II)

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(Cenário III)

O rio Corgo, ziguezagueando, traça a bonita orografia do terreno.

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Até que chegámos ao Cruzeiro. Olhando para o céu azul, quase coberto de nuvens, vemos a silhueta do viaduto sobre a IP3 (A24), na linha do horizonte, assente num calvário de socalcos.

11.- 2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 133.jpg

Um pouco antes do apeadeiro de Carrazedo,

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começa o pequeno vale da Ermida e da Povoação.

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Nas proximidades de Carrazedo, entre o PK 16 e o PK 15,9, aqui

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e ali

15.- 2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 158.jpg

aparecem-nos solares envelhecidos pelo tempo e pelo abandono, lembrando-nos que por ali já se passaram melhores dias para uns, mas que, para outros, foram de sofrimento e escravidão, a que o cuidado constante da vinha (e do debelar das suas moléstias) os sujeitavam.

 

Por estas paragens não se vê outra coisa senão socalcos de vinhedos, entremeados por oliveiras.

16.-2010 - Linha_Corgo-Vila Real-Ermida 167.jpg

Depois de percorrermos 13.627 Km, chegámos à povoação de Povoação e junto da sua antiga Estação.

 

O Rui, cozinheiro de serviço, preparou-nos uma saborosa massa de vitela, bem regada com molho de tomate.

 

Convidámos para comensal o nosso cunhado Augusto.

 

A certa altura, aparece-nos no atrelado tenda o amigo Borges, familiar do famoso Dr. Borges, nosso professor de hebraico, no Seminário de Vila Real, que nos providenciou o local para nos alojarmos.

 

Regámo-nos bem com um bom Vinho Fino, a ponto de, quando os nossos convidados partiram, já bem atestados, e o nosso amigo Neca também, com o irmão, a «festa» na tenda durou pouco tempo. Positivamente já estava tudo «pedrado».

 

Levantámo-nos com a cabeça pesada, mas cheios de genica para desmontarmos o atrelado tenda

17.- 2010 - Linha_Corgo-Povoação-Régua 041.jpg

e ansiosos por dar início à última etapa desta nossa caminhada pela Linha do Corgo.


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Domingo, 12 de Junho de 2016

Reino Maravilhoso - Alto Tâmega e Barrroso - Da água (termal) ao vinho - Quinta do Calvário (Vilarinho de Paranheiras)

 

REINO MARAVILHOSO - ALTO TÂMEGA E BARROSO

 

DA ÁGUA (TERMAL) AO VINHO

 

- QUINTA DO CALVÁRIO -
(Vilarinho das Paranheiras)

02.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (2)

Enquanto, no dia 10 passado, andávamos pelo Trás-os-Montes profundo, o Barroso, inaugurava-se em Vidago o «Balneário Pedagógico de Investigação e Desenvolvimento de Práticas Termais de Vidago».

 

Se a estratégia integrada de desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso) aposta num recurso endógeno - a água, e concretamente no Município de Chaves, a água termal - como recurso fundamental para o seu desenvolvimento, naturalmente que teremos de aplaudir esta iniciativa e este investimento que agora se materializou.

 

Temos já fundadas dúvidas quanto ao facto deste investimento, só por si, seja gerador do emprego de que tanto se apregoa.

 

Falámos nos nossos «discursos», na rubrica «Discursos sobre a cidade», no blogue «CHAVES», a propósito da Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega, documento mandado elaborar pela CIM - AT (Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega).

 

Mostrámos as nossas apreensões quanto ao tão apregoado desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso), plasmado naquele documento, e quanto à eficácia da sua implementação no que concerne ao envolvimento dos atores (todos) locais/regionais.

 

Há uma outra vertente que não foi suficientemente abordada e que urge ser referida. Trata-se da palavra “integrado” aposta naquele documento - Estratégia integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega. Quando se fala em integrado quere-se dizer que tudo se faça tem a ver e está em relação, quer a montante, quer a jusante, com um determinado projeto, ação ou atividade que se considera, em princípio, fundamental (ou estruturante). Ou seja, e para sermos práticos, um balneário como aquele que se acaba de ser inaugurado em Vidago pressupõe que, ao mesmo tempo que é implementado e realizado, um outro conjunto de iniciativas e ações que, simultaneamente, devem ser levadas a cabo para que a sua eficácia seja plena (ou tenda para a sua plenitude).

 

Por isso, pergunta-se: o que foi feito, tendo em conta o que se prescreve, a páginas 83, quando se afirma, no documento Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega, quanto à “preocupação com a necessidade de funcionamento de todos os atores em articulação, interagindo num contexto de rede que ultrapasse uma lógica mais individualista e favoreça uma abordagem holística e integrada capaz de gerar benefícios para todos as partes”?

 

Se olharmos para o entorno do Balneário Pedagógico de Vidago o que vemos é, sob o ponto de vista paisagístico, uma preocupante desolação! Onde se vê o tão apregoado empreendorismo, iniciativa individual e criatividade dos particulares na reativação das suas velhas pensões, residenciais e hotéis, capazes de atrair clientela, novos clientes, para Vidago? Onde estão as infraestruturas de animação termal e turística para o local, face aos novos perfis de aquistas? Que estratégia de comunicação se usou para que os vidaguenses sintam esta obra como sua e se mobilizem, todos, revisitando a sua prestigiada história termal, e, qual Fénix renascida, contribuam para criar uma nova idade de ouro em Vidago, com desenvolvimento, emprego, qualidade de vida e justiça social?

 

Ouvimos dizer em Minas da Borralha - a quem viu a reportagem da inauguração -, por onde passámos, naquele dia 10 de junho passado, que o Presidente da edilidade flaviense depois de falar da água (termal) passou para o vinho. E elogiou a iniciativas de alguns empresários vitivinícolas da parte sul do concelho pelo seu empreendorismo e capacidade exportadora dos seus produtos. Obviamente, ficou-lhe bem aquelas palavras de apreço.

 

Mas não podemos ficar indiferentes e calados quanto ao que vemos, naquele mesmo território, em termos de gestão, ordenamento do território e preservação e valorização do nosso património agrícola.

 

Se o desenvolvimento deve ser integrado, onde pára a magistratura de influência dos nossos políticos locais, a mobilização doa atores em rede para incentivar e dinamizar a iniciativa privada na valorização do território e de um rico património, quer agrícola, quer urbano, que está a ficar em ruínas?

 

De um arquiteto paisagista exige-se a sensibilidade para entender que não é apenas uma obra termal ou uma vinha bem tratada, e de qualidade, que, depois, fala pelo todo. Positivamente, tudo tem de ser visto numa perspetiva holística!

 

Vejamos o que, de Chaves, descendo para Vidago, em Vilarinho das Paranheiras, um dia, nossos olhos foram encontrar:

01.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (1).


Parámos o carro e atrevemo-nos a ir ao local.

16.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (22)

Pensávamos ser uma casa, mais uma entre muitas outras, que deveria ter alguns “pergaminhos”, os seus tempos áureos e, agora, possivelmente, expectante no mercado imobiliário. Tudo à sua volta está inculto e ao abandono. Não sabemos quem seja o seu proprietário (ou proprietários). Mas, pelo estado total de abandono, já não lhes preocupa o imóvel. Provavelmente apenas o local, naquele que outrora foi uma rica propriedade agrícola (vinha) e agora, espartilhada pela EN nº 2 e pela A24.

 

Nossa curiosidade foi tanta que não resistimos entrar. Aliás, as suas portas estão completamente abertas de par em par...

 

E ficámos de boca aberta quando, a nível do rés-do-chão, damos com isto:

03.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (3).

 Quatro grandes lagares feitos em boa pedra trabalhada de granito. E tudo ao completo abandono!

 

Demos a volta à casa. Sua arquitetura do século passado não seria para preservar?

04.- 016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (13)

 Do lado oposto, e ainda a nível do rés-do-chão, mais espantados ficámos quando vimos isto:

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 Reparámos numa porta,

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 e entrámos para uma outra dependência. O espetáculo ainda era mais desanimador!

07.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (8)

 E, intimamente, interrogávamo-nos: como isto é possível?

 

De patamar em patamar, nossa curiosidade ia aumentado. Subimos as escadas rumo ao 1º andar.

 

Do terraço maior da casa, eis a paisagem que se vislumbra:

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 E, noutro ângulo, do mesmo:

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 De resto, tudo quanto à volta da casa se vê e dentro dela é só abandono, ruínas e desolação.

10.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (14)

 Vejamos apenas um "quadro" - até dos menos deprimentes - da mesma e digam se não é uma “dor de alma”!...

11.- 2016 - Quinta do Calvário (Paranheiras) (18)

 E, mais uma vez nos interrogávamos: como isto é possível?

 

Contudo, no meio deste total abandono, eis esta janela, mostrando o seu entorno. Será que funcionará como uma “janela de oportunidades” para este espetáculo tão deprimente?

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 Saímos do interior da casa e regressámos ao exterior.

 

Nossos olhos dirigiram-se para este canto de um terraço.

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 Vejamos, agora, o pormenor do telhado.

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 Tristes, saímos deste local fantasma, que já teve o seu período de esplendor, olhando, uma vez mais para o vulto que deixávamos para trás.

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 E, por uma terceira e última vez, nos interrogávamos: como isto é possível?

 

No mundo do futebol há “olheiros” para, observando, detetarem as novas promessas, capazes de dar glórias, muitas alegrias aos adeptos e dinheiro para os clubes.

 

Os nossos (pseudo) neoliberais, que governam os destinos desta nossa terra, não têm “olheiros” para verem isto e irem à procura de quem se interesse por este património, incentivando os privados na rentabilização deste “valor”?

 

Afinal de contas onde anda a "magistratura de influência", a inovação e o empreendorismo dos políticos de turno da praça que nos governa? Elegemo-los para promoverem o desenvolvimento do nosso território, quer público, quer privado, ou apenas para “governarem”, a seu bel-prazer, com os impostos de todos nós, apenas fazendo obras, que, no final, não passam de fachada?

 

Falamos hoje muito do bom vinho que no sul do concelho se produz. O do que ficou do vinho que se produziu nesta Quinta do Calvário, em Paranheiras?

Livro da Quinta

 É desta forma que promovemos uma estratégia integrada de desenvolvimento para o concelho e para a região?

 

Passo agora a palavra ao leiotr (a)...


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Sábado, 11 de Junho de 2016

Palavras soltas... No Barroso, no Dia de Portugal

 

PALAVRAS SOLTAS...

 


NO BARROSO, NO DIA DE PORTUGAL

 


Ontem, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, saí do Portugal “real” que todos os dias nos entra pela casa dentro pelos media e fui, com três amigos, fazer uma “imersão” no Portugal profundo para o qual, todos os dias, é dia de Portugal, que é o mesmo que dizer, de labuta, de trabalho, de canseira e do constante cuidar da vida.

 

Um pedaço de Portugal profundo e esquecido, que, infelizmente, há muito por esse Portugal fora. Mas o Barroso, de uma forma muito particular.

 

No périplo que ontem fizemos pelas aldeias de Salto, em alguns lugares, os seus habitantes, chamam-lhes terras esquecidas; outros, desterradas e, ainda outros, de condenadas.

 

O nosso poeta maior Torga chamou-lhe de Reino Maravilhoso. Porventura teria razão. Mas ontem fiquei com outra impressão: na essência, o reino das pessoas simples, solidárias e acolhedoras, ele aí ainda está. Feito quase só de velhos e de raros “renovos”. E, salvo um ou outro “oásis”, que alguns mais resistentes ou saudosos da sua infância pobre, mas feliz ali vivida, tentam preservar e edificar, tudo o resto é ruína e abandono...

 

Fez-me bem ir ontem até ao sopé da serra da Cabreira.

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Quando chegámos a Paredes, José, com o seu filho Pedro, estavam a deitar as vacas para o monte.

 

Pobre das coitadas! De tão pouco estarem habituadas à presença de outros humanos, assustaram-se e, estacando, não queriam andar.

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O petiz Pedro avança. E daí começa:


- Anda Cabana!...


E a Cabana lá veio.

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Mas, ao aproximar-se de nós, dá uma corrida pelo pedrado da calçada abaixo.

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As outras não queriam vir.

 

E outra vez o Pedrito,

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com uma paciência e experiência adquirida na convivência com este mundo, que ele já tão bem domina, recomeça:

 

- Anda Formosa... Pinta... Bonita... Concha... Vermelha... Morada... Nogueira... Minhota.... vamos!... E o rol de nomes não parou até à trintena!

 

A certa altura, oiço-lhe um nome masculino:


- E tu, Gancho, anda!

 

E o Gancho lá foi para a coorte, sabendo que hoje não ia passar a noite no monte com as suas “meninas”.

 

No final, aparece o pai José.

 

Começámos a meter conversa com ele, falando da sua aldeia quase deserta; da sua vida; dos seus petizes.

 

Enquanto meus camaradas iam ouvindo-lhe as suas histórias, eu “espalhei-me” pela aldeia, tentando captar esta dura e desértica realidade.

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A certa altura, um meu amigo, dirigindo-se ao senhor José, com os olhos postos na serra da Cabreira em frente, afirma:

 

- Isto aqui é praticamente Cabeceiras, Minho.

 

Palavra que dissesse! De pronto, e com um orgulho emocionado, José riposta-lhe:

 

- Não senhor, isto aqui é Barroso!

 

Sorrateiramente, a mãe e avó Maria Rosa, aproxima-se do grupo para se inteirar do que se passava.

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Sabendo que a sua “cria” estava entre gente amiga, encostada à parede das ruínas de uma casa de habitação, olhava embevecida para o grupo, em amena cavaqueira, num quase final de tarde.

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Da vida da mãe e avó Maria Rosa, e de seu marido, vivida grande parte nas Minas da Borralha, viemos a saber mais tarde, quando chegados às Minas.

 

Sem darmos por ela, aparece-nos um prato com presunto e pão; copos e um garrafão de vinho.

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Era para nós. Tínhamos de comer. E, embora satisfeitos com a “janta” em Salto, ainda encontrámos um lugarzinho no estômago para agradar a tão amável gente.

 

No final, em terras profundas do Barroso, brindámos ao Barroso, à amizade e a Portugal.

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(Pedro com o meu copo, brindando)

Eram horas de partir. O programa do nosso périplo pelas aldeias ou lugares da freguesia de Salto estava quase feito. Faltava Minas da Borralha e mais duas aldeias, mais à frente.

 

E lá fomos.

 

Para trás ficaram estes olhos, lembrando-me a minha infância passada no “meuDouro.

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Não entrei a fundo na discussão dos meus amigos quando uns, achando-se verdadeiros barrosões e/ou transmontanos, me chamaram simplesmente duriense, esquecendo-se dos 50 anos de vida passada em terras mais a norte do Alto Douro!

 

Onde está a verdadeira “gema” transmontana ou barrosã destes inveterados citadinos que, de vez em quando, a modos de matar (supostas) saudades, trazem para casa algumas centenas de fotos de um “mundo” no qual - se, porventura, num pequeno instante das suas vidas ali viveram -, há muito que já lhes passa ao lado?

 

Pela minha parte não pretendo exibir qualquer “fidalguia” que me superiorize aos demais.

 

Se nasci no Douro - do qual muito me orgulho -, meu desiderato é, tão só, nas respetivas diferenças, encontrar não aquilo que nos separa, outrossim, aquilo que nos faz verdadeiramente portugueses.

 

Ontem, no Barroso, como noutra altura qualquer, e noutro sítio deste nosso pequeno e rico recanto português, ou da diáspora, em fui “respirar” uma pura e dura realidade que é ser português, borrifando-me em quem é mais autêntico e genuíno, ou quem melhor retrata Trás-os-Montes, e particularmente Barroso, se Torga ou Bento da Cruz, ou outro transmontano e alto duriense qualquer!

 

Mais do que o berço, o que mais me interessa é a alma, com as suas diferentes matizes, no seu verdadeiro e genuíno sentir, cantar e descrever, cada um a seu jeito, as nossas terras e as suas gentes... independentemente do que cada um, individualmente, seja!...

Nona

 

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Quinta-feira, 9 de Junho de 2016

Memórias de um andarilho - Caminhada na Linha do Corgo - Samardã -Vila Real

 

 

MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO

 

CAMINHADAS NAS VIAS FÉRREAS ABANDONADAS

 

01.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

LINHA (DE CAMINHO DE FERRO) DO CORGO


(Samardã - Vila Real)

- 7.novembro. 2010 -

02.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

(Em Vilarinho da Samardã)

 

Se Camilo o diz, porque o havíamos de negar?

 

Lá que ele teve uma vida conturbada, isso é verdade. E que o campo, o mundo rural, com todo o seu ambiente natural e humano, torna-se, por vezes, para aqueles que vivem uma vida agitada nas cidades, um elemento de paz e tranquilidade, um lenitivo para a alma, estamos de acordo. Tanto mais quando dito por um escritor considerado um dos expoentes máximos da literatura romântica portuguesa.

 

03.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Só que, nos tempos que correm, quem liga e cuida deste mundo quase em extinção, onde tudo quanto foi construído pelo homem, e considerando progresso, está a ser “comido”, não só pela vegetação “selvagem”, como pelo abandono, sendo “pasto” para destruição e desolação a que a falta do cuidar o transforma?

04.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Pagámos, como país - que é, como dizer, todos nós, passados e presentes -, uma fortuna de dinheiro na compra e expropriação de terrenos para os diferentes trajetos das linhas férreas; instalações e equipamentos que, salvo melhor opinião, quase um século levámos a saldá-los!

05.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Entretanto, novos hábitos de viajar aparecem, cedendo o ferro lugar ao betão e ao asfalto.

06.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-
(Viaduto sobre o rio Felgueiras)

 

E perguntámo-nos: o que fizemos aquilo que é de todos nós e nos custou tão caro? Soubemos-lhe dar outros destinos e outras valências, compatíveis com as novas necessidades dos tempos que correm?

 

Quanto ao trajeto desta linha, apenas o Município de Vila Pouca de Aguiar teve a “coragem” de o transformar numa ciclovia. Segundo supomos, havia um compromisso dos Municípios de Chaves e Vila Real para também fazerem o mesmo. Como relatámos e mostrámos no post anterior quanto da rubrica «Memórias de um Andarilho», na etapa que fizemos entre Vila Pouca de Aguiar e (Vilarinho de) Samardã, não foi isso que aconteceu. Quais as razões? Se os responsáveis que superintendem diretamente sobre este território não gostam de ciclovias, não há outros destinos para estes “canais” que, no século XIX, foram abertos e que fazem parte não só do nosso património mas também da nossa história comum como povo e como região?

 

Aquilo que aqui se mostra,

07.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 
não se trata, manifestamente, de uma negligência criminosa, deixando que este património, repete-se, pago por todos nós, se delapide?

08.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 
Será que paisagens como esta é uma vergonha de ser mostrada?

09.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Há que abrir “novos caminhos” para estas infraestruturas em ruínas, portadoras de futuro - e que no passado tiveram sentido -, para estas terras e para outras gentes.

 

Transitáveis não apenas por um solitário caçador, com os bolsos repletos de cartuchos cheios e o cinturão cheio de nada,

11.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

mas por gente nova, amante do seu terrunho e que, dele, goste e tenha prazer em “colher frutos”.

12.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

Gente ciosa das suas aldeias e do seu património, quer natural, quer cultural. Da natureza, com as suas serras emblemáticas, entre elas, a Padrela, o Alvão e o Marão; da cultura, desde os usos, costumes e tradições das suas gentes, já infelizmente pouca, que habitam as nossas aldeias, e das construções que, ao longo dos séculos, ergueram.

13.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 


Até aqui,

14.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

 
atrás do grupo dos nossos três companheiros de jornada, em outra coisa não pensávamos senão nesta triste realidade. Um solilóquio connosco próprio, para não tirar a alegria a quem ia à nossa frente, entretendo-se contando histórias das suas vidas, passadas já muito longe destas paragens do nosso Reino Maravilhoso, cantado pelo nosso poeta maior, Torga.

 

Depois de Abambres, olhámos para o novo casario da cidade de Vila Real, ora numa perspetiva, num troço,

15.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


ora noutra, e noutro troço, sempre com o Marão de guardião.

16.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-

Ao fundo, e noutro troço - entre o campo outonal e o novo casario da expansão urbana da vila -, paira uma outra serra protetora - o Alvão -, em que, nos seus cumes, outros deuses a habitam, os das ditas energias renováveis (ou limpas...), marcando, indelevelmente, a sua presença na paisagem, “marcando-a”, definitivamente.

17.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Até que, aproximando-nos, cada vez mais, da estação de Vila Real, começámos a ver os carris da Linha do Corgo,

18.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


em que já não se distingue o que é público e o que é privado.

19.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Atravessando uma zona francamente urbana, em que a cobiça ou a avidez alheia ainda não teve coragem de arrancar os carris do troço da Linha,

20.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


chegámos, finalmente, à Estação de Vila Real.

21.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Esta imagem,

22.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


bem como esta,

23.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


são memórias que ainda aqui estão. Até quando?...

 

E este edifício da Estação, pelos seus dizeres (logotipo), ainda pertence à REFER, empresa que “explora” a defunta Linha. Para que vai servir, uma vez que o trajeto entre Vila Real e Régua também lhe foi passado o atestado de óbito?

24.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Fomos para o Largo da Estação, onde a nossa Ni nos esperava para nos levar de volta a Chaves.

25.- 2010 - 2010 -3.- Caminhada Linha CP Samardã-


Percorremos, neste dia - 7 de novembro de 2010 -, entre (Vilarinho de) Samardã e Vila Real, 13 814 metros.

Caminhada Linha CP Samardã-Vila Real  (Wikipédia

 

Ficou combinado que o troço entre Via Real-Povoação e Povoação-Régua seria efetuado nos dias 20 e 21 de novembro de 2010, e com outra logística.


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Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Caminho de São Salvador - Cabanillas-La Robla

 

 

DE LA PULCHRA LEONINA A LA SANCTA OVETENSIS

 

CAMINHO DE SÃO SALVADOR

 

01.- la--conrobla_472671.jpg

 

2ª etapa:- Cabanillas-La Robla
(29.abril.2016)


O Caminho desde Cabanillas até La Seca decorre, mais ou menos, em meia encosta, num sobe e desce constante, embora não muito acentuado, como foi o troço da 1ª etapa, depois da aldeia fantasma de Villabura.

02.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


A vegetação continua a seu marcada pelo seu caráter mediterrâneo, em que o carvalho, mas mais agora a azinheira, que aqui tem o seu terreno de eleição.

 

Nas proximidades de La Seca, situada do outro lado do rio Bernesga, o nosso sempre presente companheiro, à esquerda, chega-se junto de nós, por entre azinheiras, terreno cascalhento, cor de barro.

03.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Como La Seca fica na outra margem, fora do traçado do nosso Caminho, estávamos para ir em frente. Mas, ao aproximarmo-nos da povoação, e da ponte que liga La Seca da nossa margem, Florens vê um reclame a chamar-lhe a atenção para o «Bar Marisa». Como vinha com os ouvidos cheios, de seu amigo Filipe, que uma tal Marisa do Caminho era uma senhora simpática e extraordinária, “botou” pé sobre a ponte com a intenção de ir ao bar tomar um café e “avaliar” da simpatia da dita cuja.

 

Florens atravessa a povoação com casas iguais a tantas outras que acabávamos por passar, feitas de seixos, adobe e tijolos (burros) vermelhos, e dirige-se, quase instintivamente, ao «Bar Marisa».

04.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Azar do Florens! Por estes pequenos povoados, quando têm algum pequeno bar, 8 horas da manhã, para esta gente, ainda é de madrugada.

05.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-

 
Voltando atrás, perninhas a bulir sobre a ponte,

06.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


e toca a “encarreirar” pelo Caminho, ao lado do nosso Bernesga.

07.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Afastado um pouco o Caminho da margem do Bernesga, em ligeira subida, continuam as azinheiras, fazendo-nos companhia.

08.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


E, como na etapa de ontem, num ou noutro tronco de árvore já envelhecida ou comida pelo fogo, aparecem-nos imagens como esta - S. José e Nossa Senhora com o Salvador ao colo.

09.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Até que, cerca das 9 horas e 15 minutos, chegámos a Cascantes, atravessando a sua principal rua, que dá pelo nome de “Calle Real”.

10.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Depois de Cascantes, deixamos o município de Cuadros, banhado pelo Bernesga, repleto de hortas e de amieiros, principalmente do seu lado direito, e, do lado esquerdo, pelo caminho que trilhávamos, com carvalhos e azinheiras, fornecendo lenha, carvão e madeira Às populações da zona.

 

Cascantes apresenta um casario tradicional, igual ao que já havíamos visto em Cabanillas e La Seca, embora possuindo um outro “porte”, outra envergadura. Mas os materiais de construção são praticamente os mesmos, que os municípios da zona pretendem preservar.

11.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Quase no final da “Calle Real”, a Igreja de S. Pedro, no Largo com o mesmo nome, do século XVI, embora com várias reformas e restauros,

12.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-

 
como se pode ver, nomeadamente no seu campanário.

12a.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas

Cascantes é também uma terra com tradições jacobeias. Existem documentos (ano 918) que atestam que aqui existiu uma igreja dedicada a São Félix e Santa Maria, bem assim existiu um hospital de peregrinos, dedicado a Santa Luzia. Hoje já nada existe.

 

No largo contíguo à Igreja, damo-nos conta desta fonte com três bicas.

13.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Queríamos tomar um pequeno-almoço mais a geito, substancial, porquanto o que tomámos no albergue de Cabanillas não chegou para as necessidades do corpo.

 

Embora haja um bar nesta localidade, tivemos que esperar, num banco ao lado, até que soassem as dez da manhã para o bar abrir!

 

Às dez horas em ponto o bar abriu e tomámos o nosso reforço da manhã, servido pelo simpático proprietário.

14.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


No espelho de um escaparate de bebidas, um reclame/letreiro chamou a atenção do nosso companheiro Florens.

15.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Rimo-nos com o dito. A princípio pensávamos que era um dístico que, nestes lugares, chama a atenção para o cliente para conviver, falar e partilhar uns com os outros nossos vizinhos, e não nos isolarmos, estando constantemente ausentes do lugar, dedilhando sobre os novos “gadgets”, que as novas tecnologias de informação e comunicação nos propiciaram, para pessoas a quilómetros de distância, perdendo-se o sentido da construção da comunidade de vizinhos. Aliás, em cafés e bares, é suposto que o convívio aconteça.

 

Ruminávamos sobre estes pensamentos quando, olhando para o fundo do dito cartaz, esboçámos um sorriso rasgado para o proprietário...


Saindo do café, ainda rindo-nos da facécia do cartaz, perguntávamo-nos donde viria o topónimo de Cascantes. Quanto a Cabanillhas, sabíamos que tinha a ver com pequenas cabanas, possivelmente de pastores. Cascantes não nos sugeria nada. Até que, lendo um dos Guias, nos adianta uma certa explicação, dizendo que o topónimo é um termo incerto, mas que, muito provavelmente, tem a ver com a expressão latina quasicare, relacionada com a pedra ou o golpear e trabalhar a pedra. É de referir que, pela “Calle Real” da povoação, passava uma calçada romana...

 

Em Cascantes, o troço mais rural e aprazível desta nossa etapa, decorrendo a meia encosta, ora num meio rural, entre bosques, ora na margem do Bernesga, por entre amieiros e choupos e hortas, acabou-se.

 

Daqui até ao município de La Robla, começa o reino do asfalto.

16.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Aqui, timidamente, um pequeno bosque de amieiros, acompanhando-nos, despede-se definitivamente de nós.

17.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Até que, a certa altura, andando pelo duro asfalto, envolta em ligeira neblina, ao longe, aparece-nos as chaminés da Central Térmica de La Robla.

18.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Continuando sempre no asfalto, com aquelas enormes torres de frente como atalaias dos tempos modernos, a determinada altura, saindo da estrada, embrenhámo-nos por um caminho delimitado por uma enorme sebe que divide o Caminho dos terenos da Central Térmica.

 

E, a dado passo, aparece-nos esta ermida,

19.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


aperreada entre a Estrada Nacional, o Caminho de Ferro e a imponente mole, que é a Central Térmica de La Robla.

20.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Esta ermida, de Nossa Senhora da Celada, passa quase desapercebida nesta absorvente e avassaladora paisagem. Data, possivelmente, do século XIV, embora tenha acrescentos do século XVII e XVIII. Possui na sua frontaria os escudos da família Quiñones.

 

No século XIII, já se fazia referência em documentos à existência de uma aldeia chamada Celada. E julga-se ter havido nas imediações da ermida um hospital, porquanto o terreno, pouco, que hoje existe à sua volta, [por onde passámos e aí parámos para descansar um bocadinho, percorrido a esta hora da manhã (12 horas e 30 minutos) por estes três peregrinos, que vinham “cavalgando“ quilómetros desde Leão], se chama Campo do Hospital.

21.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Segundo um dos nossos Guias, a tradição popular, e algumas lendas, relacionam o nome desta ermida com a época da Reconquista, aquando das refregas constantes entre mouros e cristãos por estes vales. Numa delas, e estando os muçulmanos, da Andaluzia, em franca vantagem, os cristãos rogaram à Virgem Maria para, por sua intercessão, os ajudassem na batalha. Conseguindo a vitória, os cristãos “selaram” o seu pacto, em agradecimento, erguendo esta Igreja, aliás como noutros pontos da Espanha reconquistada o fizeram sob a advocação mariana.

 

Mas outra lenda refere que a possível origem do nome de Celada tem a ver com uma “cilada”, emboscada que os cristãos planearam e executaram contra os infiéis muçulmanos neste local, que os conduziu à vitória.

 

Finalmente, uma outra terceira versão quanto ao nome, tem a ver com o bosque muito “cerrado” de carvalhos que por aqui havia e que “celaba” ou impedia uma ampla visão a quem se aventurava por estes agrestes territórios situados a norte de Leão.

 

Qual das três versões é verdadeira? Quem sabe? Talvez ainda apareça ima outra!...

 

Embora a porta da ermida estivesse fechada e não pudéssemos entrar lá dentro, não poderíamos deixar de referir, não só o seu lindo retábulo, mas, fundamentalmente, a imagem de Nossa Senhora das Neves, padroeira de La Robla. É em estilo românico, policromada, e que todos reconhecem como Nossa Senhora de Celada.

20a.- Virgen_de_Celada.jpg


Conforme imagem acima reproduzida, a Senhora aparece sentada num trono e sustém, no seu joelho esquerdo, o Menino.

 

Saindo do recinto da ermida, atravessando um portão trabalhado com motivos jacobeus, e possuindo uma “mão de peregrino” numa das suas portadas, à esquerda, com um poema, entrámos em La Robla.

 

Para acedermos à sua rua principal. “Calle Ramón y Cajal”, quase no fim da qual se encontra o albergue de peregrinos, temos de passar sobre um viaduto

22.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


para ultrapassarmos três canais de vias de comunicação - rodoviários e ferroviários.

23.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Na descida do viaduto, para nos dirigirmos à “Calle Ramón y Cajal”, esta «Espiga de Ouro», de Jorge M. Aller Toscano, das Oficinas da Escola Profissional Virgem do Bom Sucesso, de La Robla.

24.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Na longa travessia da “Calle Ramón y Cajal”, fomos observando o seu casario típico,

27.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


os seus recantos,

25.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


bem assim os seus edifícios mais emblemáticos, como a Casa da Cultura,

26.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


o Ayuntamiento de La Robla, com o seu largo em frente (Praça da Constituição), em dia de mercado (feira),

28.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


e, já lá mais para o fim, as habitações coletivas em tijolo (burro) vermelho e um antigo depósito de água.

29.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Virando à esquerda, como dissemos, já quase no fim da “Calle Ramón y Cajal”, aparece-nos este simples edifício, onde, por um dia, iriamos descansar e pernoitar - o recente albergue de peregrinos de La Robla, mesmo ao lado do pequeno Parque «La Huverga».

30.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-

Não andámos hoje mais de 11 quilómetros. Foi uma autêntica etapa passeio. De manhã, com algum nevoeiro alto; mais para o meio-dia, começou o céu a limpar e o sol a raiar, embora com uma ou outra nuvem ameaçadora.


Chegados ao albergue, telefonámos para o telemóvel do albergueiro, que estava afixado na porta do albergue, e, em menos de meia hora, o funcionário do município de La Robla, apareceu.

 

Paga a estadia, selada a Credencial, conhecidos os cantos da pequena casa e recebidas as instruções de uso da habitação, perguntámos onde se poderia comer em La Robla. O amável funcionário aconselhou-nos dois restaurantes - La Bogadera e o Olimpia.

 

Depois de nos acomodarmos e tomarmos banho, descansámos um pouco.

 

Saímos do albergue e, percorrendo a “Calle Ramón y Cajal”, fomos almoçar à La Bogadera, no fundo da Praça da Constituição, com o edifício do Ayuntamiento em frente, em pleno terreiro da feira.

 

Entrámos em La Bogadera

31.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


e encostámo-nos ao balcão para beber um copo (nós, uma cerveja, sem álcool) e umas tapas.

32.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Entretanto, um “crónico” destes lugares, mete conversa connosco, sabendo-nos portugueses.

33.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Florens ficou admirado pelos conhecimentos que este simples “paisano” tinha da nossa história e dos nossos escritores, ao ponto de se comentar que “quem dera que a grande maioria dos nossos portugueses soubesse tanto da sua pátria como este comum leonês”!


Subindo depois ao primeiro andar do restaurante, fomos almoçar. Comemos bem, é certo, mas quantas saudades nós já tínhamos da nossas sopinhas e do nosso comer! Enfim...

 

Demos ainda uma pequena voltinha pela feira e depois dirigimo-nos para o albergue, voltando a percorrer a “Calle Ramón y Cajal”.

 

Entretanto chegam ao albergue mais duas peregrinas - duas irmãs, espanholas.

 

Só foi sob o efeito de um bonito sol, nas proximidades da montanha, e neste sossego do Parque "La Huverga”, sentados na primeira mesa que a imagem a seguir mostra que, durante mais de hora e meia, começámos a escrever o nosso “Diário” do Caminho de São Salvador, desde que saímos de Chaves e até aqui, La Robla.

34.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Já bem tarde, chega mais um outro peregrino - o alemão, Martin, de Bremen.

 

Saímos por volta das 17 horas e 30 minutos para o centro de La Robla.

 

Lanchámos numa pastelaria e fomos dar uma volta, fazendo umas pequeninas compritas e esperando pela hora do jantar (“cena”).

 

A páginas tantas, abate-se sobre uma forte trovoada.

 

Recolhemo-nos, era tanta a chuva, num recanto de um edifício bancário, na Praça da Constituição,

36.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


mesmo pertinho do edifício do Ayuntamiento de La Robla.

37.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


Aliviado o tempo, saímos do nosso refúgio para continuarmos o nosso périplo por La Robla.

 

La Robla é uma localidade muito mais recente que algumas das suas povoações vizinhas localizadas nos vales de Alba e Fenar. Adstrita ao histórico território e Alba, não conserva nenhum documento que a acredite como uma povoação medieval. Só na Idade Moderna é que aparece mencionada como uma povoação pertencente a Alcedo de Alba, vinculação que se manteve até à entrada do século XIX.

 

A origem da sua toponímia não é muito consensual.

 

Para uns autores, La Robla vem do facto de, nestas paragens, haver uma imensa quantidade de bosques de “robles” (carvalhos), dizimados pelas recentes intervenções relacionadas com as infraestruturas mineiras e consequente indústria; outros autores referem que o nome da localidade vem de uma prática ancestral, muito ligada Às tradições pastorícias da montanha leonesa, mais concretamente, aos contratos que celebravam os agricultores nas feiras e mercados. Não precisavam de contratos escritos. A simples palavra valia mais que qualquer documento. E “assinavam” seus contratos com um simples aperto de mão (“La conrobla”).

35.- la--conrobla_472666.jpg


La Robla, parece-nos, quis manter no seu historial atual estas duas versões, quanto às suas origens, nos seus espaços públicos e arranjos urbanísticos: por um lado, “embelezando" La Robla com esta escultura, simbolizando a “La conrobla”, sita no Parque del Labrador; por outro, assumindo-se território mineiro e industrial, “postando”, numa das suas saídas, esta «Maquinaria Industrial (vagón perfordor, Atlas Copco, modelo ROOC, 1969) - Cemento Tudela Veguín",

38.- 2016 - Caminho de São Salvador - Cabanillas-


assumindo estas duas atividades como um valor histórico e cultural do município.

 

Depois de “cenados” no Restaurante Olimpia, regressámos ao albergue já noite.

 

Ao outro dia era a etapa que nos levaria a aproximarmo-nos da alta montanha central da Cordilheira Cantábrica.


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